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Para chamar a atenção, Bolsonaro pendurou uma "pirralha" no pescoço

Leonardo Sakamoto

11/12/2019 11h13

A ativista sueca Greta Thunberg foi escolhida a Personalidade do Ano pela revista Time por sua luta contra as mudanças climáticas nesta quarta (12). No dia anterior, Jair Bolsonaro, que tem sido apontado como uma ameaça ao planeta por seu apoio a quem desmata e queima a Amazônia, a chamou de "pirralha".

Ela havia criticado a morte de indígenas no Brasil, notadamente os dois caciques Guajajara assassinados no Maranhão. Ao comentar, Jair mostrou a falta que maturidade faz: reclamou do espaço que a imprensa dava a ela e aproveitou para surfar em sua popularidade, uma vez que lhe falta luz própria nesse tema. Pelo contrário, moveu o país do posto de líder no debate ambiental para o de pária global.

Debochando do presidente, a jovem de 16 anos – que tem liderado estudantes para cobrar governos por medidas concretas contra o aquecimento global – mudou sua bio no Twitter para "pirralha". Com a escolha da prestigiosa Time, Bolsonaro foi alvo de escárnio internacional, o que não tem sido exatamente uma novidade desde que assumiu o cargo em janeiro. Detalhe: ele também concorria à mesma indicação.

Após o sarcasmo de Greta viralizar, o porta-voz da Presidência da República afirmou que Bolsonaro não foi descortês ou inadequado com ela. "Pirralha é uma criança ou pessoa de pequena estatura. Do ponto de vista gramatical ele não foi descortês", afirmou.

Esse comportamento é bastante característico do presidente: fala a bobagem e, ao invés de assumir o que disse, nega e afirma que foi mal compreendido por conta de uma suposta má fé da imprensa contra ele. Ou terceiriza responsabilidades.

No caso da Amazônia, por exemplo, incentivou – através de discursos e entrevistas – que madeireiros, garimpeiros, grileiros e pecuaristas botassem abaixo e transformassem em cinzas a floresta em nome de uma concepção distorcida de desenvolvimento. Acusado disso após os índices de devastação darem um salto, culpou indígenas, cientistas, camponeses, ONGs, Leonardo DiCaprio, governadores, a imprensa, tirando seu corpo fora.

Sim, a palavra "pirralha" também aceita esse significado. Mas ele claramente escolheu um mais pejorativo ao se referir a ela.

No conto "Famigerado", presente no livro "Primeiras estórias", de Guimarães Rosa, um médico do interior recebe a visita que quatro jagunços. O líder, Damásio Silveira, pediu que ele explicasse o significado da palavra "famigerado", pois a ouviu de um membro do governo. Com medo de provocar uma guerra, o médico trouxe à tona outros significados da palavra – "célebre", "notório", "notável". Não disse que também significava "tristemente afamado", deixando o recado nas entrelinhas. O jagunço não entendeu e ficou satisfeito com o "elogio".

Consultando o Grande Dicionário Houaiss, vemos que "tosco" também significa aquele "que se apresenta tal como veio da natureza". "Incapaz" também é "aquele que é excluído de certas funções por força de lei". "Grosso" refere-se aquele "com consistência, denso". "Limitado" significa "aquele que tem limites estipulados no poder". "Tapado" é o "rio que passou a desaguar em lagoas por ter a foz obstruída naturalmente".

Se o Palácio do Planalto está dando a oportunidade de escolhermos um sentido das palavras que vai na contramão do significado aceito coletivamente, não vai se importar se chamarmos o presidente por esses termos. Talvez veja até como elogio.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto