Blog do Sakamoto

Mesmo na “lista suja” da escravidão, Cutrale recebe selo de “boas práticas”

Leonardo Sakamoto

Por Daniela Penha, especial para a Repórter Brasil 

Mesmo com o nome da empresa estampado na “lista suja” do trabalho escravo, como é conhecido o cadastro de empregadores responsabilizados pelo Ministério do Trabalho por esse crime, um grupo de fazendas da Sucocítrico Cutrale recebeu uma das certificações socioambientais mais importantes do mundo: o selo de “boas práticas” da Rainforest Alliance.

A certificação, uma das principais exigências do mercado europeu para a exportação do suco de laranja, foi concedida pela organização americana depois que o processo fora contestado por outro grupo certificador, o Imaflora, organização brasileira.

O selo é especialmente importante para a Cutrale, uma das maiores vendedoras de suco de laranja do mundo. De acordo com a empresa, 98% da sua produção é exportada para países da América do Norte, Europa e Ásia. O selo da Rainforest Alliance é mundialmente respeitado e ficou conhecido pela figura de um sapo. As campanhas incentivam o hábito de consumir produtos que têm a imagem do sapo na embalagem. Mesmo pagando mais, o consumidor saberia que está comprando um produto que preza pela proteção ambiental, igualdade social e viabilidade econômica. A campanha segue o lema do “Follow the Frog” (“siga o sapo”).

Luís Fernando Guedes Pinto, gerente de certificação agrícola do Imaflora, explica que a entrada da Cutrale na “lista suja” foi o motivo  que levou o instituto a contestar a recomendação. A lista, divulgada pelo Ministério do Trabalho, traz a relação de empresas que foram flagradas com trabalho escravo.

Depois da negativa do Imaflora, a Rainforest fez algo incomum em processos de certificação, e até então inédito na política da empresa no Brasil: autorizou a troca da empresa certificadora durante o processo da certificação. No lugar do Imaflora, entrou o IBD, que concedeu o certificado.

Donita Dooley, gerente de mídia global da Rainforest, afirmou que o órgão tem em suas normas de avaliação “um critério crítico proibindo todas as formas de trabalho forçado, obrigatório ou trabalho escravo” (leia as respostas da empresa na íntegra). Nas normas que regem o selo, porém, não há impeditivos específicos à lista suja do trabalho escravo.

Assim, desde março deste ano, a Cutrale é a única empresa que figura na lista do trabalho escravo e comercializa produtos com o selo Rainforest, segundo a organização.

Questionada, a Cutrale argumentou que as fazendas certificadas não são as mesmas que estão na lista do trabalho escravo. Em nota enviada por assessoria de imprensa, a empresa diz que recebeu a certificação “do Selo da Rainforest Alliance por haver demonstrado, perante as empresas cadastradas e capacitadas para a realização das auditorias, cumprir todos os requisitos constantes na norma vigente” (leia nota na íntegra).

Embora todas as fazendas sejam oficialmente da Cutrale, as propriedades certificadas não são as mesmas onde houve flagrante de trabalho escravo. A Cutrale integra a “lista suja” por problemas encontrados nas fazendas Vale Verde e Portal, no Triângulo Mineiro, em 2013. As fazendas certificadas ficam em Araraquara, São Paulo, sendo que a auditoria foi realizada em 2017.

No site da Rainforest constam quatro certificações a fazendas e grupos de fazendas da Cutrale: duas conferidas em março deste ano (entre elas a contestada pelo Imaflora) e as demais em 2015 e 2017.

Trabalho escravo importa? –  Luís Fernando, que participou como um dos auditores do processo pelo Imaflora, ressalta que a entrada da empresa na lista suja foi o motivo da negativa do selo. “É uma contradição a empresa ter um reconhecimento de sustentabilidade pela certificação e estar no lugar de maior importância do reconhecimento de más práticas socioambientais do Brasil, que é a lista. É um desserviço para a sociedade e para o mercado”, afirma.

A “lista suja” do trabalho escravo foi criada em 2003 e funciona como um banco de dados das empresas flagradas explorando trabalhadores em situação análoga à escravidão. A Cutrale entrou na lista em novembro de 2017, em  documento que foi vazado pela imprensa antes da divulgação oficial.

A Rainforest afirma que a solicitação para a troca partiu da Cutrale. Os diretores do IBD, Luís Henrique Witzler e Alexandre Harkaly, informaram à Repórter Brasil que foram procurados pela Cutrale para assumir o processo de certificação e, como a situação era inédita, buscaram o posicionamento da Rainforest, que teria autorizado a certificadora a dar prosseguimento ao processo.

Para os diretores do IBD, por serem fazendas diferentes, não há empecilhos para a certificação. “Do nosso ponto de vista, cada fazenda é uma empresa própria porque possui seu gerente, sua equipe de RH, sua gestão. A certificação é por fazenda, não por grupo”, nas palavras de Luís Henrique.

Alexandre ainda frisou que a certificação é um “instrumento de transformação”: “A gente vê como uma missão entrar em processos de gestão que não estão claros e torná-los transparentes. É natural que a empresa que busca a certificação comece a sofrer transformações”

Após os questionamentos da Repórter Brasil, contudo, os diretores do IBD afirmaram que abrirão um processo interno de auditoria para reavaliar a certificação conferida às fazendas da Cutrale.

Questionada novamente sobre a importância da lista suja no cenário nacional, Donita afirmou que a Rainforest “percebe a importância da lista e concorda que ela pode ser uma ferramenta valiosa para impulsionar a mudança positiva”.  Ela argumenta que o selo é um incentivo para que as empresas melhorem suas prática: “O fato de esta empresa ter, agora, uma fazenda certificada significa que a mudança é possível – é nossa esperança que a empresa possa usar este selo como um modelo para que suas demais fazendas estejam em conformidade. Afirmamos, muitas vezes, que a certificação por si só não pode resolver problemas socioeconômicos entrincheirados de qualquer país”.

Cutrale tenta sair da lista – As empresas que integram a “lista suja” do trabalho escravo podem fazer acordos com o governo para sair da relação. Para isso, elas devem assumir compromissos de mudança, assinando termos de ajustamento de conduta. Elas entram, então, em uma lista de observação, da qual podem sair depois de um ano, desde que cumpridas as responsabilidades assumidas.

A Cutrale não fez esse acordo. A empresa tenta reverter a decisão judicialmente.

Questionada sobre as medidas que está tomando para deixar a lista, a Cutrale respondeu apenas que “lamenta a sua inclusão em acusação tão grave da qual não compartilha” e que “está tomando as providências para obviar, para superar, a injustiça de tal inclusão”.

A nota da empresa cita ainda os 50 anos de atuação no mercado e afirma que conta com mais de 21 mil colaboradores “devidamente registrados em período de safra”, “recebendo, além dos direitos trabalhistas, benefícios firmados em acordos coletivos de trabalho nos diversos municípios que atua”.


Ocupações crescem com desemprego, mas governo Temer diz que está tudo lindo

Leonardo Sakamoto

Foto: Edson Lopes Jr/UOL

O aumento na quantidade de ocupações no extremo da periferia da capital paulista, apontada por reportagem do UOL, nesta quarta (16), é mais uma prova de que a tão elogiada ''retomada econômica'' do governo Michel Temer não atingiu quem mais precisa, ou seja, a população mais pobre. Na celebração dos dois anos de seu governo, ontem, o presidente fez uma hora de autoelogios, mas ignorou que o emprego não decolou, pelo contrário, patina.

Segundo o IBGE, a taxa de desemprego ficou em 13,1% no primeiro trimestre deste ano. Maior que a do trimestre anterior (11,8%) e um pouco menor que aquela registrada no mesmo período do ano passado (13,3%). São 13,7 milhões de desempregados. Muitos deles sem recursos, tendo que escolher se comem ou pagam um aluguel.

A matéria de Wellington Ramalhoso sobre as ocupações traz um dado mais alarmante. Segundo a Fundação Seade, o extremo Leste da capital paulista teve a taxa mais alta de desemprego do município em 2017, com 20,2% (na cidade, ela foi de de 17,3%). Em outra pesquisa, a Rede Nossa São Paulo e o Ibope apontaram que, em toda a Zona Leste, 53% das pessoas dizem não encontrar trabalho na região em que vivem.

E a economia nem vai tão bem assim: dados divulgados pelo Banco Central, também nesta quarta, mostram que ela caiu 0,74% em março em comparação a fevereiro. E a atividade no primeiro trimestre do ano foi menor que no último trimestre do ano passado.

“Houve uma explosão de ocupações na Zona Leste de um ano e meio para cá”, afirma Osmar Borges, coordenador da Frente de Luta por Moradia – ainda segundo a reportagem. “Teve uma explosão imensa de ocupações na região”, reforça Luciano Santos, presidente da associação de moradores da ocupação Pinheirinho 2, no distrito do Iguatemi, região de São Mateus, quase 30 km distante do centro.

Quando o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) ocupou uma área de 70 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo (SP) em setembro passado, Guilherme Boulos, seu coordenador nacional e hoje pré-candidato à Presidência da República, afirmou a este blog que o desemprego e a corrosão da situação social estavam criando um ''barril de pólvora nas periferias urbanas''. Por conta da falta de recursos para pagar o aluguel, as 500 famílias iniciais da ocupação se tornaram, em pouco tempo, mais de 8 mil.

A ocupação teve um bom desfecho, com a cessão de outros terrenos na região para a construção de imóveis a todas famílias acampadas através de um acordo com o então governador de São Paulo Geraldo Alckmin, também pré-candidato ao Palácio do Planalto. Para quem sofre despejos individuais e ficam sem um lar não restam muitas alternativas. Ocupar é uma delas.

Ao longo do tempo, fomos expulsando os mais pobres para regiões cada vez mais periféricas. Eles, que possuem menos recursos financeiros, gastam mais tempo e mais de sua renda com transporte do que os mais ricos que ficaram nas áreas centrais (com exceção dos condomínios-bolha espalhados no entorno, como as Alphabolhas, com suas dinâmicas de segregacionismo próprias).

As periferias não contam com equipamentos e serviços públicos como as regiões mais centrais. Dessa forma, deixamos ao relento quem mais precisa do apoio do Estado – enquanto os mais ricos, que poderiam se virar sozinhos, seguem no centro das atenções.

Daí você me pergunta: Por que é justo que um imóvel, localizado em um bairro dotado com infraestrutura, seja ocupado por outras pessoas, que não batalharam comprá-lo ou não tiveram direito à sua herança, só porque ele está fechado há anos, sendo casa de ratos e baratas, enquanto milhares de pessoas vivem em habitações precárias ou na rua? Ou, melhor: por que esse pessoal não vai ocupar imóvel no extremo da periferia e para de incomodar as ''pessoas de bem''?

Daí eu te pergunto: você está precisando de um abraço?

O direito à propriedade não é absoluto, pois a efetivação dos direitos fundamentais (como direito à propriedade, à moradia, à educação, à alimentação, ao trabalho decente, à saúde, à liberdade de expressão… achou que direitos humanos só era ''coisa de bandido'', né?) depende de uma costura em que nenhum deles avance sobre o outro a ponto de cometer injustiças. Em outras palavras, se uma pessoa rica puder dispor de toda a terra de um país, como é que as demais vão exercer seu direito à alimentação ou à moradia?

As três esferas de poder – federal, estadual e municipal – não têm garantido políticas públicas para dar acesso à moradia à população mais pobre. Locações sociais, desapropriação e reforma de imóveis vazios, construção de casas e prédios populares, planos de descentralização de empreendimentos econômicos na cidade para criação de vagas perto dos locais de moradia são insuficientes para avançarmos. Aqui também se patina.

Como já disse neste espaço, a desigualdade estrutural dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e a outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração. Leva à percepção de que o poder público existe para servir aos mais abonados e controlar os mais pobres. Ou seja, para usar a polícia e a política a fim de proteger os privilégios do primeiro grupo, usando violência contra o segundo, se necessário for. Não é questão de implantar o O problema não é alguém ter um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro mora em um de 40. O que desconcerta é uma sociedade que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto o outro vê seu cafofo minúsculo queimar até o chão na Favela do Moinho, em Paraisópolis, na Cidade Líder, no Largo do Paissandu, onde for.

Logo após a fundação de São Paulo, em 1554, o padre jesuíta José de Anchieta, com a ajuda de indígenas aliados, ergueu um muro de barro e estacas para ajudar a mantê-la “segura de todo o embate”, como descreveu o próprio. Os indesejados eram outros indígenas que não queriam se converter à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial. Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Foi de São Paulo que partiram os chamados ''bandeirantes'' – exploradores que caçaram, mataram e escravizaram milhares país adentro, mas também ampliaram o território brasileiro em sua busca por riquezas. Da África foram trazidos à força homens e mulheres negras, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas que hoje são bairros da cidade, ou o açoite de comerciantes e artesãos do centro da capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de sua primeira faculdade, que ainda hoje ensina Direito. Eles fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários, em levas que não pararam até hoje, apenas mudaram de sotaque.

Apesar da transformação da pequena vila em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, aquele muro idealizado no século 16 ainda existe – agora, invisível. São Paulo assemelha-se a um castelo medieval. Conta com uma área mais rica e urbanizada em seu chamado ''centro expandido'', cercada pelo fosso dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, e uma periferia mais pobre – onde vive-se com dificuldade e morre-se com facilidade. Morei na periferia da cidade pela maior parte da minha vida, portanto sei o quanto a minha cidade abre oportunidades e, ao mesmo tempo, fecha a porta na cara.

No bairro central do Jardim Paulista, arborizado e repleto de mansões, a idade média ao morrer é de 79,4 anos. Enquanto isso, a 19 quilômetros de distância, no periférico e pobre Jardim Ângela, repleto de habitações precárias, a média cai para 55,7 anos. Os dados são do Mapa da Desigualdade de 2017, estudo produzido pela Rede Nossa São Paulo.

Nós, moradores dessa área mais rica, sejamos progressistas ou conservadores, revolucionários ou reacionários, de esquerda ou direita, ateus ou cristãos, vivemos em relativo conforto e segurança em comparação com quem mora nas bordas do lado de fora.

Temos sido hábeis em manter o muro. Mas a periferia, que segue explorada, trabalhando para a grandeza da cidade e do país e tendo uma vida curta e difícil, é maioria. Daí a pergunta: essa paz artificial vai durar até quando?


O caso da PM e do ladrão: Você também comenta sem ler nas redes sociais?

Leonardo Sakamoto

Publiquei, nesta segunda (14), um texto sobre a policial militar que matou um ladrão armado ao reagir a um assalto em frente a uma escola, onde esperava a celebração do Dia das Mães com a filha e outras famílias.

Apresentei algumas premissas simples:

1) A policial agiu em legítima defesa, ou seja, dentro da lei;

2) Parte das redes sociais celebrou efusivamente a morte do ladrão;

3) O governador de São Paulo usou o caso para ganho eleitoral, levando flores para a policial.

E apresentei algumas reflexões:

1) Mortes – mesmo as necessárias, como aquelas decorrentes da legítima defesa – não deveriam ser comemoradas, mas lamentadas. Os números astronômicos de assassinatos de vítimas, policiais e criminosos, totalizando mais de 60 mil todos os anos, mostram que estamos falhando como sociedade;

2) A celebração da coragem do governador vem exatamente na hora em que o comando da Polícia Militar se esforça para tentar reduzir a letalidade da corporação, atuado para desarmar a população e alertado para que ninguém reaja a assaltos. Ou seja, não se nega que estava estava correta, mas ação do governador pode incentivar atos semelhantes por parte de civis;

3) Se quisesse premiar policiais, melhor faria se aumentasse salários da PM, garantisse melhores condições, mais treinamento e bons equipamentos para evitar que não precisassem entregar a vida em serviço de uma sociedade que não reconhece o esforço.

Todos podem discordar dessas premissas e das reflexões, parcialmente ou completamente. É minha análise dos fatos. Faz parte da democracia aceitar opiniões e críticas quando feitas de forma civilizada.

Dito isso, achei interessante porque muito comentários afirmaram que eu havia produzido um texto para atacar a policial e defender o assaltante, quando o post não fazia isso, mas criticava a reação das pessoas e a ação inoportuna do governador. Bastava uma leitura minimamente atenta e desarmada para perceber.

O texto teve uma grande quantidade de curtidas e compartilhamentos – mais de 86 mil até o momento de publicação deste post. A maior parte lê o texto ou um trecho dele e não se manifesta através de comentários. Interesso-me aqui, contudo, pela minoria barulhenta, seja ela divertida, interessante ou preocupante.

O post viralizou e dividiu opiniões. O debate público quando não ultrapassa os limites da educação e está interessado na troca de ideias e não em destruir o outro lado deve ser incentivado, mesmo que duro e áspero. São importantes os debates abertos para que pessoas reflitam e construam os significados que fazem sentido para elas mesmas.

Não costumo ler todos os comentários em minhas redes sociais, contando com uma ajuda periódica para bloquear haters e perfis falsos, porque é muita coisa. Neste caso, resolvi me debruçar e fazer uma análise do que encontrei. Abaixo, estão alguns achados:

– Centenas de leitores despejaram ódio em comentários nas redes sociais após terem consumido apenas o título do post (''Ao premiar morte com flores, governador de SP faz um desserviço à polícia''). Isso é facilmente detectável pois afirmavam que ataquei a policial, quando o primeiro parágrafo do texto (por precaução, uma vez que a dinâmica das redes é superficial) afastava essa possibilidade;

– Outros por terem uma visão distorcida do que sejam direitos humanos – que inclui o direito de abrir um negócio, ter uma religião, comprar uma casa, poder viajar e não ser vítima de arbitrariedade pelo Estado ou de outras pessoas – leram o texto com a certeza de que ''Sakamoto é defensor de bandido'' na cabeça. Por mais que o texto não defendesse o assaltante. Enviesada, a leitura não deu margem a outra possibilidade que não fosse comprovar a tese;

– Uma vertente se incluiu onde não devia. ''Seu idiota não estamos comemorando a morte de ninguém'' e ''Eu não comemoro a morte, comemoro a vida, seu fdp!'' são alguns exemplos. O texto critica quem estava celebrando, com prazer, a morte do rapaz. Trata, portanto, de um grupo específico. Mas muitos que estava comemorando o fato do caso ter terminado bem para as crianças, a competência técnica e/ou sorte da policial jogaram-se para dentro desse grupo e sentiram-se ofendidas – o que pode ser explicado pelos dois itens acima. Ou pela tendência maniqueísta em ambientes de debate polarizado: é isso ou é aquilo. Desaparecem gradações. Ou você festeja a morte do bandido ou a do policial. Se não festeja nenhuma das duas é uma aberração, pois está fora das duas ''categorias aceitáveis'';

– Formadores de opinião de extrema direita de pequeno (com alguns milhares de seguidores) a grande porte (com mais de 500 mil) induziram ataques ao texto. Como muitos terceirizam a interpretação da realidade para pessoas que respeitam e confiam, passei a ser atacado com base em memes, gifs e textos desses formadores. Parte deles agiu por ignorância, parte por má fé. Até porque atacar um jornalista conhecido por ter visão de mundo à esquerda contribuiu para o fortalecimento da percepção de um grupo sobre si mesmo por reação a ele. E no Brasil ultrapolarizado, as identidades reativas, ''anti'' qualquer coisa antes de ser ''pro'' alguma ideia, fazem sucesso. Nesse ambiente, verdade é tudo aquilo com a qual acreditamos e mentira, da qual discordamos. ''Inteligente'' é quem pensa como nós, ''burro'' é quem pesa diferente;

– Entre os pequenos e médios formadores e opinião, destaque para os pastores de algumas igrejas cristãs, atacando de forma exaltada e xingando muito. Nas fotos de alguns de seus perfis nas redes sociais, imagens de orações e mensagens de amor ao próximo. Um deles, que também se diz delegado, mandou uma foto de uma montanha de cocô com a frase ''Para você sacamorto, você um monte!'' (sic);

– Ao serem alertados por outros leitores de que eu não atacava a policial, nem defendia o assaltante no texto e que havia um equívoco na interpretação, muitos foram os que retrucaram dizendo ''eu li o texto e o Sakamoto diz isso sim'', fazendo um malabarismo discursivo. Se o objetivo da discussão pública fosse a troca desarmada de opinões para a construção entendimentos coletivos, as pessoas reconheceriam mais facilmente os seus erros. Como a finalidade é ganhar uma batalha digital ou destruir o adversário, é mais fácil o tal do camelo passar pelo buraco da tal agulha do que alguém admitir para sua rede de amigos e seguidores que comentou sem ler. Porque, para eles, isso significaria uma perda de credibilidade – mesmo que, numa democracia, isso signifique grandeza;

– Uma das característica das hordas que atuam em linchamentos é que elas não pensam, não refletem seguem um fluxo que vai aumentando de intensidade com o passar do tempo. Alguns leitores com perfil conservador questionaram os demais, dizendo que não gostavam de mim, mas eu não havia atacado a policial ou defendido o bandido. Por conta disso, passaram a ser alvos – eles próprios – de ataques, chamados de ''petistas'', de ''esquerdopatas'' e ''defensores de bandidos''. Um rapaz postou ''Não precisa ler a matéria, no final já sabemos onde o 'douto' quer chegar''. Enquanto outro disse: ''Eu sei como um esquerdista pensa, não preciso ler a merda que ele escreve''. E ainda mais um: ''Foda-se! Esse japonês que nega a raça merece apanhar'';

– Os comentários foram se tornando mais sinistros, como se houvesse uma competição para ver quem ia mais fundo. ''Que o próximo a tomar uma bala na cabeça de um bandido seja o Sakamoto. Você merece. E torço para que ocorra logo'', disse um homem. ''Espero que um bandido estupre sua mãe'' veio em seguida. Outro afirmava que eu estava ''precisando'' ser vítima de um estupro coletivo por parte de criminosos armados para ''aprender''.  Daí, uma sequência de desejos de morte e execução;

– Com a ajuda de colegas que monitoram as redes, foi detectada também uma grande quantidade de robôs no Twitter, atacando de forma organizada com o mesmo conteúdo ou curtindo postagens de determinados perfis para aumentar sua credibilidade. Alguns seguiam também o padrão de perfis falsos: um avatar genérico, com um nome seguido de um número longo, por exemplo ''FulanodeTal845684792''. Outros desses perfis falsos defendiam o governador;

– Entre os perfis mais virulentos, seguidores do deputado federal Jair Bolsonaro. Entre categorias profissionais, trabalhadores da área de tecnologia da informação, estudantes universitários, advogados, entre outros. Homens e jovens em sua maioria. Por outro lado, não foi significativa a quantidade de perfis identificados como policiais fazendo críticas. Houve até um coronel que compartilhou o conteúdo – lembrando que o texto defende melhores condições de trabalho, equipamentos e salários para a corporação;

– Uma parte dos perfis que se identifica à esquerda também criticou o texto por ''defender a policial'' e ''compactuar com a política de execução de jovens pelo governo''. Disseram que não era um texto que defendia os direitos humanos, mas minha visão ''pequeno burguesa de quem nasceu em bairro rico''. A despeito do fato de eu ter crescido e passado a maior parte da vida no Jardim Pirajussara, periferia de São Paulo, mesmo se eu tivesse me criado em bairro rico, a afirmação seria preconceito e generalização. Os comentários não eram, contudo, tão violentos quanto aqueles já citados;

– E, como sempre digo, falta amor no mundo, mas também falta interpretação de texto. Tem gente que leu e não entendeu. Não estou dizendo concordar ou não, mas de entender.

Como chegamos a esse ponto?

Por mais que entendamos os processos que levam à desumanização do adversário ou mesmo os mecanismos que fazem com que pessoas pacatas se tornem monstros descontrolados quando devidamente estimuladas, não consigo encontrar uma palavra melhor do que ''insano'' para me referir a quem manifesta tal comportamento. E um sentimento que não seja o de pena.

Poderíamos falar de nosso machismo, em que – nós homens – educamos meninos para se comportarem como monstrinhos. Ou da incapacidade de lidar com a falta de sentido ou de controle da própria vida, transferindo frustração do dia a dia para um ato de violência protegido pelo (suposto) anonimato da manada. Ou ainda do isolamento digital, físico ou social, que leva à desumanização e dificulta o reconhecimento da outra pessoa como detentora dos mesmos direitos. Ou do medo da violência e, principalmente, do medo do discurso da violência.

Minha hipótese é de que o sujeito que usa de métodos agressivos para perseguir adversários políticos é incapaz de canalizar a energia para o que realmente afeta sua dignidade. Como filas em hospitais, aumentos na passagem de ônibus, um salário ridículo, a falta de locais de lazer, a educação insuficiente que seus filhos recebem em escolas públicas e privadas, as moradias caras, patrões que passam a mão na sua bunda, empresas que só enxergam o lucro e passam por cima de tudo, reformas que tiram direitos dos trabalhadores da ativa e dos aposentados e a violência da criminalidade, da minoria podre das forças policiais, do próprio Estado.

Pelo contrário, como bons cães de guarda de preconceitos, desconfio que são capazes de xingar quem tenta se insurgir contra a violência da desigualdade social. Por exemplo, contra aqueles cidadãos comuns que ocupam um imóvel rural ou urbano vazio, tornando-o sua moradia.

Preferem seguir ''líderes'' que propõem soluções fáceis e violentas para o vazio que ostentam no peito. Como as lideranças que prometem paz através da imposição do silêncio ao outro. Seja esse outro o adversário que diz que seu time é o melhor, seja pobres, negros, LGBTTQ, mulheres, entre outros, que exigem ser tratados com os mesmos direitos e ter acesso à riqueza produzida pela sociedade.

É interessante como se dá a formação de matilhas pela identidade reativa a um outro grupo ao invés da percepção das características do seu próprio grupo.

É assim com o antipetismo, que se une pelos erros do outro lado. Ou seja, muita gente se une pelo ódio a alguém e não pela solidariedade a alguma causa. O problema é que a união pela negação é incapaz de criar um projeto próprio de país, mas apenas algo com sinal invertido. Muita gente que se torna torcedora fanática na política adota ares de seita fundamentalista religiosa, dividindo o mundo entre o divino e o satânico.

Claro que, em última instância, há também aqueles com sérios distúrbios psicológicos ou, mesmo, sociopatas que se escondem em grupos políticos ou torcidas de futebol para praticar seus delitos, sem senso moral ou responsabilidade, sem sentimento de culpa ou reflexão sobre as consequências. E estou excluindo desta discussão aqueles que são pagos para tocar o terror e agredir psicologicamente ou fisicamente um grupo adversário. Esses, independentemente de sua coloração, entram na categoria de mercenários e deveriam ser julgados como tais.

Há uma minoria estridente de violentos que ganham holofote. E uma maioria silenciosa de pessoas que concordam, discordam, mas convivem. Na política, no futebol, na religião. O primeiro grupo deveria ser tratado ou contido por seus amigos, companheiros e familiares do segundo grupo. O problema é que o resto da sociedade, por cumplicidade, indiferença, apatia, cansaço ou nojo, segue no papel de refém e espectadora de um show de horrores que parece não ter fim. Tudo isso é compreensível, mas já está cobrando seu preço.

Cobri guerras em outros países. Trabalhando como jornalista, quase morri algumas vezes. Fui jurado de morte, cuspido, agredido fisicamente. Ameaçado por políticos, vítima de campanhas de difamação de multinacionais, processado por escravagistas por contar resgates de trabalhadores. Portanto não são xingamentos ou promessas de morte em redes sociais que atrapalham noites de sono. Mas o declínio da democracia, esse sim, me da insônia.

Se nada fizermos para qualificar o debate público e deixar claro que não aceitamos o inaceitável, os gritos que ouviremos na janela serão, muito em breve, aqueles que pedem o nosso próprio sangue.

 


“O Brasil voltou, 20 anos em 2.” Exceto pela vírgula, o governo tem razão

Leonardo Sakamoto

Foto: Leonardo Benassatto/Reuters

''O Brasil voltou, 20 anos em 2.'' É dessa forma que o Palácio do Planalto está chamando o evento para celebrar os dois anos de governo Michel Temer – que será realizado nesta terça (15).

Se você teve a sensação de que há uma vírgula a mais nessa frase, fique tranquilo. O problema não é de déficit gramatical, mas de senso aguçado da realidade. Já disse isso mais de uma vez por aqui: as políticas e discursos do governo nos empurraram para duas, três décadas atrás.

Quem acusa Temer, agora, de surpreender a todos com uma revelação é por que não prestou a devida atenção nele.

O ocupante da Presidência da República aprovou a PEC do Teto dos Gastos, congelando os gastos públicos em áreas como educação e saúde pelas próximas duas décadas. Com isso, conquistas garantidas pela Constituição de 1988 podem ser perdidas. Na época da aprovação, ele afirmou que essa era a medida legislativa mais séria e responsável desde a Constituição Federal de 1988. Ao mesmo tempo, conseguiu passar a Lei da Terceirização Ampla e a Reforma Trabalhista, mudanças que contribuem para reduzir a proteção à saúde e à segurança do trabalhador, voltando atrás em avanços obtidos ao longo das décadas de 80 e 90.

Todas essas políticas provocaram um chamamento a uma greve geral, ocorrida no dia 28 de abril do ano passado. E muitos vão concordar comigo que greve geral é algo muito com a cara dos anos 80 e 90. As pautas são diferentes das de março de 1989, maio de 1991 e junho de 1996, mas o clima de descontentamento geral com a economia, a política e o futuro do país eram parecidos.

Mas não só. Temer já disse que conversou com os ''soviéticos'' em viagem oficial à Rússia, em junho do ano passado. ''Estive agora recentemente em Moscou, na Rússia, e depois na Noruega, e verifiquei o interesse extraordinário dos empreendimentos soviéticos, o deputado Perondi lá esteve em nossa comitiva, e nós pudemos verificar o interesse extraordinário de empresários soviéticos e noruegueses, no nosso país, pelo que está acontecendo no país.''

Como todos sabem, menos ele e algumas pessoas com prisão perpétua na Sibéria, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas deixou de existir em 1991. Poder-se-ia afirmar que foi uma gafe isolada, como uma mesóclise lançada sem reflexão. Mas o próprio Palácio do Planalto havia divulgado, em sua agenda, uma visita oficial à ''República Socialista Federativa Soviética da Rússia''.

E durante uma cerimônia de entrega de ambulâncias no Rio Grande do Sul, Temer – referindo-se ao ministro da Saúde – afirmou, janeiro do ano passado: ''Em pouquíssimo tempo, ele anunciou a economia de 800 milhões de cruzeiros, que significam novas UPAs, novas UBSs e também novas ambulâncias.'' O cruzeiro, moeda corrente em vários momentos da história do país, vigorou entre 1970 e 1986.

A impressão é que os responsáveis pela comunicação da Presidência da República estão presos lá dentro do Planalto, vendo tudo, mas sem poder falar nada. Daí, mandaram mensagens para nós, aqui, do lado de fora. Pequenas dicas, na forma de garrafas jogadas no mar virtual, para percebermos que o governo está nos empurrando para trás.

Como se fosse preciso.

Atualização: Após a repercussão negativa, o Palácio do Planalto mudou a cerimônia para “Maio/2016 – Maio/2018: O Brasil Voltou” ainda na noite desta segunda.


Ao premiar morte com flores, governador de SP faz um desserviço à polícia

Leonardo Sakamoto

Governador de São Paulo, Márcio França (PSB) entrega flores à cabo Katia Sastre. Foto: Gilberto Marques/Divulgação

Uma coisa é uma policial militar reagir a um assalto e matar um ladrão na porta de uma escola enquanto esperava uma celebração do Dia das Mães com sua filha. Apenas um inquérito poderá apontar se a ação colocou em risco outras famílias reunidas, mas especialistas em segurança pública têm apontado que ela agiu em legítima defesa, ou seja, dentro da lei.

Outra é uma parte da população usar as redes sociais para demonstrar seus orgasmos de prazer com a morte de um outro ser humano, aproveitando para clamar que todo cidadão comum receba uma arma para reagir da mesma forma. O que é, ao mesmo tempo, dois atestados. Um, de ignorância, por desconsiderar que policiais, ao contrário da massa, recebem longo treinamento para reagir a situações-limite. E o segundo, de sociopatia grave, ao não ver problema em festejar a morte de outra pessoa.

Mas o pior é o governador do Estado de São Paulo aproveitar que o tema estava quente nas redes sociais para tentar surfá-lo, fazendo pré-campanha eleitoral. Márcio França (PSB) organizou uma cerimônia, neste domingo (13), para enaltecer o ato da policial, indo na contramão da própria Polícia Militar – que tem tentado reduzir a letalidade da corporação, atuado para desarmar a população e alertado para que civis não reajam a assaltos.

Ele poderia ter respondido apenas a eventuais questionamentos da imprensa ou soltado uma nota pública, dizendo que a policial agiu conforme a lei e que o governo garantirá toda assistência a ela. Preferiu aparecer ao seu lado para gerar imagens que podem ser compartilhadas pela imprensa, por sua equipe de comunicação nas redes sociais ou usadas em sua campanha à reeleição.

Sob qualquer ótica possível, isso é irresponsabilidade. Passa a mensagem de que tal ato não é uma exceção, mas algo a ser celebrado e repetido por qualquer indivíduo. A população recebe isso como anuência do poder público para a possibilidade de resolver as coisas com as próprias mãos.

Melhor faria se entregasse aumentos de salários, melhores condições de trabalho, mais treinamento e formação especializados e bons equipamentos aos policiais – que são obrigados a morrer em nome de uma sociedade que nem sempre reconhece os serviços de uma imensa maioria de servidores honestos.

Uma coisa são as hordas em redes sociais celebrando que uma pessoa foi abatida. Li gente pedindo sangue, literalmente. E, apesar de não ser um caso de ''justiça com as próprias mãos'', mas sim de ação – ao que tudo indica – legítima da força policial, há inconsequentes aproveitando para exigir que julgamentos sumários sejam feitos para acabar com a criminalidade. Gente dizendo que chega de julgamentos longos e com chances dos canalhas se safarem ou de ''alimentar bandido'' em casas de detenção. Malucos pedindo para limpar a urbe com sangue para os ''homens de bem''.

Outra coisa é um governador surfar esse tipo de comoção negativa sem se preocupar com as repercussões de seus atos. Abrimos mão de resolver as coisas por nós mesmos para impedir que nos devoremos, entregando ao Estado o uso da força para resolver os problemas. Parece que um dos representantes do Estado, agora, quer nos devolver de volta a responsabilidade.

Boa parte da população, apavorada pelo discurso do medo, mais do que pela violência em si, tem adotado a triste opção de ver o Estado de direito com desconfiança. Ações como essa não melhoram o quadro, muito pelo contrário. Estimulam o cada um por si.

E não importa que ele diga que incentiva “as pessoas mais jovens a não se aventurem com arma na mão, porque estão sujeitas a morrer”. Isso é equivalente a uma propaganda de cigarro com fumantes fazendo coisas incríveis que, no finalzinho, afirma – de forma envergonhada: “tabaco causa câncer''.

Espero que isso termine aqui, apenas como um ato infeliz. Pois se pessoas comuns ou mesmo policiais sentirem-se à vontade para repetir a ação e a situação levar a uma tragédia maior, França pode não conquistas uns votos a mais, mas certamente terá sua parcela de responsabilidade.

 


Lei Áurea, 130: A abolição incompleta continua gerando pessoas descartáveis

Leonardo Sakamoto

Carvoaria em Minas Gerais. Foto: João Roberto Ripper

O Brasil nunca conseguiu inserir socialmente a população negra. Na verdade, não quis. Os descendentes daqueles trabalhadores escravizados do final do século 19 continuam a ser tratados como carne de segunda, sofrendo todo tipo de discriminação, recebendo bem menos que os brancos pela mesma função, enfrentando as piores condições de trabalho, sendo mortos sumariamente nas periferias das grandes cidades simplesmente por ter a ''cor errada''.

Uma ultraminoria rica e branca controla a riqueza, as oportunidades, o sentido da Justiça, a produção de leis, a construção simbólica da sociedade. Ela apresenta o 13 de Maio como representação da liberdade quando, em verdade, a data nos remete a uma abolição imperfeita e tardia, adiada ao longo da segunda metade do século 19 pelo poder econômico. Enquanto isso, o dia 20 de novembro, escolhido para celebrar a Consciência Negra e o protagonismo de homens e mulheres negros, é duramente criticado por muitos daqueles que dizem não haver racismo no Brasil.

Há muito mais negros entre os trabalhadores libertados da escravidão do que sua proporção na sociedade dada à vulnerabilidade histórica desse grupo social. Pois, se por um lado, o trabalhador escravizado contemporâneo é o pobre, por outro, o pobre tem cor de pele. E ela é principalmente negra.

Vulnerabilidade que só tende a crescer, ainda mais após a aprovação, pelo governo Michel Temer, da PEC do Teto dos Gastos – que limitou, por 20 anos, investimentos públicos em áreas como educação e saúde em nome da tranquilidade do mercado. E de uma Reforma Trabalhista, que reduz a proteção à saúde e segurança do trabalhador. Como pano de fundo, um desemprego de 13,1% (primeiro trimestre de 2018), com 13,7 milhões de desempregados, que cisma em não cair rapidamente. Ou seja, ao invés de estarmos caminhando para criar condições socioeconômicas e oportunidades a fim de reduzir os riscos de alguém ser escravizado, continuamos gerando mecanismos para tornar a vida dos mais humildes um inferno.

Hoje, quatro elementos podem definir escravidão contemporânea por aqui: trabalho forçado (que envolve cerceamento do direito de ir e vir), servidão por dívida (um cativeiro atrelado a dívidas muitas vezes fraudulentas), condições degradantes (trabalho que nega a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida) ou jornada exaustiva (levar ao trabalhador ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração, também colocando em risco sua saúde e vida).

O Brasil foi um dos primeiros países a reconhecer, diante das Nações Unidas, a persistência de formas contemporâneas de escravidão. Foi o primeiro a criar uma política nacional efetiva de libertação de trabalhadores em 1995. O primeiro a lançar um plano integrado de combate ao crime em 2003 e a publicar, periodicamente, um cadastro com os infratores a partir do mesmo ano. Criou o primeiro pacto empresarial multisetorial contra a escravidão em 2005. E implementou ações pioneiras de repressão e prevenção que se tornaram referência em todo o mundo. Foram mais de 52 mil libertados.

Contudo, no ano passado, tornou-se o primeiro país a ser condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em um caso de trabalho escravo por omissão. O governo foi o primeiro que se tem notícia a recorrer à Justiça para deixar de cumprir uma medida considerada exemplar pelas Nações Unidas no combate à escravidão, que era a publicação do cadastro de infratores, a ''lista suja'' do trabalho escravo. Provocou espanto quando, em agosto, o setor de fiscalização de trabalho escravo alertou que havia acabado o pouco dinheiro que o governo reservara para o combate a esse crime, dificultando operações.

E a parte mais inacreditável: em 16 de outubro de 2017, o Ministério do Trabalho publicou uma portaria alterando o conceito de trabalho escravo a ser utilizado em fiscalizações, resumindo-o a cárcere privado com vigilância armada. Se não fosse a sociedade dizer ''não'' e o Supremo Tribunal Federal bloquear a medida, tinha gente que não seria libertada por conta disso. No final das contas, o governo Temer teria trocado a dignidade do povo mais pobre para agradar ruralistas e de empresas da construção civil no momento em que tentava se livrar, no Congresso Nacional, da segunda denúncia criminal contra ele.

Para além da luta contra nosso racismo estrutural e da batalha para mantermos de pé o sistema de combate ao trabalho escravo contemporâneo, este momento abre um novo desafio. Precisamos proteger o ensino de História nas escolas contra a sanha estúpida de pessoas e movimentos que desejam que você saiba a data em que foi assinada a Lei Áurea, mas não seja instigada a refletir por que o 13 de maio de 1888 não garantiu autonomia aos negros e negras deste país. Se as novas gerações de não-negros não compreenderem isso, continuarão sendo um entrave na luta por equidade e dignidade. Provavelmente, continuarão agindo como nós que, não raro, somos atores da perpetuação da desigualdade por nossa ignorância ou má fé.

Ao invés de celebrar, que a data de hoje lembre que a História do sofrimento humano, que moldou a forma como nos relacionamos com o mundo e com as outras pessoas, deve ser conhecida e contada aos quatro ventos até entrar fundo na alma de nossas crianças e adolescentes. A fim de que nunca se esqueçam que a liberdade plena ainda é sonho distante para muita gente.

 


Após dois anos, maior legado de Temer é uma democracia em coma induzido

Leonardo Sakamoto

Foto: Alan Marques/Folhapress

Michel Temer pode não ter cumprido as promessas que fez à sociedade brasileira quando assumiu a Presidência da República há dois anos, ainda como interino. Prova disso é sua reprovação na casa dos 70% e sua aprovação em torno de 6% – menor que a popularidade de uma broca de dentista.

Mas não se pode dizer que não executou os objetivos apresentados a ele pelos dois grandes fiadores do impeachment, que o ajudaram a ocupar o lugar de Dilma Rousseff – uma parcela do grande empresariado nacional e do mercado e a velha política.

Na área econômica, sua missão era ''Jogar a fatura da crise econômica para longe do colo dos mais ricos''. E, principalmente, ''Aproveitar a crise para reduzir o Estado''. Não na parte que garante subsídios, desonerações e isenções de impostos sobre dividendos, o que beneficia aos ricos, mas reduzindo aquela que atende às necessidades da xepa mais humilde.

Ou seja, atuar para mudar a pactuação da Constituição Federal de 1988, que previa – em seu artigo 3o – um equilíbrio entre ''garantir o desenvolvimento nacional'' e ''construir uma sociedade livre, justa e solidária'', ''erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdade sociais e regionais'' e ''promover o bem de todos''. Em tese, um Estado capitalista de bem-estar social. Só em tese.

E na área política, tentar costurar um ''grande acordo nacional'' para ''estancar a sangria'' e salvar o seu pescoço e os de seus amigos e aliados, evitando o máximo possível o avanço da Lava Jato sobre MDB, PSDB, entre outros sócios do impeachment. Além disso, o combinado com a velha política também previa o apoio à aprovação de leis e medidas que interessavam a grupos organizados, como a bancada ruralista, a bancada da bala e os fundamentalistas religiosos – que numa democracia funcional não conseguiriam impor pautas que passassem por cima de direitos.

Verificamos, ao longo dos último dois anos, que Patos Amarelos não se incomodam com a corrupção desde que a missão fosse cumprida. Até porque, pelo que mostraram as delações das empreiteiras, teve muito pato com lama até o bico. Também percebemos que parte das Panelas Que Batem também não se incomodava com a corrupção – desde que o PT não estivesse no poder. A frase ''primeiro a gente tira a Dilma e, depois, tira o resto'', proferida à exaustão pela turma que veste camisa de confederação de futebol corrupta tornou-se um dos monumentos nacionais à hipocrisia.

Daí, veio o show de horrores: PEC do Teto dos Gastos (impedindo o crescimento do investimento para a melhoria do serviço público por 20 anos, afetando áreas como educação e saúde), Reforma Trabalhista (reduzindo a proteção à saúde e à segurança dos trabalhadores até nos contratos vigentes) e a Lei da Terceirização Ampla (precarizando trabalhadores, impondo a eles perdas salariais e aumentos de jornadas), entre outras medidas que reduzem as garantias sociais previstas na Constituição de 1988.

Só não conseguiu aprovar a Reforma da Previdência porque os Joesley Hits ganharam o topo das listas das gravações mais ouvidas. Isso fez com que toda energia [leia-se, recursos e apoios para comprar votos de deputados] e tempo fossem canalizados para rejeitar, no Congresso Nacional, o prosseguimento das duas denúncias criminais apresentadas, contra ele, pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal.

E, na esteira disso, chancelou o perdão de dívidas bilionárias a grandes empresários e ao setor agropecuário, distribuiu emendas e cargos, abriu uma feira livre com os deputados federais. Chegou até a rifar o conceito de trabalho escravo, dificultando a libertação de trabalhadores da escravidão. Ou seja, nos seus apuros, também ganhou o poder econômico, ganhou a velha política.

O silêncio na rua, quebrado aqui e ali por manifestações, não significa que a insatisfação não esteja no ar. Mas que há uma sensação de desalento generalizado. Quem apoiou a saída de Dilma, seja por conta das denúncias de corrupção em seu governo ou pelo desgosto com a grave situação econômica que ele ajudou a construir, agora sente desalento ao perceber que saiu da frigideira para cair direto no fogo. Talvez haja felicidade genuína entre quem professa o antipetismo pelo antipetismo, mas não sou médico para tratar de patologias.

Quem não apoiou o impeachment e protestou a forma através da qual trocamos de presidente (ter usado os decretos de crédito suplementar ao invés de cassar pelo uso de caixa 2, por exemplo) sente impotência diante da profusão de denúncias de corrupção decorrentes do fisiologismo a céu aberto do atual governo e de sua relação incestuosa com o Congresso. E também impotente com a aprovação de uma agenda de desmonte da proteção social, trabalhista e ambiental, que não foi chancelada pela população através de eleições. Pois a chapa Dilma/Temer não prometeu nas eleições essa zorra toda aí.

Quem não foi às ruas nem para apoiar a queda de Dilma, nem para defendê-la, grupo que representa a maioria da população, e assistiu bestializado pela TV ao impeachment, segue onde sempre esteve: sentindo que o país não lhe pertence. Entende que as coisas vão piorando e, quando bandidos não retiram o pouco que ele tem, o Estado faz isso. Seja tentando roubar os direitos trabalhistas do emprego que ele nem tem, seja violentando-o nas periferias de todo o país.

Como já disse aqui, a manutenção forçada de um governo cuja legitimidade, honestidade e competência são questionados seria suficiente para levar o país às ruas. Contudo, a sensação é de que boa parte da população, aturdida com tudo o que foi descrito acima, está deixando de acreditar na coletividade e buscando construir sua vida tirando o Estado da equação.

Exatamente dois anos após Michel Temer ter assumido a Presidência da República, a maior parte da população brasileira cozinha sua insatisfação em desalento, impotência, desgosto e cinismo. Isso não estoura em manifestações com milhões nas ruas, mas gera uma bomba-relógio que pode explodir em algum momento, ferindo de morte a democracia – que segue em coma induzido. Muita gente deixou de confiar na política como arena para a solução dos problemas cotidianos, o que é equivalente a abandonar o diálogo visando à construção coletiva. Caídas em descrença sob seu governo, as instituições vão levar muito tempo para se reerguerem – e isso, se conseguirem. Tudo abre espaço para figuras bizarras, que se dizem salvadoras da pátria e prometem trazer a paz na base da violência.

É triste, mas talvez o principal legado do governo Temer será um não-país.


“Minha ditadura matou, mas a sua também” é prova da falência da razão

Leonardo Sakamoto

Na vala clandestina de Perus, em São Paulo, foram descobertas mais de mil ossadas que vêm passando por perícia para identificação de desaparecidos pela ditadura. Foto: L.C Leite/Folhapress

Tenho uma atração mórbida por colecionar comentários que demonstram a incapacidade das pessoas em desenvolver um debate baseado em evidências sólidas nas redes sociais. Sei que isso não é saudável, mas todos temos vícios questionáveis, como fumar tabaco, assistir TV até altas horas da madrugada ou comer Cheetos num ônibus abafado com janelas fechadas.

Um tipo de comentário em especial remete à minha infância: quando acusávamos o coleguinha de algo e ele, prontamente, respondia ''mas fulano de tal também''. Como fôssemos os responsáveis pelas besteiras do fulano de tal.

Isso é equivalente a alguém apresentar dados sobre pessoas executadas por ordem do alto comando da ditadura brasileira (1964-1985) e, ao invés de receber um questionamento sobre a fonte da informação e sua veracidade ou argumentos que tentem justificar as mortes (se é que isso é possível), ler ou ouvir um ''mas fulano de tal também''.

O raciocínio (sic) é o seguinte: se a ditadura brasileira matou, mas ditaduras comunistas e socialistas também mataram, então ninguém pode falar nada a respeito sob risco de hipocrisia. Isso embute farsas argumentativas. Primeiro, quem se diz de esquerda não compactua necessariamente com o que governos que se dizem de esquerda fazem ou dizem. Esquerda e direita são campos extremamente plurais e a esquerda tem dificuldade até para chegar em um consenso na forma de dar bom dia.

Ao mesmo tempo, isso passa pelo pressuposto equivocado de que um ato ao se equiparar ao outro mostra que todo são iguais para tentar inviabilizar a crítica. Essa justificativa tenta calar os que criticam a celebração da memória de um regime autoritário, aqui no Brasil, que perseguiu, torturou, matou, esquartejou, queimou, jogou ao mar. Celebração feita por pessoas que, hoje, desejam um Estado que propague a violência para garantir a paz. Na verdade, há espaço para criticar todas as ditaduras violentas.

Essa falta de maturidade é típica de um país que ainda engatinha quanto à pluralidade do debate público e vive em meio à herança não-resolvida do seu próprio período autoritário. O que me lembra o velho paradoxo das pessoas que querem usar sua liberdade de expressão para exigir que determinadas minorias não tenham liberdade de expressão, como era na época da ditadura. Não faz sentido. Mas tampouco comer Cheetos faz.

Governos que se autointitulavam socialistas ou comunistas mataram milhões. Do Khmer Vermelho, no Camboja, aos expurgos de Stalin, na União Soviética, passando pelos fuzilamentos na China ou em Cuba, a História é farta em registrar o que esses grupos fizeram em nome de suas revoluções ou da perpetuação de poder. Parte da esquerda faz essa crítica e não deseja copiar nenhum desses regimes. Da mesma forma, a História é rica ao demonstrar as montanhas de mortos em decorrência da ação colonialista de países europeus na América Latina, África e Ásia. Sem falar dos milhões que morreram em decorrência das políticas de expansão do Estado norte-americano ao redor do mundo ou das grandes corporações.

Já tratei desses assuntos muitas vezes, mas para boa parte dos que vivem em função da intolerância online, o que já foi dito, não importa. Se a cada postagem sobre a ditadura brasileira você não fizer uma retomada histórica de 200 anos das mortes ocorridas após o nascimento de Karl Marx, torna-se um mentiroso seletivo e hipócrita. Se a cada postagem, não reafirmar que considera o governo Maduro, na Venezuela, autoritário e violento, seu pensamento não vale. Pois, no fundo, as pessoas não querem que você diga nada além do lado da história com a qual concordam.

Isso deságua mais do que na terceirização do pensamento e da reflexão. Leva à indigência intelectual que, ao atingir o fundo do poço, faz com que o ódio flua livremente pelo corpo sem os incômodos entraves impostos pela razão. Você se torna uma casca vazia e, o melhor, sem se sentir culpado por disso.

O caso da divulgação do memorando da CIA sobre as execuções sumárias autorizadas pela cúpula da ditadura, descoberto pelo professor Matias Spektor, da FGV-SP, ganhou repercussão nesta quinta (10). Ilustrei meu texto sobre o tema com uma foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, pendurado pelo pescoço nas dependências do Exército, em 1975. Na época, o governo afirmou que ele havia se suicidado. Mas a foto forjada pela ditadura não convenceu parte da sociedade civil e a morte de Vlado, que trabalhava na TV Cultura, serviu para mostrar à população o destino de quem discordava do regime. Pois a ditadura, do alto de sua covardia violenta, nunca assumiu o que fazia entre quatro paredes.

Leia também:
Memorando da CIA: Há um Brasil doente que tem saudade das execuções de opositores na ditadura

Nas redes sociais, nesta quinta (11), a imagem de Vlado passou a ser usada para tentar convencer – com uma argumentação sem bases racionais – que a foto teria sido forjada pelos opositores para criar problemas para o governo militar. Não importam as provas e o fato do caso ser reconhecido internacionalmente, para muita gente a morte do jornalista – que havia se apresentado voluntariamente a fim de prestar esclarecimentos sobre denúncias contra ele – é uma farsa porque atrapalha a narrativa reluzente da Gloriosa. O que vai ao encontro da máxima das redes sociais: ''Verdade é tudo aquilo com o qual concordo e mentira, tudo da qual discordo''.

Em março de 2013, os familiares de Herzog receberam novo atestado de óbito, trazendo como causa da morte ''lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi'' por determinação da Justiça paulista. No documento anterior, forjado pelo médico da ditadura, aparecia ''enforcamento por asfixia mecânica''.

O problema é que, muito provavelmente, se você leu até aqui este post, já exerce um debate plural de ideias, independente de concordar comigo ou não. Afinal, seja à esquerda ou à direita, muitos não ficam satisfeitos com uma informação reduzida a uma tuíte porque não estão recolhendo munições para sua guerra digital. Querem ouvir versões e entender a complexidade do mundo à sua volta.

O que só confirma que estamos nos aproximando de outubro cavalgando em burrice violenta, como já disse aqui. Entendo por burrice não a falta de um conhecimento específico. Burro não é quem separa sujeito e predicado por vírgula ou quem não sabe calcular. Muita gente não entende isso e desvaloriza a opinião do outro por não compartilhar dos mesmos padrões de fala ou do mesmo universo simbólico. Burro é quem menospreza o conhecimento, chegando a odiar quem o detém ou quem busca aprendizado para ampliar sua visão de mundo.

O sujeito da burrice é prepotente e apressado, que xinga um texto ou vídeo na rede sem ter consumido nada além de seu título ou visto o nome do autor ou autora. E, diante das críticas sobre a superficialidade desse comportamento, rosna, dizendo que tudo o que é importante pode ser escrito em uma linha. Ou acredita que um produto é ruim simplesmente por não ter ido com a cara do rótulo. O burro é aquele que vê seu preconceito violento como sabedoria.

A burrice sempre tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre ela própria. Pois a burrice é incapaz de aceitar o próprio erro, transferindo a culpa para o outro ou equiparando o interlocutor a ela para poder fugir de sua falta de consistência. Ou, diante de um questionamento, foge da autocrítica, dizendo que outra pessoa ou partido também faz a mesma coisa. A burrice  não pede desculpa. Pois a burrice de um indivíduo acha que é absolvida pela burrice de outro indivíduo ou do coletivo.

A burrice não aceita a existência de outra versão que interprete os fatos além da sua. É incapaz de reafirmar sua visão e, ao mesmo tempo, conviver com análises divergentes. Enxerga a opinião alheia como ''notícia falsa'' não por desconhecer a diferença entre formatos de textos narrativos e opinativos, mas por não admitir o conteúdo. A burrice de alguns seguidores de políticos que não aceitam a existência de divergências ocorre da direita à esquerda, ou seja, não é monopólio de ninguém.

''A ditadura não executava opositores'' é uma variação da ''Terra é plana''. Em ambos os casos, há muito já se deixou o campo da razão. É crença.

E a história mostra que as pessoas matam e morrem por suas crenças, sejam elas quais forem.


Há um Brasil doente que tem saudade das execuções de opositores na ditadura

Leonardo Sakamoto

Corpo do jornalista Vladimir Herzog pendurado em cela do Exército. Ele foi morto pela ditadura, que tentou forjar um suicídio em 1975

O Brasil lida com o seu passado como se tivesse feito as pazes com o presente. Não, não fez. E o impacto de não resolvermos o que aconteceu durante a última ditadura militar (1964-1985) se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades e na porção profunda do interior, com parte do Estado e de seus agentes aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). Sejam eles agentes em serviço ou fora dele, na forma de milícias urbanas e rurais.

Em nome de uma suposta estabilidade institucional, o passado não resolvido e anistiado permanece como fantasma. Não são apenas as famílias dos mortos e desaparecidos políticos que vivem assombrados pelas verdades não contadas e os crimes não admitidos daquela época. Diariamente, os mais pobres sofrem nas mãos de uma banda podre da polícia que adota métodos refinados na ditadura a fim de garantir a ordem (nas periferias das grandes cidades) e o progresso (na região rural).

Um documento secreto liberado pelo Departamento de Estados norte-americano mostrou que o general Ernesto Geisel aprovou a manutenção de uma política de execuções sumárias de adversários em 1974. O ditador brasileiro, que governou entre aquele ano e 1979, teria orientado João Baptista Figueiredo – então chefe do Serviço Nacional de Informações e que seria seu sucessor – a seguir com os assassinatos que começaram no governo do general Médici. Ou seja, a autorização vinha da cúpula do governo.

Quem percebeu a importância do documento, no qual o governo reconhece executar dissidentes, e o postou nas redes sociais foi Matias Spektor, colunista da Folha, e professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. O memorando é assinado pelo diretor da CIA na época, William Colby, e relata uma reunião com Geisel. É citada a execução sumária de, pelo menos, 104 pessoas.

Contar histórias como a desse documento é fundamental. Os assassinatos sob responsabilidade da ditadura devem ser conhecidos e discutidos nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente. E, portanto, sua construção – até agora incompleta e imperfeita – deve ser um esforço coletivo. Mesmo enfrentando ações como o do ''Escola Sem Partido'', que tem como consequência equacionar a barbárie com a civilização.

Leia também:
“Minha ditadura matou, mas a sua também” é prova da falência da razão

O problema é que, diante da realidade ultrapolarizada do debate público no Brasil, isso parece ser uma tarefa inútil. Pois não adianta mostrar informações como essa para uma parcela da sociedade que defende o retorno da ditadura militar não pelo desconhecimento dos métodos utilizados, mas, pelo contrário, por saudade deles.

Mesmo que não tenha nascido muito após aqueles acontecimentos. Em sites e redes de ultraconservadores, o memorando foi celebrado como um exemplo de algo que deve ser copiado para o futuro e de competência da ditadura em proteger o país. Assim, sem pudor algum.

Essa parcela tem apoiado a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro para a Presidência da República, sonhando que ele traga os ''bons tempos de volta'', botando ordem e acabando com a roubalheira. Ignoram, dessa forma, a farta documentação que mostra a corrupção em estatais e em obras públicas, nos anos militares, ou mesmo o comportamento promíscuo entre empresas privadas e a ditadura.

Vale lembrar que Bolsonaro foi ovacionado nas redes sociais por conta do conteúdo de seu voto pelo impeachment, em abril de 2016, por uma legião de pessoas que cabulava aula de história ou pouco se importa com a dignidade alheia. Após parabenizar o hoje presidiário Eduardo Cunha, homenageou o açougueiro e torturador Carlos Brilhante Ustra – falecido coronel e ex-chefe do DOI-Codi.

Certamente o finado comandante de um dos principais centros de repressão da ditadura não é incensado por seus belos olhos ou pela forma pela qual fazia um guizado de frango ou jogava tranca. Mas por usar a morte como instrumento de controle estatal. Ustra chegou a ser declarado pela Justiça como responsável por casos de tortura e também condenado a pagar indenização por conta da morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino.

O conhecimento de História não é um dádiva, mas sim uma maldição. Porque você se torna responsável por dialogar com quem a ignora, por mais impossível que isso pareça ser. Um diálogo que deve ser paciente e não-violento, na esperança de que entendam que a dignidade humana, construção de milhares de anos dessa História, é uma conquista que deve ser defendida a todo o custo.

As Forças Armadas de hoje não são as mesmas do período da última ditadura, da mesma forma que os contextos nacional e internacional são outros. Seus líderes têm, repetidas vezes, confirmado que o comando é e será civil. E o respeito às liberdades individuais e às instituições continuará. De vez em quando, contudo, as declarações estapafúrdias de generais da ativa, mais do que os oficiais de pijama, colocam a pulga atrás da orelha sobre a sinceridade dessa estabilidade.

Os responsáveis pela parte mais sombria da ditadura, seus aliados e seguidores precisam saber que a sua versão da História – de que duas décadas de assassinatos, censura e violência foram necessárias para o bem da coletividade – não vai vingar. Pois não agiram pelo bem do Brasil. Mataram, roubaram e calaram para o bem de si mesmos.


PT e PSDB viveram histórias de amor com Temer. Mas só um paga caro por isso

Leonardo Sakamoto

Foto: Beto Barata/Presidência da República

Compreendo o desejo do ex-governador Geraldo Alckmin de manter uma distância de segurança de Michel Temer, que conta com popularidade semelhante à do barulho do motor da broca do dentista. Aquela mais fininha.

O problema é que agora é tarde para o seu partido fazer de conta que não tem nada a ver com a criança. Em uma analogia livre com o cinema, o Bebê de Rosemary não nasceu de geração espontânea, tem ritual, tem maldição. O conjunto de forças políticas e econômica que deram suporte à substituição de Dilma Rousseff para Michel Temer contavam com seus interesses e se articularam para tanto.

A agenda principal do PSDB nunca foi Temer, o homem, a bem da verdade. Mas os líderes do partido queriam aproveitar a janela de oportunidade a fim de aprovar as reformas liberalizantes – essas sim pautas tucanas. Aécio ''Tem que ser um que a gente mata antes'' Neves à frente – foi a parteira da criatura ao não reconhecer a derrota eleitoral de 2014 e a capitanear uma queda forçada do governo anterior. Cassar a chapa pelo uso de caixa 2 eleitoral teria sido menos forçado que pela emissão de créditos suplementares/pedaladas fiscais.

Como é mais fácil o cachorrinho-quase-afogado de Marcela Temer passar pelo buraco de uma agulha do que o eleitor votar em alguém em 2018 que prometesse o congelamento de investimentos em educação e saúde por 20 anos (PEC do Teto dos Gastos), a Reforma Trabalhista, a Lei da Terceirização Ampla e a não-aprovada Reforma da Previdência, Temer foi a pessoa certa na hora certa. Tanto que o PSDB participou ativamente do seu governo e apenas desembarcou por oportunismo quando o calendário eleitoral se aproximou.

O problema é que o emprego não decolou, pelo contrário, patina. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego ficou em 13,1% no primeiro trimestre deste ano. Maior que a do trimestre anterior (11,8%) e um pouco menor que aquela registrada no mesmo período do ano passado (13,3%). São 13,7 milhões de desempregados.

Se essa taxa estivesse na casa de um dígito e os empregos gerados fossem de qualidade (boa parte dos postos de trabalho criados no ano passado foram informais, ou seja, sem direitos trabalhistas), a desaprovação do governo Temer não estaria na marca dos 70% e, certamente, haveria menos temor em pegar sapinho ao aparecer em seu lado. Mas não é o caso e, ao que tudo indica, não vai ser. Parte da elite econômica não entende como o povão não está comemorando os indicadores. Se fizessem compras em um supermercado da periferia, iriam entender.

Como garantir a herança da família (MDB), ou seja, apoio de uma grande rede de prefeitos, tempo de rádio e de TV e uma máquina federal à seu dispor, sem precisar beijar o noivo/noiva (Temer) em público é uma mágica que o PSDB vai ter que resolver se quiser unificar a centro-direita.

Se a autocrítica do tucanato tivesse existido (coisa que se o PT também tivesse feito decentemente não estaria se aliando a Renan Calheiros), deveria ter incluído uma reflexão sobre a Nova República que ajudaram a construir. A quem o partido representa: a população em geral ou apenas algumas dezenas de milhares de ricos? Quem conferiu o mandato aos deputados e senadores: milhões de eleitores ou algumas centenas de doadores de campanha? O que Franco Montoro pensaria disso? Ou mesmo Mario Covas?

Invariavelmente, essa reflexão levaria não apenas à saída do governo, mas a um freio na discussão da Reforma da Previdência – que não conta com apoio da esmagadora maioria da sociedade pelo que pode ser visto por diferentes pesquisas de opinião. Há parlamentares no PSDB com esse entendimento, defendendo, por exemplo, uma Reforma Tributária com Justiça Social, uma discussão mais aprofundada sobre o INSS e a previdência pública antes de implantar um novo modelo e um retorno à social-democracia do partido. Foram tratorados pela ala empresarial do partido e pelo pensamento conservador autodenominado ''novo''.

O ex-prefeito de São Paulo João Doria, aliás, tem discursado abertamente em apoio ao governo Temer. Está à espera, aguardando que seu padrinho não decole para se colocar à disposição de uma candidatura presidencial, com o apoio do MDB, do DEM e de um terceiro continente à sua escolha.

Se tivesse apreço à sua dignidade, Temer teria afirmado, ainda no ano passado, como comentei neste blog, que um desembarque do PSDB levaria ao congelamento das reformas. Aliás, se tivesse amor à sua biografia deveria ter renunciado e articulado eleições diretas para a sua vaga. Mas isso é outra história, porque a questão agora – depois de que o país ouviu os Joesley Hits – é a de garantir sua própria liberdade e a de seu grupo político. Pelo menos os que ainda não estão presos e nem aqueles com 51 milhões de razões para serem condenados.

O PT, de certa forma, pagou o preço de ter colocado Michel Temer em nossas vidas com a conspiração a céu aberto realizada pelo então vice visando ao impeachment. A pergunta é se o PSDB vai arcar com as consequências de uma intensa parceria para aprovação de reformas, talvez do ponto de vista eleitoral.

Há um ano, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) foi bem claro: ''Se o PSDB deixar hoje a base vai ficar muito difícil de o PMDB apoiá-los nas eleições de 2018. Política é feita de reciprocidade''.

Político também engole muito sapo. Mas traição é especialmente indigesta.

Em tempo: Como já disse aqui, não se nega a importância de mudar as leis trabalhistas para adaptar o país às novas necessidades da relação capital-trabalho, tampouco de adotar novas regras para o INSS e para previdência pública de forma a garantir estabilidade futura ao sistema. O problema é que isso foi feito sem a devida discussão, a ponto do Senado ter aberto mão de seu papel de casa revisora e deixado a Reforma Trabalhista passar sem alterações sob me-engana-que-eu-gosto de uma Medida Provisória que corrigiria alguns pontos. Seis meses depois, a MP caducou e ficou por isso mesmo.