Blog do Sakamoto

Janot pede a saideira: A ironia de denunciar Temer ao lado de Joesley

Leonardo Sakamoto

Rodrigo Janot pede a saideira a Michel Temer. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Michel Temer odeia Joesley Batista que odeia Michel Temer. E após a conversa pouco republicana entre os dois, nos porões do Palácio do Jaburu, vir a público, transformando a vida do supremo mandatário num inferno, a troca de ofensas de ambos pelos veículos de comunicações e redes sociais tem sido frequente.

Contudo, quis o destino – esse fanfarrão – que as vidas dos dois se reencontrassem em um momento melancólico. A Procuradoria-Geral da República denunciou Joesley, nesta quinta (14), junto com Temer e demais membros do chamado ''Quadrilhão do PMDB''. Envolvendo a cúpula do partido na Câmara dos Deputados, o esquema de corrupção teria sido responsável por vender facilidades ao setor empresarial, cobrando propinas em negócios que envolveram estatais e órgãos públicos.

O destino contou, claro, com a ajuda de indícios de omissão e manipulação da delação dos controladores da JBS à Justiça descobertos graças, entre outros motivos, à incapacidade de Joesley de usar um gravador comum – produzindo evidência contra si mesmo. Com isso, Rodrigo Janot decidiu revogar a imunidade penal dos delatores – que estão presos temporariamente em Brasília.

Também estão na cadeia outros membros do ''Quadrilhão do PMDB'', conforme investigação da Polícia Federal, como Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha. A denúncia usa elementos fornecidos pelos controladores da JBS e pelo corretor de valores Lúcio Funaro.

Temer está sendo denunciado, agora, por obstrução de Justiça e organização criminosa. A primeira denúncia, por corrupção passiva, foi barrada graças a um comércio a céu aberto de votos na Câmara dos Deputados, em que emendas, cargos e, principalmente, apoio para a aprovação de leis e perdões de dívidas rolaram soltos.

A Feira Livre da Câmara dos Deputados deve ser instalada novamente assim que o ministro Edson Fachin encaminhar a denúncia para ser analisada pelos parlamentares. Que devem apelar novamente para a economia. Já que ela dá alguns sinais de melhora (graças ao sacrifício monstruoso da parte mais pobre da população, diga-se de passagem), será usada como a desculpa para manter tudo como está. Afinal, corrupção só é um problema nacional quando é responsabilidade do PT.

Independentemente de tudo isso, em um país em que tanta coisa não faz sentido, não deixa de ser um alento ver o procurador-geral da República denunciar simultaneamente a pessoa que conspirou pelo posto político mais importante do Brasil (nem estou entrando no mérito da eterna discussão impeachment vc golpe) ao lado do dono da maior empresa de proteína animal do mundo (que chegou a ter uma bancada de congressistas para chamar de sua e foi envolvida em denúncias de redes de produção relacionadas a desmatamento ilegal, trabalho escravo e outros problemas sociais).  São os dois lados de uma mesma moeda que muitos gostam de esquecer. Pois não existe corrupção apenas com políticos, o setor privado é tão importante ou mais no processo.

Dificilmente a derradeira denúncia do procurador-geral da República contra Michel Temer irá afastá-lo do cargo para que seja julgado pelo Supremo Tribunal Federal. O Brasil pode estar quebrado, mas Temer vai continuar oferecendo aos parlamentares e seus patrocinadores o país tem de sobra, que é o futuro de sua gente. Promessas de apoio para mudanças de leis, regras e normas serão novamente colocadas à mesa, rifando a qualidade de vida dos trabalhadores e das populações mais vulneráveis, além do futuro das próximas gerações. Isso sem contar que, na ausência de opção melhor, sua saída não é está na pauta de empresários e do mercado – que lucra com as reformas redutoras de direitos sociais que ele tem conseguido aprovar

Ou seja, é remota a chance de ver um reencontro de Michel Temer e Joesley Batista em um banho de sol na Papuda.

(Veio-me à cabeça, agora, uma das alegorias do inferno: uma salinha fechada em que dividimos espaço com nosso pior inimigo pela eternidade.)

Mas, recorrendo a outra figura de linguagem que também adoro, o cinismo, não acho improvável que, daqui a um tempo, os dois, livres, leves e soltos, ainda dividam o mesmo espaço em algum rega-bofe de um grande empresário qualquer. E, de longe, cumprimentem-se com os olhares e façam um discreto brinde à capacidade de esquecimento do Brasil.

Espero estar enganado, mas a História insiste em dizer que não estou.

Em tempo: Falando em ironia e cinismo, é impossível não citar a mensagem ridícula que o prefeito de São Paulo João Doria mandou ao ministro da Fazenda Henrique Meirelles. Diante do convite do PSD, partido do ministro, para que ele seja seu candidato à Presidência da República no ano que vem e o murmurinho que isso gerou em alguns círculos da direita liberal, o prefeito reclamou. Pediu a Meirelles que ''não se contamine pela questão política''. Segundo ele, ''não é hora, nem tempo para isso''. É quase nonsense que Doria, em plena pré-campanha para a Presidência da República, viajando o Brasil e o mundo para tanto, cobre de Meirelles que fique fora do jogo político. Mais direto apenas se ele dissesse ''ministro, tenha modos e não me atrapalhe''.


Pergunta que vale R$ 51 mi: Quanto tempo Geddel leva para entregar Temer?

Leonardo Sakamoto

Foto: Lula Marques

José Dirceu se mantém calado e promete ficar assim até o túmulo porque acredita ter uma causa. Antônio Palocci precisou de um ano para mostrar que entrega a mãe se necessário for – se trouxer provas a tudo o que diz saber, produzirá um belo rebosteio no PT, no sistema financeiro e em outras grandes empresas. Eduardo Cunha, após algumas semanas de xilindró, mandou perguntas escritas a Temer como parte de sua defesa no estilo ''eu sei o que fez no verão passado porque eu estava lá passando protetor solar em você''.

A pergunta que vale R$ 51 milhões agora é: quanto tempo Geddel Vieira Lima vai aguentar de bico calado na cadeia antes de começar a entregar os companheiros do ''Quadrilhão do PMDB'' que ainda estão soltos em nome de um acordo?

Após a Polícia Federal estourar a boca, quer dizer, descobrir o apartamento em Salvador que continha o que pode ser parte do ''fundo de aposentadoria'' do núcleo do fisiologismo nacional, ele foi preso. Vale lembrar que, em julho, última ocasião em que passou pela Papuda, Geddel chorou diante do juiz que o manteve sob prisão preventiva apenas três dias após ter chegado.

Três dias. Tempo insuficiente até para assistir aos episódios atrasados de Game of Thrones ou Black Mirror. Não importa se as lágrimas foram sinceras ou não, isso é indício de que ele não está disposto a amargar uma longa temporada em cana.

Claro que sou contra a perversão do instrumento que ficou conhecido como ''delação premiada''. Pessoas têm sido condenadas em praça pública com base em confissões de criminosos que querem salvar a si próprios, sem a preocupação de que os fatos sejam verdadeiros.

Feito a ressalva e considerando que o governo Michel Temer está naufragando pelo peso da corrupção que ele mesmo trouxe à luz do dia, acho que isso tem potencial para passar a limpo décadas de relações políticas. Porque uma delação de Geddel, que apoiou governos do PSDB, PT e PMDB, apenas não seria melhor do que uma delação do próprio Temer.

Os defensores da colaboração premiada apontam políticos como os únicos chefes de quadrilha, o que não é verdade. Empresários moldaram o Estado de acordo com suas necessidades, comprando e vendendo quem fosse preciso, sangrando os cofres públicos, escrevendo e aprovando leis que os beneficiavam.

Portanto, os membros do ''Quadrilhão do PMDB'' deveriam delatar os grandes empresários e os representantes do mercado, do agronegócio ao sistema financeiro, das indústrias ao comércio, de quem constrói estradas até as histórias do porto de Santos. Isso seria o empurrão que falta para uma Reforma Política real (e não o simulacro apresentado) e uma Reforma Tributária com justiça social.

De cara, também envolveria nomes importantes do tucanato, do qual também foi aliado. Baseado nas informações que traria, seria praticamente impossível a Justiça continuar se esquivando de dar o mesmo tratamento ao PSDB que tem conferido a outros partidos envolvidos em corrupção. Correligionário de Aécio dizem que ele dificilmente iria preso porque, sob uma (improvável) ameaça real de sentir o gosto de uma quentinha, diria tudo o que os investigadores querem saber. Mas, além do foro especial, sempre tem um Supremo à disposição.

Geddel deveria se inspirar no exemplo do doleiro Lúcio Funaro, outro membro do ''Quadrilhão'', que, em sua colaboração, contou que o então vice-presidente Michel Temer tramava ''diariamente'' a deposição de Dilma Rousseff com o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Nada que ninguém não soubesse, mas vindo de dentro tem sempre mais força para quem ainda não entendeu o que aconteceu e precisa que tudo seja desenhado.

Você pode achar que Dilma Rousseff faz um péssimo mandato e é uma das responsáveis pela terrível situação econômica do país, como eu acho. E pode ser contra ou a favor do impeachment, o que pouco importa para o debate deste post.

Mas se acompanha a política nacional sabe que a articulação conduzida pelo vice Michel Temer para a destituição da presidente do seu cargo, com a ajuda de Eduardo Cunha e do que há de mais bizarro no Congresso Nacional, teve rabo, orelha e focinho de conspiração. Afinal, um vice deveria ficar no seu canto, como fez Itamar Franco na época de Collor, e esperar, em silêncio, o desfecho. E não trabalhar abertamente para ficar com o Palácio do Planalto, prometendo mundos e fundos a políticos e empresários.

Aliás, Lúcio Funaro afirmou também em sua delação, já homologada pelo Supremo Tribunal Federal, que Michel Temer dividiu propina recebida da Odebrecht com Geddel Vieira Lima.

Por isso, gostaria de falar agora com Geddel: Meu caro, você está preso. Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco, não. Você terá que trocar o uísque por Maria-Louca. E não vai rolar mais delivery de pizza gourmet, apenas jumbo. Enquanto eles aproveitarão praia, você ficará curtindo um banho de sol. Pensa bem, eles valem a pena?

Delata tudo, Geddel.


Nova ocupação com 6 mil famílias é fruto do desemprego, afirma MTST

Leonardo Sakamoto

Fotos: Gica TV/MTST

Cerca de seis mil famílias ocupam uma área de 70 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo (SP) desde a madrugada do dia 02 de setembro. Inicialmente, eram 500 famílias que chegaram ao terreno, em um bairro central, vizinho de condomínios de alto padrão, no município do ABC paulista. Mas o fluxo de gente não parou desde então e a imagem dos barracos de lona enfileirados impressiona. Os números são do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que organiza a ocupação.

''A área estava vazia antes, não tinha nada. Agora ela está cumprindo uma função social, conforme pede nossa Constituição'', afirma Maria das Dores Cerqueira, 47 anos, uma das coordenadoras do movimento.

Confeiteira desempregada (''pela minha idade, o mercado de trabalho não quer pegar mais eu, não''), ela conta que o déficit habitacional no município é de mais de 92 mil famílias. E que o tamanho da mobilização é devido, em grande parte, à situação do país.

''O agravamento da crise econômica, o desemprego e a piora da situação social estão criando um verdadeiro barril de pólvora nas periferias urbanas'', afirma Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST. ''Porque as pessoas, quando ficam desempregadas, não conseguem mais pagar o aluguel. Há milhares, no Brasil todo, sem alternativas, sofrendo despejos individuais. Não resta outra alternativa a essas famílias do que se organizarem e ocuparem.''

Segundo ele, isso ocorre em todo o país. ''O aconteceu em São Bernardo, aconteceu em Guarulhos, algum tempo atrás, em outra ocupação gigantesca.''

A MZM Incorporadora, proprietária do terreno, conseguiu uma ordem de reintegração de posse. O juiz Fernando de Oliveira Ladeira, da 7ª Vara Cível de São Bernardo, autorizou a reintegração de posse da área e a desocupação do terreno. Os advogados do MTST entraram com um recurso e esperam uma nova decisão judicial.

Os ocupantes prometem ficar. Este blog tentou contato com a incorporadora, mas não conseguiu até a publicação deste post.

''A Prefeitura até já tinha notificado o proprietário porque o terreno não cumpria função social. A gente vai resistir sim'', afirma Maria das Dores. Ela reclama da guarda civil municipal que estaria fazendo papel de polícia, causando constrangimentos para quem entra com carro para levar mantimentos e água aos demais.

''A decisão judicial é irresponsável porque não considera a situação das famílias, sem dar alternativas de moradia, simplesmente determinando que a polícia cumpra uma reintegração num terreno que estava abandonado há mais de 30 anos'', afirma Boulos.

Para ele, isso é grave e pode gerar conflitos de grandes proporções – uma alusão à violenta desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, em janeiro de 2012. ''O movimento quer uma saída pacífica e negociada, mas isso passa por colocar na mesa a solução do problema habitacional daquelas famílias. O caso deve ser tratado como de política pública e não de polícia.''


PF prende Temer por Pinho Sol. Movimento quer seu impeachment por blasfêmia

Leonardo Sakamoto

Temer almoça entre embaixadores em churrascaria para defender a exportação de carne em meio à Operação Carne Fraca em março. Foto: Sérgio Lima/Poder360

''Como em toda organização criminosa, com divisão de tarefas, o presidente Michel Temer se utiliza de terceiros para executar ações sob seu controle e gerenciamento.'' De acordo com a Polícia Federal, o ocupante da Presidência da República possui poder de decisão nas ações do ''Quadrilhão do PMDB''.

A organização criminosa, de acordo com relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, contaria, além de Temer, com Eliseu Padilha e Moreira Franco – esses três soltos por contarem com foro privilegiado, por enquanto. E com Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Eduardo Cunha, no momento, presos. Mas também com Rodrigo Rocha Loures, Tadeu Filippelli, Sandro Mabel, Antonio Andrade, José Yunes e Lúcio Vieira Lima.

A investigação apontou indícios de que o supremo mandatário tenha recebido vantagens de R$ 31,5 milhões, o que ele – claro – nega. Temer agiria para a indicação de cargos, articulação com empresários beneficiados nos esquemas, recebimento de valores e relações com doações eleitorais. Ou seja, um homem de múltiplas habilidades, que cobra o escanteio e corre para cabecear ao gol. Sinceramente, nada que já não havia sido revelado pela imprensa.

Não é novidade que grupos políticos tenham montado esquemas para garantir governabilidade ou sua permanência no poder desde a fundação do país. A diferença é que, diante de elementos muito menos robustos do que os apresentados para o ''Quadrilhão do PMDB'', um processo de impeachment estaria em curso e organizações da sociedade civil convocariam grandes protestos.

A hipótese corrente é de que o governo não cai porque adquire os votos dos quais precisa para afastar denúncias no Congresso Nacional através da liberação e de cargos e emendas mas, principalmente, pelo apoio à aprovação de leis e ao perdão bilionário de dívidas que beneficiam os próprios parlamentares e seus patrocinadores. Como ocorreu com a bancada ruralista, que vai herdar um Brasil em que meio ambiente, povos indígenas e Previdência rural sejam um ''problema'' menor do que hoje.

Ao mesmo tempo, o governo tem afagado o Pato Amarelo, ou seja, sido competente para aprovar uma agenda de reformas que reduz os gastos com a proteção aos trabalhadores mais pobres e suas famílias a fim de garantir a manutenção de de políticas que beneficiam os negócios dos mais ricos. E tira a fatura pela crise do colo dos mais ricos, evitando mudanças tributárias guiadas por justiça social e redistribuição.

E como não há consenso sobre quem ou o quê iria para o seu lugar, tudo fica como está. Em um ambiente em que a oposição luta para sobreviver às próprias denúncias de corrupção que recebe, parte dos sindicatos está mais interessada em salvar a contribuição sindical obrigatória do que em lutar pelos trabalhadores e que muitos se dedicam mais em compartilhar textos de apoio a Lula do que ir às ruas contra o desmonte do Estado social ou mesmo participar da discussão de um novo projeto para o país, o ''Quadrilhão do PMDB'' prossegue.

Por isso, confio na hipótese de que a Polícia Federal segue uma linha promissora de investigação, apurando, neste momento, denúncias de que uma quantidade razoável de Pinho Sol estaria estocada nos porões do Palácio do Planalto.

Considerando que portar o perigoso produto levou ao jovem negro e pobre Rafael Braga, a ser o único condenado nas manifestações de Junho de 2013, no Rio de Janeiro, imagina-se que apenas uma caixa seria indício suficiente para que a Procuradoria Geral da República e o STF destituíssem Eliseu Padilha e Moreira Franco. Rafael foi, posteriormente, também condenado e preso por, segundo a polícia, portar 0,6 g de maconha e 9,3 de cocaína – o que ele nega. Mas ele não é presidente, nem tem Gilmar Mendes como padrinho do casamento de sua filha, então, segue na cadeia.

Ao mesmo tempo, um alerta soou a movimentos que atuaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Recentemente, eles incitaram a população e organizaram a turba para censurar uma exposição que tratava da temática LGBT, questões de gênero e diversidade sexual, com obras de Cândido Portinari, Adriana Varejão, Lygia Clark, Leonilson, em Porto Alegre Acusou-a de blasfêmia, pedofilia e zoofilia.

Agora eles tiveram contato com o livro de poesias ''Anônima Intimidade'', de Michel Temer, e ficaram escandalizados com o que leram. Ao que tudo indica, esses movimentos se organizam a voltar às ruas, pedindo a deposição de Michel Temer. ''Não entendo que isso seja arte'', teria afirmado uma coordenadora do movimento. Temer é acusado de satanismo e de apologia ao uso de maconha pelos versos: ''De vermelho/ Flamejante/ Labaredas de fogo / Olhos brilhantes / Que sorriem / Com lábios rubros / Incêndios / Tomam contam de mim''.

A sacanagem do desmonte do Estado de proteção social somada à corrupção pornográfica e a céu aberto são insuficientes para levar os deputados federais, sócios da suruba, a votarem um afastamento presidencial diante de denúncias encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ao mesmo tempo, é mais fácil ver uma onda de intolerância popular por uma exposição de arte, organizada por grupos que se dizem liberais, mas são contra a liberdade de expressão e que, até pouco tempo atrás, bradavam contra a corrupção, do que indignação pelo ''Quadrilhão do PMDB''.

Se a lógica e a razão deixaram de funcionar no ''Brasil da Era do Foda-se'', talvez Pinho Sol e um pouco de poemas de caráter duvidoso resolvam.


Governo Temer ataca novamente com chantagem pela Reforma da Previdência

Leonardo Sakamoto

Foto: Andre Coelho/Agência O Globo

''A gravidade da situação é essa: estamos prestes a não poder pagar a Previdência.'' A frase é de Dyogo Oliveira, ministro do Planejamento, em evento da Fundação Getúlio Vargas, nesta segunda (11), em São Paulo. ''Não há possibilidade de estabelecer equilíbrio fiscal sem a reforma da Previdência.''

O governo federal tem apelado, há um bom tempo, para a chantagem como instrumento de convencimento público quando o assunto é a reforma das aposentadorias.

Em março deste ano, Michel Temer afirmou que ''se não se fizer essa reforma agora, daqui a três anos teremos que fazer, senão daqui a sete paralisamos o país''. O profético depoimento foi dado durante uma conferência Bank of America Merrill Lynch em São Paulo, segundo a conta de Twitter do Palácio do Planalto.

E, em junho do ano passado, Temer afirmou que ''ou a Previdência Social tem de ser reformulada ou então todos os pensionistas sofrerão''.

Isso sem falar da peça de propaganda veiculada pelo seu partido, o PMDB, nas redes sociais neste ano: ''Se a Reforma da Previdência não sair: Tchau, Bolsa Família; adeus, FIES; Sem Novas Estradas; Acabam os Programas Sociais'', diz uma imagem com o logo do partido. No fundo, a ilustração de uma cidade em ruínas.

Como já escrevi diversas vezes neste blog, acredito que o Brasil precise de uma Reforma da Previdência e de uma Reforma Trabalhista. Mas não os dois pacotes de maldades que foram propostos por esta administração. O segundo foi aprovado sem o devido debate e o primeiro só não teve o mesmo fim ainda porque a popularidade de Michel Temer é menor até do que a nova tomada de três pinos.

De acordo com a última pesquisa Datafolha sobre o tema, 71% da população brasileira era contra a Reforma da Previdência. Enquanto isso, a avaliação do governo Temer conta com 70% de ruim e péssimo, segundo a última pesquisa Ibope.

Neste momento, a Presidência da República deveria convocar um grande debate nacional sobre o tema, buscando ouvir diferentes pontos de vista para desenhar uma Previdência Social que não mantenha distorções e nem beneficie apenas alguns grupos em detrimento ao restante da população. E que não seja usada como caixa de emergência do governo, com uma captação capaz de combater a sonegação por parte das empresas, garantindo o futuro dos mais pobres e da classe média.

O problema é que governo e Congresso Nacional já romperam todas as ligações possíveis com a vontade da maioria de seus eleitores. Representam a si mesmos (afinal, a maior bancada é dos deputados-empresários) e a seus patrocinadores. Além das forças políticas que prometeram salvá-los da guilhotina das punições por corrupção. O que mostra que a opinião dos eleitores é considerada como argumento importante apenas quando serve para depor um partido político adversário.

O pior é que o governo federal não precisa do apoio de 308 votos de deputados federais para aprovar a parte da Reforma da Previdência que causará o maior impacto entre os trabalhadores mais vulneráveis. Enquanto a imposição de uma idade mínima de 65 anos, para homens, e 62, para mulheres, depende de emenda ao artigo 201 da Constituição Federal, outras mudanças propostas podem ser desmembradas e passar como leis complementares ou ordinárias, apresentadas na forma de medidas provisórias pelo Palácio do Planalto.

Para os mais pobres, a idade mínima já existe no Brasil uma vez que eles não conseguem se aposentar por tempo de contribuição (35 anos, homens, 30 anos, mulheres). Hoje, é necessário um mínimo de 180 contribuições mensais (15 anos) para poder se aposentar por idade (65, homens, 60, mulheres). Com a reforma, o número salta para uma carência de 300 contribuições (25 anos). Isso não afeta diretamente os extratos superiores da classe média, que já contribuem por mais tempo ao sistema, mas a faixa de trabalhadores mais pobres. Esses, contudo, não se encaixam nas categorias de pobreza extrema, beneficiadas diretamente pela assistência aos idosos carentes. Ficaram no limbo ou perderão qualidade de vida para se encaixar nas faixas do BPC.

A depender da estratégia e da proposta do governo, os projetos poderiam ser apresentados por lei complementar à Constituição, o que demanda maioria absoluta (ou seja, 257 votos na Câmara), ou lei ordinária, que demanda maioria simples – ou seja, maioria dos presentes em sessões deliberativas com, pelo menos, 257 parlamentares. Menos dos que os 308 de uma emenda constitucional.

Ao mesmo tempo, as regras para aposentadoria de trabalhadores rurais da economia familiar, extrativistas, pescadores, coletoras de babaçu, entre outros, também podem sofrer mudanças através de projetos de lei e não por propostas de emenda à Constituição. Nesse sentido está a mudança de 15 anos de comprovação de trabalho (com arrecadação de imposto previdenciário no momento da venda da produção) para 15 anos de comprovação de contribuição, com pagamento mensal de carnê. O que, dada as condições de vulnerabilidade social desse grupo, inviabilizará sua aposentadoria – conquistada cinco anos antes do restantes dos trabalhadores urbanos e rurais, segundo a Constituição.

Enquanto isso, o governo federal concede perdões bilionários a dívidas previdenciárias do agronegócio.

Temos mais opções para além do maniqueísmo e da dualidade rasos. Sempre. Mas querem nos fazer crer que não. Temer não optou por essa formulação de frase: ''Ou a Previdência Social é reformulada ou então dividendos voltarão a ser taxados de sócios de empresas.'' Há estudos conduzidos pela equipe econômica do governo que preveem isso, o que ajudaria a diminuir a injustiça tributária. Mas atinge diretamente a classe social daqueles que mandam no país.

Outro exemplo: por que o governo preferiu dizer ''Ou a CLT é alterada ou então o Brasil não conseguirá gerar empregos'' ao invés de ''Ou a CLT é alterada ou então teremos que fazer uma ação firme para combater a sonegação de empresas, que representam dezenas de bilhões em prejuízos aos cofres públicos''.

Ou por que preferiu ''Ou cortamos recursos para educação e saúde ou o Brasil vai parar'' quando poderia ter dito: ''Ou cortamos recursos para educação e saúde ou implantamos impostos sobre grandes fortunas, grandes heranças e aplicamos uma alíquota nova no imposto de renda, de 40%, sobre a alta renda dos muito abastados''.

A beleza de uma democracia é que, nela, os caminhos deveriam ser discutidos abertamente e as decisões tomadas coletivamente. E se há um buraco a ser coberto, que ele seja socializado – com os mais vulneráveis pagando menos o pato do que os mais protegidos. Como não há dinheiro em caixa, está sendo dado ao povo uma escolha: ou aceita a revisão de seus direitos, diminuindo seu alcance e efetividade, ou fica sem nada. Isso está longe do que se espera de uma democracia.

O problema é que o ''autoritarismo'' é como uma ''chantagem'': ambos podem ser lustrados com óleo de peroba para perder o jeito opaco, a dureza e a asperez. Mas não perdem sua natureza.


O inimigo não é quem pensa diferente de você, mas quem não pensa

Leonardo Sakamoto

O inimigo não é quem pensa diferente de você, tem outra ideologia, outra identidade, outra vida. Mas quem não pensa e, a partir desse vazio, ataca a existência de tudo à sua volta que não lhe faz sentido. O seu inimigo não é seu adversário político ou econômico, mas quem repete mantras violentos que lê na internet, ouve em bares ou vê em certas igrejas e não para para pensar qual a origem daquilo e a quem interessa que esse discurso seja assim. É quem promove um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando o outro uma coisa sem sentimentos e, ao fim, pede sua extinção.

Ou, pior: o inimigo é quem terceiriza o pensamento para grupos que manipulam a massa em nome de seus interesses. Massa que, por conta disso, é facilmente conduzida, achando que está em uma cruzada civilizatória. Quando, na verdade, é apenas gado.

Isso transcende categorias como ''direita'' e ''esquerda'', vai muito além. A direita e a esquerda democráticas ainda acreditam no diálogo político, por mais que a capacidade da própria democracia representativa em garantir respostas sobre a qualidade de vida esteja em profundo descrédito. Pois a boa política não prega a censura e punição do outro quando este não ameaça nossa existência. Isso quem faz é uma ditadura.

Essa violência significa a negação da política, a negação da arena pública em que problemas e divergências são expostos, debatidos e resolvidos, conciliados ou tolerados. Evitando, dessa forma, que nos devoremos. E não estou falando daquela negação da política que é apenas estratégia de comunicação de campanha de políticos que se dizem não-políticos e vendem um discurso extremamente ideologizado travestido de não-ideológico. Mas sim da negação como destruição.

Enquanto direita e esquerda brigavam entre si nas páginas de redes sociais e em veículos de comunicação, algo amorfo e fétido cresceu assustadoramente, muitas vezes de forma anônima e apócrifa. Isso não foi silencioso, pelo contrário, acabou sendo tão estridente que quem estava acostumado ao diálogo tradicional acabou por interpretar tudo como indecifrável ruído. No final, o ''ruído'' pode levar Salvadores da Pátria, com ''abraço de pai e pulso firme'', a gerenciarem a nação.

Há aqueles que se utilizam da justificativa da discussão política para poder extravasar seu desejo por sangue e demonstrar toda sua incapacidade de sentir essa empatia pelo semelhante e sua incompreensão com o mundo. Que se sentem confortáveis ao vomitar suas verdades, tachando de ''mentira'' ou ''mal'' tudo o que for contra elas. Ou aqueles que não conseguem ser contestados ou admitirem ignorância sobre algo sem usar a agressividade como saída. Fazem isso sobre temas da vida pública, como política, mas fazem o mesmo em nome de seu time de futebol, de sua religião, de sua cor de pele, de sua origem social, sua orientação sexual, sua identidade de gênero – ou de qualquer outra razão.

Sim, o ódio é um lugar quentinho. Tal como a ignorância. Difícil, portanto, abandoná-los – ainda em tempos frios, como o inverno que começamos a viver

Nesse momento, o adversário político se torna um inimigo. Construir pontes passa a ser visto como coisa de idiota, enquanto executar vinganças vira um ato de coragem. Elegem-se ''heróis'' e ''vilões''. E vai-se à guerra, considerada santa, para matar ou morrer.

Sobre tudo isso, pairam grupos bastante conscientes de tudo isso, guiando a massa disforme. Seus líderes pouco se importam com ideologia. Para falar a verdade, venderiam a mãe a um bom preço, se necessário – e alguns até já fizeram isso. São capazes de tudo para chegar ao poder e mantê-lo.

Para que a vida faça sentido a seus seguidores, abraçam uma ideia e simplificam o mundo ao máximo. Quem vai contra essa corrente, é chamado de ''isentão''. Cada um tem que escolher seu lado. Se você não é hétero é homo. Se defende políticas para os mais pobres, não pode ter um smartphone. Ou apoia a campanha de terra arrasada do governo contra as drogas ou é um usuário de crack que rouba o pai pelo vício. Tudo o que foge da heteronormatividade corrente é abominação e um desrespeito à família. Acha que um partido político representa toda a maldade no mundo ou acredita que da boca de seus líderes fluam rios de leite e mel. E, a partir daí, tentam calar ou assegurar que esses deixem de existir.

A saída para contrapor tudo isso não é mais silêncio, mas outras vozes.

Ampliar o debate público de qualidade ao máximo, nas escolas, na mídia, nos bares, em casa, na rua, em qualquer lugar, pode ajudar a evitar o evitável. Discordar abertamente, de forma democrática e respeitosa, sabendo falar e ouvir é preciso para criar um contexto em que discursos de ódio não encontrem espaço. Preconceitos e intolerância brotam em uma mesa de bar ou em timeline porque são tolerados socialmente. A partir do momento em que uma grande maioria disser ''não'', o debate se qualifica por mudança de comportamento ou exclusão do grupo.

Se passageiros de um ônibus ou trem não fazem nada diante da violência sexual contra uma passageira, a violência de gênero continua sendo ''normal''. No debate público, é a mesma coisa.

Isso precisa acontecer com mais intensidade e quantidade. E agora.

Caso contrário, teremos uma longa noite para refletir sobre o que deixamos de fazer.

 


Furação Irma: Após o apocalipse, os ricos herdarão a Terra

Leonardo Sakamoto

Furacão Irma, seguido à direita pelo furação Jose. Foto: AP/NOAA

O problema é que os pobres são os que sempre se estrepam primeiro quando qualquer teoria se confirma.

A frase de efeito foi dita em uma conversa com um amigo letrado nos paranauês da Inteligência Artificial. Ele me explicava que o debate sobre a evolução das máquinas a ponto delas ganharem consciência (seja ela o que isso for) e, hipoteticamente, se voltarem contra nós, como a Skynet na série ''O Exterminador do Futuro'', é perfumaria de homem branco entediado.

Afinal, se isso acontecer um dia, afetando a vida dos moradores ricos do Vale do Silício, terá sido muito tempo depois dos grupos vulneráveis já terem suas vidas transformadas em inferno pós-apocalíptico pelas máquinas, obedecendo a padrões programados pelos grupos e setores que governam a humanidade.

Um sistema digital de cálculo de risco de seguros, por exemplo, tende a ser programado para dar avaliações diferenciadas para um homem branco e uma mulher negra. O mesmo vale para questões de segurança pública, ou seja, considerando que a quantidade de negros entre as pessoas encarceradas é maior que sua participação na sociedade, uma inteligência artificial pode ser programada para usar essa informação a fim de gerar ''processos mais efetivos de controle de criminalidade''.

O problema é que estará atuando a partir do efeito – vigilância maior de bairros de maioria negra em busca de suspeitos, que é o que já acontece – e não das causas, entre elas um sistema que ignora as vulnerabilidades sociais do grupo em questão e as condições que levaram alguns de seus membros ao crime. Isso somado ao aprofundamento da violação da privacidade, a programas que permitem reconhecimento facial e à utilização de modelos matemáticos, podemos construir uma sociedade semelhante à do filme Minority Report, protagonizado por Tom Cruise (#adoro), em que crimes são impedidos e os envolvidos presos preventivamente.

Mas, nela, o andar de baixo seria sistematicamente mais punido porque o sistema obedeceria às ordens dadas pelo andar de cima, em um processo feito à sua imagem e semelhança.

A partir do momento em que redes complexas usam bases de dados existentes, já programadas com nosso preconceito, racismo, xenofobia, homofobia, transfobia, enfim, para desenvolver-se, pode-se esperar que ela vai reproduzir essas práticas.

Um sinal do que seria isso aconteceu quando a Microsoft foi forçada a desativar um chat bot projetado por ela, para conversar com usuários no Twitter, acionado por inteligência artificial. Como ele aprendia a partir das trocas na rede, acabou por dar declarações racistas, insultar uma pessoa, apoiar Hitler e propagar teorias da conspiração.

Uma sociedade em que inteligência artificial seja usada para organizar a vida cotidiana baseada em como nossa sociedade é hoje, mas sem mediação humana, pode apenas aprofundar a crueldade com a qual tratamos os grupos que tem seus direitos sistematicamente excluídos e são alvo do ódio e da intolerância. Normalmente, os mais pobres.

De certa forma, é o que acontece também com as mudanças climáticas e os desastres envolvendo fenômenos meteorológicos ou sísmicos. Por mais que o planeta inteiro seja afetado a partir do momento em que a raça humana resolve ajustar o termostato do planeta para a posição ''Instalar o Caos Lentamente na Vida dos Idiotas'', os mais ricos sofrerão inicialmente menos impacto.

Eles não terão que marchar em grandes levas migratórias fugindo das secas, morando em campos de refugiados ambientais. Diante da iminência de tempestades cada vez maiores por conta do aquecimento da água do oceano, os mais abonados conseguem sair mais facilmente de avião para um local mais seguro. O que não ocorreu necessariamente com os negros pobres, em New Orleans, atingidos pelo furacão Katrina.

Os ricos não vivem em áreas de risco que deslizam diante de chuvas fortes, como os morros cariocas. O Jardim Pantanal, bairro que submerge em caldo de cocô por conta da incompetência do poder público, é praticamente um depositório de gente que foi parar onde São Paulo acaba mais por falta de opções do que por escolha individual.

Com exceção dos fanáticos religiosos que enxergam sinais da primeira ou segunda vinda do messias (dependendo da religião em questão), apenas os mais míopes não percebem que o mundo está dando o troco. Não estou falando apenas do aquecimento global que facilita a formação de furações e das já irreversíveis mudanças climáticas que vão alterar a Terra nos próximos séculos, mas também dos crimes ambientais que fomos acumulando debaixo do tapete e que, agora, tornaram-se uma montanha pronta a nos soterrar. Ou um caldo de esgoto a nos tragar.

Um grande banco brasileiro me chamou, em 2007, para, junto com outros representantes da sociedade civil, analisar o seu relatório de sustentabilidade. Nele, que foi alterado antes da publicação, fazia uma análise crua, direta, objetiva e fria diante das mudanças climáticas. Claro que lá se vão dez anos, a consciência muda, as coisas mudam. Mas esse pensamento continua presente em boa parte das corporações, portanto, da nossa elite econômica, bem como em nossa elite política. Segue um trecho:

''Do ponto de vista dos impactos diretos das mudanças climáticas, o estudo [conduzido pelo banco, sobre negócios e mudanças climáticas] aponta um risco reduzido na estrutura da rede de agências e na composição do faturamento da organização, dado o horizonte de tempo em que a alteração do clima do planeta deve começar a afetar o Brasil com mais intensidade. À exceção das regiões litorâneas, as mais ameaçadas pelo aumento do nível do mar, o restante do território brasileiro não deve ser diretamente atingido.

A queda de oportunidades de trabalho no campo, o empobrecimento de faixas importantes da população e o consequente fluxo migratório para as grandes cidades poderão acarretar aumento do desemprego, gerando impactos sociais negativos como o crescimento da violência e da favelização e o fortalecimento da economia informal.

Nesse cenário, poderia-se observar uma diminuição da fidelização dos clientes aos bancos, diante do acirramento da concorrência, cada vez mais concentrada em regiões metropolitanas. A importância de se trabalhar melhor a rentabilidade do cliente aumenta. Tais fenômenos implicam a necessidade de cadastro de clientes mais flexível e rapidamente atualizável, uma vez que uma movimentação mais intensa das pessoas amplia as oportunidades de negócio, tanto pelo volume de recursos quanto pelas oportunidades de financiamento.''

A maioria dos que vivem de dividendos ou de salários suficientes para ''contornar os transtornos climáticos'' segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto do mundo que se dane. Não querem mudanças nos modelos de desenvolvimento e de consumo que impactaria o “American Way of Life” que importamos. Acham que basta apenas reciclar latinhas de alumínio. E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para construir um mundo melhor.

E enquanto discutimos com negacionistas, o relógio está correndo.

Por fim, antes da Inteligência Artifical criar qualquer Skynet da vida, vai mudar o emprego da população. A morte de profissões e o nascimento de outras é natural. Ninguém mais precisa de um trabalhador para acender as lamparinas de óleo de baleia e iluminar cidades. Mas o esforço de nos preparar para essa mudança, capacitando a mão de obra que será substituída, não tem sido à altura da substituição que já está acontecendo. A utilização de robôs (no sentido amplo da automação, de máquinas a softwares) vai gerar desemprego massivo, produzindo refugiados econômicos.

A verdade é que seja em um futuro apocalíptico ambiental ou tecnológico, os ricos herdarão a Terra.

Mas vão desfrutar o planeta por pouco tempo.


Joesley, Geddel, Palocci: Por que o roteirista do Brasil é imbatível?

Leonardo Sakamoto

Cortinas da última semana se abrem. Entra em cena um grupo vestido de amarelo-CBF. No meio dele, surge Alckmin. Após olhar para os céus e pedir a proteção de São Antônio de Pádua, comenta com um assessor que o maior arrependimento de sua vida foram as eleições de 2016. Logo atrás, vem um sorridente Doria, vestido de gari, quer dizer, de pintor, quer dizer de indígena, quer dizer de policial, dizendo que nada vai separá-lo do governador. E, enquanto tenta puxar um tapete, xinga um dos jornalistas que lhe faz perguntas.

Aparece Temer, em um púlpito com rodinhas, que cruza lentamente o palco da esquerda para a direita. Ele faz um pronunciamento à nação dizendo que a semana foi de ''boas novas''. No púlpito, uma foto autografada de Geddel, seu Best Friend Forever. De repente, a imagem dos R$ 51 milhões, descobertos em Salvador, é projetada num telão ao som de ''Regime Fechado'', de Simone e Simaria.

Um oráculo com o rosto de José Simão aparece da escuridão e diz à plateia: ''Todos têm que dar sua cota de sacrifício em nome da reforma das aposentadorias. Com a apreensão dos R$ 51 milhões, os caciques do PMDB dão a sua''.

Do fundo da plateia, em direção ao palco, surge Lula explicando a um grupo de fãs que Palocci nunca o prejudicaria. ''É meu companheiro há 30 anos.'' Nesse momento, o depoimento do ''Italiano'' à Lava Jato é tocado nos autofalantes do teatro e entra Sergio Moro de toga e capa de super-herói, acompanhado de Palocci, vestido como servo medieval da Alta Baviera. Também entra em cena um grupo de pessoas vestidas de vermelho-Che gritando e arrancando os cabelos, dizendo-se chocadas com a delação – não com com o conteúdo.

Volta o oráculo: ''Até a espuma do chope do Pinguim, em Ribeirão Preto, sabia quem Palocci era. Menos membros de seu partido e seu líder. Ahã, Claudia, senta lá''.

Aparece Joesley Batista cambaleando ao lado de Ricardo Saud, dizendo que o considera pra caralho e pedindo para não contarem todas as traquinagens que fizeram a Janot. Que passa atrás, tentando limpar a sujeira de boi deixada pelas botas de ambos. Pediria ajuda para um ex-auxiliar que assiste tudo fora do palco, mas percebe que as botas dele também estão imundas. Nessa hora, vem Luiz Fux correndo indignado, gritando ''Papuda! Papuda!'' O procurador-geral é, por sua vez, perseguido por um grupo de aliados de Temer e de parlamentares cobertos de lama que se revezam na tentativa de convencer a plateia de que o cheiro que sentem não é de estrume, mas de lavanda.

Sustentado por cordas e roldanas, Gilmar Mendes surge voando sobre todos, vestido de Padrinho de Casamento da Filha do Rei do Ônibus Carioca, distribuindo habeas corpus. Enquanto grita ''Moralidade! Moralidade!'', taca pedras em Janot e nos figurantes de vermelho e lança purpurina sobre Temer, que continuou circulando no palco em seu púlpito móvel perseguindo um grupo de empresários aos gritos de ''eu te amo, não me abandone''. A cena é quebrada pelo barulho da motosserra de ruralistas que resolvem derrubar as árvores do cenário, colocando bois em seu lugar. Bem ao fundo, vê-se um indígena crucificado enquanto grupos de religiosos fundamentalistas dizem que Tupã é o demônio.

Bolsonaro, que viajava pelo Brasil em campanha, faz uma rápida aparição vestido de Gru, seguido de muitos, muitos minions. Bradando ''Ahá, uhú! O Nióbio é nosso!'', corre para um grupo de mulheres e as ofende, depois diz que um grupo de quilombolas é indolente e chama para a briga um casal gay que passava pelo palco – enquanto isso, os minions estão vidrados em smarphones, postando o nome de seu líder em tudo o que é caixa de comentário na rede. Então, bate continência para dois generais, que o desdenham e saem.

As cortinas se fecham, mas a plateia nem percebe. Continua brigando entre si, defendendo o seu ''time, xingando muito nas redes sociais e gritando que verdade é tudo aquilo em que acreditam e mentira é tudo com o qual discordam. Quando uma moça propõe que todos superem a polarização burra, parem de se atacar e discutam uma reforma política decente que resgate a representação pública, é morta e esquartejada pelos demais.

Saciados, todos seguem para casa a tempo de pegar uma novela.


Geddel, preso pelos R$ 51 milhões, vai chorar novamente diante do juiz?

Leonardo Sakamoto

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Geddel Vieira Lima foi preso, na manhã desta sexta (8), atendendo a uma decisão da Justiça Federal em Brasília. A Polícia Federal apontou indícios de que os R$ 51 milhões apreendidos num apartamento em Salvador pertenceriam a ele, incluindo aí suas impressões digitais nas cédulas.

Segundo a decisão, Geddel estaria descumprindo os termos de sua prisão domiciliar (situação em que estava desde julho), pois são fortes os indícios de continuidade de conduta criminosa, como a lavagem de dinheiro.

O que impressiona nessa história é que ele manteve, naquele apartamento de piso frio e estética duvidosa, caixas de papelão e malas surradas com dinheiro suficiente para comprar uma votação de uma bancada de parlamentares (só uma, claro), mesmo depois de ter sido tragado para dentro de um escândalo político nos últimos meses. Mais do que cara de pau ou burrice é a certeza de que vivemos em um ambiente institucional tão esgarçado que a efetividade da lei continua a exceção, não a regra. E a consequente punição, um acidente de percurso.

Em novembro do ano passado, ao ser questionado sobre a pressão que realizou em nome da construção de um prédio onde ele teria um apartamento de luxo, em uma região tombada pelo patrimônio histórico em Salvador, o então ministro Geddel Vieira Lima afirmou diante da repercussão negativa: ''Deixar cargo por isso? Pelo amor de Deus!''

Em um (utópico) ambiente de respeito à ética, Geddel Vieira Lima teria chamado uma coletiva à imprensa, lido uma carta pedindo desculpas de forma constrangida e, depois, desaparecido da vida pública.

Acabou deixando o ministério para evitar que o caso lançasse (ainda mais) lama sobre o governo federal, atrapalhando o esquema do grupo político do qual faz parte. Seu derradeiro documento não foi dirigido à nação, mas ao supremo mandatário, começando com um ''Meu fraterno amigo presidente Michel Temer'' e terminando com ''Um forte abraço, meu querido amigo''.

''Retornado a Bahia, sigo como ardoroso torcedor do nosso [grifo meu] governo, capitaneado por um Presidente sério, ético e afável no trato com todos'', escreveu também. Ao que tudo indica, não ficou apenas na torcida.

Em julho deste ano, foi preso por suspeita de atrapalhar investigações da Operação Cui Bono, desdobramento da Lava Jato, que apura fraudes na liberação de créditos da Caixa Econômica Federal. Geddel teve um cargo no banco durante o governo Dilma e teria se beneficiado de esquema envolvendo grandes empresários.  Depois de alguns dias no presídio da Papuda, foi liberado pela Justiça para cumprir prisão domiciliar, mesmo sem tornozeleira eletrônica, devido à falta desse aparelho na Bahia, onde mora.

Assegurou ao magistrado que analisou sua soltura de que ''com toda a força da alma'' não faria nada para leva-lo novamente à prisão, para evitar o constrangimento pelo qual tem passado. E chorou diante do juiz, que o manteve preso. Não foi a primeira vez em que isso acontece. Quando investigado pela CPI do Orçamento, o então deputado federal Geddel Vieira Lima também chorou diversas vezes ao prestar depoimento em 1994. Naquela época, foi inocentado.

Essa é a parte que mais me fascina. Não me importa se as lágrimas foram falsas ou verdadeiras, mas que tipo de psicopatia está relacionada a alguém que comete crimes em série, segundo descrição do próprio Ministério Público Federal, e não encara as consequências de cabeça erguida? Como alguém que ocupa cargos importantes desde o governo Fernando Henrique Cardoso e tem sistematicamente sido envolvido em casos de corrupção, pode apelar para um expediente tão patético?

Talvez esteja exatamente nisso sua resistência e durabilidade. Afinal, em uma guerra nuclear, apenas os animais mais adaptados, que fazem o que for preciso ser feito, sobrevivem ao final.

O seppuku (conhecido aqui como harakiri) é um suicídio ritual, parte do código dos antigos samurais, realizado para evitar ou compensar a perda da honra. A discussão se esse é um ato de coragem ou de covardia é longa e não me interessa neste texto. E o Japão, ao contrário do que se imagina, é um país onde a corrupção corre intensa, junto à iniciativa privada e ao poder público. E essa não é a saída adotada na maioria dos casos, caso contrário, haveria um mar de sangue.

O então ministro da Agricultura de lá, Toshikatsu Matsuola, cometeu suicídio não com uma lâmina afiada, mas via enforcamento, em 2007. A razão foram os escândalos de corrupção e de mau uso de recursos públicos em que estava envolvido. O advogado Leonidas Tzanis, ex-ministro do governo grego, cometeu suicídio em 2012. Ele teve seu nome incluído numa lista de supostos fraudadores de impostos que circulou pelo país. Adrian Nastase, ex-primeiro-ministro da Romênia, tentou se suicidar com um tiro na garganta após a Justiça confirmar sua condenação a dois anos de prisão por corrupção também naquele ano. Financiamento ilegal de campanha.

Não estou sugerindo que Geddel ou qualquer outra pessoa siga esse exemplo bizarro. Considero mais avançado um sistema social no qual as pessoas que causem danos aos outros sejam punidas com a perda de patrimônio ou, nos casos extremos em que o indivíduo ainda represente um risco à sociedade em crimes contra a vida e a dignidade, perda de liberdade. Um sistema em que é possível a ressocialização. Ou seja, prefiro acreditar em uma sociedade capaz de recuperar ou pelo menos frear alguém com o perfil dele.

Estou apenas elucubrando se Geddel é capaz de sentir vergonha sincera por tudo isso. Ou se a vergonha que disse ao juiz ter sentido foi apenas por ter sido pego. Ou ainda se é tudo uma grande encenação e, em sua cabeça, vergonha temos que sentir todos os outros, manés diariamente subtraídos de sua dignidade, por seu grupo de amigos que segue no poder.

De acordo com o Painel, da Folha de S.Paulo, em almoço com aliados, Michel Temer afirmou que a gravação do diálogo entre Joesley Batista e Ricardo Saud era ''nojento''.

Sobre os R$ 51 milhões em espécie do ''fraterno'' e ''querido'' amigo Geddel, nem uma palavra.

Post atualizado às 16h30 para incluir informação sobre a CPI do Orçamento em 1994.


7 de setembro: Diz que ama o país, mas pensa só em si e o resto que se dane

Leonardo Sakamoto

Foto: Luis Moura/Estadão

Nunca consegui entender as pessoas que saem enroladas em bandeiras verde e amarelas. Amor ao país? Pode ser. Mas acho que o querer-bem a um determinado lugar se traduz através de ações individuais e coletivas para torná-lo melhor para se viver e não entulhando bandeirinhas no carro ou pendurando flâmulas na sacada da janela.

Uma coisa não exclui a outra, claro. Mas não adianta entoar mantras de amor a um lugar e estacionar em cima da ciclovia. Ou fazer vista grossa às pequenas corrupções do dia a dia. Ou sonegar impostos. Ou manter uma terra improdutiva ou um imóvel fechado por anos em nome da especulação imobiliária enquanto o país passa a vida ao relento.

Amar um território inclui amar a gente que nele vive. E isso passa mais por entrega e concessão ao grupo do que por reafirmação de desejos e vontades pessoais a cada momento. É pensar: será que isso que estou fazendo não vai atrapalhar a vida do coletivo?

Tenho um certo arrepio quando ouço alguém cantar ''Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor''. Se for em propagandas de cartões de crédito, até entendo. Mas por conta própria, assim, sem ninguém obrigar?

Da mesma forma, nunca entendi como algumas escolas se preocupam mais em ter alunos que saibam o hino à bandeira do que compreender Guimarães Rosa. Ou Machado de Assis.

Quando pequeno, lembro-me de ir a apenas um desfile do Dia da Independência, na avenida Tiradentes, aqui em São Paulo. E, mesmo assim, não ter ficado o suficiente para entender o que aquele bando de gente agitando bandeirinhas estava fazendo por lá. Uma das maiores contribuições dos meus pais foi exatamente ter me poupado de toda essa papagaiada patriótica.

Muito cuidado com lugares-comuns feitos para ajudar a forjar ou fortalecer o ''amor à pátria'', mostrando que ''somos iguais'' e ''filhos e filhas do mesmo solo''. Aceitar isso de forma acrítica é ignorar que a maioria é tratada como um bando de renegados, sem direito a nada além de gerar riqueza – para outros.

A letra do hino nacional brasileiro não é uma das mais bonitas do mundo, ao contrário do que afirmam correntes que circulam na rede. Até porque é impossível mensurar tal coisa. Mas ainda temos tristes índices de iletramento. Também é mito que a bandeira nacional (cujo verde não surgiu para representar ''nossas matas'', mas sim a casa imperial brasileira) é considerada uma das mais belas. Mas somos reconhecidos pelas altas taxas de desmatamento. O povo brasileiro não é, necessariamente, o mais alegre do planeta. Mas é um dos campeões de desigualdade social e de concentração de renda. A democracia racial, apesar de alardeada como exemplo planetário, não existe e, por isso, não nos define. O que nos explica são séculos de escravismo e suas heranças. O Brasil não é o país que tem a mulher mais bonita do mundo. Até porque esse país não existe. Mas somos um país reconhecidamente machista. Nossa comida não foi eleita a mais gostosa. Mas estamos entre os campeões globais de uso de agrotóxicos. Não está escrito em lugar algum que teremos um futuro grandioso pela frente. E se continuarmos maltratando o meio ambiente em nome do consumismo desenfreado, talvez nem tenhamos um futuro.

Por isso, me pergunto se não poderíamos fazer uma pausa para reflexão sobre nós e como estendemos o direito à dignidade a todos que habitam este território.

Ao invés de nos enrolarmos em bandeiras e financiar uma organização envolvida em corrupção como a CBF, comprando camisas amarelas, poderíamos nos juntar para discutir a razão de chamarmos indígenas de intrusos, sem-teto e sem-terra de criminosos, camponeses de entraves para o desenvolvimento e imigrantes bolivianos e haitianos de vagabundos.

Ou reivindicar que o terrorismo de Estado praticado na periferia das grandes cidades, em um genocídio lento dos jovens negros em nome de uma (irreal) sensação segurança dos mais abastados, pare.

Leitores binários da realidade bradam a quem fala de distribuição e igualdade em direitos que nossa bandeira é vermelha e a deles, verde-amarela. Além de ser uma frase brega pacas, não é real.

Não temos que amar nosso país incondicionalmente, como não devemos amar nada incondicionalmente. Mas gostar o suficiente para nos dedicarmos a entender e ajudar a tornar isso aqui um local minimamente habitável para a grande maioria da população.

Gente deixada de fora das grandes festas, entregues ao pão e circo de desfiles com tanques e motos de guerra em datas festivas. Mas que, quando voltam para casa, encaram a realidade da falta, da ausência, da dificuldade e da fome.

O melhor de tudo é que, todas as vezes que alguém levanta indagações sobre quem somos e a quem servimos ou conclama ao espírito crítico sobre o país, essa pessoa é acusada de não amar o país, no melhor estilo ''Brasil: ame-o ou deixe-o'' dos tempos da ditadura civil-militar.

Ou sua versão remodelada por Michel Temer: ''Não pense em crise, trabalhe''.

A verdade neste 7 de Setembro é que para muitos, brasileiro bom é brasileiro que sabe o lugar e a função que lhe foram impostos pela vida.

E aceita isso sem questionar.