Blog do Sakamoto

Droga ser responsável por 30% dos presos é sinal de falência da civilização

Leonardo Sakamoto

Moradoras da Rocinha se refugiam em passarela durante tiroteio. Foto: Gabriel Paiva/Agência O Globo

O Estado brasileiro deveria se focar em combater crimes contra a vida e a garantir a dignidade das pessoas, mas gasta seu tempo com uma falida ''guerra às drogas''. Caso legalizasse os entorpecentes, regulando seu comércio e tratando a questão como saúde pública, a disputa conflituosa de mercados de drogas – origem da violência relacionada ao tráfico – seria desidratada. E com isso, cairia o número de homicídios, de tráfico de armas e da corrupção envolvendo policiais e políticos. Hoje, superlotar cadeias com a prisão de traficantes serve, na melhor das hipóteses, para enxugar gelo. E, na pior, para entregar sangue novo às fações criminosas dentro dos presídios e, portanto, jogar gasolina em um prédio em chamas.

De acordo com a última atualização do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, divulgada nesta sexta (8), o país tem 176.091 pessoas presas por tráfico de drogas, somando as que foram condenadas e as que estão aguardando julgamento, o que representa quase um terço do total de encarcerados do país. Desse total, 151.782 são presos por venda de drogas, 20.122 por associação ao tráfico e 4.776 por tráfico interacional.

Os números mostram que o combate ao tráfico gera mais mortos que o consumo de drogas – até porque a droga que, estatisticamente, mais mata e provoca mortes se chama álcool. Você pode comprá-la no supermercado ou ver sua propaganda na TV. Mas ela não é proibida, apenas regulada. Tal como o tabaco.

A forma como o tráfico se organizou e a política adotada pelo poder público para combatê-lo estão entre as principais razões desse conflito armado organizado. Portanto, não há saída para a violência armada organizada e para o sistema prisional que não passe pela discussão da legalização. Outros países têm feito esse debate como uma das soluções para reduzir a disputa armada por territórios. Sabem que a ''guerra às drogas'' falhou, tendo sido útil para o controle da própria população sob o argumento do medo e para alimentar o tráfico de armas. Por aqui, infelizmente, ainda se discute qual o tamanho do porte de maconha que pode dar cadeia.

Vale lembrar o caso de Rafael Braga. Preso durante as manifestações de junho de 2013 pela acusação de portar artefato explosivo (ele carregava água sanitária e Pinho Sol), foi condenado e depois liberado para cumprir prisão domiciliar. Mas foi preso novamente, acusado de envolvimento com o tráfico de drogas. Segundo a polícia, ele carregava 0,6 g de maconha e 9,3 de cocaína e um rojão – o que ele nega, afirmando que o flagrante foi forjado. Mesmo assim, foi condenado a 11 anos e três meses de prisão por, segundo os policiais, carregar uma quantidade ridícula de psicoativos.

Por ter contraído tuberculose na cadeia e estar bastante debilitado, teve – finalmente – seu pedido de habeas corpus atendido pelo Superior Tribunal de Justiça, uma vez que o Tribunal de Justiça carioca negou sua soltura. Agora, vai cumprir a pena em casa. Detalhe desnecessário: Rafael é jovem, negro e morador de uma comunidade pobre.

Como registrei aqui em setembro, em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente da Colômbia Juan Manuel Santos criticou a ''guerra às drogas'' e defendeu que são necessários outros enfoques e novas estratégias. ''É preciso entender o consumo de drogas como um assunto de saúde pública e não de política criminal'', disse. Santos lembrou que, enquanto houver consumo, haverá oferta e pediu aos outros chefes de Estado que conhecessem as experiências de regulação da produção, comércio e uso de drogas que estão sendo implementadas ao redor do mundo.

''A guerra contra o narcotráfico ceifou muitas vidas, e, na Colômbia, estamos pagando um preço muito alto, talvez o mais alto entre as nações, e o que estamos vendo é que o remédio está sendo pior que a doença'', afirmou o presidente colombiano, um dos responsáveis pelo acordo de paz que pôs fim à guerra contras as Farc.

No Brasil, o remédio está sendo pior que a doença. No intuito de combater o tráfico, estamos entregando jovens para serem treinados nas cadeias por facções criminosas. E vendo morrer outras milhares de pessoas todos os anos – a maioria, moradoras de áreas pobres, policiais ou traficantes. Ou seja, gente considerada dispensável. Ao mesmo tempo, vamos mantendo a indústria do medo em curso e promovendo o controle de determinadas classes sociais através da justificativa de conter a violência.

Enquanto as taxas de resolução de homicídios não chegam a 10%, a população carcerária brasileira cresceu mais do que em qualquer país por conta da ''guerra às drogas''. O Brasil não é o país da impunidade, afinal a polícia mata e prende – e há pessoas que ainda acham que temos que matar mais. A questão é a seletividade. Porque se considerarmos que o sistema existe para jogar pobre e favelado em um depósito de gente, até que tem funcionado muito bem.


O problema de Temer não é a falta de popularidade, mas de legitimidade

Leonardo Sakamoto

“Usei a minha impopularidade para fazer as reformas necessárias”, afirmou Michel Temer, nesta sexta (8), em um evento que reuniu empresários na capital paulista. De acordo com a última pesquisa Datafolha, 71% dos brasileiros considera seu governo ruim ou péssimo.

Em dezembro do ano passado, Temer havia dado um depoimento semelhante, mas cismava em não se entregar por completo à realidade: ''Um governo com popularidade extraordinária não poderia tomar medidas impopulares. Estou aproveitando a suposta impopularidade para tomar medidas impopulares''.

Provavelmente a aspereza de 2017, com tanta gente torcendo para que fosse afastado e processado pelo Supremo Tribunal Federal, levou ao ocupante do Palácio do Planalto a se dar conta de que não é suposição. Ele realmente não é a última cocada do tabuleiro e está longe de ganhar o concurso do mais-mais na balada da escola.

Parte dessa impopularidade se deve à situação da economia brasileira e à taxa de desemprego superior a 12%. Não dá para dizer que ele simplesmente herdou a situação, uma vez que fazia parte do governo petista e das decisões equivocadas na área tomadas por ele. E o processo de impeachment, que ele ajudou a capitanear, apenas levou mais instabilidade a uma já combalida economia.

Outros componentes dessa impopularidade, porém, estão inteiramente na conta dele. Como o fato de conspirar a céu aberto contra Dilma Rousseff – lembrando que o brasileiro adora ver uma traição, mas detesta o traidor. Ou a quantidade de casos de corrupção envolvendo a si mesmo – foi o primeiro presidente denunciado criminalmente ainda no cargo pela Procuradoria-Geral da República. E envolvendo seus amigos, que fazem ou faziam parte da cúpula do governo – quem pode esquecer das imagens do apartamento da felicidade de Geddel Vieira Lima com seus R$ 51 milhões, por exemplo. Desconfio que mesmo se o Brasil estivesse surfando em bons índices de crescimento econômico, ainda assim não teria a popularidade de seus antecessores por conta do conjunto apresentado acima.

Temer chama de ''reformas necessárias'' mudanças apoiadas pelo mercado financeiro, grandes empresas e poder econômico. Mas que não foram suficientemente debatidas com o restante da sociedade e, de acordo com as pesquisas de opinião, são rechaçadas por uma parcela considerável dela. Ele diz que é corajoso por estar aplicando um remédio amargo que ninguém mais aplicaria. Mas, na verdade, é antidemocrático porque o projeto de país trazido por suas reformas não foi validado pelas urnas e, portanto, não tem legitimidade.

O país precisa  de uma Reforma da Previdência porque envelheceu. Mas não esta, feita a toque de caixa, e que deve causar danos a grupos mais vulneráveis, como o trabalhador rural – apesar que o governo siga em negação. O país também precisa de uma atualização e simplificação da CLT. Mas o governo e o Congresso atropelaram a discussão, impondo um projeto construído em cima de propostas trazidas por confederações empresariais, recolhida em votos vencidos pró-empresa no Tribunal Superior do Trabalho e acrescidas de interesses paroquiais de deputados e seus patrocinadores.

O país também precisa de uma Reforma Tributária com justiça social, com a taxação de dividendos recebidos pelos mais ricos e a implementação de alíquotas maiores no Imposto de Renda para quem ganha muito. Mas isso ele faz questão de esquecer, ainda mais em um discurso para empresários. Afinal de contas, o combinado é que o custo da crise seja pago com a dignidade dos trabalhadores, jogando a zica para longe da elite.

Mas ele tem razão. Apenas um governo que não foi eleito e que não deve ser reeleito e, por isso, não está preso à viabilidade eleitoral, é capaz de aprovar uma quantidade grande de propostas e projetos que retiram direitos dos trabalhadores e de grupos mais vulneráveis sem a devida discussão com a sociedade. E em um espaço de tempo tão curto.

Um governo com a guilhotina da Lava Jato no pescoço, que se deixou sequestrar por uma relação fisiológica com o Congresso Nacional e que conta com o apoio condicionado do poder econômico enquanto for útil.

“Usei a minha impopularidade para sobreviver'', deve rir para si mesmo um maroto Michel Temer.

 


O Brasil ataca professor, compra voto de deputado e faz selfie com bandido

Leonardo Sakamoto

Manifestante ferido durante protesto em Brasília. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Quando alguém perguntar qual o legado deixado por este momento tumultuado pelo qual passa o Brasil, poderemos responder que não foi a moralização da coisa pública. Mas, sim, a criação de um Estado autoritário, inimigo da liberdade de pensamento.

Parte significativa do país acreditou que o (necessário) combate à corrupção iria fortalecer nossas instituições, levando-nos a um patamar mais alto de civilização. Claro que houve inegáveis avanços, contudo, paralelamente, práticas totalitárias, que adotam o abuso de autoridade e a arbitrariedade como modus operandi, ganharam corpo. Ao mesmo tempo, tivemos um esgarçamento institucional, transformando a política em um grande ''salve-se quem puder''. Isso sem contar o empoderamento de um exército de malucos violentos, incapazes de viver em sociedade, que contam com uma visão distorcida de Justiça.

A desnecessária condução coercitiva dos professores da Universidade Federal de Minas Gerais, nesta quarta (6), em meio a uma investigação conduzida pela Polícia Federal, é triste e representativa disso. E, apesar de deplorável, não é o capítulo mais trágico do tratamento policialesco contra o ensino superior público. Esse título, certamente, fica com o suicídio do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, em outubro deste ano, após ter sido preso em meio a outra investigação. Ele reclamou que havia sido humilhado e condenado antes de poder se defender.

A crítica não visa a impedir que a polícia e o sistema de Justiça cumpram o seu dever. Mas que isso seja feito baseado em sólidos indícios obtidos através de investigação prévia, respeitando-se os direitos individuais dos envolvidos e evitando a todo o custo o espetáculo e a pirotecnia. Caso contrário, a situação terá cara, orelha e focinho de ataque de cunho ideológico e perseguição.

Quando o impeachment foi aprovado, um dos receios era o esgarçamento institucional que a retirada de uma presidente eleita pelo voto popular por um motivo frágil (emissão de decretos de créditos suplementar e pedaladas fiscais) em vez de um caminho mais sólido (cassação da chapa por caixa 2) poderia causar. Infelizmente, o esgarçamento aconteceu. Vivemos um momento em que o desrespeito a regras e normas por parte daqueles que deveriam protegê-las e guardá-las é comum.

Nesse contexto, Michel Temer não conseguiu garantir legitimidade ao cargo, tanto pela forma como chegou lá quanto como, a partir dali, conduziu o governo. Pelo contrário, por conta de sua arbitrariedade, a população passou a confiar ainda menos em suas instituições.

A cúpula do PMDB que está à frente do governo federal não tem pudores de distribuir emendas e cargos, garantir perdões bilionários de dívidas de produtores rurais e empresários urbanos, mudar regras e criar leis a fim de atender aos grupos político e econômico cujo apoio é essencial para manté-la no poder. Isso em um momento em que o país está em uma situação econômica deplorável, com um aumento no número de pessoas que passam fome ou vivem nas ruas. A relação entre o Congresso Nacional e a Presidência da República se transformou em mercado a céu aberto.

E quem paga a conta é a parcela mais pobre da sociedade, alvo das mudanças legais. Trabalhadores já estão sendo demitidos de seus empregos antigos e contratados em vagas precárias após a aprovação da Reforma da Trabalhista e da Lei da Terceirização Ampla. A qualidade dos serviços públicos já está em queda por conta da PEC do Teto dos Gastos, que limita por 20 anos novos investimentos. Enquanto isso, os mais ricos são poupados de taxação dos dividendos recebidos de suas grandes empresas ou da criação de alíquotas mais altas para o seu Imposto de Renda.

Michel Temer e aliados vão tentar colocar a Reforma da Previdência para votação na última semana de trabalho do Parlamento, entre os dias 18 e 22 de dezembro. Até lá, devem continuar distribuindo dinheiro dos nossos impostos aos deputados e seus patrocinadores, tentando convencê-los que o suicídio político de aprovar a mudanças nas aposentadorias à beira do calendário eleitoral pode ser vantajoso a eles.

Se quem está à frente do país não segue as regras, outros grupos sentem-se à vontade para não respeitar limites. Esse clima de ''tudo pode'' ajudou a criar ondas de violência no campo contra trabalhadores rurais e indígenas, a aumentar a violência contra pessoas em situação de rua e cidadãos que sofrem de dependência de drogas, a fazer subir a violência contra comunicadores e movimentos sociais.

Em escolas públicas, professores têm sido vítimas de ameaças e assédios por parte de membros de milícias digitais ou de movimentos totalitários contra o livre pensamento. Muitos estão com medo de voltar à sala de aula devido ao macarthismo tupiniquim – que tem contado com o apoio de formadores de opinião e políticos.

Dar uma aula sobre o que são direitos humanos tornou-se imperdoável. Tratar sobre as diferentes formas de violência contra a mulher virou abominação. Enquanto isso, graças ao Supremo Tribunal Federal e ao Ministério da Educação, rezar na sala de aula de uma escola pública passará a ser cena comum.

Talvez tão comum quanto queimar bonecos representando pensadores e intelectuais – como ocorreu em um protesto contra a filósofa Judith Butler, uma das maiores pesquisadoras sobre gênero do mundo, em frente ao local onde ela deu palestra em São Paulo, em novembro passado. Depois, ela viria a ser agredida no aeroporto de Congonhas pelos mesmos manifestantes.

Lembram da professora hostilizada na Universidade Estadual do Rio de Janeiro após uma conferência sobre o centenário da Revolução Russa? Um jovem levantou-se e começou, aos gritos, a ofendê-la, dizendo que nunca houve ditadura no Brasil. Os pedidos dos demais presentes para que ele e seus colegas se acalmassem e dialogassem educadamente não surtiram efeito e a segurança foi chamada. O grupo dizia que estava filmando tudo e enviaria para o Exército.

Outro caso que chocou foi o de pesquisadoras que estudam gênero receberem ameaças de morte na Universidade Federal da Bahia. Uma banca de defesa teve que contar com proteção especial de segurança devido às amaeaças.

Que tipo de limite pode ter restado a um país em que um engenheiro de 60 anos assassina a tiros seu filho, um universitário de 20, por – de acordo com a polícia – discordar de que o jovem participassem de protestos estudantis e por ser contra as preferências políticas do rapaz? O filho chegou a fugir, mas foi perseguido de carro pelo pai, que o matou. E, depois, cometeu suicídio.

Sempre tivemos um enorme déficit de formação para a empatia, para reconhecer no outro alguém que tem os mesmos direitos que nós. Mas também para a cultura política do debate – infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar a diferença e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites.

Mais do que nunca, é hora de lembrar qual a função da escola. Educar por educar, passando apenas dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e o cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, sem considerar a realidade à sua volta, sem ajudá-lo a construir um senso crítico e questionador sobre o poder, seja ele vindo de tradições, corporações, religiões ou governos, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina. A um tijolo, em qual parte do muro deve permanecer – e é isso o que deseja uma grande quantidade de milícias digitais e movimentos fundamentalistas.

Uma das principais funções da escola deveria ser ''produzir'' pessoas pensantes e contestadoras que podem – no limite – colocar em risco a própria sociedade do jeito que a conhecemos, fazendo ruir a estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Em outras palavras, educar pode significar libertar ou enquadrar. Pode ajudar às pessoas a descobrirem como quebrar suas próprias correntes ou ser o pior cativeiro possível, fazendo com que vítimas se tornem cães de guarda de seus agressores.

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação que estaria ocorrendo nas escolas, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Ganha quem aposta que o resultado de toda essa confusão será a contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos. Pois, como bem disse Paulo Freire, todos somos orientados por uma base ideológica. A discussão é se a nossa é includente ou excludente. Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de ''lixo'', será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus próprios pés.

Pois quando pede-se que o professor e a escola se omitam ou sejam proibidos de lançar um olhar crítico sobre o mundo, dizendo que isso só serve para doutrinação, a ideologia hegemônica na sociedade ocupa silenciosamente o espaço deixado. E, com isso, ensina aos jovens que tudo está bem quando, na verdade, eles – desesperadoramente – sentem o contrário.

Em um Estado autoritário, o professor contestador é tratado como inimigo público da sociedade.

No mesmo Estado, um deputado que topa vender seu voto pela Reforma da Previdência é recebido com pompa pela Presidência da República e chamado de herói pelo mercado.

Não admira, portanto, que policiais no Rio tenham tirado selfies com Rogério 157, líder do tráfico na Rocinha.

Afinal, por aqui, as prioridades são outras.


O povo votará em deputado que apoiar a Reforma da Previdência?

Leonardo Sakamoto

Discordo quando alguém diz que o eleitor brasileiro não tem memória. Ele tem. A questão é que ela é seletiva.

Se você perguntar em quem uma pessoa votou para deputado federal na última eleição, há uma chance grande dela não se lembrar. Pesquisas apontam algo entre 30 a 45% de eleitores que não se recordam do parlamentar que mereceu seu voto.

Claro que isso é vergonhoso. Caso a escolha de um representante fosse fruto de uma construção individual que levasse tempo e reflexão, o nome do semovente não cairia no esquecimento tão rápido. Consequentemente, a fiscalização e o monitoramento do político poderiam ser mais efetivos. Não vou entrar no mérito das razões que levam alguém a escolher um desconhecido para falar em seu nome e defender seus interesses no Congresso Nacional – até porque não estou a fim de ficar deprimido.

O governo Michel Temer afirma que vem caindo a resistência à Reforma da Previdência, índice que, segundo ele, estaria em pouco menos de metade da população. O último Datafolha sobre o tema apontava para 71% de repúdio.

O levantamento que vem sendo citado pelo governo teria sido realizado após a campanha de desinformação levada a público pelo próprio. Ela afirma, por exemplo, que a mudança não vai mexer na aposentadoria rural – o que não é verdade. A reforma estabelece a necessidade de 180 contribuições mensais a essa categoria. Hoje, basta a comprovação de trabalho e o recolhimento de imposto no momento da venda da produção. A alteração deve inviabilizar a aposentadoria de muita gente no campo.

Enviesar pesquisa, o governo faz. Comentar índices de aprovação de Michel Temer, que variam entre 3 e 5%, não.

Daí chegamos na questão da seletividade da memória do eleitor. Ele pode não se lembrar em quem votou na última eleição. Mas o ódio, a raiva e a indignação são componentes fortes, marcantes. Portanto, muitos se lembrarão na próxima eleição quais deputados votaram a favor de uma impopular Reforma da Previdência, produzida e tramitada sem o devido debate público.

Uma reforma que deve dificultar a vida dos trabalhadores rurais, como já explicado, reduzir o tamanho dos pagamentos dos mais pobres (quem se aposentar por idade e 15 anos de contribuição, vai receber 60% da aposentadoria integral e não mais 85% como é hoje) e tornar a integralidade da pensão algo para poucos resistentes que chegarem aos 40 anos de pagamentos mensais.

Desconfio que mesmo que esses eleitores tentem esquecem, a sociedade civil, sindicatos, associações de moradores e parte da imprensa fará questão de lembrá-los. Sem contar que o Google existe para isso.

Não tenho bola de cristal para saber se o desejo de vingança será maior que a preguiça ou o deixa-pra-lá-esse-país-é-assim-mesmo-bora-assistir-masterchef.

Mas pelos receios que circulam pelos corredores da Câmara dos Deputados, eu diria que muita gente por lá já sentiu o cheiro de queimado.


Selfie de policiais com Rogério 157: Quem é o “troféu” de quem nesta foto?

Leonardo Sakamoto

Qual a diferença entre policiais e bandidos?

Se você respondeu que uns são bons e outros são maus, parabéns, já deve ter terminado seu lanchinho e deve estar pronto para a naninha. Então, pode sair e deixar a conversa para outras pessoas, ok?

A questão não é entre bem e mal (o que está cada vez mais difícil de definir, aliás), mas garantir o cumprimento da lei através de formas que a lei previamente permite. Lei, aquele conjunto de regras que nós criamos e aperfeiçoamos ao longo dos tempos para evitar que nos devoremos uns aos outros ao viver em sociedade.

É função de policiais zelar pela coisa pública e garantir que quem estiver em desacordo com a lei, principalmente em casos de violência, seja investigado e, quando necessário, detido para que cesse o mal que está fazendo aos outros e à comunidade, e levado a julgamento. Punição não está no rol de atividades que lhes são permitidas.

Nesse processo, policiais devem garantir que o tratamento dado ao infrator seja firme, mas de respeito, independentemente dele ser um ex-governador do Estado envolvido em corrupção, um presidente de Assembleia Legislativa pego em negociatas com empresas de ônibus ou uma liderança do tráfico de drogas.

A partir do momento em que qualquer pessoa estiver sob custódia do Estado, o poder público é responsável pela garantia de sua integridade. Ela não deve sofrer violência física ou psicológica, ser alvo de humilhação, passar por tortura ou qualquer outra situação aviltante. Por pior ser humano que seja, por mais dor que tenha causado.

Porque essa é a diferença entre bandidos e policiais. Bandidos não seguem regras no exercício de suas atividades, mas policiais devem segui-las sob o risco de se tornarem aquilo que querem combater.

Ver um capturado Rogério 157 aparecer como ''troféu'' de policiais em êxtase envolvidos na operação remete às lembranças de transformação de seres humanos em souvenirs de caça ou objetos de diversão. Apesar de estar longe de ser a mesma situação, tem o mesmo DNA das fotos tiradas pelos soldados norte-americanos com presos iraquianos no complexo penitenciário de Abu Ghraib, por exemplo. E, com isso, ajuda a reduzir o mérito da ação policial.

Além disso, a polêmica selfie tirada por policiais civis após prender Rogério 157, apontado como o líder do tráfico de drogas na Rocinha, dificilmente se repetiria com o ex-governador Sérgio Cabral ou com o presidente da Assembleia Legislativa Jorge Picciani. Apesar de ambos terem causado mais mal à população carioca que Rogério 157 e a prisão dos dois ter sido mais aguardada que a de um chefe do tráfico.

Afinal, negro e pobre entra na cadeia todo o dia – o sistema de Justiça brasileiro é feito com esse objetivo. Branco e rico que é a surpresa.

Mas olhe novamente a foto. Perceba que há dois ''troféus nela.

Pois os policiais tornaram eles próprios, com seu ato, um troféu de Rogério 157, glamourizado pela selfie, transformado por eles em celebridade. O que apenas reforça o poder do traficante junto a seus subordinados ou à população.

Quando policiais e bandidos tornam-se troféus uns dos outros, um Estado precisa de uma DR, depois zerar e começar de novo. Porque algo deu muito, mas muito errado.


Ao contrário do que diz governo, reforma vai dificultar aposentadoria rural

Leonardo Sakamoto

Trabalhador de carvoaria em Minas Gerais. Foto: João Roberto Ripper

Ao contrário do que vem sendo informado pelo governo federal, a Reforma da Previdência tornará mais difícil aos trabalhadores rurais da economia familiar obterem a aposentadoria.

A última versão da proposta prevê que essa categoria se aposente após 180 recolhimentos mensais (15 anos) de contribuição após alcançar a idade mínima. Isso é um endurecimento dos critérios exigidos, uma vez que, hoje, é necessário que comprove ter trabalhado nessas atividades durante esse período e que recolha uma alíquota de 2,1% no momento da venda de sua produção.

A reforma não alterou o artigo 195 da Constituição Federal, que prevê que os trabalhadores rurais da economia familiar contribuam na forma da alíquota já citada. Mas altera o artigo 201, forçando que essa contribuição ocorra mês a mês. Ou seja, ela muda a demanda de 15 anos de tempo de comprovação de trabalho por 15 anos de contribuição mensal.

Enquadram-se nessa categoria pequenos produtores rurais, seringueiros, pequenos extrativistas vegetais (como catadoras de babaçu), pescadores artesanais, marisqueiros, entre outros. Ou seja, trabalhadores que colocam a comida em nossa mesa ou garantem, através de seu suor, a produção de commodities utilizadas para a produção de alimentos industrializados, vestuário, energia, veículos.

Para Evandro José Morello, assessor jurídico da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), o governo ignora que agricultor não tenha renda mensal. Em outras palavras, o ciclo de plantio-crescimento-colheita não pode ser acelerado pelo voto de 308 deputados federais – mínimo que o governo Michel Temer precisa para aprovar uma emenda constitucional.

''Como você interpreta um texto constitucional com duas normas conflitantes? Se a contribuição na venda da produção for suficiente para cobrir o valor equivalente à contribuição mensal, não tem problema. Caso contrário, o agricultor deve ser chamado a cobrir isso do próprio bolso'', explica Evandro. De acordo com ele, cerca de 60% das unidades produtivas familiares tem renda monetária líquida (na prática, o lucro ao final) inferior a R$ 1500 reais por ano, baseado nos dados disponíveis no último censo agropecuário. É desse montante que sairia uma contribuição desse trabalhador para a Previdência Social.

Além disso, a mudança também empurra para a individualização do benefício. Atualmente, todas as pessoas dentro de uma mesma unidade familiar que trabalharam durante os 15 anos e atinjam a idade mínima têm direito à aposentadoria. O que deve ser inviabilizado pela mudança na demanda de contribuição mensal. ''Isso irá excluir muita gente. Não é uma questão de vontade do agricultor, ele não terá renda mensal para isso'', afirma o assessor jurídico da Contag.

A Reforma da Previdência mantém a idade mínima da aposentadoria dos trabalhadores rurais em cinco anos antes daqueles que estão no regime geral. Hoje, ela está em 60 anos para homens e 55 para mulheres.

Considerando que muitos dos trabalhadores rurais começam a trabalhar antes mesmo da idade mínima de 14 anos prevista por lei (como aprendiz) e, aos 18, já estavam sob trabalho braçal pesado, chegam aos 60/55 apenas como um bagaço. Terão dificuldade em trabalhar por mais tempo para alcançar as 180 contribuições mensais.

Na prática, portanto, muitos terão que esperar até os 65 para pedir o Benefício de Prestação Continuada (BPC), garantido a pessoas idosas de baixa renda, porque estarão excluídos da aposentadoria.

De acordo com cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) feitos em cima de dados do IBGE, o Brasil contava com cerca de 14 milhões de trabalhadores no campo em 2013, sendo 4 milhões trabalhando por conta própria, 4,2 milhões para consumo próprio, 1,6 milhão de empregados com carteira assinada e 2,4 milhão de empregados sem carteira assinada.


Com inveja de Temer, Congresso Nacional também atinge 5% de aprovação

Leonardo Sakamoto

Deputado Wladimir Costa (SD-PA) com sua ''homenagem'' a Michel Temer, uma tatuagem de henna. Foto: Reprodução/Facebook

O Congresso Nacional sentiu inveja de Michel Temer e decidiu copiá-lo. Pesquisa Datafolha, divulgada nesta quarta (6), aponta que a aprovação da Câmara e do Senado chegou a 5% – mesmo índice que do ocupante da Presidência da República. A rejeição ao trabalho dos parlamentares atingiu seu pico na história recente com 60% dos brasileiros considerando-o ruim ou péssimo.

Parte da repulsa aos ''representantes do povo brasileiro'' se deve, claro, à transmissão em tempo real da transformação da instituição em um mercado a céu aberto, onde se compra e vende de tudo. De salvo-condutos a um presidente acusado de corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça em pleno exercício do cargo a reformas estruturais que atendem ao interesse de grandes empresas e do poder econômico. Tudo, absolutamente tudo, pode ser negociado a um preço camarada e pago em dinheiro, cargos, perdões bilionários de dívidas. Até aprovação de medidas que beneficiem amigos, como a publicação de uma portaria pelo Poder Executivo que torna mais difícil libertar escravos.

Parcela considerável dos deputados e senadores foram eleitos devido a montanha de rescursos oriunda de doadores de campanha de empresas interessadas em bom investimento. Ou seja, a força do dinheiro, mais do que qualquer outra coisa, elegeu um amontoado de interesses escusos.

Mas é importante lembrar que esta legislatura não se resume à corrupção. Ela tem um perfil: é conservadora socialmente, atrasada do ponto de vista dos direitos humanos, temerária em questões ambientais, liberal economicamente e pulverizada partidariamente. A análise é de estudo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Representa, portanto, uma parcela considerável da sociedade no que diz respeito à visão de mundo e ação diante desse mundo.

Nesse contexto, os movimentos sociais e organizações da sociedade civil de caráter mais progressista sempre empurraram o Congresso Nacional para que ele respeitasse os fundamentos mais básicos da democracia e também atuavam para fiscalizá-lo. Em outras palavras, a força da mobilização e da organização desses grupos na política nacional ajudava a manter o Parlamento dentro de algumas balizas democráticas. Com o tempo, houve um afastamento dos militantes tradicionais desses movimentos sociais ou mesmo de partidos políticos com o pragmatismo político exacerbado dos governos do PSDB e do PT.

Ao mesmo tempo, houve um intenso desgaste com a atuação média de representantes sindicais que estavam no Parlamento, independentemente de partido. Não é que o motor capital-trabalho tenha deixado de empurrar a História, muito pelo contrário. Mas uma parte das pessoas que clamam para si a autoridade de falar pelos trabalhadores acabaram falando por interesses corporativistas ou por si mesmas. O desgate com relação aos sindicalistas também por conta da proximidade de muitos deles com o PT levou à redução de sua bancada na eleição de 2014, o que facilitou a aprovação da Reforma Trabalhista e da Lei da Terceirização Ampla, por exemplo. Por outro lado, empresários são sempre bem representados. Em sua maioria, podem financiar suas próprias campanhas. Dessa forma, há uma distorção de representatividade: não são necessariamente grupos ou ideias que possuem assento, mas o dinheiro.

A violência é um problema real no Brasil. Dezenas de milhares são assassinados anualmente e muito pouco é investigado, menos ainda indiciado, uma pequena fração julgada e quase ninguém punido conforme a lei. Mas as narrativas da violência urbana, que já existiam, circulam com mais força graças não apenas às redes sociais, mas também a determinados formadores de opinião que espalham o ódio e o terror. O uso abusivo desse discurso, bem como o da repressão policial, ajudou a elevar o número de pessoas eleitas que surfaram no medo da população, aumentando as bancadas da bala e da segurança pública. Elas, por sua vez, agem de forma aberta para liberar o uso de armas e endurecer penas, o que joga apenas mais gasolina na fogueira.

O número de parlamentares evangélicos cresceu porque tinha que crescer mesmo nas últimas eleições. Havia uma sub-representação desses grupos, organizados em uma série de igrejas com pontos de vista diferentes. Eles não formam um movimento coeso como a Bancada Ruralista, que também cresceu junto com a força econômica do agronegócio. Como o resto da população, evangélicos podem ser conservadores e progressistas. O grupo que opta pelo fundamentalismo religioso como linha de ação é pequeno, mas bem organizado e barulhento.

Por fim, há uma desmotivação muito grande com a democracia representativa tradicional. Isso vale tanto para jovens que estão cheios de gás para ''mudar o mundo'' quanto para militantes, ativistas e figuras públicas que defendam os direitos fundamentais e a democracia. Pessoas que, em outras épocas, aceitariam candidatar-se ao Parlamento para serem puxadoras de votos. Nas eleições de 2014, muitas dessas pessoas quiseram distância, acreditando ser melhor transformar a sociedade pelo ''lado de fora'' do que entrar naquela zorra.

Com um índice alto de rejeição do Congresso Nacional, a dúvida é se esse grupo aceitará o desafio de fazer parte da vida política-partidária, arejando o debate público e trazendo ética e compromisso social. Ou se o caminho estará livre para pessoas que defendem que a solução passa pela restrição de liberdades e o aumento do autoritarismo a fim de garantir uma falsa ordem e segurança à população. Teremos essa resposta na abertura das urnas em outubro de 2018.


Reforma da Previdência quer idade mínima de 66/63 anos para próxima década

Leonardo Sakamoto

Foto: Antonio Lacerda/EFE

Caso a Reforma da Previdência seja aprovada, as idades mínimas, de 65 e 62 anos para homens e mulheres, respectivamente, irão aumentar automaticamente à medida em que a expectativa de sobrevida da população subir.

Ou seja, toda vez que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) identificar o aumento de um ano completo na estimativa de tempo médio que alguém com 65 ainda viverá, a idade mínima para a aposentadoria também vai subir. Se daqui a sete anos a expectativa aumentar em um ano, as idades mínimas passarão para 66 e 63 sem precisar de um novo debate no Congresso Nacional. A mudança valerá tanto para o setor privado quanto para o público.

A proposta tem como objetivo garantir que o sistema vá se adaptando à medida em que a população envelhece. O problema é que isso pune tanto quem começa a trabalhar desde muito cedo quanto aqueles que vivem em condições sociais mais difíceis e, portanto, tendem a viver menos depois que se tornarem idosos. Isso sem contar que os críticos à proposta apontam que há divergências quanto às estatísticas demográficas e que a pressa pode levar a reforma a ser feita em cima de estimativas equivocadas.

De acordo com a ''Tábua Completa de Mortalidade para o Brasil'', organizada pelo IBGE, a sobrevida média para quem tem 65 no Brasil era de 18,4 anos em 2015. Uma parte do país vive, em média, mais após essa idade, tendo à frente Espírito Santo (20 anos), Minas Gerais (19,1) e Distrito Federal (19). E na rabeira, Rondônia (15,8), Roraima (16) e Piauí (16,2).

As discrepâncias estaduais se aprofundam quando o quadro é analisado por município. Há diferenças, inclusive, entre bairros – de uma cidade. Vive-se mais nos Jardins do que na periferia pobre da capital paulista.

Mantida a atual tendência, em sete anos teríamos idades mínimas de 66 e 63 anos. E entre 2030 e 2035, chegaríamos a 67 e 64. Para quem começa a trabalhar cedo (grupo que, normalmente, exclui a classe média alta e a classe alta), não raro em profissões que levam o corpo à exaustão, isso significa postergar o merecido descanso.

''Vai ser uma corrida dupla de obstáculos'', afirma Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho e coordenador da rede Plataforma Política Social. ''A regra de transição já impõe que, a cada dois anos, aumentará um na idade mínima para a aposentadoria até chegar aos 65 e 62 anos. Ao mesmo tempo, esse gatilho vai empurrar a idade mínima para mais longe.''

Após pressão da sociedade, Michel Temer e o Congresso não devem mexer no Benefício de Prestação Continuada (BPC), a pensão concedida a idosos pobres. O governo também deixou o aumento da contribuição mínima de 15 para 25 anos como um plano B, pois pode ser aprovado por maioria simples, não sendo necessário um total de 308 votos de uma emenda constitucional.

Contudo, os trabalhadores que se aposentam por idade hoje (65 anos, homens, 60, mulheres), e com 15 anos de contribuição, conseguem 85% da aposentadoria integral. Com a reforma, passarão a receber apenas 60% aos 15 anos de contribuição. Lembrando que, se aprovada a reforma, integralidade de pensão apenas com 40 anos de pagamentos. Ou seja, a maioria dos brasileiros nunca se beneficiará da íntegra do benefício.

Por fim, vale lembrar que 15 anos de contribuição não ocorrem durante 15 anos. De acordo com cálculos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), em 2014, a média de contribuição foi de 9,1 meses a cada ano devido à rotatividade do mercado de trabalho e à informalidade. Ou seja, para cumprir 15 anos, considerando essa média de nove meses de contribuição a cada 12, uma pessoa precisa, na prática, de 19,8 anos para se aposentar.


Pesquisa aponta que aprovação de Doria virou farinata em São Paulo

Leonardo Sakamoto

Após um ano de gestão, 39% dos moradores de São Paulo consideram a administração João Doria ruim ou péssima, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada nesta terça (5). Outros 29% avaliam como ótimo ou bom e 31% como regular. A reprovação é a mesma de Fernando Haddad no final de 2013 – com a diferença que o petista enfrentou as gigantescas manifestações de rua de junho daquele ano, quando jovens pararam a cidade de São Paulo.

A trajetória de Doria até aqui mostra que investir em comunicação é importante. Contudo, um governo não se sustenta apenas mantendo um canal aberto com seu eleitores e fãs. Precisa que a mensagem seja lastreada em realizações que mudem a vida das pessoas para melhor. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, a população percebe que, por trás das promessas, há o vazio.

Desde que assumiu, ele transformou a prefeitura em um grande reality show, divulgando seu dia a dia nas redes sociais. E, adotando um ritmo frenético, elegeu o personagem que havia criado para a campanha eleitoral – o João Trabalhador – em protagonista desse reality.

Vestiu-se repetidas vezes de gari para mostrar que se preocupava com a zeladoria da capital. Mas, com exceção da rica região dos Jardins, onde mora, boa parte da cidade está carente de manutenção, com entulho, mato e sujeira acumulando em praças e equipamentos públicos, principalmente na periferia.

Divulgou nas redes sociais doações ''voluntárias'' feitas por grandes empresas à prefeitura, sem garantir a devida transparência para essa relação público-privado e qual o tipo de contrapartidas que teríamos que ceder a elas. Como foi o caso de remédios próximos do vencimento. Depois descobriu-se que o poder público perderia com a consequente isenção concedida ao doador e com o custo do descarte de remédio vencido.

Surgiu falando da importância da educação e abraçou crianças em postagens, enquanto que, em algumas escolas, o acesso à merenda escolar chegou a ser limitado para crianças que ainda estavam com fome. Decretou guerra contra pichadores, apagando junto os murais de grafite que tornaram a capital paulista uma das referências mundiais em arte urbana. Como consequência, pichadores aceitaram a provocação e as paredes da cidade nunca estiveram tão marcadas.

Chegou a demitir secretários pelo vídeo – como foi o caso envolvendo a vereadora Soninha Francine, uma das maiores peças de constrangimento digital de 2017. E a lavar roupa suja com correligionários, como fez com Alberto Goldman, hoje presidente em exercício do PSDB, que chamou de ''improdutivo'' e ''fracassado''. E a tomar decisões antes de consultar seus secretários que são os que conhecem suas respectivas áreas.

Após uma ação violenta em parceria com o governo do Estado, postou que a Cracolândia da região central da cidade havia acabado. Contudo, a operação apenas espalhou as pessoas com dependência de drogas para outras regiões da cidade sem dispersar o problema no Centro. A imagem mais ilustrativa dessa ação atabalhoada foi a derrubada de um muro de uma pensão com pessoas ainda dentro por máquinas da Prefeitura – um homem saiu carregado de maca para o hospital. Alertado, o prefeito, que estava vistoriando a operação, saiu de lá para evitar a imprensa. Mesmo com todos os problemas, a operação foi mantida, pois tinha eco junto ao seus seguidores nas redes sociais. A então secretária de Direitos Humanos, Patrícia Bezerra,  pediu demissão por discordar do prefeito na ação.

Usando as mesmas redes sociais, João Doria atacou nominalmente repórteres que publicavam matérias denunciando problemas de sua gestão. Isso funcionava como um recado a uma milícia digital que o apoia, que então organizava ataques coletivos aos repórteres, vasculhando sua vida pessoal, fazendo ameaças, espalhando o medo em uma versão 2.0 e tupiniquim do macarthismo norte-americano.

Encantado consigo mesmo e com os índices de popularidade alcançados no início da gestão, passou a atuar como pré-candidato à Presidência da República. Em 11 meses de mandato, Doria fez 43 viagens para dentro e fora do país. A justificativa é de que estava fechando acordos em prol de São Paulo ou atuando para organizar prefeitos de outras regiões. Mas a maior parte dos deslocamentos gerou atos de campanha, com discursos e promessas.

A cidade começou a reclamar que o seu administrador passava mais tempo fora. Explicou que, com as novas tecnologias da comunicação, é possível governar à distância. Mais do que piada em forma de memes compartilhados pela classe média, a situação fermentou a insatisfação dos mais pobres na periferia. Haviam votado nele para ver a vida mudar, não para se catapultar para a próxima eleição.

Enquanto articulava sua campanha, bateu de frente com seu padrinho político, Geraldo Alckmin, candidato natural do PSDB à sucessão presidencial. Vendia-se como a melhor escolha e, logo depois, divulgava fotos abraçado com o governador nas redes sociais dizendo que eles continuavam #BestFriendsForever. Alckmin, que não costuma fazer selfie, agiu pelos bastidores para desidratar Doria, pautando a própria imprensa e a rede social com as falhas de seu pupilo ingrato.

O último golpe em suas pretensões para o Palácio do Planalto, contudo, foi dado pelo próprio João Doria quando resolveu investir na produção do composto nutricional obtido através da reciclagem de alimentos próximos ao vencimento. No afã de produzir fatos nacionais e se mostrar como político que deseja combater a fome, trouxe até o cardeal de São Paulo para lançar junto com ele a farinata à imprensa.

Esqueceu-se que, num país profundamente desigual como o nosso, a fome caminha lado a lado com a abundância de alimentos. E, por conta disso, grande parte da sociedade sabe que já passamos a fase de distribuição de complementos orgânicos em São Paulo e que o problema não é de falta e sim de distribuição de comida de verdade – basta vontade do poder público para criar e melhorar os mecanismos para tanto. No fim, ele ganhou as redes sociais, mas não do jeito que imaginava. As imagens da ''ração humana de Doria'' viralizaram pelo país. Tornou-se uma propaganda negativa aos eleitores de regiões pobres.

Não satisfeito, ainda arranjou tempo para ficar ao lado da bancada ruralista e defender o projeto que dificultava a libertação de trabalhadores escravizados, baixado pelo governo Temer – seu aliado. Desejava ficar bem na fita com os representantes dos produtores rurais, mas não percebeu que a população havia rejeitado, em peso, essa medida absurda.

Passado quase um ano, Doria atinge sua maior popularidade entre os que têm maior renda. Dos que ganham mais de dez salários mínimos, 45% avalia sua gestão como ótima e boa e 21% como ruim e péssima. Enquanto isso, entre os que ganham até dois salários mínimos, 44% o considera como ruim e péssimo e apenas 23% como ótimo ou bom. Como São Paulo é mais periferia do que centro, a média da reprovação acompanha os mais pobres.

Eu diria que esses são números parciais e o prefeito, que é uma pessoa inteligente, ainda teria três anos de gestão pela frente para mostrar que se preocupa com os demais habitantes da urbe da mesma forma que cuida daqueles que pertencem à mesma classe social que ele.

O problema é que o reality show não combina muito bem com um mandato executivo, no qual decisões difíceis devem ser tomadas, não raro indo na contramão do que apontam as curtidas e compartilhamentos na rede social. Mas populismo digital é perfeito para quem está vendendo uma ideia – a si próprio, por exemplo.

Doria tentou engatar a campanha eleitoral de 2016 na de 2018. O problema é que quando a situação reverte-se em ganho apenas para o ator da peça e não para a plateia, ela não se não se sustenta no longo prazo.

Ele tem dois caminhos: seguir em campanha e pleitear o governo paulista ou mesmo a Presidência no ano que vem. Ou pode administrar a cidade. O primeiro, ele sabe trilhar muito bem. Já sobre o segundo, ainda não temos certeza.


Lula deveria agradecer a Doria por ter travado Alckmin por um ano

Leonardo Sakamoto

Foto: Jorge Araujo/Folhapress

Lula e Bolsonaro vem dividindo as duas primeiras posições da corrida eleitoral em sucessivas pesquisas de opinião. E o PSDB tem parcela de responsabilidade por esse cenário.

A delação da JBS, que mostrou Aécio Neves sacando milhões dos controladores da empresa como se fossem um caixa eletrônico e usando o primo como mula para transportar o dinheiro, ajudou a jogar uma pá de cal sobre a credibilidade do presidente do partido e, junto, feriu o próprio PSDB. As tentativas públicas de salvar o pescoço de Aécio empurraram ainda mais uma parcela do voto antipetista focado no combate à corrupção e na ''ordem'' para o colo de Jair Bolsonaro. Não necessariamente por convicção, mas por exclusão, como aquele que teria mais chances de derrotar o PT ou um de seus indicados.

O mais irônico, contudo, é o fato de João Doria, que não perde uma oportunidade para dizer que visitaria Lula no presídio da Papuda, ter ajudado, involuntariamente, o próprio. Sua vontade incontrolável e afobamento visando à Presidência da República, que começou assim que ele assumiu a Prefeitura de São Paulo, fez com que o tucanato gastasse praticamente um ano em batalhas internas desnecessárias.

Perdeu-se não apenas precioso tempo que poderia ter sido gasto em organização e consolidação de alianças para a candidatura natural do governador paulista ao Palácio do Planalto, mas também criou focos de estresse entre Michel Temer e o próprio. Para Alckmin, que não gosta de tomar esse tipo de decisão, melhor seria que sua candidatura tivesse decantado naturalmente, bem como o reassentamento do PSDB como a liderança eleitoral do centro e centro-direita. E que, claro, não precisasse assumir como presidente do partido para preparar o terreno a si mesmo.

Ao invés de gastar energia para articular nos bastidores um freio a Doria, Alckmin poderia ter se dedicado a uma agenda de construção de sua imagem no Nordeste e entre a população mais pobre – em que o PT segue reconquistando espaço. Mas, atingido por fogo amigo, teve que resolver o problema doméstico primeiro. Alckmin conseguiu desidratar Doria – que acabou dando um fatality nele mesmo, acusado de distribuir ''ração humana para pobres'', em um país com histórico de insensibilidade de governantes com relação à fome. A análise é compartilhada por pessoas do círculo próximo de Lula e correligionários de com os quais este blog conversou.

O PSDB tenta desembarcar do governo como etapa da campanha do ano que vem. Além de extremamente impopular, fato que o crescimento econômico não deve mudar, Temer (com o apoio dos tucanos) patrocinou reformas que afetarão diretamente a qualidade de vida da população. Da expansão do trabalho intermitente à demissão em massa e substituição de empregados por colaboradores, as mudanças farão com o atual ocupante da Presidência seja um elemento radioativo em plena campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, Alckmin precisa da máquina da administração pública federal para crescer. As movimentações de Doria, que aceitava ser candidato batendo no peito com orgulho as impopulares reformas de Temer, não ajudou essa difícil costura política.

Enquanto isso, Lula seguiu crescendo em cima do discurso de que trará de volta os anos de bonança vividos durante sua administração – por mais que o ciclo de crescimento de commodities, que financiou os programas sociais, tenha se exaurido. E que irá levar às reformas a referendo, por mais que a convocação desse tipo de consulta seja uma prerrogativa do Congresso e não da Presidência.

A principal dúvida desta campanha, contudo, permanece aberta: Lula poderá competir ou será barrado por uma condenação em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre, ou pela decisão de uma corte superior? O ponto é que é imprevisível qual será o impacto disso junto à sociedade se Lula continuar crescendo e chegar à campanha com uma significativa intenção de votos. Tanto em termos de convulsão social e política, quanto de transferência de votos.

Uma pesquisa a pouco menos de um ano das eleições não vale como previsão, mas como termômetro do momento. Em uma campanha em que emprego, segurança pública e poder de compra devem ser pautas mais importantes que o próprio combate à corrupção devido ao pragmatismo do eleitorado, é interessante acompanhar como os partidos vão construir suas narrativas e, principalmente, suas alianças. Seja como for, o PSDB larga atrasado, fragmentado, confuso. Talvez até demais.