Blog do Sakamoto

O Brasil não pode se resumir ao antipetismo contra o antibolsonarismo

Leonardo Sakamoto

Surfando na polarização com o PT, Jair Bolsonaro vai crescer junto com Fernando Haddad.

O ex-capitão compensou o pouco tempo de rádio e TV de sua candidatura com a superexposição jornalística devido ao atentado que sofreu há 12 dias. Menos pela comoção por ter levado uma facada (a última pesquisa Datafolha aponta que apenas 2% dos eleitores se sensibilizaram a ponto de mudar de voto) e mais por garantir que seu nome tivesse exposição gratuita para além de sua militância nas redes sociais. Com o ataque, a artilharia de Geraldo Alckmin nos spots de rádio e TV, preparada para desidratar Bolsonaro, foi suspensa por um tempo – o que prejudicou a estratégia do tucano.

Isso ocorreu simultaneamente ao processo de substituição de Lula por Fernando Haddad após a rejeição da candidatura do ex-presidente pelo Tribunal Superior Eleitoral e, consequentemente, ao início da transferência de votos de seu estoque pessoal para o escolhido. Mas também da transferência de parte de sua rejeição, que cresce à medida em que a população percebe que Lula é Haddad e Haddad é Lula.

Geraldo Alckmin tem dito que é mais capaz de derrotar o PT, embasado em simulações de segundo turno entre ambos. Mas Bolsonaro, mesmo da cama de hospital, está sendo mais competente em se vender como aquele que pode derrotar o substituto de Lula. Não apenas isso: tenta conquistar um voto útil antipetista já no primeiro turno porque sabe que, no segundo, enfrentará não apenas políticos, mas parte barulhenta da sociedade civil organizada.

Afinal, se por um lado, venderá o embate como uma disputa contra a ''corrupção'', por outro, terá enfrentar uma possível frente ampla voltada a impedir a vitória da ''barbárie''.

Da mesma forma que Alckmin pela centro-direita contra Haddad, Ciro e Marina se afirmam como mais capazes de derrotar Bolsonaro e seu ''vice'', general Hamilton Mourão, pela centro-esquerda. O candidato do PDT está melhor posicionado e obtém melhores resultados contra a chapa PSL-PRTB considerando as simulações de segundo turno das pesquisas Ibope e Datafolha. Por um lado, poderia agregar votos de antipetistas que também são antibolsonaristas e votam no PSDB, na Rede ou em outros partidos. Mas, neste momento, não tem tempo de rádio e TV, nem estrutura partidária e conta com um adversário que tem a benção do principal cabo eleitoral do país, que se encontra preso em Curitiba.

O problema para Ciro, Alckmin e Marina é que o eleitorado está embarcando nessa aposta de polarização entre Bolsonaro e Haddad. E isso tende a tirar votos não apenas dos três, mas também dos outros candidatos e entregar a ambos de acordo com o campo ideológico de cada um.

Alguns defendem que uma disputa polarizada deixa claro diferentes projetos de país para que o eleitorado escolha aquele que melhor condiz com sua visão de mundo. Pois um eleito não vai governar com base no antipetismo ou no antibolsonarismo, e sim com um programa que, nesse caso, pode ser de extrema direita ou esquerda/centro-esquerda.

Mas esta tem sido uma eleição em que apresentar e aprofundar propostas para gerar postos de trabalho para 12,9 milhões de desempregados é menos importante do que desumanizar a imagem do adversário político e ignorar o que o outro lado diz, pensa e sente. Uma eleição mais guiada pelo ódio à diferença do que por encontrar formas de garantir que a vontade da maioria não passe por cima da dignidade das minorias, pressuposto básico da democracia.

Pois uma coisa é se colocar contra um projeto de país e buscar derrota-lo nas urnas, outra é cultivar o ódio ao adversário e, depois, nutrir-se dele por anos a fio – coisa que muitos brasileiros já mostraram que sabem fazer muito bem.

Diante disso, fica a dúvida: quando a poeira de outubro baixar, ainda teremos um país ou vamos ter que começar tudo de novo?


Por que o TSE, que rejeitou Lula, permitiria fraude de urna pró-PT?

Leonardo Sakamoto

Foto: Luis Moura/Estadão

A legitimidade das eleições, um dos pilares de nossa democracia, tem sido questionada com uma facilidade bizarra.

Neste domingo (16), foi Jair Bolsonaro, mantendo uma cruzada contra seus moinho de vento, as urnas eletrônicas afirmou: ''a grande preocupação não é perder no voto, é perder na fraude. Então, essa possibilidade de fraude no segundo turno, talvez até no primeiro, é concreta''. Já, em 9 de setembro, foi Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, que afirmou que o atentado contra Jair Bolsonaro pode levar o futuro governo a ter dificuldade em garantir estabilidade e governabilidade, ''podendo até mesmo ter sua legitimidade questionada'', em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Extrapolou, dessa forma, as funções constitucionais das próprias Forças Armadas, que não incluem opinar sobre a validade de eleições, mas atender a demandas dos Três Poderes.

Imaginar que o sistema de Justiça está viciado para devolver o PT ao poder é ignorar a Operação Lava Jato, as decisões do Supremo Tribunal Federal e, principalmente, as decisões do Tribunal Superior Eleitoral – que não apenas rejeitou a candidatura de Lula por 6 a 1, como também passou por cima de sua jurisprudência para possibilitar que isso ocorresse antes do início do horário eleitoral em rádio e TV, impedindo o PT de mostrá-lo como candidato à Presidência. Por que o TSE, que controla as eleições, votaria em peso contra o PT para, depois, permitir que as urnas fossem viciadas a favor do partido? Afinal, uma fraude nessa escala, avisada com tanta antecedência, demandaria a cumplicidade de muitas instituições e pessoas.

Isso não sobrevive a um minuto de reflexão solitária sem grupos de WhatsApp dizendo o que é verdade e o que é mentira. Como aqui já disse, diante dessa sensação de vazio deixada pela aparente falta de sentido de uma realidade política que transforma em estagiários os roteiristas de Game of Thrones, muitos buscam preencher a lacuna de explicação com qualquer informação que lhe faça sentido. Coletam dados e montam suas próprias teorias ou compram de terceiros, que as criaram por ignorância ou má fé. Se invadem até meu computador por que não urna? Mesmo que sejam elementos de realidades diferentes, apesar de ambos terem uma CPU.

Imagine um popular técnico de futebol do time líder do campeonato que, antes de entrar em campo para disputar as finais, dispara sucessivas declarações, em entrevistas e vídeos na internet, dizendo que a arbitragem não é confiável, sem apresentar provas. E se o seu time não se sagrar campeão, o torneio terá sido uma grande marmelada. Imagine a declaração ser repetida por todos os jogadores, comissão técnica, diretoria a ponto de cair na boca dos torcedores, que passam a distribuir a tese em redes sociais e aplicativos de mensagens. Ressalte-se que a temperatura é quente porque o time rival, que teve o seu técnico expulso e, por isso, tem dado instruções de fora do campo, também ajudou a aprofundar a ultrapolarização e a deflagrar os ânimos.

Tendo em vista que o técnico que acredita em conspiração considera que seu time é o melhor e ouve isso de todos aonde quer que vá, nenhum resultado, independentemente da performance em campo, será aceito que não for a vitória. Mesmo se a equipe não tiver jogado bem e, portanto, não merecido a taça. Dependendo do tamanho dos protestos, o não-reconhecimento da derrota pode levar à criação de uma liga paralela com outros clubes também insatisfeitos com a federação por outros motivos. Ou descambar para atos de violência entre rivais na rua.

Democracia pressupõe possibilidade de alternância de poder. Não a alternância em si, mas a existência de condições reais dele trocar de mãos através do voto popular. E isso, apesar dos inúmeros defeitos da democracia brasileira, tem ocorrido de fato. Quem não considera que a passagem da faixa presidencial entre Fernando Henrique e Lula, em 2003, é prova dessa alternância pacífica, pois defende que PT e PSDB são a mesma coisa, esta tendo o mesmo tipo de problema que os brasileiros que tentam convencer a Embaixada da Alemanha no Brasil que o nazismo não era um movimento de extrema direita.

Qualquer candidato que afirme que, se não ganhar é porque houve fraude, plantando dúvidas sem apresentar provas para possibilitar uma investigação pública, abre um precedente perigoso. Não apenas da legitimidade ser questionada por qualquer derrotado em qualquer eleição, mas também da autoridade de governantes eleitos não serem reconhecidas. Por que devo seguir as regras aprovadas por um governo que considero como ilegítimo?

Muitos chamam o governo Temer de ilegítimo como forma de crítica à forma como ocorreu o processo de impeachment de Dilma. Mas esse grupo que usa a expressão como palavra de ordem não se organizou para uma campanha de sonegação de impostos, para minar o Estado, por exemplo. Até porque é mais difícil aos mais pobres sonegar impostos, muitos dos quais embutidos no consumo, do que aos mais ricos. Os dados mostram, aliás, que grandes devedores de impostos estão entre empresários e políticos que apoiaram a chegada de Temer ao poder.

Um quadro de quebra institucional derivado da acusação de fraude eleitoral no atual ambiente ultrapolarizado que sairá das urnas no final de outubro pode causar um impacto muito maior do que a ação movida pelo candidato derrotado nas eleições de 2014, Aécio Neves, que afirmou ter questionado as urnas e a vitória de Dilma apenas para “encher o saco do PT”. Estamos falando da fragmentação de elementos que nos mantém minimamente coesos como uma sociedade e um país. Há responsabilidade de pessoas públicas, consideradas exemplos aos demais, diante do contexto em que estamos. E é necessário que elas assumam isso ou serão culpadas pelo caos que disso surgirá.

Questionar, antecipadamente e sem elementos que corroborem, a lisura das escolhas da população é um ataque ao processo eleitoral e, portanto, à própria democracia. De seus sete mandatos, Jair Bolsonaro foi eleito quatro vezes através de urna eletrônica. O sistema, convenientemente, funciona quando ele ganha e é manipulado quando isso não acontece? No futebol de rua, quem ameaça a levar a bola embora se perder uma partida é criança mimada. Na política, é chamado de mito?


Ataque ao grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro” foi atestado de burrice

Leonardo Sakamoto

Reprodução de imagem do grupo  ''Mulheres Unidas contra Bolsonaro''/Facebook

Tão logo o grupo ''Mulheres Unidas contra Bolsonaro'', no Facebook, foi atacado e teve seu nome, identidade e conteúdo alterados para parecer que prestava apoio ao ex-capitão, as redes sociais e aplicativos e mensagens foram tomadas pela indignação de mulheres. Mas também houve manifestações de militantes do candidato de extrema direita, comemorando o saída do grupo do ar, principalmente homens. Dependendo da bolha digital em que você está, viu um tipo de reação ou outro.

O grupo se tornou, nos últimos dias, um fenômeno de crescimento, com mais de 2,4 milhões, tanto que estava sofrendo ameaças e intimidações. De acordo com a pesquisa Datafolha, divulgada nesta sexta (14), a rejeição de Jair Bolsonaro é maior entre as mulheres (49%) – mesmo índice da pesquisa de segunda (10). Enquanto isso, a rejeição entre os homens oscilou de 37% a 38%. Ou seja, metade do eleitorado feminino afirma que não vota no deputado de jeito nenhum.

Após o ataque, o Facebook suspendeu o grupo após detectar ''atividade suspeita'' e, segundo comunicado distribuído por porta-voz da empresa, ''esclarecer o que aconteceu'' e ''restaurar o grupo às administradoras''. Ao contrário de boatos que estão circulando na rede, ele surgiu e cresceu como ''Mulheres Unidas contra Bolsonaro'', não tendo sido convertido a partir de outro. Novo comunicado no começo da tarde deste domingo (16), informou que o ''grupo foi restaurado e devolvido às administradoras''.

Entre as mensagens vindas de perfis masculinos que comemoravam o ataque, variações de ''calamos a boca dessas vadias''.

Poucas coisas podem ser mais representativas da expressão ''um tiro no próprio pé'' do que esse tipo de celebração. Aliás, poucas coisas podem dar mais errado do que, neste momento, em que movimentos de mulheres assumem o papel de principal força mobilizadora, no Brasil e no exterior, alguém tentar calar a boca de mulheres ou comemorar que isso aconteceu. O resultado é o oposto: você multiplica as vozes silenciadas.

Quem celebrou o ataque não conta, apenas, com uma incapacidade de conviver com as regras do jogo democrático, vencendo através do debate de ideias ao invés de cala-las. É imaturo e incapaz de entender como funciona a dinâmica social. O grupo já estava sendo usado como plataforma para transformar a indignação que se aglutinou pela rede em atos agendados em todo o país, com centenas de milhares de pessoas confirmadas. Agora, diante da indignação, os atos tendem a ser ainda maiores.

Há grupos de rapazes que acreditam que estão sendo revolucionários e contestadores ao celebrar esse tipo de ataque, quando, na verdade, agem de forma ultraconservadora e reacionária. Acham que exalam o perfume da novidade, mas fedem a um mofo de séculos. Parte desses jovens costuma abraçar esses discursos como reação às tentativas de inclusão de grupos historicamente excluídos. Eles viram que a luta por direitos iguais por parte de suas colegas de classe ou de coletivos feministas em suas escolas está significando, para eles, uma perda de privilégios que hoje nós, homens, temos. Nesse contexto, influenciadores digitais, formadores de opinião, guias religiosos e políticos oportunistas ajudaram a fomentar, com seus discursos irresponsáveis, respostas opressoras dos rapazes à luta das moças pelo direito básico a não sofrerem violência.

Muitos homens estão insatisfeitos e se veem acuados diante do discurso de que muito do que lhes foi ensinado no que diz respeito aos seus direitos, deveres e limites agora precisa ser revisto para incorporar necessárias mudanças. Não aceitam críticas e dizem que é necessário reagir às mudanças. Todos nós, homens, fomos criados no machismo, em maior ou menor grau, e temos um longo caminho para a desconstrução. Mas uns, não satisfeitos em negar o processo de libertação de si mesmos, querem também impedir o de outras.

''Calamos a boca dessas vadias.'' Na verdade, nós homens, fazemos muitos mais do que isso. Em 2017, foram registrados 60.018 estupros, 1.133 feminicídios, 4.539 mulheres vítimas de homicídios e 221.238 registros de lesão corporal dolosa em violência doméstica, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre 2001 e 2016, as notificações de estupro coletivo saltaram de 1.570 para 3.526, são, em média, dez casos por dia. Um em cada três brasileiros acha que a afirmação ''A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada'' está correta. Não há paz em uma sociedade em que 85% das mulheres têm medo de serem estupradas.

Parte da rejeição maior das mulheres a Bolsonaro deve-se à defesa, por parte do candidato, de pautas como o armamento da população e à sua retórica mais agressiva, que encontram mais eco entre homens. Mulheres apresentam um posicionamento mais crítico a esse discurso – até porque, para cada morto, ferido ou preso, ficam filhas, mães, irmãs, esposas, que acabam sendo obrigadas a também viverem esses dramas. Quando não são elas próprias as vítimas.

Parte por conta de suas declarações misóginas. Como a que diz que a diferença salarial de homens e mulheres na mesma função é uma não-questão eleitoral. Ou quando disse que a deputada Maria do Rosário ''não merecia'' ser estuprada por que ele a considera ''muito feia'' e, por conta disso, tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal. Ou ainda por ele ter dito que “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”.

Nós, homens, pensaríamos duas vezes antes de falar e agir de forma machista, preconceituosa e violenta se tivéssemos medo de sermos criticados, repreendidos e humilhados publicamente também por outros homens. Mas, infelizmente, não atuamos para qualificar esse debate publicamente. Nós, homens, temos a responsabilidade de educarmos uns aos outros, desconstruindo nossa formação machista, explicando o que está errado, impondo limites ao comportamento dos outros quando esses foram violentos, denunciando se necessário for. Isso diz respeito a todos nós, da direita à esquerda, pois a ignorância não é monopólio de ninguém.

O saldo do ataque foi deixar muitas mulheres mais irritadas ainda, empurrando mais gente para as manifestações de rua contra Bolsonaro. Ou seja, o responsável prestou um grande desfavor ao seu candidato.

Post alterado para corrigir “página” por “grupo” de Facebook, às 16h30, do dia 16/09/2018.


Doação eleitoral de rico vai manter distorção de representação no Congresso

Leonardo Sakamoto

Foto: Fernando Bezerra Jr. (EFE)

Com as empresas proibidas de doar (oficialmente) para candidatos desde a eleição de 2016, ricos empresários têm assumido o protagonismo desse financiamento. Ou seja, candidaturas mais identificadas com os interesses desses empresários ou de sua classe social contam com uma vantagem competitiva.

As doações de pessoas jurídicas estiveram na origem de vários escândalos de corrupção de políticos que retribuíram, através da aprovação de leis e outros favores, a fatura de sua eleição passada ou agiram a fim de garantir o financiamento do pleito seguinte. A Operação Lava Jato, ainda em curso, é um exemplo disso.

O problema é que a legislação permite que milionários-financiadores, donos das empresas agora proibidas de bancar candidaturas, doem grandes quantias aos seus preferidos uma vez que o limite é de 10% de seus rendimentos brutos como pessoa física em 2017.

E, pior: também autoriza que milionários-candidatos doem para si mesmos até o limite de gastos para o cargo público que estão disputando. Henrique Meirelles doou para a sua própria campanha, até agora, R$ 45 milhões. Ele aparece como único financiador no site do Tribunal Superior Eleitoral. Com isso, o valor do Fundo Partidário do MDB que seria usado na candidatura à chefia do Executivo nacional é distribuído entre aqueles que buscam a reeleição na Câmara e no Senado, também desequilibrando o jogo.

Vale ressaltar que há candidatos à direita, mas também à esquerda, que representam interesses do empresariado.

Quem defende os interesses de grupos sociais pobres ou marginalizados e/ou que não conta com a simpatia da classe empresarial tem mais dificuldade de captação de recursos. E, portanto, menos chance de ser eleito. O esforço para arregimentar mil doadores de R$ 15,00 através de crowdfunding (a conhecida ''vaquinha virtual'') é bem maior do que a de obter R$ 15 mil de um único simpatizante – a menos que você seja um líder de massas. Sem contar que empresários que doam recomendam a seus amigos empresários que façam o mesmo. Ou seja, ao final, não são R$ 15 mil. Mas seis, dez, vinte vezes isso.

O saldo final tende a distorcer a democracia. Aumentam as bancadas empresariais e de produtores rurais. E também as bancadas religiosas, uma vez que – apesar das proibições – certas igrejas funcionam como grandes currais eleitorais.

Vale ressaltar que, a princípio, não há ilegalidade em grandes doações feitas a candidatos. O ato de doação pode ser apenas um indício de que o doador comunga com as propostas do candidato ou com sua atuação prévia e deseja que ele o represente politicamente, seja por suas ideias, seja por sua classe social.

Nesse sentido, o deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN), relator da Reforma Trabalhista, é um dos candidatos ao parlamento que mais receberam doações, com R$ 1.221.123,60 computados no site do Tribunal Superior Eleitoral até às 12h deste sábado (15). Dentre eles, proprietários e sócios de grandes empresas.

Os 15 maiores doadores de Rogério Marinho, até o momento em que este texto foi escrito, eram:

1) Fundo especial da campanha de Geraldo Alckmin à Presidência: R$ 300 mil
2) Fundo partidário da Direção Nacional do PSDB: R$ 200 mil
3) Nevaldo Rocha, dono da Riachuelo: R$ 100 mil
4) Renato Feitosa Rique, sócio da Aliansce Shopping Centers: R$ 70 mil
5) Sebastião Vicente Bomfim Filho, dono da Centauro: R$ 51 mil
6) Pedro Alcântara Rego de Lima, sócio do Grupo Três Coracões: R$ 50 mil
7) José Salim Mattar Júnior, dono da Localiza: R$ 50 mil
8) Flávio Rocha, dono da Riachuelo: R$ 50 mil
9) Financiamento coletivo: R$ 23.643,10
10) Antonio Carlos Pipponzi, dono da RaiaDrogasil: R$ 23 mil
11) José Júnior Maia Rebouças, sócio do Rebouças Supermercados: R$ 20 mil
12) José Bezerra de Araújo Júnior, pecuarista: R$ 20 mil
13) João Boschilia Appolinario, dono da Polishop: R$ 20 mil
14) Antonio Alberto Saraiva, dono do Habib's: R$ 20 mil
15) Luiz Helena Trajano Inácio Rodrigues, dona do Magazine Luiza: R$ 15 mil

A partir de propostas encaminhadas pelo Palácio do Planalto, a Reforma Trabalhista ganhou corpo na Câmara dos Deputados, com dezenas de acréscimos. O texto final teve sugestões inspiradas em demandas apresentadas por confederações empresariais e grandes empresas e por posições derrotadas em julgamentos no Tribunal Superior do Trabalho – posições que significaram perdas a empresários e ganhos a trabalhadores.

Empresários defenderam a reforma, afirmando que ela irá reduzir custos, aumentar a competitividade e facilitar o crescimento econômico e a geração de empregos. O Ministério Público do Trabalho, sindicatos e organizações sociais afirmam que a reforma retira proteção à saúde e segurança do trabalhador e vai precarizar postos de trabalho, reduzindo a qualidade de vida da população. Dez meses após entrar em vigor, a geração de empregos segue em ritmo lento no país de acordo com números do IBGE.

O aprimoramento das plataformas de consulta de doadores de campanha é uma transparência muito bem vinda. Ficou mais fácil para o cidadão verificar se o comportamento de políticos eleitos, em seus atos cotidianos ou suas votações, é republicano ou serve para garantir o financiamento da eleição seguinte.

O problema é o sistema de financiamento como um todo e não a candidatura de um deputado em particular. Os doadores empresariais estão apoiando aquele que representa melhor seus interesses ou sua visão de projeto de país. Esse, contudo, é apenas o ponto de vista de um dos vários grupos que integram a República. O parlamento deveria, portanto, representar a pluralidade presente na sociedade brasileira – de ideias, de grupos, de gêneros, étnicos.

Se as falhas no financiamento privado individual não forem corrigidas e um limite às doações de ricos não forem impostas, o Congresso Nacional pode aprofundar o abismo existente entre ele e o resto do país, com uma maioria de homens brancos de classe alta e média alta, representando interesses de uma minoria. Empresários conseguindo eleger mais facilmente seus candidatos que, depois, priorizarão seus interesses, significa passar por cima do equilíbrio, previsto na Constituição Federal de 1988, entre o desenvolvimento econômico e a efetivação dos direitos sociais, objetivos da República.

Não surpreende, portanto, que o general da reserva Antonio Hamilton Mourão (PRTB), candidato à vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL), defendeu que uma nova Carta Magna seja criada por um pequeno comitê de juristas e constitucionalistas sem a eleição – pelo povo – de uma Assembleia Constituinte para escrevê-la. “Não precisa de Constituinte'', disse ele. ''Fazemos um conselho de notáveis e depois submetemos a plebiscito. Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo.”

Meia dúzia de homens brancos ricos representarão muitos bem os outros homens brancos ricos que seriam eleitos em uma Constituinte. O povo? Só um detalhe incômodo que, com jeitinho, pode ser retirado da equação.


Datafolha sugere que dualidade PT-PSDB pode estar com os dias contados

Leonardo Sakamoto

O candidato à Presidência Cabo Daciolo, que se retirou para jejum e orações durante a campanha eleitoral, no Monte das Oliveiras, no Rio. Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo

Jair Bolsonaro ostenta 26% na pesquisa Datafolha, divulgada nesta sexta (14), sendo que 75% de seus eleitores afirmam que não irão mudar de voto. Na declaração espontânea, chega a 22%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Após o abominável atentado contra sua vida, ocorrido na quinta (6), o candidato ganhou 5 pontos na pesquisa espontânea, divulgada na segunda (10), e mais 2 pontos na pesquisa desta sexta (14). Ao mesmo tempo, ganhou 2 pontos na estimulada de segunda (10) e mais 2, na desta sexta (14).

Enquanto isso, sua rejeição, a maior entre os candidatos, oscilou de 39% (22/8), para 43% (10/9) e 44% (14/9). Hoje alcança 49% entre as mulheres (o mesmo nível de 10/9) e 38% entre os homens (37%, em 10/9).  O Datafolha aponta que apenas 2% das pessoas decidiram trocar de voto por conta do atentado. Ou seja, ao que tudo indica, os efeitos da comoção popular foram limitados.

Independentemente do que aconteça de agora em diante, Bolsonaro já é vitorioso. Conseguiu agregar em torno de si um campo da sociedade brasileira – que inclui parte do antipetismo, mas não se esgota nele. Deu uma cara à extrema direita, que esteve envergonhada desde o processo de redemocratização na década de 80 e ressurgiu para o debate público nos últimos anos. Teve o mérito de assumir, na política partidária, a consolidação dessa narrativa.

Nesse um quarto do eleitorado, estão incluídos setores linha-dura de corporações, como as polícias e as Forças Armadas, parcelas do agronegócio, parte do empresariado que defende a ampla desregulamentação da relação capital-trabalho, grupos que representam um fundamentalismo religioso, pessoas que se sentiram prejudicadas após perderem privilégios diante de minorias que lutavam por direitos e grupos de extremistas variados.

Mas seria um erro crasso afirmar que todo seu eleitorado é de extrema direita Muitos de seus eleitores foram atraídos pelo seu discurso de ordem uma vez que estão assustados com a violência e com a instabilidade política e econômica. Não compartilham necessariamente do conservadorismo pregado pelo candidato, mas acha que ele seria uma quebra necessária na política vigente.

Perdendo ou ganhando, Bolsonaro já criou um núcleo em torno de si que carregará depois das eleições. Seu programa de governo não é o que está escrito naquela publicação com jeitão de PowerPoint que seu partido divulgou. Mas é o discurso conservador em costumes e que, de forma contraditória, se afirma liberal economicamente, apesar de ter demonstrado, até aqui, uma trajetória corporativista, nacionalista e estatista. Um discurso que mira no presidente norte-americano Donald Trump, mas deságua no primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e no presidente filipino Rodrigo Duterte.

Ao mesmo tempo, o Datafolha mostra uma tendência consistente de crescimento de Fernando Haddad, que passou de 4% (22/08), para 9% (10/9) e, agora, 13% (14/9), resultado da transferência de votos do ex-presidente Lula. Cresce a chance de um segundo turno entre ambos.

Se Bolsonaro perder para Haddad por uma votação apertada num hipotético segundo turno, ele pode se tornar uma força de oposição a partir de 2019. No Congresso, isso dependerá de quantos deputados conseguirá eleger – lembrando que seu apoio vai muito além do PSL e do PRTB. Mas seu principal potencial como oposição se dará junto à sociedade, liderando esse naco que compartilha com ele do mesmo pacote ideológico. É importante que não se subestime o poder de construção simbólica disso. Ao mesmo tempo, se ele ganhar, o PT finca o pé à frente da oposição, no Congresso Nacional e na rua. Em ambos os casos, o PSDB pode se tornar um ator coadjuvante – o que torna desesperadora a situação dos tucanos até 7 de outubro.

O ingresso de Geraldo Alckmin no segundo turno pode ser questão de sobrevivência partidária. Até porque, em uma disputa entre Haddad e Bolsonaro, a parcela social-democrata do tucanato deve apoiar o PT, enquanto os mais conservadores, como o ex-prefeito João Doria, pode pular na trincheira do capitão.

Se esse prognóstico se confirmar, teremos o segundo turno mais polarizado da Nova República. Não será apenas uma discussão entre antipetismo e antibolsonarismo, mas um embate entre a esquerda/centro-esquerda e a extrema direita em um país politicamente deflagrado e que não dialoga com o outro lado, apenas xinga.

Esse será, provavelmente, o argumento usado por Ciro Gomes – 13% das intenções de voto em 10/9 e 13%, em 14/9, e Geraldo Alckmin – 10% (10/09) e 9% (14/9) – para convencer o eleitorado a evitar o segundo turno entre Bolsonaro e Haddad.

Ciro tem afirmado que conta com mais chances de vencer Bolsonaro (ele tem 45% contra 38% do ex-capitão, na simulação de segundo turno). Alckmin afirma o mesmo sobre a possibilidade de derrotar o PT (hoje, ele tem 40% contra 32% de Haddad).

As posições podem mudar nas próximas três semanas, até porque a trégua dada pelos candidatos a Bolsonaro por conta da facada acabou e uma mais eleitores têm acompanhado o horário eleitoral no rádio e na TV em comparação à eleição passada – o que ajuda o ex-governador paulista, que conta com um latifúndio de tempo dado o tamanho de sua coligação. Os números vão sugerindo, contudo, um novo panorama político, sem a dualidade entre petistas e tucanos – que dominou o cenário nacional no último quarto de século.


Brasil tem menos mulheres no parlamento que país com pior IDH do mundo

Leonardo Sakamoto

Trabalhadora migrante boliviana em oficina alvo de resgate de trabalhadores em São Paulo. Foto: MPT

Enquanto o Brasil se mantém na 79posição entre 189 países e territórios avaliados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), segundo atualização do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgada nesta sexta (14), estamos na 94ª posição – acima Bolívia e do Paraguai e abaixo do Uruguai, Argentina e Venezuela – no Índice de Desigualdade de Gênero, que avalia saúde reprodutiva, empoderamento e mercado de trabalho.

Por aqui, o IDH dos homens fica em 0,761 e o das mulheres em 0,755 – quanto mais próximo de 1, melhor as condições de renda, expectativa de vida e escolaridade.

Parte dessa disparidade é explicada, segundo as Nações Unidas, pelo fato delas se dedicarem mais tempo a tarefas domésticas do que os homens (tempo que não é remunerado), além do que gastam trabalhando fora.  Segundo o levantamento do PNUD, elas trabalham 4,3 vezes mais cuidando da casa, dos filhos, dos idosos, dos doentes do que os homens – a tão conhecida jornada tripla.

Dados relacionados a trabalho e gênero da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2017, divulgados em abril, apontaram que mulheres dedicam 20,9 horas semanais aos cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, quase o dobro do que homens (10,8 horas semanais). Entre os 88,2 milhões de mulheres de 14 anos ou mais, 92,6% delas faziam essas duas atividades no ano passado, frente aos 90,6% de 2016. Enquanto isso, os 80,5 milhões de homens passaram de 74,1%, em 2016, para 78,7%, em 2017.

Outro dado divulgado pelo mesmo IBGE, em dezembro do ano passado, mostrava que somando-se as horas dedicadas às atividades no domicílio e à ocupação remunerada, as mulheres trabalhavam mais tempo do que os homens, com uma carga horária média que ultrapassou 54 horas semanais em 2016. Os homens trabalharam, em média, 51,5 horas semanais.

Trabalho doméstico ainda não é considerado trabalho para muita gente, mas sim obrigação, muitas vezes relacionada a um gênero (e, não raro, também a uma cor de pele) que tem o dever de cuidar da casa. Dever este que não está no código genético da humanidade, mas foi construído e imposto. E, transformado em tradição e cultura, é abraçado e dificilmente discutido.

É sintomático, portanto, que apenas recentemente a Organização Internacional do Trabalho tenha conseguido aprovar uma convenção para igualar direitos para trabalhadoras domésticas em relação ao restante da sociedade. Ou que o Brasil, apenas em 2015, tenha finalmente regulamentado a emenda constitucional que abriu uma fresta de luz na senzala dessa categoria, garantindo a elas os mesmos direitos desfrutados pelo restante da população.

O que levou, é claro, a um ranger de dentes dos herdeiros da Casa-Grande. E ao inconformismo de políticos que os representam e votaram contra a medida e depois culpam a nova legislação e não a crise econômica pelo desemprego entre as empregadas trabalhadoras domésticas.

A questão da jornada tripla (trabalhadora, cuidadora de crianças, idosos e enfermos e responsável pela casa) é apenas um elemento para corroborar o fato de que vivemos em uma sociedade com um pé no futuro e outro no passado. A qual todos nós pertencemos e, portanto, contribuímos com a perpetuação de suas bizarrices. Principalmente nós, homens.

De acordo com os dados, desta sexta, do PNUD, apesar das mulheres viverem mais e terem melhor escolaridade que os homens, sua renda é, em média, 42,7% menor.

Nesse sentido, há pesquisas que apontam que mulheres deveriam ganhar 10,4% a mais que os homens no Brasil, considerando sua formação, experiência e produtividade em relação à atividade econômica e à posição profissional. Esse dado fez parte do ''Relatório sobre Salário Global'', divulgado Organização Internacional do Trabalho.

O fato de termos tido uma mulher na Presidência da República e, até esta quinta, contado com uma na Presidência do Supremo Tribunal Federal pode ser simbolicamente relevante, mas é social e politicamente insuficiente, não servindo para justificar a ocorrência de nenhuma mudança estrutural. São poucas as governadoras, prefeitas, senadoras, deputadas, vereadoras. Mas também CEOs, executivas, gerentes, síndicas de condomínios.

Segundo o IBGE, as mulheres continuam com menos acesso a cargos gerenciais do que os homens. No Brasil, em 2016, 62,2% dos cargos gerenciais, tanto no poder público quanto na iniciativa privada, eram ocupados por homens e 37,8% por mulheres.

Um dado da atualização do PNUD divulgada nesta sexta chama a atenção: o país com menor IDH do mundo, o Níger, na África, tem mais mulheres com assento no parlamento do que nós – 17% contra 11,3% (dado de dezembro de 2017). No Senado Federal, 16%, e, na Câmara dos Deputados, 10,5%. Naquele momento, três estados brasileiros não tinham nenhuma deputada federal: Paraíba, Sergipe e Mato Grosso.

Falta criar condições não apenas para que elas cheguem lá mas, chegando, sejam tratadas com o mesmo respeito que nós, homens. O que inclui a adoção de direitos reprodutivos nas políticas corporativas, por exemplo, garantindo que carreiras não sejam prejudicadas pela maternidade – regras que, uma vez aprimoradas, devem ser fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho (apesar de haver político que diga que é impossível monitorado essas políticas no setor privado).

Mas também uma mudança de mentalidade dentro de nossas próprias casas e de nossas vidas. Não se ''ajuda'' as mulheres em trabalhos domésticos, mas ''compartilham-se'' responsabilidades iguais. ''Ajuda'' é o que nós, homens, deveríamos estar disponibilizando para que outros homens reflitam sobre o nosso papel na manutenção dessa desigualdade e mudem de comportamento.


Após seis meses, governo não diz quem matou e quem mandou matar Marielle

Leonardo Sakamoto

Foto: Márcia Foletto/Agência o Globo

A execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes completa seis meses, nesta sexta (14), sem que o Estado brasileiro tenha sido capaz de apresentar à sociedade quem os matou e quem mandou matá-los.

Imaginava-se que por se tratar da quinta vereadora mais votada e uma das principais militantes pelos direitos humanos do Rio de Janeiro, as conclusões sobre sua execução não tardariam. Infelizmente, Marielle não conseguiu fugir, até agora, da estatística de baixa resolução de crimes contra a vida envolvendo jovens negros nascidos na periferia e a população LGBTT, como ela.

O vereador Marcello Siciliano chegou a ser apontado por uma testemunha como tendo tramado a morte junto com o miliciano Orlando Curicica, que opera na zona Oeste do Rio, como retaliação à atuação da vereadora.

De acordo com o deputado Marcelo Freixo, a Polícia Civil também investiga a relação de Jorge Picciani (ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio), Paulo Mello e Edson Albertassi com os assassinatos. Os três, deputados pelo MDB, foram presos em novembro acusados de um esquema de propina com empresas de ônibus. A ação de Freixo, que era amigo e padrinho político de Marielle, teria sido fundamental para a prisão deles.

Tão assustador quanto a execução planejada de uma das vereadoras mais votadas de nossa segunda maior cidade e vitrine do país no exterior é o fato de que, logo após seu assassinato, parte considerável da população apontou espontaneamente que agentes públicos seriam os principais suspeitos. E, seis meses depois, apesar da polícia e dos responsáveis pela intervenção federal na área de segurança pública do Rio não se manifestarem sobre o assunto, essa é exatamente a principal linha de investigação. Ou seja, a morte de Marielle tendo sido um crime político envolvendo políticos.

A percepção naturalizada de que agentes do Estado podem ser perpetradores de um assassinato contra uma representante eleita e liderança social é um sinal inequívoco de falência do contrato social sobre o qual construímos a Nova República. Pois instituições não apenas são incapazes de garantir a paz, como alguns de seus membros lucram muito com a guerra.

O Estado brasileiro, fomentando através de sua incompetência ou má fé o sentimento de impunidade ao longo do tempo, criou um ambiente em que as pessoas acreditam que é relativamente fácil e tranquilo assassinar alguém como Marielle Franco. ''Pode matar'', é a mensagem enviada não apenas pelos Três Poderes do Rio como de outras partes do país diante desse silêncio que completa seis meses. Ainda mais se a vítima é mulher, negra, lésbica, de origem pobre.

Ao mesmo tempo, o recado que o país envia à sua população e ao mundo é de que, além dos direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais, os mais pobres por aqui também não devem contar com direitos civis e políticos. Pois seus representantes são descartáveis e podem ser executados tanto por sua atuação, quanto para servirem de recado.

Afinal, o Rio tem dono e não é a população que nele habita.

Como já disse aqui antes, as mortes de Marielle e Anderson reforçaram que o desprezo da população por seu governo tem razão de ser, afinal a efetivação da Justiça depende da cor de pele dos envolvidos. E diante da sensação de impunidade dominante, a população deixa de acreditar em suas instituições – e não falo apenas de partidos e tribunais, mas também de leis, normas e regras.

Poucos esperavam que as Forças Armadas, colocadas à frente da intervenção por Michel Temer, apresentassem resultados concretos em pouco tempo. Primeiro, por que o problema da violência no Rio é estrutural. Segundo, por que elas foram empurradas para esse abacaxi pelo Palácio do Planalto sem planejamento ou recursos. Terceiro, por que a intervenção, do jeito que foi pensada, é menos uma ação para reduzir a violência – que atinge principalmente a população mais pobre – e mais uma grande peça de marketing com intenções eleitorais de um governo capenga e seu aliado estadual.

Mas, sete meses depois, a intervenção vem falhando até em entregar o pacote mínimo da ''sensação de segurança'' que havia prometido. A execução de Marielle Franco, ocorrida em uma região central e movimentada da capital fluminense, debaixo das barbas da intervenção, dissipou as dúvidas sobre a capacidade do poder público fazer com que a população, em geral, tivesse a tal sensação. Pelo menos a população mais pobre.

Dependendo de onde você vive, o que há é apreensão. Dentre as tantas baixas ocorridas durante a intervenção, em junho, houve a paradigmática morte de Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, quando ia para a escola, no mesmo Complexo da Maré em que Marielle cresceu, durante uma operação da Polícia Civil com o apoio do Exército. Outras seis pessoas também morreram nessa operação. E a imagem de um helicóptero que dava suporte, atirando do céu na comunidade, como em um videogame, correu o mundo.

De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio, o número de mortes provocadas por ações policiais no Estado aumentou 38% nos cinco primeiros meses da intervenção, passando de 460 para 636.

Independente de quem seja apontado como responsável pelo assassinato de Marielle e Anderson, o Estado já é culpado de tantas formas e maneiras pelo que aconteceu que é difícil enumerar no espaço.

Talvez a principal delas tenha sido aumentar a descrença de que, após uma noite escura, há sempre um amanhecer.


Polêmicas do vice de Bolsonaro: Do autogolpe à Constituição por encomenda

Leonardo Sakamoto

Jair Bolsonaro, Levy Fidelix e Antonio Hamilton Mourão. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Depois de admitir que, na hipótese de um presidente da República considerar que o país entrou em situação de anarquia, ele pode dar um ''autogolpe'' com o apoio das Forças Armadas…

Depois de dizer que ''temos uma certa herança da indolência [vagabundagem, preguiça], que vem da cultura indígena'' e que a ''malandragem é oriunda do africano''…

Depois de chamar, mais de uma vez, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra – torturador que chefiou o órgão de repressão política da ditadura militar – de ''herói'' e justificar suas ações afirmando que ''heróis matam''

Depois de afirmar que seus ''companheiros do Alto Comando do Exército'' entendem que uma ''intervenção militar'' poderá ser adotada se o Judiciário ''não solucionar o problema político'' [referindo-se à corrupção]. E que os militares terão que ''impor isso'' e essa ''imposição não será fácil''. E que ainda não é o momento, mas uma ação poderá ocorrer após ''aproximações sucessivas''. E que o Exército teria ''planejamentos muito bem feitos'' sobre o assunto…

Agora, o general da reserva Antonio Hamilton Mourão (PRTB), candidato à vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL), criticou, em uma palestra em Curitiba, nesta quinta (13), a Constituição Federal, de 1988, e defendeu que uma nova Carta Magna seja criada por um pequeno comitê de juristas e constitucionalistas apenas com princípios e valores, sem a eleição – pelo povo – de uma Assembleia Constituinte para escrevê-la. Cita que isso já aconteceu antes em nossa história, mas não se atenta que vivemos uma democracia em que esse tipo de tutela não cabe mais. Ao menos, em tese.

“Não precisa de Constituinte'', disse ele. ''Fazemos um conselho de notáveis e depois submetemos a plebiscito. Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo.”

Com tudo isso, fica simples compreender a declaração do deputado federal Eduardo Bolsonaro sobre um dos principais critérios para a escolha do vice-presidente na chapa de seu pai:

''Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice”, disse ao jornal Folha de S.Paulo.  ''Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment.'' O que faz sentido, tendo em vista a forma como ele enxerga o país.

Contudo, o ímpeto com o qual Mourão e seu partido, o PRTB, de Levy Fidelix, se assanhou para substituir um acamado Bolsonaro e tomar à frente em seus compromissos de campanha indica que o ''faca na caveira'' pode assustar não apenas adversários, mas também aliados.


Mercado está nervoso? Imagina como estão 12,9 milhões de desempregados

Leonardo Sakamoto

O dólar fechou, nesta quinta (13), a R$ 4,196 – o maior valor nominal do Real – com o temor do mercado financeiro que Fernando Haddad esteja conseguindo votos transferidos de Lula. E que, uma vez vencendo, não aplique o receituário por eles abençoado. Como isso grassa no campo da especulação, a única certeza é que há gente ganhando muito dinheiro com a preocupação alheia.

Os candidatos do mercado vêm perdendo eleições desde 2002. O que nunca importou muito porque, mesmo quando perde, o mercado ganha. Tanto que a renda do capital cresceu mais do que a do trabalho no governo Lula, quando as instituições financeiras fizeram rios de dinheiro. E poucas vezes as pautas do grande empresariado foram tão atendidas quanto no governo Dilma, com suas bondosas desonerações que ajudaram a jogar mais lama na atual crise econômica. Durante os anos do PT, o Bolsa-Banqueiro custou bem mais que o Bolsa-Família aos cofres públicos.

Mas isso não basta, o mercado quer tudo e quer agora. Tanto que apoiou a chegada de Temer ao Palácio do Planalto para que implementasse reformas que lhe interessavam de só uma vez e não a conta-gotas. Conseguiu a Lei da Terceirização Ampla, a Reforma Trabalhista e a Emenda do Teto dos Gastos – que, na prática, congela novos investimentos públicos em áreas como educação, saúde e ciência. Só não levou a Reforma da Previdência porque havia um Joesley Batista, cheio de gravações, no meio do caminho.

Está na pauta do grande empresariado a redução da alíquota do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, mas não uma Reforma Tributária com justiça social, que recrie a taxação de 15% sobre os dividendos (a parte dos lucros de empresas distribuída aos acionistas pessoas físicas) – extinta no governo Fernando Henrique. O que reduziria a desigualdade, diminuindo a diferença entre o que é cobrado dos super-ricos e da classe média – que paga bem mais, proporcionalmente.

E também está a Reforma da Previdência. O mercado entra em pânico diante da possibilidade de um governo que coloque barreiras à sua realização assuma o governo em 2019.

(Nota mental: Se a mesma energia gasta para acalmar os mercados fosse usada para ajudar os 12,9 milhões de desempregados e os 4,8 milhões que desistiram de procurar emprego porque cansaram de tentar, o pais seria outro.)

As eleições são o momento para que as propostas dos candidatos para a Previdência Social sejam apresentadas e debatidas. Dessa forma, o próximo presidente terá legitimidade para tratar com o Congresso Nacional sobre as mudanças uma vez que recebeu um mandato da população para tanto.

Quais os números que embasam as propostas e suas fontes e o cronograma de implementação da política? Os candidatos deveriam mostrar o que pretendem fazer nessa área, com detalhes, para além das poucas linhas presentes nos seus plano de governo. Alguns vêm respondendo aos questionamentos, outros jogam a responsabilidade para o Posto Ipiranga e há quem só quer debater se ganhar a eleição. Sem contar os que têm medo de publicizar o que desejam fazer com as aposentadorias para evitar que os eleitores façam o mesmo com eles.

A forma como vai tratar seus aposentados diz respeito à visão de país de um grupo que almeja o poder e, portanto, deveria ser uma das primeiras coisas a estarem esclarecidas na campanha.

Uma parcela considerável da sociedade discordava da proposta original da reforma apresentada por Temer, que atingia em cheio a classe média baixa, impondo pesados sacrifícios, como a contribuição mínima obrigatória de 25 anos. Devido à saraivada de críticas que o projeto recebeu, o governo aceitou desidrata-lo. Mas a falta de um debate público honesto, a persistência de buracos na proposta e as declarações de membros do próprio governo sobre a necessidade de ''ajustes'' posteriores fizeram com que a desconfiança continuasse junto à população.

A Constituição Federal de 1988 afirmou que o país deve defender a liberdade de mercado, mas também garantir condições de bem-estar social à população. A Reforma da Previdência não diz respeito apenas a um ajuste fiscal, mas ao Estado que queremos ter e quais são suas prioridades. 

A sociedade brasileira deve arcar com as consequências de suas opções, para bem e para mal, nas eleições. Já chega de políticos, gestores, operadores do mercado e representantes do grande empresariado que consideram que o povo é incapaz de tomar decisões para sua própria vida e, consequentemente, acham válido tutelá-lo.


Candidatos vão inviabilizar o Brasil em 2019 ao promoverem ódio na eleição

Leonardo Sakamoto

Foto: Reprodução

O abominável atentado contra Jair Bolsonaro poderia ter ajudado na distensão do discurso que promove a ultrapolarização burra, que transforma adversários políticos em inimigos a serem abatidos. Poderia.

A postagem da foto do candidato, em uma UTI, ainda convalescente por conta da facada, fazendo seu conhecido gesto que imita armas com as mãos, foi a senha para seus adversários retornarem à carga contra ele. Para eles, a imagem seria um indício de que, mesmo naquela situação, ele continuaria banalizando a violência. Simultaneamente, parte de seu seguidores mais estridentes, nem trégua deram, distribuindo ameaças de morte e promessas de vingança pelas redes sociais enquanto ele ainda estava na mesa de cirurgia. Isso sem contar o povo descolado da realidade que produziu toneladas de ressentimento ao menosprezar ou negar a ocorrência do ataque.

Quem ganhar as eleições vai assumir um país à beira do precipício, com o dólar alto, a gasolina nas alturas, quase 12,9 milhões de desempregados, 4,8 milhões que desistiram de procurar emprego por desalento, pouca margem de investimentos para executar as novas políticas propostas e contas públicas a resolver. Muitas análises têm sido produzidas sobre a importância de um ajuste fiscal para impedir que mergulhemos no inferno. Sim, no fundo do poço sempre há um alçapão.

Mas também assumirá um país deflagrado politicamente. A situação atual (Bolsonaro esfaqueado, caravana de Lula alvo de tiros, Marielle executada) é uma nova etapa da violência política ignorada pelos governantes, que já matava lideranças sociais e jornalistas, país afora, há tempos. Porém, olhando as crises nas quais outros países mergulharam, ainda vivemos em relativa estabilidade. Ou seja, muito pode acontecer.

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Alckmin, Ciro, Haddad e Marina vão se estapear na busca pelo direito de enfrentar o ex-capitão no segundo turno, caso os votos de Bolsonaro se mantenham. E, para isso, incendiar a militância e o eleitorado. Dada a nossa falta de cultura para o debate público e o ambiente ultrapolarizado, isso pode significar criar mais fraturas que não se colarão tão cedo. O segundo turno será outro show de horrores, com os dois lados queimando pontes e esgarçando aquilo que nos une como sociedade, desumanizando o outro a ponto de defender seu extermínio. Quem vencer pode ter que governar cinzas e escombros.

Líderes políticos, aliados a lideranças econômicas, religiosas e sociais, afirmam que não incitam a violência através de suas palavras. Porém, se não são suas mãos que seguram o revólver ou a faca, é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fazem das palavras ao longo do tempo que distorce a visão de mundo de seus seguidores e torna o ato de esfaquear e atirar banal. Ou, melhor dizendo, “necessário”. Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois será consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

Como já disse aqui, é assustador saber que alguém visto como ''normal'' pode ser capaz, nos contextos histórico, político e institucional apropriados, tornar-se o que convencionamos chamar de monstro. Ou seja, os monstros são nossos vizinhos ou podemos ser nós mesmos. Pessoas que colocam em prática o que leem e absorvem todos os dias em redes sociais: que quem pensa diferente é a corja da sociedade e age para corromper os valores morais, tornar a sua vida um inferno e a cidade, um lixo. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos do ''bem''.

Questionados sobre a tolerância com pessoas de diferentes origens, culturas e pontos de vista, 45% dos brasileiros diz estar menos tolerante e 29% mais tolerante do que há dez anos. A média global foi de 39% e 30%, respectivamente, segundo números divulgados, em abril, por uma pesquisa da Ipsos Mori feita em 27 países. Para 62% dos brasileiros, o país está mais polarizado. Por aqui, a política é vista como principal fato de desentendimento e separação. Na média dos países consultados, a percepção da polarização é de 58%, o que mostra que vamos mal, mas o mundo também não vai lá muito bem.

Claro que a forma como foi estruturada a publicidade em plataformas como o Google e o Facebook ajudou a piorar a situação ao possibilitar a monetização de atividades de sites e páginas, não raro anônimos, que lucram com a degradação do debate na esfera pública. Ações têm sido tomadas pelas plataformas para corrigir isso, mas essa influência tem sido sentida nas eleições.

O processo de ultrapolarização tem como ''sócios'' além dos líderes políticos, sociais e empresariais, parte da imprensa, grandes empresas, sociedade civil. Enquanto essas pessoas e grupos não resolverem sentar para dialogar e buscar uma saída conjunta para distensionar relações, tendo os candidatos à Presidência à frente, vamos continuar vivendo uma espiral de violência no debate público, online e offline.

Sabemos que temos um déficit de formação para a cultura política do debate e para a convivência com a diferença e que, infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites. Precisamos difundir a ideia de que as violências física, psicológica, verbal não são instrumentos de resolução de conflitos.

Há uma minoria de violentos. Na política, no futebol, na religião. E que, portanto, deveria ser tratada ou contida por seus amigos e companheiros. O problema é que o resto da sociedade, por cumplicidade ou indiferença, segue no papel de refém e espectadora de um show de horrores que parece não ter fim.

O Brasil teve 63.880 mortes violentas intencionais, em 2017, de acordo com levantamento divulgado, em agosto,pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso representou um crescimento de 2,9% em relação ao ano anterior. Foram 55.900 homicídios dolosos (alta de 2,1%), 2.460 latrocínios (queda de 8,2%) e 955 lesões corporais seguidas de morte (alta de 12,3%). Ao todo, 5.144 mortos em intervenções policiais (alta de 20%) e 367 policiais mortos (queda de 4,9%) – um policial morto e 14 mortos por policiais todos os dias.

Também foram registrados 60.018 estupros, 1.133 feminicídios, 4.539 mulheres vítimas de homicídios e 221.238 registros de lesão corporal dolosa em violência doméstica. E 119.484 armas de fogo apreendidas. Das quais, 13.782 acabaram perdidas, extraviadas ou roubadas.

Esse Brasil, que ostenta números piores que os de regiões em guerra, corre o risco de deixar a eleição com o espírito mais deflagrado que o de 2014. E o que acontece quando um país violento sai carregado de ódio e ressentimento de seu processo eleitoral?

Não sei. Mas nuvens escuras seguem cobrindo o horizonte. Vem tempestade aí.