Blog do Sakamoto

Por que torcidas do futebol e da política escondem sociopatas?

Leonardo Sakamoto

Torcedor do Corinthians é atendido após ser espancado por torcedores do Coritiba. Foto: Geraldo Bubniak/AGB/Estadão Conteúdo

O torcedor do Corinthians Jhonatan da Silva foi espancado por rivais do Coritiba, na manhã de domingo (18). Felizmente, já recebeu alta do hospital. A polícia afirma ter prendido um homem que confessou ter participado do crime – em imagens de vídeo, ele aparece chutando a cabeça da vítima. Responderá por tentativa de homicídio. Outras cinco pessoas também acabaram feridas em brigas envolvendo as duas torcidas.

Por mais que entendamos os processos que levam à desumanização do adversário ou mesmo os mecanismos que fazem com que pessoas pacatas se tornem monstros descontrolados quando em bando, não consigo encontrar uma palavra melhor do que ''idiota'' para me referir a quem entra em uma briga por causa de um jogo de futebol. Porque, no fundo, não é o futebol o motivo da agressão. Há algo maior no fundo. O futebol é apenas o instrumento de descarga.

Poderíamos falar de nosso machismo, em que educamos meninos para se comportarem como monstrinhos. Ou da incapacidade de lidar com a falta de sentido ou de controle da própria vida, transferindo frustração do dia a dia para um ato de violência protegido pelo anonimato da manada. Ou ainda do isolamento digital, físico ou social que leva à desumanização e dificulta o reconhecimento da outra pessoa como detentor dos mesmos direitos.

Minha hipótese é de que o sujeito que usa da violência para espancar outros torcedores é incapaz de canalizar a energia para o que realmente afeta sua dignidade. Como filas em hospitais, aumentos na passagem de ônibus, um salário mínimo ridículo, a falta de locais de lazer, a educação insuficiente que seus filhos recebem em escolas públicas e privadas, as moradias precárias que desabam com o vento, patrões que passam a mão na sua bunda, empresas que só enxergam o lucro e passam por cima de tudo, reformas que tiram direitos dos trabalhadores da ativa e dos aposentados, políticos incompetentes e ladrões.

Pelo contrário, como bons cães de guarda de preconceitos, desconfio que são capazes de xingar quem tenta se insurgir contra a violência da desigualdade social e ocupar um imóvel rural ou urbano vazio, tornando-o sua moradia. São capazes de afirmar que reside em uma ocupação como essa a verdadeira violência e não aquela perpetrada por ele mesmo. Seja por não ter se conscientizado sobre quem ele é na sociedade, seja por ter sido sistematicamente alienado sobre tudo isso.

Prefere seguir ''líderes'' que propõem soluções fáceis e violentas para o vazio que ostentam no peito. Como as lideranças que prometem paz através da imposição do silêncio ao outro – seja esse outro o adversário que diz que seu time é o melhor, seja homossexuais, transexuais, mulheres, entre outros, que exigem ser tratados com os mesmos direitos. Temos visto isso por declarações de jogadores de futebol que dizem apoiar políticos violentos que prometem a imposição do silêncio se eleitos como presidentes.

É interessante como se dá a formação de matilhas pela identidade reativa a um outro grupo ao invés da percepção das características do seu próprio grupo. É assim com o antipetismo, que se une pelos crimes do outro lado. Ou seja, muita gente se une pelo ódio e não pela solidariedade. O problema é que a união pela negação é incapaz de criar um projeto próprio de país, mas apenas algo com sinal invertido.

Nesse contexto, há torcidas políticas que abandonam a razão muito antes que alguns torcedores de times de futebol. Pois apesar de muitos destes estarem envolvidos em atos de barbárie e selvageria, seus componentes ao sabem quando o seu time dá vexame, protestam contra os dirigentes, vaiam a própria esquadra, reconhecem jogadas de craque do adversário.

Mas não é assim que muita gente que se torna torcedora fanática na política, adotando ares de seita fundamentalista religiosa, dividindo o mundo entre o divino e o satânico. Tente criticar o governo Dilma Rousseff, por exemplo, a quem a santificou por ter sofrido o impeachment, esquecendo todos os seus ''pecados'' contra  população indígenas, ribeirinhas, quilombolas, trabalhadores rurais, sem contar ao meio ambiente e, consequentemente, às futuras gerações.

Há pessoas que parecem não aceitar serem questionadas. Talvez para afastar os medos e inseguranças sobre suas próprias crenças. Acredito que meu ponto de vista está correto. E defendo-o. Mas sei que isso não faz dele o único. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho.

Sei que é duro acreditar nisso neste momento de crise política, econômica e social. E, pior: com profissionais das redes sociais, de um lado e de outro, distribuindo granadas à população para que entre em uma guerra fratricida enquanto seus líderes interagem pacificamente entre si. Por isso, seria bom se buscássemos a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e nos perguntemos se achamos que estamos certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não de certezas e sim de dúvidas e falhas que só poderão ser melhor percebidas no tempo histórico.

Desde o final das eleições gerais de 2014, fui assediado violentamente na rua. Recebi ameaças de morte, algumas delas apresentadas ao Ministério Público e que ainda estão sendo investigadas pela polícia. Fui cuspido e agredido fisicamente. Houve campanhas que construíram e divulgaram mentiras contra mim, algumas delas pagas por grandes empresas, como ficou comprovado. Falo, portanto, por experiência própria.

Durante o período de maior tensão do impeachment, ouvimos relatos de pessoas que foram assediadas, agredidas e ameaçadas de morte na rua por estarem usando uma cor “ideologicamente inaceitável'', carregarem livros “proibidos'', usarem adesivos que “ostentavam uma opinião errada'' ou não compactuando com ofensas a ideias e pessoas, terem tido a “ousadia'' de, educadamente, manifestarem-se sobre isso.

Esse processo continua, com pessoas dos mais diferentes matizes políticos e ideológicos sendo assediadas em locais públicos. Uma fúria incontida de torcedores ideológicos que resolvem fazer ''justiça'' por conta própria, com seus linchamentos verbais.

Na minha opinião, essas pessoas podem até se autointitular de direita, de esquerda, progressistas ou conservadores, “mortadelas'' ou “coxinhas'', manifestantes pró ou anti-governo, pessoas defendendo a justiça social ou contra a corrupção. Ou mesmo corintianos, coritibanos, palmeirenses, sãopaulinos, flamenguistas, gremistas. Mas, em verdade, muitos não se importam com o campo ideológico em que estão ou com o time para o qual torcem. Isso é apenas o canal escolhido para extravasar sua violência.

Claro que, em última instância, há também aqueles com sérios distúrbios psicológicos ou, mesmo, sociopatas que se escondem em grupos políticos ou torcidas de futebol para praticar seus delitos, sem senso moral ou responsabilidade, sem sentimento de culpa ou reflexão sobre as consequências. Estou excluindo desta discussão  aqueles que são pagos para tocar o terror e agredir fisicamente um grupo adversário. Esses, independentemente de sua coloração, entram na categoria de mercenários e deveriam ser julgados como tais.

Sabemos, é claro, que temos um déficit de formação para a cultura política do debate e para a convivência com a diferença e que, infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites.

O mesmo se repete, sem dúvida, com a subversão da fé. E determinados líderes e seguidores que transformam suas religiões em legiões de exércitos para enfrentar o mundo.

Por fim, parte dos brasileiros foi ensinado que a violência é o principal instrumento de resolução de conflitos. Por falta ou fraqueza de instituições públicas ou sociais confiáveis que assumam esse papel, por achar que alguns possuem mais direitos que outros por conta de dinheiro ou de músculos, por alguma patologia que nunca consegui entender muito bem.

O Brasil não é um país que respeita a dignidade do outro e não há perspectivas para que isso passe a acontecer pois, acima de tudo, falta entendimento sobre direitos humanos e, consequentemente, apoio, da própria população. Que, bem treinada pelos programas do tipo ''espreme que sai sangue'' na TV, acha isso uma ''coisa de proteger bandido'' e esquece que a própria liberdade de professar uma crença ou de não ser agredido gratuitamente por dizer o que pensa diz respeito a direitos humanos.

Gostamos de viver as tradições por aqui. Como o direito de deixar claro quem manda e quem obedece. Se necessário, através da porrada – que é o que realmente nos une e nos faz brasileiros.

São uma minoria de violentos. Na política, no futebol, na religião. E que, portanto, deveria ser tratada ou expelida por seus companheiros políticos, suas torcidas, os outros fiéis. O problema é que o resto da sociedade, por cumplicidade ou indiferença, segue no papel de refém e espectadora de um show de horrores que parece não ter fim.


Temer usou a crise para sufocar Ministério da Cultura, diz ex-executivo

Leonardo Sakamoto

''A retomada do Ministério da Cultura foi uma farsa. Ele voltou a existir no papel, mas não voltou na vida real. Não adianta manter uma estrutura de ministério se não dá condições mínimas para ela funcionar.''

A avaliação é de João Brant, secretário executivo do Ministério da Cultura no segundo governo Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016. De acordo com ele, ''o governo Temer utilizou uma situação conjuntural de crise para sufocar o funcionamento do ministério de forma irreversível''. Ele, que é mestre regulação e políticas de comunicação pela London School of Economics, foi ouvido pelo blog e falou sobre a crise no setor.

Nesta sexta (16), o escritor e cineasta João Batista de Andrade, que comandava a pasta como ministro interino, pediu demissão. Afirmou que, com o corte orçamentário sofrido, o ministério que já era ''inviável'' está sendo ''tratado de forma a inviabilizá-lo ainda mais.'' Com isso, a Cultura está prestes a ter seu quarto ministro em pouco mais de um ano. A senadora Marta Suplicy (PMDB) teria sido convidada para voltar ao posto já ocupado por ela no primeiro governo Dilma Rousseff, mas recusou.

Os outros dois chefes da pasta saíram por conta da da instabilidade política. Marcelo Calero, após pedir demissão em novembro do ano passado, denunciou pressões do então ministro Geddel Vieira Lima para liberar a construção de um prédio, em Salvador, embargada pelo patrimônio histórico – o que levou à queda de Geddel. Roberto Freire saiu, em maio deste ano, após o escândalo com as delações dos donos da JBS envolvendo Michel Temer virem a público.

João Brant também reconhece que o governo Dilma Rousseff não priorizou a Cultura. ''Há muitos gestores de esquerda e de direita que veem o investimento em cultura como um desperdício de dinheiro público, como se fosse apenas aquele recurso que você põe para a ''bandinha'' tocar em seu seminário. Para eles, portanto, o corte na Cultura é muito fácil de ser feito''

Segue a entrevista:

A área da Cultura, que quase perdeu o status de ministério no início do governo Temer, se prepara para ter seu quarto chefe em pouco mais de um ano. Ao que se deve essa instabilidade?

O governo Temer definitivamente não tem a Cultura como prioridade. E isso ficou claro desde o primeiro dia, quando fez a fusão da Cultura com a Educação e, depois, só voltou atrás por conta de uma pressão forte da área cultural. Contudo, a retomada do Ministério da Cultura foi uma farsa. Ele voltou a existir no papel, mas não voltou na vida real. Não adianta manter uma estrutura de ministério se não dá condições mínimas para ela funcionar.

Nesse período, houve uma reforma administrativa na pasta, o ministro Marcelo Calero fez o ministério perder 36% das suas funções comissionadas. Agora, em 30 de marco, houve um corte de 43% do orçamento da área. Diferentemente do ano passado, quando havia perspectiva de recomposição, hoje isso não está posto em cima da mesa.

Portanto, estamos vendo o esvaziamento completo de um ministério que poderia e deveria ter função estratégica no governo federal. Governar com o vento a favor é tranquilo, o difícil é governar com vento contra. O governo Temer utilizou uma situação conjuntural de crise para sufocar o funcionamento do ministério de forma irreversível.

Mas a ex-presidente Dilma Rousseff e sua equipe econômica também não priorizaram a Cultura em relação a outras áreas. A política tradicional vê investimentos culturais como contabilização de prejuízo?

É verdade. O governo Dilma não priorizou a Cultura. O primeiro mandato deixou isso muito claro quando diminuiu o orçamento discricionário, voltado para programas e investimentos, com exceção do audiovisual. E em seu segundo governo tivemos que passar por um corte muito violento, como todos os outros ministérios da área social, naquele ajuste fiscal de 2015. A situação em 2016 não se tornou melhor, inclusive por falta de visão de governo de como a cultura pode ter papel estratégico dentro de um programa de desenvolvimento que não seja puramente econômico e tradicional.

Há muitos gestores de esquerda e de direita que veem o investimento em cultura como um desperdício de dinheiro público, como se fosse apenas aquele recurso que você põe para a ''bandinha'' tocar em seu seminário. Para eles, portanto, o corte na Cultura é muito fácil de ser feito.

Mas estamos falando numa área que representa a sustentação de muitos programas importantes. Estamos falando de toda a área de patrimônio histórico nacional; com as 27 superintendências do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], de toda a política nacional para as artes cênicas, dança, circo, música, pela Funarte; da sustentação da Biblioteca Nacional; da garantia para a Fundação Cultural Palmares investir no fortalecimento e manutenção da cultura negra; em 29 unidades de museus sob gestão federal e mais de 3 mil museus interligados em rede nacional; em pontos de cultura no Brasil inteiro; em uma política de audiovisual. Não dá para tratar como uma área pouco relevante em questão de governo.

Enquanto, há uma justificável necessidade alta de recursos para a saúde, com mais de R$ 100 bilhões por ano, para a Cultura deveria ser R$ 700 milhões e está em R$ 430 milhões. Não é possível comparar os gastos e as necessidades das duas areas. Mas os valores da Cultura não deveriam ser tão baixos, precisariam ser maiores para que o conjunto de programas da área cultural pudesse ser mantido com alguma dignidade.

Esse quadro de desprezo prolongado com a área traz quais consequências?

O esfacelamento das políticas culturais no país. Nós vamos assistir, possivelmente, a todos esses programas que vinham sendo construídos serem reduzidos a ponto de respirar por aparelhos. Essa situação é dramática e é de tal forma inconsequente que as políticas vão ser interrompidas sem serem encerradas.

Em um momento em que políticos se vendem como ''gestores'', para atrair a população descrente com a política tradicional, como enfrentar o discurso que afirma que o governo deveria ''privatizar'' a cultura para empresas e a sociedade civil por serem mais ''eficientes''?

Infelizmente, parte da política cultural brasileira já é privatizada no momento em que você tem a maior parte dos investimentos de cultura hoje sendo feitos via lei Rouanet, que movimenta cerca de R$ 1,3 bilhão por ano. A partir de uma prévia autorização do Estado para captação de recursos, as empresas escolhem quais projetos vão ser financiados. Essa realidade já é maior que o investimento que o Estado faz diretamente. E, nesse ponto, o ministro João Batista de Andrade aponta que o esfacelamento do Fundo Nacional de Cultura [segundo Andrade, o fundo, que já teve R$ 500 milhões, hoje está sem recurso algum] é um indicador muito grave.

Por outro lado, precisamos enxergar que, diferentemente da Educação e da Saúde públicas, em que precisamos pensar que a realização do serviço precisa ser feito preferencialmente por atores públicos, no caso da Cultura é diferente. Cabe ao Estado viabilizar um conjunto de atividades e práticas culturais que façam o Brasil respirar sua própria diversidade. Que é a marca do país, mas que não se sustenta necessariamente sem um apoio estatal. Para que ela ganhe fôlego e corpo e atinja todo o território nacional, a presença do Estado como indutor e promotor é, muitas vezes, mais fundamental do que como realizador.

Recentemente, o secretário municipal de Cultura de São Paulo, André Sturm, ameaçou ''quebrar a cara'' de um representante de um movimento cultural. Depois, ele se desculpou. A polarização política afetou a capacidade da administração pública entender a pluralidade de movimentos e organizações culturais e dialogar?

O episódio é muito grave porque significa que os gestores públicos não estão dando conta de lidar com a democracia. Democracia com tudo andando tranquilamente é fácil. Mas ela é, em si, um instrumento de resolução de conflitos com uma garantia de que, por um lado, prevaleça o interesse da maioria, mas que também seja preservada a dignidade da minoria. Caso contrário, não é democracia, é totalitarismo.

Sobre a discussão, acho que o secretário tinha razão na expectativa de formalização de um processo com os movimentos culturais. Nesse ponto, o movimento cultural tem que ter a maturidade de assumir as responsabilidades que vêm junto com a parceria que ele quer estabelecer com o poder público. Mas acho que o que o aconteceu revela uma incapacidade de perceber que o poder público ''deve'' à sociedade. A sociedade espera, há muito tempo, uma política cultural consistente. Demorou muito tempo, por exemplo, para a área de Ermelino Matarazzo [bairro da Zona Leste da capital paulista, onde atua o movimento cultural envolvido na polêmica com o secretário] ter equipamento cultural. De repente, vemos – por conta de um diálogo um pouco truncado – uma atitude muito violenta e virulenta do secretário. Nesse momento, se rompe um laço de confiança, que também representava a confiança do Estado na realização daquelas atividades pela sociedade civil.

As práticas democráticas estão, nesse momento, em baixa por conta da corrosão do tecido social, mas também pelo fato do Estado não estar reconhecendo o seu papel de quem tem dívida com a sociedade.


Um presidente investigado pode processar seus delatores?

Leonardo Sakamoto

Por Eloísa Machado*, especial para este blog

Veja a seguinte situação (hipotética, claro):

O presidente da República é apontado, em depoimentos obtidos por colaboração premiada, como integrante de organização criminosa instalada em partidos políticos, a partir da qual teria cometido crime de corrupção passiva e tentado obstruir Justiça.

Esses depoimentos, vindos de variadas pessoas de uma empresa, inclusive diretores e donos, são base de um pedido de investigação feito pelo chefe do Ministério Público. Na investigação, constam documentos, agendas e áudio de conversas em particular. O mais alto tribunal do país aceita o pedido de investigação, por vislumbrar indícios de prática criminosa.

Pessoas próximas ao presidente da República são presas, no âmbito de processos que cuidam dessa mesma acusação. Uma delas foi flagrada em vídeo correndo com uma mala cheia de dinheiro, fruto de eventual acerto com a organização criminosa.

O principal delator – e possivelmente testemunha de acusação contra o presidente – concede entrevista para uma revista semanal, repetindo as acusações já feitas em processo, agora na primeira página e em linguagem coloquial. Na entrevista, afirma que o presidente da República é chefe de organização criminosa, um chefe da quadrilha.

O presidente da República reage, dizendo que vai processar a testemunha, penal e civilmente.

Processar uma testemunha com intuito de constrange-la ou dissuadi-la de seu testemunho pode ser uma forma de coação ilegal, uma tentativa de frustrar ou impedir o curso de uma investigação criminal.

O Código de Processo Penal determina, nesses casos, que até pode ser determinada a prisão provisória do acusado, justamente para impedir que interfira nas investigações. Mas, um presidente da República, mesmo investigado, não pode ser preso provisoriamente. O ato, contudo, não deixa de ser uma tentativa de interferir nas investigações.

Isso não significa que as pessoas estão todas sujeitas a qualquer tipo de acusação pública. Aliás, em uma história como essa, ninguém está imune: o delator só mantém os benefícios negociados se não tiver mentido; uma falsa acusação de prática criminosa contra alguém pode ser um crime de calúnia; o envio às autoridades de informação falsa sobre prática criminosa pode ser denunciação caluniosa.

Entretanto, esse não parece ser o caso. O que parece, na verdade, é um presidente da República acusado da prática de graves crimes comuns tentando coagir uma testemunha (o delator), em cadeia nacional e, através de processos, usando seu poder, influência e aparato estatal para se defender pessoalmente.

Imagine quão terrível seria, para a população desse país, para a democracia e para a integridade das instituições, uma situação dessa.

Mas, veja, é apenas um caso hipotético.

(*) Eloísa Machado é professora da FGV Direito SP, coordenadora do Centro de Pesquisa Supremo em Pauta e membro do Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos.


Quero ser Aécio Neves: Por que a prisão provisória é negra e pobre no país?

Leonardo Sakamoto

Caso o Supremo Tribunal Federal negue o pedido de prisão provisória do senador (afastado) Aécio Neves (PSDB-MG), no âmbito do inquérito aberto por suspeita de corrupção e obstrução de Justiça, a corte deveria aproveitar o momento e também ordenar a revisão imediata da situação dos 221 mil presos que não contam com sentença definitiva, muitos dos quais acusados de crimes que não envolveram violência direta, e garantir que respondam em liberdade.

Não estou dizendo que o senador é culpado. Mas há centenas de milhares de pessoas que, como ele, afirmam que também não são, mas seguem presas sem terem sido consideradas culpadas. antecipadamente. Ele tem imunidade parlamentar e, a princípio, não poderia ser preso a não ser em flagrante. Da mesma forma, há um multidão que também foi posta atrás das grades por interpretações tortas da lei.

No último balanço do próprio governo federal, o país contava com 250 mil presos sem condenação em qualquer instância em 2014. Levantamento, deste ano, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que os presos provisórios representam, ao menos, 34% da população carcerária. O tempo médio de prisão provisória é alto: de 172 dias em Rondônia a 974 dias em Pernambuco. Do total, 29% dos provisórios são acusados de tráfico de drogas, 7% de furto e 4% de receptação. Homicídios respondem por apenas 13% do total. Quase 40% são absolvidos logo na primeira instância de julgamento. Ou estamos punindo injustamente inocentes ou colocando pessoas que cometeram delitos mais leves para ''estudar'' em cadeias superlotadas.

Do ponto de vista estatístico, as chances de uma pessoa como o senador são maiores de esperar o final de uma investigação ou de um julgamento em liberdade: ele é influente, branco, rico e tem bons advogados. E a maioria dos presos provisórios é anônima, negra, pobre e sem advogados constituídos.

Um levantamento da Defensoria Pública do Estado de São Paulo apontou que, do total de homens que deram entrada em centros de detenção provisória e responderam ao questionário, 62% tinham até 29 anos, 65% se declararam negros e 81% não tinham advogado. Entre as mulheres, 64,5% se declararam pretas ou pardas, 60,7% até 29 anos e 80% não contava com advogado.

Um pedido semelhante a esse do primeiro parágrafo deste texto já foi feito e aguarda análise do STF.

Em maio, o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos solicitou ao Supremo Tribunal Federal um habeas corpus coletivo para que todas as gestantes ou mães de crianças de até 12 anos que estejam em situação de prisão provisória possam ser beneficiadas com prisão domiciliar – como prevê a legislação. Os advogados do Cadhu usaram como justificativa a decisão concedida em nome de Adriana Ancelmo, esposa do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral.

Ela, que era acusada de corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato, chegou a ficar presa, mas foi solta após a defesa argumentar que um de seus filhos tem 11 anos de idade. Ela acabou absolvida pelo juiz federal Sergio Moro.

''O caso de Adriana Ancelmo expôs a enorme seletividade do sistema de Justiça, inclusive do Ministério Público e do Judiciário'', afirmou Eloísa Machado, professora da FGV Direito SP, coordenadora do Centro de Pesquisa Supremo em Pauta e membro do coletivo de advogados, a este blog na época.

Para ela, entre as razões da Justiça ser seletiva está o fato do Brasil ser um ''país racista e desigual'' – o que contamina as instituições que devem executar a legislação. ''Uma parte da população usufrui as garantias do estado de direito e outra não. Isso não se resolve deixando de aplicar a lei a todos, mas ao contrário.''

Seria ótimo democratizar o acesso aos direitos no Brasil. Mas ele, pelo visto e com algumas raras exceções, continua uma questão de classe.


Passado o impeachment, vontade popular voltou ao seu lugar: a irrelevância

Leonardo Sakamoto

Só a Reforma da Previdência consegue ser tão impopular quanto Michel Temer. É difícil, portanto, o cidadão comum entender como duas coisas que pouca gente quer continuam por aí, assombrando a vida dos outros.

Não precisa entender muito de política para saber que a ''vontade popular'' só é levada em consideração quando vai ao encontro da vontade das elites política e econômica. Quando isso acontece, vemos muita gente defendendo que a ''voz do povo'' seja ouvida imediatamente. Pesquisas de opinião apontando para insatisfação tornam-se mensagens sagradas que devem ser cumpridas sob risco de castigo divino. A TV transmite qualquer manifestação com meia dúzia de gatos pingados, fazendo parecer que são maiores.

Como foi o caso do impeachment de uma presidente inábil politicamente, cujas decisões ajudaram a aprofundar o Brasil em uma grave crise econômica. Mesmo que os argumentos das pedaladas e dos decretos para emissão de crédito suplementar fossem motivos frágeis para a cassação, a justificativa da ''vontade popular'' foi a avalista. E mesmo que a maioria da população estivesse mais indignada com a recessão e o desemprego do que com a corrupção.

Por trás disso, claro, estava o interesse da velha política de frear a lâmina da guilhotina da Lava Jato e do poder econômico de acelerar reformas para reduzir o tamanho do Estado de proteção social – que ocorreriam em um ritmo mais lento sob um governo petista.

Hoje, apesar das diversas pesquisas que mostram que a população rechaça a Reforma da Previdência da forma como proposta pelo governo federal e que mostram que Temer só seria eleito síndico de prédio nos Jardins ou no Morumbi, ambos seguem aí.

E para tentar justificar o injustificável, analistas e grandes empresários vêm a público dizer que, agora, a população não entende o que é melhor para o país. Ou seja, após o impeachment, nos tornamos um país de ignorantes.

Com o discurso de que o Brasil fazer o que for preciso para continuar a ser viável, como se houvesse uma única alternativa, querem que cortemos na carne até o osso e além. São ''sacrifícios'' necessários. O que não revelam é que as propostas em curso para a Previdência, como 25 anos de contribuição mínima para uma pessoa poder se aposentar, 15 anos de contribuição mínima para agricultura familiar ao invés de 15 anos de comprovação de trabalho, como é hoje, e aumento de 65 para 68 anos para acesso à aposentadoria especial para idosos pobres, entre outras pancadas, são um pacote injusto com quem é mais vulnerável. E ninguém inclui no pacote de sacrifícios, taxação de lucros e dividendos recebidos de empresas, correção drástica na tabela do imposto de renda, isentando a maior parte da classe média e taxação decente de grandes heranças e de grandes fortunas. Adivinhem o porquê.

Assistimos a grandes empresários exortando Temer, dizendo que a impopularidade de seu governo pode fazer com que ele nos coloque no rumo que precisamos. Em outras palavras: vai lá, Michel, cumpre nossa agenda e banana para o povaréu.

A beleza da democracia é que ela não contempla a ideia de tutela. A população tem direito de optar por um caminho que suas elites política e econômica considerem equivocado. A única ressalva é que as decisões da maioria devem respeitar a garantia da dignidade das minorias, caso contrário, teremos uma ditadura da massa e não uma democracia. Mas dignidade é coisa com que pobre tem que se preocupar mais do que rico por aqui.

Alguns estão aproveitando essa ''pausa'' na democracia em que estamos vivendo para passar o que não seria aprovado em uma situação de normalidade. O mais honesto seria devolver à população a possibilidade de escolher seu presidente e também a agenda de reformas que quer ver implementada nos próximos anos.

Mas honestidade não faz muito sucesso na política e nos negócios por aqui.


Temer se mantém apesar de reunir motivos para cassar umas quatro Dilmas

Leonardo Sakamoto

Apesar de já ter reunido contra ele motivos suficientes para cassar umas quatro Dilmas ou uns dois Collors, Temer vai se mantendo.

As evidências publicizadas pelas delações da Odebrecht e da JBS são muito mais robustas para dar início a um impeachment do que decretos para emissão de créditos suplementares ou mesmo o tal Fiat Elba. Isso sem contar que as mesmas provas de caixa 2 teriam sido suficientes para cassar o mandato de Dilma, se ela tivesse conseguido permanecer até agora. Mas não foram para Temer.

Por conta dos interesses de parte da classe política (que não chegou a um consenso sobre quem botar no lugar para frear a Lava Jato) e de parte do poder econômico (que não tem pudores de colocar as reformas acima de princípios éticos).

Mas também por conta da falta de interesse de uma parcela da sociedade (que crê que o país se tornará o Éden sem o PT) e do grosso da população – anestesiada pela quantidade de chorume que vaza pela TV vinda de escândalos envolvendo os Três Poderes. Sem contar, é claro, a incompetência de grande parte da esquerda em produzir uma nova narrativa que envolva, dê esperança e mobilize as pessoas.

Diante disso, qual a motivação para um cidadão comum, que rala o dia inteiro e não tenta levar vantagem sobre o vizinho, quando vê que o presidente da República e sua cúpula envolvidos em tanta porcaria e nada acontecendo com eles? Ou quando constata que, apesar da punição de alguns grandes empreiteiros, ricos empresários, como donos de frigoríficos e, ao que tudo indica, banqueiros, continuarão encarnando Marco Aurélio (Reginaldo Faria), na cena final de Vale Tudo, dando uma banana para o país?

Nenhuma.

Quando o impeachment foi aprovado, um dos receios era o esgarçamento institucional que a retirada de uma presidente eleita pelo voto popular por um motivo frágil (pedaladas fiscais) em vez de um caminho mais sólido (cassação da chapa por caixa 2) poderia causar. Infelizmente, o esgarçamento aconteceu. Vivemos um momento em que a sensação é de desrespeito a regras e normas que nos permitem viver em sociedade com um mínimo de dignidade.

E, aos poucos, vendo que as leis e às instituições não funcionam bem, vamos desfazendo os laços e amarras de uma vida em comunidade.

Nesse contexto, quem age honestamente no emprego sem ''levar o seu por fora'' é considerado um mané por chefes e colegas. Os que criticam linchamentos públicos e tatuagens na testa de pessoas que teriam transgredido a lei são acusados de fazer apologia ao crime. Quem pondera e tenta o diálogo e não usa os mesmos métodos agressivos que seu adversário político ou ideológico é tido como burro. Os que reclamam do tratamento dado a pessoas que sofrem de dependência de drogas são xingados e instados a levar uma Cracolândia para suas casas. Um país que se diz fundado em valores humanísticos, vai optando por trocar o ''amar ao próximo como a si mesmo'' por ''cada um por si e Deus por todos''.

A democracia representativa falhou em garantir o respeito aos anseios de sociedades plurais e complexas. Isso não significa, por outro lado, que a solução seja negar a política e suas instituições. Que podem não ser perfeitas, mas é o que temos neste momento. A alternativa a isso, historicamente, passou por saídas rápidas, vazias, populistas e, não raro, autoritárias e enganosas. Porque não há nada mais político do que algo que se diz não-político. A negação às balizas republicanas abre as portas para quem se coloca, em um momento de crise como este, como ''salvador da pátria'' a fim de ganhar espaço a fim de nos ''tirar das trevas'' sem o empecilho da ''política''. Ou seja, de regras e limites.

Quando instituições nacionais estão esgarçadas e desacreditadas, a melhor maneira de combater a escalada de violência de Estado e convulsões sociais seria devolver ao povo o direito de escolher diretamente um novo mandatário para governá-lo. E, paralelamente, aprovar uma Reforma Política que garanta que a vontade popular seja representada.

Mas isso vai ficando cada vez mais longe de acontecer. E o povo – vendo que Brasília funciona em uma realidade paralela ao resto do país, produzindo denúncias de corrupção em profusão e tramitando uma Reforma da Previdência que é rechaçada pela população – acredita que o que vale é a lei do mais forte.


SP quer varrer Cracolândia, não acolher usuários de crack, diz especialista

Leonardo Sakamoto

A nova cracolândia paulistana, na praça Princesa Isabel, Centro de São Paulo. Foto: André Lucas/UOL

Uma solução rápida para a Cracolândia significará que adotamos o higienismo como política, removendo, internando à força ou mandando de volta para suas regiões de origem as pessoas que sofrem com a dependência de drogas. A avaliação é de Maurício Fiore, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Em entrevista para a TV UOL, ele não descarta a importância de ações da polícia na repressão à oferta de substâncias na área. Mas afirma que a prioridade deveria ser a garantia de teto, alimentação e uma oportunidade de trabalho para a pessoa poder sair do fluxo. ''A sensação que passa é de que o que está preocupando o prefeito é a imagem da cidade e a ideia de limpar a área'', afirma.

Entrevista – Bloco 1

Nem bem o governo do Estado e Prefeitura de São Paulo desalojaram a chamada Cracolândia da região da Luz, no dia 21 de maio, em uma ação que envolveu a retirada forçada de pessoas e a demolição de imóveis, uma nova surgiu na praça Princesa Isabel, a 400 metros de distância. Que, por sua vez, também já foi palco de ações policiais.

''Pior do que demolição com gente dentro [uma escavadeira da Prefeitura derrubou um muro que feriu três pessoas em um imóvel na Cracolândia] foi o pedido de internação compulsória generalizada'', afirma Maurício. Ele se refere à requisição da prefeitura, aceita por um juiz e, posteriormente, revogada pelo Tribunal de Justiça.

''Você não tem nem onde internar as pessoas. Os leitos psiquiátricos que foram disponibilizados não estão preparados para receber esse tipo de paciente com dependência. São para pessoas com outros sofrimentos mentais'', avalia. ''Mas a ideia é ter um instrumento de ameaça: se você não sair daqui, eu vou te internar.''

Ele lembra que não há soluções mágicas para o problema, o que nem sempre o resto da sociedade compreende isso, culpando a pessoa com dependência por se negar a trabalhar ou não ter força de vontade. Segundo ele, acontecerão recaídas e mesmo o receituário de tratamento não é igual para todos. Maurício defende que os envolvidos diretamente, como as pessoas com dependência e os agentes sociais e de saúde, sejam prioritariamente ouvidos na construção de alternativas.

Segundo o entrevistado, 66% dos usuários que participaram do Braços Abertos (programa da administração Fernando Haddad para pessoas com dependência na Cracolândia), já haviam sido presos e um quarto passado por internação no sistema socioeducativo. Ou seja, foram tratados como criminosos e colocados na cadeia.

Ele também não vê como eficiente o encarceramento do pequeno tráfico de varejo. ''É irracional. Você não afeta a oferta de droga.''

Contexto histórico – Maurício Fiore explica que determinadas substâncias químicas foram ''eleitas'' para serem proibidas internacionalmente, ou seja, foram escolhidas de acordo com critérios questionáveis. Tratadas como um mal em si, podendo contaminar ao individuo e à sociedade. A lista original – heroína, cocaína e maconha – deu origem à serie que hoje conta com mais psicoativos. Mas nem todos, nem os mais consumidos.

Apesar da quantidade de malefícios que causa à saúde individual e pública e ao orçamento do Estado, o álcool ficou de fora. Tinha o uso mais naturalizado e nem chegou a ser pensado como droga por aqui.

Maurício relata que a experiência do vizinho Uruguai, que legalizou a cadeia toda, da plantação à venda, pode servir de exemplo para o Brasil.

Os Estados Unidos já liberaram o uso até em sua capital Washington DC e a Califórnia, o estado mais populoso e rico daquele país, vai regulamentar em breve a produção e o consumo. Aliás, não houve mudanças nas taxas de crime ou de consumo pelos jovens da maconha com sua legalização no Estado do Colorado – e a arrecadação de impostos triplicou. O Canadá segue o mesmo caminho.

Em Portugal, o porte de droga para consumo de até dez dias foi descriminalizado. A Holanda fez um arranjo jurídico para tirar a maconha da prioridade de busca, o que, na prática, legalizou a droga. O problema é que a porta de trás – a produção e o contrabando – seguem sendo perseguidos.

De acordo com pesquisador, o modelo que se discute para a maconha no Brasil não é o do álcool (que conta com poucas restrições na venda e publicidade), mas do tabaco – que é um droga de promoção mais restrita.

Explica que é necessário descriminalizar o usuário e caminhar para o controle por parte do Estado. O objetivo seria trazer todas as drogas para a regulação, retirando da proibição pura e simples. Dessa forma, encara-se a questão como saúde pública e não como um caso de polícia com a mão forte do Estado – um modelo autoritário superado e ineficaz. Claro que isso seria avaliado de acordo com a natureza do impacto e da natureza de cada droga.

Pois uso problemático de drogas vai acontecer em um Estado não autoritário, quer o poder público queira ou não. Como um país lida com a questão e quais são suas prioridades é que é a questão.

Entrevista – Bloco 2

Por que as pessoas se tornam dependentes? – Outro tema abordado na conversa é as causas que levam à dependência. Segundo Maurício Fiore, a discussão não é consensual. Uma corrente afirma que dependência é uma mudança fisiológica no cérebro que muda o circuito de recompensa: você tem prazer e quer repetidamente repetir aquele prazer. Outros vêm a dependência em uma intersecção de fatores complexos, sociais, psicológicos. Dizem, inclusive, que vivemos um mundo que potencializa dependências não só em drogas, mas também em internet, sexo, pornografia, jogo.

De qualquer forma, Maurício alerta que não faz sentido falar em dependência química porque o processo não é causado apenas por um fator. E lembra que o uso problemático e compulsivo não é monopólio do crack, mas de muitas outras substâncias. Algumas banalizadas, como o já falado álcool.

Entrevista – Bloco 3


Empresas de deputados e senadores devem R$ 372 milhões à Previdência

Leonardo Sakamoto

Por Piero Locatelli, Ana Magalhães e Ana Aranha, da Repórter Brasil

Enquanto debatem a Reforma da Previdência, deputados federais e senadores estão associados a empresas que devem R$ 372 milhões ao INSS. Segundo levantamento da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional,  73 deputados e 13 senadores estão ligados a grupos devedores da previdência – 1 em cada 7 congressistas.

As empresas presentes no levantamento têm parlamentares como sócios, presidentes, fundadores ou administradores. Casos em que os CNPJs estão vinculados aos CPFs dos congressistas. Entre elas, há redes de televisão e rádio, hotéis, frigoríficos, companhias siderúrgicas e até diretórios de partidos políticos.

Acessa a íntegra do documento e conheça o nome de todos os deputados e senadores.

Entre os devedores, 4 senadores e 11 deputados têm empresas que somam dívidas superiores a um milhão de reais.

O líder do ranking é o senador Fernando Collor (PTC-AL). O ex-presidente está associado a cinco empresas que devem R$ 112 milhões, todas elas atuam no ramo de comunicação. A TV Gazeta, retransmissora da TV Globo, tem Collor como sócio e deve R$ 46 milhões ao INSS.

A assessoria de imprensa do senador afirmou, por e-mail, que ''o Senador não participa diretamente da gestão das empresas de comunicação de sua família, mas acompanha os esforços da diretoria para, mesmo diante do quadro de grave retração econômica, assegurar a continuidade da atividade e garantir o emprego de funcionários, ainda que sacrificando momentaneamente a pontualidade no cumprimento de algumas obrigações de natureza fiscal''.

Entre os deputados federais, a maior dívida é de Marinaldo Rosendo (PSB-PE), com R$ 105 milhões. Somente a PR Distribuidora de Bebidas e Alimentos, da qual ele é sócio, deve R$ 99 milhões ao INSS.

Rosendo não retornou os e-mails e ligações da reportagem. A Repórter Brasil enviou mensagens e ligou para o gabinete de todos os deputados federais e senadores com dívidas superiores a R$ 1 milhão.

O senador Cidinho Santos (PR-MT) informou por e-mail que a dívida de R$ 3,2 milhões foi parcelada e está sendo paga. Ele diz ainda que está afastado da administração das empresas desde que assumiu o mandato.

O deputado Alfredo Kaefer (PSL-PR), associado a cinco empresas que devem R$ 24 milhões, alega que as dívidas são fruto de um erro judicial. Segundo ele, uma de suas empresas entrou em falência e teve os efeitos das dívidas estendidos a outras companhias. “Foi um ato arbitrário de um juiz, depois anulado pelo Superior Tribunal de Justiça”. Ele diz estar aguardando a reintegração dos proprietários para parcelar a dívida.

Na mesma linha, o deputado Newton Cardoso Junior (PMDB-MG) disse, por meio de sua assessoria, que “é um direito de qualquer cidadão discutir na justiça tributos considerados cobrados indevidamente”. Embora declare não mais atuar na direção das empresas devedoras, ele consta como fundador e administrador de seis grupos – entre eles um hotel e uma companhia siderúrgica – que acumulam dívida de mais de R$ 20 milhões com o INSS.

O deputado Celso Russomanno (PRB-SP) informou que a dívida de R$ 1,6 milhão referente ao Bar e Restaurante do Alemão está parcelada e sendo paga. Ele disse acreditar que em 60 meses os débitos estarão quitados. Russomanno alega que o empreendimento foi fechado e que era sócio minoritário do restaurante, detentor de 20% do negócio.

Os outros deputados federais e senadores procurados não responderam à reportagem.

As dívidas contabilizadas pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional incluem aquelas consideradas como em “situação regular”: foram parceladas, suspensas por decisão judicial ou garantidas de alguma forma pelo devedor. Além das cobranças em andamento sem nenhum tipo de garantia, consideradas como em “situação irregular”.

Apesar dos parlamentares localizados alegarem que suas dívidas estariam em situação regular, 75% do total devido está em situação irregular.

Há três principais maneiras de uma empresa entrar na dívida ativa da União como devedora da Previdência: quando ela não repassa a contribuição previdenciária do trabalhador ou do empregador ao INSS ou quando ela paga essas contribuições sobre um valor inferior ao salário real.

Os dados foram consolidados pela procuradoria em abril deste ano, e foram obtidos através do portal da Controladoria-Geral da União , onde são disponibilizados todos os pedidos de acesso à informação feitos ao Executivo Federal e suas respostas.

 


O que a agressão contra Miriam Leitão diz sobre nossa triste intolerância

Leonardo Sakamoto

A jornalista Miriam Leitão relata, em sua coluna desta terça (13), como foi vítima de gritos, xingamentos, ameaças e palavras de ordem contra ela durante o voo Brasília – Rio vindo de pessoas que estavam vestidas com camisas do congresso do PT. Ela, que foi torturada por lutar contra a ditadura militar, também ouviu gritos de ''terrorista'' vindo de militantes.

A companhia aérea Avianca, segundo seu relato, nada fez para tentar acalmar o grupo. Tentou apenas mudar a vítima de lugar no avião – o que é bastante representativo de como o Brasil age diante da necessidade de garantir os direitos de minorias.

A imprensa, como qualquer outra instituição, pode e deve ser criticada, mas isso nunca deve descambar para ataques, intimidação e violência. Jogar pedras contra o prédio de uma redação ou atacar repórteres enquanto realizam seu trabalho ou durante um voo é estúpido e não aceitável sob nenhuma hipótese.

A personificação do descontentamento em uma pessoa a uma cobertura, uma opinião editorial ou a situação da economia e da política como um todo é uma idiotice sem tamanho e inadmissível. É típico de um povo dividido em torcidas organizadas fundamentalistas que comemoram a condução coercitiva de Eduardo Guimarães para prestar depoimento à Polícia Federal ou a quebra do sigilo de fonte de Reinaldo Azevedo.

Infelizmente, parte da sociedade não entende um ataque a um jornalista como um ataque à liberdade de expressão, um pilar da democracia. Vê isso como uma manifestação do descontentamento ao estado das coisas. Incendiada por conteúdos superficiais distribuídos principalmente por páginas e sites anônimos em redes sociais e não acostumada ao debate público de ideias, à aceitação da diferença de opinião e à empatia pelo outro, parte para a ignorância.

Li comentários na rede social de pessoas usando frases como ''acho ruim o que aconteceu, mas ela mereceu''. O uso do ''mas'' tem apenas um sentido nesse tipo de sentença: justificar a violência e alimentar a intolerância. Nada além disso.

Porém, e é importante que se diga, não são apenas os agressores diretos de jornalistas que deveriam ser responsabilizados, mas devemos também lembrar de todos que insuflam violência contra profissionais de imprensa – seja ela tradicional ou independente, de direita ou esquerda, conservadora ou progressista, uma equipe de TV ou uma blogueira solitária. Da mesma forma que algumas lideranças religiosas podem, através de discursos de intolerância, armar pessoas comuns para agir contra inocentes em casos de homofobia, machismo, entre outros, o mesmo pode ocorrer contra jornalistas – reservadas as devidas proporções.

Quando um indivíduo ou um grupo parte para o linchamento de uma pessoa, usa – não raro – o discurso de que está fazendo Justiça, baseado em um entendimento do que é certo, do que é errado e do que é inaceitável. Ao final do dia, ficam felizes quando postam a informação em suas redes sociais, sentindo-se heróis. Quando, na verdade, são uma turba idiotizada.

Através de linchamentos públicos, rasgamos o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia. Teoricamente, em algum momento da história humana, abrimos mão de resolver as coisas por conta própria para impedir que nos devoremos. O sistema que criamos para isso não é perfeito, longe disso, mas é o que tem para hoje. Seria bom, portanto, que começássemos a respeita-lo.

Acreditamos que nosso ponto de vista está correto, mas isso não faz dele uma Verdade Absoluta – até porque verdades absolutas não existem. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho. Desse enfrentamento de ideias e de propostas, que pode ser duro, sairá um vetor resultante que apontará para uma direção, dependendo da correlação de forças envolvidas, dos atores dedicados a isso, da aceitação dessas propostas pelo restante de uma sociedade.

Não acredito que um determinado pacote de políticas seja o melhor caminho para o país, mas há quem diga que eles são. Ótimo, vamos discutir os argumentos que embasam as diferentes e não travar a discussão. Ou pior, defender o fechamento de um veículo de comunicação. Rebate-se uma voz sempre com outra voz, na tentativa de construir um diálogo, e não com a imposição do silêncio.

É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização de quem participa do debate público, transformando pessoas em coisas descartáveis. Muitos simplesmente repetem mantras que leem na internet, ouvem em bares ou veem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo.

As relações que se estabelecem no ''lado de fora'' da internet deveriam ser uma das melhores formas de rompermos a limitação do contato com a diferença criada pelos algoritmos das redes sociais – que mostram em nossas timelines aquilo que gostaríamos de ver, tornando o mundo um lugar mais quentinho. Pois bolhas digitais matam, aos poucos, a empatia. Ao invés disso, temos visto muita raiva transbordar para fora da rede, transferindo comportamentos do ambiente digital, como perseguições e ataques de xingamentos coletivos, para a vida offline. Corremos o risco, ao final, de ficar com o pior dos dois mundos.

Creio que a pergunta que fica é: Queremos realmente ter uma democracia ou só a usamos formalmente para encobrir nossa total incapacidade de fugir de nossa natureza de ódio e intolerância?


PSDB quer ser o pai que fica com parte “boa” e deixa fralda suja para Temer

Leonardo Sakamoto

Sabe aquela história do pai que leva as filhas para o estádio de futebol, joga videogame com elas ou as ensinar a empinar pipa, mas nunca trocou uma mísera fralda de bunda suja ou acordou de madrugada para ver o que o choro do quarto ao lado significa sem que a mãe precisasse ''pedir ajuda''? Parece que o PSDB quer encarnar a figura de pai picareta que só fica com a parte suave se as coisas complicarem com o governo Temer.

Muitos tucanos defendem que, se for para sair do governo, o partido deve continuar apoiando as Reformas Trabalhista e da Previdência. Dizem, de forma cínica, que isso será ''em nome do país'' quando sabem que seria em nome do grande empresariado e do mercado. Claro que não podem falar a verdade porque a esmagadora maioria da população é contra. Não das reformas em si, pois sabem da necessidade de atualizar as regras do país, mas do seu formato, imposto de um jeito violento e antidemocrático pelo governo do qual o partido faz parte.

Há, pelo menos, três grupos de tucanos: os que querem ficar com Temer e apoiar as reformas, os que não querem ficar com Temer e apoiar as reformas e os que não querem ficar com Temer, nem apoiar as reformas. Só para deixar claro: este último, que se preocupa com a raiz social-democrata do partido, é minoria.

Afinal, se as Reformas Trabalhista e da Previdência não passarem até o ano que vem, candidatos do partido podem ser execrados em debates na TV ao ter que defendê-las como uma de suas propostas de um futuro governo. E nem horas de discurso antipetista ou a ajuda de influenciadores digitais e seus perfis falsos que distribuem notícias mais falsas ainda vão salvar uma debandada do eleitorado ao perceber que um candidato apoia uma redução dos direitos dos trabalhadores da ativa e dos aposentados.

Temer não tem muitas opções hoje, a bem da verdade. Com a corda no pescoço, depende do apoio do PSDB e do empresariado que o partido representa. E sabe que sua melhor chance é tanto mostrar-se capaz de entregar essas encomendas corporativas quanto a falta de consenso de quem o substitua na tarefa no curto prazo. Se tivesse apreço à dignidade, afirmaria publicamente que um desembarque do PSDB levaria ao congelamento das reformas – o que deve estar sendo colocado em bastidores. Aliás, se tivesse dignidade, renunciaria e articularia eleições diretas para a sua vaga. Mas isso é outra história, porque a questão agora não é de garantir sua própria liberdade.

(Romero Jucá demonstrou mais autoestima ao afirmar que vai ser muito difícil o PMDB apoiar os tucanos nas eleições do ano que vem se estes vazarem agora.)

O PT, de certa forma, pagou o preço de ter colocado Michel Temer em nossas vidas com a conspiração a céu aberto realizada pelo então vice visando ao impeachment. Agora, seria justo o PSDB arcar com as consequências. Ao invés de pedir o divórcio e se divertir com as filhotas só nos finais de semana (ou seja, tocar as reformas e, junto aos eleitores, culpar Temer, o Breve), seria melhor que os dois ficassem juntos até o fim se for para mudar as leis trabalhistas e as regras de aposentadoria.

Aliás, que não fique só nisso. O PSDB deveria defender todas as falcatruas dos membros do governo aos microfones da imprensa e votar contra a denúncia que deve ser encaminhada pela Procuradoria Geral da República pedindo o afastamento de Temer. Que tenha a coragem de seguir ao lado de Temer para o bem e para o mal.

E, por favor, tire muitas fotos abraçando-o, bem como a Eliseu Padilha e Moreira Franco. Daquelas para usar em santinhos eleitorais. E faça muitos discursos defendendo Temer, como o inflamado pedido para que o tucanato paulista não desembarcasse do governo realizado pelo prefeito João Doria.

Assim fica mais fácil explicar aos eleitores de 2018 quem foram os responsáveis pela vida deles estar pior.