Blog do Sakamoto

Distribuir riqueza é “ideológico”. E chicotear trabalhador, não?

Leonardo Sakamoto

Em um evento empresarial, um palestrante reclamou que há atores sociais infelizmente guiados por ideologias ao invés da razão – no que foi largamente aplaudido. Reclamava dos direitos trabalhistas que, de acordo com o Dicionário Brasileiro de Mentiras, Paias e Cascatas, são os reais vilões pelo não crescimento da economia.

Juro que demorei horrores para entender se ele estava falando sério ou tirando com a cara da plateia. Afinal de contas, se o liberalismo econômico não é ideologia então o Coelho da Páscoa realmente existe.

Se alguém vai a público defender distribuição de riquezas é, hoje, tratado como lunático, processado como incitador de violência, preso como subversivo. Afinal, está tentando acabar com a ordem estabelecida e pulverizar direitos garantidos. Tachado de “ideológico'', é relegado à latrina da sociedade.

O contrário, contudo, é visto como uma surpreendente normalidade, como algo “natural'' ou “lógico''.

Não existe posicionamento sem ideologia. Nossa ideologia vai conosco para toda parte. Essa matriz de interpretação do mundo que abraçamos, consciente ou inconscientemente, diz muito sobre como vemos os fatos e o que eles significam para nós e para os outros.

Como disse Paulo Freire, tudo tem base ideológica. Somos guiados por conjuntos de ideias e adotamos diferentes formas de interpretar os fatos do mundo. O importante é saber se a nossa base é includente ou excludente. Ou seja: se quer que mais seres humanos aproveitem da mesma dignidade ou que respeito que desejamos para nós mesmos ou que a própria ideia de direitos seja um produto disponível para poucos.

Ao mesmo tempo, o “bom senso'' não é neutro. Pelo contrário, é construído. Uma ação ou um comportamento visto como naturais ou lógicos são, na verdade, a resultante de uma série de disputas simbólicas no seio de uma sociedade. Com o tempo, a lembrança dessas batalhas se esvai ficando apenas o seu resultado: uma ideia largamente aceita e pouco questionada.

Felizmente, isso não é imutável e varia de acordo com o tempo e a sociedade em que se vive. O bom senso já justificou queimar hereges na fogueira, a escravidão de índios e negros, o impedimento ao voto feminino e a proibição de casais do mesmo sexo de terem os mesmos direitos dos héteros. Até que, com muito sacrifício, o bom senso passou a ser visto como preconceito ou, mais objetivamente, como a forma de uma classe dominante impor seus ideais ao resto da xepa.

Aliás, não há discurso mais ideológico do que aquele que diz que não possui ideologia. Ao tentar naturalizar relações sociais, culturais e econômicas como se fossem “naturais'' ou “lógicas'' ele está construindo, na verdade, uma complexa rede de estruturas.

O neoliberalismo é craque em se afirmar neutro quando, na verdade, não é. Em dizer que é lógico e natural cortar direitos de trabalhadores, impor limites para o crescimento de gastos públicos em educação e saúde, implantar uma idade mínima alta para a aposentadoria. E depois vêm representantes de empresários dizer que isso não é ideológico? Estão querendo enganar a quem? O já citado Coelho da Páscoa?

Para que alguém continue ganhando e alguém continue perdendo. Para que todos achem isso normal. Ou, no limite, para que você seja tão bem doutrinado que se torne um cão de guarda daquele que te explora.

Em tempos difíceis economicamente, saídas que rifam direitos dos mais pobres e preservam os dos mais ricos (que tal aumentar impostos e taxar dividendos?) são vendidas como a única alternativa para preservar a qualidade de vida de muitos. Quando elas, por sua própria natureza, significam a proteção de poucos.

Uma discussão ampla e que envolva todos ao invés de medidas tomadas de cima para baixo seria um ato sensato.

Mas tenho visto muita TV Senado. E acho que a sensatez anda sumida por aqui.


O Brasil pós-impeachment deve ser um país mais violento e autoritário

Leonardo Sakamoto

Apenas em uma republiqueta mequetrefe, um vice-presidente (que se diz um jurista especializado na Constituição Federal) se junta ao presidente da Câmara dos Deputados, um notório corrupto que possui mais dólares ilegais na Suíça do que estrelinhas visíveis no céu, e agem à luz do dia para articular a destituição de uma presidente do cargo, assumir seu lugar, aplicar uma agenda de redução do Estado e trepanação dos direitos trabalhistas e previdenciários (que não foi e nunca seria eleita pelo voto popular) e parte da sociedade ainda aplaude, achando que essa bela passada de mão em sua bunda é o suprassumo da consolidação democrática.

O fato é que, independente do nome que você queira dar à criança, impeachment, golpe ou paçoca, tivemos uma conspiração.

Acho que o governo Dilma foi ruim, como qualquer morsa letrada que tenha passado por este blog, nos últimos anos, conseguiu perceber pela leitura dos meus textos. Mas o pior é que, como até morsa supracitada entendeu, boa parte dos senadores que estão inquirindo Dilma, nesta segunda (29), não conseguem explicar nem o que são os decretos orçamentários e por que eles constituem crime, quiçá justificar por que conspirações e democracias não combinam.

Ao final dessa guerra nuclear política, vão sobrar apenas baratas em uma realidade ultraconservadora pós-apocalíptica. Pois os dois partidos que eram a maior esperança do país e em torno do qual a democracia brasileira se consolidou nos últimos 20 anos, finalmente garantiram (pela ação ou inação) a Destruição Mútua Assegurada que nem os Estados Unidos e a União Soviética foram capazes de ousar durante a Guerra Fria.

E o receio é que, em 2018, baratas assumam o poder.

A classe política é responsável pela situação a que chegamos, com toda a corrupção, incompetência e ignorância que minou a credibilidade de instituições. Compra da Reeleicão, Mensalões, Trensalões, Lavas-Jato e a maioria dos escândalos, que permanece longe dos olhos do grande público.

Mas, mesmo assim, atacar mortalmente a democracia, é jogar fora a criança com a água suja do banho. São os ambientes democráticos os responsáveis por garantir que diferenças sejam reconhecidas e minorias em direitos sejam ouvidas, tornando possível a vida em sociedade e não a violência como saída. Na prática, sabemos que isso não funciona muito bem, mas é apenas em um ambiente democrático que a própria democracia consegue mudar seus rumos e corrigir-se.

Em dias como hoje, contudo, circulam pela rede mensagens pedindo o fechamento do Congresso. Pessoas decretando a inutilidade não só do parlamento, mas também da própria atividade política, que (teoricamente) deveria ser uma das mais nobres práticas humanas. Outras solicitando que se encontre um “salvador da pátria'' que nos tire das trevas, sem o empecilho de pesos e contrapesos. Ou que Jesus volte.

Pessoas que, em sua maioria, são muito jovens para terem ideia do que estão falando porque não viveram a desgraça da ditadura. Ou, em sua minoria, que sabem muito bem do que estão falando e querem, patologicamente, essa desgraça de volta.

Nesse contexto, qualquer pessoa com posicionamento político contrário à corrente, hoje, hegemônica da política tem sido duramente criticado. Ter opinião virou crime, defender um ponto de vista agora é delito, abraçar uma ideologia é passível de morte.

Quando convicções políticas ou ideológicas acabam sendo escondidas por medo de retaliação violenta por parte de desconhecidos ou, pior, de amigos, algo está muito errado em um país. Quando a escolha da cor de uma camiseta deixa de ser uma questão estética e passa a ser de garantia de integridade física e psicológica, algo está muito errado em um país. Quando crianças mimetizam o comportamento de seus pais e isolam amiguinhos porque os pais deles votaram em um candidato diferente do de seus nas últimas eleições, algo está muito errado em um país.

Em resumo, políticos, mídia, empresários e parte da sociedade conseguiram a proeza de dar espaço aos que defendem que “fazer política é escroto''. Ou seja, ao invés de tentarmos melhorar a política, reinventar a democracia, a saída e negar tudo o que ela representa e buscar saídas rápidas e, não raro, autoritárias.

Pior, caminho para o enriquecimento ilícito. Espalha-se a percepção de que quem se engaja na política, partidária ou não (porque muitos tontos fazem questão de resumir toda política à partidária), tem sempre interesses financeiros.

Chico Buarque estava no plenário do Senado para dar apoio à Dilma Rousseff em seu derradeiro discurso como presidente, durante seu interrogatório no processo de impeachment. É direito dele. Por conta disso, circulam nas redes sociais que ele foi pago para isso, pelo caixa do Partido dos Trabalhadores ou via recursos da Lei Rouanet.

Quando leio essas coisas tenho aquele sentimento de vergonha alheia, que dá um comichão e retesa o corpo em desespero pela ignorância do outro.

Muita gente com dificuldade cognitiva grave não consegue entender que a vontade de participar dos desígnios da pólis ou do país não ocorre apenas por ganho pessoal, mas por ideologia. E ideologia está em toda parte, inclusive e principalmente, entre aqueles que dizem que não a possuem. O problema, segundo o tão maltratado Paulo Freire, é se sua ideologia inclui ou exclui seu semelhante da dignidade.

O parlamento deveria ser o centro da vida política do país e não um estábulo de interesses pessoais. Mas a roda-viva da terra arrasada agora gira por conta própria.

O problema é que alguns grupos que vivem à sombra dos partidos, de um lado e de outro, se alimentaram desse processo. Eles não querem diálogo, querem sangue. Quanto pior, melhor.

Partidos acharam que estavam reunindo as forças ao seu lado para a guerra. O problema é que, seguindo a toada, não vai sobrar partido para contar história.

Se é que eles ainda existem.


Michel Temer deveria democratizar a chicotada e não bater apenas nos pobres

Leonardo Sakamoto

O aumento da destinação de recursos em educação e saúde tem ocorrido acima da inflação nas últimas décadas – em parte para responder às demandas sociais presentes na Constituição de 1988 e, consequentemente, tentar reduzir o imenso abismo social do país.

É questão de matemática. Se fosse apenas pela inflação, anualmente teríamos apenas um reajuste de custos e o tamanho da oferta de serviços não cresceria, permanecendo tudo como está. Se fossemos um país desenvolvido, vá lá, apenas administraríamos o que existe. Mas desconfio que estamos longe disso.

Se a qualidade do serviço público segue insuficiente para a garantia da dignidade da população, imagine quando novos  investimentos forem cortados. Será um salto no sentido de cristalizar o andar de baixo como um local onde a vida não vale nada.

E essa é uma das principais propostas defendidas pelo governo Michel Temer no Congresso Nacional, a fim de economizar os gastos públicos. Áreas como educação e saúde são duas que mais vão sofrer com a medida – hoje, ambas são atreladas a uma porcentagem do orçamento (o montante da saúde, em nível federal, cresce baseado na variação do PIB, e o da educação, deve ser de, pelo menos, 18% da receita).

Como o governo está propondo um teto para a evolução das despesas públicas baseado na variação da inflação (ou seja, sem crescimento real), precisará restringir o que é gasto nessas áreas pois não poderá cortar de outros lados protegidos, como o salário e verba de custeio de deputados federais, senadores, ministros e presidente.

De acordo com reportagem de Angela Pinho, na Folha de S.Paulo, deste domingo (28), o governo Temer suspendeu a matrícula para novas turmas de alunos do programa Brasil Alfabetizado, destinado ao letramento de jovens e adultos. Ao todo, 13 milhões não sabem decifrar um bilhete simples no país – o equivalente a 8,3% da população com 15 anos ou mais.

Ninguém nega que o déficit público precisa ser equacionado e que soluções amargas devem ser propostas e discutidas.

Mas, como venho dizendo aqui, o governo Temer demonstra um carinho grande com o andar de cima ao propor uma medida que limitará gastos com educação e saúde – que afeta a xepa – e evitar as que tirem uma pequena lasca dos mais ricos.

Por exemplo, a volta da taxação de dividendos recebidos de empresas e uma alteração decente na tabela do Imposto de Renda (criando novas alíquotas para cobrar mais de quem ganha mais e isentando a maior parte da classe média). Isso sem falar na regulamentação de um imposto sobre grandes fortunas e um aumento na taxação de grandes heranças (seguindo o modelo norte-americano ou europeu). Não resolvem os problemas, mas sinalizaria algo importante.

Entendo que este grande barco chamado Brasil é transatlântico de passageiros, com divisões de diferentes classes, com os mais ricos tendo mais conforto em suas cabines. Não estou propondo uma revolução imediata para que cabines deixem de existir – apesar de ser uma maravilhosa utopia. O ideal, pra já, seria que as cabines de terceira classe contassem com a garantia de um mínimo de dignidade e as de primeira classe pagassem passagem proporcional à sua renda. E que, ao contrário do Titanic, houvesse botes salva-vidas para todos e não apenas aos mais ricos.

Na prática, contudo, seguimos sendo um navio que carrega escravos, como vem se provando, com parte dos passageiros chicoteando a outra parte. Afinal, o governo (ainda) interino ao invés de buscar medidas que amortecessem o sofrimentos dos mais pobres, que são os que mais sentem uma crise econômica, tenta preservar os mais ricos e as associações empresariais que os colocaram lá. Esquece (ou ignora) que democratizar a chicotada também é por uma questão de justiça social.

E, depois de consolidado o impeachment, teremos ainda Reforma da Previdência Social (com a implantação de idade mínima de 65 anos para homens, quando a expectativa de vida do maranhense, por exemplo, é de 66) e a reforma da CLT (carteira de trabalho vai ser uma ficção tão instigante quanto Harry Potter).

Já passamos da hora de rediscutir esse sistema que, em todos os momentos, de crise ou de bonança, faz com que os muito ricos sejam poupados, enquanto os mais pobres virem geleia.

O que será muito difícil, pois são os representantes dos muito ricos que fazem geleia dos muito pobres.


A vida não pertence a um deus: Pelo direito de decidir quando vamos embora

Leonardo Sakamoto

No meio do redemunho social, político e econômico, acabamos por esquecer de algumas coisas que deveriam nortear a existência: Primeiro, nossa insignificância diante de tudo. Segundo, nossa capacidade de tudo mudar. Esta é uma reflexão que escrevi e gosto de compartilhar sempre que a inexorabilidade do tempo se faz presente de repente, sem pedir licença. Ela vai especialmente a um amigo em seu momento de dor, mas também de paz. É minha forma de lhe dar um abraço, mesmo à distância. E nos lembrar que tudo o que começa, um dia termina.

Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1942. Sol. Contrariando a previsão do tempo, aquele seria mais um dia seguido de calor na capital do país. Casais de namorados andavam despreocupados pela orla de Copacabana e, no Catete, Getúlio posicionava as forças tupiniquins na grande guerra. Enquanto isso, além da linha do bonde, em uma casinha humilde no subúrbio, dava-se à luz uma menina. Pele negra, olhos puxados, quase três quilos e meio, Maria.

Têm sido frequentes os pedidos à Justiça na Europa e Estados Unidos para que doentes terminais com dores insuportáveis possam cometer eutanásia. Querem ter o direito de partir lúcidos e ao lado dos familiares, mas muitos apelos vêm sendo solenemente ignorados. Acabam cometendo suicídio sozinhos, outros ajudados na clandestinidade. Na verdade, pouco importa, porque em ambos os casos significa que o Estado lhe deu as costas.

Exemplos como esses fazem sentir o quão mesquinha é a humanidade. Afinal, isso não é uma discussão sobre a morte, mas sobre a vida e sua dignidade, ou seja, de como as pessoas querem terminar os seus dias.

Maria, como tantas outras Marias, cresceu em um lugar pobre. E como tantas outras Marias ficou órfã muito cedo. Seu pai morreu quando ela ainda não havia desmamado e a mãe seguiu o marido não muito tempo depois. Caçula de quatro irmãos, foi ser criada pela tia. Aos 14, deu o seu grito de independência. Apesar de inteligente, a monotonia da escola não era para ela. Seria considerada apenas mais uma criança problemática pela psicologia moderna. Deixou sua casa e saiu pelo mundo em busca da vida.

O Estado deve proteger a vida. Mas que tipo de vida? Aquela sem qualidade nenhuma, de dor e sofrimento, apenas para cumprir uma exigência legal, filosófica ou religiosa?

Histórias de médicos que cometem eutanásia (para além da ortotanásia, que é deixar a vida e a morte seguirem seu curso e se encontrarem) diariamente nas UTIs não são raridade no Brasil. Pessoas com sensibilidade para entender quando o seu semelhante quer, conscientemente, dar cabo de sua existência devido a um sofrimento extremo e não tratável. Normalmente, aumentam a dose de medicação até o ponto de falência do organismo. Mas, da mesma forma, há os que atendem os apelos de familiares que não querem deixar seus entes queridos partirem e os mantém em uma não-vida por meses. Ou aqueles que acreditam que podem controlar a vida alheia sob o nome de Deus.

De acordo com o historiador Phillippe Ariès, no seu livro O homem diante da morte, a partir do século 12, entre os ricos, os letrados e os poderosos cresceu a idéia de que cada um possui uma biografia pessoal. No início, essas biografias era constituídas apenas dos atos bons e maus de cada um, unidos em torno de um só julgamento: o de ser. Com o passar do tempo, a biografia foi se constituindo também de coisas, animais, posses, pessoas apaixonadamente amadas e de uma reputação: a de possuir.

Ao final da Idade Média, a consciência de si mesmo e da sua biografia confundiu-se com o amor pela vida. A morte começou a ser encarada não mais como a conclusão “do ser'', mas uma separação “do possuir'': morrer é deixar casas, plantações, cavalos e jardins. Em plena saúde, a alegria de aproveitar “as coisas'' ficou alterada pela visão de que um dia o fim chegaria. O contexto histórico também não ajudou muito: no continente europeu, a peste negra exterminou boa parte da população. Tudo isso fez com que a morte deixasse de ser balanço de contas ou sono (para os que acreditavam em vida após a morte) para se tornar carniça e podridão. Não mais o fim da vida, mas morte física, sofrimento, decomposição.

Desvincular a idéia de morte como prejuízo ou frustração, esse é o primeiro passo que deve ser dado para mudar nossa visão diante da eutanásia. Se por um lado o fim da vida pode representar culpa aos que estão indo, significa derrota para os que tentam curar.

Devido ao seu temperamento explosivo, Maria não ficou no seu primeiro emprego por muito tempo. Era desbocada. Quando tinha que dizer algo, não relutava e dizia. Depois tinha que arcar com as conseqüências. Não se tem muito conhecimento sobre sua juventude. O que se sabe vem da boca do povo. As boas línguas dizem que Maria deu sangue e suor para sobreviver. As más, que era boêmia, que dançava, que cantava, que era namoradeira, que bebia muito, que saía sozinha, que contava piadas cabeludas, que juntara os trapos sem passar pelos laços do sagrado matrimônio. Quando questionada sobre o que realmente aconteceu nessa época, Maria ficava em silêncio. E depois de um instante sorria, dizendo: eu era feliz.

A Medicina convencionou chamar de pacientes terminais as pessoas que se encontram no estágio final de moléstias fatais, como é o caso de um câncer avançado ou da Aids. Em muitos hospitais, laboratórios e centros de saúde trava-se uma verdadeira batalha contra essas doenças. No livro Aids e suas Metáforas, a escritora Susan Sontag diz mais: “é uma guerra na qual o inimigo precisa ser derrotado a qualquer custo''. Louvável o empenho dos doutores da ciência. Contudo, o problema é que diversas vezes essa guerra assume um valor muito alto, financiado às custas da dignidade do paciente.

Ninguém quer perder nunca. Muito tempo atrás, ouvi de um dos mais respeitados infectologistas brasileiros que é necessário que o médico tenha a capacidade de compreender as suas limitações. “Ele é formado para salvar vidas e, quando se depara com uma situação de morte, a encara como uma derrota pessoal. Isto está errado. Quando o paciente está no fim da vida e o médico passa a estendê-la artificialmente, pensa que está em um jogo. Um jogo entre ele e a morte da pessoa. E como inexoravelmente é a morte que ganha nessas condições, ele acaba se julgando um perdedor''.

“A morte é apenas mais uma etapa da vida e como tal deve ser encarada'', me afirmou a psicóloga Ana Maria Barbosa. Aceitá-la como mais uma fase pela qual todos teremos que passar, conviver com a idéia de finitude da própria existência e tirar o máximo proveito disso.

Contudo, como disse o poeta, “pensar que a vida cessa é íngreme''. Saber que há um fim faz o ser humano evoluir enquanto indivíduo, enquanto sociedade. Leva a se levantar, bater a poeira e ir atrás dos seus objetivos na Terra, uma vez que seu tempo aqui é escasso.

Qual o principal objetivo do ser humano? Essa pergunta sempre vem à tona quando se chega a esse ponto da discussão. Para que estamos aqui? Sem querer encerrar uma discussão relacionada ao sentido que damos à nossa própria existência, gosto de caminhar na mesma direção daqueles que acreditaram que a razão resida na busca da felicidade. Mas, se é assim, também é grande o número de pessoas que deixam escapar de suas mãos a chance de dar sentido às suas vidas. É comum ouvir frases do tipo: “bem que eu gostaria, mas tenho que deixar para depois''.

Boa parte das pessoas que sofrem de doenças fatais caem em uma angústia profunda e negam veementemente o fim de suas existências. Muitos pacientes não aceitam o fim como etapa do processo e sofrem muito negando a morte. Isto não significa que a notificação da proximidade do seu próprio óbito tenha que ser recebido com júbilo. Mas de onde vem esse sentimento de revolta, essa tristeza?

Há uns 35 anos, Maria conheceu Antônio. Definitivamente não foi amor à primeira vista. Maria era extrovertida, grandona, aloprada. Antônio era baixo, calado, trabalhador. Casaram-se e pouco tempo depois foram tentar a vida em São Paulo. Através da Caixa Econômica Federal financiaram um apartamento de dois quartos lá na Vila Maria. E Maria foi tentar realizar um velho sonho: ter uma criança. Porém, a sorte lhe fez abortar duas vezes antes de descobrir que era estéril. Não desanimou. Adotou José. E gostou tanto que seis anos depois, trouxe Carolina para fazer parte da família.

“Na verdade, não é a morte que está sendo negada e sim tudo o que deixou-se de fazer na vida. Ou seja, a angústia da morte é conseqüência da falta de importância que se deu à vida'', afirmou Ana Maria Barbosa. Em sua dissertação de mestrado Viagem ao Vale da Morte – um estudo psicológico das mulheres que, por sofrerem de câncer de mama, tiveram o seio amputado – ela quebra as amarras sobre o tema:

“A questão não é a morte, mas a vida! Desta maneira cabe ao homem dar sentido à sua própria existência. A intensa dificuldade em lidar com o próprio ódio diante do engodo da vida. Talvez seja este o fator que impossibilita a aceitação do fim. Em contrapartida, a melancolia torna o sofrimento interminável. Perdido o objeto [a morte] e desconhecido o que se perdeu nele [a vida], instalado está o vazio, amputada está a fonte de alimento e aconchego.''

José já era homem e Carolina uma garotinha sapeca quando Maria descobriu um carocinho no seu seio direito. Exames mostraram que estava tudo bem, que o tumor era benigno. Seria feita apenas uma pequena cirurgia para extrair o nódulo. Porém, quando abriram, viram um tumor, maligno, dominando todo o seio. Para que a praga não atingisse outro lugar, foi consenso arrancar-lhe a mama. A partir daí, Maria teve que dividir os afazeres domésticos com sessões semanais de rádio e quimioterapia. Devido às doses cavalares de química, o seu pulmão direito foi queimado. Mas ninguém lhe contou. Maria pensava que a dificuldade de respirar fazia parte da debilidade causada pelo tratamento.

O tratamento psicológico que é dado aos chamados pacientes terminais não deveria ter como objetivo a cura ou o prolongamento de seus dias. “A ênfase está na qualidade e na ressignificação da vida. É preciso que não se ouça apenas as máquinas e as sondas. Dar abertura e espaço para o paciente dizer aquilo que tiver necessidade'', é o que me explicou, anos atrás, Maria Júlia Kovács, professora de psicologia da morte, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Começou a sentir dores na perna. Feito o raio-X, mais um carocinho apareceu. O médico, não se sabe porque, afirmou que aquilo não era câncer mas um machucado qualquer. E nada foi feito. Maria sabia que estava morrendo. E dizia que não podia ir embora enquanto não garantisse o futuro dos filhos. Antônio, apesar de bom homem, tinha pouca ou nenhuma iniciativa. Maria pediu, então, empréstimo e montou uma confecção. O empreendimento não durou muito pois não era muito boa para dar ordens. Fazia mais o tipo: se alguma coisa tem que ser bem feita, faça você mesmo. Vendeu a confecção e alugou um galpão abandonado que reformado virou uma avícola. Apesar do câncer e de um pulmão a menos, fez o negócio prosperar. A ponto de poderem mudar do velho apê para uma casa maior e melhor. A doença e as dificuldades não abalaram o jeito de Maria encarar o mundo. A teimosa continuava feliz.

Um tratamento psicológico que poderia ser receitado para qualquer momento da vida. Dar um significado, viver a vida, ter uma vida digna. Não deixar nenhuma página do livro da vida em branco e, ao virar a folha, ter a certeza de que esta foi única. Se assim for, no momento em que chegar à última, irá encará-la de uma maneira muito melhor. E ao fechá-lo, alguém poderá dizer que o livro valeu a pena. Não será guardado na estante, mas servirá de exemplo aos novos autores. Ora, é a qualidade de um livro medida pelo seu número de páginas ao invés de seu conteúdo?

Naquela noite, Maria foi internada às pressas no hospital. Estava enjoada, dolorida e com falta de ar. Apesar de seu histórico ser grave, não foi à UTI pois o plano de saúde não cobria este tipo de despesa. Ficou em um quarto, sozinha. Dia seguinte, Antônio ligou para saber qual o estado da esposa. “Bem, ela vai indo muito bem'', responderam as enfermeiras de plantão. Mas sentia alguma coisa errada. Insistiu para verificarem como estava Maria. Resmungando, as mulheres de branco acataram o pedido. Na volta, a notícia: “Infelizmente sua esposa faleceu''. Causa mortis: insuficiência respiratória.

A definição de “vida'' do livro Ciência e Vida com o qual passei a 3º série do ensino fundamental é: “processo através do qual os seres nascem, crescem, reproduzem-se, envelhecem e morrem''. Mas a vida, em verdade, é muito mais do que isso. Pelo menos é o que os relatos de milhares de anos de história humana fazem crer. Há algo entre o nascer e o morrer que nos faz únicos. E não é o tempo que permanecemos no planeta e sim a forma como gastamos esse tempo. Maria gastou bem. Por isso, o relato que acaba aqui não tem o objetivo de fazer a cabeça de ninguém. É simplesmente a história de alguém que viveu a vida com dignidade até o fim. Como as coisas deveriam ser.

São Paulo, 30 de janeiro de 1996. Todos os que foram ao seu enterro – diga-se de passagem, não eram poucos – esperavam encontrar uma figura triste, debilitada e comida pelo câncer. Ficaram sem entender. Maria morreu sorrindo.

(*) Maria, que não se chamava Maria, era uma pessoa próxima a mim. Não queria viver para além de sua felicidade. Teve seu desejo atendido.


Paranoia

Leonardo Sakamoto

Recebi de um amigo um meme que está circulando nas redes com insultos a notórios comunistas comedores de criancinhas, consumidores de caviar, hipócritas usuários de smartphones, gayzistas destruidores da família como Gregório Duvivier, Jean Wyllys, Maria do Rosário e este que vos escreve – que a terra, um dia, há de comer. E se empanturrar.

Até aí, nada de novo. Como já disse aqui, memes não doem. Para falar a verdade, adoro memes. O que dói é a maldita falta de criatividade de muitos deles.

Mas, nesse meme, incluíram também os jornais Folha de S.Paulo, Zero Hora e Estado de S.Paulo na lista de fontes de informação esquerdopatas.

A princípio isso seria um conteúdo equivocado de algum desavisado – a rede está cheia de gente com muita energia para gastar e sem muito o que fazer. Mas devo confessar que tenho visto, nos últimos meses, cada vez mais mensagens afirmando que veículos tradicionais fazem o jogo da esquerda.

Cada um pode e deve ter sua opinião. O país é livre. Pelo menos, por enquanto.

Mas de certa forma, devido a casos assim, consigo entender por que os ETs nunca fizeram contato com a gente. Devem achar que não há vida inteligente na terceira rocha transladando o sol. Talvez, entre golfinhos.

Parte da esquerda que afirma que a Folha de S.Paulo, por exemplo, é “um folhetim reacionário'' talvez não faça ideia que uma parte da direita, muito maior que ela, diz que o periódico é “um panfleto comunista''.

paranoia

Há, é fato, um grupo que sabe bem posicionar a voz de cada veículo de comunicação no espectro político-ideológico. Dizem que esses jornais são de “extrema esquerda'' porque querem forçar, através da pressão e do constrangimento, que os veículos produzam mais análises à direita para se provarem imparciais. Infelizmente, não é todo mundo que tem sangue frio para receber críticas, analisa-las como infundadas e seguir de acordo com sua linha editorial.

Por outro lado, é um tanto quanto triste perceber que há quem não consiga diferenciar posições diferentes.

Um estudo conduzido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa mostrou que uma fatia de apenas 8% dos brasileiros em idade de trabalhar é considerada plenamente capaz de entender e se expressar por meio de letras e números.

Segundo a pesquisa, esse indivíduo é capaz de compreender e elaborar textos de diferentes tipos, como mensagem (um e-mail), descrição (como um verbete da Wikipedia) ou argumentação (como os editoriais de jornal ou artigos de opinião), além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor do texto. E esse último ponto é o que nos interessa aqui.

Os quatro personagens do meme, concordando ou não com eles, podem ser considerados militantes do pensamento de esquerda em suas áreas de atuação. Afirmam-se como tais. Já os editoriais dos jornais citados podem ser avaliados como liberais ou conservadores, dependendo do ponto de vista que adotam do que deva ser o papel a ser desempenhado pelo Estado ou os limites de liberdade comportamental que os indivíduos e grupos podem ter.

Contudo, parte dos seres humanos não consegue diferenciar posicionamentos divergentes do seu. Para eles, todo o pensamento que está à sua esquerda é igual. Ou seja, comuna.

Da mesma forma, para tantos outros, tudo o que está à sua direita é igual. Ou seja, reaça.

É claro que, entre os comentaristas dos memes já citados, havia quem demonstrasse prazer e júbilo com intervenções militares, o assassinato de opositores e a declaração de guerra a países vizinhos. Ou seja, há um problema cognitivo envolvido. Quiçá uma sociopatia ou psicopatia latente. Ou falta crônica de ser abraçado pela mãe e pelo pai na infância. E, além disso, conteúdo estridente que chama à guerra têm mais audiência – audiência que conteúdo moderado que chama ao diálogo não tem.

A responsabilidade sobre esse tipo de visão pitoresca dos fatos reside não apenas em uma formação política distorcida e incompleta baseada no consumo de informação de baixa qualidade e na incapacidade de encarar que o mundo não se resume a bem e mal.

Mas também em uma educação até agora ineficaz para fornecer instrumentos para que cada um possa separar o joio do trigo e em um debate público de qualidade, em que possamos reconhecer diferenças e, através do embate sadio de ideias, evoluir.

Como sempre dizemos por aqui, falta amor no mundo, mas falta interpretação de texto.

Contudo, um jornalista experiente, do alto de seus oitenta e poucos anos, me deu outra avaliação sobre isso: “Não é alucinação, delírio ou loucura. É paranoia''.


Governo responsabiliza fabricante de Coca-Cola por trabalho escravo

Leonardo Sakamoto

Por André Campos, especial para a Repórter Brasil

Uma fiscalização em dois centros de distribuição de produtos da Coca-Cola identificou 179 caminhoneiros e ajudantes de entrega sistematicamente submetidos a jornadas exaustivas que configuram, segundo os auditores responsáveis pela ação, condições análogas às de escravo. Entre agosto de 2015 e março de 2016, cada um deles realizou uma média de, ao menos, 80 horas extras por mês. Situações extremas incluíam ainda médias de 140 horas extras mensais e um dia inteiro de trabalho ininterrupto na mesma semana em que um trabalhador já enfrentara jornadas com mais de 12 e 14 horas.

Num caso que exemplifica a realidade desses trabalhadores, ocorrido em fevereiro de 2016, um motorista relatou que, após encerrar uma longa jornada às 0h30min, chegou em casa por volta das duas da manhã com a obrigação de retornar em poucas horas, às 6h30. “Tomou um banho, jantou e ficou vendo televisão, pois se dormisse não conseguiria levantar no horário de trabalho”, informou em seu depoimento aos fiscais. “Sabia que, se não fosse trabalhar, receberia advertência no outro dia.”

Poucas horas de sono e noites viradas: a realidade dos motoristas da Coca Cola (Foto: Mike Mozart / CC)

Poucas horas de sono e noites viradas: a realidade dos motoristas da Coca Cola (Foto: Mike Mozart / CC)

Os problemas foram flagrados pelo Ministério do Trabalho e Emprego na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, em duas unidades da Spal Indústria Brasileira de Bebidas, uma das empresas licenciadas para fabricar os refrigerantes e sucos da Coca-Cola no Brasil – que incluem Fanta, Sprite e Del Valle, entre outros. A fiscalização foi concluída na última segunda-feira, dia 22 de agosto.

“São jornadas completamente indignas”, avalia Marcelo Campos, auditor fiscal que coordenou a ação. Segundo ele, além de deteriorar a saúde dos funcionários, tal ritmo de trabalho também traz perigos à população local por aumentar o risco de acidentes de trânsito. De acordo com o artigo 149 do Código Penal, são quatro elementos que podem definir condições análoga às de escravo no Brasil: trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes e jornada exaustiva – em que o trabalhador é submetido a uma sobrecarga que acarreta danos à sua saúde ou até risco de morte.. O crime prevê penas de dois a oito anos de prisão aos seus praticantes.

A Spal informou à Repórter Brasil que está analisando os autos de infração lavrados pelo governo federal para tomar as medidas necessárias. Diz também que está realizando ajustes operacionais relacionados à jornada dos caminhoneiros, mas nega existência de trabalho escravo em seus negócios.

Além de atuada pelo uso de mão de obra análoga à de escrava, a Spal foi multada pelo governo federal por extrapolar o limite de horas extras permitidos por lei, por não conceder ao menos 11 horas de descanso entre dois dias de trabalho e também por terceirizar o transporte de mercadorias de forma ilícita – um outro grupo de 229 caminhoneiros da Spal estava, segundo a fiscalização, sendo ilegalmente contratado por meio de empresas terceirizadas. Os autos de infração foram encaminhados para o Ministério Público do Trabalho, que ainda está analisando as ações a serem adotadas na esfera judicial.

Virando a noite – A fiscalização do governo federal analisou os controles de jornada da empresa durante sete meses, entre agosto de 2015 e março de 2016. Constatou que cada um desses 179 trabalhadores submetidos a jornadas exaustivas realizou, na média do período, ao menos 80 horas extras mensais. No caso mais grave, citado no início dessa matéria, um caminhoneiro fez uma média mensal de 140 horas extras. Isso equivale a um cotidiano diário médio de 14 horas e 22 minutos entre o início e o fim de cada jornada – já contabilizando a pausa de uma hora para o almoço – num hipotético mês de 26 dias trabalhados.

Esse motorista campeão de horas extras é funcionário da unidade da Spal em Contagem. Chama a atenção a sua jornada numa semana específica, em novembro do ano passado Após dois dias em que trabalhou mais de 14 horas numa terça-feira e mais de 12 horas na quarta, ele retornou à empresa às 6 horas da manhã da quinta para uma jornada que durou exatas 23h59min. Nesse período, apenas um surpreendente intervalo de 26 minutos foi registrado no controle de ponto do caminhoneiro, entre 23h25min e 0h01min. No sábado dessa mesma semana, o motorista teve que se afastar por problemas de saúde.

As consequências para a saúde e vida dos funcionários foram registradas no relato dos motoristas, colhido pelos auditores do Ministério do Trabalho. O cotidiano de poucas horas de sono provoca dores no corpo, estresse, ausência de convivência com a família e tempo de lazer praticamente nulo, pois o fim de semana é aproveitado para dormir e descansar.

Problema antigo – A fiscalização do Ministério foi motivada por diversas sentenças judiciais encaminhadas pela Justiça do Trabalho ao órgão, entre 2013 e 2014. Eram processos movidos por ex-motoristas da empresa. Em uma dessas sentenças, o juiz Márcio Toledo Gonçalves, da 5ª Vara do Trabalho em Belo Horizonte, afirmou que os empregados da Spal estavam submetidos a condições degradantes de trabalho “em razão de jornadas de trabalho extenuantes”.

Em outros casos semelhantes, na Vara do Trabalho de Ouro Preto, a juíza responsável, Graça Maria Borges de Freitas, ressalta em suas sentenças que a Spal já foi condenada em diversos processos movidos naquela vara onde identificou-se motoristas submetidos a jornadas exaustivas. Ela destaca também que o descumprimento sistemático da jornada legal viola a dignidade do trabalhador e, em caso de jornada exaustiva, é uma das possíveis situações que configuram trabalho análogo ao de escravo.

Coca-Cola afirma ter compromisso global de respeito às leis locais sobre horas trabalhadas (Foto: Mike Mozart / CC)

Coca-Cola afirma ter compromisso global de respeito às leis locais sobre horas trabalhadas (Foto: Mike Mozart / CC)

“Havia jornadas começando entre quatro e cinco da manhã e se encerrando entre 22 e 23 horas”, disse a juíza em entrevista à Repórter Brasil. Em alguns meses, segundo ela, isso acontecia de forma sistemática, fato que levou a condenações por danos morais. “Notava-se uma grande rotatividade porque o trabalho era de fato muito cansativo. Eles não aguentavam e saíam da empresa”, explica Graça Freitas.

Posição da empresa – A Spal Indústria Brasileira de Bebidas é uma subsidiária do grupo Femsa, engarrafadora de origem mexicana que fabrica produtos da Coca-Cola em diversos países da América Latina. Procurada pela Repórter Brasil, a Femsa informou que está analisando os autos de infração lavrados pelo governo federal para tomar as medidas jurídicas necessárias. Segundo a empresa, já estão sendo adotadas ações para promover “restrições operacionais”, como a revisão da malha logística, o monitoramento de rotas e novos modelos de veículos para entrega. A empresa diz ainda não reconhecer a prática de trabalho análogo à escravidão em seus negócios.

“Apesar da ocorrência da sobrejornada de trabalho remunerada nos termos da lei, nossas práticas envolvem a garantia das condições adequadas de conforto e higiene a todos os nossos colaboradores”, reiterou a empresa. Leia a íntegra das perguntas e respostas da Femsa.

A Repórter Brasil também procurou a Coca-Cola Company, empresa detentora das marcas e que licencia a produção das bebidas para fabricantes como a Femsa. “A Coca-Cola Brasil tomou conhecimento da questão do excedente das horas extras trabalhadas pelos funcionários de Femsa, ainda que integralmente remuneradas, e já está acompanhando o plano de ação estipulado pelo fabricante para regularizar esta situação”, disse a empresa. Leia a resposta da Coca-Cola na íntegra.

A política de direitos humanos estipulada globalmente pela companhia estipula que os engarrafadores parceiros devem estar “em conformidade com todas as leis locais e nacionais aplicáveis referentes ao expediente e à hora extra”. A Coca-Cola Brasil afirma demandar que os seus parceiros estejam em conformidade com as exigências da legislação brasileira.


Para economizar, frigoríficos escondem doenças de seus empregados

Leonardo Sakamoto

Por Piero Locatelli, da Repórter Brasil

Quando encontrei Osmarina no portão de sua casa, ela sequer conseguia ficar em pé sozinha. Para caminhar menos de dez metros, amparou-se na parede apoiando o outro braço em sua filha. Ela havia passado um ano deitada em sua cama após uma cirurgia na cervical, e agora reaprendia a andar, mas ainda sem conseguir mexer o pescoço e as mãos.

Osmarina conta que “destruiu” a coluna trabalhando no frigorífico da JBS em Lins, interior de São Paulo, durante 11 anos. Ela pegava pedaços de carne em uma esteira e os colocava dentro de caixas, oito horas por dia.

A relação entre carregar pedaços de boi com 15 quilos e destruir as costas pode parecer clara. Mas, para a JBS, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Hoje, Osmarina está “encostada” com uma aposentadoria do INSS, que ela conta sequer ser suficiente para os seus remédios.

Propaganda da Marfig mostra funcionário em frigorífico. Empresa foi autuada por não comunicar doenças. Foto: Reprodução

Propaganda da Marfig mostra funcionário em frigorífico. Empresa foi autuada por não comunicar doenças. Foto: Reprodução

Osmarina mora em Santa Terezinha, um bairro pobre da periferia de Lins onde quase toda casa tem um funcionário da JBS. Fui levado até ela por outros trabalhadores em situações parecidas, que listavam vizinhos com lesões por esforço repetitivo, inflamações nos músculos, hérnia de disco e dificuldades de audição. Todos creditavam isso ao tempo no frigorífico, e se sentiam desamparados pela empresa.

Os moradores de Santa Terezinha são vítimas de uma prática comum de diversos frigoríficos: eles não comunicam todas as doenças geradas ou agravadas pelo trabalho à Previdência Social conforme a lei manda, segundo fiscalização do Ministério do Trabalho e o relato de trabalhadores do bairro. Casos como esse sustentam uma complexa indústria de subnotificações de doenças, onde os trabalhadores são os grandes prejudicados.

Ao ocultar as doenças dos seus empregados, as empresas economizam em diferentes frentes, e todos os outros contribuintes acabam pagando pelos problemas que elas causam através do INSS. Enquanto isso, os trabalhadores doentes seguem sem nada que possa amenizar a sua situação.

Doença é um bom negócio – Além da JBS, ao menos dois outros grandes frigoríficos, Marfrig e BRF, também fazem o mesmo com seus trabalhadores, segundo fiscalizações de auditores fiscais do trabalho. Todos já foram multados em diferentes estados pela “falta de emissão da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)”, como é conhecida a infração.

A JBS é dona de marcas como Friboi e Swift. Foto: Márcio Isensee e Sá

A JBS é dona de marcas como Friboi e Swift. Foto: Márcio Isensee e Sá

A multa pela infração é baixa, e as empresas raramente são responsabilizadas na Justiça por isso. Dessa forma, na ponta do lápis, vale a pena deixar trabalhadores adoecerem e omitir isso das autoridades segundo o auditor fiscal Mauro Muller, que já inspecionou frigoríficos em diferentes estados.  “Às vezes a empresa prefere pagar a multa de novo do que melhorar o processo [de produção],” diz o ele.

O argumento de Muller fica claro quando olhamos o valor da multa: entre R$ 622,00 e R$ 3.916,20 por trabalhador. Para uma empresa como a JBS, com uma receita superior a 100 bilhões por ano, o valor parece bem aceitável.

O que a empresa deveria fazer? – Ao primeiro sintoma de uma doença relacionada ao trabalho, as empresas deveriam comunicar o problema à Previdência. Tosses em um ambiente cheio de pó ou problemas auditivos em uma fábrica barulhenta já seriam suficientes para isso.

No caso de Osmarina, o caso deveria ter sido comunicado quando ela reclamou ao seu supervisor sobre as dores nas costas, quatro anos antes de se afastar do trabalho. A JBS, porém, diz que não há nexo entre o problema de saúde a sua função na empresa. “A conclusão médica pericial foi de que a funcionária é portadora de enfermidades de caráter crônico-degenerativo ocasionando incapacidade parcial e permanente para atividades laborais, não havendo nexo causal com o trabalho,” disse a empresa em nota enviada à reportagem. Porém, ainda que Osmarina tenha de fato uma doença degenerativa, o trabalho certamente contribuiu para agravar o quadro dela, o que obrigaria a empresa a comunicar o problema (leia a íntegra da resposta).

Os frigoríficos fazem vista grossa à maioria das doenças que poderiam ser prevenidas desde o início. As empresas reconhecem somente alguns dos casos mais graves, quando o trabalhador necessita ficar mais de 15 dias afastado e passa a receber os benefícios pagos pelo INSS. Mas nem mesmo o afastamento de trabalhadores é o suficiente para alterações naquilo que causa o problema, como uma máquina que pode gerar o mesmo dano a outros trabalhadores. “Após o término do atestado, o trabalhador retorna ao trabalho e novamente é obrigado a se expor às mesmas condições anteriores,” explica Renata Matsmoto, auditoria fiscal do trabalho em São Paulo especializada em ergonomia.

Médicos não revertem o problema – Para fazer as empresas serem responsabilizadas pelos problemas de saúde que causam a seus empregados, o Ministério da Previdência Social publicou uma lista em 2007 que relaciona a atividade de um trabalhador a uma doença que ela desenvolve: o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP).

A lógica é simples: se muitos trabalhadores de determinada atividade desenvolvem ou agravam uma doença, a causa deveria ser reconhecida automaticamente pelos médicos do INSS. Em frigoríficos, por exemplo, é comum a existência de lesões por esforço repetitivo devido aos movimentos feitos durante todo o dia. Entre motoristas de ônibus, há muita ocorrência de problemas de bexiga porque eles têm que segurar a vontade de ir ao banheiro.  Se a doença consta na lista, é o empregador quem precisa provar que a doença não foi causada pelo trabalho.

Ex-funcionária da JBS, Osmarina diz que a empresa não reconheceu seus problemas de saúde. Foto: Márcio Isensee e Sá

Ex-funcionária da JBS, Osmarina diz que a empresa não reconheceu seus problemas de saúde. Foto: Márcio Isensee e Sá

A lista incomodou muito a indústria brasileira. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tenta derrubar o NTEP no Supremo Tribunal Federal alegando que ele é inconstitucional. O principal argumento contra a lista é a ideia de “causalidade”, ou seja, de que as doenças nem sempre têm a ver com o trabalho exercido. Na ação, eles argumentam que os sintomas não podem ser generalizados, e o caso de cada trabalhador deve ser analisado separadamente.

Apesar de ainda existir oficialmente, o NTEP muitas vezes é inócuo. Os médicos da Previdência Social costumam referendar aquilo que dizem os médicos das empresas, segundo Paulo Rogério Oliveira, criador do NTEP e doutor em Ciências da Saúde. A comunicação também pode ser feita por sindicatos e pelo próprio trabalhador, mas, nesses casos, acaba tendo menos peso junto aos médicos do INSS.

Como isso afeta o trabalhador – Se seguido à risca, todo esse trâmite burocrático não tem a capacidade de curar uma doença, mas ao menos pode amenizar os problemas de alguém aposentado precocemente por causa de doenças geradas pelo trabalho. Quando o INSS reconhece que a doença do trabalhador foi causada ou agravada pelo seu trabalho, ele ganha 90% do seu salário pago pelo governo. Sem esse reconhecimento, eles acabam encostados como Osmarina – sem nenhum tipo de auxílio e recebendo a aposentadoria mínima da Previdência, que hoje é de R$ 880.

Quando nem a empresa e nem o INSS reconhecem o problema do trabalhador, a única forma de fazê-lo é na Justiça – um caminho caro e longo. Elizette Braatz, ex-funcionária do frigorífico da BRF em Chapecó, oeste de Santa Catarina, é um desses raros casos. Ela trabalhava há quatro anos injetando tempero em perus quando começou a sentir dores nos braços e nas costas. Mesmo com atestados de médicos particulares, ela sequer conseguia folgas. “Eu sentia que minha saúde estava cada vez mais devastada. E o que eles me aconselhavam era pedir as contas,” lembra.

Grupo BRF, dono da Sadia, pagou multas por subnotificar doenças de trabalho. Foto: Reprodução

Grupo BRF, dono da Sadia, pagou multas por subnotificar doenças de trabalho. Foto: Reprodução

Elizette trabalhou até o dia anterior a fazer uma cirurgia na lombar, seis anos após os primeiros sintomas. Sem reconhecimento da empresa e do INSS, conseguiu, quase dois anos após a cirurgia, a reversão do caso na Justiça. Hoje, ela recebe um ‘auxílio acidentário’, quando a empresa é obrigada a prestar auxílios como a continuidade da concessão de plano de saúde e o depósito do FGTS.

A empresa afirma que “a colaboradora citada pela reportagem recebeu o apoio necessário e que a perícia médica indicou incapacidade temporária de 12 meses para a sua recuperação, prazo este finalizado em junho de 2015.” (Leia a íntegra da resposta da BRF)

O que a empresa ganha? – Quando deixam de comunicar casos de empregados que adoecem em função do trabalho, as empresas economizam no pagamento do Fator Acidentário de Prevenção, um índice que serve para calcular quanto cada empresa deve pagar ao governo para bancar aposentadorias especiais e benefícios decorrentes de acidentes de trabalho.

Esse índice é calculado a partir de vários indicadores, e um deles é o número de acidentes de trabalho. Empresas sem acidentados ou doentes, por exemplo, pagam a metade da alíquota ao fundo.  Ao omiti-los, as empresas maquiam os números reais e reduzem o valor que deveriam pagar.

Em diferentes frigoríficos, JBS foi autuada por subnotificar acidentes. Foto: Reprodução

Em diferentes frigoríficos, JBS foi autuada por subnotificar acidentes. Foto: Reprodução

Outro motivo para esconder esses problemas é a estabilidade garantida em lei para o trabalhador acidentado. Se o médico do INSS reconhecer a culpa da empresa, ela não pode demiti-lo por um ano. Como a CAT é o primeiro passo para esse reconhecimento, os empregadores preferem não fazê-lo e, assim, ficam livres para demitir funcionários com a saúde debilitada pelo próprio trabalho.

Perguntamos às empresas por que, afinal, elas comunicam menos doenças do que deveriam, como atestam os auditores fiscais do trabalho. Todas elas afirmaram que cumprem com a legislação trabalhista e emitem as CATs conforme a legislação. (Leia a íntegra da resposta das empresas: JBS, BRF e Marfrig)

Como evitar as doenças? – Toda essa discussão sobre a falta de reconhecimento das doenças ocupacionais pode desviar o foco do que realmente importa: diminuir os problemas de saúde causados pelo trabalho.

Do jeito como as coisas funcionam hoje, as multas dos auditores fiscais e gastos com ex-funcionários como Elizette não abalam o orçamento dessas empresas, segundo Paulo Rogério Oliveira. Para ele, a única maneira de mudar esse quadro seria a responsabilização criminal sobre os proprietários das empresas, a partir de ações do Ministério Público Federal.

Enquanto isso, os problemas de saúde contraídos pelos trabalhadores dão prejuízo à Previdência. Em 2015, a União gastou R$ 23,2 bilhões com auxílios a trabalhadores afastados por doenças. Para diminuir esse gasto, o atual governo editou uma Medida Provisória que aumenta a fiscalização sobre aqueles que recebem esse benefício. Já as empresas, principais responsáveis por esse prejuízo, continuam sem pagar pelo que causam. E sem que o governo reforce o controle sobre a sonegação.


Você é expulso de sua cidade e ainda bate palmas para o “progresso”?

Leonardo Sakamoto

Quando a ocupação de determinados espaços interessa às classes que detém o poder econômico, elas elaboram mitos e criam heróis.

Para impor seus objetivos por meio do aparelho jurídico e administrativo do Estado, são construídos suportes de legitimação que mostrem que os seus próprios interesses são, na verdade, interesses de todos e, principalmente, daqueles que vão pagar o pato.

Aliás, pagar o pato vai se tornar uma constante por aqui.

Pois fazem você acreditar que o que é bom para eles é bom para você.

No campo, a construção desse suporte ideológico culminou em slogans como “Terra sem homens para homens sem terra” (que, além de tudo, era machista…), utilizado pelos verde-oliva, mas que estava presente já nos discursos de Getúlio Vargas. O slogan tinha o objetivo de transmitir a ideia de que a Amazônia é um grande deserto verde, desabitado. Contudo, uma olhadinha rápida demonstra a falácia presente na utilização desses discursos, uma vez que terras almejadas pelos novos empreendimentos agropecuários e extrativistas eram e são, na verdade, habitadas por populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas, posseiros e colonos.

O que esse slogan encobre é que a Amazônia não é e nunca foi um vazio e que a imagem de “deserto verde” é uma construção que serve às forças econômicas interessadas em ocupar a região.

Afinal de contas, como todos sabemos, se é um deserto, não tem ninguém. E passar por cima de “ninguém'', não é crime. Certo?

“Terra sem homens para homens sem terra.''

Ou “Bairro com apenas pequenas casas para gente sem bairro.''

Só não explicam que não é qualquer “gente'', mas apenas aquela que tem dinheiro no bolso.

A especulação imobiliária, freada a contragosto pela crise econômica, mas que segue mais viva do que nunca, vem transformando as grandes cidades.

Já citei o ensaio “O Fausto de Goethe: A Tragédia do Desenvolvimento'', de Marshall Berman aqui, mas vale retomar, pois cai como uma luva. Fausto vendera sua alma em troca de experimentar as sensações do mundo. Mas o diabo não é o Lúcifer da cristandade, não representa o mal em si, mas sim o espírito empreendedor capitalista e burguês.

A mentalidade que fomenta Fausto (“destruir para criar”) é a realidade em constante movimento (Mefistófeles perguntava a ele se Deus não havia destruído as trevas que reinavam no universo para poder criar o mundo).

No meio do caminho estavam Filemo e Baúcia, um casal de idosos.

Eram um empecilho para os planos do empreendedor Fausto e precisavam ser removidos. Quando Mefistófeles queima a casa da dupla, assassinando-os, não quer Goethe provar a sua maldade, mas expor exatamente o contrário: joga-se o empecilho fora criando a ideia de que o mal (o casal idoso) precisa ser extirpado para que a sociedade crescesse.

Caem os limites morais. O desenvolvimento não possui padrões éticos, além da ética que cria para si mesmo.

As lembranças da desocupação forçada do Pinheirinho ou dos incêndios nas favelas de São Paulo duram na cabeça da classe média até que empreendimentos bonitos fiquem prontos no lugar. Males a serem extirpados em nome do progresso e do futuro.

Fico preocupado com uma cidade que passa por cima do seu passado, associando-o, de forma equivocada, a algo ruim ou insignificante no intuito de avançar. E avançar. E avançar. Para onde? Pouco importa.

O que importa é que o movimento de mudança seja constante. E que alguém ganhe com isso.

Falar sobre a política higienista urbana no Brasil é chover no molhado. Afinal de contas, as empreiteiras e os especuladores imobiliários, historicamente, doaram recursos de campanha, emprestaram parentes para cargos públicos, influenciaram o cumprimento e o não cumprimento de regras, como planos diretores. Ao mesmo tempo, quando são abertas as contas eleitorais, vemos – novamente – a influência do cimento na eleição de muita gente.

Esta eleição, com a proibição de doações por empresas, promete ser diferente. A ver.

Nos últimos anos, o governo brasileiro inundou o país com bilhões em recursos para a construção, com o objetivo de modernizar a infra-estrutura e erguer moradias, girando a economia.

Só que “esqueceu'' de uma coisa: com o mercado imobiliário aquecido, a busca por áreas urbanas para a incorporação leva à expulsão de outros grupos, normalmente os mais pobres. Se a Justiça considerasse sempre a função social da propriedade para tomar suas decisões, como está previsto na Constituição Federal, a história seria diferente e a sociedade seria ouvida.

O bom é que, em se tratando do dinheiro de cimento, o poder público nunca me decepciona, sendo ele PMDB, PSDB, PT, PSB, PP, federal, estadual ou municipal, em qualquer lugar.

Quem ganhava, mantinha o cimento a tiracolo. Ou, melhor: quem ganhava continuava no bolso dele.


Na vida, há sempre dois Triplex ou “Vale tudo na guerra da informação?”

Leonardo Sakamoto

Da mesma forma que um meteoro se aproxima da Terra toda vez que algum dos comediantes do Escola Sem Partido chama Paulo Freire de burro e picareta, dá para sentir o gosto amargo do Armagedom chegando quando pessoas divulgam qualquer informação para vencer um debate.

Como muita gente pouco se importa para a qualidade da informação que consome, a noção de “verdade'' se torna tudo aquilo com a qual concordam e, de mentira, tudo aquilo com a qual discordam.

A bola da vez é parte das pessoas que são críticas às investigações contra o ex-presidente Lula estarem postando loucamente memes e textos dizendo que o inquérito da Polícia Federal não apontou a família Silva como proprietária do Triplex no Guarujá.

Explico: há dois Triplex na história – o que indiciou a proprietária, uma publicitária, e funcionários da Mossack Fonseca, empresa panamenha que gerencia offshores, e o apartamento que ficou famoso, cujo inquérito ainda está em aberto, no qual se investiga Lula.

Há muito erro de boa fé, claro. Como é claro também que muita gente sabe que são dois imóveis. E pode argumentar que não está mentindo, porque diz que aquele apê não é de Lula. Mas se aproveita para vender a história de que a família Silva teria sido inocentada sobre o outro apartamento também. Porque, depois de todo fuzuê armado, explicar à população que focinho de porco não é tomada, ou seja, que são dois Triplex, pode levar a história a não ter a mesma credibilidade.

Não estou entrando no mérito do Triplex.

(Particularmente, acho frágil que tendo a Lava Jato descoberto um escândalo de corrupção de proporções gigantescas com PT, PMDB, PSDB, DEM, PP, enfim, policiais, procuradores e juízes só consigam envolver o ex-presidente com reformas em um apartamento no Guarujá e um sítio em Atibaia.)

O que estou discutindo aqui é o processo de checagem e divulgação de informações.

Tratei na semana passada do caso do técnico do atleta de salto com vara francês que foi acusado de ter afirmado que o candomblé estava por trás da vitória do brasileiro Thiago Braz, ouro olímpico na modalidade. Ele nunca disse isso – boato que nasceu de uma “licença literária'' de um repórter em um jornal francês, traduzida de forma equivocada por uma agência de notícias, não checada pela imprensa brasileira e difundida loucamente pelas redes sociais. Pequeno adendo: pobre candomblé que não tinha nada a ver com a história e segue sendo vítima de brutal preconceito.

E também discorri sobre outro caso, de uma agência de conteúdo brasileira que publicou um texto dizendo que integrantes do MST, em Goiás, haviam sido presos com base na lei antiterrorismo – o que era um equívoco. A história, com a pauta na ordem do dia e plausível, bastou para que fosse replicada aos borbotões por jornalistas e leitores.

Os dois casos acima não são idênticos à questão do Triplex. Afinal, muita gente caiu que nem pato pelo fato dos casos envolverem agências de notícias conhecidas e com credibilidade. Mas o processo de difusão de uma informação equivocada e de construção de uma “verdade'' é o mesmo.

Podemos recontar casos semelhantes envolvendo a imprensa até o século 16 na Europa se desejarem. A verdade é que histórias assim sempre existiram. Por erro, que por ser intrínseco à falha natureza humana, vai estar presente até o fim dos tempos, mas também por excesso de trabalho, descuido, ignorância, incompetência e má fé.

Antigamente o jornalismo e a comunicação pública eram melhores? Cascata. Agora, contamos com o monitoramento do público e a possibilidade de nossos erros serem apontados em tempo real e ganharem mais visibilidade que nossas próprias matérias – coisa que, antes, era impossível. Tudo bem que a quantidade de pessoas nas redações agora é menor e o fordismo e o toyotismo das linhas de montagem de notícias está mais intenso, o que piora a qualidade da apuração. Mas a falta de feedback e a quantidade muito menor de leitores também mitificava profissionais que hoje não passariam pelo crivo maldoso de uma tuitada certeira.

Ao mesmo tempo, há duas décadas, um erro seria solucionado na edição seguinte de um periódico sem causar tanta repercussão quanto agora – um mundo conectado em tempo real, no qual primeiro se comenta um título que correu na timeline da rede social para, talvez, ler o conteúdo da matéria em questão. Isso, é claro, considerando que desmentidos, correções ou explicações, por não terem a mesma graça ou demonstrarem nossa inocência ou incompetência, não chegam a ter o mesmo alcance do erro ou boato original.

Isso também mostra o quanto o jornalismo profissional, com cada vez menos dinheiro e gente para produzir conteúdo próprio e checar o de terceiros, vai se tornando não um curador de informações (sejam elas de agências, sejam dos próprios leitores), como imaginávamos, mas um reprodutor automático de notícias. Com todos os impactos negativos que isso causa.

Boa parte da imprensa, tradicional e alternativa, poderia se dedicar mais a matérias que explicam confusões que ganham corpo na internet. Com louváveis exceções, hoje é como se os significados que são construídos na rede mundial de computadores fora das páginas de alguns veículos e de seus “iguais'' não lhes dissesse respeito. Isso quando a própria imprensa não está, voluntária ou involuntariamente, envolvida nas maiores confusões – como diria um comercial da Sessão da Tarde.

O triste é que nossa presunção, arrogância ou medo vão fazer com que o jornalismo profissional sofra mais do que o necessário nesse momento de transição em que a profissão procura um lugar ao sol neste mundo novo digital – que chega chegando, chutando, sem cerimônias, os traseiros analógicos.


Uma medalha de ouro é capaz de mudar o humor político do país?

Leonardo Sakamoto

Jogos são usados para distrair, alienar e conduzir a plebe há muito tempo. O pessoal que sangrava no Coliseu, em Roma, que o diga.

Mesmo ao longo de nossa história, o futebol foi utilizado com fins políticos. Não faltam livros, teses e documentários para quem quiser se informar sobre a ditadura militar e a Copa de 1970, na qual ganhamos o direito de derreter a Jules Rimet.

Por isso, o futebol é uma idiotice? Não, o futebol é fantástico, é sensacional, é indescritível. Imbecil é quem o usa politicamente – seja um governo que quer se promover através dele ou de seus opositores que querem desgastar o governo utilizando-o.

Não há uma relação direta entre a manutenção do grupo no poder e quem ganha a Copa desde a redemocratizacão, da mesma forma que não deve haver relação entre a política brasileira e um ouro olímpico no futebol.

Em 1994, levamos a Copa e o ministro da economia do governo anterior foi eleito presidente.

Em 1998, perdemos, mas Fernando Henrique foi reeleito.

Em 2002, ganhamos e o governo anterior não fez seu sucessor e Lula chegou ao poder.

Em 2006, perdemos, mas ele foi reeleito.

Em 2010, perdemos, mas Dilma manteve o PT no poder.

Em 2014, perdemos, mas Dilma foi reeleita.

Pode-se discutir 1994 e 2002 sob a ótica do sentimento de mudança, claro. Muita gente pesquisa sobre esse tema, há muito tempo, mas não chegou a um consenso. E não há um resultado único para essas análises.

A verdade é que a economia segue explicando muito mais o comportamento eleitoral e o humor político do país do que o futebol ou mesmo denúncias de corrupção em um governo. Se a economia estivesse bem, FHC teria feito seu sucessor. E, talvez, se ela seguisse bem, o impeachment não teria ocorrido com Dilma. Como a História não aceita o condicional “se'', nunca saberemos.

Por mais que muitos de nós tenhamos adorado a festa campal que foi a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, ou mesmo celebrado o ouro olímpico no futebol, isso influencia menos no estado de espírito individual ou geral do que a obtenção de emprego, entrar em uma boa faculdade pública ou conseguir um tratamento médico sem longas filas no sistema público de saúde. Ou, melhor: a percepção futura de que isso vá acontecer ou que a situação vá ser melhor.

Olimpíadas e Copa são temas políticos, contudo. Porque, por mais divertidas que tenham sido as festas, o legado deixado tanto na formação de atletas quanto na infraestrutura nacional, em ambos os casos, foi pífia. Foi a política que tornou possível rios de dinheiros fluírem para grandes empreiteiras para montar os grandes eventos, foi a política que expulsou comunidades para darem lugar aos jogos, foi a política que autorizou e conduziu uma política de gentrificação que vem tornando o Rio uma cidade proibida para os mais pobres, foi a política que criou o ambiente para que operários fossem escravizados e mortos na construção de obras, foi a política de desceu a borracha em quem protestava pacificamente contra esses eventos, foi a política que aumentou a vigilância e o aparato estatal de violência usados contra o cidadão comum sob a justificativa de combater o terrorismo.

Atletas competiram e quebraram recordes ou chegaram em último, não importa, deram o melhor de si, portanto não têm a ver com isso e merecem nosso respeito. A menos que emprestem seu prestígio para legitimar políticos e instituições que queiram se beneficiar do suor alheio.

Por fim, quem gosta de futebol, mas está deprimido com a situação política do país não pode celebrar o ouro olímpico? Olha, acho que tem gente que precisa ganhar um abraço bem apertado. Além do mais, as coisas têm os significados que construímos para elas. Essa construção pode ficar na mão de narradores de futebol, jornalistas, economistas, padres, pastores e políticos em geral. Ou ser feita de forma coletiva, por todos nós. Tendo a considerar a segunda alternativa melhor.

A menos que sejamos gado. Mas gado não joga bola.

PS: Imagina como seria a vida se outros esportes tivessem uma mísera parte do que o futebol na TV? Ou mesmo o futebol feminino? Esportistas não ganhariam reconhecimento apenas a cada quatro anos, apoios e patrocínios privados surgiriam pela exibição de marcas e despertaríamos interesse de muito mais jovens para outra modalidades. Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Não importa, a mudança tem que começar de algum lado.