Blog do Sakamoto

Amazônia apodrece em lago de nova hidrelétrica brasileira

Leonardo Sakamoto

A hidrelétrica de Teles Pires deve começar a gerar energia com árvores apodrecendo dentro do seu reservatório, construído na divisa entre o Mato Grosso e o Pará, na floresta Amazônica. Boiando sobre o lago criado pela usina, o entulho pode ser visto de longe. São galhos, lenhas e toras de madeira, entre elas castanheiras e árvores de mogno. O apodrecimento dessa vegetação deve levar à morte de peixes e ao aumento da emissão do gás metano, pelo menos 20 vezes mais nocivo ao efeito estufa do que o gás carbônico. Impacto desastroso para um empreendimento que se apresenta como “fonte [de energia] limpa, renovável e ambientalmente correta.”

A matéria é de Piero Locatelli, da Repórter Brasil:

Questionada, a assessoria de imprensa da Companhia Hidrelétrica Teles Pires respondeu que está tomando as “providências adicionais necessárias ou requisitadas pelos órgãos ambientais, incluindo a limpeza do reservatório” (Leia a íntegra das respostas da usina). Questionado sobre a demora na fiscalização, o Ibama afirmou que elas foram feitas dentro do tempo “usual” (Leia a íntegra da reposta do Ibama). A usina faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal.

Madeira desmatada antes do alagamento não foi removida cooretamente e ficou dentro do lago da usina. Floresta em pé também foi alagada (Foto: Ibama)" width="600" height="400" /> Madeira desmatada antes do alagamento não foi removida cooretamente e ficou dentro do lago da usina. Floresta em pé também foi alagada (Fotos: Ibama)

Madeira desmatada antes do alagamento não foi removida cooretamente e ficou dentro do lago da usina. Floresta em pé também foi alagada (Fotos: Ibama)

As fotos publicadas neste post revelam que a usina não cumpriu uma regra obrigatória para o seu funcionamento: a retirada das árvores da área a ser alagada conforme previsto no seu Plano de Desmatamento. Além da geração de metano, outra consequência é o desperdício de madeira. Oito pátios com toras foram alagados pelo reservatório da usina, e a madeira que deveria ter sido vendida ou utilizada na obra acabou apodrecendo no rio. A companhia também manteve árvores onde deveria ter desmatado totalmente, como as margens do rio Paranaíta. Além disso, a usina não retirou a vegetação necessária nas ilhas e na beira do rio Teles Pires.

O responsável direto pela barbeiragem ambiental é a Companhia Hidrelétrica Teles Pires, consórcio formado pelas empresas Neoenergia (50,1%), Eletrobras Furnas (24,5%), Eletrobras Eletrosul (24,5%) e Odebrecht (0,9%). Como órgão fiscalizador, o Ibama deveria ter detectado o problema, mas os técnicos chegaram tarde.

O Ibama só constatou que o plano não tinha sido cumprido em fevereiro de 2015, quase três meses após autorizar o funcionamento da hidrelétrica em novembro de 2014. Segundo relatório assinado por técnicos do órgão, “as atividades de limpeza da bacia de acumulação foram realizadas de forma pouco criteriosa e até mesmo negligente.”

Antes da fiscalização do Ibama, os erros da usina já haviam sido diagnosticados pelo Instituto Centro de Vida, organização que monitora os impactos de Teles Pires. O instituto revelou que a usina não havia retirado nem metade da vegetação do local em outubro do ano passado, há menos de um mês dela receber a autorização para encher o reservatório. Desta forma, 6,2 mil hectares devem ter sido alagados com vegetação – mais de mil hectares acima do que deveria ter sido retirado pela empresa, segundo o seu Plano de Desmatamento. Veja o mapa elaborado pelo ICV:

reservatorioicvtelespires1-800x586

Madeira jogada fora – Os erros cometidos pelo consórcio não afetarão só a vida no rio e o aquecimento global, mas também a floresta Amazônica e a economia da região. Isso porque a madeira que boia sobre o lago deveria ter sido explorada por serrarias certificadas e vendida legalmente, diminuindo a demanda pela derrubada de mais árvores. Com o desperdício, a madeira necessária na região, inclusive nas obras da usina, terá que sair de outro lugar.

Região de expansão da soja, o norte do Mato Grosso está entre os locais com mais desmatamento no país. O município onde fica a maior parte do lago, Paranaíta (MT), está na chamada “lista negra” do Ministério do Meio Ambiente, o ranking das cidades que mais desmatam. Por isso, a população da cidade sofre restrições de acesso a algumas políticas públicas, como o crédito a produtores rurais.

image-101-800x533

 

Em e-mail à reportagem, o consórcio de Teles Pires alega ainda que “realocou e removeu” as toras de valor comercial que estavam nos pátios alagados. Questionada, a empresa não respondeu as perguntas sobre como esta madeira foi comercializada.

Projeto com problemas – Mesmo que seguido à risca, o Plano de Desmatamento da usina não teria sido suficiente para conter os impactos ao meio ambiente. Este plano , que é elaborado pelo consórcio e aprovado pelo Ibama, estabeleceu que apenas 58% da vegetação deveria ser retirada dos 10,7 mil hectares alagados. Segundo especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, o percentual contrasta com o plano de outras hidrelétricas licenciadas recentemente que fixam como meta a retirada total da vegetação.

“Não há rigor científico nos 58%. O Ibama discutiu diferentes cenários com o empreendedor, e chegaram ao que era mais econômico para a empresa,” diz Brent Millikan, diretor do programa para a Amazônia da International Rivers, ONG que acompanha o impacto de hidrelétricas em todo mundo. “Não há um processo aberto de debate com a comunidade científica, é um processo entre o Ibama e a empresa. E o Ibama não está imune a pressões políticas.”

Não foram só os cientistas que não foram ouvidos sobre os detalhes do plano ambiental da hidrelétrica, mas também a população local afetada pela obra. “A discussão chegou ao local na hora em que já estava pronto, ninguém sabia de nada [sobre como seria o desmatamento],” diz João Andrade, coordenador do Programa Governança Florestal do Instituto Centro de Vida.

Desmatamento é alto na região – As manchas em cor rosa indicam desmatamento na área da usina – arraste o mapa com o seu cursor e veja. A usina é o ponto em amarelo

Usina de metano – A principal consequência da série de erros cometidos pela usina será o aumento da emissão de metano. O gás é gerado quando uma substância orgânica se decompõe sem oxigênio, como no fundo do reservatório da hidrelétrica. Desta forma, as folhas, galhos e árvores deixados na área alagada vão se decompor e emitirão o gás metano em abundância.

Este fenômeno é estudado de perto no Brasil pelo biólogo Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ele chama as hidrelétricas em países tropicais de “fábricas de metano”, já que emitem o gás de forma constante ao longo dos anos. O problema é comum a todas as hidrelétricas no Brasil, mas foi agravado em Teles Pires devido à grande quantidade de árvores e entulhos deixados no reservatório.

Fearnside chama a atenção para outra fonte de metano em Teles Pires: o mato que cresce em locais abandonados, conhecido como juquira. Como a maior parte da vegetação do reservatório foi retirada seis meses antes do seu enchimento, a juquira cresceu nos locais de onde saíram as árvores. Inundada, a vegetação baixa se transformará toda em metano.

O mesmo problema vai se repetir devido ao ciclo natural de seca e cheia dos rios. A vegetação das margens do reservatório não está adaptada a ficar abaixo da água em parte do ano. Assim, ela vai apodrecer e gerar o gás tóxico anualmente. “Toda vez que rebaixar o nível da água, vai se expor um lamaçal em volta do lago. Ali crescem ervas e gramíneas, e tudo aquilo morre quando a água vem. A vegetação fica no fundo, onde não tem oxigênio, e isso vira metano,” explica Fearnside. A hidrelétrica não respondeu à reportagem sobre a emissão do gás tóxico.

Histórico repetido – Teles Pires não será a primeira hidrelétrica a virar uma “fábrica de metano”. O mesmo problema foi flagrado na construção da usina de Santo Antônio, em Rondônia. As imagens abaixo foram registradas em fevereiro de 2012, quando o reservatório começava a ser alagado.

 Em 2012, a usina de Santo Antônio cometeu o mesmo erro: a vegetação do rio Madeira não foi retirada da área alagada

Em 2012, a usina de Santo Antônio cometeu o mesmo erro: a vegetação do rio Madeira não foi retirada da área alagada

“Todo mundo sabia que isso estava acontecendo, bastava andar de barco pelos lagos. O problema é que o Ibama não fiscaliza”, diz Artur Moret, físico da Universidade Federal de Rondônia. “A empresa só retira a madeira que tem valor de mercado. Se não tem valor, eles deixam lá mesmo”. Segundo Moret, esse é um problema geral na construção de hidrelétricas no Brasil.

Construída há 25 anos, a usina de Balbina é o maior exemplo do problema. Ao norte de Manaus, foi alagada com a maior parte das árvores em pé dentro do lago. Quinze anos após ser construída, em 2005, a usina emitia dez vezes mais metano do que geraria uma termoelétrica movida a carvão com o mesmo potencial energético, segundo estudo do Inpa. O desastre de Balbina não deve acontecer na mesma escala por que a área do reservatório de Teles Pires é menor e suas turbinas são mais eficientes, e desta forma a água fica menos retida no local.

A nova usina, porém, já gera problemas ambientais antes mesmo de suas cinco turbinas funcionarem. A geração de energia está atrasada em mais de seis meses por que a linha de transmissão que vai liga-la ao Sistema Interligado Nacional ainda não está pronta. O Ministério de Minas e Energia e a usina não souberam informar quando o problema estará solucionado. Hoje, Teles Pires é uma hidrelétrica que não gera energia, apenas gás metano.


Você lincha outros na internet? Talvez não saiba, mas é um covarde

Leonardo Sakamoto

Perseguir jornalista em rede social é nojento. Coisa de perfil falso e de páginas de ódio que operam de forma anônima na internet porque não têm ética para dialogar de cara limpa e de forma construtiva. Ou porque fazem isso profissionalmente.

Mas quando cidadãos comuns adotam esse comportamento, agindo como uma manada doida, algo de muito errado está acontecendo. Pois não adianta você bater no peito, dizendo que é um defensor da democracia se, na primeira oportunidade, usa de métodos ditatoriais para transformar a vida de outras pessoas em um inferno.

Ficou insatisfeito com uma reportagem veiculada na Veja sobre o Romário? Critique o texto, aponte suas discordâncias, debata com os amigos com base em dados, mas não tente transformar a vida digital dos profissionais envolvidos em um inferno. “Ah, mas há colunistas que usam desse expediente…'' Dane-se! Quantos anos você tem para usar um argumento do tipo “Ah, mas ele também está fazendo isso, mãããe''? Quatro, talvez cinco?

Se os citados em reportagem de qualquer veículo de comunicação se sentiram lesados, há instrumentos legais para resolver o assunto. E se eles não forem suficientes, podemos discutir outros. Na minha opinião, como a questão do direito de resposta – que está sem regulamentação no país. Mas, definitivamente, não é com assédio e ameaças digitais que as coisas vão se resolver.

Aos que me acusam de corporativismo, minhas condolências. Estou sendo racional, pois as regras não são aplicáveis apenas ao que concordo.

Repórteres da Folha, do Estado de S.Paulo e da Carta Capital também sofreram assédio pesado nas redes sociais após cobrirem protestos contra o governo federal. Isso sem contar os da Globo, como o Caco Barcelos, que quase apanhou quando cobria uma das manifestações de junho de 2013 para o Profissão Repórter.

É isso o que vocês querem realmente? Dar porrada digital e física em jornalista? Acham que isso vai resolver os problemas da sociedade ou da sua própria insegurança frente ao mundo? Acha que isso vai democratizar a mídia?

Mesmo falta de reflexão e de bom senso se viu com milhares de pessoas ameaçando de morte o tosco e bizarro dentista de Minnesota que matou o leão no Zimbábue. É claro que ele fez uma coisa terrível, mas deve-se batalhar para que ele responda legalmente pelo que fez e não que seja assassinado ou esfolado em praça pública, como as redes sociais clamam.

Há quem, no meio da multidão, grite por Justiça feita com as próprias mãos. E conclame o povo a acender as fogueiras.

Levo cusparada diariamente nas redes sociais (e já levei ao vivo também) por escrever sobre direitos humanos. Com exceção das ameaças de morte e algumas coisas pesadas, encaro até com bom humor as abobrinhas, como vocês bem sabem. Mas nem todo mundo consegue.

Porque ao contrário do que muitos pensam, a internet não é um “lugar'' que você visita. É uma plataforma de construção da vida cotidiana e é tão real quanto as outras camadas de interação da nossa existência. E as regras da vida do “lado de fora'' valem para cá também.

Você, que é contra linchamentos com paus e pedras, jura mesmo que não vê problemas com linchamentos digitais?


Traficar pessoas é mais grave do que drogas. Mas quem se importa?

Leonardo Sakamoto

O tráfico de seres humanos para trabalho escravo, exploração sexual, remoção de órgãos, mendicância forçada, adoção ilegal e casamento forçado é um dos crimes mais lucrativos do mundo. Apesar disso, ele ganha muito menos destaque nos noticiários brasileiros do que o tráfico de drogas ou de armas.

Ao mesmo tempo, nós jornalistas cobrimos mal o tema, sendo pautados pelo governo, Justiça, polícia ou novelas e não tomando a dianteira em propor análises e investigações por conta própria. Isso sem contar que, involuntariamente, por causa da falta de formação e informação, a sociedade acaba por perpetuar determinados preconceitos.

Preconceitos e equívocos como:

– Apenas mulheres são vítimas de tráfico para exploração sexual;
– Esse problema envolve apenas brasileiras no exterior;
– Só grandes máfias controlam o comércio de gente;
– Somente pessoas pobres e ingênuas tornam-se vítimas;
– Todo boliviano trabalhando em oficina de costura de São Paulo é vítima de trabalho escravo.

Trabalhadores vítimas do tráfico de pessoas para o trabalho escravo são resgatados no Pará (Foto: Leonardo Sakamoto)

Trabalhadores vítimas do tráfico de pessoas para o trabalho escravo são resgatados no Pará (Foto: Leonardo Sakamoto)

Nesta quinta (30), celebra-se o Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas. Por isso, resolvi recomendar novamente duas publicações. A pesquisa  “Tráfico de pessoas na imprensa brasileira” , desenvolvida pela Repórter Brasil, com recursos do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e o apoio do Ministério da Justiça, no ano passado, aponta que o tema ainda não recebe atenção suficiente por parte da mídia.

De 655 textos que saíram nos maiores veículos da imprensa sobre o tema desde 2006, 57% apenas menciona o tráfico de pessoas, não raro de forma equivocada, misturando conceitos e interpretações. Entre os 43% restantes, a maioria (54%) não trata de causas ou contextualiza a questão e boa parte (44%) é focada apenas no tráfico para fins de exploração sexual.

A cobertura se baseia na agenda governamental ou em ações policiais e em muitos casos limita-se a aspectos criminais, sem os aprofundamentos necessários para tratar de um fenômeno complexo, multifacetado e dinâmico, com diferentes modalidades, causas e consequências.

Não admira, portanto, que a percepção popular para a solução é mandar todos os envolvidos para o xilindró. Punir com prisão é importante, mas reduzir todas as medidas a essa é uma visão simplista de um problema estrutural.

Para melhorar a cobertura do fenômeno, sugiro o “Guia para jornalistas com referências e informações sobre enfrentamento ao tráfico de pessoas”, um guia com referências, informações e fontes sobre o enfrentamento ao problema para ajudar jornalistas, profissionais de comunicação do poder público, empresas e organizações não-governamentais e interessados em geral a tratarem do tema.

A publicação destaca que o Brasil é país de origem, trânsito e destino de tráfico de pessoas, o que torna a cobertura complexa. Às pessoas preocupadas em acompanhar a questão, o guia recomenda focar direitos humanos, contextualizar e acompanhar políticas de prevenção, diversificar fontes e ter atenção para identificar novas modalidades de tráfico.

Por se tratar de um fenômeno clandestino e de difícil mensuração, é preciso ter cuidado com números e estatísticas, e com os mitos e estereótipos que ainda são comuns e mais atrapalham do que ajudam no entendimento sobre o tema – pois, em tese, qualquer pessoa pode ser traficada. Ao aprofundar a questão é preciso sensibilidade com vítimas, que não devem ser tratadas como coitadas, inocentes, ignorantes, mas como sujeitos de direitos que merecem respeito.

Também vale cuidado redobrado em casos que envolvem crianças e adolescentes, e estar atento a termos inadequados (o guia traz diversos exemplos). Outras recomendações são ter a perspectiva de gênero e lembrar que diferenças sexuais são produtoras de desigualdades sociais; entender migração como um direito humano; e considerar que a prostituição não é crime no Brasil.

Para saber mais sobre o tráfico de pessoas, veja o vídeo abaixo:


Faça o teste e descubra que tipo de leitor você é

Leonardo Sakamoto

Atire a primeira pedra quem nunca fez aqueles testes de revistas como Capricho ou Querida. Dito isso, trago um necessário teste para ver quem você é do ponto de vista da interpretação de texto.

Porque, como já disse aqui, falta amor no mundo, mas falta interpretação de texto também.

Vamos lá: Atentem-se para a frase “Vovó viu a uva''.

Agora, apontem a interpretação que acham a mais correta para ela:

Interpretação de texto 1:
Certamente a vovó não viu a uva, nem tinha interesse em vê-la. Mas algum capacho de um feminismo de botequim, inseriu a vovó na história só para poder comer a mulherada que lê seus artigos, se fazendo de, como posso dizer, sensível. O cretino quer aparecer bem na fita no Tinder. Todos nós sabemos que a vovó está mais interessada em fazer um bom tricô, cozinhar um bolo para a família, cuidar dos netos ou conversar com as amigas na varanda. Ver a uva é coisa de homem, sempre foi. Afirmar que vovó viu a uva só ajuda a desestabilizar a família brasileira, criando embaraços para o vovô, que lutou a vida inteira para sustentar a casa e garantir que uvas chegassem à família. E, agora, ele não pode nem ver o fruto do seu trabalho? Tristes tempos são estes…

Interpretação de texto 2:
A vovó é uma idiota vendida para ONGs internacionais que acha que o alimento que ela consome vem da gôndola do supermercado. Não imagina que, por trás de tudo, e sustentando tudo, inclusive o superávit da balança comercial, há um pujante agronegócio e abnegados produtores rurais. A idosa em questão apenas viu a uva, mas por que ela se nega a dizer quem a plantou? Qual o interesse de esconder quem a cultivou? Quem a selecionou e trouxe para a mesa da idosa a fim de que pudesse ser vista? O agronegócio está cansado e a população deve fazer uma escolha: ou produzimos uvas ou preservamos o meio ambiente. Mais respeito com o produtor rural e menos preocupação com índios, quilombolas e ribeirinhos, que, como todos sabemos, não produzem uva.

Interpretação de texto 3:
O livro de Levítico é muito claro: Mulher nenhuma poderá ver a uva de ninguém, a não ser a do seu próprio marido, com união consagrada perante Deus e apenas com fins de procriação. Mulher ver a uva é abominação, com pena de apedrejamento em praça pública. Antes desse clima de permissividade, nem se falava da uva em público. Hoje, uma cena grotesca, como uma pura vovó vendo uma uva, é difundida pela internet sem pudor. Graças ao Senhor Jesus, contudo, nós temos os pastores eleitos no Congresso Nacional, que devem aprovar um projeto de lei impedindo que a uva seja vista e pronunciada, e no Ministério do Esporte – que impedirá esportes com uva nas Olimpíadas.

Interpretação de texto 4: 
Nós da Associação Empresarial dos Amigos da Escola gostaríamos de vir a público, através desta nota, para demonstrar nosso desprezo contra a invasão de comunistas na educação das crianças deste Brasil demonstrada nessa frase. Ao invés de aproveitar a alfabetização para incutir na juventude valores caros à nossa sociedade como a livre iniciativa, a competitividade, a meritocracia e o darwinismo sócio-econômico, eles esvaziam a educação básica com questões sem importância, vovós e uvas. Vejamos o caso de Joãozinho. Se ele tivesse se alfabetizado através dessa cartilha hoje seria um Zé Povinho. Ao contrário, usando o método de inclusão cidadã da Associação Empresarial dos Amigos da Escola, ele partiu de uma criança que devorava biscoitos feitos de barro e brincava com ossinhos de rabo de zebu para se tornar o CEO de uma grande multinacional . Se Joãozinho se tornou alguém sem a ajuda do Estado ou de vovós, sem depender de professores que só reclamam de salários e faltam às aulas, por que insistirmos em custos caríssimos, gastando em uvas na merenda escolar pagas com dinheiro público?

Interpretação de texto 5: 
Vovó vê uvas, codornizes e caviar porque ficou de bico fechado para fazer vistas grossas no escândalo do trensalão paulista. Na verdade, as uvas estão em cima da mesa da vovó desde a fundação do país. Esteve nas capitanias hereditárias, na Casa Grande, nos Palácios do Café até chegar às mesas dos Jardins, com gosto de um capitalismo decrépito que, crise atrás de crise, está caindo de velho diante da organização popular. O povo está com fome e não quer comer brioches, mas sim uvas. As uvas que hoje o capital saboreia. Apesar da vovó, amanhã há de ser outro dia e a elite branca não verá esse dia chegar.

Interpretação de texto 6:
A Vovó viu a uva porque é uma vagabunda, que mama nas tetas do governo federal, depois de ter conseguido um cargo porque trabalhou na campanha de alguém. Enquanto o brasileiro nem sonha com cheiro de laranja, essa desqualificada come cachos de uva comprados com nossos impostos, NOSSOS IMPOSTOS! Mas o gigante acordou e esse caso será levado para o Supremo Tribunal Federal para a cassação do chefe da quadrilha da vovó e a restituição de todas as uvas a seus proprietários de direito, que são os homens de bem do Brasil.

Interpretação de texto 7: 
“Vovó'', na verdade, é uma agente infiltrada pela CIA nas manifestações de junho de 2013 para desestabilizar o governo e gerar um clima propício à vitória da oposição. “Vovó'' não apenas teria visto as uvas como as utilizado para cooptar centenas de milhares de jovens por todo o país com a distribuição do tipo itália – fato que passou longe das câmeras de TVs porque a grande mídia também fazia parte do plano. “Vovó'' só não teve sucesso no seu intento porque o governo de Cuba enviou “vovô'', agente de contrainformação, que balanceou esse processo com a entrega maciça de uvas ruby. Infelizmente, isso teve um custo e, por conta, entregamos a Copa do Mundo para a Alemanha.

Interpretação de texto 8: 
Vovó viu a uva significa que a vovó viu a uva.

Resultado:

(1) O Machista Solitário – Neste mundo fluido, no qual as coisas não são necessariamente aquilo que você pensava que fossem, você se sente só, acuado. Tal qual um último leão da savana que pode ser abatido, a qualquer momento, por um dentista de Minnesota, você vai de um lado para outro na internet, esquivando-se de armadilhas deixadas por feminazis que querem uma única coisa: te destronar como rei da floresta.

(2) O Ruralista Carente – Você se sente injustiçado. Afinal de contas, você produz os alimentos do país. E sente aquela raiva subir à cabeça quando um colega utiliza trabalho escravo ou infantil e logo é taxado de criminoso. Mas, pô, o que são um ou dois cativeiros frente ao progresso do país? O que é mais importante? Um pasto bonito até onde a vista alcança ou meia dúzia de índios xexelentos que iam morrer de fome de qualquer jeito mesmo se você desocupasse a terra deles?

(3) O Povo de Deus – Desde Jó, nunca homens e mulheres de Deus sofreram tamanha provação. São mulheres de barriga e de pernas de fora, seminuas, testando a nossa resistência e a nossa fé, quando deveriam estar em casa louvando a Deus. Mas você, mais do que ninguém, sabe que Deus é pai e não mãe. E a Câmara dos Deputados, que agora é do Senhor, deve aprovar um lei para proibir tudo isso aí.

(4) O Meritocrático – Você ralou, deu duro e venceu por conta própria. Por isso, sabe que só é pobre quem quer.

(5) O Gramsci Wannabe – Nunca leu O Capital, mas sabe como é bom falar dele como se o de barba (Marx, não Jesus) fosse seu melhor amigo.

(6) O Homem e a Mulher de Bem – Você é brasileiro, com muito orgulho, com muito amor. E cansou das coisas como estão aí. Pois sabe que, antigamente, o país era muito melhor. Então, quem não esta contigo, está contra você.

(7) O Conspirador – Dilma foi sedada por um grupo avançado que invadiu o Palácio do Alvorada e levada para um local secreto, onde ficará sob custódia. Em seu lugar foi colocada a “Moça'', que após cirurgias plásticas em Pequim e intenso treinamento, tornou-se uma cópia perfeita, porém “de luta''. Como ela estava acima do peso da mandatária (que, de uma hora para a outra, resolveu fazer a dieta Ravena), tiveram que proibir aparições públicas da “Moça'' por algumas semanas, até que ela perdesse massa corpórea. Por isso, faltam uvas.

(8) O Sem Graça – Aguente firme, ok?

Moral da história: muita gente, quando lê, não descobre o outro. Apenas vê a si mesmo no espelho.

(A piada não é nova, eu sei. Mas o mundo lá fora está muito doido.)


Penso, logo existo. Uma banana não pensa, logo uma banana não existe

Leonardo Sakamoto

É triste que pessoas formem opinião através de sofismas e falácias. Isso é resultado de falhas não apenas na educação formal, mas também da falta de vivência coletiva e do conhecimento do outro – coisas que não se aprendem no banco da escola.

Mas é assustador que sofismas e falácias sejam usadas nas tribunas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em Assembleias Legislativas e Câmaras dos Vereadores, como justificativa para aprovação de leis.

Vamos a alguns exemplos:

banana1

 

É impossível gerar filhos a partir de duas mulheres ou dois homens. Portanto, casais homossexuais são uma aberração.

Com 16 anos, jovens podem votar. Então, com 16 anos também podem ser punidos como adultos.

Os sem-teto ocupam imóveis que não são deles. Portanto, podem ocupar a casa onde moro a qualquer momento.

Não se ouvia muitas histórias de violência na época da ditadura. Logo a vida era mais segura naquela época.

Se índios usam celulares e computadores, que não coisas da cultura deles, logo já não são mais índios.

As mulheres recebem salários menores que os homens. Portanto, elas são menos competentes do que eles.

Eu não sou racista e ninguém que conheço é racista. Então, não existe racismo no Brasil.

Para enriquecer, é só trabalhar duro. Quem é pobre, é que não trabalha o suficiente.

Há corruptos no governo. E o governo é de esquerda [olha, não é não, mas prossigamos]. Logo, toda a esquerda é corrupta.

Há golpistas na oposição. E a oposição é de direita [também não é tão simples]. Logo, toda a direita é golpista.

Antes havia menos gays nas ruas. Agora os gays se beijam em público. Logo, gays se beijando em público fazem as pessoas virarem gays.

Ele trabalhou desde muito pequeno e se deu bem na vida. Logo, o trabalho infantil faz bem às crianças.

A polícia prende mais jovens negros. Logo, jovens negros são bandidos.

Quais desses pensamentos enlatados, de falsa relação de causa e consequência, você já comprou e revendeu? Não é uma crítica aonde se quer chegar, longe disso – que cada um tenha sua opinião. Mas ao caminho tortuoso que levou até lá…

Aviso para quem leva a vida muito a sério: o uso de Descartes foi uma piada. Já o uso da banana, não.


Quando montanhas de livros forem queimadas nas ruas, você sentirá remorso?

Leonardo Sakamoto

Antes, se alguém me mostrasse uma imagem de pessoas enlouquecidas em torno de montanhas de livros em chamas, eu me lembraria de “Fahrenheit 451″, de François Truffaut (1966), baseado na obra de Ray Bradbury.

No filme, livros são proibidos, sob o argumento de que tornam as pessoas infelizes e improdutivas. Quem lê é preso e “reeducado''. Se uma casa tinha livros, “bombeiros'' eram chamados para queimar tudo.

Hoje, se me mostrassem uma imagem assim, logo me perguntaria: onde desta vez? Algum grupo fundamentalista islâmico, cristão ou judeu? Interior dos Estados Unidos? Neonazistas europeus? África? Coreia do Norte? China? São Paulo, Rio ou uma grande cidade brasileira?

Um casal de amigos conta que circulou na lista de WhatsApp de seus filhos mensagens sugerindo que jogassem fora os livros “comunistas'' de seus pais. Relatos de pessoas que foram assediadas por carregarem livros de Marx e, principalmente, Gramsci não são raros na rede.

No dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas.

Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por ousarem pensar diferente da maioria. A Alemanha “purificou pelo fogo'' as ideias imundas deles, da mesma forma que, durante a Contra-Reforma, a Santa Inquisição purificou com fogo a carne, o sangue e os ossos daqueles que ousaram discordar.

A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista, levado a cabo por estudantes que apoiavam o regime. Hannah Arendt explica. Deu no que deu. E hoje vemos muitos se acovardarem diante de ondas intolerantes frente à difusão do conhecimento humano.

Colegas da imprensa me contaram histórias de membros de igrejas e templos do interior que pediram a seus fieis – após a polêmica envolvendo a divulgação do 3o Programa Nacional de Direitos Humanos – que destruíssem publicações que tratassem do tema.

Passamos tanto tempo nos preocupando em garantir que os mais jovens decorassem datas de “descobrimentos'' e locais de batalhas que não fomentamos o pensamento crítico. Muito menos mostrar a eles por que é tão fundamental aprender História.

E que História não se absorve através de apenas uma única fonte de informação, mas de várias, e que ela mesma vai mudando à medida em que temos mais elementos para reafirmar ou contrapor as antigas certezas. E de preferência, fontes que tenham passado pelo crivo de discussões acadêmicas e sociais.

Um amigo te disse que o Hocausto judeu na Segunda Grande Guerra nunca existiu? Na minha opinião, isso é um um erro grave, porque há milhões de corpos para mostrar o contrario. Mas se informe por outras fontes antes de tirar uma conclusão – livros, documentários, reportagens.

Pois verá que nem tudo é uma questão de opinião.

De acordo com o sociólogo Bernard Charlot, um saber só tem valor e sentido por conta da relação que ele produz com o mundo. Não é o livro que tem valor em si, mas o que a pessoa fará dele. Ou seja, muitos leem mal e porcamente um livro de História porque acham que não precisam dele para poder seguir sua vida. Se o debate público for mais qualificado, a pessoa se sentirá mais motivada.

Um jovem leitor (ou um perfil fake com foto de jovem leitor) postou “livros mentem, informe-se em sites''. Como se a credibilidade de um conteúdo se desse pelo veículo que o transporta e não pelas evidências que ele apresenta.

Outro escreveu “não confio na história pois a história é contada de forma parcial pelos esquerdistas (…) Lembro que a história de que comunista come criancinha é porque Lenin tomou as colheitas dos camponeses e eles passavam tanta fome que comiam suas crianças. É isso que você quer para o Brasil?‬‬‬''

Não, meu amigo. Primeiro, que apesar de algumas publicações bizarras circulando na rede com erros infantis, a história é, na maioria das vezes contada pelo vencedor. Particularmente quero que o Brasil estude História e leia, leia muito. Leia o que concorda e com o que não concorda também, mas leia fontes de informação que não sejam anônimas e que baseiem seus relatos em provas e não em suposições ou teorias da conspiração. Que são gostosas, mas burras.

Caso contrário os ETs de Roswell e de Varginha vão vir puxar seu pé à noite.

Por fim, há versões digitais das pilhas de fogo de Fahrenheit 451 e daquele maio de 1933 que têm sido verificadas por mim e por alguns colegas jornalistas dos mais diferentes matizes ideológicos. Um exemplo: “você não perde por esperar, você não vai ter mais lugar para escrever, vamos apagar tudo o que você já escreveu, não vai poder mais fazer a cabeça de ninguém''.

“Vamos apagar o que já escreveu.''

Então, tá. Enquanto isso, só nos restam duas coisas: Lutar contra a ignorância. E fazer um bom backup.


Crise econômica: Você já foi trocado por um estagiário?

Leonardo Sakamoto

Com a crise econômica, cresce o número de empresas que contratam estagiários para cumprir funções que, antes, eram de empregados formados. Muitos jovens ficam felizes com a oportunidade, sem se atentar para o fato de que, em breve, serão trocados por carne fresca.

Lembro de uma de minhas turmas de jornalismo que, em determinado momento do curso, estava bem animada com os estágios em grandes veículos de comunicação. Próximo da formatura, contudo, um desânimo generalizado tomou conta ao perceberem que praticamente ninguém seria efetivado e que o mercado de trabalho do jornalismo era (como ainda é) um rascunho do mapa do inferno.

Tempos atrás um programador norte-americano terceirizou para uma empresa chinesa o próprio trabalho, pagando um quinto do seu salário, enquanto passava o dia curtindo (posts e retuitando) a vida adoidado. Ganhava centenas de milhares de dólares anuais, seu trabalho era considerado excelente e a performance tida como a melhor de todo o escritório.

O espertinho norte-americano, que não trabalharia mais para a empresa, estava simplesmente colocando em prática o que o bizarro sistema produtivo de seu país lhe ensinou desde pequeno. Terceirize e contrate alguém com menos direitos sob a justificativa de que você está procurando competitividade. O problema é que algumas normas valem apenas para o andar de cima.

No final de 2013, a Suíça realizou um referendo (eles fazem consultas populares para tudo) sobre um projeto de lei polêmico. Se aprovado, nenhum executivo ganharia em um mês mais do que qualquer outro empregado de uma empresa em um ano. Isso não incluía salários de pessoas em treinamento e os estagiários, por exemplo. E, é claro, levaria em consideração questões de tempo parcial e trabalho temporário.

Claro que não passou. No início, contava com a simpatia da população, Daí entidades empresariais fizeram uma intensa campanha, dizendo que isso levaria a uma migração de empresas do país e reduziria a arrecadação.

Mas o debate é útil em momentos de crise econômica, quando assistimos a executivos de grandes empresas – que foram beneficiadas por desonerações ou subsídios governamentais para que não quebrassem – ganharem bônus milionários.

Na época da Crise de 1929, era mais frequente barões do Café pularem para o nada do alto de seus casarões na avenida Paulista. Hoje, isso é mais raro. Até porque o Estado (no Brasil ou nos Estados Unidos) dá aquela ajuda amiga e investe dinheiro público para sanar a incompetência privada – sendo que os lucros futuros, após a crise, não serão socializados. Quer investindo em qualidade de vida de sua força de trabalho, quer atuando junto às suas cadeias produtivas e aos stakeholders para diminuir o impacto negativo de sua atividade na sociedade (vale explicar antes que alguém com problema de interpretação de textos diga que estou falando em distribuir dinheiro). As montadoras que o digam…

Pelo contrário, crises são usadas como justificativa para precarizar ainda mais direitos. Por exemplo, uma das principais metas, neste momento, é legalizar a terceirização da atividade-fim e afastar o risco de responsabilização solidária dos contratadores de serviços terceirizados em caso de flagrantes de irregularidades. Traduzindo: Em nome da competitividade, nós não te pagaremos mais direitos trabalhistas e previdenciários, mas você continuará recebendo ordens nossas.

Particularmente, não quero uma sociedade em que um estagiário de direito ou de jornalismo saia da faculdade às 23h e volte correndo para o escritório, mesmo tendo trabalhado o dia inteiro, a fim de ganhar uma merreca no final do mês e poder dizer, de boca cheia, que aprendeu. Aprendeu várias coisas, entre elas a explorar outra pessoa no futuro.

De uma forma ou de outra, as regras, públicas e privadas, se organizam para defender o patrimônio de quem muito já tem. Exatamente o grupo que, por ter colchão de amortecimento, ao contrário da maior parte do andar de baixo e da classe média, passa mais tranquilo por esse período sombrio.


Que manchetes estarão nos jornais em 2016? (Ainda teremos jornais em 2016?)

Leonardo Sakamoto

Nove manchetes de futurologia descompromissada, algumas mais possíveis, outras nem tanto e umas só de provocação. A ideia não é aprofundar o discurso do medo, que cresce feliz nas redes brasileiras. Mas, às vezes – só às vezes, esse exercício pode ser útil para a nossa autocrítica coletiva.

Tropas da Venezuela invadem Guiana
Maduro culpa imperialismo. Presidente Eduardo Cunha diz que vai enviar forças armadas brasileiras para defender irmãos guianenses contra a ameaça bolivariana

venezuela

 

Rodízio 7 por 1 falha e Cantareira seca em São Paulo
Com o esgotamento da terceira cota do volume morto, governo estadual traça plano de segurança com a polícia para evacuação de bairros afetados 

canta

 

Novo presidente dos Estados Unidos rejeita acordo do clima
Presidente-eleito Donald Trump diz que documento assinado na gestão anterior deve ser “relegado ao lixo da História''. Primeiro-ministro chinês afirma que a China “não cumprirá o acordo sozinha''

Trump Romney 2012

 

Estados Islâmico ataca curdos com gás. Estima-se, ao menos, 40 mil mortos
Tropas do ISIS usam arma proibida por convenções internacionais em três cidades sob a suposta cumplicidade do exército turco. Ancara nega

estado

 

Ataque a bar deixa três mortos no Rio
Reduto da esquerda carioca, local foi alvo de uma bomba caseira na madrugada deste sábado. Organizações de direitos humanos apontam para ato do Novo Comando de Caça aos Comunistas. Polícia diz que não há suspeitos

Papa Francisco é envenenado em Bali
Washington acusa extremistas muçulmanos. Grupos católicos apontam para envolvimento de alas da própria igreja insatisfeitas com as ações do papado de Jorge Mario Bergoglio para reformar o Banco do Vaticano

papa

 

Em nome da segurança pública, Prefeitura deve implantar “Big Brother São Paulo''
O prefeito-eleito José Luiz Datena afirma que mega-rede a ser implantada fará com que a população “possa dormir tranquila porque tudo estará sob vigilância''. Conselho Federal da OAB pede explicações sobre a proposta de vender imagens para a iniciativa privada para financiar o sistema

foto

 

Refugiados gregos são impedidos de entrar na Alemanha
Ignorando apelos da União Europeia, a fronteira alemã foi fechada para a entrada de gregos que não tenham visto desde a tarde desta sexta. Medida quer conter imigração em massa após quebra do país 

refugiados

 

“Sim'' vence e plebiscito proíbe aborto em caso de estupro
Proposta de deputados da bancada religiosa é aprovada por 53% da população após um mês de campanha relâmpago. Decisão abre caminho para a proibição de interrupção da gravidez em caso de risco para a mãe


Doe um livro de História para quem te resume pela aparência

Leonardo Sakamoto

Uma coisa que tem me fascinado ultimamente é o aumento do número de impropérios nas redes sociais em que o comentarista chama o outro de “mestiço'', carregando na palavra um significado de xingamento que nunca me ocorrera, tentando dizer que a pessoa que tem olho amendoado é inferior.

“Um mestiço imundo.''

“Aquele mestiço.''

“Um mestiço sujo.''

“Mestiço podre.''

“Lixo de mestiço.''

E, essa é boa:

“Mestiço que traz vergonha pros japoneses.''

O que leva a uma outra pergunta: por que eu teria que levar orgulho aos japoneses?

Munido de uma curiosidade mórbida, fucei um ou outro comentarista. Vai dizer que você também não tem vontade de saber onde vive, como procria e o que come esse pessoal? Encontrei alguns perfis, reais ou fakes, não importa, que curtiam páginas neonazistas e outras bobagens de quem faltou às aulas de história.

1mestico

Isso porque eles não sabem que japonês é só o lado do meu pai. Minha mãe é filha de um grego, de Tessalônica, com uma italiana calabresa – que, por sua vez, era filha de um alemão (rá, segura essa!). O grego era descendente de búlgaros – o que levou minha mãe a ter um sobrenome eslavo, quando solteira, impronunciável.

Ou seja, sou, como a maioria de nós somos, uma maçaroca. O que, claro, não me faz melhor, nem pior. Apesar do charme da indefectível questão que sempre escuto: “de onde você saiu?''

Não estou reclamando que sou vítima de preconceito. Isso seria leviano, na mesma linha daquele pessoal fri-ta-do que teme o crescimento do racismo contra brancos no Brasil. Preconceito é sofrido diariamente por negros, indígenas, entre outros grupos, neste nosso Brasil intolerante.

Isso é apenas uma reflexão sobre seres pitorescos que antes andavam nas sombras e, hoje, têm orgulho de mostrar a cara. Não apoio censura prévia, então é bom que falem.

Daí, há casos que demandam denúncias às autoridades. Mas há outros, como os dos meus leitores, que uma boa dose de paciência e amor, para que deixem de sentir medo pelo desconhecido, que vai lhes poupar anos de terapia.


No Líbano, ONG é criada para defender os patrões de empregadas domésticas

Leonardo Sakamoto

É o Líbano. Mas, por um momento, lendo os discurso de patrões que não querem perder seus privilégios diante de uma situação reconhecida mundialmente como de negação aos direitos, pensei que fosse o Brasil. Com a diferença que, no Brasil, devemos avançar um pouco com a nova lei das trabalhadores empregadas domésticas. E a maior parte dos explorados ainda é local, no que pese estar aumentando a contratação de estrangeiras – que recebem menos e reclamam menos…

Em um momento em que aumentam as denúncias por maus tratos contra trabalhadoras empregadas domésticas no Líbano, uma organização não-governamental foi criada para defender as “famílias libanesas'' contra as alegações de abuso e de que patrões seriam sempre culpados. Representantes da “Associação para Proteção da Privacidade da Família e do Trabalhador'' afirma que a impressão é de que toda empregada doméstica é tratada injustamente.

A notícia foi trazida, nesta sexta (24), por Ghinwa Obeid, do jornal libanês Daily Star, do qual estou traduzindo alguns trechos.

Membros da Associação para Proteção da Privacidade da Família e do Trabalhador em conferência de imprensa em Beirute (Foto: The Daily Star/Hasan Shaaban)

Membros da Associação para Proteção da Privacidade da Família e do Trabalhador em conferência de imprensa em Beirute (Foto: The Daily Star/Hasan Shaaban)

De acordo com a reportagem, há aproximadamente 250 mil estrangeiras no Líbano trabalhando como empregadas domésticas sob o sistema “Kafala'', que vincula a permissão de residência a um empregador específico ou “patrocinador'', o que as torna totalmente dependentes deste. Com isso, os abusos têm sido tão frequentes que Filipinas, Etiópia e Nepal teriam proibido seus cidadãos a trabalhar por lá.

Salários baixos, longas jornadas de trabalho, confinamento, trabalho forçado, calotes, abusos físicos são frequentemente reportados. Casos de suicídio de empregadas domésticas são registrados. A matéria diz que a Human Rights Watch reportou que, em média, uma trabalhadora doméstica morre por semana no Líbano de causas não-naturais, como suicídio.

Helen Atala Geara, chefe da nossa associação sugere que está havendo uma campanha sistemática de certas organizações para projetar uma “imagem negativa'' das famílias libanesas e culpou a mídia por insuflar o tema.

Maya Geara, outra fundadora, elenca as empregadores como as vítimas. “Nós representamos a voz de mulheres libanesas e donas de casa que consideram isso uma injustiça e estão ofendidas como essas campanhas estão distorcendo sua imagem''.

Helen Atala Geara reclama que as campanhas estão fazendo demandas como a retirada do sistema Kafala. Segundo ela, isso não é possível até uma nova alternativa ser criada.

Outra demanda, a proposta de criação de um sindicato de trabalhadoras empregadas domésticas imigrantes foi apresentada ao ministro do Trabalho, que a rejeitou.

“Imagine ter uma trabalhadora doméstica que se torne um membro do sindicato e todo o dia diga a você 'Eu tenho uma reunião e preciso comparecer…' É este o trabalhador que nós queremos?'', pergunta Helen Geara.

Ela diz que com a difícil situação econômica que enfrentam algumas famílias libanesas, donas de casa estão sendo forçadas a trabalhar, o que significa que as domésticas se tornam “segundas mães e donas de casa. Ela diz que é necessário ajustar a jornada da empregada doméstica “de forma que ela siga o ritmo da família e não nós o dela''.

De acordo com a matéria, por mais que as fundadoras da organização afirmem que queriam o diálogo para encontrar um ponto de equilíbrio, militantes de direitos humanos estão preocupados com o impacto que a organização possa ter na luta para combater os maus tratos e abusos.

“O que tenho medo é de que essa ação seja usada para encobrir a exploração porque há pessoas dizendo 'Nós somos gente boa e nós gostamos delas [das empregadas domésticas]' “, afirma Nizar Saghieh, um conhecido advogado de direitos humanos no Líbano. “O governo, claro, vai usar esse tipo de discurso para encobrir.''

(Optei pelo plural feminino porque a esmagadora maioria das trabalhadoras empregadas domésticas, no Brasil e no Líbano, são mulheres. Um dia, ainda vamos resolver essa bizarrice linguística.)