Blog do Sakamoto

Aos jovens ricos, benevolência. Aos pobres, pelourinho e bala
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Leonardo Sakamoto

Um grupo de jovens, em sua maioria da classe média alta carioca, foi preso, nesta quinta (30), pela Polícia Civil acusado de tráfico de drogas e porte ilegal de armas. Também estariam envolvidos em roubo de automóveis, tentativas de homicídios, estupros, enfim, vida honesta.

Segundo a polícia, os jovens atuariam como justiceiros na Zona Sul do Rio de Janeiro. O rapaz negro que foi acorrentado nu e pelo pescoço a um poste, no início do ano, acusado de cometer crimes teria sido vítima desse grupo.

Antes de mais nada, este não é um texto conclamando ao linchamento desses jovens. Isso seria de uma idiotice sem tamanho. Nem é sobre eles, a bem da verdade.

Mas sobre o fato de que a classe média alta, na qual, eu, caviar, me incluo, demonstra reações diferentes dependendo dos envolvidos na história.

Vamos por partes. Os repetidos casos de violência gerados por jovens da classe média alta brasileira e a forma aviltante com a qual têm sido tratados adolescentes negros e pobres nos morros e periferias me deixam incomodado.

Sabemos que é mais fácil uma pessoa que foi acusada de roubar um xampu, um litro de leite ou meia dúzia de coxinhas ir amargar uma temporada no xilindró – como mostram diversos casos que já trouxe aqui – do que um empresário que corrompeu passar uma temporada fora de circulação.

Não que o princípio da insignificância (que pode ser aplicado quando o caso não representa riscos à sociedade e não tenha causado lesão ou ofensa grave) não seja conhecido pelo Judiciário. Insignificante mesmo é quem não tem um bom advogado, muito menos sangue azul ou imunidade política. Ou a benevolência de determinados jornalistas.

Tempos atrás, a seguinte notícia veio a público:

“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco jovens moradores de condomínios de classe média da Barra da Tijuca, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos rapazes (…) confessaram o crime e serão levados para a Polinter. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.''

Os rapazes não eram da ralé. Se fossem de classe social mais baixa, certamente o texto seria sutilmente diferente:

“A empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, teve a bolsa roubada e foi espancada por cinco moradores da favela da Rocinha, na madrugada de sábado. Os golpes foram todos direcionados à sua cabeça. Presos por policiais da 16ª DP (Barra), três dos bandidos (…) confessaram o crime e estão presos. Como justificativa para o que fizeram alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.''

Rico é jovem, pobre é bandido. Um é criança que fez coisa errada, o outro um monstro que deve ser encarcerado, quando o tratamento deveria ser igual aos dois.

Lembro que o pai de um deles, num momento de desespero, justificou a atitude do filho como sendo perdoável. Da mesma forma, o pai de um dos jovens que agrediram homossexuais com lâmpadas fluorescentes na avenida Paulista, em São Paulo, pediu condescendência. Afinal, isso não condiz com a criação que tiveram. Bem, são pais, é direito deles.

O incrível é como a sociedade encara a situação, com uma diferenciação claramente causada pela origem social e cor de pele.

Tenho minhas dúvidas se a notícia sairia se fosse o segundo caso. Provavelmente, na hora em que o estagiário que faz a checagem das delegacias chegasse com a informação, ouviria algo assim na redação: “Pobre batendo em pobre? Ah, acontece todo dia, não é notícia. Além disso, é coisa deles com eles. Então, deixem que resolvam''.

A estrutura de uma notícia depende, infelizmente, de que classe social pertence os protagonistas. Somos lenientes com os nossos semelhantes, com aqueles que poderiam ser nossos primos e irmãos, e duros com os outros. E como somos nós que controlados a nossa democrática mídia…

Não estou pedindo o nivelamento por baixo, mas por cima. Não é juntar os mais ricos à fogueira da vingança em praça pública, mas tirar os mais pobres dela e garantir-lhes justiça.

Na prática, as pessoas envolvidas nesses casos apenas colocaram em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: que eles podem porque nasceram bem. Já putas, bichas, índios, mendigos, pessoas em situação de rua e remelentos em geral são a corja da sociedade e agem para corromper os nossos valores morais e tornar a vida dos “cidadãos de bem'' um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos. E por que não incluir nesse caldo as empregadas domésticas, que existem para servir? Se eles soubessem a profissão de Sirley, teria feito diferença?

A sociedade tem uma parcela grande de culpa em atos como esse e os dos jovens que se tornam soldados do tráfico por falta de opções e na busca por dignidade, fugindo da violência do Estado e do nosso desprezo.

A diferença é que, para os da classe média alta e alta, a construção da narrativa passa por onde deveria passar: devemos reintegrá-los para que tenham uma vida adulta plena e produtiva. Afinal, são “jovens''.

Para os pobres, os “menores'', é pelourinho e bala.


Que tal impedir quem recebe o Bolsa Família de ter filhos?
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Leonardo Sakamoto

O deputado estadual Aldo Demarchi (DEM-SP) defendeu que beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família, tenham o título de eleitor suspenso enquanto durar o benefício.

Para ele, contudo, a regra não deveria valer a outros benefícios governamentais, como isenções fiscais ou empréstimos subsidiados a empresários porque esses “produzem''. A informação foi originalmente publicada no Jornal da Cidade, de Rio Claro e confirmada por Guilherme Balza, do UOL.

É muito louco como há pessoas que falam em suspender direitos políticos com a mesma facilidade com a qual passam manteiga no pão. Acreditam que ou o mundo funciona do jeito que elas querem ou os seres humanos que estiverem fora do padrão devem ser alijados de seus direitos fundamentais.

Talvez enxotando do processo decisório quem não compartilha a mesma classe social ou não pense igual, as opções “certas'' sejam finalmente escolhidas.

Se é assim, bora esterilizar quem participa de programas de transferência de renda para que não se reproduzam e onerem ainda mais o Tesouro Nacional.

Também podemos coloca-los em campos de trabalho forçado para que devolvam um pouco para a sociedade que financia sua vagabundagem.

E, se tudo o mais der errado, fuzilamento.

Gêmea siamesa da declaração de Demarchi, foi a pérola do vereador José Paulo Carvalho e Oliveira, de Piraí (PT do B-RJ), que defendeu, no ano passado, a aprovação de um projeto para proibir pessoas em situação de rua de votar.

“Mendigo não tem de votar. Não faz nada na vida. Não tem de tomar atitude nenhuma. Aliás, acho até que deveria virar ração para peixe. A gente trabalhando feito maluco. Não dou nada pra mendigo. Se quiser, vai trabalhar.”

“Ah, japa, mas você vai se preocupar com o que fala um deputado estadual e um vereador?'' Esse pensamento preconceituoso e segregacionista acomete muita gente autointitulada “de bem''. Quem passou pela rede nos últimos dias deve ter percebido que o povo está ávido por sangue.

O silêncio ou a indiferença diante desses discursos de ódio tem o mesmo efeito de um consentimento. E consentimentos crescem, florescem e geram frutos. Portanto, devem ser refutados sempre e a todo o momento.

De forma educada, de preferência. E com paciência.

Daí, eu, que não creio, gosto horrores do clássico Lucas 23:34: “Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem''.

É engraçado que ninguém reclama do dinheiro que vai às classes mais abastadas, que investem em fundos baseados na dívida pública federal, ou através de um rosário de outras formas (o PT tem sido uma mãe carinhosa para quem a vida já sorriu). Grosso modo, muito vai para poucos e pouco vai para muitos. E, mesmo assim, sou obrigado a ouvir pérolas quase que diariamente, reclamando dos programas de transferência de renda, não no sentido de melhorá-los, mas de extingui-los. A raiva com a qual essas iniciativas ainda vêm sendo tratadas por algumas pessoas me surpreende.

Para esse pessoal, é cada um por si e o Sobrenatural por todos. Fraternidade e solidariedade são palavras que significam “doação de calças velhas para vítimas de enchente”, “brinquedos usados repassados a orfanatos no Natal” ou “um dinheirinho limpa-consciência conclamado por campanha de algum canal de TV que, enquanto isso, ganha uma fortuna do próprio governo que poderia estar usando o dinheiro para resolver os problemas sociais descritos na campanha''.

Nada sobre um esforço coletivo de buscar a dignidade para todos, com uma melhor distribuição da riqueza gerada no país. Crescimento produzido pelos mesmos trabalhadores que não desfrutam da maior parte de seus resultados.

Porque, teoricamente, muito teoricamente, todos nascem livres e iguais.

E se eu dissesse uma frase preconceituosa como “dar dinheiro aos ricos os torna vagabundos?” Qual a sua reação?

Por que usar a frase para os pobres é ser um “analista sensato da realidade” e usar a frase aos ricos é ser um “canalha de um comunista safado que um dia voltará para Cuba”?


Deputados têm medo de participação social por se acharem donos do poder
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Leonardo Sakamoto

Você empresta a sua caneta para outra pessoa sob a condição de que ela seja usada em seu nome. Mas, em determinado momento, a pede de volta porque descobre que pode escrever você mesmo pelo menos parte de sua própria história. Nessa hora, a pessoa fica indignada, irritada, raivosa. Não devolve e, pior: diz que a caneta agora é dela.

Em resumo, é isso o que a Câmara dos Deputados fez, nesta terça (28), ao sustar os efeitos do decreto presidencial que cria a Política Nacional de Participação Social – que tem por objetivo desenvolver mecanismos para acompanhar, monitorar, avaliar e articular políticas públicas. E fez com o sangue nos olhos do presidente da casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB), que culpa o PT pela derrota que sofreu para o governo do Rio Grande do Norte.

Dessa forma, os nobres parlamentares passam por cima do artigo 1o, parágrafo único, da Constituição Federal: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente''.

Desde que o decreto foi criado, apareceu uma miríade de declarações de deputados e senadores, dando voltas e voltas para construir justificativas estranhas, dizendo que garantir instrumentos de participação social é assassinar a nossa democracia (he), transformar o Brasil em uma ditadura bolivarianista venezuelana (hehehe) e instalar o regime cubano por aqui (kkkkkkkk).

Minha crítica ao decreto é exatamente o oposto: ele é tímido demais. Na prática, regulamenta os conselhos e comissões que não possuem regulamentação e abre a possibilidade (não obriga) a criação de outros. E vem tarde: afinal tudo o que ele organiza já está previsto na Constituição Federal (aquele documento de 1988 que ninguém gosta de levar muito a sério) e não avança tanto quanto seria necessário, nem responde a demandas das manifestações de junho do ano passado. É, portanto, um primeiro passo.

O decreto 8243/2014 não troca a democracia representativa pela direta em nosso país. Até porque não somos uma sociedade suficientemente desenvolvida, com acesso pleno à informação e consciência de seus direitos e deveres para aposentar nossos representantes. Isso é um sonho ainda distante.

Este decreto não cria instâncias, órgãos e cargos automaticamente, não diminui atribuições do Congresso Nacional ou interfere em outro poderes e não centraliza o controle da sociedade civil em ONGs que querem fazer a revolução.

O mais engraçado é que boa parte dos parlamentares age como comentarista de internet: não entendeu bulunfas de um texto e repete frases feitas contra ou a favor do decreto. O que mostra, novamente, que o Congresso é espelho da sociedade brasileira.

Peço licença para retomar o que já havia escrito na época. Levando a sério alguns discursos que estão circulando nos plenários da Câmara e na imprensa (meu Deus, como tem jornalista que não se digna a ler o papel antes de falar groselha…), não poderíamos ter orçamento participativo, conselhos ligados à defesa dos direitos humanos (responsáveis por monitorar políticas como a de combate ao trabalho infantil), muito menos conselhos ligados à educação e saúde – bandeiras importantes de parlamentares marinistas, aecistas, dilmistas, lucianistas e eduardojorgistas, entre outros, durante a redemocratização.

Conselhos são um espaço em que governo e a sociedade discutem políticas públicas e sua implantação, e estão presentes desde o âmbito local – na escola, no posto de saúde – até o federal, onde reúnem representantes de entidades empresariais, organizações da sociedade e governo. Alguns são obrigatórios, exigidos por leis federais, mas cada município e estado pode criar os que julgar necessários.

Quem escolhe? Há diversas formas. O ideal é que seja por eleição, como ocorreu em São Paulo recentemente com as subprefeituras e áreas temáticas.

É óbvio que, para essas arenas de participação popular serem efetivas, precisam deter algum poder e não serem apenas locais de discussão e aconselhamento. E isso gera conflito entre novas instâncias de representação e as convencionais.

Afinal, senadores, deputados, vereadores, membros das esferas federal estadual e municipal e quem sistematicamente ganha com a proximidade a eles, enfim, o grupo de poder estabelecido, tende a não gostar da ideia de ver outros atores ganharem influência, outros que não fazem parte do joguinho. Há gente que teme, com o monitoramento por parte do povo, ficar sem o instrumento clientelista de poder asfaltar uma determinada rua e não outra, empregar conhecidos e correligionários.

Durante décadas, brigamos para a implantação de instâncias de participação popular. E, agora, que elas começam a ser discutidos em determinados espaços, ainda que de forma tímida e por conta de intensa pressão social, as propostas correm o risco de serem congeladas se o Senado confirmar a decisão da Câmara.

E olha que nem estamos discutindo o vespeiro real. Pois, mesmo que tudo isso aproxime as pessoas da gestão de suas comunidades, os conselhos ainda são espaços de representatividade e não de participação direta.

Com o desenvolvimento de plataformas de construção e reconstrução da realidade na internet, as possibilidades de interação popular deram um salto.

Se tomarmos, por exemplo, as experiências de “democracia líquida'' envolvendo os Partidos Piratas na Europa – com seus sistemas que utilizam representantes eleitos pelo voto direto, mas também ferramentas possibilitando ao eleitor desse representante  ajudá-lo a construir propostas e posicionamentos de votação a partir do sofá de sua sala – percebemos que há um longo caminho a percorrer. Podemos chegar a um momento em que a representação política convencional se esvazie de sentido. Não é agora, nem com esse decreto. Mas, quem sabe, com uma sociedade mais consciente.

Como já disse neste espaço, muitos desses jovens que foram às ruas em junho do ano passado, reivindicando participar ativamente da política não estavam pedindo a mudança do sistema proporcional para o distrital puro ou misto, como o governo federal e o parlamento pensam. Queriam mais formas de interferir diretamente nos rumos da ação política de sua cidade, estado ou país. Mas não da mesma forma que as gerações de seus pais e avós. Porque, naquela época, ninguém em sã consciência poderia supor que criaríamos outra camada de relacionamento social, que ignorasse distância e catalisasse processos. Pois, quando a pessoa está atuando através da internet, não reporta simplesmente. Inventa, articula, muda. Vive.

Ou seja, plebiscitos, referendos, projetos de iniciativas populares, conselhos com representantes por tema ou distrito são os primeiros passos, não os últimos. Com a próxima geração, a política será radicalmente transformada pela mudança tecnológica. Participar do rumo das coisas a cada quatro anos não será mais suficiente. Pois, em verdade, nunca foi. Iremos participar em tempo real.

Por fim, aos líderes políticos, econômicos e sociais que acham que todo poder emana deles próprios, um lembrete: talvez não seja hoje, mas a gente vai querer as nossas canetas de volta.


Preconceito contra nordestinos foi alimentado pela loucura de colunistas
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Leonardo Sakamoto

Tão deprimente quanto as manifestações violentamente preconceituosas contra nordestinos após o resultado da eleição presidencial é identificar em muitos dos tuítes e posts raivosos o DNA da intolerância de alguns colunistas e jornalistas.

Não se enganem, colegas. Esses crimes virtuais cometidos por zumbis incapazes de enxergar no outro um ser humano detentor do mesmo direito à dignidade foram alimentados por argumentos construídos e divulgados, ao longo do tempo, por pessoas que não se preocuparam com o resultado negativo de seus discursos. Mas, autoproclamando-se arautos da decência, sabem que são norte intelectual para muita gente.

Liberdade de expressão não é um direito fundamental absoluto. Não há direitos fundamentais absolutos. Pois a partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, indo além de expor a sua opinião, espalhando o ódio e incitando à violência, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas.

Como aqui já disse, liberdade de expressão não admite censura prévia. A lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizer o que pensam. Mas também afirma que elas são responsáveis pelo impacto causado pela divulgação de suas opiniões.

Esconder-se atrás da justificativa da “liberdade de expressão'' para a depreciação da dignidade humana é, portanto, a mais pura covardia.

Afinal, o exercício das liberdades pressupõe responsabilidade. Quem não consegue conviver com isso, não deveria nem fazer parte do debate público, recolhendo-se junto com sua raiva e ódio ao seu cantinho.


A pressão por uma guinada de Dilma à esquerda começa agora
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Leonardo Sakamoto

Dilma Rousseff não ganhou o segundo turno por conta de João Santana. A atuação de Lula, que segue sendo o grande eleitor do país, foi fundamental, mas outro elemento se mostrou determinante: a militância.

Petistas ou pessoas que não são ligadas ao partido, mas defendem bandeiras de esquerda e enxergavam na continuidade do mandato uma possibilidade maior de diálogo para essas pautas, levaram, junto com organizações e movimentos sociais, a campanha ao espaço público e às redes sociais. Conquistaram votos como o PT fazia antigamente antes do partido se apegar demais ao poder e se apaixonar pelo reflexo no espelho.

O governo reeleito sabe disso. Dilma citou isso em seu discurso de vitória. Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, exaltou o papel dessa militância em entrevista a Josias de Sousa, Mario Magalhães e a mim, no UOL, neste domingo (26). A partir de agora, como Dilma tratará esses grupos será definidor do seu próximo mandato.

Porque essa militância histórica que defendia bandeiras ligadas à efetivação dos direitos humanos e os movimentos sociais foram, por vezes, ignorados ou nem mesmo atendidos nos últimos quatro anos. Parlamentares representantes do agronegócio, por exemplo, tomaram litros de cafezinho com bolinhos transgênicos com Dilma, enquanto lideranças indígenas eram atendidas apenas por alguns ministros.

A grande pergunta é: o governo dará o devido valor a esses grupos, empoderando alas do próprio governo que já tentam pautar esses temas na agenda e atendendo às reivindicações ou continuará levando-os em banho-maria ou ignorando-os em nome da governabilidade – uma palavra tão vazia quanto casuísmo, oportunismo e hipocrisia?

Menos da metade das terras indígenas foram regularizadas e, pelo menos 30 delas, estão com processo pronto, mofando em cima da mesa enquanto esperam a canetada presidencial.

A reforma agrária parou – o que vemos é um simulacro que obedece mais ao calendário eleitoral do que a necessidade de trabalhadores rurais.

O governo não tem conversado devidamente com comunidades tradicionais e, tendo Belo Monte como laboratório, planeja alterar para sempre o ecossistema do rio Tapajós com um rosário de usinas sem entender e ouvir quem mora por lá.

Ao atender aos pedidos de movimentos sociais apenas em momentos de pressão (pré-Copa e eleições), o governo federal evitou desenhar uma política de moradia que não passe apenas pelo acesso ao financiamento, mas promova uma verdadeira reforma urbana, tentando tirar da Constituição a teoria da função social da propriedade.

Isso sem contar a inexistência de uma política decente de promoção da diversidade e combate à homofobia, apesar dos reiterados pedidos dos movimentos sociais.

Ou uma fuga louca do debate quando organizações sociais põem na mesa a ampliação dos direitos reprodutivos.

E uma subserviência completa, para a tristeza de sindicalistas não-pelegos, quando o assunto é responsabilizar financiadoras de campanhas, ops, empreiteiras, pelas péssimas condições dos operários da construção civil.

Enfim, a lista é longa.

Gilberto Carvalho disse que o governo sabe que, a partir de 2 de janeiro, esses militantes e esses movimentos sociais vão, com toda a justiça, cobrar a fatura para ver essas pautas saindo do papel.

Caso o governo resolva mudar sua postura, quer dizer que o segundo turno levou a uma guinada à esquerda. Isso não significa acirrar os ânimos ou criar cisão. Desde quando um governo conciliador tem que ser um governo que ignora os direitos fundamentais? Ou que não garante serviços públicos de qualidade e não promove uma boa reforma política? Pelo contrário, seria um governo que garanta a todos e todas um quinhão de dignidade há muito negado. Para os que votaram em Dilma, para os que votaram em Aécio.

Muita gente que tem experiência em Brasília duvida disso e diz que Dilma colocará a culpa no Parlamento, mais conservador. Mas a questão para esses movimentos e essa militância não é o governo federal tentar e conseguir pouco e sim nem tentar.

Mas o ministro Gilberto está enganado. Não é a partir do início do ano que vem que essa pressão vai acontecer. Encontrei-me, neste domingo, com Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que é a liderança do principal movimento social deste país hoje em termos de centralidade da pauta, mobilização e visão de atuação na minha opinião. Um movimento com uma pauta antiga, mas que sabe se comunicar e influenciar a disputa simbólica da narrativa, pela mídia, pelas redes sociais, de uma forma nova. Também conversei com lideranças LGBTT e indígenas ao longo do dia de ontem.

A pressão começa agora.


Depois das eleições, quero fundar uma igreja para o diabo
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Leonardo Sakamoto

Amanheci, neste domingo eleitoral, com o conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis, tilintando na cabeça. Fiz a heresia de cortar alguns trechos para que ele fosse publicável no blog, dado o seu tamanho e a preguiça da internet em absorver com cuidado tudo o que seja maior do que este parágrafo.

Sei que o Diabo não existe. Deus também não. Mas desconfio que nós mesmos sejamos peça de ficção. 

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo (…)

Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária (…)

Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo.

Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!''(…)

A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas.

Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros. A descoberta assombrou o Diabo.(…)

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno.

Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.


Dilma ou Aécio, se governar só para seus eleitores, não terminará o mandato
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Leonardo Sakamoto

A primeira coisa que a pessoa que ganhar a eleição presidencial, neste domingo, deveria fazer – após socar a parede e gritar “yessssss!'' – é um pronunciamento reconciliatório, convidando a todos e a todas a abaixarem as armas, pois a “guerra'' já acabou.

Esse pronunciamento teria que evitar críticas ao outro lado e argumentos messiânicos ou segregacionistas. Desmotivar o clima de desforra e vingança e lançar cordas para o diálogo com quem perdeu, lembrando que governo e oposição, peso e contrapeso, são dois elementos sem os quais uma democracia não existe de fato.

Seria, na prática, um comportamento contrário aos instintos mais selvagens de cada um de nós que fazem com que liguemos a um amigo a fim de tripudiá-lo ao máximo após uma vitória em uma difícil final de campeonato de futebol (#quemnunca).

Mas esse banho de água fria deve ser feito, mesmo para decepção da parcela dos eleitores que quer ver sangue.

Ou seja, o eleito ou eleita – para fazer esse aceno – terá que ignorar solenemente o desejo da ala sombria de sua militância, que nas últimas semanas rebaixou o nível das eleições para algo mais sinistro do que o lodo da terceira cota do volume morto do reservatório da Cantareira.

Compreendo (mas não concordo) que, para conseguir votos de eleitores extremistas que não apoiam uma determinada forma de governar mas querem apenas trucidar um grupo que vive e pensa de forma diferente, candidatos abracem o capeta. E, com isso, são transformados no próprio quando, na verdade, não o são.

Um amigo jornalista disse que eleições sempre foram assim e que é natural essas posições ganharem as ruas.

Discordo. Sair do armário é preciso, viver não é preciso, já dizia Fernando Pessoa. Mas não estou reclamando de abrir publicamente uma posição e debatê-la, mas de tentativas sórdidas de acabar com o outro. E isso não é admissível.

Da mesma forma, o lado que sair derrotado deve entender que, do ponto de vista do jogo democrático, o recado das urnas não significa o seu exílio, mas que o seu papel será de oposição responsável e sistemática ao governo eleito. Uma oposição que, pela divisão do eleitoral, já nasce forte.

Alguns torcedores fanáticos ficarão possessos e se sentirão ludibriados. “Poxa, mas cadê a caça as bruxas? Do que adianta ganhar se não posso matar uns inimigos?'' Os mesmos que, muito provavelmente, sairão apavorando na rua com o resultado das urnas, achando que estão dentro de um jogo de Grand Theft Auto – versão 5, claro.

Mas, paciência. Um governante não tem que atender apenas os desejos de quem nele votou. Se assim fizer, não terminará o mandato.

E, muito menos, as vontades de uma minoria dodói da cabeça, seja da orientação política que for, que acha que o Brasil pertence única e exclusivamente a eles.


Se você pudesse fazer uma pergunta para Dilma e Aécio, qual seria?
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Leonardo Sakamoto

Ao longo dos debates entre Dilma Rousseff e Aécio Neves na TV, torci para que os dois engatassem uma discussão de profundidade sobre uma série de problemas e desafios do país. Mas os marqueteiros não deixaram.

Debate profundo sobre a reforma política ou o combate à homofobia e ao racismo? Ninguém sabe, ninguém viu. Ao invés disso, um diálogo esquisito e insuficiente, em que um lado perguntava sobre frutas e o outro respondia a respeito da largura de legumes. Ou em que um perguntava sobre torresmo e o outro falava sobre a suavidade do amaciante de roupas. Noves fora a baixaria.

Pedi para jornalistas e professores que me enviassem a pergunta que gostariam de ver respondida pelos candidatos no debate desta sexta (24) à noite, o último da campanha presidencial. É claro que essas questões não esgotam os temas importantes, mas isto é um post, não um almanaque.

Muito provavelmente vocês não verão muitas dessas perguntas na TV. Mas não significa que não tenham que ser cobradas do vencedor ou da vencedora por jornalistas e pela sociedade. Porque quem ganhar, não vai governar só para a parcela que recebeu seus votos.

Às perguntas, portanto.

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Depois de protagonizarem uma campanha de poucas propostas e muitos ataques, que dividiu o país ao meio, vocês serão capazes de adotar uma agenda conciliadora e governar também para a metade do país que não os elegeu? Como?

Raquel Landim, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo

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Desde 2006, a lei brasileira garante o acesso de pacientes a cannabis medicinal, mas essa lei nunca é regulamentada, por causa do profundo desinteresse da dos órgãos técnicos de Brasília e da classe política, inclusive do seu partido. O assunto não avança e, enquanto isso, famílias são devastadas por doenças que seriam facilmente tratáveis – por exemplo, o menino Gustavo Guedes, de 1 ano e 4 meses, morreu recentemente enquanto sua família lutava para se desvencilhar do cipoal burocrático da Anvisa. Você promete que, nos termos da lei, seu governo garantirá com urgência que pacientes médicos tenham acesso a remédios de que precisam, mesmo que a matéria-prima desses remédios seja maconha?

Denis Russo Burgierman, diretor da revista Superinteressante, autor de “O Fim da Guerra'' e produtor associado do documentário Ilegal, que está em cartaz nos cinemas

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Como você pode ajudar a construir uma polícia que respeite os direitos humanos?

Laura Capriglione, blogueira do Yahoo e uma das criadoras do site Ponte.

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Estimativas apontam que cerca de 800 mil abortos ilegais são realizados por ano no Brasil. A maioria em condições bastante precárias, como mostrou reportagem recente da TV Globo. Ainda que, por vezes, a polícia estoure clínicas clandestinas, isso não é suficiente para inibir a prática. Qual a solução?

Maíra Kubik Mano, jornalista, blogueira da revista Carta Capital e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp, onde pesquisa questões de gênero

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Junho de 2013 teve início com uma revolta nacional contra o aumento dos preços das passagens de transporte público. Embora, naquele contexto, a maior parte das médias e grandes cidades tenha reduzido o valor das passagens, muito pouco se avançou para resolver estruturalmente o problema do custo e da qualidade dos transportes. Você defende uma tarifa social ou uma tarifa zero para os transportes públicos? Em termos concretos, pretende, caso eleito(a), oferecer apoio federal para reduzir o custo dos transportes públicos, seja municipalizando a Cide (que incide sobre a gasolina e permitiria aos prefeitos subsidiarem os ônibus), seja criando um fundo federal para este fim?

Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, coautor de “Vinte Centavos: A Luta Contra o Aumento''

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Você se compromete a adotar metas de redução de homicidios no Brasil?

Bruno Paes Manso, blogueiro do jornal Estado de S.Paulo, pós-doutorando no Núcleo de Estudos da Violência da USP e um dos criadores do site Ponte

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Como pretende lidar com a perda de relevância do Mercosul, um processo iniciado no governo Lula?

Diogo Schelp, editor-executivo da revista Veja

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Os ataques aos direitos indígenas nos últimos anos partiram, sobretudo, da bancada ruralista, que representa quase metade do Congresso. Sabemos que esse grupo estará na base governista no governo dos dois. Vocês pretendem apoiar ou frear essas iniciativas ruralistas anti-indígenas no Congresso?

Spensy Pimentel, jornalista e professor de Antropologia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana

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A qualidade da educação é diretamente proporcional à qualidade de seus professores. Seu programa de governo é vago quanto à remuneração docente e plano de carreira. A negligência é preocupante pois salário dos professores é cerca de 60% de carreiras com formação semelhante. Como você pretende atrair – rapidamente – os melhores estudantes para a docência?

Rodrigo Ratier, gestor da plataforma Gente que Educa, da Fundação Victor Civita, e doutorando em Educação pela USP

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Que papel o governo federal poderia ter na reestruturação do futebol no país?

Murilo Garavello, gerente-geral do UOL Esporte e mestre em comunicação pela USP

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Considerando que a Constituição Federal proíbe o monopólio nos meios de comunicação de massa, proíbe que deputados e senadores sejam donos de empresas concessionárias de rádio e TV, determina que o país tenha um sistema público de comunicação (além do sistema comercial) e que a programação das emissoras respeite os direitos humanos, que medidas concretas você adotará para garantir que a Constituição Federal seja respeitada pelas empresas de comunicação e para que a população seja ouvida sobre a qualidade do serviço de rádio e TV que recebe?

Bia Barbosa, jornalista, mestre em Políticas Públicas pela FGV-SP, integra a coordenação do Intervozes e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

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O Brasil é líder mundial de cesarianas (52% dos partos). No contexto de políticas de saúde pública, o que é possível ser feito para atingir o índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde (15%)? No fim de março, no Rio Grande do Sul, Adelir Lemos de Goes foi obrigada por liminar da Justiça a ter seu bebê por cesárea. Na sua opinião, o Estado detém o poder de definir o parto por uma mulher?

Juliana de Faria, jornalista, uma das fundadoras do Olga, think tank dedicado a debater a feminilidade, e responsável pela campanha Chega de Fiu Fiu, sobre o assédio sexual em locais públicos

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Por que vocês se orgulham tanto do apoio de artistas escritores, mas em nenhum dos debates anteriores sequer mencionaram temas ligados à cultura?

Haroldo Ceravolo, diretor de redação do Opera Mundi e presidente da Liga Brasileira de Editoras (Libre)

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O que esperar do seu governo em termos de políticas de imigração? Pode-se esperar mais legalizações, mais assistência? Como pretende combater o abuso e a discriminação contra imigrantes vindos de países africanos e de países mais pobres do hemisfério?

Pablo Uchoa, jornalista da BBC em Londres, ex-correspondente em Washington e mestre em Politica Latino-Americana no Institute for the Study of the Americas em Londres

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Em 2007, o Equador realizou uma auditoria sobre a legalidade ou legitimidade da dívida externa que anulou 70% dos pagamentos que seriam destinados aos credores internacionais (95% destes aceitaram a decisão). Neste ano, 2014, o Coletivo por uma Auditoria Cidadã da Dívida da França conclui um estudo que aponta que 59% da dívida francesa é ilegítima. Se o Brasil fizesse investigação semelhante, parte dos gastos com a dívida, que hoje ultrapassam 40% do orçamento e vão para os setores mais favorecidos da população, poderiam ser transferidos para saúde, educação, transportes, cultura, ciência e tecnologia, habitação, meio ambiente etc, etc. A auditoria da dívida está prevista na Constituição de 1988 e até hoje não foi realizada. Por que não realizar uma auditoria da dívida brasileira?

Luís Brasilino, editor do Le Monde Diplomatique Brasil


Chinês é resgatado de escravidão em pastelaria com ajuda de tradutor online
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Leonardo Sakamoto

Um chinês de 17 anos foi resgatado do trabalho em condições análogas às de escravo em Mangaratiba (RJ). Desde que chegou ao Brasil, trabalhou diariamente em uma pastelaria, sem descanso ou salário, por dois anos até conseguir fugir. Depois de caminhar 20 quilômetros de madrugada, foi encontrado por policiais que o conduziram a um escritório do Conselho Tutelar. Como não falava português, nem mandarim, a comunicação só foi possível através de uma ferramenta de tradução pela internet. A matéria é de Stefano Wrobleski, da Repórter Brasil:

Pastelaria onde chinês resgatado era submetido a jornada exaustiva e condições degradantes (Foto: SRTE/RJ)

Pastelaria onde chinês resgatado era submetido a jornada exaustiva e condições degradantes (Foto: SRTE/RJ)

A locomoção da vítima foi restringida, segundo a fiscalização, porque seu passaporte ficou retido com os responsáveis pelo estabelecimento. Encerrado o expediente às 22 horas, o rapaz ia para o andar de cima, onde ficava seu alojamento e de outros três chineses adultos que também trabalhavam na pastelaria. Apertado e sem janelas, o local foi considerado em condições degradantes, o que colaborou para a caracterização de trabalho escravo segundo o artigo 149 do Código Penal. O trabalho desses adultos, no entanto, não foi classificado como em condições análogas às de escravos pela fiscal, que não considerou que eles estivessem sujeitos às mesmas outras infrações cometidas contra o adolescente.

“A gente faz nossas compras em um estabelecimento e, muitas vezes, não percebe que há trabalhadores sendo escravizados na nossa frente”, resumiu a auditora do trabalho Marcia Albernaz de Miranda, que participou do resgate.

O jovem libertado contou à fiscalização ter chegado ao Brasil em 2012, de avião. Sua passagem foi paga pela mãe e a viagem foi feita com cinco conterrâneos desconhecidos de sua cidade natal. No Rio de Janeiro, o grupo foi recepcionado por um homem, que os levou até uma casa. O dono da pastelaria chegou logo depois e levou a vítima para o local onde ela trabalhou até fugir. O adolescente ainda relatou nunca mais ter tido contato com os demais chineses.

As características do caso fizeram a fiscalização autuar o dono da pastelaria por tráfico de pessoas, além de trabalho escravo. “O tráfico de pessoas não está ligado necessariamente à participação no processo de translado das pessoas. Para ser autuado, basta ter acolhido a vítima para, em combinação com outras características como as desse caso, ser caracterizado”, explicou Marcia. A fiscalização, que investiga casos semelhantes na região, apura ainda se o caso está relacionado à atuação de uma rede de tráfico de pessoas que alicia trabalhadores chineses.

Resgate - Com apenas R$ 100 no bolso, o rapaz fugiu sozinho à noite, quando todos estavam dormindo. Sem que ninguém visse, teve de pegar as chaves do local, que ficavam guardadas no quarto da família dona da pastelaria. Sem saber para onde ir e sem falar português, começou a caminhar pela estrada em direção ao município vizinho de Itaguaí. Andou cerca de 20 quilômetros madrugada adentro, ao longo de quatro horas, até ser abordado por dois policiais civis, que o encaminharam ao Conselho Tutelar do município.

Por causa das dificuldades de comunicação, os conselheiros buscaram outros chineses que vivem na região, mas ninguém conseguiu ajudar porque a vítima faz parte dos 30% de chineses que, de acordo com o governo da China, não falam mandarim (o idioma oficial do país). Só na província de Guangdong, de onde o jovem veio, são faladas outras seis línguas além do mandarim.

Sem ninguém que pudesse ajudar com a tradução, os servidores recorreram a ferramentas de tradução pela internet. Só então a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) do Rio de Janeiro (a divisão do Ministério do Trabalho e Emprego responsável pelo estado) pôde ser chamada para investigar o caso. “Como o trabalhador foi encontrado por servidores públicos [os policiais civis], foi possível caracterizar o flagrante e acolher a vítima”, explicou Marcia. Também participaram da operação os auditores Rinaldo Almeida e Fátima Chammas.

Como consequência da operação, o Ministério Público do Trabalho (MPT) propôs um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) à pastelaria, que se comprometeu com uma série de medidas para regularizar as condições dos alojamentos e a manter os demais trabalhadores em um hotel até que as obras estejam prontas. De acordo com o procurador Marcelo José Fernandes da Silva, do MPT, o dono do local deve, ainda, pagar todos os salários devidos à vítima de trabalho escravo, além das verbas rescisórias. Além disso, o empregador não deverá mais contratar adolescentes com menos de 16 anos, a não ser na condição de aprendiz, ou reter os documentos de seus empregados.


Brasil registrará pico no número de infartos do miocárdio às 20h de domingo
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Leonardo Sakamoto

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) irá liberar o resultado da apuração dos votos apenas às 20h de domingo (26), quando as urnas estiverem fechadas no Acre e em parte do Amazonas (maldito horário de verão).

A menos que, por esses milagres da política, o resultado esteja rigorosamente alinhado cabeça a cabeça, dependendo dos votos da parte mais ocidental do país (imagina Xapuri, terra de Chico Mendes, definindo a eleição…), o nome do eleito ou da eleita será conhecido nesse momento.

Como disse um glorioso amigo, vai ser como abrir o envelope e avisar “and the Brazilian Presidency goes to…''

Podia ser o Silvio Santos anunciando. Quem não tem Oscar, vai de Troféu Imprensa.

Pensando bem, melhor não. Ideia idiota.

O fato é que não haverá tempo para preparar o coração.

Ou ir se decepcionando aos poucos à medida em que a totalização dos votos avança.

Ficar possesso com aquele comentarista da TV que só fala groselha e não acerta nada do que prevê.

Convencer a si mesmo e aos amigos que não deu, mas valeu a tentativa e exaltar o lado bom das coisas.

Prometer a São Judas Tadeu, Santa Rita de Cássia ou Santo Expedito que, se seu voto ganhar, você para de beber, de fumar e de comer torresmo.

Roer as unhas. Comer três pacotes de ovinhos de amendoim. Estourar plástico bolha.

Pensar em organizar um exército paramilitar de direita ou uma guerrilha de esquerda a partir de janeiro de 2015.

Sabe aquele momento de entrar no computador e procurar com calma um imóvel para alugar em Havana ou Miami? Pode esquecer.

Vai ser tapa na cara. Haja Coração!

Por isso, mais do que mesários, os profissionais realmente exigidos neste segundo turno serão os socorristas do Samu. Desconfio que o número de infartos agudos do miocárdio vai bater os de uma final de Copa do Mundo.

A de 1994, claro.