Blog do Sakamoto

O tamanho do PIB é importante. Mas para quem ele traz prazer?

Leonardo Sakamoto

O Produto Interno Bruto brasileiro cresceu apenas 0,1% em 2014 de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse é o pior resultado desde a queda de 0,2% de 2009, consequência da crise econômica global.

Em suma, ridículo. E o pior ainda está por vir por conta do impacto futuro nas taxas de desemprego.

Mas enquanto apontamos, de forma justa, a culpa do governo Dilma nessa situação de estagnação e desespero, há uma discussão histórica e de fundo, que passa ao largo porque interessa mais à xepa do que à nata.

O discurso de que o crescimento é a peça-chave para a conquista da soberania (com o que concordo) e que, portanto deve ser obtido de qualquer maneira (com o que discordo) tem sido usado por muita gente – por exemplo, pessoas que foram comunistas/socialistas, tornaram-se lideranças políticas e hoje fazem coro cego aos santos padroeiros da desregulamentação ambiental e trabalhista.

Crescer é bom, mas esse crescimento deve beneficiar a todos, caso contrário não significa desenvolvimento. Apenas progresso burro. Muitos não se preocupam que a qualidade de vida de povos e trabalhadores, principalmente os do campo, seja sacrificada para ganhar um jogo, paradoxalmente acham o contrário: que cortando as leis que nos separam da barbárie é que virá a civilização.

O Brasil está classificado na 85ª posição entre 187 países no Índice de Desenvolvimento Humano, organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O IDH considera renda per capita, educação e expectativa de vida na sua composição.

Na média, o Brasil é um país rico. O problema é que ele continua na mão de poucos.

Quando o PIB sobe, fluiu mais para as mãos dos que puderam comprar ações do que daqueles que dependeram de salário mínimo ou de programas de distribuição de renda.

A educação está sendo universalizada – contudo a extensão de sua abrangência não é acompanhada pela sua qualidade, nem de longe. O ensino para os pobres, que poderia mudar sua vida, é – com raras exceções – muito ruim.

Vive-se mais, mas não necessariamente melhor. Posso debater com quem discorda disso na fila de um hospital público enquanto aguardamos uma consultinha.

Quando tratamos do tema por essa ótica, sempre aparece a cantilena que “a população tem que entender que o crescimento do PIB vai beneficiar a todos. Não agora. Em algum momento''.

Os economistas da ditadura falavam a mesma coisa, mas de uma forma diferente, algo como “é preciso primeiro fazer o bolo crescer, para depois distribui-lo''.

Ou seja, você ajudou a produzir o doce, mas tire a mão dele que não é hora de você consumi-lo. Hoje, são alguns que vão comer.

Vai chegar a sua vez de provar do bom e do melhor. Enquanto isso, encara este fritopan.

Considerando que a desigualdade social por aqui continua uma das altas do mundo, mesmo caindo continuamente, percebe-se o tipo de resultado dessa fórmula.

O melhor de tudo é o tom professoral (“A população tem que entender''), como se o especialista fosse um ser iluminado, dirigindo-se para o povo, bruto e rude para explicar que aquilo que sentem não é fome. Mas sim sua contribuição com a geração de um superávit primário para que sejam honrados os compromissos do país.

Agora, fazer uma auditoria da dívida brasileira que é bom, governo nenhum, tucano ou petista, topou fazer.

O debate sobre desenvolvimento é uma discussão sobre a qualidade de vida. Que só será efetivo caso não exclua a população mais pobre dos benefícios trazidos por ele e não seja resultado da dilapidação dessa mesma população.

A pergunta que temos que fazer é: estamos conseguindo dividir o bolo, não por igual, mas com ênfase em quem mais precisa por ter sido historicamente dilapidado?

Estamos conseguindo diminuir a concentração de renda na maior velocidade possível ou poderíamos ir além e implementar medidas para que não apenas os filhos dos mais pobres usufruam de uma boa vida em um futuro distante, mas eles próprios, aqui e agora?

Pois esse é o tipo de situação em que não dá para perder peões a fim de ganhar o jogo.

Ah, essa nossa economia machista, forjada por homens e mulheres inseguros, que acreditam piamente que o que importa é tamanho e crescimento. E não o prazer que ele, uma vez distribuído, realmente proporciona.


PSOL suspende deputado federal por atentar contra Estado laico

Leonardo Sakamoto

A executiva nacional do PSOL suspendeu, nesta quinta (26), o deputado federal Cabo Daciolo (RJ), encaminhando ao diretório nacional a decisão sobre sua permanência no partido. A partir de agora, ele não poderá fazer aparições públicas ou falar em nome do PSOL e estará sujeito à Comissão de Ética do partido, que analisará se ele incorreu em “infidelidade partidária''.

O motivo, segundo nota divulgada pela executiva, foi a apresentação de uma proposta de emenda constitucional que pretende mudar o artigo 1o da Constituição Nacional. De “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente'' passaríamos para “Todo poder emana de Deus'' – se o pedido do deputado, que é evangélico e cabo do Corpo de Bombeiros, for atendido. Segundo o partido, isso desfaz a garantia de um Estado laico e pode abrir caminho para outras mudanças na legislação.

Daciolo já havia ameaçado antes propor essa ideia genial, mas havia sido demovido pelos colegas de bancada e a direção do partido.

“O PSOL agrega em suas fileiras incontáveis filiados, dirigentes e parlamentares que professam alguma fé religiosa. Todos estes são sempre bem vindos e não tem no partido qualquer restrição em relação às suas opções religiosas. Contudo, exige-se no partido a atuação política respeitando-se a separação entre religião e Estado'', afirma a nota divulgada, nesta quinta (26), pelo partido.

A executiva nacional do PSOL também afirma que o deputado federal decidiu defender os policiais militares acusados da morte do pedreiro Amarildo, caso de repercussão internacional a partir do Rio de Janeiro.

“O deputado Daciolo teria e tem todo o direito e dever de defender um julgamento justo e célere aos policiais acusados neste e noutros casos, pois todos estes são detentores de plenos direitos e do devido processo legal. Mas é inadmissível ao PSOL a defesa, por parte de um de seus membros, de que estes são inocentes e que os culpados seriam outros'', diz a nota. “Não está em discussão o direito elementar de defesa de todos os acusados, mas não cabe ao partido transmitir dubiedade sobre a necessária punição dos responsáveis pelos crimes contra o povo pobre.''

Daciolo, em discurso nesta quarta, afirmou: “eu venho decretar aqui agora, deixar em alto e bom som, que verdadeiramente, na minha opinião, todo poder emana de Deus, que o exerce de forma direta e também através do povo. E que hoje estou colocando esta PEC em andamento. As assinaturas estão aqui, e eu quero é dialogar. Peço por gentileza que o PSOL dialogue comigo. Juntos somos fortes, nenhum passo daremos atrás, Deus está no controle”.

A reunião do Diretório Nacional do partido deve ocorrer em meados de maio, quando será discutida a expulsão de Daciolo, que terá direito à defesa.

O partido, que possui cinco deputados federais, não decidiu se, uma vez ratificada a expulsão, reivindicaria a vaga do cabo. O blog não conseguiu contato com Daciolo até a publicação deste texto.


O combate à corrupção é pauta da direita?

Leonardo Sakamoto

Os manifestantes que ocuparam ruas do país reclamando da corrupção, dos desvios na Petrobras, da alta da inflação e dos combustíveis, do PT, da falta de ética – parte pedindo impeachment de Dilma, parte (muito pequena, é fato) exigindo intervenção militar – tinham perfil diferente dos participantes de protestos de rua tradicionais.

O combate à corrupção deixou de ser bandeira dos movimentos de esquerda?

Este é um dos blocos da quarta edição do Havana Connection – o programa de debates que analisa o que está bombando no Brasil e no mundo sob um ponto de vista de esquerda (seja lá o que significar ser de esquerda hoje em dia).

Com mediação do blogueiro e cientista político, Leonardo Sakamoto, o Havana Connection conta com a participacão do professor e coordenador do MTST, Guilherme Boulos, do jornalista e deputado federal Jean Wyllys e da jornalista e escritora Laura Capriglione.

O combate à corrupção é pauta da direita?

Redes sociais: As pessoas estão surtando – Íntegra do Havana Connection #4

Bloco 1 – O combate à corrupção é pauta da direita? 
Bloco 2 – Por que as redes sociais estão transpirando ódio?
Bloco 3 - Que tal reduzir a maioridade penal para seis anos? 
Bloco 4 – Beijo em Babilônia incomodou quem não ama 

Veja também:
Havana Connection #3
Havana Connection #2
Havana Connection #1 


Evangélicos pressionam deputados favoráveis à redução da maioridade penal

Leonardo Sakamoto

Em resposta a parlamentares que dizem falar em nome de Deus, mas têm defendido projetos de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, organizações ligadas a denominações evangélicas deram início a uma campanha para alertar os fiéis, a sociedade e pressionar os representantes políticos para que essa tragédia não aconteça.

Nesta semana, a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas), a Visão Mundial, a rede Fale, que reúnem milhares de ativistas em todo o país, além de pastores e líderes religiosos, começaram a distribuir um documento a parlamentares evangélicos e a igrejas.

“Nossa sociedade e o Estado têm negado o direito ao pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes, do nascimento à juventude. Nossos parlamentares e a sociedade em geral estaremos sendo hipócritas ao propor a redução da idade penal enquanto não garantimos todas as oportunidades de desenvolvimento para as nossas crianças e adolescentes'', diz a carta.

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Em tom forte, o documento também conclama “os parlamentares, especialmente os que se declaram evangélicos, a se posicionarem contra a redução da maioridade penal e se envolverem na efetivação do ECA e do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), cumprindo o nobre papel dessa Casa de fiscalizar e cobrar do poder público o orçamento e a efetiva implementação dos instrumentos já existentes''.

Conversei com representantes desse grupo. Eles temem que uma união entre parlamentares evangélicos e a bancada da bala ajude na aprovação dessa mudança. Trocas de favores em torno de uma agenda conservadora individual dos parlamentares que não foi discutida com sua base.

Enquanto certos parlamentares se preocupam com beijo em novela, há grupos evangélicos articulados e com peso político que chamam a atenção para a gravidade da situação da infância e da adolescência no Brasil e o risco de um retrocesso patrocinado por essa mudança na lei.

Considerando que esse pessoal consegue fazer um bom barulho nas igrejas (há uma petição online circulando sobre o tema) e que, até revogarem a Constituição, políticos precisam de votos para sobreviver, vai ter parlamentar que terá que se explicar junto à sua base porque dar as costas a crianças e adolescentes se tornou um valor cristão.

Segue o documento:

Ao tomar conhecimento do debate na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados, ocorrido esta semana em Brasília, as organizações filiadas à RENAS, reunidas em assembleia na cidade do Rio de Janeiro, de 18 a 20 de março, decidiram unanimemente aprovar uma agenda de incidência política junto às igrejas evangélicas brasileiras e aos parlamentares que compõe a CCJC, especialmente aos que se declaram evangélicos.

Esperamos contar com a sensibilidade dos irmãos deputados na esperança de que este seja um momento de testemunho em favor da vida daqueles que Jesus considerou mais preciosos, as crianças e adolescentes.

Convidamos parlamentares e comunidades evangélicas a considerarem conosco os seguintes pontos:

1. A partir dos 12 anos, todo adolescente pode ser responsabilizado caso infrinja a lei. Essa responsabilização, executada por meio de medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tem o objetivo de ajudá-lo a recomeçar e a prepará-lo para uma vida adulta reconstruída.

2. O ECA prevê seis medidas socioeducativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Recomenda-se que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunstâncias do fato e a gravidade da infração. Muitos adolescentes que são privados de sua liberdade não ficam em instituições preparadas para sua reeducação, mas em locais que reproduzem o ambiente de uma prisão comum. Além disso, o adolescente pode ficar até 9 anos em medidas socioeducativas, sendo três anos na internação, três em semiliberdade e três em liberdade assistida, com a responsabilidade do Estado de acompanhá-lo e ajudá-lo a se reinserir na sociedade. Não adianta, portanto, endurecer as leis se o próprio Estado não as cumpre.

3. O Brasil tem a 3ª maior população carcerária do mundo e um sistema prisional superlotado, com mais de 715 mil presos. Só fica atrás, em número de presos, de Estados Unidos (2,2 milhões) e China (1,7 milhões). O sistema penitenciário brasileiro não tem cumprido sua função de controle, reinserção e reeducação. Assim, enviar os jovens mais cedo para o sistema prisional é decretar a falência de nossa sociedade em prover oportunidades de vida digna para nossa juventude e condenar nosso futuro como nação.

4. Muitos estudos no campo da criminologia e das ciências sociais têm demonstrado que não há relação direta de causalidade entre a adoção de soluções punitivas e repressivas e a diminuição dos índices de violência. No sentido contrário, no entanto, se observa que são as políticas e ações de natureza social que desempenham um papel importante na redução das taxas de criminalidade. Dados do UNICEF revelam a experiência mal-sucedida dos Estados Unidos, aplicando aos seus adolescentes penas previstas para adultos. Os jovens que cumpriram pena em penitenciárias voltaram a delinquir e de forma mais violenta. O resultado concreto para a sociedade foi o agravamento da violência.

Nossa sociedade e o Estado têm negado o direito ao pleno desenvolvimento das nossas crianças e adolescentes, do nascimento à juventude. Nossos parlamentares e a sociedade em geral estaremos sendo hipócritas ao propor a redução da idade penal enquanto não garantimos todas as oportunidades de desenvolvimento para as nossas crianças e adolescentes.

A juventude brasileira tem sido a maior vítima da grande violência que ocorre em nossas cidades e não pode ser ainda mais castigada como bode expiatório de uma sociedade e Estado negligentes com seus direitos básicos. Conclamamos os parlamentares, especialmente os que se declaram evangélicos, a se posicionarem contra a redução da maioridade penal e se envolverem na efetivação do ECA e do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), cumprindo o nobre papel dessa Casa de fiscalizar e cobrar do poder público o orçamento e a efetiva implementação dos instrumentos já existentes.

Pelos motivos expostos e inspirados na vocação profética da igreja, conclamamos os parlamentares e comunidades evangélicas a se posicionarem em favor da vida de nossas crianças e adolescentes, pois o Deus da vida enviou seu filho Jesus Cristo para dar vida plena para todas as pessoas, em especial aos mais vulneráveis.

No decorrer da História, várias autoridades decretaram a morte dos mais jovens, como o faraó no Egito, no tempo de Moisés, e Herodes, no tempo do nascimento de Jesus. Conclamamos todos vocês a se posicionarem do lado de Jesus – e não do Faraó ou de Herodes. Em nome do Jesus de Nazaré, que teve sua vida ameaçada de morte ainda criança, nos despedimos na esperança de que o Espírito Santo os guiará no caminho da vida!


Redes sociais: As pessoas estão surtando? (Havana Connection #4)

Leonardo Sakamoto

Saindo do forno a quarta edição do Havana Connection: o programa que analisa o que está bombando no Brasil e no mundo sob um ponto de vista de esquerda – seja lá o que significa ser de esquerda hoje em dia.

Neste programa, você vai ver:

O combate à corrupção é pauta da direita?
Por que as redes sociais estão transpirando ódio?
Que tal reduzir a maioridade penal para seis anos?
Beijo em Babilônia incomodou quem não ama

Ao invés de atender ao pedido “Vá para Cuba!'', trouxemos a ilha para cá. Afinal de contas, se até Cuba e Estados Unidos podem voltar a conversar, por que não podemos estabelecer um diálogo saudável por aqui? Com mediação do blogueiro e cientista político, Leonardo Sakamoto, o debate conta com a participacão do professor e coordenador do MTST, Guilherme Boulos, do jornalista e deputado federal Jean Wyllys e da jornalista e escritora Laura Capriglione.

Redes sociais: As pessoas estão surtando? – Íntegra do Havana Connection #4

Veja também:
Havana Connection #3
Havana Connection #2:
Havana Connection #1:


Caso Babilônia: Promovendo a barbárie em nome de Deus

Leonardo Sakamoto

Desculpem o atraso, mas só agora pude ler a nota de repúdio da Frente Parlamentar Evangélica contra o beijo protagonizado por Fernanda Montenegro e Nathália Timberg em uma cena da novela Babilônia, da rede Globo.

Uma ótima nota.

Ótima para nos lembrar que ainda temos momentos da mais completa barbárie.

Em qualquer lugar minimamente civilizado uma cena como essa teria sido banal – o que, claro, não é nosso caso. O que prova que gostamos de jogar purpurina e perfume em cima da titica para chama-la por outro nome. Mas, inútil, ela continua sendo titica. Uma titica estilosa, cheirosa, com cara de moderna, mas ainda assim titica.

Após a cena ir ao ar, o ultraconservadorismo tacanho aliado à mais COMPLETA FALTA DO QUE FAZER transformaram amor em polêmica nas redes sociais, em conversas de bar, em salas de jantar, em salões de igrejas.

A nota fala em afronta aos cristãos em suas convicções e princípios (até porque, como sabemos, uma religião de quase dois mil anos não resiste a um beijo de uma novela do Gilberto Braga), modismo de “outra forma de amar'', ataque à família natural e “estupros morais impostos pela mídia liberal''.

Particularmente, nem acho que esse povo que faz política em nome de Deus acredite, de verdade, em Deus. Caso contrário, não incitava tanta violência.

Mas esse discurso cola fácil, ainda mais em uma sociedade que foi sempre educada para ser gado e, agora, começa a se ligar que a vida não precisa ser assim. Muita gente explora o medo, afirmando que mudanças vão trazer dor e sofrimento, a fim de continuar mandando na vida dos outros. Quando, na verdade, o processo de desconstrução de preconceitos pode ser doído sim, mas o que fica depois da abertura de pensamento é uma paz difícil de descrever.

Isso dá tilt na cabeça de muita gente. Se fossem duas mulheres jovens e atraentes, tudo bem, faz parte do fetiche masculino. Mas duas mulheres de 85 anos, com idade para serem avós, não. Porque “mulher de bem'' nunca aceitaria algo assim. Da mesma forma, que “mulher de bem'' não vestiria nada acima do joelho, deixaria as costas de fora, beberia, fumaria ou teria vícios detestáveis, não iria para a balada sozinha, não amaria apenas por uma noite e não daria risada em público, escancarando os dentes a quem quer que seja. “Mulher de bem'' tem que se portar de acordo com o que a sociedade espera dela, servindo o “homem de bem''.

O problema é que, não raro, esse tilt – amparado pelas palavras de líderes religiosos e políticos – deságua em terrorismo psicológico ou agressões físicas. Como vemos nos noticiários, com gente morta e ferida, todos os dias.

O que, pelo que me lembro, está longe do “amor de Deus''. Mas posso estar enganado.


Dia da Água: tomar banho curto é importante, mas não resolve

Leonardo Sakamoto

Acho ótimo que pessoas e empresas estejam engajadas para o Dia Mundial da Água, que se comemora neste domingo (22). Mas para essa onda não ser apenas mais uma campanha de marketing no Calendário Anual da Lavagem de Marcas, ela precisa ter substância.

Até porque água é um bem escasso e não pode ficar sendo usado para tentar retirar manchas nos negócios que só serão efetivamente removidas com ações reais que mudem a forma com a qual se ganha dinheiro – e não apenas perfume de lavanda a titica.

E não é apenas o uso racional do que se retira do meio ambiente, pois água não serve só para cozinhar, tomar banho ou fazer refrigerante.

O lençol freático de muitas localidades produtoras de frutas no Brasil está cada vez mais baixo por conta do bombeamento de água par a irrigação, por exemplo. Em outros locais, há brigas antigas com fábricas de bebidas por conta dos baixos valores pagos para a utilização do recurso. Há ainda a situação de projetos de irrigação de pequenos proprietários que estão parados porque ninguém tem grana para pagar a conta da água no final do mês. Mundo maluco? Nada, faz sentido – a gente é que não percebe.

E olha que nem entramos na discussão da falta de água para consumo humano e para gerar energia causadas pela falta de planejamento e a arrogância diante das mudanças climáticas.

Mas pensar racionalmente a água também passa por racionalizar a construção de grandes hidrelétricas, que afogarão comunidades ribeirinhas ou indígenas em algum lugar ou maltratarão trabalhadores nos canteiros de obras, em detrimento a apostar em formas mais limpas de produzir energia – que hoje são caras por falta de investimento.

Ou a contaminação de rios, córregos e lençóis freáticos com agrotóxicos, um problema lento, que vai se acumulando com o tempo de forma silenciosa e discreta.

Muito tempo atrás, durante o começo das brigas do amianto (que causou muitas mortes e invalidou muita gente ao redor do mundo), um advogado que defendia o interesses dos trabalhadores trouxe um pedaço do produto para ser mostrado em uma audiência judicial com os que defendiam as empresas. O amianto circulou na mesa. Do lado corporativo, que defendia que o produto era inofensivo como uma bola de gude, ninguém quis tocá-lo…

Quando a Anvisa faz uma reavaliação toxicológica de substâncias químicas, parte dos produtores e do mercado alega que vetos causarão aumento de custos. Entendo o lado deles, mas aceitar algo que não está de acordo com os padrões mínimos internacionais é uma bomba-relógio que vai explodir em algum momento, em algum lugar e em alguém. Em pontos de recarga do Aquífero Guarani, aquele conjunto de reservatórios subterrâneos no Centro-Sul do Brasil e Mercosul do tamanho de um mar, já se constata contaminação e em áreas de atividade intensiva de químicos na agricultura.

Ou, por outra, o padrão é o mesmo do amianto: se o problema está longe, ele é um não-problema. Não sou eu que vou manusear os pesticidas mesmo, não sou eu que vou ter minha casa inundada por uma hidrelétrica e nunca ser ressarcido, não sou eu que vou ser acusado de não cuidar da cadeia produtiva da água. Na melhor linha, do “só é errado se te descobrem''.

Ninguém considera que quando demando um produto, mesmo que não traga água em sua fórmula, sou responsável pela forma como ele foi feito – incluindo a água usada em sua fabricação. Portanto, tenho que participar da melhoria de sua cadeia.

Banho curto, não lavar a calçada com a mangueira, usar sistemas de descarga mais inteligentes são importantes. Mas perfazem apenas a ponta do iceberg. A capacidade do consumidor de monitorar e cobrar as empresas que criam os mais diferentes impactos na água do planeta, impactos que, às vezes, não estão à mostra, pode fazer uma diferença gritante no final das contas.

Pois a vida se conecta pela água – mas também pode ser por ela destruída.


“Vai defender ‘viado’ no inferno.” OK, mas como? O inferno não existe!

Leonardo Sakamoto

“Vai defender viado no inferno.''

A frase, que ouvi um bom tempo atrás, foi proferida por jovens, brancos e saudáveis, com dentes fortes e cabelos penteados, quando passavam por mim de um carro maior do que a sala e a cozinha do meu alugado apartamento. Reduziram a marcha, gritaram uns impropérios e – taca-lheo pau – sumiram no horizonte.

Mandei um beijinho e eles refutaram. Prova de que ainda falta amor em São Paulo.

Já tratei deste caso aqui, mas acho que vale o resgate. Minha mente doentia imaginou o resgate de um cervo entre as labaredas de uma área afetada pelas chamas cuspidas por um vulcão ou algo do gênero por ninguém menos que Katniss Everdeen (a.k.a. Jennifer Lawrence), em Jogos Vorazes.

Mas, decerto, os meninos de sorriso bonito não queriam dizer isso.

Como cantaram os pneus e se foram, não deu tempo de informá-los que – infelizmente – não acredito na existência do Mar de Enxofre, o que impossibilitaria que o xingamento em questão gerasse algum incômodo real.

Também acredito que o Capeta, bem como todo o conjunto do Sobrenatural (em letra maiúscula, para ninguém achar que fui desrespeitoso), seja uma criação nossa. E como o Demo, o Tinhoso, o Imundo, o Capiroto, o Cão, o Coisa Ruim, Aquele-que-não-se-diz-o-nome, o Matreiro, o Sujeito, não existe, somos nós os responsáveis pelas nossas ações que provocam dor em outras pessoas.

Duro isso, né?

Além do mais, gays, lésbicas, transexuais, enfim, não precisam de ninguém que os defenda. A parcela dos autointitulados “cidadãos de bem'' que vomitam seu preconceito sobre aqueles e aquelas que não conseguem entender é que precisam ser defendidos.

Defendidos do mal que fazem a si mesmos, porque causam um dano sem tamanho à sociedade, propagandeando de pai para filho as mesmas ideias absurdas e pré-concebidas sobre quem tem direito a ter direito.

Precisamos defender os homofóbicos e demais intolerantes deles próprios antes que seja tarde demais e consigam fazer de sua vida (e a de outros) um inferno real.

Todos têm direito a expressar sua fé, como todos deveriam ter direito a ter sua orientação sexual e identidade respeitadas. Mas se tentativas de legalizar tratamentos para “curar gays'' tiverem sucesso, sugiro reciprocidade. Vamos curar a (pequena) parcela fundamentalista de cristãos, muçulmanos, judeus e todos aqueles que, dentro das religiões, adotam comportamentos de ódio, acreditando que amor é desvio.

Ainda mais porque escolhemos nossa fé e não a orientação sexual. E lutar pelos direitos LGBTT nunca matou ninguém. O mesmo não posso dizer do já citado fundamentalismo.

Ao final, vendo aquele carro lindão indo embora com os rapazes, suspirei fundo. Não por mim, mas por eles. É um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda tenha situações como essa. Não de ofensa a blogueiros, mas de demonstração pública de intolerância.

Uma sociedade que não tem vergonha de fazer isso é aquela que, de tempos em tempos, espanca e assassina gays e lésbicas. Que abriga seguidores de uma pretensa verdade divina que taxam o comportamento alheio de pecado e condenam os que julgam diferentes a uma vida de terrível aqui na Terra, tornando real – enfim – o que suas escrituras sagradas chamaram de inferno.

E, se não bastasse isso, representantes políticos (que deveriam garantir que direitos fossem válidos a todos os cidadãos) agem não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim incentivar a intolerância, empurrando a sociedade para o precipício.

Gostaria que nos déssemos conta que já passou o momento de sairmos de nossa zona de conforto e começarmos a educar nossos filhos para viverem sem medo. E não para serem inimigos de quem não usa o pênis para dominar o mundo.


Teste: Você é bom em filosofia? Então, responda rápido: Marx ou Jesus?

Leonardo Sakamoto

Você consegue identificar qual dos dois personagens históricos disse isso?

marxjesus

Assinale a alternativa correta:

1) Não pensem que vim trazer paz. Vim trazer a espada. Vim causar a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra. Criar inimigos dentro da própria casa
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx

2) No final das contas, será muito difícil salvar um rico.
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx

3) Venda tudo o que tem e dê aos pobres.
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx

4) Não importa o quanto você tem. Importa quem você é.
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx

Respostas: 1) Jesus (Mateus 10: 34-39); 2) Jesus (Lucas 18:18-30); 3) Jesus (Mateus 19:21); 4) Jesus (Mateus 6: 19-21)

Resultados: Se você acertou todas, meus pêsames. Estes últimos tempos de intolerância e falta de diálogo devem estar bem pesados pra você, né?


Chamar o capeta por nome de santo não o torna milagreiro

Leonardo Sakamoto

Gostamos de fugir da natureza de nossos problemas, maquiando-os ou jogando-os para baixo do tapete. Lembram quando gestores públicos sugeriram pintar de verde barracos de comunidades pobres localizados em morros para, na prática, diminuir a agressão estética?

Governos são craques nisso. Dilma e Alckmin já inventaram tantos nomes para a burrada de planejamento que levou à falta de água nos reservatórios para geração de energia (culpa dela) ou para consumo humano (culpa dele) que as piadas perderam a graça.

Já, no Congresso Nacional, há muito tempo reescreve-se a bíblia trocando-se Jesus por Eduardo. Ou, ao contrário, avisam que apenas estão revisando de leve o texto bíblico e, de repente, um correligionário surge na Última Ceia.

E, com isso, situações de trabalho escravo e de trabalho infantil podem deixar de ser ilegais num passe de mágica.

Tramitam, em Brasília, propostas que rebatizam formas de exploração. Por exemplo, três delas querem alterar o conceito de trabalho escravo contemporâneo. Uma está no projeto do novo Código Penal, outra na proposta de regulamentação da emenda constitucional 81/2014 (que trata do confisco de propriedades de quem usou escravos) e a última na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. Dizem que restringir o conceito do problema a algo que os possíveis agressores entendam ajudará a combatê-lo.

Como diria Maria das Graças Meneghel: Ahã, Claudia. Senta lá.

Como se, de repente, o número de assassinato diminuíssem loucamente porque, a partir do começo do ano, só fosse considerado assassinato quando você matasse uma pessoa na Praça da Sé, na hora do almoço, avisando a polícia de que isso ocorreria com certa antecedência para dar tempo a todo mundo comer seu churrasco grego com suco grátis (como eu amo aquele churrasco grego vendido no Centro de São Paulo).

No caso do trabalho escravo, querem praticamente que se traga o pelourinho e os grilhões como provas, além de um teste de DNA no sangue do chicote e uma declaração do feitor – assinada em três vias e autenticada em cartório não-abolicionista do interior do Tocantins (Estado citado aqui aleatoriamente), afirmando que o capataz fez isso em nome do dono da senzala para que o patrão possa ser devidamente julgado pelo crime.

Em suma, restringir o conceito àquilo que havia quando Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon usava maquiagem a base de sebo de carneiro e pó de cinzas por aqui.

Outras propostas buscam combater o trabalho infantil, vejam só, reduzindo a idade mínima para o trabalho no país, passando dos hoje 16 (para qualquer atividade não insalubre) e 14 (desde que seja como aprendiz) para 13, 12, 11 e até dez. Assim, o que era ilegal passa a ser joia – um empurrão em nosso desenvolvimento através da adição de população economicamente ativa barata e a inserção cidadã através do trabalho.

Como diziam entre 1939 e 1945 lá na Alemanha: Arbeit Macht Frei!

Ou seja, de um dia para outro, como em passe de mágica, trocamos o rótulo da garrafa e o que era veneno passa a ser produto de qualidade. Afinal de contas, se já faz sombra, senta na guia e consegue encostar o pé no chão e não faz gu-gu, nem da-dá, pode trabalhar normalmente. Pois, traduzindo: só o trabalho liberta.

O ideal seria se, ao invés das maquiagens, encarássemos de frente as marcas da desigualdade e da injustiça social. Pois, neste caso, as manchinhas não são inevitáveis como o envelhecimento ou marca de uma doença incurável. Mas um sintoma de que o organismo (no caso, a sociedade), anda doente. Beeeeeem doente.

Mas, aí, o pessoal que ganha com a venda de cosméticos vai fazer o que da vida?