Blog do Sakamoto

Para economizar, frigoríficos escondem doenças de seus empregados

Leonardo Sakamoto

Por Piero Locatelli, da Repórter Brasil

Quando encontrei Osmarina no portão de sua casa, ela sequer conseguia ficar em pé sozinha. Para caminhar menos de dez metros, amparou-se na parede apoiando o outro braço em sua filha. Ela havia passado um ano deitada em sua cama após uma cirurgia na cervical, e agora reaprendia a andar, mas ainda sem conseguir mexer o pescoço e as mãos.

Osmarina conta que “destruiu” a coluna trabalhando no frigorífico da JBS em Lins, interior de São Paulo, durante 11 anos. Ela pegava pedaços de carne em uma esteira e os colocava dentro de caixas, oito horas por dia.

A relação entre carregar pedaços de boi com 15 quilos e destruir as costas pode parecer clara. Mas, para a JBS, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Hoje, Osmarina está “encostada” com uma aposentadoria do INSS, que ela conta sequer ser suficiente para os seus remédios.

Propaganda da Marfig mostra funcionário em frigorífico. Empresa foi autuada por não comunicar doenças. Foto: Reprodução

Propaganda da Marfig mostra funcionário em frigorífico. Empresa foi autuada por não comunicar doenças. Foto: Reprodução

Osmarina mora em Santa Terezinha, um bairro pobre da periferia de Lins onde quase toda casa tem um funcionário da JBS. Fui levado até ela por outros trabalhadores em situações parecidas, que listavam vizinhos com lesões por esforço repetitivo, inflamações nos músculos, hérnia de disco e dificuldades de audição. Todos creditavam isso ao tempo no frigorífico, e se sentiam desamparados pela empresa.

Os moradores de Santa Terezinha são vítimas de uma prática comum de diversos frigoríficos: eles não comunicam todas as doenças geradas ou agravadas pelo trabalho à Previdência Social conforme a lei manda, segundo fiscalização do Ministério do Trabalho e o relato de trabalhadores do bairro. Casos como esse sustentam uma complexa indústria de subnotificações de doenças, onde os trabalhadores são os grandes prejudicados.

Ao ocultar as doenças dos seus empregados, as empresas economizam em diferentes frentes, e todos os outros contribuintes acabam pagando pelos problemas que elas causam através do INSS. Enquanto isso, os trabalhadores doentes seguem sem nada que possa amenizar a sua situação.

Doença é um bom negócio – Além da JBS, ao menos dois outros grandes frigoríficos, Marfrig e BRF, também fazem o mesmo com seus trabalhadores, segundo fiscalizações de auditores fiscais do trabalho. Todos já foram multados em diferentes estados pela “falta de emissão da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho)”, como é conhecida a infração.

A JBS é dona de marcas como Friboi e Swift. Foto: Márcio Isensee e Sá

A JBS é dona de marcas como Friboi e Swift. Foto: Márcio Isensee e Sá

A multa pela infração é baixa, e as empresas raramente são responsabilizadas na Justiça por isso. Dessa forma, na ponta do lápis, vale a pena deixar trabalhadores adoecerem e omitir isso das autoridades segundo o auditor fiscal Mauro Muller, que já inspecionou frigoríficos em diferentes estados.  “Às vezes a empresa prefere pagar a multa de novo do que melhorar o processo [de produção],” diz o ele.

O argumento de Muller fica claro quando olhamos o valor da multa: entre R$ 622,00 e R$ 3.916,20 por trabalhador. Para uma empresa como a JBS, com uma receita superior a 100 bilhões por ano, o valor parece bem aceitável.

O que a empresa deveria fazer? – Ao primeiro sintoma de uma doença relacionada ao trabalho, as empresas deveriam comunicar o problema à Previdência. Tosses em um ambiente cheio de pó ou problemas auditivos em uma fábrica barulhenta já seriam suficientes para isso.

No caso de Osmarina, o caso deveria ter sido comunicado quando ela reclamou ao seu supervisor sobre as dores nas costas, quatro anos antes de se afastar do trabalho. A JBS, porém, diz que não há nexo entre o problema de saúde a sua função na empresa. “A conclusão médica pericial foi de que a funcionária é portadora de enfermidades de caráter crônico-degenerativo ocasionando incapacidade parcial e permanente para atividades laborais, não havendo nexo causal com o trabalho,” disse a empresa em nota enviada à reportagem. Porém, ainda que Osmarina tenha de fato uma doença degenerativa, o trabalho certamente contribuiu para agravar o quadro dela, o que obrigaria a empresa a comunicar o problema (leia a íntegra da resposta).

Os frigoríficos fazem vista grossa à maioria das doenças que poderiam ser prevenidas desde o início. As empresas reconhecem somente alguns dos casos mais graves, quando o trabalhador necessita ficar mais de 15 dias afastado e passa a receber os benefícios pagos pelo INSS. Mas nem mesmo o afastamento de trabalhadores é o suficiente para alterações naquilo que causa o problema, como uma máquina que pode gerar o mesmo dano a outros trabalhadores. “Após o término do atestado, o trabalhador retorna ao trabalho e novamente é obrigado a se expor às mesmas condições anteriores,” explica Renata Matsmoto, auditoria fiscal do trabalho em São Paulo especializada em ergonomia.

Médicos não revertem o problema – Para fazer as empresas serem responsabilizadas pelos problemas de saúde que causam a seus empregados, o Ministério da Previdência Social publicou uma lista em 2007 que relaciona a atividade de um trabalhador a uma doença que ela desenvolve: o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP).

A lógica é simples: se muitos trabalhadores de determinada atividade desenvolvem ou agravam uma doença, a causa deveria ser reconhecida automaticamente pelos médicos do INSS. Em frigoríficos, por exemplo, é comum a existência de lesões por esforço repetitivo devido aos movimentos feitos durante todo o dia. Entre motoristas de ônibus, há muita ocorrência de problemas de bexiga porque eles têm que segurar a vontade de ir ao banheiro.  Se a doença consta na lista, é o empregador quem precisa provar que a doença não foi causada pelo trabalho.

Ex-funcionária da JBS, Osmarina diz que a empresa não reconheceu seus problemas de saúde. Foto: Márcio Isensee e Sá

Ex-funcionária da JBS, Osmarina diz que a empresa não reconheceu seus problemas de saúde. Foto: Márcio Isensee e Sá

A lista incomodou muito a indústria brasileira. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tenta derrubar o NTEP no Supremo Tribunal Federal alegando que ele é inconstitucional. O principal argumento contra a lista é a ideia de “causalidade”, ou seja, de que as doenças nem sempre têm a ver com o trabalho exercido. Na ação, eles argumentam que os sintomas não podem ser generalizados, e o caso de cada trabalhador deve ser analisado separadamente.

Apesar de ainda existir oficialmente, o NTEP muitas vezes é inócuo. Os médicos da Previdência Social costumam referendar aquilo que dizem os médicos das empresas, segundo Paulo Rogério Oliveira, criador do NTEP e doutor em Ciências da Saúde. A comunicação também pode ser feita por sindicatos e pelo próprio trabalhador, mas, nesses casos, acaba tendo menos peso junto aos médicos do INSS.

Como isso afeta o trabalhador – Se seguido à risca, todo esse trâmite burocrático não tem a capacidade de curar uma doença, mas ao menos pode amenizar os problemas de alguém aposentado precocemente por causa de doenças geradas pelo trabalho. Quando o INSS reconhece que a doença do trabalhador foi causada ou agravada pelo seu trabalho, ele ganha 90% do seu salário pago pelo governo. Sem esse reconhecimento, eles acabam encostados como Osmarina – sem nenhum tipo de auxílio e recebendo a aposentadoria mínima da Previdência, que hoje é de R$ 880.

Quando nem a empresa e nem o INSS reconhecem o problema do trabalhador, a única forma de fazê-lo é na Justiça – um caminho caro e longo. Elizette Braatz, ex-funcionária do frigorífico da BRF em Chapecó, oeste de Santa Catarina, é um desses raros casos. Ela trabalhava há quatro anos injetando tempero em perus quando começou a sentir dores nos braços e nas costas. Mesmo com atestados de médicos particulares, ela sequer conseguia folgas. “Eu sentia que minha saúde estava cada vez mais devastada. E o que eles me aconselhavam era pedir as contas,” lembra.

Grupo BRF, dono da Sadia, pagou multas por subnotificar doenças de trabalho. Foto: Reprodução

Grupo BRF, dono da Sadia, pagou multas por subnotificar doenças de trabalho. Foto: Reprodução

Elizette trabalhou até o dia anterior a fazer uma cirurgia na lombar, seis anos após os primeiros sintomas. Sem reconhecimento da empresa e do INSS, conseguiu, quase dois anos após a cirurgia, a reversão do caso na Justiça. Hoje, ela recebe um ‘auxílio acidentário’, quando a empresa é obrigada a prestar auxílios como a continuidade da concessão de plano de saúde e o depósito do FGTS.

A empresa afirma que “a colaboradora citada pela reportagem recebeu o apoio necessário e que a perícia médica indicou incapacidade temporária de 12 meses para a sua recuperação, prazo este finalizado em junho de 2015.” (Leia a íntegra da resposta da BRF)

O que a empresa ganha? – Quando deixam de comunicar casos de empregados que adoecem em função do trabalho, as empresas economizam no pagamento do Fator Acidentário de Prevenção, um índice que serve para calcular quanto cada empresa deve pagar ao governo para bancar aposentadorias especiais e benefícios decorrentes de acidentes de trabalho.

Esse índice é calculado a partir de vários indicadores, e um deles é o número de acidentes de trabalho. Empresas sem acidentados ou doentes, por exemplo, pagam a metade da alíquota ao fundo.  Ao omiti-los, as empresas maquiam os números reais e reduzem o valor que deveriam pagar.

Em diferentes frigoríficos, JBS foi autuada por subnotificar acidentes. Foto: Reprodução

Em diferentes frigoríficos, JBS foi autuada por subnotificar acidentes. Foto: Reprodução

Outro motivo para esconder esses problemas é a estabilidade garantida em lei para o trabalhador acidentado. Se o médico do INSS reconhecer a culpa da empresa, ela não pode demiti-lo por um ano. Como a CAT é o primeiro passo para esse reconhecimento, os empregadores preferem não fazê-lo e, assim, ficam livres para demitir funcionários com a saúde debilitada pelo próprio trabalho.

Perguntamos às empresas por que, afinal, elas comunicam menos doenças do que deveriam, como atestam os auditores fiscais do trabalho. Todas elas afirmaram que cumprem com a legislação trabalhista e emitem as CATs conforme a legislação. (Leia a íntegra da resposta das empresas: JBS, BRF e Marfrig)

Como evitar as doenças? – Toda essa discussão sobre a falta de reconhecimento das doenças ocupacionais pode desviar o foco do que realmente importa: diminuir os problemas de saúde causados pelo trabalho.

Do jeito como as coisas funcionam hoje, as multas dos auditores fiscais e gastos com ex-funcionários como Elizette não abalam o orçamento dessas empresas, segundo Paulo Rogério Oliveira. Para ele, a única maneira de mudar esse quadro seria a responsabilização criminal sobre os proprietários das empresas, a partir de ações do Ministério Público Federal.

Enquanto isso, os problemas de saúde contraídos pelos trabalhadores dão prejuízo à Previdência. Em 2015, a União gastou R$ 23,2 bilhões com auxílios a trabalhadores afastados por doenças. Para diminuir esse gasto, o atual governo editou uma Medida Provisória que aumenta a fiscalização sobre aqueles que recebem esse benefício. Já as empresas, principais responsáveis por esse prejuízo, continuam sem pagar pelo que causam. E sem que o governo reforce o controle sobre a sonegação.


Você é expulso de sua cidade e ainda bate palmas para o “progresso”?

Leonardo Sakamoto

Quando a ocupação de determinados espaços interessa às classes que detém o poder econômico, elas elaboram mitos e criam heróis.

Para impor seus objetivos por meio do aparelho jurídico e administrativo do Estado, são construídos suportes de legitimação que mostrem que os seus próprios interesses são, na verdade, interesses de todos e, principalmente, daqueles que vão pagar o pato.

Aliás, pagar o pato vai se tornar uma constante por aqui.

Pois fazem você acreditar que o que é bom para eles é bom para você.

No campo, a construção desse suporte ideológico culminou em slogans como “Terra sem homens para homens sem terra” (que, além de tudo, era machista…), utilizado pelos verde-oliva, mas que estava presente já nos discursos de Getúlio Vargas. O slogan tinha o objetivo de transmitir a ideia de que a Amazônia é um grande deserto verde, desabitado. Contudo, uma olhadinha rápida demonstra a falácia presente na utilização desses discursos, uma vez que terras almejadas pelos novos empreendimentos agropecuários e extrativistas eram e são, na verdade, habitadas por populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas, posseiros e colonos.

O que esse slogan encobre é que a Amazônia não é e nunca foi um vazio e que a imagem de “deserto verde” é uma construção que serve às forças econômicas interessadas em ocupar a região.

Afinal de contas, como todos sabemos, se é um deserto, não tem ninguém. E passar por cima de “ninguém'', não é crime. Certo?

“Terra sem homens para homens sem terra.''

Ou “Bairro com apenas pequenas casas para gente sem bairro.''

Só não explicam que não é qualquer “gente'', mas apenas aquela que tem dinheiro no bolso.

A especulação imobiliária, freada a contragosto pela crise econômica, mas que segue mais viva do que nunca, vem transformando as grandes cidades.

Já citei o ensaio “O Fausto de Goethe: A Tragédia do Desenvolvimento'', de Marshall Berman aqui, mas vale retomar, pois cai como uma luva. Fausto vendera sua alma em troca de experimentar as sensações do mundo. Mas o diabo não é o Lúcifer da cristandade, não representa o mal em si, mas sim o espírito empreendedor capitalista e burguês.

A mentalidade que fomenta Fausto (“destruir para criar”) é a realidade em constante movimento (Mefistófeles perguntava a ele se Deus não havia destruído as trevas que reinavam no universo para poder criar o mundo).

No meio do caminho estavam Filemo e Baúcia, um casal de idosos.

Eram um empecilho para os planos do empreendedor Fausto e precisavam ser removidos. Quando Mefistófeles queima a casa da dupla, assassinando-os, não quer Goethe provar a sua maldade, mas expor exatamente o contrário: joga-se o empecilho fora criando a ideia de que o mal (o casal idoso) precisa ser extirpado para que a sociedade crescesse.

Caem os limites morais. O desenvolvimento não possui padrões éticos, além da ética que cria para si mesmo.

As lembranças da desocupação forçada do Pinheirinho ou dos incêndios nas favelas de São Paulo duram na cabeça da classe média até que empreendimentos bonitos fiquem prontos no lugar. Males a serem extirpados em nome do progresso e do futuro.

Fico preocupado com uma cidade que passa por cima do seu passado, associando-o, de forma equivocada, a algo ruim ou insignificante no intuito de avançar. E avançar. E avançar. Para onde? Pouco importa.

O que importa é que o movimento de mudança seja constante. E que alguém ganhe com isso.

Falar sobre a política higienista urbana no Brasil é chover no molhado. Afinal de contas, as empreiteiras e os especuladores imobiliários, historicamente, doaram recursos de campanha, emprestaram parentes para cargos públicos, influenciaram o cumprimento e o não cumprimento de regras, como planos diretores. Ao mesmo tempo, quando são abertas as contas eleitorais, vemos – novamente – a influência do cimento na eleição de muita gente.

Esta eleição, com a proibição de doações por empresas, promete ser diferente. A ver.

Nos últimos anos, o governo brasileiro inundou o país com bilhões em recursos para a construção, com o objetivo de modernizar a infra-estrutura e erguer moradias, girando a economia.

Só que “esqueceu'' de uma coisa: com o mercado imobiliário aquecido, a busca por áreas urbanas para a incorporação leva à expulsão de outros grupos, normalmente os mais pobres. Se a Justiça considerasse sempre a função social da propriedade para tomar suas decisões, como está previsto na Constituição Federal, a história seria diferente e a sociedade seria ouvida.

O bom é que, em se tratando do dinheiro de cimento, o poder público nunca me decepciona, sendo ele PMDB, PSDB, PT, PSB, PP, federal, estadual ou municipal, em qualquer lugar.

Quem ganhava, mantinha o cimento a tiracolo. Ou, melhor: quem ganhava continuava no bolso dele.


Na vida, há sempre dois Triplex ou “Vale tudo na guerra da informação?”

Leonardo Sakamoto

Da mesma forma que um meteoro se aproxima da Terra toda vez que algum dos comediantes do Escola Sem Partido chama Paulo Freire de burro e picareta, dá para sentir o gosto amargo do Armagedom chegando quando pessoas divulgam qualquer informação para vencer um debate.

Como muita gente pouco se importa para a qualidade da informação que consome, a noção de “verdade'' se torna tudo aquilo com a qual concordam e, de mentira, tudo aquilo com a qual discordam.

A bola da vez é parte das pessoas que são críticas às investigações contra o ex-presidente Lula estarem postando loucamente memes e textos dizendo que o inquérito da Polícia Federal não apontou a família Silva como proprietária do Triplex no Guarujá.

Explico: há dois Triplex na história – o que indiciou a proprietária, uma publicitária, e funcionários da Mossack Fonseca, empresa panamenha que gerencia offshores, e o apartamento que ficou famoso, cujo inquérito ainda está em aberto, no qual se investiga Lula.

Há muito erro de boa fé, claro. Como é claro também que muita gente sabe que são dois imóveis. E pode argumentar que não está mentindo, porque diz que aquele apê não é de Lula. Mas se aproveita para vender a história de que a família Silva teria sido inocentada sobre o outro apartamento também. Porque, depois de todo fuzuê armado, explicar à população que focinho de porco não é tomada, ou seja, que são dois Triplex, pode levar a história a não ter a mesma credibilidade.

Não estou entrando no mérito do Triplex.

(Particularmente, acho frágil que tendo a Lava Jato descoberto um escândalo de corrupção de proporções gigantescas com PT, PMDB, PSDB, DEM, PP, enfim, policiais, procuradores e juízes só consigam envolver o ex-presidente com reformas em um apartamento no Guarujá e um sítio em Atibaia.)

O que estou discutindo aqui é o processo de checagem e divulgação de informações.

Tratei na semana passada do caso do técnico do atleta de salto com vara francês que foi acusado de ter afirmado que o candomblé estava por trás da vitória do brasileiro Thiago Braz, ouro olímpico na modalidade. Ele nunca disse isso – boato que nasceu de uma “licença literária'' de um repórter em um jornal francês, traduzida de forma equivocada por uma agência de notícias, não checada pela imprensa brasileira e difundida loucamente pelas redes sociais. Pequeno adendo: pobre candomblé que não tinha nada a ver com a história e segue sendo vítima de brutal preconceito.

E também discorri sobre outro caso, de uma agência de conteúdo brasileira que publicou um texto dizendo que integrantes do MST, em Goiás, haviam sido presos com base na lei antiterrorismo – o que era um equívoco. A história, com a pauta na ordem do dia e plausível, bastou para que fosse replicada aos borbotões por jornalistas e leitores.

Os dois casos acima não são idênticos à questão do Triplex. Afinal, muita gente caiu que nem pato pelo fato dos casos envolverem agências de notícias conhecidas e com credibilidade. Mas o processo de difusão de uma informação equivocada e de construção de uma “verdade'' é o mesmo.

Podemos recontar casos semelhantes envolvendo a imprensa até o século 16 na Europa se desejarem. A verdade é que histórias assim sempre existiram. Por erro, que por ser intrínseco à falha natureza humana, vai estar presente até o fim dos tempos, mas também por excesso de trabalho, descuido, ignorância, incompetência e má fé.

Antigamente o jornalismo e a comunicação pública eram melhores? Cascata. Agora, contamos com o monitoramento do público e a possibilidade de nossos erros serem apontados em tempo real e ganharem mais visibilidade que nossas próprias matérias – coisa que, antes, era impossível. Tudo bem que a quantidade de pessoas nas redações agora é menor e o fordismo e o toyotismo das linhas de montagem de notícias está mais intenso, o que piora a qualidade da apuração. Mas a falta de feedback e a quantidade muito menor de leitores também mitificava profissionais que hoje não passariam pelo crivo maldoso de uma tuitada certeira.

Ao mesmo tempo, há duas décadas, um erro seria solucionado na edição seguinte de um periódico sem causar tanta repercussão quanto agora – um mundo conectado em tempo real, no qual primeiro se comenta um título que correu na timeline da rede social para, talvez, ler o conteúdo da matéria em questão. Isso, é claro, considerando que desmentidos, correções ou explicações, por não terem a mesma graça ou demonstrarem nossa inocência ou incompetência, não chegam a ter o mesmo alcance do erro ou boato original.

Isso também mostra o quanto o jornalismo profissional, com cada vez menos dinheiro e gente para produzir conteúdo próprio e checar o de terceiros, vai se tornando não um curador de informações (sejam elas de agências, sejam dos próprios leitores), como imaginávamos, mas um reprodutor automático de notícias. Com todos os impactos negativos que isso causa.

Boa parte da imprensa, tradicional e alternativa, poderia se dedicar mais a matérias que explicam confusões que ganham corpo na internet. Com louváveis exceções, hoje é como se os significados que são construídos na rede mundial de computadores fora das páginas de alguns veículos e de seus “iguais'' não lhes dissesse respeito. Isso quando a própria imprensa não está, voluntária ou involuntariamente, envolvida nas maiores confusões – como diria um comercial da Sessão da Tarde.

O triste é que nossa presunção, arrogância ou medo vão fazer com que o jornalismo profissional sofra mais do que o necessário nesse momento de transição em que a profissão procura um lugar ao sol neste mundo novo digital – que chega chegando, chutando, sem cerimônias, os traseiros analógicos.


Uma medalha de ouro é capaz de mudar o humor político do país?

Leonardo Sakamoto

Jogos são usados para distrair, alienar e conduzir a plebe há muito tempo. O pessoal que sangrava no Coliseu, em Roma, que o diga.

Mesmo ao longo de nossa história, o futebol foi utilizado com fins políticos. Não faltam livros, teses e documentários para quem quiser se informar sobre a ditadura militar e a Copa de 1970, na qual ganhamos o direito de derreter a Jules Rimet.

Por isso, o futebol é uma idiotice? Não, o futebol é fantástico, é sensacional, é indescritível. Imbecil é quem o usa politicamente – seja um governo que quer se promover através dele ou de seus opositores que querem desgastar o governo utilizando-o.

Não há uma relação direta entre a manutenção do grupo no poder e quem ganha a Copa desde a redemocratizacão, da mesma forma que não deve haver relação entre a política brasileira e um ouro olímpico no futebol.

Em 1994, levamos a Copa e o ministro da economia do governo anterior foi eleito presidente.

Em 1998, perdemos, mas Fernando Henrique foi reeleito.

Em 2002, ganhamos e o governo anterior não fez seu sucessor e Lula chegou ao poder.

Em 2006, perdemos, mas ele foi reeleito.

Em 2010, perdemos, mas Dilma manteve o PT no poder.

Em 2014, perdemos, mas Dilma foi reeleita.

Pode-se discutir 1994 e 2002 sob a ótica do sentimento de mudança, claro. Muita gente pesquisa sobre esse tema, há muito tempo, mas não chegou a um consenso. E não há um resultado único para essas análises.

A verdade é que a economia segue explicando muito mais o comportamento eleitoral e o humor político do país do que o futebol ou mesmo denúncias de corrupção em um governo. Se a economia estivesse bem, FHC teria feito seu sucessor. E, talvez, se ela seguisse bem, o impeachment não teria ocorrido com Dilma. Como a História não aceita o condicional “se'', nunca saberemos.

Por mais que muitos de nós tenhamos adorado a festa campal que foi a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, ou mesmo celebrado o ouro olímpico no futebol, isso influencia menos no estado de espírito individual ou geral do que a obtenção de emprego, entrar em uma boa faculdade pública ou conseguir um tratamento médico sem longas filas no sistema público de saúde. Ou, melhor: a percepção futura de que isso vá acontecer ou que a situação vá ser melhor.

Olimpíadas e Copa são temas políticos, contudo. Porque, por mais divertidas que tenham sido as festas, o legado deixado tanto na formação de atletas quanto na infraestrutura nacional, em ambos os casos, foi pífia. Foi a política que tornou possível rios de dinheiros fluírem para grandes empreiteiras para montar os grandes eventos, foi a política que expulsou comunidades para darem lugar aos jogos, foi a política que autorizou e conduziu uma política de gentrificação que vem tornando o Rio uma cidade proibida para os mais pobres, foi a política que criou o ambiente para que operários fossem escravizados e mortos na construção de obras, foi a política de desceu a borracha em quem protestava pacificamente contra esses eventos, foi a política que aumentou a vigilância e o aparato estatal de violência usados contra o cidadão comum sob a justificativa de combater o terrorismo.

Atletas competiram e quebraram recordes ou chegaram em último, não importa, deram o melhor de si, portanto não têm a ver com isso e merecem nosso respeito. A menos que emprestem seu prestígio para legitimar políticos e instituições que queiram se beneficiar do suor alheio.

Por fim, quem gosta de futebol, mas está deprimido com a situação política do país não pode celebrar o ouro olímpico? Olha, acho que tem gente que precisa ganhar um abraço bem apertado. Além do mais, as coisas têm os significados que construímos para elas. Essa construção pode ficar na mão de narradores de futebol, jornalistas, economistas, padres, pastores e políticos em geral. Ou ser feita de forma coletiva, por todos nós. Tendo a considerar a segunda alternativa melhor.

A menos que sejamos gado. Mas gado não joga bola.

PS: Imagina como seria a vida se outros esportes tivessem uma mísera parte do que o futebol na TV? Ou mesmo o futebol feminino? Esportistas não ganhariam reconhecimento apenas a cada quatro anos, apoios e patrocínios privados surgiriam pela exibição de marcas e despertaríamos interesse de muito mais jovens para outra modalidades. Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Não importa, a mudança tem que começar de algum lado.


Seis razões que podem fazer destas as piores eleições de nossa história

Leonardo Sakamoto

Nunca se discutiu tanta política no Brasil, então estas eleições municipais têm tudo para serem as melhores de nossa história, correto? Errado.

Apesar de pipocarem novas candidaturas trazendo outras vozes à arena pública e de termos avançado na contenção do financiamento empresarial de campanha, a inexistência de uma reforma política mais ampla mantém os problemas de nosso sistema – agravados por uma crise crônica de representatividade e pela grande quantidade de informação de baixa qualidade circulando e formando opinião.

Por isso, enumerei seis razões que podem fazer destas as piores eleições do país. A previsão catastrofista pode ser revertida, contudo, a depender da qualidade do debate público, do nível de participação social e do monitoramento do processo por parte da imprensa, tradicional e independente. 

1) Democracia capenga – Candidatos como Marcelo Freixo e Luiza Erundina, ambos do PSOL, e Ricardo Young, da Rede, estão sob risco de ficar de fora de debates na TV. Culpa da minirreforma eleitoral organizada por Eduardo Cunha, mas também pela covardia de Flávio Bolsonaro, Índio da Costa e Pedro Paulo, no Rio, e João Dória, Major Olímpio e Marta Suplicy, em São Paulo, que, questionados sobre essa participação, chegaram a vetar concorrentes e não aceitaram debater com eles. Freixo e Erundina estão entre os primeiros colocados de ambas as cidades. Após polêmica, chegou a ser anunciado que o primeiro debate na TV Bandeirantes teria a participação de todos os candidatos no Rio, contudo, ao final, voltou-se atrás. Claro que devemos evitar a naniquização da política partidária brasileira. Mas, para isso, precisamos desenvolver critérios mais sofisticados que evitem legendas de aluguel, que existem para sorver recursos públicos, mas não impedir vozes que representam o pensamento de parte da população a participar do debate público – o que vai empobrecer nossa democracia.

2) Guerrilha digital – É fundamental que empresas tenham sido proibidas de investir recursos em campanhas eleitorais. Mas a proibição de financiamento direto teve um efeito colateral: está levando candidaturas a combinarem com empresas interessadas em apoia-las para que arquem com serviços digitais de desconstrução de reputações via internet. Esses serviços tiveram um papel importante nas últimas eleições gerais de 2014 com a transformação da rede em palco de batalha em que a “verdade'' caiu morta. Por ser feito nas sombras, ser difícil de rastrear, não ter custos expressivos e nem passar pela campanha e seus representantes, esse financiamento é invisível à análise das contas.

cobaia

3) Mais meme, menos reportagem – Os boatos tiveram um papel central nas eleições de 2014, aproveitando-se do fato de parte dos eleitores não ter sido devidamente preparada para distinguir fofoca de informação correta, talvez pelo mesmo motivo de consumir memes de qualidade duvidosa com mais voracidade do que reportagens produzidas com profundidade. Apesar de não ser uma campanha pela Presidência da República, a situação não deve ser melhor este ano, porque o instrumento já se provou eficaz e a sociedade foi incompetente em tentar qualificar o debate público digital no país.

4) Terreno envenenado – Apesar de ter aumentado o número de pessoas que discutem política como efeito de um processo de um impeachment absorvido pela internet, não é possível dizer que isso significou uma qualificação do debate político brasileiro. Pelo contrário, a polarização burra – incitada em grande parte a partir da guerra campal estabelecida por PSDB e PT nas eleições de 2014 – ajudou a moldar a forma como discutimos política em 2015 e 2016: gritando “verdades'' e não ouvindo “mentiras'' – sendo que verdade é tudo aquilo com o qual concordo e mentira é tudo com o qual discordo.

5) Representação em descrédito – A democracia representativa segue em descrédito por parte da população por não conseguir dar respostas aos seus problemas. Ao mesmo tempo, candidatos como Donald Trump, nos Estados Unidos, e seus simulacros mal ajambrados no Brasil, travestem suas figuras anacrônicas do aparente frescor da novidade por serem outsiders do jogo político partidário tradicional, apesar do discurso que empunham defender a permanência do mundo de sempre. Parte da elite intelectual, seja de esquerda, de centro ou de direita, é vítima da arrogância de sua análise de conjuntura enviesada. Não raro, tratamos como piada ou folclore figuras que sabem muito bem o que fazer e que entendem como parcelas do eleitorado estão divididas, utilizando essa percepção a seu favor. Essas “piadas'' vão conquistar espaço em prefeituras e Câmaras dos Vereadores a partir de outubro.

6) Menos é menos – Como o financiamento empresarial foi proibido, diminuiu-se o período de campanha para baratear o custo total das eleições. Ao mesmo tempo, reduziram-se os blocos maiores da propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na TV e aumentaram-se as inserções curtas ao longo da programação. Ou seja, será a campanha do jingle e do slogan em detrimento ao debate aprofundado de ideias. Abriu-se mão do tempo, mas não se abre mão do padrão do marketing de mercado.

Observação: Atualizado às 14h30, do dia 19/8/2016, para inclusão de informação sobre a participação de todos os candidatos no debate a ser realizado pela TV Bandeirantes no Rio de Janeiro. E atualizado, novamente, às 23h30, para a inclusão de informação de que, devido à mudança de opinião dos concorrentes, parte dos candidatos, incluindo Marcelo Freixo, ficará, novamente, de fora dos debates.


Como SP pratica censura ao furar olho de fotógrafo e culpá-lo por isso

Leonardo Sakamoto

O fotógrafo Sérgio Silva foi considerado culpado pela Justiça do Estado de São Paulo por ter sido atingido por uma bala de borracha e, consequentemente, perdido o olho esquerdo. O disparo partiu da Polícia Militar, cuja repressão a um protesto pela redução na tarifa dos transportes públicos, no dia 13 de junho de 2013, deixou um rastro de manifestantes e jornalistas feridos.

O juiz da 10ª Vara de Fazenda Pública Olavo Zampol Júnior afirmou que “ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, [Sérgio Silva] voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto''.

A decisão judicial  indefere o pedido de indenização movido pelo fotógrafo contra o governo de São Paulo. O juiz ainda falou da importância de jornalistas se precaverem nessas situações e omitiu o papel do Estado, transferindo a responsabilidade para quem perdeu a visão.

“No caso, ao se colocar o autor entre os manifestantes e a polícia, permanecendo em linha de tiro, para fotografar, colocou-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer, exsurgindo desse comportamento causa excludente de responsabilidade, onde, por culpa exclusiva do autor, ao se colocar na linha de confronto entre a polícia e os manifestantes, voluntária e conscientemente assumiu o risco de ser alvejado por alguns dos grupos em confronto (polícia e manifestantes)'', diz a sentença. À decisão, de primeira instância, cabe recurso.

Ou seja, os profissionais de imprensa deveriam gritar para a polícia “Perdoa-me por me sangrar!'' – no melhor estilo de Nelson Rodrigues.

O fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu o olho esquerdo após ser atingido por um disparo da polícia. Foto: Junior Lago/UOL

O fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu o olho esquerdo após ser atingido por um disparo da polícia. Foto: Junior Lago/UOL

De acordo com nota divulgada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), 61% dos 98 casos de agressões da PM paulista contra profissionais de imprensa durante as manifestações de junho de 2013 foram intencionais, quando a vítima estava identificada ou se identificou como jornalista.

Ou seja, grande parte dos ataques não são acidentes. Pelo contrário, alguns policiais sabem muito bem o que estão fazendo. E os chefes deles também. E Secretários de Segurança Pública. E governadores. E presidentes. O que só torna a situação pior, uma vez que eles não estão atacando apenas o profissional de imprensa que está lá, mas impedindo que a população saiba exatamente o que está se passando para formar sua opinião.

A Abraji também lembra quem, em setembro de 2014, a 2ª Câmara Extraordinária de Direito Público do TJ-SP decidiu que o fotógrafo Alex Silveira era culpado por perder 80% da visão de um dos olhos, após ser atingido por uma bala de borracha em 2003.

Tão intolerável quanto um manifestante levar cacetada covardemente sem ter feito absolutamente nada para colocar em risco a vida de outras pessoas, é um jornalista ser agredido quanto está tentando registrar e transmitir uma história. Seja ele da mídia tradicional ou alternativa.

É censura perpetrada através de violência de Estado.

O poder público não atua decentemente em certos protestos e aglomerações para além de meter bala, bomba e cacetada, criando um ambiente de guerra em que tudo pode acontecer. Em outros, distribui selfies. Policiais despreparados, falta de comando, ordens bizarras, má fé, enfim, não se controla fogo jogando álcool. Ou procurando armas de destruição em massa em frascos de Pinho Sol.

A verdade é que o poder público tem apostado na criminalização prévia de movimentos sociais e na geração de narrativas que transformam milhares de manifestantes pacíficos em baderneiros para reafirmar sua posição junto a uma parcela expressiva do eleitorado que prefere um sentido distorcido de ordem acima do respeito aos direitos civis. E, no final, culpa o agente policial ou o manifestante pelo ocorrido, quando os maiores responsáveis estão longe dali, nos palácios e gabinetes

Ou melhor, clima de guerra, não. Já cobri mais de uma vez conflitos armados fora do país e nunca vi nada parecido.

Como já disse aqui, em outras profissões, teríamos protestos ou uma ação coletiva mais forte para denunciar o que está acontecendo. Talvez até cruzaríamos os braços. Por aqui, muitas vezes abaixamos a cabeça e torcemos para que, na próxima vez, não seja conosco – assumindo o mesmo padrão que adotamos quando uma demissão coletiva assola um veículo de comunicação sem que, antes, patrões e empregados tenham conversado para checar se essa era mesmo a única saída.

Como profissionais cuja função é cobrar o poder público não conseguem sair desse estado de catatonia? Não é uma questão de posicionamento político, ser a favor ou contra manifestações. É liberdade de expressão.

Quando o cinegrafista Santiago Andrade foi morto pelo disparo de um projétil, a comoção gerada pressionou para que ocorressem investigações, que apontaram para manifestantes. Mas casos de jornalistas feridos pelas mãos da polícia normalmente não encontram a mesma indignação.

Para além disso, o ataque à impunidade sozinho não vai resolver a questão de como a imprensa é vista ou tratada, pela sociedade ou pelo Estado. Para isso, precisamos também rever nosso próprio comportamento e nos perguntar se fazemos parte desse tecido social ou se acreditamos no mito bobo do “observador independente e imparcial''? Então, abrir um diálogo honesto.

Por fim, que nós, jornalistas, tenhamos dignidade de relatar à exaustão o que está acontecendo, listando responsáveis diretos e indiretos, a fim de que cada cicatriz deixada nos colegas seja devidamente deduzida do patrimônio eleitoral dos mandatários e de seus indicados.

Ou a gente só é corajoso quando é com os outros?


“Este país é estranho” ou Como mais uma notícia falsa incendiou as redes

Leonardo Sakamoto

Não, o técnico francês do atleta francês, segundo lugar no salto com vara, não disse que o candomblé estava por trás da vitória do brasileiro. Ele havia comentado que “este país é estranho'', espantado com a recuperação de Thiago Braz no final da prova. Um repórter francês fez um comentário sobre a declaração, uma “licença literária'', em sua matéria, e uma agência de notícias traduziu como sendo do técnico a declaração.

Antes de mais nada, é importante dizer que, assim como a morte chegará a todos nós, erros vão ocorrer no jornalismo. Somos humanos. Portanto, não é sua natureza inevitável que está em discussão, mas as formas de diminuir sua ocorrência, seu impacto e corrigir rapidamente o que foi divulgado equivocadamente.

Há duas décadas, o erro seria solucionado na edição seguinte sem causar tanta repercussão quanto agora – um mundo conectado em tempo real, no qual primeiro se comenta um título que correu na timeline da rede social para – depois, talvez, quiçá um dia – ler o conteúdo da matéria em questão.

Ou seja, o pior não foi parte dos leitores de redes sociais xingarem loucamente o técnico do atleta francês baseado nessa situação e depois fazerem a egípcia e nem se dignarem a compartilhar a correção. O pior é lembrar que isso acontece normalmente no jornalismo e, na maioria dos casos, que não conta com a mesma atenção da mídia, nós nem ficamos sabendo qual era o problema.

Recentemente, uma agência de conteúdo brasileira publicou um texto que dizia que integrantes do MST, em Goiás, haviam sido presos com base na lei antiterrorismo – o que não era verdade. A história, com a pauta na ordem do dia e plausível, bastou para que fosse replicada aos borbotões por jornalistas e leitores. Quem conhecia minimamente a lei, contudo, sabia que aquilo não era sustentável. Quem tinha lido com cuidado o texto da agência e acompanha o tema também não. Mas tempo é commodity em falta ultimamente na comunicação.

Nas redes sociais, “verdade'' é tudo aquilo com a qual concordamos e “mentira'' é aquilo do qual discordamos. Então, se algo pode ser utilizado para reforçar nossa visão de mundo, será devidamente retuitado, compartilhado, ganhará uma chuva de likes. Desmentidos, correções ou explicações, por outro lado, por não terem a mesma graça ou demonstrarem nossa inocência ou incompetência, não chegam a ter o mesmo alcance do erro ou boato original.

Isso também mostra o quanto o jornalismo profissional, com cada vez menos dinheiro e gente para produzir conteúdo próprio e checar o de terceiros, vai se tornando não um curador de informações (sejam elas de agências, sejam dos próprios leitores), como imaginávamos, mas um reprodutor automático de notícias. Com todos os impactos negativos que isso causa.

Reputações nascem e reputações morrem de uma hora para outra por conta disso. Talvez se o jornalismo brasileiro tivesse lido o original do texto em francês, o entendimento teria sido diferente. Ou, melhor, talvez se a informação tivesse sido checada com o próprio técnico antes de publicada, a história teria sido diferente. Mas, isso significa perder espaço (leia-se, pageviews) para a concorrência ou a primazia do comentário (e, portanto, da interpretação do fato) nas redes sociais.

Fico assustado com a quantidade de coisa mal checada e precipitada que circula pelas redes sociais, principalmente em momentos de grande comoção, como uma eleição ou um grande evento esportivo. Boatos sempre existiram, espontâneos ou criados com finalidades políticas. Em 1789, por exemplo, circularam notícias falsas de que as brigadas da Revolução Francesa iriam massacrar os camponeses ou destruir suas plantações. Este caso, que ficou conhecido como o “grande medo'', pode ter se originado por ordem dos ingleses ou da aristocracia francesa. O problema é que, agora, tudo isso é transmitido em massa e em tempo real.

Se as redes sociais ajudam a furar bloqueios e a questionar estruturas tradicionais de poder, elas também desinformam. Tem sempre alguém distorcendo ou descontextualizando informação e divulgando-a, por ignorância, má fé ou visando a um objetivo pessoal ou de seu grupo. Ou aqueles que misturam realidade e desejo, fato e ficção, consciente ou inconscientemente.

Fiz com a ajuda de colegas jornalistas, há algum tempo, dez conselhos para usar bem o Twitter e o Facebook na cobertura de um acontecimento. Publico eles novamente.

Nem sempre é possível garantir que a informação que você está consumindo tenha qualidade. Mas tentar é preciso. E, na dúvida, lembre-se do princípio iluminista de que “a água é sempre mais fresca quanto próxima da fonte estiver''. Ou seja, em casos polêmicos, antes de sair compartilhando, procure a fonte original da informação.

E o apelo aqui é para os colegas, pois temos mais responsabilidade nessa história. Como (ainda) não há uma educação para a mídia feita através do sistema de educação básica, temos um papel relevante na mediação desses conteúdos e ao atestar credibilidade. Por mais que a vida não esteja fácil com a redução de mãos para ajudar no dia a dia das redações.

Os Dez Mandamentos para Jornalista Profissional (ou Não) de Facebook e Twitter

1) Não divulgarás notícia sem antes checar a fonte da informação.

2) Não divulgarás notícias relevantes sem atribuir a elas fontes primárias de informação. Um “cara gente boa'', um veículo famoso ou uma BFF não são, necessariamente, fontes de informação confiáveis.

3) Tuítes e posts “apócrifos”, sem fonte clara, jamais serão aceitos como instrumento de checagem ou comprovação.

4) Não esquecerás que informação precede opinião.

5) Não repassarás informações que não fazem sentido algum só porque você não gosta da pessoa em questão.

6) Lembrarás que mais vale um tuíte ou post atrasado e bem checado que um rápido e mal apurado. E que um número grande de retuítes, compartilhamentos e “likes” pode garantir reputação, mas não credibilidade.

7) Não matarás – sem antes checar o óbito.

8 ) Não esquecerás que a apuração in loco, por telefone e/ou por e-mail precede, em ordem decrescente de importância, o chute. E que checar com a fonte original ainda é o melhor negócio.

9) Não terás pudores de reconhecer, rapidamente e sem poréns, o erro em caso de divulgação ou encaminhamento de informação incorreta.

10) Na dúvida, não retuitarás, compartilharás ou darás “like” em coisa alguma. Pois, tu és responsável por aquilo que repassas e atestas. Ou seja, se der merda, você também é culpado.


Morre João Havelange, aquele que escravizou o futebol em nome de si

Leonardo Sakamoto

João Havelange, presidente da Fifa entre 1974 e 1998, morreu, na manhã desta terça (16), aos 100 anos, no Rio de Janeiro. Se vão com ele também acusações de corrupção, propinas, desvios, no Brasil e no mundo, que nunca foram devidamente investigados, julgados, punidos.

Mas, para muita gente, tudo isso é justificável por conta da “profissionalização'' e da “popularização'' do futebol que sua gestão teria trazido. Sabe qual o problema da máxima “os fins justificam os meios''? É que os concordam com ela raramente são os mesmos que terão que amargar suas consequências.

Preciso confessar que me interesso cada vez menos pelos grandes palcos do futebol, onde estão as principais estrelas, os holofotes e as sacanagens, e cada vez mais por anônimos que nunca terão seu nome gritado por uma multidão ensandecida, mas amam o futebol mesmo assim.

Quando soube que Havelange se foi sem ter respondido pelos seus crimes, após uma vida longa e confortável e até ovacionado pelo presidente interino Michel Temer (“O esporte mundial perdeu hoje um dos seus mais expressivos líderes. João Havelange se dedicou com afinco ao desenvolvimento do esporte e, principalmente, do nosso futebol''), pensei quantos desses anônimos nunca terão uma chance por conta da ação de pessoas como ele, que escravizam o futebol para seus interesses.

Daí lembrei de Jonas, resgatado do trabalho escravo em uma operação da qual participei anos atrás, cuja história contei aqui.

Cerqueiros perfuravam o chão, plantando mourões e passando arame por quilômetros a fio sob o sol forte da Amazônia. O serviço era pesado: dependendo do relevo, a cabeça ardia por dias até que se completasse um quilômetro de cerca. O pequeno açude, turvo e sujo, servia para matar a sede, cozinhar e tomar banho. Um perigo, pois a pele ficava impregnada com o veneno borrifado para tratar o pasto. Dessa forma, a terra vai se dividindo – não entre os cerqueiros, que continuarão sonhando com o dia em que plantarão para si, mas em grandes pastos para os bois. Dentre os trabalhadores, olhos claros e pele queimada, ele, Jonas, de 14 anos.

Analfabeto, me contou que morava em uma favela no município com a família adotiva e ia ao campo para ganhar dinheiro. Trabalhava desde os 12 para poder comprar suas roupas, calçados, fortificantes e remédios – até então, já tinha pego uma dengue e cinco malárias. Com o que ganhava no serviço, também pagava sorvetes e lanches para ele e seus amigos. E só. Segundo Jonas, a adolescência não era tão divertida assim: “brincadeira lá é muito pouca.”

A mãe, uma prostituta abandonada grávida por um viajante francês, teria dado Jonas de presente para um “gato'' de fazenda. Gato é como são chamados os contratadores de serviços, que arregimentam pessoas e fazem a ponte entre o empregador e os peões. Porém, isso não lhe garantiu nenhum tratamento especial: teve que descontar do salário a bota que usava para trabalhar. Perguntei para o padrasto se isso era justo. Ele, de pronto, me respondeu que não considerava a venda do calçado para o próprio filho errado e justificou: “como vou sustentar a minha mulher?”

O alojamento que Jonas dividia com os outros era feito de algumas toras fincadas no chão, um pouco de palha e uma lona cobrindo tudo. O sol transformava a casa improvisada em forno, encurtando, assim, a hora do almoço. Redes faziam o papel de camas, penduradas aqui e ali para embalar, entre um dia e outro de trabalho, os sonhos das pessoas.

O de Jonas, como vários outros rapazes da sua idade, era ser jogador de futebol.

Presença garantida nos times dos mais velhos, participava de jogos e campeonatos quando eles aconteciam. Queria ser profissional, mas apesar de gostar dos times do Rio de Janeiro e de São Paulo, preferia ficar lá mesmo no Pará – quem sabe, algum dia, vestindo as camisas do Paysandu ou do Remo.

Centenas de crianças e jovens no Brasil abandonam a escola e trabalham desde cedo para ajudar as finanças em casa ou mesmo se sustentar. A situação melhorou muito nas últimas décadas, mas um grande número delas ainda estão sujeitas a condições degradantes, como Jonas. Catam latinhas de alumínio nos lixões das grandes cidades, ajudam a família em colheitas de fazendas alheias. Em casos extremos, são obrigados a trabalhar só por comida e impedidos de sair enquanto não terminarem o serviço.

Muitos deles, como Jonas, queriam ser jogadores de futebol. Talvez porque gostem do esporte como nós. Ou talvez porque vejam nele a possibilidade de se verem livres daquela vida, com a bola carregando-os para bem longe, longe o bastante para nunca mais voltar.

Jogos são usados para distrair, alienar e conduzir a plebe há muito tempo. O pessoal que sangrava no Coliseu, em Roma, que o diga.

Mesmo ao longo de nossa história, o futebol foi utilizado com fins políticos. E João Havelange, que dirigiu a Confederação Brasileira de Desportos, soube se aproximar e lucrar com a ditadura militar, que via no futebol a possibilidade de mostrar sucesso, harmonia e união. Afinal, éramos “90 milhões em ação'', muitos dos quais não faziam ideia que o país vivia um período sombrio de sua história. Por isso era necessário usar a Copa para empurrar  “pra frente Brasil, no meu coração''.   Sem divisões, sem questionamentos, apenas um sentimento de “todos juntos, vamos pra frente Brasil''. E deixando de lado mortes, torturas e perseguições políticas, gritar: “Salve a seleção''.

Não faltam livros, teses e documentários para quem quiser se informar sobre a ditadura militar e a Copa de 1970, na qual ganhamos o direito de derreter a Jules Rimet.

Por isso, o futebol é uma idiotice? Não, o futebol é fantástico, é sensacional, é indescritível. Imbecil é quem o usa politicamente – seja um governo que quer se promover através do futebol ou de seus opositores que querem desgastar o governo com futebol.

A gente pode passar a vida inteira tentando entender o esporte e, ainda assim, se surpreenderá. Como na história de um escravo de 14 anos que encontrava tempo para sonhar com uma bola.

Antítese dos dirigentes da Fifa e da CBF, como Havelange, que têm todo o tempo do mundo, mas ao invés de incentivar o esporte como instrumento de liberdade, escravizam-no para enriquecer às suas custas.

Agora, me digam: quem ama realmente o futebol? E quem ama só a si mesmo?

Por isso, tenho cada vez mais a certeza que os estádios são um simulacro.

A realidade está nas várzeas. Na forma de bolas bem surradas, que conseguem amolecer a dureza áspera do dia a dia e carregar consigo todos os sonhos do mundo.


Relatório aponta falta de terra como causa de fome entre indígenas

Leonardo Sakamoto

Imagine uma comunidade em que 100% das famílias encontram-se em algum grau de insegurança alimentar e nutricional. Para ter uma ideia do que isso significa, considerando o país inteiro, o índice é de 22,6% da população.

Isso seria uma tragédia sem comparações, motivo para governos serem obrigados a se justificarem e ao país – como um todo – ser espinafrado pela mídia nacional e internacional.

Seria. Se as comunidades afetadas não fossem indígenas. Que, como sabemos, são invisíveis.

A Fian Brasil, em parceria com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), realizou uma pesquisa para medir a insegurança alimentar e nutricional em três comunidades Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul – Guaiviry, Apyka’i e Kurusu Ambá. As três são palco de disputas por territórios tradicionais e tiveram lideranças assassinadas.

Em 2013, 4,8% dos domicílios brasileiros com pessoas com menos de 18 anos se encontravam em insegurança alimentar grave. Enquanto isso, nas comunidades indígenas avaliadas, esse índice era de 28%.

Em 76% dos domicílios da pesquisa, a pessoa entrevistada afirmou que, no mês anterior a setembro de 2013, houve ocasião em que crianças e jovens da casa passaram um dia todo sem comer e foram dormir com fome, porque não havia alimento.

Menos de 40% recebiam o Bolsa Família.

A análise dos dados, que está sendo divulgada agora, aponta como causas estruturantes do problema de acesso aos alimentos, a falta de respeito, proteção e promoção dos direitos ao território e à sua identidade cultural.

Cerca de 98% das terras indígenas brasileiras estão na região da Amazônia Legal. Elas reúnem metade dos povos indígenas. A outra metade está concentrada nos 2% restantes do país. Sem demérito para a justa luta dos indígenas do Norte, o maior problema se encontra no Centro-Sul, mais especificamente no Mato Grosso do Sul – que concentra a segunda maior população indígena do país, só perdendo para o Amazonas. Há anos, eles aguardam a demarcação de mais de 600 mil hectares de terras, além de algumas dezenas de milhares de hectares que estão prontos para homologação ou emperrados por conta de ações na Justiça Federal por parte de fazendeiros.

Ao longo dos anos, os Guaranis Kaiowá foram sendo empurrados para reservas minúsculas, enquanto fazendeiros, muitos dos quais ocupantes irregulares de terras, esparramaram-se confortavelmente pelo Estado. Incapazes de garantir qualidade de vida, o confinamento em favelas-reservas acaba por fomentar altos índices de suicídio e de desnutrição infantil, além de forçar a oferta de mão de obra barata. Pois, sem alternativas, tornam-se alvos fáceis para os aliciadores e muitos acabaram como escravos em usinas de açúcar e álcool no próprio Estado nos últimos anos.

E isso quando esse “território'' não se resume a barracas de lona montadas no acostamento de alguma rodovia com uma excelente vista para a terra que, por direito, seria deles. Em outras palavras, no Mato Grosso do Sul, a questão fundiária envolvendo comunidades indígenas provoca fome, suicídios e mortes.

O relatório “O Direito Humano à Alimentação Adequada e à Nutrição do povo Guarani e Kaiowá'' será apresentado, nesta terça (16), às 14h, no Auditório 1 da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília.


Você sabe o que faz um vereador? E capturar um Pokémon, você sabe?

Leonardo Sakamoto

Tenho muita preguiça de quem tem preguiça de discutir política.

Principalmente em anos como este, em que – ancoradas em nosso silêncio e nossa resignação – pessoas bisonhas tendem a ser eleitas para fazer rir indivíduos, empresas e organizações que os apoiam direta ou indiretamente.

Sim, em última instância, somos nós os responsáveis por eleger os bisonhos supracitados. Seja por ter votado neles (reproduzindo o que terceiros disseram sem a devida análise de quem são, o que defendem e com quem estão), não votando mas também não tentando, ao menos, pautar a discussão sobre eles (quando temos certeza de que não farão um bom governo ou uma boa representação) ou, pior: não se interessando em saber o que faz um prefeito ou um vereador – ou se as opções que estão aí cumprem esse papel.

Você sabe o que faz um vereador? E como capturar um Pokémon, você sabe?

Eu sei que, não raro, um Squirtle é mais útil para a sua felicidade do que certos vereadores. Como ele só existe virtualmente (o Pokémon, no caso), não pode causar tantos problemas quanto os representantes municipais.

O pior é que, a cada quatro anos, somos capturados para dentro da Pokébola, sem nos dar conta disso.

Nas últimas eleições municipais, gastei o gogó convencendo amigos e inimigos a pesquisarem e votarem nos candidatos que, em sua opinião, farão uma boa gestão e nos representarão na Câmara dos Vereadores. Fui à rua, conversei com pessoas do bairro onde moro (Sumaré) e naquele onde cresci (Campo Limpo), enfim, o que sempre faço nesses momentos. Defendi pontos de vista, ouvi outros tantos.

A internet é importante como plataforma de construção e reconstrução da realidade, mas não é a única camada de interação possível, nem a única desejável. O velho corpo a corpo é fundamental.

Note que não estou citando o candidato X, Y ou Z. Não estou pregando, neste espaço, voto a alguém mas que, pelo amor que tem à sua própria qualidade de vida, você participe ativamente dos destinos da sua cidade.

Tome conhecimento de quem é o mano ou a mina em que você vai depositar sua confiança e se ele ou ela é digno desse voto ou apenas um iogurte desnatado vendido pelo marketing. E se perder o timing, lembre-se que em muitas cidades haverá segundo turno, ou seja, chance renovada.

“Pô, mas política é chata demais.'' Mas não precisa ser assim, ela parece chata porque construíram ela dessa forma. Invente sua maneira de fazer política, oras, tem muita gente fazendo isso. E, principalmente, não xingue quem está travando o debate deforma educada, por mais que seja dura. Afinal de contas, a saída para contrapor uma voz não é forçar o silêncio, mas sim outra voz. O silêncio dói, machuca. O diálogo é música. Sinto um amargo na boca quando vejo pessoas que, sob o risco de verem seus argumentos naufragarem em sua própria arrogância, tentam calar o outro.

Muita gente simplesmente repete mantras que lê na internet, ouve em bares ou vê na igreja e não para para pensar se concorda ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando o outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores economicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas que se dizem progressistas, mas mostram um discurso e prática comportamentais tacanhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa, por exemplo.

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Sugiro, mais uma vez neste espaço, que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e ao questionarem o outro sobre as razões que o levam a determinada escolha, não tenha medo de colocar à prova a sua própria opção. Que se for forte o bastante, resistirá ao contato com outra ideia. Nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas nesse contato.

Por fim, quem rompe a barreira do conformismo e tenta debater política – independentemente do seu posicionamento – é taxado como chato, babaca ou subversivo. Ou seja, um mala sem alça que não entende que a cidade é um organismo autônomo que lhe presta um favor por deixar nela viver.

E ainda é obrigado a ouvir coisas do tipo: “Ignora que ele vai embora'', “Ei! Estamos numa mesa de bar e você quer conversar de política? Deixa de ser idiota!'', “Você não curtiu a foto que postei no Face da minha rosquinha no café da manhã e quer agora que eu discuta política? Você se acha, né?''

O fato é que nós não nos sentimos donos da cidade em que vivemos. Acreditamos que somos ocupantes provisórios. Caso tivéssemos essa necessária sensação de pertencimento, participaríamos realmente da vida da metrópole e perceberíamos o quão importante são dias como hoje em que decisões para os próximos quatro anos serão tomadas.

Mas a cidade, como todos sabem, não nos pertence. Entregamos ela, há muito tempo, às indústrias de automóveis, às empreiteiras e às empresas de telefonia móvel, entre outras, que sabem do que a gente realmente precisa.