Blog do Sakamoto

Teste: Estado Islâmico ou Violência Brasileira? A vida do pobre é um terror

Leonardo Sakamoto

Atentados podem ocorrer durante os Jogos Olímpicos no Rio? A probabilidade é baixa, apesar de não totalmente descartada. E o governo brasileiro, que deveria transmitir segurança, demonstra não fazer ideia do que seja terrorismo. Pelo contrário, dando publicidade desmesurada a ações que prendem grupos ou indivíduos sem provas consistentes, pode estar fomentado a ação de lobos solitários ou malucos em busca de fama.

O interessante é que sem nenhuma ação, o terror (e a incompetência diante dele) já conseguiu uma vitória ao gerar burburinho de medo.

Muita gente que nem faz ideia do que é o Estado Islâmico passou a tratar desse grupo terrorista como se ele estivesse entranhado em grandes capitais do Sudeste, como o Comando Vermelho ou o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ou que espreitasse na esquina, no bar ao lado, na tigela de sucrilhos. Como se o Brasil estivesse prestes a padecer de um surto de violência.

Por isso, proponho um rápido teste.

Diga quem foram os acusados pelos seguintes casos:

1) Um carro foi atacado com 111 disparos, matando os cinco ocupantes, jovens desarmados que tinham entre 16 e 25 anos. Alguns dos corpos ficaram irreconhecíveis.
a) Estado Islâmico
b) Policiais militares do Estado do Rio de Janeiro

2) Um massacre de 450 jovens ocorreu em pouco mais de uma semana, envolvendo forças do Estado e um grupo que se utiliza de violência armada organizada.
a) Estado Islâmico e Exército Sírio
b) Polícia do Estado de São Paulo e PCC

3) Uma juíza foi assassinada por ter ordenado a prisão de oito acusados de matar um jovem desarmado.
a) Estado Islâmico
b) Policiais do Estado do Rio de Janeiro

4) Um atirador invadiu uma escola com dois revólveres e matou 12 adolescentes, suicidando-se depois.
a) Estado Islâmico
b) Um jovem com distúrbios mentais que teria sido sofrido assédio quando mais novo no Rio de Janeiro

5) Um homem foi sequestrado por, pelo menos, 12 pessoas armadas que fazem parte da força de segurança local. Na sequência, foi torturado, morto e teve seu corpo escondido.
a) Estado Islâmico
b) Policiais militares do Estado do Rio de Janeiro

6) Sete pessoas inocentes foram mortas por 17 homens encapuzados com o objetivo de causar medo e colocar um de seus no poder. Depois, mais cinco testemunhas da matança também foram mortas.
a) Estado Islâmico
b) Milícia formado por policiais, bombeiros e ex-militares no Rio de Janeiro

7) Oito pessoas foram executadas em Mesquita, incluindo um soldado, um religioso e jovens confundidos com inimigos.
a) Estado Islâmico
b) Traficantes de drogas do Rio de Janeiro

Respostas: 1) b (Chacina de Costa Barros, 28/11/2015); 2) b (Massacre de Maio de 2006); 3) b (Assassinato de Patrícia Acioli, 11/08/2011); 4) b (Massacre do Realengo, 07/04/2011); 5) b (Caso Amarildo, julho/2013); 6) b (Chacina na comunidade do Morro do Barbante, 19/08/2008); 7) b (Chacina da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense, setembro de 2012).

De acordo com Atila Roque, diretor da Anistia Internacional no Brasil, no mês de maio deste ano, houve 40 mortes em operações oficiais da polícia do Rio de Janeiro. E esses número não envolvem outras mortes com a participação de policiais fora de serviço. “Esse total é 135% maior se compararmos com o mesmo período no ano passado'', afirma.

Se acertou todas, respire fundo. Seja por conta de grupos criminosos ou, pior, do próprio Estado que deveria protege-la, a vida do pobre sempre foi um terror por aqui.


Temer arma circo para buscar filho na escola. Fará o mesmo ao rasgar a CLT?

Leonardo Sakamoto

Um pai deve compartilhar as tarefas relativas à formação de seu filho ou sua filha. Isso é o básico, não é favor. Afinal de contas, tarefas domésticas ou familiares não são incumbência de determinado gênero, mas responsabilidade de pais e mães. Se você fica orgulhoso por “ajudar sua mulher em casa'' e acha que merece um troféu de Maridão do Ano, rapaz, acorde. Você está no século 21, não faz mais do que sua obrigação.

Dito isso, quase fundi meu cérebro tentando entender o que passou pela cabeça do presidente interino Michel Temer ao convocar a imprensa para registrar o momento em que buscou, ao lado de sua esposa, seu filho em uma escola de Brasília.

Michel e Marcela Temer buscam filho na escola (Recorte de foto de Adriano Machado/Reuters)

Michel e Marcela Temer buscam filho na escola (Recorte de foto de Adriano Machado/Reuters)

Na tentativa de melhorar sua imagem junto à população, quis demonstrar que é uma pessoa igual a todas as outras e apanhou o mancebo em seu primeiro dia de aula depois da mudança para a capital.

Mas o circo montado soou tão fake, forçado e artificial que me deu play num verso do “Canto de Ossanha'', de Vinícius de Moraes e Baden Powell: “O homem que diz 'sou' não é''. Para quem acompanhou a cobertura pela rede, ficou a impressão de que o tiro saiu pela culatra.

Isso sem contar que foi um uso um tanto quanto discutível de uma criança em uma tentativa de autopromoção. Mas para quem colocou dois imóveis utilizados como escritório que valem mais de R$ 2 milhões no nome do filho de sete anos, alegando o direito de antecipação de herança, digamos que o circo foi o de menos.

Particularmente, como assessor de comunicação, caso ele realmente quisesse insistir nesse erro, eu o aconselharia a algo menos traumático para as outras crianças e famílias da escola que não queriam aquele tipo de exposição, mas acabaram pagando o pato sem querer. Aliás, pagar pelo pato dos outros é o que mais estamos fazendo ultimamente.

Por exemplo, não chamar os colegas jornalistas e divulgar, horas depois, apenas uma foto tirada discretamente pela sua assessoria. Talvez incluindo um comentário de Michel sobre a importância de dividir as tarefas familiares em um país em que, segundo a Organização Internacional do Trabalho, homens gastam 9,5 horas semanais com afazeres domésticos, enquanto que as mulheres que trabalham dedicam 22 horas semanais para o mesmo fim.

Com isso, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado ser inferior a dos homens (36 contra 43,4 horas, em termos apenas da produção econômica), a jornada média semanal das mulheres alcança 58 horas e ultrapassa em mais de cinco horas a dos homens – 52,9 horas – somando com a jornada doméstica. Ou 20 horas a mais por mês. Ou dez dias por ano.

Isso sem falar que, quando um casal trabalha fora terceiriza o serviço doméstico, normalmente, para outra mulher, seja ela babá, faxineira ou cozinheira. E, diante da possibilidade de pagar os direitos trabalhistas a quem faz o trabalho doméstico, parte da classe média pira e diz que tudo isso é muito injusto.

No Brasil, brincar de casinha é coisa de menina.

Enquanto isso, fazer política é coisa de menino. Como o ministério de Michel, composto de homens, brancos, héteros.

Mas uma nota assim, reafirmando direitos trabalhistas, seria difícil surgir.

Porque traria à tona, além das contradições sobre a falta de equidade de gênero na Esplanada dos Ministérios, a defesa de algo que o governo já avisou que quer dilapidar – implodindo a CLT e dificultando  a aposentadoria de quem está na ativa.

Espero que quando “nosso presidente'' sancionar propostas, como a que amplia a terceirização e a que sobrepõe o negociado ao legislado mesmo em caso de perda para o trabalhador, ou a que estabelece uma idade mínima para se aposentar (que, na prática, pode excluir da Previdência Social os trabalhadores braçais pobres que morrem cedo neste país), também chame a imprensa para registrar o momento em que assinará a regressão ao passado. Será uma imagem muito mais sincera, coerente e natural que o circo armado na porta da escola.


Porque somos pobres. Só porque somos pobres

Leonardo Sakamoto

Silvandira Sotera da Cruz completou, nesta segunda (25), 35 anos. Ganhou de presente a comunidade em que morava – a ocupação Carlos Farias, na periferia da capital paulista – transformada em escombros. Cumprindo uma ordem de reintegração de posse solicitada pela Prefeitura de São Paulo, a Polícia Militar utilizou bombas de gás e balas de borracha. A justificativa é de que a área em que 350 famílias estavam era de risco. Os moradores discordam da avaliação e reclamam que não houve diálogo e nem foram garantidas alternativas para as pessoas que, agora, observam toda uma vida amontoada na rua. O ex-senador Eduardo Suplicy foi detido por protestar contra a reintegração de posse e levado para a delegacia.

Nascida em Irará (BA), Silvandira, que é representante da comunidade, trabalha como segurança e seu marido é ajudante de pedreiro.

Chorando muito, conversou comigo.

Segundo ela, foi o aniversário mais triste de sua vida.

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***

O batalhão de choque entrou com as bombas deles, machucaram as nossas pessoas como se a gente fosse bicho.

Tinha bebezinho de colo que quase sufocou com bomba de gás e foi levado pro hospital.

As crianças corriam no meio da rua.

Eles tiraram tudo. Tem gente desmaiada. A comunidade tá no chão.

Foram 350 famílias. Estamos no meio da rua, de frente pra comunidade.

Há pessoas que não tem onde ir.

Ninguém imaginava isso. Foi muito triste.

Suplicy deitou no meio da rua, para as maquinas não passarem. Ele prometeu que estaria com a gente ontem e esteve.

A gente deitou no chão para não deixar as máquinas passarem porque a gente sabia que iam derrubar todas as nossas coisas.

Mas eles arrastaram o Suplicy. Levaram ele preso.

Tem idoso que foi queimado com bomba.

Foi bala de borracha, foi gás.

Parecia que a gente era bicho.

E mataram cachorro a tiro.

Os moradores botaram fogo, fizeram barricada, para impedir a chegada de máquinas.

Quando o batalhão da polícia chegou, tudo foi destruído.

Não deram nem chance da gente falar, chegaram destruindo tudo.

O que conseguiu aproveitar, agora tá aí, no meio da rua.

Trataram gente que nem bicho.

Nossas casas de alvenaria, que levamos anos para fazer.

Eu cavei muito barro, com as minhas mãos, para fazer meus cômodos. E agora não tenho mais nada.

E a gente não é invasor, esse terreno é público, é da prefeitura.

Moradia no Brasil é direito, é direito para todos, é isso que lei diz.

Mas, todo mundo trabalha e muita gente não consegue achar uma casa para alugar com o dinheiro que ganha. Tem família com três, quatro filhos. É mais difícil ainda para eles.

Eu vou morar num quartinho com meu esposo. Mas as famílias que estão no meio da rua, sem ter onde ir. Como é que faz?

O prefeito havia prometido que não haveria reintegração. Por isso, teve gente que havia saído com medo e voltou para a comunidade.

Até agora não recebemos auxílio aluguel. Nada.

A gente soube que o juiz não cedeu de maneira alguma.

Muita gente machucada, passaram por cima das pessoas desmaiadas no chão, meu esposo veio me tirar, estavam sapateando em cima de mim.

A polícia é treinada para proteger a comunidade, eles estudaram para isso, mas eles não fazem isso. Chegaram agredindo famílias de trabalhadores.

Ninguém merece. Nem cachorro. A gente cuida de cachorro, não passa por cima.

Todas as TVs falando mentira, falando que a gente ganhou dinheiro e estava morando lá. A gente falou a verdade nas reportagens, mas até agora não passou na TV o que a gente disse.

Dia 4 de fevereiro de 2014, entramos aqui. Faz dois anos e meio.

A gente não tinha nada. Então, as pessoas foram ficando no terreno. A comunidade foi crescendo.

A gente foi chamado, foi em audiências, contratamos advogado para nos ajudar.

Nos temos uma gravação em que o Haddad prometeu, numa sala cheia, que a comunidade não iria ser despejada, mas que a gente também não ficaria no terreno. A gente seria assistido com auxilio aluguel e depois seria encaminhado para um projeto de moradia.

O laudo da defesa civil que usaram para tirar a gente, dizendo que a área da comunidade é de risco, é muito duvidoso. Tem dois laudos diferentes. Aí entramos na Justiça.

Por isso a comunidade resistiu. Por isso a comunidade não queria sair.

E a prefeitura disse que não tinha dinheiro para o muro de contenção.

Eles ainda estão aqui, os policiais. Estão com escudos fechando a comunidade.

E as pessoas que não tem para onde ir?

Porque somos pobres.

Só porque somos pobres…

Foi o aniversário mais triste da minha vida.


Temer usa a crise para dilapidar a CLT, antigo sonho do andar de cima

Leonardo Sakamoto

Crises econômicas são uma merda. Não há outra palavra para defini-las. Principalmente para quem depende única e exclusivamente de seu salário para sobreviver. Não apenas pelas demissões e o desemprego, mas por momentos de crise serem utilizados como justificativa para redução nos direitos dos trabalhadores. Ou seja, é porcaria que gera mais porcaria.

Desculpe inundar o seu domingo com essa palavra fétida, mas não vejo outro sinônimo para descrever a situação. Pois é no momento em que os vulneráveis mais precisam do Estado para terem seus direitos garantidos é que o próprio Estado, aliado a uma parte do empresariado, torna-se vetor para derrubá-los. Sem o mínimo pudor, lança um monte de purpurina dourada em cima da merda e a rebatiza de “oportunidade''.

E com o discurso de que precisa fazer mudanças profundas para garantir que o país continue viável, corta na carne alheia até o osso e além. São “sacrifícios'' necessários para que o país volte a crescer. O que não revelam é que as propostas de mudanças, como a dilapidação da CLT e o aumento no tempo de contribuição para poder se aposentar, povoam os sonhos eróticos de parte do andar de cima da sociedade há muito tempo.

O problema é que é muito difícil colocar em prática tais mudanças em épocas de vacas gordas. Já na escassez, diante do cheiro ruim da crise, fica mais fácil fazer com que a população engula qualquer groselha. Vende-se essa solução como lógica e natural a ponto de parte dos que serão diretamente afetados por essas mudanças passar a defende-las como única alternativa possível. Atuam, dessa forma, como cães de guarda do capital do outro.

Ou, no melhor estilo Nelson Rodrigues, gritam a plenos pulmões: “Perdoa-me por me traíres!''

Mas o governo – que se vende como “semeador do futuro'' quando, na verdade, age como um “mercador do passado'' – faz a egípcia e esconde que há outras medidas que poderiam ser implantadas para contribuir no ajuste das contas públicas. Da taxação de dividendos recebidos de empresas passando por ações mais eficazes no combate à sonegação, há muito o que pode ser feito para fazer com que o andar de cima também ajude a limpar essa merda. Se a culpa é, em grande parte, das decisões bizarras tomadas no governo Dilma, tendo o PMDB participado delas, muita gente ganhou rios de dinheiro nesse período com as medidas adotadas e, portanto, têm também responsabilidade.

Um pouco de isonomia por aqui cairia bem: para cada tungada contra os mais pobres, uma tungada seria feita contra os mais ricos. Sabemos que a arrecadação com a taxação de grandes fortunas e grande heranças, por exemplo, não seria tão alta quanto imagina-se num primeiro momento. Mas, pelo menos, não ficaria tão chato quanto hoje, em que você, trabalhador e trabalhadora, irá pagar o pato pelo pato dos outros sozinho.

Ou seja, na hora de “flexibilizar'' a CLT, a contraproposta poderia ser “flexibilizar'' a propriedade privada…

O simbolismo dessa medida seria suficiente para que o Estado brasileiro demonstrasse à plebe que não é vassalo de nobres empresários, seus cavaleiros midiáticos e seus bispos intelectuais.

Não temos peste, mas temos zika.

Desconfio que a Idade Média está apenas começando por aqui.


Em nome do bife: Como direitos trabalhistas são moídos na cadeia da carne

Leonardo Sakamoto

Por Piero Locatelli, da Repórter Brasil

Da fazenda ao curtume, trabalhadores ligados à JBS queixam-se do desrespeito a direitos básicos em todas as etapas da indústria da carne. Em 15 de julho, essas condições de trabalho viraram caso de polícia em Santa Catarina. Determinado pelo Ministério Público do Trabalho, o inquérito conduzido pela Polícia Federal irá investigar a submissão de trabalhadores à condição análoga a de escravo, jornadas exaustivas, lesão corporal e exposição dos funcionários a graves riscos devido às condições de um frigorífico em São José, na grande Florianópolis.

Os problemas trabalhistas não se resumem a uma ou outra etapa da produção da JBS, a maior produtora de proteína animal do mundo, que registrou lucro líquido de R$ 4,6 bilhões em 2015. A Repórter Brasil ouviu, em três estados do país, vaqueiros em fazendas, caminhoneiros da empresa, além de empregados de frigoríficos e curtumes – onde o couro dos bois é tratado. As denúncias não são restritas a violações à legislação trabalhista. Todos os entrevistados enfatizam a falta de apoio da JBS, mesmo após acidentes graves e doenças ocupacionais.

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Essa reportagem faz parte de uma investigação da Repórter Brasil sobre  a indústria da carne e do couro no Brasil. Confira novas reportagens na semana que vem.

Frigorífico
“A vida dele não tem preço”

Andreza Ventura da Silva perdeu o marido há cinco anos. Trabalhador do frigorífico da JBS em Lins, interior de São Paulo, Luís André de Oliveira morreu dentro de uma câmara fria, área de armazenamento de carnes onde a temperatura chega a -20 °C. O corpo do técnico, responsável pela manutenção de máquinas, foi encontrado esmagado por um elevador.

Logo após o acidente, a empresa se colocou à disposição de Andreza para o que fosse necessário. Durante três meses, ela recebeu cestas básicas e orientação de um psicólogo, mas a ajuda da JBS se encerrou após esse período. “Todas as vezes em que eu ligava, ou estavam viajando, ou não podiam me dar assistência, ou não podiam fazer mais nada por mim”, relembra. Desde então, ela cuida dos três filhos somente com a pensão recebida do INSS.

Inquirida sobre a história de Andreza, a JBS afirmou que “prestou todo o auxílio à família, bem como forneceu as informações necessárias para conclusão do Inquérito Policial às autoridades competentes”. A empresa não detalhou se as falhas que levaram à morte de Luís André foram solucionadas, afirmando que “investe constantemente, em todas as suas unidades, em medidas de segurança do trabalho”. (Leia a resposta da empresa)

Hoje, Andreza busca uma compensação pelos anos longe do marido. Na vila Santa Terezinha, na periferia de Lins, ela conta que ainda não quitou o pagamento da casa onde mora. Para piorar, acumulou dívidas para manter os filhos. Em dezembro de 2015, a JBS foi condenada em primeira instância a pagar R$ 66 mil a Andreza. Mas ela nem de longe considera o valor suficiente. “A vida dele não tem preço. E, se for para colocar na balança tudo que passei e passo com as crianças, isso é muito pouco”, revolta-se Andreza, que já recorreu da decisão.

Transporte
“O risco de acidente é enorme, é incalculável”

Durante 17 anos, Romero José da Costa sentou-se ao volante de um caminhão por até 20 horas por dia, de domingo a domingo. Desse período, ele guarda as memórias por todo o seu corpo: estreitamento da coluna, hérnia de disco e bico de papagaio, além da dificuldade para pegar no sono todas as noites. “Antigamente, a gente sonhava em ser motorista. Aí depois nem sobra tempo para dormir”, lembra Romero, que começou a trabalhar como motorista no grupo Bertin, carregando peças de couro entre frigoríficos, curtumes e outras unidades da empresa. Romero continuou na mesma função quando a empresa foi incorporada pela JBS, em 2009.

Além dos problemas de saúde, Romero contabiliza dois acidentes fatais como legado desse período. No primeiro deles, um ciclista surgiu à sua frente em meio à pista. No segundo, seu caminhão foi atingido por um carro, mesmo parado no acostamento da rodovia. Nos dois casos, ele não recebeu qualquer auxílio da empresa para se defender dos processos judiciais, e teve que pagar do próprio bolso as viagens por conta dos processos, além dos honorários dos advogados. “A JBS nunca me deu um litro de gasolina”, lembra Romero. “Eu não estava passeando, estava trabalhando para eles, e eles teriam que me dar um suporte”, desabafa.

Questionada sobre o relato de Romero, a JBS respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que adota um “rigoroso sistema de controle de jornada de trabalho, que propicia aferição das jornadas, das folgas e de todos os intervalos, evitando longas viagens, bem como risco à saúde e segurança do motorista e terceiros que transitam pelas estradas.” (Leia a íntegra da reposta da empresa)

Romero parou de dirigir há mais de um ano. Hoje, está “encostado” devido aos problemas de saúde. Na cidade de São Luiz de Montes Belos, interior de Goiás, ele não consegue esquecer por um momento sequer do período em que trabalhou como caminhoneiro. “É difícil até para se deitar, as dores são muito fortes. Não posso pegar peso. E tem até que saber como deitar e se levantar. Hoje, subir em um caminhão para viajar seria praticamente impossível”, lamenta.

Curtume
“A gente avisou: a máquina está com defeito. Passados três dias, aconteceu o acidente.”

Trabalhador do curtume da JBS em São Luiz de Montes Belos, interior de Goiás, Carlos Rocha Conceição até avisou seu supervisor que o sensor de movimento da máquina onde ele trabalhava estava com problemas. Três dias depois, prendeu a mão esquerda nas lâminas que separavam o couro da carne dos bois. A mutilação prejudicou para sempre os seus movimentos.

O acidente aconteceu quando ele tentava ajeitar a pele de um animal que havia travado o funcionamento de uma máquina conhecida como ‘descarnadeira’. “Eles aconselham a não deixar rasgar o couro porque é desperdício, e eu coloquei a mão para tentar desenrolar. Quando eu estava com o braço inteiro lá dentro, senti ela fechar e tirei o braço. Mas foi tarde, pegou a mão, do punho para a frente”, recorda Carlos.

Passado mais de um ano desde o acidente, ele conta que a JBS não o ajudou nem com os remédios, que ele teve de pagar do próprio bolso. Ninguém da empresa acompanhou sua recuperação. “Fiquei oito meses parado, sem fazer nada. Ninguém veio me visitar, nem para saber como é que eu estava”. Questionada pela reportagem, a JBS alega que Carlos “recebeu todo o auxílio da companhia com despesas extras ao plano de saúde, tais como exames, medicamentos, fisioterapia e deslocamentos.” (Leia a resposta da empresa)

Ainda funcionário da JBS, Carlos agora trabalha em outra máquina. Com a mesma mão mutilada pelo acidente, ele separa o rabo do couro dos animais. “Lá, na hora em que o sangue está quente, a mão não dói. Mas, na hora que você chega em casa, colega do céu, dói demais”, finaliza.

Fazenda
“Aqui só não tem o chicote na mão e o tronco para amarrar você porque a lei ainda protege. Mas, se o fazendeiro pudesse bater na gente, bateria.”

Sílvio Ricardo Oliveira e Wellington da Silva cuidam de três mil cabeças de gado em uma fazenda fornecedora da JBS em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul. “Eu acho que o nosso maior problema é o perigo. Tem que trabalhar ligado, não pode cochilar. Cochilou, o cachimbo cai”, diz Oliveira, mostrando cicatrizes no corpo herdadas de quedas de cavalos e acidentes com bois.

Wellington, o vaqueiro mais novo, conta que quebrou o pé justamente numa queda, o que o levou a ficar afastado sem receber salário ou qualquer auxílio médico. “Fiquei trinta dias parado sem receber nada. Eles põem outro no lugar e está ótimo para eles”, reclama.

Cada vaqueiro recebe mil reais por mês, salário que deve ser usado, inclusive, para a compra dos equipamentos utilizados no dia a dia, como arreio, sela, espora e chapéu. “Qualquer firma fornece uniforme, toda proteção para trabalhar. Aqui, não: você tem que tirar do seu salário”, queixa-se Wellington.

De cabeça, ele faz as contas e tenta justificar por que não seria difícil para a dona da fazenda fazer os pagamentos. Ele calcula que a fazenda comercialize cerca de 100 cabeças de boi por mês – rendimento bruto da ordem de trezentos mil reais. “E ela ainda vem falar pra gente que está falindo”, questiona.

Aos 19 anos, Wellington não pretende chegar aos 34 na fazenda, como seu colega Sílvio. “Eu tenho que trocar de profissão. Esse meio de serviço não dá mais para viver”, conclui.

Questionada sobre os dois trabalhadores, a JBS afirmou que “não tem como política fazer a verificação em campo das condições de trabalho nas fazendas, mas constantemente orienta e divulga boas práticas”. (Leia a íntegra da reposta da empresa)

Essa reportagem faz parte de uma investigação da Repórter Brasil sobre  a indústria da carne e do couro no Brasil. Confira novas reportagens na semana que vem.


O governo não faz a mínima ideia do que seja terrorismo

Leonardo Sakamoto

A menos que algum fato novo apareça, o governo brasileiro provocou um estardalhaço midiático, nesta quinta (21), pelo fato da Polícia Federal ter prendido dez zé manés suspeitos de simpatizarem com grupos terroristas.

Há quem diga que isso nos tranquiliza por mostrar que o governo é capaz de garantir a segurança e a integridade de atletas, jornalistas, visitantes e brasileiros durante os Jogos Olímpicos – a serem realizados no Rio, em agosto.

Na verdade, o que todo esse episódio mostra, e isso ficou evidente na entrevista coletiva do ministro da Justiça Alexandre de Moraes sobre o assunto, é que o país não faz a mínima ideia do que seja terrorismo. E de como combatê-lo. Mas agora vai usar o caso como carta branca para outras ações do tipo Minority Report baseadas na famigerada Lei Antiterrorismo.

Além disso, se o governo Michel Temer queria que a visibilidade de sua operação mostrasse ao mundo que estamos preparados para os Jogos (dúvida que ganhou força após o ataque que matou mais de 80 pessoas em Nice, na semana passada), o resultado pode ser o inverso.

O estardalhaço feito sobre evidências frágeis e a notoriedade dado a um grupo sem ligação comprovada com lideranças do terror tem um potencial nocivo. A divulgação gratuita obtida através de um caso como esse pode incentivar atentados reais por qualquer idiota que queira visibilidade – idiotas que podem não ter relação alguma com os fundamentalistas de sempre, mas agirem por conta própria guiados pelas ideias alheias ou por sua própria sede por sair da invisibilidade.

Se algo causa impacto, é claro que será copiado. E rapidamente, por conta da informação circulando em tempo real, seja via rádio e televisão, seja pela internet. Não estou jogando a culpa no mensageiro ou dizendo que o mimetismo é a causa das desgraças do mundo, mas temos certa parcela de responsabilidade quando transmitimos fatos acriticamente, como se notícias fossem neutras, não houvesse contexto social e todos os receptores da informação compartilhassem dos mesmos valores.

Por fim, vale sempre lembrar que podemos sofrer um ataque terrorista no Rio. É uma possibilidade. Mas, certeza mesmo, é que morremos diariamente pelas mãos do tráfico, da polícia ou da milícia. Nestes momentos, uma tristeza toma conta porque banalizamos a violência cotidiana a ponto de não render mais manchetes.

O governo usou um canhão para abater passarinho. Espero que não ajude a inflar os mesmos monstros que ele quer destruir.


Escola Sem Partido ou Como criar uma geração de zumbis

Leonardo Sakamoto

Educar por educar, passando apenas dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e o cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, sem considerar a realidade à sua volta, sem ajudá-lo a construir um senso crítico e questionador sobre o poder, seja ele vindo de tradições, corporações, religiões ou governos, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina. A um tijolo, em qual parte do muro deve permanecer.

Uma das principais funções da escola deveria ser “produzir'' pessoas pensantes e contestadoras que podem – no limite – colocar em risco a própria sociedade do jeito que a conhecemos, fazendo ruir a estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está.

Em outras palavras, educar pode significar libertar ou enquadrar. Pode ajudar às pessoas a descobrirem como quebrar suas próprias correntes ou ser o pior cativeiro possível, fazendo com que vítimas se tornem cães de guarda de seus agressores.

Que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de educação precisamos ter? Que tipo de educação um movimento como o “Escola Sem Partido'', e tantos outras propostas de fundamentalistas, quer implantar?

Veja também:
Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel
Havana Connection: “Qual o partido por trás da Escola Sem Partido?''

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Ganha quem aposta que o resultado de toda essa confusão será a contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos.

Pois, como bem disse Paulo Freire, todos somos orientados por uma base ideológica. A discussão é se a nossa é includente ou excludente. Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de “lixo'', será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus pés.

As ideologias mais violentas, inclusive, são as que se vendem com um discurso de que não são ideologias. Que se mostram como a saída “lógica'' e “natural'', sendo que não há caminhos lógicos e naturais em se tratando de humanidade. O que existe é debate. Muito debate.

Pois quando pede-se que o professor ou a escolas se omite ou é proibido de analisar o mundo sobre um ou mais pontos de vista, dizendo que isso só serve para doutrinação, a ideologia hegemônica na sociedade ocupa silenciosamente o espaço deixado. E, na prática, ensina aos jovens que tudo está bem quando, na verdade, ele desesperadoramente sente o contrário.

Em algumas sociedades, pessoas que protestam, discutem, debatem, discordam, mudam são úteis para fazer um país crescer. Por aqui, são vistas com desconfiança, chamadas de mal-educadas e vagabundas e acusadas de serem resultado de uma educação que não deu certo.

Para muita gente aqui no Brasil, bom mesmo é quando, da fornada, sai um outro tijolo para o muro, igualzinho ao anterior. E ao anterior. E ao anterior…

Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis e para lá de questionáveis.

E o futuro, aquele que nunca chega, vai ficando a cada dia mais distante.


Governo pretende ocupar bairros ricos do Rio para garantir Olimpíadas

Leonardo Sakamoto

Acho um absurdo a forma como são feitas as ocupações em bairros pobres no Rio de Janeiro com o objetivo de garantir a segurança em grandes eventos na cidade. Nelas, os direitos fundamentais são tratorados pela “tranquilidade''.

Como se um bairro inteiro fosse constituído de meliantes. Isso quando o próprio bairro não é removido em nome da especulação imobiliária, ops, das Olimpíadas.

O triste é que boa parte das classes média e alta não mexe um músculo de preocupação por conta disso. Pergunto-me, contudo, qual seria o comportamento das mesmas pessoas caso a notícia fosse o título fictício deste post. O anúncio, certamente, causaria comoção.

O Estado fortemente armado ocupando favelas tornou-se tão corriqueiro quanto o fechamento do Minhocão, em São Paulo, e de uma pista da avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, aos domingos, para o lazer. Afinal, antes a pimenta nos olhos dos outros do que nos meus.

Adotamos o pressuposto de que favelas são um risco porque nelas estão alguns indivíduos ou organizações envolvidas em violência armada organizada. Dane-se a maioria pacífica. Agimos preventivamente para evitar o pior.

Sendo que nós ajudamos a gestar essa violência ao não exigir que o Estado garantisse qualidade de vida e cidadania através de serviços básicos como educação, saúde e lazer nesses locais. Ou mesmo uma perspectiva de futuro à juventude que, dessa forma, acaba empurrada para o tráfico.

Por essa lógica, então, também podemos considerar que a presença da Força Nacional ou do Exército em bairros ricos de São Paulo, Rio, Salvador e Brasília, entre outros lugares, onde moram empresários, banqueiros e políticos que lucraram horrores com superfaturamentos e maracutais relativas à construção e realização dos jogos, poderia ser usada para estancar o desvio de bilhões dos cofres públicos. Pois dane-se a maioria honesta. Agiríamos preventivamente para evitar o pior.

Dessa forma, a gente democratiza o absurdo.

Parte das próprias forças de segurança não querem ocupar comunidades pobres, pois sabe que elas serão apontadas como responsáveis se houver problemas. E tendo em vista algumas das desastrosas ações durante a Copa do Mundo, podemos considerar que elas têm razão.

Em última instância, militares são treinados para matar. E, até onde eu saiba, em uma democracia, eles não estão em guerra com seu próprio povo. Em tese, é claro.

Na prática, o poder público utiliza os jogos para limpar o Rio das “classes indesejáveis''.

Parte da população e dos governantes apoia esse tipo de ação. Gosta de se enganar e acha que estará mais segura com o Estado agindo “em guerra'' contra a violência – como se isso não fosse, em si, um contrasenso.

Mas parafraseando o Capitão Nascimento: bota na conta dos jogos. E bora desviar a atenção de onde estão os verdadeiros problemas relacionados à Copa e às Olimpíadas: não nos morros e periferias, mas dentro dos palácios.


Pokémon Go, Banco Imobiliário e a reforma trabalhista de Temer

Leonardo Sakamoto

Quando eu jogava Banco Imobiliário e War, decidíamos mudar as regras do tabuleiro para fazer com o que a disputa andasse mais rápido. Quem já passou horas em intermináveis contendas com dados e pecinhas (sim, havia diversão antes do Pokémon Go), tentando “Conquistar a Totalidade da Ásia e da América do Sul'', sabe bem o que estou falando.

Depois, a gente cresce e percebe que o mesmo funciona para a vida real. Por exemplo, defenestrar parte da legislação que garante as condições mínimas para a compra da força de trabalho no meio do jogo é uma opção defendida para acelerar o crescimento econômico.

Como já disse aqui antes, informatizar, desburocratizar, reunir impostos e tornar mais eficiente a relação de compra e venda da força de trabalho é possível e desejável e certamente irá gerar boa economia de recursos para empresários e de tempo para trabalhadores. Desonerar a folha de pagamento em alguns itens, como diminuir a contribuição previdenciária para setores que usam grande quantidade de mão de obra é possível também. Isso sem contar que ninguém é contra sobrepor o que é negociado entre patrões e empregados/sindicatos ao que está legislado – desde que isso signifique ganhos reais para ambos os lados.

poketemer

O problema é que, por trás do discurso do “vamos avançar”, está também o desejo de tirar do Estado o papel de juiz nesse processo, deixando os competidores organizarem suas próprias regras. Quando um sindicato é forte e seus diretores não jogam golfe com os diretores das empresas, nem recebem deles mimos, ótimo, a briga é boa e é possível obter mais direitos do que aquele piso da lei. Mas, e quando não, faz-se o quê? Rezamos?

Quando alguém promete uma reforma trabalhista sem tirar direitos dos trabalhadores irá, provavelmente:

a) mudar a CLT e acrescentar direitos aos trabalhadores e tirar dos empresários (posso contar também a do papagaio que passava trote ao telefone);
b) desenvolver um novo conceito do que seja um direito trabalhista (situação em que o pintor surrealista René Magritte diria: “isto não é um cachimbo”);
c) diminuir a arrecadação do Estado junto às empresas e manter os direitos dos trabalhadores (com a nossa sanha arrecadadora e os ralos de corrupção?);
d) vai operar um milagre mais espantoso do que andar sobre as águas ou transformar água em vinho.

A sociedade mudou, a estrutura do mercado de trabalho mudou, a expectativa de vida mudou. Portanto, as regras que regem as relações trabalhistas e a Previdência Social podem e devem passar por discussões de tempos em tempos.

Ou seja, caso se encontrem pontos de convergência que não depreciem a vida dos trabalhadores, não mudem as regras do jogo no meio de uma partida sem a concordância de todos e atendam a essas mudanças, elas podem passar também por uma modernização. Tem muita coisa na CLT que passou da hora em ser alterada, mas o seu coração – impedir que o natural desequilíbrio entre trabalhador e capital não seja aprofundado – deve ser preservado.

Essa discussão não pode ser conduzida de forma autoritária ou em um curto espaço de tempo. Pois essas medidas não devem servir para salvar o caixa público, o pescoço de um governo e o rendimento das classes mais abastadas, mas a fim de readequar o país diante das transformações sociais sem tungar ainda mais o andar de baixo.

Por exemplo, falar em imposição de uma idade mínima para aposentadoria sem considerar que os mais pobres começam a trabalhar mais cedo é desconhecer a realidade – para ser polido. Em lugares com expectativa de vida menor, como o Maranhão, pelas propostas que circulam sobre as mudanças na Previdência, os aposentados não terão muito tempo para usufruir as pensões antes de morrer.

Dois projetos de lei em trâmite no Congresso Nacional, que devem contar com o apoio do governo Michel, são vistos como graves retrocessos para os direitos dos trabalhadores, podendo – sob a justificativa de “destravar'' o crescimento econômico – causar impactos na qualidade de vida de milhões de pessoas.

O primeiro legaliza a contratação de prestadoras de serviços para executarem atividades para as quais outras empresas foram constituídas (atividades-fim) e não apenas serviços secundários, como é hoje. É claro que a terceirização precisa de regras melhores no Brasil, porque muita gente fica ao relento. Mas a aprovação da terceirização da atividade-fim do jeito que propõe o projeto, dando a possibilidade de contratar por PJ praticamente qualquer função de uma empresa, pode causar sérios danos à qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras do país.

Por exemplo, se os defensores desse novo projeto topassem a terceirização da atividade-fim acrescentando a garantia de contrato coletivo de âmbito nacional para manter a responsabilidade do setor econômico para os subcontratados, a conversa seria outra. Mas daí a ampliação da terceirização não cumpriria seu objetivo que é diminuir os custos empresariais.

O segundo projeto é exatamente o que permite que convenções e acordos coletivos de trabalho negociados entre patrões e empregados prevaleçam sobre a legislação trabalhista, mesmo que isso signifique perdas aos trabalhadores. Como já disse, negociar tendo como base nosso sistema sindical, que em muitos casos serve aos interesses dos próprios sindicalistas e não dos trabalhadores, será entregar o galinheiro à raposa.

E, antes de qualquer reforma, seria importante melhorar a regulação do mercado de trabalho (aliás, regulação é algo péssimo por aqui), desenvolver a qualificação profissional de forma a gerar empregos mais sólidos, melhorar o sistema de ingresso no mercado de trabalho (o que inclui dar efetividade ao serviço nacional de intermediação de mão de obra, pois o que existe em boa parte do país é o bom e velho “gato'' intermediando) e, é claro, a redução na jornada – pleiteada pelos trabalhadores e empurrada há anos.

O cidadão deveria ter o direito de escolher um mandatário de acordo com a agenda que ele propõe para os direitos trabalhistas e previdenciários – o que não inclui Michel, cujo programa de governo não foi eleito e não será reeleito.

Infelizmente, candidatos com chance real de vitória sempre vão esconder suas reais intenções quanto a esses direitos sob medo de serem ignorados pelos eleitores. Alguns vão até mentir para chegar lá, como aconteceu. Como já disse aqui, é mais fácil arrancar sinceridades sobre antropofagia da boca de políticos do que sobre CLT e Previdência. Se bem que devorar o trabalhador enquanto ainda respira é antropofagia.


Flexibilizar a CLT? Que tal flexibilizar a propriedade privada também?

Leonardo Sakamoto

E se os discursos usados para convencer os trabalhadores que a legislação trabalhista deve ser reduzida e as regras de aposentadorias alteradas no meio do jogo fossem aplicados de uma outra forma?

“O Brasil precisa, urgentemente, da socialização dos meios de produção. Garantir que a coletividade e não indivíduos controlem indústrias, fazendas, bancos aumentará nossa competitividade e nos empurrará ao futuro.''

“Já passou da hora do país refletir seriamente a respeito da concentração do capital na mão de algumas poucas famílias.''

“Os ricos devem entender que ninguém vai mexer nos seus direitos, mas o confisco de bens ocorrerá em nome de um bem maior, do crescimento do país. Precisam compreender que, sem essas mudanças, talvez não existirá mais um país.''

“Sem uma reforma profunda que distribua a terra e crie comunas autogestionadas, o país não fará frente aos desafios do século 21.''

“A legislação que trata da propriedade privada no Brasil remonta o início do século 20. Ela precisa ser atualizada para o bem de todos.''

Alguém que vai a público professar tais discursos é, hoje, tratado como lunático, processado como incitador de violência, preso como subversivo. Afinal, está tentando acabar com a ordem estabelecida e pulverizar direitos garantidos. Tachado de “ideológico'', é relegado à latrina da sociedade. O contrário, contudo, é visto como uma surpreendente normalidade, como algo “natural'' ou “lógico''.

Não existe posicionamento sem ideologia. Nossa ideologia vai conosco para toda parte. Essa matriz de interpretação do mundo que abraçamos, consciente ou inconscientemente, diz muito sobre como vemos os fatos e o que eles significam para nós e para os outros.

Aliás, não há discurso mais ideológico do que aquele que diz que não possui ideologia. Ao tentar naturalizar relações sociais, culturais e econômicas como se fossem “naturais'' ou “lógicas'' ele está construindo, na verdade, uma complexa rede de estruturas.

Para que alguém continue ganhando e alguém continue perdendo. Para que todos achem isso normal. Ou, no limite, para que você seja tão bem doutrinado que se torne um cão de guarda daquele que te explora.

Em tempos difíceis economicamente, saídas que rifam direitos dos mais pobres e preservam os dos mais ricos (que tal aumentar impostos e taxar dividendos?) são vendidas como a única alternativa para preservar a qualidade de vida de muitos. Quando elas, por sua própria natureza, significam a proteção de poucos.

Uma discussão ampla e que envolva todos ao invés de medidas tomadas de cima para baixo seria um ato sensato. Mas a sensatez anda sumida por aqui.

Como bem disse Paulo Freire, todos são orientados por uma base ideológica. A discussão é se a sua é includente ou excludente.

Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de “lixo'' e “burro'', será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus pés.