Blog do Sakamoto

Apanhar da polícia virou rotina. Feito comprar pão

Leonardo Sakamoto

A periferia sempre apanhou da polícia e ficou por isso mesmo. Raro é encontrar um rapaz pobre e negro que nunca tenha tomado um esculacho em blitz e revistas que atacam direitos constitucionais, visando à proteção do “cidadão de bem''.

Isso quando seu cadáver não é carimbado através de um lacônico e inexplicável “auto de resistência''.

Outros grupos também sempre estiveram na mira de cacetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, como trabalhadores rurais sem-terra e indígenas. O massacre de Eldorado dos Carajás, que completa duas décadas no ano que vem, é apenas mais um caso. Afinal, no Brasil profundo a vida não vale muito.

Apanhar da polícia em manifestações urbanas tem gerado mais reclamações ultimamente. Afinal, com manifestações maiores e mais frequentes, temos mais porrada. Pelo menos naquelas que não são apoiadas pelo comando da polícia ou do governo estadual em questão.

Como saber quais são essas? Simples: aquelas que não ostentam selfies com policiais circulando na rede, por exemplo.

Com triste frequência recebo uma nota da Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (Abraji), repudiando que mais um colega foi agredido pela polícia no exercício da profissão. São dezenas de casos todos os anos.

Não raro os caos envolvem policiais que não usam identificação para não serem responsabilizados por seus atos.

O pior é que banalizamos isso de tal forma que sofrer abuso do Estado (que, ao contrário de bandidos, existe para proteger as liberdades individuais e não ataca-las) passou a ser visto como rotina. Feito comprar pão.

MAS, PELAMORDEDEUS, NÃO É!

Quem defende que a polícia está cumprindo seu papel ao abusar da violência está fora de si.

Quem ignora isso e segue em frente está entorpecido.

Mas quanto a nós, jornalistas, até pela natureza da profissão, silêncio significa conivência.

Há colegas que fazem sucesso e fortuna defendendo esse tipo de ação. Não vou perder meu tempo discutindo esses casos.

Para os demais, um pedido: se não se indignarem pela defesa da Constituição ou pela empatia com aqueles que ficaram de fora do grande butim, façam pelo menos pelo corporativismo.

Pois, amanhã, pode ser você.


“Não podemos admitir uma marcha de ‘fascistização’ da sociedade”

Leonardo Sakamoto

O surto fomentado por intolerância, falta de empatia e incompreensão do debate público nas redes sociais continua.

Uma pessoa foi agredida por estar lendo uma revista com a qual outro grupo não concordava.

Outras quase apanharam por usarem roupas com cores que se tornaram “proibidas''.

Jornalistas são agredidos no exercício da profissão.

Há aqueles que são assediados em restaurantes por quem ache que se deva institucionalizar a segregação física.

A ONU é chamada de “organização comunista'', Obama de “líder socialista'' e o PT de “partido de esquerda'' e ninguém se espanta.

Pessoas, ideias, jornais, reportagens, biscoitos, cenouras, coentro e cominho. Tudo é chamado de bolivariano agora.

“Não podemos admitir uma marcha de 'fascistização' da sociedade'', afirma o coordenador do Movimento do Trabalhadores Sem-Teto, Guilherme Boulos, durante o primeiro bloco da sétima edição do Havana Connection.

Estamos indo mesmo por esse caminho ou é exagero? Veja o vídeo, converse com os amigos, tire suas próprias conclusões.

Com mediação do jornalista, Leonardo Sakamoto, o Havana Connection conta com a participacão do coordenador do MTST, Guilherme Boulos, do deputado federal Jean Wyllys e da jornalista Laura Capriglione.


Por uma lei que obrigue políticos a “vestirem” seus doadores de campanha

Leonardo Sakamoto

Truco? Seis! A Câmara dos Deputados aprovou, na noite desta quarta (27), a previsão constitucional de doações de empresas para partidos políticos. Foram 330 a favor, 141 votos contra e uma abstenção.

Isso ocorreu após uma jogada do presidente da casa, Eduardo Cunha, inconformado com a derrota que sofreu na madrugada de quarta, quando a emenda que tornava constitucional a doação empresarial para campanhas eleitorais não foi aprovada.

Dessa forma, empresas poderão continuar doando a partidos, mas não a candidatos – que só podem receber de pessoas físicas. Mas os partidos podem doar aos seus candidatos. Portanto, empresas podem doar indiretamente a candidatos.

As doações empresariais estão na origem de vários escândalos de corrupção de políticos que querem pagar a fatura ou garantir o financiamento do próximo pleito através da aprovação de leis, favores e outros serviços.

Como muita coisa estranha tem passado nesta legislatura do Congresso Nacional, tenho uma proposta a fazer: a aprovação de uma lei para obrigar a vereadores, deputados estaduais, federais e distritais, senadores, prefeitos, governadores e presidentes a usarem, durante o serviço, roupas que estampem as logomarcas das empresas que os financiaram.

Creio que quem ocupa cargo público deve dar o exemplo e partir para a transparência radical.

E seria muito simples. É só entrar na página do Tribunal Superior Eleitoral (www.tse.jus.br), encontrar o pleito que elegeu o candidato e ver sua prestação de contas. Vamos tomar por exemplo a de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados que, segundo ele, arrecadou R$ 6.832.479,98 em 2014.

Baseado nos doadores empresariais de campanha, a vestimenta ficaria assim:

eduardo

(Rima Industrial, Vale/Mineração Corumbaense Reunidas, Ambev/CRBS, Recofarma e Rio de Janeiro Refrescos (fabricantes de Coca-Cola), Bradesco, BTG Pactual, Santander, Safra, Telemont, Líder Táxi Aéreo e Iguatemi Empresa de Shopping Centers.)

Isso significa que essas empresas planejaram coisas feias com esse político? Não. Pelo menos não necessariamente.

Em tese, o ato de doação é um indício de que o doador comunga das propostas do candidato, deseja que ele o represente politicamente, seja por suas ideias, seja por sua classe social ou quer criar com ele um vínculo por meio desse apoio em campanha. Enquanto alguns eleitos mantém apenas diálogos cordiais com os financiadores (do tipo, “obrigado, mas fiquemos a uma distância de segurança para não pegar sapinho''), outros literalmente “pagam'' através de serviços prestados. Nesse caso, não é um pagamento retroativo, mas pensando em garantir a continuidade dos recursos para a próxima eleição.

Portanto, qualquer transparência a mais seria muito bem vinda. Com isso, o cidadão poderia acompanhar o comportamento do seu representante em seus atos cotidianos ou suas votações.

Por exemplo: seria um tanto estranho alguém financiado por empresa de telecomunicações fazer de tudo para derrubar a votação do Marco Civil da Internet, não é mesmo?

E se a moda pega eles podem trocar os ternos por macacões, como aqueles da Fórmula 1.

Aprovada pela Câmara em segunda votação, a matéria seguirá para o Senado Federal, onde será analisada e votada. Se a emenda se confirmar (não há possibilidade de veto presidencial), fica assegurada a situação que existe hoje, com empresas podendo investir/doar em candidatos através dos partidos.

Então por que tanto barulho? O Supremo Tribunal Federal está julgando uma ação direta de inconstitucionalidade que pode resultar na proibição de doações por empresas. O “não'' já tem maioria, mas o ministro Gilmar Mendes pediu vistas, sentou-se em cima, o que deu tempo para Eduardo Cunha correr com a aprovação de uma emenda constitucional sobre esse tipo de financiamento.

Eduardo Cunha vai se mostrando um verdadeiro operador de milagres. Pois uma emenda morreu na madrugada de quarta e ele nem precisou esperar três dias para ressuscita-la. Na noite do mesmo dia, a emenda já estava viva novamente. Feliz, aprovada, reencarnada em outro corpo.


Presidente Joaquim Levy maltrata o povo. Sua assessora, Dilma, concorda

Leonardo Sakamoto

O presidente da República Joaquim Levy e o vice Michel Temer decretaram cortes bilionários no orçamento – que atingiram as áreas da saúde e da educação. Apesar de um aumento de impostos juntos aos bancos, quem deve mesmo sentir o peso do ajuste fiscal é o andar de baixo, ou seja, o trabalhador. A conselheira deles, Dilma Rousseff, apoia a decisão.

Com mediação do jornalista, Leonardo Sakamoto, o Havana Connection conta com a participacão do coordenador do MTST, Guilherme Boulos, do deputado federal Jean Wyllys e da jornalista Laura Capriglione.

Presidente da República Joaquim Levy, tire dos ricos, não dos pobres! (Íntegra do Havana Connection #7)

Veja o programa por bloco:
O Brasil que dá porrada por discordar
Presidente Joaquim Levy decretou cortes bilionários no orçamento. A conselheira Dilma apoia
Assassinato do ciclista no Rio: uma tragédia que esconde outras
Casamento gay: A Irlanda disse sim. No Brasil, a votação seria uma desgraça

Veja outras edições do Havana Connection:
Havana Connection #6
Havana Connection #5
Havana Connection #4
Havana Connection #3
Havana Connection #2
Havana Connection #1


E a melhor reforma política será, no final das contas, uma não-reforma

Leonardo Sakamoto

A Câmara dos Deputados rejeitou, na noite de terça (27) e na madrugada desta quarta, a mudança do sistema eleitoral do proporcional, vigente hoje, para o distrital misto e para o “distritão'', além do voto em lista fechada e a previsão constitucional do financiamento empresarial de campanhas.

Uma vez tirado o “bode da sala'' ou “cortina de fumaça'' – o sistema de “distritão'', no qual o mais votado em cada estado ou município se elegeria, sem considerar votos em partidos -, o presidente Eduardo Cunha imaginou que seria fácil a questão das doações empresariais – joia da coroa da reforma que foi estruturada por ele e pelo PMDB. Mas, surpreendentemente, a proposta não atingiu os 308 votos necessários (foram 264 a favor e 207 contra).

Deve-se creditar parte do fracasso (até agora) da proposta de reforma de Eduardo Cunha à sociedade civil e a cidadãos que militaram e bateram perna nos corredores do Congresso, mostrando que os eleitores não esqueceriam um projeto que tornasse as coisas piores do já estão. A deputados de várias agremiações e matizes, que entenderam a emenda como um problema, uma vez que o sistema brasileiro é, acertadamente, baseado em partidos políticos e em não indivíduos. Aliás, culpa-se o sistema eleitoral, mas os partidos é que são ruins.

Mas, principalmente, grande parte dos deputados federais que derrubaram a mudança optou por manter o sistema que os elegeu. O que, tendo em vista a mudança proposta, desta vez, foi bom.

Agora, a questão sobre o financiamento volta para o Supremo Tribunal Federal, que está julgando a proibição de doações de empresas. O “não'' já tem maioria, mas o ministro Gilmar Mendes pediu vistas, sentou-se em cima, o que deu tempo para Eduardo Cunha correr com a aprovação de uma emenda constitucional sobre esse tipo de financiamento. Emenda rejeitada nesta madrugada.

Com a derrota, não há mais razão para Gilmar não devolver a matéria ao plenário do STF.

Lembrando que as doações empresariais estão na origem de várias escândalos de corrupção, de políticos que querem pagar a fatura ou garantir o financiamento no próximo período através da aprovação de leis, favores e outros servicinhos.

Particularmente, ainda acho que a melhor proposta de emenda constitucional seria uma que obrigaria a vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidentes a usar, durante o serviço, paletós e tailleur com as logomarcas das empresas que os financiaram. Transparência total.

O Congresso ainda vai discutir a questão da doação para partidos (que continuariam repassando recursos para os candidatos) e do financiamento público, bem como o fim da reeleição, a unificação da eleições, entre outras propostas.

Qual reforma política? – Muitos dos jovens que foram às ruas em junho de 2013, reivindicando participar ativamente da política, não estavam pedindo a mudança do sistema eleitoral. Isso foi uma resposta escolhida pelo próprio sistema. Eles queriam mais formas de interferir diretamente nos rumos da ação política de sua cidade, estado ou país. Mas não da mesma forma que as gerações de seus pais e avós.

As mudanças em discussão no Congresso Nacional fazem sentido em um momento em que os relacionamentos sociais e a vida comunitária rompe fronteiras, gera empatias e conecta pessoas em coletividades que pouco têm a ver com o seu bairro? A política está sendo radicalmente transformada pela mudança tecnológica. Participar do rumo das coisas a cada quatro anos não será mais suficiente. Pois, em verdade, nunca foi.

O Congresso Nacional segue no sentido oposto, tentando implementar fórmulas que beneficiam os parlamentares que já estão no poder ou os que contam com currais eleitorais. E quando qualquer proposta para aumentar os instrumentos de participação popular aparece, como conselhos ligados à defesa dos direitos humanos – bandeira importantes de muitos parlamentares ligados ao PSDB e ao PT durante a redemocratização – elas são taxadas de golpes para tirar poder do Legislativo.

Senadores, deputados, vereadores, membros das esferas federal, estadual e municipal e quem sistematicamente ganha com a proximidade a eles, enfim, o grupo de poder estabelecido, tendem a não gostar da ideia de ver outros atores ganharem influência através da abertura de novos canais de participação.

Durante décadas, brigamos para a implantação de instâncias de participação popular. E, agora, que elas começam a ser discutidas em determinados espaços, ainda que de forma tímida e por conta de intensa pressão social, as propostas são congeladas por medidas em tramitação no Congresso e ações diretas de inconstitucionalidade.

Como não há mudanças, nesse sentido, no horizonte visível, o melhor, por enquanto, é garantir que a atual legislatura não piore as coisas, deixando que um Congresso futuro aprove as mudanças que o Brasil realmente precisa. E não aquelas que beneficiariam a si próprios.


Nesta noite, sonhei que Eduardo Cunha sequestrava meu busão

Leonardo Sakamoto

Gente, sonhei com o Eduardo Cunha.

Alguns não vão acreditar, mas não me importo.

Não tenho orgulho disso, não é algo que quero lembrar, nem contar para meus netos.

Mas como a gente fica o dia inteiro em cima desses assuntos, eles se transformam facilmente em sonho (ou pesadelo), ainda mais depois de um bifão ingerido pouco antes de dormir – coisa que meus amigos vegetarianos diriam que é a vingança do boi.

No pesadelo, subi num busão que ia para a Estrada do Campo Limpo (alô, ZS!). Neles, vários deputados, senadores, jornalistas, empresários, sindicalistas e outros “cidadãos de bem''.

Cochilo e, quando acordo, percebo que a bumba não estava indo para lá, mas girava em círculos em torno do Congresso. Corri até o motorista e percebi que ele havia sumido e, em seu lugar, estava Eduardo Cunha, de terno e bem alinhado. Ele anunciava em um alto falante que, ao completar sete voltas, a reforma política estaria aprovada.

No lado de fora, um border collie corria ao lado do ônibus (adoro border collies).

Desesperei e tentei encontrar uma cordinha, um botão, mas nada. Fui até ele, disse que vivíamos em uma democracia e era sua obrigação abrir a porta. Ele riu, na verdade, todo mundo riu. Nisso, minha mãe apareceu do fundo do busão e disse para eu não ser malcriado e ir sentar que o moço sabia o que estava fazendo, no que obedeci (isso, é claro, vai tomar algum tempo na terapia…)

De repente, alguém gritou no ônibus que faltava colocar o harakiri na reforma política. No que todos, aparentemente, discordaram.

Ao completar as sete voltas, ele parou. Brasília tinha voltado décadas no tempo, as avenidas eram de terra e os principais prédios ainda inacabados, em construção.

Todo mundo se abraçou e desceu do ônibus para comer naqueles carrinhos de rua que vendem salada de fruta em Brasília. Eduardo Cunha pegou uma lata de leite condensado, bebeu inteira de uma vez e se foi.

Daí apareceu uma urna eletrônica no carrinho das saladas de fruta e ele era candidato a presidente. Todos pegavam uma salada e votavam nele.

Fiquei desesperado porque não conseguia voltar para o Campo Limpo, onde meus pais moram, e decidi retornar andando.

Acordei suando feito um porco (vai, Palmeiras!) gordo. E corri para escrever o pesadelo.

Refletindo sobre o pesadelo, debrucei-me sobre o harakiri.

Nos meus anos de “nihongako'' (aquela escola de japonês que os descendentes acabam sendo obrigados a fazer quando crianças), ouvi pela primeira vez falar do harakiri – o suicídio ritual realizado para evitar ou compensar a perda da honra da família devido a uma burrada que o sujeito fez.

Uma espada é enfiada no ventre, rasgado em forma de cruz. Violento, mas esteticamente delicado.

Em 2007, o ministro da Agricultura do Japão Toshikatsu Matsuola cometeu suicídio, não com uma lâmina afiada, mas através do enforcamento. A razão são os escândalos de corrupção e mau uso de recursos públicos em que estava envolvido.

O harakiri foi muito usado após a Segunda Guerra Mundial por militares que negaram a rendição por não aguentarem ver o império que não perdia uma guerra havia mais de 2 mil anos reduzido a cinzas.

Ainda hoje, o ritual é praticado por diretores de multinacionais e outros altos postos. A discussão se isso é um ato de coragem ou de covardia é longa, por isso nem irei adentrar nessa seara.

No Brasil, o mais próximo disso talvez tenham sido os mergulhos para a morte feitos pelos investidores e barões do café do alto das sacadas de seus casarões na avenida Paulista, quando houve o crack da bolsa de Nova Iorque em 1929, e a cafeicultura viveu tempos de horror.

Mas o que aconteceria se o harakiri fosse adotado por aqui, dados os dias interessantes em que vivemos? Diante das sucessivas notícias sobre corrupção, temo que não haveria espadas (ou navalhas) suficientes para tantos empresários e políticos envolvidos nos escândalos.

No período FHC-Lula-Dilma, tivemos, por exemplo, a compra de votos de congressistas para a emenda da reeleição, o dinheiro que rolou no processo de privatização de estatais, mensalões, trensalões, sanguessugas, petrolões…

Os suicídios em massa também causariam um impacto na economia: alguns restaurantes de São Paulo, Rio e Brasília, onde negociatas são fechadas a vinhos e conhaques caros, cerrariam as portas.

Pessoalmente, acho o harakiri uma tremenda de uma besteira. Mas, para ele ocorrer por aqui, muitos dos envolvidos teriam que saber o que é vergonha e honra, o que está longe de acontecer.

Enquanto isso, o busão conduzido por Cunha vai continuar dando voltinha em torno do Congresso, para a alegria de poucos e a desgraça de uma massa que, catatônica, aplaude tudo – sonhando com os dias melhores presentes nas promessas de quem tem assento no ônibus.

Eu vou fazer a minha parte: nunca mais como muita carne antes de dormir.


Há um canto especial no inferno para quem diz “Tá com dó? Leva pra casa!”

Leonardo Sakamoto

A frase faz sucesso nas redes sociais.

É proferida ad nauseam quando o tema é a dura barra enfrentada pela gente negra, índia e parda, fedida, pobre, drogada e prostituída. É só falar da necessidade de políticas específicas que garantam qualidade de vida para esse pessoal que a abobrinha é vociferada.

Como levar para casa um dependente químico, uma pessoa em situação de rua ou uma criança em conflito com a lei vai ajudar na solução do problema? Grandes mistério da humanidade…

Bem, se você é do tipo que acha bonito aquela parábola – deveras brega, diga-se de passagem – do sujeito que, diariamente, pega estrelas-do-mar e as joga na água, achando que basta cada um fazer sua parte para o “mundo ser salvo'', você não compreende muito bem o que é política pública, ação em escala e responsabilidade coletiva. Acha que o coletivo é o somatório apenas das ações individuais, quando, na verdade, é muito mais do que isso.

Para os demais, gostaria de lembrar que criticar uma política publica serve para que o poder público respeite os direitos e dê soluções reais aos problemas e não apenas espalhe-os para que sumam da vista dos mais endinheirados. Não é uma ação isolada que vai surtir efeito com pressão, mas uma mudança de paradigma com medidas em grande escala causada por uma população consciente dos direitos de si e do outro.

Enxotar é mais fácil que implantar políticas de moradia eficazes – como uma reforma urbana que pegue as centenas de imóveis fechados para especulação e os destine a quem não tem nada. Ou repensar a política pública para usuários de drogas, hoje baseada em um tripé de punição, preconceito e exclusão e, portanto, ineficaz. Ao mesmo tempo, muitos vêem os dependentes químicos como estorvo ao invés de entender que lá há um problema de saúde pública.

Tô sim com dó. Mas não dos dependentes químicos. Muito menos da população de rua. Tô com dó dos gestores e de parte dos seus habitantes que compactuam com saídas fáceis para problemas complexos.

Até levaria todos esses “cidadãos de bem'' para casa. Mas temo não ter a quantidade de uísque e outras drogas lícitas vendidas na farmácia a que alguns desses cavalheiros e damas estão acostumados enquanto criticam o mundo de suas janelas.

Na entrada do Quinto Círculo do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Aligheri, há uma cachoeira de água e sangue borbulhante e fervente, formando um lago chamado Estige, onde estão os acusados de ir, que passam o tempo se torturando numa raiva sem fim. Quadro: Dante e e Virgílio atravessando o rio Estige, por Eugène Delacroix.

Na entrada do Quinto Círculo do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Aligheri, há uma cachoeira de água e sangue borbulhante e fervente, formando um lago chamado Estige, onde estão os acusados de ira. Eles passam a externidade se torturando, numa raiva sem fim. O quadro é “Dante e e Virgílio atravessando o rio Estige'', por Eugène Delacroix. Eu não acredito no inferno, mas fica a dica para quem tem muita raiva do mundo.

 


Você deveria ter vergonha de ter seios pequenos

Leonardo Sakamoto

O anúncio abaixo está exposto em vagões do metrô de Nova Iorque:

seios

É errado uma pessoa não se sentir à vontade com seu corpo e querer mudá-lo? Não, de maneira alguma.

Mas isso levanta uma série de questões.

Primeiro: Qual a origem da insatisfação? Ela é fruto de muita reflexão e de um processo consciente de tomada de decisão ou decorrência da imposição de um padrão de beleza bombardeado pela mídia e defendido pelo restante da sociedade?

O anúncio no vagão do metrô não está fazendo uma discussão se a pessoa é feliz ou não com seu corpo. Ele manda uma mensagem: “Puuuutz! Você tem peito pequeno! Que merda, hein? É pra ficar triste mesmo… Mas por um valor bem acessível a gente te conserta''.

O ponto é: quem disse que você está com “defeito'' para ser consertada? O problema não está em você mas em determinados atores sociais que tentam fazer com que você corra atrás de um padrão com o qual você não se identifica e, não raro, é inatingível. A menos que entre na faca. E que, ao mesmo tempo, faz com que o restante da sociedade desperte desejo por esse padrão, chamando de “étnico'', “exótico'' ou “plus size'' quem foge dele.

“Bonito'' e “Feio'' não são valores absolutos. Pelo contrário, variam de acordo com o lugar, a época e o grupo no poder. Porque a estética e desejo são sim uma questão de poder. Ou vocês nunca se perguntaram porque o modelo de beleza dominante é exatamente o da “casta'' hegemônica?

Segundo: É aceitável um vagão de metrô de uma das maiores cidades do mundo expor um anúncio dizendo que uma mulher é triste por ter seios pequenos. Mas, certamente, provocaria uma grande comoção se fosse um anúncio de “Aumente seu pênis'', dizendo que homens são tristes por não alcançarem o tamanho considerado ideal – como aqueles que circulam na internet.

Sendo que tamanho ideais, de seios, de pênis ou bundas não existem, tal como tamanhos ideais de barriga, de coxas, de nariz, de bochechas… Ideal para quem, mané?

Não é moralidade, a questão está mais embaixo. Mulheres são tratadas como objetos em uma frequência bem superior aos homens. Essa fetichização coletiva tem um nome: machismo.

Terceiro: Falamos facilmente em transformação corporal via implantação de bolsas de silicone nos seios ou redução da barriga através de cirurgia de lipoaspiração. E, por favor, não estou julgando quem faz isso. Deveríamos ter liberdade de alterar nosso corpo para nos sentirmos bem sem dar satisfação a ninguém e sem sofrer preconceito por conta disso, desde que conscientes do que significa essa mudança.

Mas a mesma tranquilidade não é garantida a quem tem certeza que nasceu em um corpo que não é o seu e, sofrendo muito por isso, deseja fazer uma cirurgia de redesignação sexual. Muitos e muitas não contam com o apoio da família e dos amigos, são alvos de piadinhas infames no trabalho e, na pior das hipóteses, podem ser constrangidos a desistir da cirurgia. Psicologicamente. Fisicamente. Até com a própria vida.

Mudanças são aceitas desde que sejam no sentido de nos aproximarmos dos padrões estéticos e comportamentais hegemônicos na sociedade. Mas repudiadas quando elas batem de frente com normas e regras tacanhas sob as quais somos obrigados a viver e que não foram acordadas democraticamente, mas jogadas de cima para baixo.

Ao ler este post, muitos dirão: “Pô, mas é apenas um anúncio! Não vejo problema algum com isso''.

E, com isso, provo o meu ponto: você pensa que é livre. Mas não é.


Se o referendo da Irlanda fosse no Brasil, o resultado provocaria vergonha

Leonardo Sakamoto

A católica Irlanda tornou-se, neste sábado (23), o primeiro país do mundo a garantir, através de referendo popular, que o casamento de duas pessoas do mesmo sexo seja previsto na Constituição.

A união civil estável já era permitida desde 2010. Agora, todos e todas terão acesso à adoção conjunta, guarda compartilhada e concessão de benefícios sociais, entre outros. Circulam na rede histórias de irlandeses que, morando fora do país, retornaram apenas para votar pelo “sim'' e ajudar a escrever a história do seu tempo.

Tomarei uma Guinness para homenagear os irlandeses. Mas também para ajudar a esquecer que, no Brasil, estamos longe de um feito assim.

Uma pesquisa Ibope, de setembro do ano passado, apontou 53% contrários à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, 40% a favor, com 7% não sabendo ou não respondendo.

Ou seja, a maioria dos brasileiros é contra duas pessoas do mesmo sexo terem o direito de constituírem família. E por quê? Por conta de suas crenças pessoais? Se for isso, o Todo Poderoso deixou claro (Levítico 11:09 e 10) que comer camarão e lagosta também é uma abominação.

No Brasil, seria diferente. Uma campanha pontual, de alguns meses, como aquelas que precedem referendos ou plebiscitos, não serviria para melhorar esses números a favor do respeito aos direitos fundamentais. Pelo contrário, tal como ocorre em anos eleitorais, a virulência da oposição do fundamentalismo religioso serviria para reduzir ainda mais o apoio à dignidade da minoria.

irlanda

Irlandeses comemorando, na capital Dublin, o resultado do referendo

Um exemplo é a questão da ampliação do direito ao aborto: ele conhece pequenos avanços fora do período eleitoral (fruto dos debates cotidianos) e perde apoio durante as eleições – quando o tema é demonizado pelo interesse político de alguns autointitulados representantes do divino na Terra. Representantes que, se houver vid após a morte, se encontrarão comigo no Sexto Círculo do inferno – o dos hereges.

Como já disse aqui um rosário de vezes: considero um risco incalculável uma maioria deliberar sobre direitos fundamentais, principalmente de minorias, em referendos e plebiscitos. A Irlanda tem uma legislação específica que leva à discussão da mudança por referendo, e tem uma população preparada para esse debate, mas imagino o que isso seria em outras bandas.

Primeiro porque, não apenas no Brasil, mas em outros países, a percepção coletiva sobre o respeito aos direitos humanos é muito frágil. E a quantidade de informação sobre o outro (de que ele não é uma ameaça) e o nível de consciência da população são, simultaneamente, muito baixos. O que é uma mistura explosiva.

Sociedades, como a nossa, pouco informadas, estruturadas em preconceitos, com medo do que é diferente e opressoras – têm sido egoísta em relação à distribuição de direitos.

Além disso, uma democracia verdadeira passa pelo respeito à vontade da maioria, desde que respeitada a dignidade das minorias. E quando digo “minoria”, não estou falando de uma questão numérica mas, sim, do nível de direitos efetivados, o que faz das mulheres uma minoria no país.

Nessa hora, ouço alguém gritar lá no fundo da sala: “Mentira! Vivemos uma ditadura gayzista e feminazi!'' O que, além de provar meu ponto, mostra a importância de pessoas serem abraçadas desde pequenas pelos pais e as consequência negativas da ausência disso.

A verdade é que os que dizem que querem governar por plebiscito no Brasil sabem o resultado que a massa irá entregar sobre certas perguntas. Daí, eles querem liberar essas perguntas para que a massa apoie o seu ponto de vista. E é por isso também que temas como “taxação de grandes fortunas ou de grandes heranças'' nunca vai a plebiscito ou referendo.

Fico minimamente aliviado que decisões do Supremo Tribunal Federal sobre a interpretação da Constituição Federal visando à garantia desses direitos não têm sido tomadas necessariamente com base em pesquisas de opinião ou para onde sopra a opinião pública em determinado momento depois de um crime bárbaro.

Pensando bem, uma Guinness vai ser pouco.


Tragédia no Rio: O rapaz matou? Mas ajudamos a pavimentar esse caminho

Leonardo Sakamoto

Nós, jornalistas, gastamos um bom tempo fazendo com que vocês, leitores, tenham uma interpretação insuficiente do mundo que os cerca.

E olha que estou falando de jornalistas que se assumem publicamente como tais e não da galera anônima, que opera no submundo das redes sociais, e que tem medo de dar a cara para bater.

A estrutura (e o tamanho) de uma notícia depende, infelizmente, da classe social ao qual pertencem os protagonistas. Os que matam e os que morrem.

Temos empatia com aqueles que reconhecemos como nossos semelhantes, com os que poderiam ser nossos primos e irmãos, e ásperos com os outros. Daí, podemos ser mais lenientes ou mais cuidadosos, a depender do caso. E como somos nós, um grupo pequeno, que fazemos a nossa democrática mídia, consciente ou inconscientemente, propagamos os preconceitos de nossas classes sociais.

Quem cometeu crimes deve, de acordo com a lei, responder por eles. Mas também devemos ser capazes, como sociedade, de impedir que esses crimes sejam cometidos – o que passa menos por um policiamento ostensivo e mais por uma presença extensiva de serviços públicos que garantam a percepção de amparo e a garantia de um mínimo de qualidade de vida.

O golpe que assassinou de forma brutal o ciclista no Rio de Janeiro pode ter partido de um rapaz de 16 anos, que não teria chegado àquele momento sozinho. Pois, se confirmada a suspeita, nós empurramos ele até lá. A sociedade tem uma parcela de responsabilidade por atos de violência como esse, bem como no caso de jovens que se tornam soldados do tráfico para matar e morrer. Na verdade, desprezamos sua existência. Até temos nojo dela, fechando o vidro de carros ao avistar um menino pobre no semáforo.

Enquanto isso, o Estado – que deveria garantir aquele quinhão de dignidade que todos têm direito por terem nascido humanos – vira as costas. E fecha verbas para educação nos estados e municípios. E reduz a torneira de recursos para áreas sociais no âmbito federal.

A excelente capa do jornal carioca Extra, desta sexta (22), colocou isso em perspectiva, fugindo da demonização fácil. O rapaz teve 15 passagens pela polícia, a primeira com 11 anos. Só viu o pai duas vezes na vida e a mãe foi indiciada por abandoná-lo com fome. Desistiu dos estudos na sexta série.

extra

Enfim, armamos a bomba e a culpamos por sua explosão.

A partir de agora, será usado como garoto-propaganda para a redução da maioridade penal (que tal maioridade penal aos 11 então?). Ficará anos em uma instituição para jovens que, por conta das condições precárias desses depósitos de gente, dificilmente será capaz de inseri-lo na sociedade como um cidadão pleno. Voltará, provavelmente, com mais raiva ainda.

Ninguém está passando a mão na cabeça do rapaz. Mas se acreditarmos em razões simplistas e bestas, como bondade e maldade, para o mundo ser essa loucura que é, estaremos garantindo que ele continue assim.

Tenho minhas dúvidas se a notícia sairia se envolvesse uma morte em um morro. Provavelmente, na hora em que o estagiário que faz a checagem das delegacias chegasse com a informação, ouviria algo assim na redação: “Pobre matando pobre? Ah, acontece todo dia, não é notícia. Além disso, é coisa deles com eles. Então, deixem que resolvam''.

rico

“Notícia: Ricos pagando ricos para dizer à classe média para culpar os pobres.''