Blog do Sakamoto

IDH: Cidadania não é ter educação e saúde. É poder comprar TV LED de 60″
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Leonardo Sakamoto

Você comprou uma TV LED de 60 polegadas e, por isso, sente-se – finalmente – no mesmo patamar dos seus vizinhos que já tinham uma em casa. Consegue se enxergar como um cidadão como nunca antes. Mas está endividado por ter que pagar o plano de saúde mequetrefe que te deixa na mão (porque subiu um pouco na vida, não é mais “pobre'' e não quer enfrentar a fila do SUS).

E, ao mesmo tempo, com a corda no pescoço pela dívida contraída com a sua faculdade caça-níqueis de qualidade duvidosa (educação básica universalizou, mas a qualidade não acompanhou). Afinal, você não tinha dinheiro para pagar um colégio particular e, portanto, não conseguiu entrar em uma universidade pública para fazer aquele sonhado curso de medicina.

Você acredita que qualidade de vida significa apenas ter acesso a eletrodomésticos, carros populares e iogurte?

De acordo com relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), nesta quinta (24), o Índice de Desenvolvimento Humano Brasil subiu (0,744) e superou a média da América Latina e Caribe. Mas o país ainda ocupa o 79º lugar no ranking mundial com 187 países. A desigualdade de renda e de oportunidades ainda impedem que avancemos mais rapidamente no acesso à saúde e à educação de qualidade – elementos considerados na construção do indicador.

Fazemos parte do seleto grupo de países ricos com altíssima concentração de riqueza e respeito insuficiente aos direitos humanos. Situação que não vai mudar tão cedo, tendo em vista que a estrutura que a sustenta muda muito lentamente. Não importa o quão forte torturemos os números, fazendo leituras descontextualizadas, para acelerar o processo.

Na média, o Brasil é um país rico. O problema é que ele continua na mão de poucos: a) O PIB sobe (mesmo que menos que o esperado) e fluiu mais para as mãos dos que puderam comprar ações do que daqueles que dependeram de salário mínimo ou de programas de distribuição de renda; b) A educação está sendo universalizada – contudo a extensão de sua abrangência não é acompanhada pela sua qualidade, nem de longe; c) Vive-se mais, mas não necessariamente melhor. Posso debater com quem discorda disso na fila de um hospital público enquanto aguardamos uma consultinha.

Quando tratamos do tema por essa ótica, sempre aparece a cantilena que “a população tem que entender que o crescimento vai beneficiar a todos. Não agora. Em algum momento''. Os economistas da ditadura falavam a mesma coisa, mas de uma forma diferente, algo como “é preciso primeiro fazer o bolo crescer, para depois distribui-lo''. Por isso, apesar de você ter ajudado a produzir o doce tira a mão dele que não é hora de você consumi-lo. Hoje, são alguns que vão comer. Vai chegar a sua vez de provar do bom e do melhor. Algum dia.

Considerando que a desigualdade social por aqui, que cai ano a ano, continua uma das altas do mundo, percebe-se o tipo de resultado dessa fórmula. O melhor de tudo é o tom professoral (“A população tem que entender''), como se o especialista fosse um ser iluminado, dirigindo-se para o povo, bruto e rude para explicar que aquilo que sentem não é fome. Mas sim sua contribuição com a geração de um superávit primário para que sejam honrados os compromissos do país. Agora, fazer uma auditoria da dívida brasileira que é bom, governo nenhum, tucano ou petista, topou fazer.

O debate sobre desenvolvimento é uma discussão sobre a qualidade de vida. Que só será efetivo caso não exclua a população mais pobre dos benefícios trazidos por ele e não seja resultado da dilapidação dessa mesma população. A pergunta que temos que fazer é: estamos conseguindo dividir o bolo, não por igual, mas com ênfase em quem mais precisa por ter sido historicamente dilapidado?

Estamos conseguindo diminuir a concentração de renda na maior velocidade possível ou poderíamos ir além e implementar medidas para que não apenas os filhos dos mais pobres usufruam de uma boa vida em um futuro distante, mas eles próprios, aqui e agora? Pois esse é o tipo de situação em que não dá para perder peões a fim de ganhar o jogo.

Você se importa com tudo isso ou se preocupa apenas em comprar um home theater para a sua TV nova?


Ministério Público aciona Justiça para banir M. Officer de São Paulo
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Leonardo Sakamoto

O Ministério Público do Trabalho ajuizou Ação Civil Pública cobrando a responsabilização da M5, empresa detentora da marca M. Officer, pelo emprego de trabalho análogo ao de escravo em sua cadeia produtiva. Além de pedir que a empresa seja condenada a pagar R$ 10 milhões (sendo R$ 7 milhões como danos morais coletivos e R$ 3 milhões pela prática do que classificam como dumping social, ou seja, a subtração de direitos trabalhistas para obter vantagens sobre os concorrentes), os procuradores pedem a aplicação da Lei Paulista de Combate à Escravidão (a lei nº 14.946/2013, também conhecida como Lei Bezerra), que prevê que as empresas condenadas por esse crime tenham o registro do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) cassado e seus proprietários fiquem impedidos por dez anos de exercer o mesmo ramo de atividade econômica ou abrir nova firma no setor no Estado de São Paulo. A matéria é de Daniel Santini, da Repórter Brasil:

Estação de trabalho em oficina que produzia para a marca. Foto: Daniel Santini/Repórter Brasil

Estação de trabalho em oficina que produzia para a marca. Foto: Daniel Santini/Repórter Brasil

Os procuradores Christiane Vieira Nogueira, Tatiana Leal Bivar Simonetti e Tiago Cavalcanti Muniz, que assinam a peça, pediram para que o valor total da indenização seja revertido para o “Fundo de Amparo ao Trabalhador ou seja convertido em bens ou serviços para reconstituição dos bens lesados”.

Em nota, a M. Officer emitiu o seguinte posicionamento sobre a ação e as acusações do MPT:

“A M5 ainda não foi notificada da ação judicial ora noticiada, pelo que está impossibilitada de se manifestar a respeito do seu teor. Ainda assim, ratifica seu posicionamento no sentido de que cumpre integralmente todas as obrigações trabalhistas que incidem sobre o exercício de suas atividades empresariais, nos exatos termos e em respeito à legislação em vigor, bem como de que não possui qualquer responsabilidade sobre os fatos ora noticiados, consoante será oportunamente demonstrado perante o Poder Judiciário''.

A ação se baseia não apenas nos dois casos em que houve libertações de oito pessoas (dois e seis trabalhadores, respectivamente), mas também em outras diligências feitas pelos procuradores em meio a inquérito para apurar infrações trabalhistas na cadeia produtiva da grife. “Fomos em outras oficinas e verificamos que a situação se repetia. E nossa conclusão é que, se visitássemos outras dez oficinas que produzem para a M. Officer, a situação seria a mesma. Nosso objetivo é mostrar ao judiciário de forma bastante clara que a escravidão não é algo excepcional na produção, mas sim parte de um sistema estabelecido”, explica a procuradora Tatiana Leal Bivar Simonetti.

Os procuradores afirmam que antes de entrar com essa ação na Justiça tentaram por diversas vezes negociar um Termo de Ajustamento de Conduta com a grife, sem sucesso. “Em momento algum eles reconheceram a situação e se esforçaram para manter um diálogo conosco. Fizemos um apelo para que, até por uma questão de solidariedade humana, mesmo sem reconhecer a responsabilidade, eles regularizassem a situação dos costureiros como outras marcas já fizeram, mas eles se recusaram a dialogar”, afirma a procuradora. “Ignoraram completamente todas as tentativas de solucionar o problema”, completa.

CPI do Trabalho Escravo – Não é a primeira ação do MPT contra a M. Officer. Após o primeiro flagrante, no qual dois trabalhadores foram resgatados, o órgão acionou a Justiça e conseguiu o bloqueio, em caráter liminar, de R$ 1 milhão para assegurar os direitos dos dois costureiros. A decisão, porém, foi cassada pelo desembargador Salvador Franco de Lima Laurino, da Seção Especializada em Dissídios Individuais 6º do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo.

Após o segundo flagrante, no qual mais seis trabalhadores foram resgatados, representantes da empresa foram convocados pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a prestar esclarecimentos. No plenário, os parlamentares fizeram um apelo para que a empresa pagasse as verbas rescisórias dos oito costureiros. A diretora de compras da M5, Rosicler Fernandes Gomes, presente na audiência, ficou de encaminhar o pedido ao presidente da empresa,Carlos Henrique Miele, mas, segundo os procuradores, isso não deu resultado.

Frente à resistência da empresa, para tentar garantir os direitos dos trabalhadores resgatados, a Defensoria Pública da União também acionou a Justiça, em procedimento separado do MPT.

Terceirização irregular - A resistência da M. Officer em assistir os costureiros está relacionada ao fato de a empresa não reconhecê-los como empregados. Todo o sistema produtivo da grife M. Officer é baseado em terceirizações e até quarteirizações, em uma cadeia de subcontratações em série considerada irregular pelo MPT e pelo Ministério do Trabalho e Emprego, cujos auditores estiveram presentes nas duas fiscalizações em que trabalhadores foram resgatados.

A ação aponta que a terceirização é irregular devido à tentativa de “desvirtuar, impedir ou fraudar uma autêntica relação de emprego e, por conseguinte, a aplicação dos direitos trabalhistas fundamentais”, e destaca que apesar de não haver a relação formal de contrato direto, a M. Officer tem o total controle da produção e do pagamento dos costureiros. “Embora os trabalhadores flagrados em situação degradante e análoga a de escravo não tenham sido diretamente contratados pela M5, estão inseridos em sua cadeia produtiva, eis que costuram peças seguindo ‘peça-piloto’ idealizada pela equipe de criação da Ré e utilizando-se de materiais (tecido, adornos, etc) fornecidos por esta”, diz o documento (baixe a Ação Civil Pública na íntegra em arquivo PDF).

“Ainda que não haja um controlador direto no ambiente produtivo, é certo que a ré promove um ‘controle de qualidade’ sobre as peças produzidas. Este controle de qualidade pode ser encarado como espécie de poder diretivo, uma vez que peça não aprovada significa peça não paga. Percebe-se, pois, a total transferência do risco do empreendimento ao trabalhador”, afirma os autores da ação.

R$ 4 por peça - Para as oficinas intermediárias, a M. Officer pagava, em média, R$ 4, valor que era então repassado com descontos às oficinas subcontratadas, que, por sua vez, pagavam um valor ainda menor aos costureiros. Como eram remunerados por produção, os empregados acabavam cumprindo jornadas exaustivas. A ação destaca que o costureiro subcontratado “trabalha até o limite de suas forças, em jornadas subumanas, como se máquinas fossem” e que “os trabalhadores, embora jovens, relataram sentir dores nas costas, coluna, olhos e juntas”.

Segundo a ação, em depoimento ao MPT a diretora Rosicler Gomes afirmou que alguns dos fornecedores contratados “chegam a quarteirizar a produção para cerca de quarenta subcontratados” e que a M. Officer acaba “priorizando os fornecedores que subcontratam, por representar custos mais baixos de produção”. Com isso, os procuradores concluem que a empresa “fechou seus olhos de forma proposital e deliberada” e ignorou “os evidentes riscos de seus produtos estarem sendo produzidos com mão de obra escrava, tudo com o fito precípuo de reduzir custos, aumentar os lucros, às custas da sonegação de direitos sociais sagrados”.

Sweating system – A procuradora Christiane Vieira Nogueira, que faz parte da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete) do MPT e também assina a ação proposta agora, destaca que a preocupação do órgão desta vez é em demonstrar que a M. Officer é responsável por empregar trabalho escravo de maneira sistemática e não apenas em episódios pontuais.

“A discussão na ação gira em torno da questão da responsabilidade por toda a cadeia produtiva e, diferentemente da maioria dos casos já conduzidos pelo MPT, não trata de pagamento de verbas rescisórias ou da situação específica dos trabalhadores resgatados das oficinas, mas aborda o modelo de produção mesmo, então, especialmente tendo em conta as dimensões do estado de São Paulo, acreditamos que poderá configurar um novo paradigma para o setor”, afirma, destacando que no chamado “sistema de suor” (do termo “sweating system, em inglês), são comuns as jornadas exaustivas, condições degradantes e exploração de trabalhadores imigrantes.

“O caso da M. Officer expõe muito bem as entranhas dessa estrutura: como as grifes têm total controle sobre a produção, determinando o modo de fazer, os modelos, realizando controle de qualidade etc., mas como buscam se afastar da responsabilidade com os trabalhadores, ou seja, o que interessa é que as peças sejam produzidas, não importando como, nem por quem”, explica, ressaltando que os procuradores tentarão utilizar a nova legislação paulista em outras ações futuras. “A Lei Bezerra é recente e esse é um dos primeiros casos posteriores à sua regulamentação.

O MPT procura utilizar todos os meios disponíveis para a erradicação do trabalho escravo e essa lei, no âmbito do estado de São Paulo, é mais um desses instrumentos. Então, é intenção da instituição sim incluir pedidos relativos à Lei nas nossas ações e exigir a sua aplicação pelos órgãos competentes”.

Segundo a procuradora Tatiana Leal Bivar Simonetti, ao pedir o banimento da M. Officer de São Paulo, o MPT pretende modificar o setor têxtil como um todo. “Sabemos que a empresa não é a única que se beneficia de trabalho escravo e isso tem que acabar”, afirma. Ela acredita que a exposição do sistema em que as roupas são produzidas, com uso sistemático de escravidão, provocará também um impacto no mercado consumidor. “Hoje as pessoas têm uma consciência social maior, buscam qualidade de vida e respeito ao meio ambiente e às pessoas. A gente escolhe uma marca por acreditar que as peças são produzidas por profissionais capacitados e bem remunerados. Explorar trabalhadores em completa vulnerabilidade social não condiz com uma grife”, defende.

A ação iniciada pelo MPT não inclui ações criminais, que são conduzidas pelo Ministério Público Federal.


A matança segue em Gaza: Ignorância não é benção. É delinquência social
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Leonardo Sakamoto

Li reclamações de leitores de jornais e sites devido a imagens fortes vindas de Gaza com civis mortos. Uns dizem que é apelação, outros sensacionalismo. Há os que fazem teses sociológicas sobre o interesse humano em ver a desgraça alheia ou em consumir imagens de sangue e vísceras.

Menino palestino se agarra a um paramédico em Gaza após bombardeio (Apa Images/REX/REX USA)

Menino palestino se agarra a um paramédico em Gaza após bombardeio (ApaImages/REX/REX USA)

Alguns disseram que é o mesmo que circular fotos dos integrantes da banda Mamonas Assassinas desfigurados após a queda de seu avião ou imagens do corpo de Ayrton Senna depois do acidente em Ímola. O que é uma tremenda de uma besteira, vinda de quem não consegue diferenciar que duas imagens esteticamente semelhantes podem ser radicalmente diferentes.

Criança palestina vítima de ataque é atendida em hospital - Emad Nassar/Al Jazeera

Criança palestina vítima de ataque é atendida em hospital – Emad Nassar/Al Jazeera

Publicadas com cuidado, por mais que doam aos olhos e mexam com o estômago e atrapalhem o jantar ou o café da manhã, certas fotos têm o poder de trazer a realidade para perto. É fácil ficar indiferente diante de números de violência, mas com rostos a situação muda de figura.

Dizer que o exército israelense matou mais de 600 pessoas, dos quais mais de 120 crianças, em Gaza é uma coisa.

Mas mostrar o corpo destroçado de um rapaz moreno, de olhos bonitos, que era marceneiro, e sua noiva, professora, que gostava de cantar de manhã é outra.

Menina grita enquanto médicos tentam ajudá-la no Hospital Al-Shifa, em Gaza. Foto: Unicef/Eyad El Baba

Menina grita enquanto médicos tentam ajudá-la no Hospital Al-Shifa, em Gaza. Foto: Unicef/Eyad El Baba

Ou ainda crianças de uma mesma família, que sempre esperavam até a noite acordadas a chegada do pai que trazia comida para casa.

Ou um motorista de uma ambulância, que tinha orgulho do seu trabalho.

O outro deixa de ser estatística, e passa a ser um semelhante, pois é feito de carne, osso e sangue e não de números.

Nesse momento, há uma aproximação, uma identificação, fundamental para empurrar os espectadores do conflito para ações – do protesto ao boicote. Seja em um massacre no Oriente Médio, em uma guerra entre grupos rivais na África ou um conflito armado em favelas de grandes cidades do país.

Médicos palestinos seguram menino que teria sido ferido em um ataque israelense (Ibraheem Abu Mustafa/Reuters)

Médicos palestinos seguram menino que teria sido ferido em um ataque israelense (Ibraheem Abu Mustafa/Reuters)

Vivemos em um mundo cuja informação se espalha em tempo real. Mesmo com essa facilidade, muitos se furtam de ter acesso a ela. E em um mundo onde a comunicação é globalizada, cresce a força e a importância de ações globalizadas pela paz.

Diante de situações extremas, como a que se vive hoje na Faixa de Gaza, fazer questão de não saber o que está acontecendo deixa de ser uma benção e passa a se configurar como uma imperdoável delinquência social. Pois como é possível cobrar ações internacionais por parte de nossos governos e empresas se fazemos questão de nos manter naquele lugar quentinho e confortável que é a ignorância?

Menina ferida em ataque israelense (Oliver Weiken/EFE)

Menina ferida em ataque israelense (Oliver Weiken/EFE)


O que podemos fazer para agilizar a volta de Jesus? Esquentar o mundo, ora!
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Leonardo Sakamoto

O mês de junho foi o mais quente registrado em todo o mundo nos últimos 134 anos. O que isso significa? Absolutamente nada. E tudo ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, você liga a televisão e, zapeando canais, descobre um debate no qual um sujeito afirma que vê com bons olhos as mudanças climáticas porque elas são sinais da vinda do Messias.

Ou seja, para ele, megatempestades, eventos extremos, extinção de espécies, desaparecimento de países-ilhas, pessoas morrendo, tudo isso faz parte de um plano maior de alguma entidade sobrenatural que brinca de Playmobil conosco. E, portanto, que temos pouca influência por ter causado tudo isso. Ou, pior: quem somos nós para irmos contra a vontade de Deus.

Bege. Fiquei bege.

Se ainda fossem aqueles pseudocientistas e seu séquito de zumbis seguidores que dizem que o clima não está mudando ou aquela parcela corporativa que ganha dinheiro carcando o mundo e para quem não existe amanhã, vá lá. Há um mínimo de racionalidade em suas ações bisonhas.

Mas dizer que o Criador (se ele existir) resolveu permitir que o mundo fosse para o brejo para cumprir interpretações questionáveis a partir de livros cheios de metáforas e, enfim, apoiar um grande cataclisma deveria ser analisado como manifestação de alguma psicopatia grave.

A declaração é da mesma escola daquela de um assessor de George W. Bush quando questionado sobre a herança deixada às próximas gerações pelos gases geradores de efeito estufa da indústria norte-americana. Não me lembro da frase exata, porque lá se vão anos, mas foi algo do tipo: “não será um problema, porque Cristo voltará antes disso”.

A beleza de viver em uma sociedade em que há livre expressão de manifestações religiosas é que eles podem dizer o que quiserem. Na verdade, não podem proferir discursos de ódio, mas muitas proferem mesmo assim e dane-se quem sofre com isso.

Portanto, vou exercer o meu direito de liberdade de expressão dizendo o seguinte:

Pessoal, se quiserem acreditar na vinda ou na volta do Messias, tudo bem. Se quiserem acreditar em forças sobrenaturais determinando o seu dia a dia, tudo bem. Se quiserem dedicar sua vida a seguir sinistros códigos de conduta religiosos e terem vergonha ao trepar por prazer, tudo bem. Se quiserem se ajoelhar antes e depois de partidas em pleno gramado de futebol e justificar seu fracasso ou sucesso pela ação do sobrenatural, tudo bem. Façam o que quiserem de suas existências.

Mas, por um acaso (e infelizmente), eu também vivo neste mundo em que vocês estão vivendo. Ou seja, quando pregam que é melhor a vida na Terra ir para o vinagre por conta de superstições hereditárias, isso afeta a minha vida também. E a de seus filhos e netos, que não têm culpa de vocês viverem nesse mundo de fantasia.

Então, controlem-se. Porque fomos os responsáveis por afetar o frágil equilíbrio climático. E somos responsáveis pelo que acontecer daqui para frente. Se vamos sofrer muito ou pouco.

Porque, a única verdade palpável, real e concreta por aqui é que vamos sofrer por termos explorado o planeta além de sua capacidade.

Um renomado cientista declarou pouco antes da cúpula do clima em Copenhague que era melhor deixar os fatos tomarem seu curso natural, o mundo aquecer, refugiados ambientais quadruplicarem, cidades nos países ricos serem invadidas pelo mar, a fome surgir no centro do mundo. Só assim pessoas e países tomariam atitudes reais. Situação que, no Brasil, é vulgarmente conhecida como “a hora em que a água bate na bunda”. O problema é que, se nada for feito até lá, quando chegarmos nesse ponto, talvez não haja mais bunda para salvar.

Apenas lamentar.

E rezar.


Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é…
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Leonardo Sakamoto

Preconceito é algo gostoso, né? Descer a ladeira na banguela da razão sem precisar usar os neurônios, falando abobrinhas sobre outras pessoas, negando os direitos mais básicos – sem, ao menos, se dar ao trabalho de conhecê-las.

Mas uma dica: preconceito tem que ser dito, repetido e aplicado com na-tu-ra-li-da-de. Diluído no dia a dia, aparece como uma forma de manter a ordem das coisas e de lembrar quem manda e quem obedece. Vira uma espécie de regra silenciosa com a qual a sociedade opera, explica-se e define-se. E, o melhor: dessa forma, todo mundo esquece como ele surgiu.

A pedidos, estou retomando e ampliando uma lista aqui já publicada. Pois cabe muita abobrinha em um “Eu não sou preconceituoso, mas…'' já que ele se tornou o novo “Amar é…'', presente naqueles livrinhos simpáticos da minha infância.

Eu não sou preconceituoso, mas baiano é fogo. Quando não faz na entrada faz na saída.

Eu não sou preconceituoso, mas eu paguei caro por isso aqui.

Eu não sou preconceituoso, mas mulher no volante é um perigo.

Eu não sou preconceituoso, mas que caráter pode ter alguém que nasceu naquela favela?

Eu não sou preconceituoso, mas tenho medo desses escurinhos mal encarados qe pedem dinheiro no semáforo.

Eu não sou preconceituoso, mas cigano é tudo vagabundo.

Eu não sou preconceituoso, mas os gays podiam não se beijar em público. Assim, eles atraem a violência para eles.

Eu não sou preconceituoso, mas acho o ó ter um terreiro de macumba na nossa rua.

Eu não sou preconceituoso, mas é aquela coisa: não estudou, vira lixeiro.

Eu não sou preconceituoso, mas não gostaria de ver minha filha casada com um negro. Não por ele, é claro, mas os filhos deles sofreriam muito preconceito.

Eu não sou preconceituoso, mas esses sem-teto são todos vagabundos.

Eu não sou preconceituoso, mas chega de terra para índio, né? Se eles ainda produzissem para o país, mas nem isso acontece.

Eu não sou preconceituoso, mas uma pessoa que não é temente a Deus, não pode ter bom coração.

Eu não sou preconceituoso, mas se a polícia prendeu é porque alguma culpa tem.

Eu não sou preconceituoso, mas esses mendigos deviam ir para a periferia onde não incomodariam ninguém.

Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é esse pessoal de esquerda. É tudo corrupto.

Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é pessoal de direita. É tudo corrupto.

Eu não sou preconceituoso, mas São Paulo é São Paulo, né amiga? Não é Fortaleza.

Eu não sou preconceituoso, mas se a mina tava vestida daquele jeito é porque era uma vagabunda e mereceu o que levou.

Eu não sou preconceituoso, mas esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária.

Eu não sou preconceituoso, mas esse shopping já foi melhor quando só aparecia gente selecionada.

Eu não sou preconceituoso, mas sobe o vidro, amor. Você não tá nos Jardins.

Eu não sou preconceituoso, mas bandido não tem conserto.

Eu não sou preconceituoso, mas o Brasil que trabalha se chama São Paulo.

Eu não sou preconceituoso, mas só fracassado fuma maconha.

Eu não sou preconceituoso, mas gente de bem não fica na rua até tarde da noite.

Eu não sou preconceituoso, mas trabalhador honesto não faz greve.

Eu não sou preconceituoso, mas esse negócio de não ter carro é coisa de hippie.

Eu não sou preconceituoso, mas vocês não acham que essas médicas cubanas têm cara de empregada doméstica?

Eu não sou preconceituoso, mas jornalista que não é imparcial não presta. Gente como o Sakamoto só fomenta o ódio.


Meu e-mail está completando 18 anos. Na prática, um diário de viagem
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Leonardo Sakamoto

Procurando uma informação há muito perdida, passei em revista quase 18 anos da minha conta de e-mail mais antiga ainda em operação.

Sim, que orgulho, meu e-mail está atingindo a maioridade.

Digo em operação porque já tive uma leonardo.moretti.sakamoto@interconnect.com.br.

a) Que e-mail gigante! Foi por medo de não ser encontrado, foi? Vocês que viveram na pré-história (a.k.a. década de 90) eram ridículos, hein?
b) Onde é que o japa comprou esse nome do meio italiano?

Sim, década de 90, época em que as salas de bate-papo das BBS faziam sucesso.

Não sabe o que é uma BBS (Bulletin Board System)? Rá! Toma essa, geração Y! O mundo digital não começou com vocês, não.

Pesquisando as mensagens guardadas, primeiro foram aquelas com convites para baladas. Depois para formaturas. Daí começaram aqueles de casamentos. Chás de bebê. Mais casamentos. Mais chás de bebê. A quantidade de chamamentos para festas de aniversários infantis cresceu na mesma proporção em que diminuiu a das baladas.

Vieram os avisos de separação. Até que, inexoráveis, começaram a chegar, de forma sistemática, os de funerais de pais e mães.

O assustador não é ver o tempo passar. É ter o tempo nos pregando peças com mensagens que parecem ter chegado naquele exato instante, mas que pertencem ao passado.

O frustrante déjà vu proporcionado por esse insólito diário de viagem serve para que a gente não se esqueça que o tempo passa.

E é mão única.


Saiu a nova lista de prisões preventivas do RJ. Veja se você está nela
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Leonardo Sakamoto

A Justiça do Estado do Rio de Janeiro determinou a prisão preventiva de 23 pessoas que seriam responsáveis por atos de vandalismo em manifestações. A lista incluía professores, estudantes, filósofos, ativistas, entre outros. A decisão atendeu a um pedido do Ministério Público baseado em inquérito policial. Todos os acusados seriam de grande periculosidade, de acordo com o o juiz responsável pelo caso.

Pesquisas indicam que parte da sociedade carioca quer que a lista se torne semanal, com sua divulgação feita a partir do Teatro Municipal e transmissão ao vivo pelas TVs. A institucionalização desses “pacotões'' de prisões preventivas teria o objetivo de garantir os direitos fundamentais da população, tolhida e aflita diante das manifestações e do que os subversivos chamam de “liberdade de expressão''.

Em um furo de reportagem, este blog obteve a próxima lista de prisões preventivas. Veja se você está nela:

Olavo Trevisan: Estudante universitário. Flagrado com publicação de histórias em quadrinhos suspeitas sob o título de “Chico Bento'', de clara inclinação maoísta. A cartilha, que ainda não foi totalmente decifrada pela inteligência da polícia, pode ter o objetivo de incitar manifestações no campo, principalmente contra os produtores de goiaba. Investigações preliminares mostram que o material também poderia ser usado para implantar uma guerrilha nos moldes da do Araguaia.

Cristiane Almeida: A meliante é responsável pelas relações públicas da quadrilha. Seu disfarce é o de professora de educação artística na Escola Municipal Água Mole Pedra Dura, na Zona Norte. Possui acesso ilimitado a produtos como tinta guache, pincel atômico e papel craft, usados na fabricação de cartazes subversivos, pregando contra a ordem e o progresso.

Dante Souto: Pipoqueiro na região central da cidade, ele foi flagrado com óleo de soja em seu carrinho. A polícia técnica indicou que a substância pode ser utilizada na elaboração de bombas incendiárias que poderiam ser lançadas contra as forças de seguranças no próximo protesto, causando baixas e prejuízos incomensuráveis.

Janaína Souza: Pessoa em situação de rua. Bêbada, balbuciou perto de um policial palavras desconexas que os peritos afirmam que podem significar um código utilizado na comunicação desse movimento. É necessário prendê-la para identificar esse código, facilitando o trabalho de prevenção às ações do grupo.

Agnaldo “Sonzeira'' Ramos: Cantor de MPB em bares subversivos, há tempos atua passando mensagens subliminares, formando de forma nefasta nossos jovens para que larguem uma vida produtiva e caiam na criminalidade. Os seus shows são, na verdade, um chamariz para as manifestações. Entre suas peças de propaganda estão “Apesar de Você'', “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores'', “Domingo no Parque'', “O Bêbado e o Equilibrista'' e, é claro, “Detalhes''.

Marcelo Gonçalves: O vendedor de biscoito Globo pediu para passar por baixo da catraca, justificando não ter dinheiro para pagar a passagem, em uma tentativa clara de convencer os demais passageiros a também subverterem as regras do coletivo. Investiga-se se ele é uma liderança do movimento que sob a justificativa de promover o “direito à mobilidade urbana'' quer, na verdade, derrubar a República.

M.F: O menor deve ser apreendido por ter empinado uma pipa sem o uso de cerol, o que é muito suspeito.

Marta Freixo: Chapeira em uma lanchonete e casa de sucos, comentou com uma amiga que as contas que chegavam mensalmente em sua residência eram uma “bomba''. O risco de que ela seja uma espécie de Unabomber da Zona Norte explica o pedido de prisão preventiva. Além disso, seu nome é também um indício de que ela tenha ligação com o conhecido deputado carioca.

Padre Chico: O sacerdote da Igreja de Nossa Senhora dos Pecados Perpétuos conclamou os fiéis a “lutarem contra as injustiças do mundo'' no que pode ser caracterizado como uma odiosa tentativa de manipulação da população através do uso da religião e um claro convite para que a congregação participasse das manifestações de rua. Ele deve ser interrogado para que dê mais informações sobre o meliante de codinomes “Jesus'' e “Cristo'' que teria sido o mentor das teses espalhadas pelo padre. A polícia – que detectou alta periculosidade em falas a ele atribuídas, principalmente as que fomentam a luta de classes – já está investigando e assim que souber o seu paradeiro, levará Jesus para averiguação.


A culpa por ser pobre e não ter estudado é totalmente sua
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Leonardo Sakamoto

A culpa por você ser pobre é totalmente sua.

A frase acima raramente traduz a verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.

Aí a gente liga a TV de manhã para acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história, nem bem são citadas.

Pra quê? No Brasil, não temos racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…

Quando resgato a história do Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”.

(Sobe música triste ao fundo ao som de violinos.)

Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Quando pequeno, brincava de esconde-esconde nas carcaças de zebus mortos por falta de brinquedos. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada, que lhe ensinou a fazer lápis a partir de carvão das árvores queimadas da Amazônia), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional.

(Violinos são substituídos por orquestra em êxtase.)

Ao ouvir um caso assim, não dá vontade de cantar: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooooooor?

Já participei de comissões julgadoras de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de muitos jurados. Afinal, esse é o brasileiro que muitos querem. Ou, melhor: é como muitos querem que seja o brasileiro.

Enfim, a moral da história é:

“Se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade, com professores bem capacitados, remunerados e respeitados, e de um contexto social e econômico que te dê tranquilidade para estudar, você é um verme nojento que merece nosso desprezo. A propósito, morra!''

Uma vez, recebi reclamações da turma ligada a ações como “Amigos do Joãozinho”. Sabe, o pessoal cheio de boa vontade genuína e sincera, mas que acredita que o problema da escola é que falta gente para pintar as paredes. Um deles me disse que acreditava na “força interior'' de cada um para superar as suas adversidades. E que histórias de superação são exemplos a serem seguidos.

Críticas anotadas e encaminhadas ao bispo, que me lembrou de que eu iria para o inferno – se o inferno existisse, é claro.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento rápido na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Todo mundo adora arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo quando eles entram em greve para garantir esse direito.

Ai, como eu detesto aquele papinho-aranha de que é possível uma boa educação com poucos recursos, usando apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de madeira de demolição, junto com esses potinhos de Yakult usados, coloco esses dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório para o ensino de química para o ensino médio!''

É possível ter boas aula sem estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso, transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó.

Pois, como sempre é bom lembrar, quem gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para guiá-lo além dos limites de sua comunidade.

“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu achei linda a história da Ritinha, do Povoado To Decastigo, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve fazer sua parte.''

Ritinha simboliza a construção de um discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam o desvio do orçamento da educação para pagamento de juros da dívida, esqueçam a incapacidade administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam o fato de que 10% do PIB para a educação está longe de sair do papel.

Joãozinho e Ritinha são alfa e ômega, os responsáveis por tudo. Pois, como todos sabemos, o Estado não deveria ter responsabilidade pela qualidade de vida dos cidadãos.

Vocês acham sinceramente que “a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou''?

Acreditam que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço?

E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta?

Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação?

Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Sabem de naaaaada, inocentes!

Como já disse aqui, uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que possam colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar – inclusive libertar para subverter.

Que tipo de educação estamos oferecendo?

Que tipo de educação precisamos ter?

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

O Joãozinho e a Ritinha acham que sim. Mas eu duvido.


Em um semáforo, um pobre e um rico pediam dinheiro
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Leonardo Sakamoto

Conversas de semáforo tendem a ser objetivas.

Por vezes, produzem pequenas poesias, quase hai cais, da urbanidade.

É este o caso narrado por um advogado ao blog.

Caso que não exclui o lirismo apesar de narrado por um advogado.

Em uma esquina movimentada de São Paulo, jovens com nomes de faculdades pintados nos rostos à guache abordavam os veículos:

- Oi, tudo bem? Você poderia me dar uma moedinha. Eu passei na faculdade.

Vendo a cena, uma pessoa em situação de rua que também fazia ponto naquele local e olhava ressabiado para a profusão de felicidade, provido de uma capacidade de sobrevivência deliciosa achegou-se enquanto o jovem ainda estava lá:

- O senhor também poderia me dar uma? Eu também passei. Passei fome, passei frio, passei necessidade…

Dar dinheiro alegremente – quiçá projetando-se no outro a fim de reviver um saudoso momento e participar de um rito comum à sua classe social.

Ou dar dinheiro de forma constrangida – por ter melhores condições em um país extremamente rico e proporcionalmente desigual, sentindo-se obrigado diante da circunstância no semáforo ou sob o efeito de sentimentos como a pena.

Qual foi o desfecho? Nem te conto.

Fica mais interessante que cada um termine a história do seu próprio jeito.

Sem falsos moralismos, importa menos a conclusão que damos ao caso do que o caminho que levamos para chegar até ela. Ou seja, não é porque você não deu a moedinha ao “playboyzinho'' e sim ao “mendigo'' que você vai para o céu. Se o céu existisse, claro.

Esse caminho diz muito sobre como imaginamos a sociedade. Mas diz mais ainda sobre quem imaginamos ser.


HIV: Jovens invencíveis vivem para sempre. Na memória dos amigos
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Leonardo Sakamoto

(Antes de mais nada: eu ficava imaginando o dia em que chamaria um grupo de pessoas de “jovens'' sem me colocar entre eles. É… O tempo passa, meus amigos…)

Um relatório das Nações Unidas apontou que as infecções por HIV aumentaram 11% entre 2005 e 2013 no Brasil. E que, em 2013, o país contabilizou 47% de todos os novos casos na América Latina.

Este texto não tem a mínima intenção de ser moralista. Até porque sou – orgulhosamente – um depravado. Mas é incrível o que a gente, como professor, escuta na mesa do bar, de orelhada nos corredores e mesmo através de bizarras pegadinhas da vida, que te transforma em vigário confessor, como se tivesse eu o poder para absolver alguém. Se o inferno existisse, eu ia para lá sem escalas.

De fato, falta diálogo e informação em algumas casas para que alguém prefira conversar com o seu professor do que com o pai ou a mãe. Vou resgatar um debate que já havia postado aqui dada a importância do tema.

Enfim, o fato é que assusta a quantidade de casos de jovens que, ainda, transam loucamente sem proteção. As justificativas são as mesmas de sempre: “não deu tempo'', “ele disse que não tem pereba nenhuma, “eu não vi nada de errado com ele'', “ela pareceu tão limpinha'', “imagina, uma mina, como ela, de família, não tem nada'', “ele não gozou dentro'' e, uma das minhas preferidas, “eu tomo pílula''.

Além do machismo idiota que cria frases como “ah, mas se eu não fizer dessa forma, ele vai me trocar por outra'', “não quero que ele pense que eu desconfio dele'' e “helloooo, o cara é o máximo! Você acha que ele vai fazer algo que me cause problemas?''.

Sim, vai sim.

Gostaria de lembrar que o sentimento de invencibilidade presente em “eu sou o pica das galáxias! Nada me atinge!'' e o velho e bom “isso acontece só com quem pega mina/mano trash'' encurta a vida e funciona como instrumento de seleção natural, inclusive. Tem o mesmo DNA presente em declarações de orgulho de macho-besta (“prefiro morrer do que deixar alguém enfiar o dedo onde não é bem-vindo!''), ou seja, nada vai me acontecer nunca porque tenho um impávido pênis.

A verdade é que jovens invencíveis vivem para sempre…na memória de seus amigos.

Descobri, recentemente, outras desculpas: as que usam justificativas de classe social e dados estatísticos com legitimidade duvidosa, como em “você sabe, a gente é de classe média alta. A incidência de HIV entre a gente é muito baixa, então não tem com que se preocupar''.

Tipo, roleta russa não pega quem tem dindim na conta bancária?

Ou os argumentos nonsense de quem parece ter vivido longe da civilização até agora: “ah, se der problema, posso abortar e se for doença é só tomar um remédio e sara'' e “HIV só pega de homem para mulher e não o contrário''.

De acordo com a pesquisa “Juventude, Comportamento e DST/Aids'' realizada pela Caixa Seguros com o acompanhamento do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde, em 2012, 40% dos jovens entrevistados não consideram o uso de camisinha um método eficaz na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez. Por isso, não é de se estranhar a tendência de crescimento de novas infecções pelo HIV em quem tem entre 15 a 29 anos. Nessa faixa, há 44,35 registros para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 20,2 para cada 100 mil.

Teoricamente, o grau de escolaridade influencia nas práticas adotadas pelos jovens. Mas o problema não reside apenas no acesso à informação, mas de como ela chega até os mais jovens. Muita coisa é percebida como “coisa chata'' e blá blá blá que não lhes dizem respeito.

Interessante, portanto, é que relatar histórias de conhecidos, com uma vida igual a deles e que contraíram o vírus, choca bem mais do que os programas de conscientização tradicional. Provavelmente porque a percepção de que isso só acontece com o “outro'', o “distante'', o “diferente'' se rompe quando o problema bate à porta. Fazer fluir essa informação, com uma troca de quem vive com a doença e quem não, é um trabalho lento, mas essencial.

Lembrando que não é fácil alguém mais jovem, que sente o mundo pulsando no peito, dar ouvidos a alguém mais velho em questões de comportamento. Sem contar a parte desta geração que foi criada pelos pais em um mundo de fantasia e “não gosta de notícias triste''.

Prevenir é fundamental. Mas vale lembrar que contrair HIV não é o fim do mundo. Conviver com a doença é difícil, mas possível, como milhares de pessoas fazem todos os dias por aqui. Duro é ter que aguentar o preconceito de uma sociedade que transforma quem carrega o vírus em pária.

“Sakamoto, deixa de ser idiota. Não existe esse tal preconceito.'' Sim, claro, concordo com vocês. Até porque temos “amigos aidéticos'' (sic) e “contaminados pela Aids'' (sic), não é mesmo? Da mesma forma que temos “amigos'' gays, negros, índios, nordestinos. (sic… ou sick)

É idiota e tosco manifestar qualquer forma de segregação a quem possui uma doença que não é contagiosa através do contato social. Pior ainda ouvir as justificativas esfarrapadas dadas por empregadores que barram uma promoção ou a contratação de alguém porque descobrem que a pessoa vive com HIV, apesar disso ser proibido por lei.

Os locais de convivência coletiva, como o trabalho e a universidade, podem ser usados para o diálogo, a acolhida e o apoio e a troca de informações.

Ou serem vetores de disseminação do medo, ajudando a manter o véu de ignorância que ainda cobre o assunto, e garantindo que a epidemia se espalhe ainda mais.