Blog do Sakamoto

Senhor, infelizmente confete não é mais permitido neste horário
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Leonardo Sakamoto

- Acabou.
– Acabou o quê, policial? A água? A luz?
– Não, acabou a folia. Já passou da meia noite e vamos estar solicitando aos cidadãos de bem retornarem ao conforto de seus lares.
– Mas já?! Hoje é carnaval, meu amigo. Tá todo mundo se divertindo, deixa disso…
– Não escrevo as regras, apenas as cumpro. E São Paulo tem regras bem claras: blocos até às 10h da noite e agitação nas ruas até meia noite.
– Mas você acha justo? Trabalho o ano inteiro numa merda de emprego, engulo o pão que o diabo amassou no transporte público e o único momento em que posso esquecer um pouco de tudo isso é o carnaval. E você quer que eu volte para casa para assistir Netflix?
– Assista o que quiser. Ordens são ordens.
– Ou seja, como já passou do horário, se eu dançar o Lepo Lepo, estarei transgredindo as regras?
– O Lepo Lepo não é permitido neste horário.
– E baleia branca? Posso fazer uma última baleia branca?
– Baleias brancas também não são permitidas neste horário.
– E um último gole de bombeirinho, eu posso?
– Bombeirinho não é mais permitido nesse horário.
– Então, façamos o seguinte: eu tenho este último confete no bolso. Vou apenas jogá-lo e depois irei embora.
– Se o senhor lançar esse confete, estará em situação de folia e, portanto, transgredindo as regras. Terei que prendê-lo, além de aplicar uma severa multa.
– Mas é um mísero con-fe-te!
– Confete não é mais permitido nesse horário.
– Semanas atrás vocês lançaram bombas dentro de uma estação de metrô para dispersar manifestantes que queriam pular a catraca.
– Isso.
– E bomba de gás numa estação fechada pode, mas confete não?
– Bem… Hum… É… Isso… Eu acho…
– Eu vou jogar.
– O senhor será responsável pela consequência de suas ações.
– Então, joga você o confete por mim.
– Eu não posso, estou em serviço.
– Vai, um confete só.
– Admito que é tentador, mas não posso.
– Ninguém tá olhando e não vou contar nada pra ninguém. E, olha: não é um confete qualquer. É um com duas cores. Um desbunde de confete…
– O senhor está me forçando a prevaricar.
– Não, estou lhe dando a chance de jogar um delicioso confete em pleno carnaval.
– Ai…
– Joga vai!

Nisso uma multidão em êxtase, que observava a cena, canta em únissono:

– Joga! Joga! Joga! Joga!

– Ahhhhhhhhhhhhh, joguei!
– E como foi.
– Foi um tesão!

E o bairro inteiro se inundou de confetes disparados pelos lançadores de bombas de efeito moral. Sprays com gás de pimenta foram trocados por latas de espuma colorida. E gás lacrimogênio deu lugar à serpentina.

A polícia inteira entrou na festa.

E o dia amanheceu feliz.


Trabalho escravo: o Brasil pode deixar de ser vitrine e virar vidraça
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Leonardo Sakamoto

Em tempos de polarização infantil, a política brasileira de combate ao trabalho escravo, que completa duas décadas neste ano, é um alento.

Criada por Fernando Henrique (que teve a coragem de reconhecer diante das Nações Unidas a persistência de formas contemporâneas de escravidão em nosso território), elevada à condição de exemplo internacional por Lula (que ampliou os mecanismos de combate a esse crime) e mantida por Dilma, ela tem sido uma política de Estado e não de governo.

Tanto que já tivemos cenas de salutar competição positiva. Em 2012, São Paulo criou uma lei para banir, por dez anos, empresas que venham a ser condenadas por esse crime. O projeto partiu de um deputado do PSDB.

No ano passado, finalmente foi aprovada no Congresso Nacional a emenda constituição número 81, que prevê o confisco de propriedades em que trabalho escravo for encontrado e sua destinação à reforma agrária ou ao uso habitacional urbano. O projeto original havia sido proposto por um deputado do PT.

Quase 50 mil pessoas foram resgatadas desde 1995. Milhões de reais em condenações e acordos trabalhistas foram pagos. Centenas de empresas aderiram ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, comprometendo-se a cortar negócios com que utiliza esse tipo de crime. Temos um Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, além de estados e municípios engajados em planos regionais. O problema deixou de ser visto apenas como algo do interior da Amazônia e ações de resgate começarem a ser realizadas em oficinas de costura e canteiros de obra no centro de grandes cidades. Programas de prevenção passaram a ser implementados envolvendo de jovens que ainda não estão em idade laboral até adultos resgatados.

O Brasil é visto como referência nos fóruns internacionais e no sistema das Nações Unidas por conta disso.

Então, guardemos bem esse momento na memória. Porque, a menos que algo mude e rápido, a vitrine irá se tornar vidraça.

Porque a política nacional de combate a esse crime está sofrendo pesados ataques de grupos que perdem dinheiro com ela. E apenas parte do governo federal está se dedicando a protege-la.

Há três projetos tramitando no Congresso Nacional para reduzir o conceito de trabalho escravo.

Hoje, são quatro elementos que podem definir escravidão contemporânea por aqui: trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes (trabalho sem dignidade alguma, que põe em rico a saúda e a vida do trabalhador) e jornada exaustiva (levar ao trabalhador ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração, também colocando em risco sua vida).

A bancada ruralista quer retirar as condições degradantes e a jornada exaustiva. Dizem que é difícil conceituar o que sejam esses elementos isso, o que gera “insegurança jurídica''.

Ao mesmo tempo, a “lista suja'' do trabalho escravo foi suspensa em decisão do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, no apagar das luzes do ano passado.

Desde 2003, esse cadastro público que reúne empregadores flagrados com esse crime pelo Ministério do Trabalho e Emprego tem sido uma das maiores ferramentas para o combate à escravidão. Ele garante ao mercado transparência e informações para que empresas nacionais e internacionais possam gerenciar os riscos de seu negócio. E, consequentemente, proteger o trabalhador.

Por uma pedido da associação das incorporadoras imobiliárias, ele está suspenso.

Por fim, caso seja aprovado do jeito em que está o projeto que regulamenta a terceirização e está tramitando no Congresso Nacional, o combate ao crime sofrerá um revés. Casos famosos de flagrantes de trabalho escravo surgiram por problemas em fornecedores ou terceirizados em que o governo federal e o Ministério Público do Trabalho puderam responsabilizar grandes empresas pelo que aconteceu na outra ponta. Consideraram que havia responsabilidade solidária por se constatar terceirização de atividade-fim.

Com o projeto aprovado, isso será mais difícil. Além do mais, os chamados “coopergatos'' (cooperativas de fachada montadas para burlar impostos) irão se multiplicar e o nível de proteção do trabalhador cair.

Considerando o perfil conservador do Congresso Nacional, há uma chance real do conceito de trabalho escravo mudar. E milhares de pessoas que, hoje, poderiam ser chamadas de escravos modernos simplesmente vão se tornar invisíveis. Vamos resolver o problema chamando-o por outro nome.

E ao contrário dos que o pensamento limitado acredita, a “lista suja'' é uma forma de proteção à nossa economia. Sem ela, governos estrangeiros interessados em erguer barreiras comerciais não tarifárias sob pretensas justificativas sociais vão ter sucesso em seu intento. No passado, vendas brasileiras já foram salvas pela “lista suja'', quando provou-se que as mercadorias não eram feitas com esse tipo de mão de obra. Sem a lista, cuidem-se exportadores.

Há setores no governo federal, em governos estaduais e municipais e em diversos partidos que têm atuado firmemente no combate a esse crime. Contudo, há outros setores que fazem corpo mole ou agem contra.

Nos corredores do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios, por exemplo, há quem defenda reservadamente que melhor seria deixar o conceito de trabalho escravo retroceder e a “lista suja'' ser derrubada porque a situação atual cria problemas para setores econômicos, como o da construção civil, que tocam obras do PAC. Ou doam recursos para campanha. Nesse sentido, o Ministério do Trabalho e Emprego acaba tendo como “inimigos'' instituições que, em tese, deveriam defendê-lo.

Isso derruba por terra uma desculpa que tem sido muito ouvida em Brasília: “ah, mas com esse Congresso, vai ser difícil''. Pois tentar e ser derrotado no voto é uma coisa. Nem tentar é outra totalmente diferente.

O interessante das conquistas sociais é que há mecanismos internacionais para que, uma vez garantidas, elas não sejam sejam retiradas. Além da vergonha global de ser visto como um país que revogou a proteção à liberdade e à dignidade de seus cidadãos, o Brasil poderá ser acionado na Organização dos Estados Americanos, na Organização Internacional do Trabalho e em uma série de outros espaços internacionais por voltar atrás. Vai ser um vexame completo para um governo que se elegeu com a plataforma de garantir direitos conquistados.

Ou seja, neste 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, não temos o que comemorar. Pelo contrário, a batalha mais importante está apenas começando.


O discurso da “meritocracia” esconde o nosso passado mal resolvido
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Leonardo Sakamoto

A palavra “meritocracia'' funciona em um debate como um coringa num jogo de buraco: quando falta carta para bater, ela aparece para salvar uma sequência incompleta. Não fica lá a coisa mais bonita do mundo, mas resolve sua vida porque todo mundo aceita que aquela carta pode preencher um vazio.

“Discordo de cotas étnicas, sociais ou por cor de pele no vestibular porque defendo a meritocracia.''

“A preferência para pessoas com deficiência em seleções de contratação é, a meu ver, um erro porque não segue a meritocracia.''

“Se vivêssemos em uma sociedade em que a meritocracia valesse algo, não haveria porcentagem mínima obrigatória de mulheres candidatas em cada partido nas eleições.''

Ela acaba passando um senso de lógica, racionalidade e Justiça que ergue o interlocutor a um patamar mais elevado dos mortais. Em suma, algo do tipo “venha, querido, não se misture com essa gentalha''.

Eu não sou contra que competência e experiência individuais sejam parâmetros de avaliação. Uma coisa é o mérito em si. Outra, um sistema de poder criado em torno dele como justificativa para manutenção do status quo.

O problema é que o uso dessa palavra como verdade suprema acaba servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás.

Achar que um estudante que comia bolachas de lama, brincava com ossinhos de zebu, andava 167 quilômetros por dia para chegar à escola e ainda trabalhava no matadouro do município para ajudar na renda da família parte com igualdade de condições com outro que frequenta uma escola com laboratórios que simulam gravidade zero e possui professores com pós-doutorado em Oxford e são remunerados à altura, que viaja para um lugar diferente todos os anos a fim de conhecer o mundo e não precisará trabalhar até o final da pós-graduação é um tanto quanto irracional.

Os dois podem chegar lá. Mas se o segundo caso cruza a linha de chegada mais vezes, o primeiro é um a cada milhão. Por isso, essas histórias são contadas e recontadas à exaustão: primeiro, nós gostamos de falar de milagres e, segundo, são histórias úteis para convencer os outros que se um consegue, todos podem.

O que não é verdade. Pois, dessa forma, jogamos a responsabilidade de erros históricos não compensados e de uma desigualdade crônica de condições nas próprias pessoas que terão que vencê-las.

Há muita gente contrária a conceder benefícios para tentar equalizar as condições de quem a sorte sorriu menos. Acreditam que a única forma de garantir Justiça é tratar desiguais como iguais e aguardar que as forças do universo façam o resto.

E esse discurso é tão bem contado que, não raro, são apoiados por pessoas que, apesar de largarem em desvantagem, venceram. “Tive uma infância muito pobre e venci mesmo assim. Se pude, todos podem.'' Parabéns para você! Mas ao invés de pensar que todos têm que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso? De vez em quando penso que, quando nos esforçamos, podemos ser bem mesquinhos.

Como não boto muita fé que o lema “Pátria Educadora'' vá resultar em melhoria do sistema educacional público, o que ajudaria a igualar um pouco as condições, e como não é possível acabar com o direito a qualquer herança (o que, hipoteticamente levaria cada geração a começar do zero, mas destruiria a sociedade como a conhecemos), o jeito é continuar apoiando medidas compensatórias e que tratam diferentes de forma diferente.

E demonstrando muito amor e paciência com quem acha que, quem não vence, é vagabundo.


Seguro-desemprego já foi. Qual a próxima mudança? A carteira assinada?
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Leonardo Sakamoto

- Seguro-desemprego
– Auxílio doença
– Pensão por morte
– Seguro defeso
– Abono salarial

Como todos sabem, o governo Dilma Rousseff anunciou regras para impor limite à concessão desses benefícios previdenciários a fim de fazer caixa e tentar fugir da crise que o próprio governo ajudou a construir. Ministros se justificam dizendo que distorções e regalias estão sendo corrigidas a fim de preservar o futuro dos trabalhadores. Conversa pra boi dormir.

Sabemos que a sociedade mudou e a estrutura do mercado de trabalho mudou, portanto, algumas regras também deveriam mudar. Mas não há receita mágica para mudanças estruturais, que deveriam vir antes dessas medidas para salvar o caixa público e o pescoço do governo. Alguns pontos que poderiam ser um começo: melhorar a regulação do mercado de trabalho, desenvolver a qualificação profissional de forma a gerar empregos mais sólidos, melhorar o sistema de ingresso no mercado de trabalho e, é claro, a redução na jornada de trabalho – pleiteada pelos trabalhadores e empurrada pelo governo com a barriga e com medo há anos

Já tratei desse assunto nos textos dos links abaixo, então não vou retomar toda a linha de raciocínio.

Leia também:
Governo muda Previdência para economizar e não ataca origem dos problemas
O governo não está pensando no trabalhador. Está querendo fazer caixa

Mas tendo em vista que o significado de algo depende do referencial de onde você olha – o que uns podem chamar de “regalia'' outros diriam que é “questão de sobrevivência''.

Por isso, fiz uma listinha:

– Carteira assinada
– Férias remuneradas
– Limite de jornada de trabalho
– Adicional insalubridade
– Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
– Previdência Social para afastamento por saúde ou aposentadoria
– Décimo terceiro salário
– Piso salarial de categoria
– Idade mínima para começar a trabalhar
– Dissídio (ah, o dissídio, que os incautos acham que vêm do nada como o leite vem da padaria, sem muita luta e disputa)
– Local de trabalho digno
– Licença maternidade
– Proibição de trabalho análogo ao de escravo.

Você que conta com essas coisinhas relacionadas acima, considera que elas são importantes, não? E muitos de vocês que não as têm (e não querem ou não conseguem ser empreendedores) sentem a falta que faz, por exemplo, uma licença-maternidade, não?

Então, fiquem de olho. E, humildemente sugiro que, ao primeiro sinal de tentarem meter a mão nesses direitos e benefícios, trabalhadores devem ganhar as ruas contra qualquer um dos Três Poderes e o setor empresarial.

Pois há ovos de serpente a eclodir. O ministro da Fazenda Joaquim Levy elogiou o projeto de lei que trata da terceirização e está tramitando no Congresso Nacional. A aprovação da terceirização da atividade-fim do jeito que propõe o projeto, dando a possibilidade de contratar por PJ praticamente qualquer função de uma empresa, pode causar sérios danos à qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras do país.

Certamente serei chamado de leviano e de comunista comedor de criancinha. Mas se alguém te dissesse que teriam a pachorra de mexer na forma como é concedido o seguro-desemprego em outubro do ano passado você acreditaria? Algo que se descobre com a política é que tudo é possível.

Informatizar, desburocratizar, reunir impostos e contribuições e tornar mais eficiente a aplicação da legislação trabalhista é possível, desejável e certamente irá gerar boa economia de recursos para empresários e governo e de tempo para trabalhadores.

E ajudará a combater os sonegadores que, por aqui, crescem maravilhosamente bem. Pois se temos grandes números girando no “impostômetro'' temos também no “sonegômetro'' que não fica atrás.

Mas o problema é que, por trás do discurso do “vamos simplificar”, estamos ouvindo hoje propostas de tirar do Estado o papel de regulador nesse processo, deixando os compradores e vendedores de força de trabalho organizarem suas próprias regras.

(Observação: o governo não tem sido um formulador e executor de políticas mas, sim, um gestor de crise. Dilma nem mais vem a público tratar do assunto e participar do debate. Então para que foi eleita?)

Quando um sindicato é forte e seus diretores não jogam golfe com os diretores das empresas nem recebem deles mimos, ótimo, a briga é boa e é possível obter mais direitos do que aquele piso da lei.

Mas, e quando não, faz-se o quê? Senta e chora?

Há mudanças importantes que podem ser feitas sem mexer na legislação trabalhista. Por exemplo, rebaixar a contribuição de trabalhadores e empregadores ao INSS, compensando com a tributação do faturamento de empresas que não são intensivas em mão de obra ou que não fazem recolhimento per capita do INSS de seus empregados, como instituições do sistema financeiro ou empresas que usam alta tecnologia.

Traduzindo o que foi escrito acima em sânscrito arcaico: quem contrata mais, deveria recolher menos à Previdência do que os que contratam menos.
Uma redistribuição dos tributos também cai bem, zerando os que recaem sobre a cesta básica e parte do vestuário, por exemplo.

Afinal de contas, o aumento da produtividade e o aumento na arrecadação devem levar à diminuição do custo de vida para o trabalhador e não ao enriquecimento de alguns através de juros.

Todo o espanto sobre as novas políticas do governo Dilma para benefícios trabalhistas pode até parecer consequência de não termos discutido claramente e sem rodeios o que os candidatos pretendiam em relação ao tema nas eleições. Mas esqueçam. Nunca algum candidato será verdadeiramente pressionado a se posicionar sobre alguns projetos concretos de interesse dos assalariados ou dos mais pobres. Ou, se for, nunca falará a verdade. “Candidatos Matrix'' desviam das balas com classe.

Assuntos como redução da jornada de trabalho, aumento geral da licença maternidade para seis meses, taxação de grandes fortunas e de heranças, correção dos índices de produtividade da terra, defesa da legislação de proteção ao meio ambiente, entre outros, são tratados como polêmica ou tabus pelas campanhas. Como se tratar disso fosse um atentado ao pudor.

Aliás, é mais fácil tratar de antropofagia em campanha eleitoral.

Se bem que devorar o trabalhador enquanto ainda respira é antropofagia.


São Paulo não é a avenida Paulista. São Paulo é a resistência na periferia
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Leonardo Sakamoto

Logo após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, José de Anchieta, com a ajuda de índios catequizados, ergueu um muro de taipa e estacas para ajudar a mantê-la “segura de todo o embate”, como descreveu o próprio jesuíta.

Os indesejados eram índios carijós e tupis, entre outros, que não haviam se convertido à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial, como na fracassada invasão de 10 de julho de 1562. Grande dia aquele.

Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Vieram os bandeirantes (cada povo tem os heróis que merece) que caçaram, mataram e escravizaram milhares de índios sertão adentro, mas também ampliaram o território brasileiro em sua busca por riquezas.

Da África foram trazidos negros, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas do interior ou o açoite de comerciantes e artesãos na capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de direito, que fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade.

Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários, em levas que não pararam até hoje, apenas mudaram de sotaque.

Apesar da frenética transformação do pequeno burgo quinhentista em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, o muro ainda existe, agora invisível. Só quem não quer enxergar vê na capital paulista uma terra em que todos têm direitos e oportunidades iguais.

Se houve melhora na maneira como a cidade trata os mais humildes, isso se deve à sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos “grandes líderes'' naufragam em tempos de chuva ou desidratam em tempos de seca.

Portanto, os símbolos de São Paulo não deveriam ser os ásperos espigões da avenida Paulista, o verde do Ibirapuera, os aromas do Mercado Municipal, os sabores dos bons restaurantes e os sons da Sala São Paulo.

São Paulo é um rapaz que nasce, negro e pobre, no extremo da periferia e, apesar de todas as probabilidades contrárias, chega à fase adulta. É um vendedor ambulante que sai de casa às 4h30 todos os dias e só volta tarde da noite, mas ainda arranja tempo para ser pai e mãe. É a jovem que, mesmo assediada no supermercado onde trabalha, não tem medo de organizar os colegas por melhores condições. É a travesti que segue de cabeça erguida na rua, sendo alvo do preconceito de “homens e mulheres de bem'', sabendo que não consegue emprego simplesmente por ser quem é.

São Paulo é resistência. Não aquela cantada em prosas e versos, da resistência dos ricos e poderosos, que com seus grandes nomes deixaram grandes feitos que podem ser lidos em grandes livros ou vistos na TV. Mas a resistência solitária e silenciosa de milhões de anônimos que não possuem cidadania plena, mas tocam a vida mesmo assim.

Se uma cidade é a soma das histórias de sua gente, então São Paulo vale a pena.

Feliz aniversário, São Paulo.


Deve ser muito ruim ser policial consciente em dia de manifestação
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Leonardo Sakamoto

Este post é sobre comportamento policial. Toda vez que toco no assunto, chovem mensagens prometendo sessões de tortura e outros afagos. Então, vou desenhar:

Assunto: Violência policial
Alertas:
1) Contém discurso sobre desmilitarização da polícia – o que não significa demissão de trabalhadores, mas a mudança na formação, nos métodos, na estrutura e nos processos internos;
2) Um dos que mais sofrem com as atuais estrutura e filosofia da polícia é o próprio policial – que ganha uma merreca e morre para defender o dos outros, acatando ordens sem sentido;
3) Policiais não são todos zumbis sem opinião que concordam em jogar os cachorros em cima da população. Esse é o comportamento de parte dos comentaristas de internet. Não raro, policiais que reclamam ou se organizam por melhores condições de trabalho e salários sofrem sanções;
4) Este post contém ironia.

Pronto, tendo explicado as intenções, vamos ao tema. Acompanhe o seguinte raciocínio comigo:

Uma multidão chega em um local, atrapalhando a ordem estabelecida das coisas, através de uma manifestação. Mesmo que o objetivo não fosse esse.

O poder instituído, seja ele qual for, acha uma ousadia isso e nega-se a entender o significado ou a conjuntura daquilo, reagindo de forma irracional, sem pensar nas consequências.

As imagens da violência policial decorrentes disso são transmitidas e repetidas à exaustão.

Determinados grupos que estavam fora da primeira ação resolvem se manifestar contra a resposta violenta do poder instituído, seja juntando-se à ação inicial, seja ressignificando-a, que passa – a partir daí – a ter contornos muito maiores que o do grupo que a começou.

Daí, aspones que fazem as funções de conselheiros reais dos mandatários interpretam a realidade como uma criança de um ano e sugerem medidas que só espalham o caldo, dando mais liberdade a quem quer descer a porrada.

De olho na audiência, muita gente, jornalistas de veículos tradicionais ou alternativos, vai retroalimentando o processo, cavando, criando.

O caso chega em Brasília, onde os políticos e aspones do governo e da oposicão reúnem-se para tratar do tema sob a ótica eleitoral.

Moral da história: multidão não dispersa com porrada. Se reproduz. É igual a tentar afastar um gremlin chato com um jato d' água.

Em São Paulo, por exemplo, foi assim, respeitando as devidas proporções e características, na porrada da marcha da maconha em 21 de maio de 2011, na porrada da manifestação do Movimento Passe Livre, em 13 de junho de 2013, na porrada no rolê dos jovens no shopping Itaquera, em 11 de janeiro de 2014, entre outras datas.

Em suma, em todos os casos, a reação da polícia foi responsável por aumentar aquilo que ela afirmava que era seu dever coibir.

Deve ser uma estratégia nova. Estratégia, em grego, strateegia, em latim, strategi, em francês, stratégie, em inglês, strategy, em alemão, strategie, em italiano, strategia, em espanhol, estrategia…

O que me leva a crer que parte da polícia e de nossos governantes gostam mesmo é de um bom fuzuê.

A manifestação contra o aumento nas tarifas de ônibus, metrô e trens, organizada pelo Movimento Passe Livre, nesta sexta (23), terminou – novamente – com a polícia tentando queimar o estoque de bombas e balas de borracha que estava provavelmente para vencer. Pessoas saíram feridas.

A justificativa é de que rojões foram lançados contra os policiais.

Fico preocupado quando ouço esse tipo de coisa. Será que a polícia paulista é tão ruim que não consegue segurar a onda por conta de meia dúzia de celerados que jogam pedras e rojões (sejam eles parte da manifestação ou infiltrados com a função de causar) sem sangrar os presentes? Isso é medo, incompetência ou má fé?

A polícia tem que ser mais fria que o cidadão em um protesto. Se a sua missão for garantir a segurança de todos, ela deveria cumprir isso evitando o confronto. Engolindo mais sapos se for necessário, afinal ela não está em guerra com a sua própria gente.

Como já disse aqui antes, policiais não são monstros alterados por radiação após testes nucleares em um atol francês no Pacífico. Não é da natureza das pessoas que decidem vestir farda (por opção ou falta dela) tornarem-se violentos. Elas aprendem. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua herança mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter o status quo.

Investido de poder para cumprir essa missão, o policial é condicionado a não ser contrariado ou atacado. Foi hostilizado por dependentes químicos? Manda bomba. Recebeu uma resposta atravessada em uma blitz? Esculacha. E manda bala sob a justificativa de ter sido atacado com um estilete.

O problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma revisão sobre o papel e os métodos da polícia em nossa sociedade. Setores da polícia estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não cumpram as regras. Outra parte sabe que a mesma sociedade está pouco se lixando para eles e suas famílias, pagando salários ridículos e cobrando para que se sacrifiquem em nome do patrimônio alheio.

Conversei com um soldado da Polícia Militar que disse detestar atuar em manifestações. Fica nervoso com provocações de alguns manifestantes, mas acha pior ainda ter que ir para cima da “criançada'', como mesmo descreveu. Para ele, isso não faz sentido.

Da mesma forma que não faz sentido o “genocídio'' dos jovens pobres e negros nas áreas pobres das grandes cidades pelas mãos do tráfico, das milícias e da polícia.

Sei que a justificativa do “estou cumprindo ordens'' não cola desde Nuremberg. Mas, neste caso, a discussão do “estou sobrevivendo'' e do “ué, mas sempre me disseram que essa era a forma correta de agir'' se entrelaçam de forma complexa. Pois, para muito policial que discorda dessa situação, a saída é sofrer sanções disciplinares ou pedir demissão.

Seria, portanto, muito fácil para mim, da classe média alta de São Paulo, dizer a eles o que deveriam ou não fazer diante desse impasse.

Mas isso não impede de cobrar a desmilitarização da polícia aos administradores públicos e responsabiliza-los pela violência estatal. Afinal, são eles que mantém uma política de controle da população valendo-se de uma massa de pessoas obrigada a aceitar ordens bizarras para não perder o emprego.

E a esconder a farda quando voltam para a periferia. Porque, em último caso, eles e elas estão sós.


Como estaremos em 50 anos, quando o planeta for pelo ralo?
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Leonardo Sakamoto

Os principais jornais do mundo têm uma coluna relembrando fatos passados há décadas. Com a ajuda de amigos, fiz um exercício inverso, de futurologia: como estaremos daqui a 50 anos tendo em vista que estamos jogando o planeta no vaso sanitário e dando descarga?

Daí alguém grita no fundo da sala: “Jesus vai voltar antes!'' E o grito nem seria inédito, porque um assessor do então presidente George W. Bush também disse isso quando inquirido sobre mudanças climáticas. Mas vamos supor, apenas supor, que Deus não exista. Ou, se existir, que tenha nos deixado o livre-arbítrio exatamente para colhermos os frutos de nossa própria loucura. Como disse o sábio de barba (neste caso Marx, não Jesus), a história se repete, a primeira vez como tragédia e, depois, como farsa.

Você que está preocupado com a falta de água em São Paulo, no Rio ou em outras cidades saiba uma coisa: já era. Pode ser que a escassez não venha agora – apesar de nossos governantes se esforçarem pacas para que isso aconteça através de sua inação. Mas algum dia ela virá.

O que não dá para prever é qual será a reação de nossos netos. Certamente vão culpar a nós, pelo que fizemos e o que deixamos de fazer, pelo nosso consumismo idiota, pela ganância desmesurada, pela incompetência política, pelas falsas soluções, pelas grandes conferências que, ao final das contas, serviram mais para turismo e negócios vazios do que para resolver problemas.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS DE 2065

Cotidiano – São Paulo
A prefeitura da megalópole de São Paulo-Campinas fará, neste domingo, um show para comemorar a retirada da última carcaça de automóvel do Grande Congestionamento de 2042. Na ocasião, o trânsito da capital paulista travou por 24 horas. Os motoristas abandonaram seus carros e a prefeitura considerou que seria mais simples depositar concreto sobre eles, construindo vias expressas mais modernas e tirando 8 milhões de carros de circulação. Com o esgotamento da mina de Carajás em 2060, a multinacional Vavert (Vale-Anglo- Rio Tinto Inc.) decidiu por comprar do governo municipal o aço dos automóveis, refazendo as vias originais e rebaixando a cidade em 1,5 m. As escavações encontraram restos do que parecem ser arcaicos veículos de transporte do início do século 21 que os moradores daquele tempo chamavam de “bicicleta'' e que, após tentativas de convivência mútua, foram proibidas de circular por criarem constrangimento aos motoristas.

Cotidiano – Rio de Janeiro
A prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou ontem o Aquário de Copacabana, com um show de João Gilberto, que mostrou ainda ter vigor e reclamou do retorno do som. O Aquário foi construído com a substituição das barreiras de contenção da orla, que eram de concreto, por mais modernas, de vidro – tornando possível ver o fundo do mar a partir da Avenida Atlântica. A antiga barreira fora colocada em 2051 após o nível do oceano subir devido ao derretimento acelerado das calotas polares e a ressaca atingir o salão de festas principal do hotel Copacabana Palace.

Internacional
Uma cerimônia em Pequim celebrou os dez anos da parceria estratégica “Lixo por Comida'' no qual os países da região do Saara recebem o lixo produzido na China em troca da oportunidade oferecida aos cidadãos da região de vasculhar restos de alimentos nos contâiners e usarem a sucata para os mais diversos utensílios. O Saara é o último grande depósito terrestre vago de lixo no planeta depois que lixo tóxico vazou e tornou boa parte da Antártida proibida para humanos. O custo mais baixo de despejar resíduos no deserto africano manteve uma vantagem produtiva para as empresas sediadas na China após o espaço do deserto de Gobi ter se esgotado. Na semana passada, a megalópole de São Paulo-Campinas fechou acordo semelhante com a prefeitura de Gilbués, no Piauí.

Economia
O governo federal declarou, em nota, que irá zerar a alíquota para importação de verduras, legumes e frutas tropicais vindos da Patagônia e da Rússia. O objetivo é diminuir a pressão inflacionária causado pelo aumento dos preços cobrados por esses produtos desde a drástica redução de oferta no Sudeste com o fim das chuvas naturais. A aposta de que as espécies geneticamente modificadas conseguiriam se adaptar a um ambiente mais seco pós-colapso do clima não se cumpriu. Os produtores de soja da região de Mogi das Cruzes, que haviam comprado as pequenas propriedades rurais do antigo cinturão verdade da capital paulista, quando o clima se alterou drasticamente, pedem que o governo financie a transposição e a dessalinização da água do mar para irrigação.

Política
1
Começa na próxima quinta (21), o leilão de matrizes de nelore em Altamira, o mais importante do país. Os pecuaristas prometem fazer barulho e levar seus tratores e colheitadeiras para fechar os pedágios da rodovia Transamazônica. Na pauta de exigências está a concessão gratuita dos últimos trechos disponíveis da Floresta Nacional do Tapajós. As autoridades do Estado de Tapajós querem igual tratamento para seus produtores que o recebido pelo Estado de Carajás, quando os últimos remanescentes indígenas foram indenizados pelo governo federal para deixarem suas reservas – hoje distribuídas entre os produtores de grãos de São Félix do Xingu. Reclamam que foi exatamente por conta dessa “discriminação” que eles se desmembraram do Estado do Pará em 2021. O MST promete uma marcha para Brasília no mesmo dia.

Política 2
Um grupo de refugiados ambientais do Tocantins, que estão acampados na Praça dos Três Poderes, depredaram a estátua da ex-presidente Kátia Abreu. Desde que foi inaugurada, em 2032, a estátua teve que ser reposta 1.265 vezes.

Cultura
O governador do Estado do Mato Grosso do Sul inaugurou, na última terça, o Museu do Pantanal. O complexo de edifícios, construído em Corumbá, traz exemplares de pássaros e roedores empalhados que viviam na região e uma extensa coleção de sementes. Um mapa dos limites do Pantanal antes e depois do seu fim mostra o resultado do impacto do agronegócio nas cabeceiras da região. A construção do museu, produzido com tecnologia ambientalmente responsável, só foi possível graças a uma parceria com a federação estadual das usinas de etanol. A entrada para adultos custa 45 yuans.


Imagina se esse negócio de chicotear blogueiro colasse por aqui?
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Leonardo Sakamoto

Por criticar autoridades religiosas, o blogueiro Raif Badawi foi condenado a dez anos de prisão e a 50 chibatadas por semana durante 20 semanas no ultraconservador reino da Arábia Saudita.

Ele já levou 50, no último dia 9, e espera-se que as costas cicatrizem para poder levar as próximas 50. A repercussão internacional foi tão ruim que o país está reavaliando a pena.

Após ler isso, três sentimentos: solidariedade ao blogueiro, raiva de todos os fundamentalismos e um certo alívio porque lá não é aqui.

Mas o discurso de ódio por aqui cresce, faz escola e fragiliza a liberdade de expressão.

Não são políticos fanfarrônicos, pastores e padres macarrônicos e comunicadores histriônicos que vão executar o ódio que tanto propagam. Não é a mão deles que segura a faca ou o revólver, mas é a sobreposicão de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais.

Ou, melhor dizendo, “necessários'', quase uma missão pelo reestabelecimento da civilização.

Eles alimentam lentamente a intolerância e o ódio, que depois serão consumidos pelos malucos sem freio que fazem o serviço sujo.

Matamos dois jornalistas no ano passado – Santiago Andrade, atingido por um foguete em uma manifestação no Rio, e Pedro Palma, executado na porta de casa, em Miguel Pereira (RJ). Fora as outras ameaças e agressões por parte da polícia, do crime, de empresas e de quem quer que não goste muito de imprensa livre.

Neste último ano, aumentou o número de ameaças que recebo. Além disso, acabei ralando em treinos de modalidades como Desvio de Cusparada Olímpica ou 100 Metros Rasos Fugindo de Comentaristas. Com exceção de algumas páginas de amigos da polícia que vez ou outra sugerem que alguém “moa meia hora de pau'' em mim (aliás, gente, escolham outro método de tortura porque esse é muito last week, muito Costa e Silva), tenho certeza que a maioria das ameaças parta de molecada desocupada ou trolls. Seria, portanto, uma leviandade atroz comparar meu caso com qualquer outro citado acima.

Mas o termômetro individual, mesmo que muito menos grave, serve para perceber que a temperatura continua esquentando em 2015.

E considerando que a quantidade de blogueiros independentes produzindo bom jornalismo aumenta a cada dia, minha preocupação só aumenta.

Porque, ao contrário de quem trabalha para um grande veículo, eles estão praticamente sozinhos ao relento, contando com apoios bissextos e a sorte para não se tornarem estatísticas. A internet dá liberdade, mas encara-la de cara limpa e de forma não anônima gera um custo que ara muita gente que tombou pelo caminho se mostrou algo demais.


Paulistano, você tem medo de quê?
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Leonardo Sakamoto

Todos os anos, próximo ao aniversário da minha inestimável cidade, realizo uma enquete para eleger o preconceito ouvido nas ruas de São Paulo que mais dói. Neste ano, contudo, não farei isso.

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  • true
  • http://noticias.uol.com.br/enquetes/2015/01/21/qual-o-maior-medo-do-paulistano-hoje.js

Por que fui ungido com os santos óleos do orgulho bandeirante? Longe disso. Mas olhando de perto para nós, paulistanos, e a incerteza que nos espera nos próximos meses, a única coisa que consigo sentir é dó. Muito dó.

Para muita gente que mora aqui e sempre olhou o Brasil de cima para baixo, deve ser uma sensação angustiante perceber que há quem, agora, nos olhe com aquele sentimento de pena com cara de ursinho carinhoso.

O que pode ser pior para um paulistano cheio de si do que alguém chegar, dar um abraço forte e dizer que está torcendo por ele, transmitindo vibrações tchap-tchuras de solidariedade e desejando o melhor? O horror. O horror!

Dito isso, abro uma nova enquete para comemorar os 461 anos de fundação de nossa urbe: qual o maior medo do paulistano hoje?


Enquanto isso, em um futuro não muito distante em São Paulo
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Leonardo Sakamoto

- Fodeu.

– Fodeu o quê? Fodeu quem? Quem tá falando?

– Dilma, é o Geraldo.

– Geraldo, como é que você tem o número desse celular?

– Consegui com uns procuradores do Paraná, história longa… Mas o que importa é que vamos ter que evacuar metade de São Paulo.

– Mas… hein?

– Can-ta-rei-ra. Sem água. Mais de uma semana. Não tem de onde tirar. Baby wipes também já sumiram nas gôndolas dos supermercados. Ontem, um exército de pessoas munidas de toalhas tentou derrubar os portões aqui do Palácio dos Bandeirantes porque descobriu que a gente é atendido pelo sistema Guarapiranga, que ainda tem água. Exigem banho.

– Geraldo, eu te disse que esse negócio de ficar negando que a cidade estava secando não ia dar certo, não te disse? Faltou planejamento, querido, faltou fazer mais reservatórios, interligar sistemas, comunicar à população…

– Ah, vai jogar na cara agora? Vai tripudiar, é?

– Mas eu te disse.

– Se é assim, então responde: por que a cidade está parecendo um pisca-pisca de Natal? Quando “acende'' um bairro apaga outro.

– Veja bem… No que se refere à falta de energia, eu digo… E-ner-gi-a… O Pronatec…

– Dilma, como assim?

– Esquece, força do hábito… E eu tenho culpa que o povaréu está comprando ar condicionado no crediário mesmo com o Levy arrepiando nos juros?

– Tá vendo! Não fui apenas eu que dei uma de João-sem-braço! Você baixou o preço da energia e incentivou o consumo, dizendo que estava tudo bem, que podia comprar, que o país aguentava. Até indicou um ministro de Ciência e Tecnologia que não acredita lá muito em aquecimento global…

– Olha, Geraldo, a gente tentou expulsar índios e outros moradores de suas terras para construir usinas hidrelétricas, como vocês, mas eles não arredam o pé. Antigamente era só trocar por miçangas. Cadê as tradições desse país que ninguém mais respeita? Esse negócio de direitos humanos atrapalha pacas.

– Eu sei que atrapalha. A polícia não pode nem mais reprimir uma manifestaçãozinha que já aparece jornal do mundo inteiro reclamando.

– Então, o que você quer de mim?

– Dilma, como é mesmo? Fazer mais reservatórios, interligar sistemas, comunicar a população…

– Engraçadinho. Pelo menos, no meu caso, a coisa vai e vem. No seu, até o volume morto morreu.

– Sorte sua que ainda não estreou a terceira temporada de House of Cards. Imagina o pânico na população se a luz acabasse no meio de um episódio?

– Nem me fale… Mas, Geraldo, vai fazer o quê, meu bom homem?

– Vamos lançar, aqui em São Paulo, o Programa Casa Amiga Cidadã. Quem acolher uma família de refugiados ambientais paulistanos em sua residência terá desconto no IPVA. Além disso, irá concorrer a um carro zero quilômetro todo o mês.

– Você sabe que isso não resolve absolutamente nada, né?

– Sei. Mas qual a coisa que o paulistano adora mais que água? Carro zero! Deve prender a atenção deles por um tempo.

– Se funcionar, avisa. A gente pode federalizar o programa. O que é bom não podemos ter vergonha de copiar.