Blog do Sakamoto

Por que criticar ou elogiar os Estados Unidos é blasfêmia por aqui?

Leonardo Sakamoto

Tenho uma certa fascinação doentia por observar o comportamento daqueles que veem os Estados Unidos como aquilo que não são, reduzindo um país complexo e plural a uma simplificação barata do que essas pessoas desejariam que ele fosse. Seres que acham que todos os governos de lá são iguais, que todos os intelectuais dizem a mesma coisa, que sua sociedade é monolítica e homogênea.

Normalmente, esse pensamento simplista e maniqueísta está presente em setores da extrema direita e da extrema esquerda brasileiras – que desejam que os Estados Unidos sejam encarados como um farol a ser seguido ou um inferno a ser evitado.

Um grupo tende a achar que os Estados Unidos é um grande Tea Party, com os políticos defendendo desregulamentação, redução de impostos, privatização e mínima interferência estatal. Esquecem que vira e mexe o Tio Sam enterra bilhões de dólares para salvar bancos e montadoras de automóveis (como a gente equivocadamente faz aqui, aliás) e que parte considerável do pensamento extremamente crítico ao modo de produção capitalista, que serve como referência para o debate global, surge de instituições e cidadãos de lá.

Outro grupo responsabiliza cada cidadão norte-americano pelo crimes internacionais cometidos pela Casa Branca e pelo Congresso, esquecendo que, se fizéssemos um paralelo, nós, brasileiros, deveríamos ser punidos pelo trabalho escravo, pelo tráfico de seres humanos, pela exploração sexual de crianças e adolescentes, pelos danos socioambientais na Amazônia, pelos indígenas assassinados na luta pela terra (paro por aqui, pois a capivara é longa). Afinal, somos nós que elegemos os governos que fizeram ou mantiveram tudo isso.

Se você realiza uma crítica à política internacional dos Estados Unidos (críticas que, muitas vezes, são também feitas por muita gente de dentro do Departamento de Estado), você é um comunista safado que detesta a América ou um hipócrita que critica mas usa produtos de empresas americanas. Porque, como todos sabemos, aqui como lá, é ame-o ou deixe-o. Se você defende uma ação tomada por alguma empresa de lá em prol do monitoramento socioambiental de suas cadeias produtivas, você é um porco vendido para o império capitalista, um lacaio do que há de pior na burguesia global. Eu enfrento esses dois discursos rasos quase que diariamente.

Isso quando estamos falando de grupos com pensamento elaborado. Esquisito, bizarro, pitoresco, mas elaborado. Lembrando que boa parte das pessoas nem chega nisso.

Se veem uma foto sua em Nova Iorque (uma das cidades mais intensas e complexas do mundo), não é porque você é pesquisador da New School, conselheiro de um fundo das Nações Unidas (que tem a sede por lá) ou é convidado para dar palestras e participar de reuniões em empresas, universidades e organizações da sociedade civil. Mas sim porque estava na cidade para fazer compras. Por que? Porque é exatamente o que essas pessoas fariam.

Se você está Washington DC, não veio para dar conferência sobre direitos humanos em uma universidade, discutir com o governo norte-americano formas de desenvolver o combate a crimes contra trabalhadores entre os dois países, fazer reuniões com congressistas de lá para explicar que erguer barreiras comerciais a um setor econômico brasileiro como um todo não será útil para resolver o tráfico de pessoas e o trabalho escravo. Não, você foi passar férias e visitar os museus do Smithsonian. Por que? Porque é exatamente o que essas pessoas fariam.

As redes de ódio descobriram que vou aos Estados Unidos apenas muito recentemente, apesar de ser de muitos e muitos anos minha relação com aquele país e ter passado longas temporadas por lá. Acham um absurdo um cara de esquerda ter morado em Nova Iorque – esquecendo, é claro, quem é o prefeito de lá.

Porque um paraíso conservador irreal construído a partir de leituras distorcidas dos Estados Unidos é o local onde parte da extrema direita se espelha para construir seu projeto de Brasil. E porque um inferno irreal e fictício é a referência que parte da extrema esquerda utiliza como identidade reativa para construir o seu discurso para o Brasil.

Temos muito em comum com eles e eles conosco. As pobrezas de Baltimore, do Mississipi ou da Virgínia Ocidental carregam semelhanças com as nossas, com baixo acesso a saneamento, barracos de lata (ao invés dos de madeira das favelas brasileiras) ou preconceito policial. O número de sem-teto em Nova Iorque é maior que em São Paulo. A busca por soluções, pontuais e estruturais, têm passado por diálogos entre sociedade civil, empresas e governos entre ambos os países que o cidadão daqui e de lá, não raro, desconhece.

Recentemente, vi colega de profissão que eu considerava pessoa equilibrada compartilhando conteúdo falso da rede, que dizia que detesto os Estados Unidos. Ou seja, não é apenas questão de gente desinformada. Essa divisão da sociedade em quem vê os EUA como paraíso ou como inferno, que confunde políticas do governo ou de Estado com seu povo e que acha que esse maniqueísmo se aplica tudo acontece como quem passou a ver o debate público como Fla-Flu.

E não se digna a gastar cinco minutos para checar se você disse mesmo a frase que imputam a você ou ela é mais uma mentira.

Sei que tentar se informar mais sobre algo antes de emitir juízo de valor saiu de moda. Mas continua super importante, eu recomendo. Principalmente quando falamos de um país inteiro com mais de 320 milhões de pessoas.

Por fim, invejo os eleitores democratas que poderão votar em Bernie Sanders nas primárias. É provável que ele não seja o escolhido para disputar a Casa Branca.

Mas fico imaginando o bem que faria ao Brasil se um político com chances, apesar de pequenas, de vencer uma eleição presidencial resolvesse adotar um discurso que vai na contramão dos interesses dos muito ricos, peitando bancos e empresas nominalmente, e incendiando a parte das novas gerações que quer mudar o país para melhor.

Ao invés do que acontece hoje, com políticos recebendo, do andar de cima, apoios financeiros, mimos e agrados e mantendo as coisas como elas sempre foram.


“Mas é Carnaval, vadia!” – 5 coisas que fazem de você um idiota na folia

Leonardo Sakamoto

Dedicado ao rapaz que não aceitou um “não'' em um bloco de carnaval, na tarde deste sábado (6), provocando ira, raiva e vergonha alheia em quem observava a cena:

1) O significado de “não'' é “não''. Não é “talvez'', muito menos “quem sabe'' ou ainda “insiste que pode rolar''. Um “não'' não te diminui como pessoa, faz parte da vida. Mas deixar de aceitá-lo, faz de você um idiota.

2) Usar frases como “Onde você acha que vai vestida assim?'', “A culpa não é minha, olha como você tá vestida!'', “Se saiu de casa assim, é porque está pedindo'', “Mas é carnaval, vadia!'', “Quem está aqui sozinha é porque quer isso'' e “Me dá um beijo que eu te solto'' faz de você um idiota.

3) Chamar mulheres, em qualquer circunstância, de “prostitutas'' e “vadias'' como xingamento genérico para qualquer comportamento em desacordo com seus planos de “conquista'' faz de você um idiota. E tratar as prostitutas com respeito diferente daquele dispendido a qualquer outra trabalhadora também faz de você um idiota.

4) Segurar mulheres pelos cabelos, braços, pescoço, cintura ou qualquer outra parte do corpo sem que ela tenha lhe dado expressa autorização para tanto faz de você um idiota.

5) Achar que assédio ou violência sexuais são “brincadeira de carnaval'' e “molecagem'' faz de você e de quem passar a mão na sua cabeça pelo ato um idiota. Tratar mulheres transexuais que estão na folia com o desrespeito que você não dá às demais faz de você um idiota. Achar que carnaval é passeio em açougue de carne faz de você um idiota.

Seus amigos podem te chamar de “frouxo'' se compreender essas sugestões. O que faz deles um bando de idiotas e de você, um cara legal que sabe viver em sociedade, respeitando a dignidade da outra pessoa.


Neste tórrido Carnaval, quero o Blindado Antimanifestante refrescando a rua

Leonardo Sakamoto

Como todos sabemos, o termostato de São Paulo está regulado para a posição “Gratinar os Amantes de Automóveis Lentamente''. Ao mesmo tempo, as últimas chuvas deram um grau nos reservatórios que abastecem a cidade, que haviam se tornado figurantes de Walking Dead.

Por isso, aproveito este momento de pholya e de calor maníaco para pedir, novamente neste espaço, que o governo coloque o Blindado Antimanifestante na rua. Aquele que lança jatos de água nos manifestantes.

Viver nesta chapa quente deu saudade louca dos banhos de mangueira da infância – transformados, no ano passado, em crime de lesa-pátria a ponto dos prédios terem que fixar avisos como “Esta água não é da Sabesp'' ou “Isso vem do poço'' para evitar a patrulha dos vizinhos. Quando criança, num ato populista, eu puxava a mangueira da garagem da casa de meus pais para o meio da rua a fim de regar a galera. Quem não se lembra do cheiro reconfortante da água que evapora quase que instantaneamente ao tocar o asfalto escaldante?

Neste sábado, em transe, atrás de um bloco na avenida São João, melado de suor e quase vendendo o que ainda não foi negociado da minha alma para o diabo em troca de um refresco, renovei a crença de que é isso que nosso povo sofrido precisa: um grande banho de mangueira.

Daí o Blindado Antimanifestante, que lança água em multidões.

blindados

O governo de São Paulo planejou várias dessas belezinhas para cá. A justificativa era o controle de manifestações. Mas sabemos que, na verdade, o objetivo era a pholya. Munidos com um canhão de água com capacidade para atingir pessoas a até 60 metros de distância, são o que há de melhor para homenagear a democracia.

Façamos um cálculo: com exceção do que ocorre em atos sexuais coletivos, o máximo de pessoas que cabem em um metro quadrado são sete. Mas essa aglomeração só ocorre em situações de confinamento e desespero, como os ônibus e os vagões do metrô e dos trens de São Paulo em horário de pico.

Em manifestações, a média é de duas pessoas por metro quadrado segundo institutos de pesquisa. Um círculo com 60 metros de raio tem área de 11.309 metros quadrados, portanto, cabem nele 22.618 pessoas.

O que em termos de diversão significa uma micareta ou um bom bloco de carnaval.

Se Pamplona, na Espanha, tem as Festas de São Firmino, com suas corridas de touros (deixando claro que eu torço para o touro).

firmino

Se Buñol, também na Espanha, tem a Tomatina, com o arremesso de tomates. Neste caso, não tem como torcer para o tomate.

tomatina

Se o Holi, ou Festival das Cores, é realizado na Índia e em uma série de países, com uma profusão de tinta.

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Por que não podemos ter em São Paulo o Carnaval da Água? Afinal, festas semelhantes, com o uso de blindados iguais, já acontecem na Turquia, Grécia, Tailândia e em uma série de outros lugares nos quais a polícia também respeita a dignidade do cidadão que resolve protestar.

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Bora colocar o Blindado Antimanifestante já neste Carnaval, com seu canhão lançador de água, feito trio elétrico no centro da festa! São seis mil litros de água em cada blindado, minha gente, SEIS MIL LITROS! Imagina só, Daniela e Ivete cantando em cima dele com o povo molhado, em transe. Daí entra Carlinhos Brown, perguntando: “Bebeu água? Não! / Tá com sede? Tô!'' Ah, a Glória!

E você que achava que Blindado Antimanifestante era para machucar a democracia.

Sabe de nada, inocente. São Paulo é só alegria.


Nova “Lista de Transparência” traz 340 nomes flagrados por trabalho escravo

Leonardo Sakamoto

Obtida através da Lei de Acesso à Informação, a terceira edição da “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo'' traz os dados de empregadores autuados em decorrência de caracterização de trabalho análogo ao de escravo e que tiveram decisão administrativa final entre dezembro de 2013 e dezembro de 2015.

As informações foram compiladas pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social a pedido da Repórter Brasil e do Instituto do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (InPACTO) uma vez que uma liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 2014, segue em vigor, impedindo que o governo federal divulgue uma atualização do cadastro de empregadores flagrados com mão de obra escrava, a chamada “lista suja'', que esteve público entre 2003 e 2014.

O extrato com o resultado, recebido por ambas as organizações, nesta sexta (5), pode ser obtido abaixo:

“Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil'': formato pdf e formato xls

A primeira solicitação dessa listagem com base na Lei de Acesso à Informação, divulgada em março do ano passado, trouxe os casos entre dezembro de 2012 e dezembro de 2014. A segunda, divulgada em setembro, envolveu o período de maio de 2013 a maio de 2015.

O objetivo das organizações ao veicular essa “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil'' é garantir o direito da sociedade e do setor empresarial à transparência sobre o tema, fornecendo informações sobre os flagrantes confirmados por trabalho análogo ao de escravo realizados pelo governo.

Suspensão pelo STF – Em meio ao plantão do recesso de final de ano, o Supremo Tribunal Federal garantiu uma liminar à Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) suspendendo a “lista suja'' do trabalho escravo (cadastro de empregadores flagrados com esse tipo de mão de obra). A entidade questionou a constitucionalidade do cadastro, afirmando, entre outros argumentos, que ele deveria ser organizado por uma lei específica e não uma portaria interministerial, como é hoje.

Os nomes permaneciam na “lista suja'' por, pelo menos, dois anos, período durante o qual o empregador deveria fazer as correções necessárias para que o problema não voltasse a acontecer e quitasse as pendências com o poder público. O cadastro, criado em 2003, é um dos principais instrumentos no combate a esse crime e tido como referência pelas Nações Unidas. Até agora, o governo federal não
conseguiu caçar a liminar que levou à suspensão da “lista suja''. O Supremo Tribunal Federal não possui prazo para julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade contra o instrumento.

Lei de Acesso à Informação – Considerando que a “lista suja'' nada mais é do que uma relação dos casos em que o poder público caracterizou trabalho análogo ao de escravo e nos quais os empregadores tiveram direito à defesa administrativa em primeira e segunda instâncias; e que a sociedade tem o direito de conhecer os atos do poder público, a Repórter Brasil e o InPACTO, solicitaram, com base nos artigos 10, 11 e 12 da Lei de Acesso à Informação (12.527/2012) – que obriga quaisquer órgãos do governo a fornecer informações públicas – e no artigo 5º da Constituição Federal de 1988 o seguinte:

“A relação com os empregadores que foram autuados em decorrência de caracterização de trabalho análogo ao de escravo e que tiveram decisão administrativa transitada em julgado, entre dezembro de 2013 e dezembro de 2015, confirmando a autuação, constando: nome do empregador (pessoa física ou jurídica), nome do estabelecimento onde foi realizada a autuação, endereço do estabelecimento onde foi caracterizada a situação, CPF ou CNPJ do empregador envolvido, número de trabalhadores envolvidos e data da fiscalização em que ocorreu a autuação.''

Direito à informação – A sociedade brasileira depende de informações oficiais e seguras sobre as atividades do Ministério do Trabalho e Previdência Social na fiscalização e combate ao trabalho escravo contemporâneo no Brasil.

Informação livre é fundamental para que as empresas e outras instituições desenvolvam suas políticas de gerenciamento de riscos e de responsabilidade social corporativa. A portaria que regulamentava a suspensa “lista suja'' não obrigava o setor empresarial a tomar qualquer ação, apenas garantia transparência. Muito menos a relação aqui anexa. São apenas fontes de informação a respeito de fiscalizações do poder público.

Transparência é fundamental para que o mercado funcione a contento. Se uma empresa não informa seus passivos trabalhistas, sociais e ambientais, sonega informação relevante que pode ser ponderada por um investidor, um financiador ou um parceiro comercial na hora de fazer negócios.

As informações que constam na “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil'' são oficiais uma vez que fornecidas pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social através de solicitação formal e transparente, que obedece a todos os trâmites legais previstos na Lei de Acesso à Informação. Solicitação que pode ser repetida por qualquer cidadão, organização social ou empresa.

A lista tem sido, enquanto a “lista suja'' segue suspensa, o principal instrumento das empresas associadas do InPACTO para o controle e monitoramento de sua cadeia produtiva com relação ao trabalho escravo.

Tentativa de censura – Por conta da divulgação da “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil'', este blog, a Repórter Brasil e o InPACTO sofreram processos judiciais visando à censura do nome de empregadores envolvidos com trabalho análogo ao de escravo de acordo com o governo federal. Tive que responder, inclusive, pela acusação do crime de difamação por uma empresa que havia sido relacionada na Lista de Transparência.

Contudo, o juiz Ulisses Augusto Pascolati Júnior, da Vara do Juizado Especial Criminal do Foro Central Criminal de São Paulo, arquivou o processo.  Segundo ele, “a simples narrativa dos fatos que, nesse caso, tinha o intuito de informar a sociedade (grifo do juiz), a partir da divulgação de dados públicos, não basta para a configuração do crime de difamação''.

De acordo com o magistrado, “tratou-se, de fato, do exercício regular do direito de informar. A liberdade de imprensa, enquanto extensão das liberdades de comunicação e de manifestação do pensamento, compreende prerrogativas inerentes como o direito de informar, o direito de buscar a informação, o direito de opinar e o direito de criticar e estas prerrogativas asseguram a livre circulação das ideias o que garantem, por conseguinte, uma sociedade plural e crítica''.

 

“Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil''formato pdf e formato xls


Se o debate público fosse bom, pessoas teriam vergonha de dizer bobagem

Leonardo Sakamoto

Qual a motivação para ler um texto até o final?

Cuidado, a resposta não é tão simples. Alguns dirão que se o texto for bom será lido. Mas o que faz um texto ser bom?

Como disse o sociólogo Bernard Charlot, um saber só tem valor e sentido por conta da relação que ele produz com o mundo.

Não é o livro que tem valor em si, mas o que o aluno fará dele. A utilidade desse saber.

Ou seja, muitas pessoas leem mal e porcamente uma reportagem sobre um problema grave na sua cidade, estado ou país porque acham que não precisam lê-la por inteiro para poder seguir sua vida em frente ou se relacionar em sociedade.

Afinal de contas, qualquer conhecimento superficial é suficiente para uma conversa de bar.

Se o debate público fosse mais qualificado, a pessoa se sentiria motivada a ler determinados textos até para não ser humilhada coletivamente no Facebook ou no Twitter ao expor argumentos ruins, preconceituosos e superficiais.

O que temos contudo, é que o discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido. Vale ressaltar que esse discurso não é de hoje e nem monopólio desta porção tropical do mundo.

Em um debate qualificado quem usa esses argumentos toscos nem seria ouvido. Contudo, fazem sucesso na rede. Colam rápido, colam fácil.

Pois, vale lembrar, quanto mais qualificado o debate em um universo que não sente a necessidade de um debate qualificado, menor a arena para consumi-lo.

Lembrando que “qualificação'' não significa elitização, muito pelo contrário. Não é algo chato, hipercodificado, barroco ou acadêmico e sim que ajude o leitor a perceber a complexidade do mundo em que vive e o ajude a construir o seu sentido das coisas.

O problema é que não se qualifica o debate apenas através de ações individuais. Você precisa de uma ação em escala, o que teríamos – na minha opinião – através do Estado – que é o espaço que regula a concepção de educação e os parâmetros educacionais. Ou seja, precisamos repensar o ensino para melhorar o debate público.

Qual a motivação para um jovem se engajar no aprendizado hoje, principalmente em uma escola com poucos recursos, professores desmotivados e pouco valorizados e um currículo questionável?

Ficamos preocupados com taxas de evasão escolar de 20%, dizendo que tudo está desmoronando. Sim, é um dado preocupante. Mas não vemos o outro lado, que a imensa maioria milagrosamente permanece, mesmo não vendo sentido nenhum naquela formação. Como diz o próprio Charlot, esses jovens não têm ideia do que está acontecendo, mas estabelecem uma relação mágica com o saber, esperando que ele faça sentido para a vida deles algum dia.

E ninguém está dizendo para atender a todos os desejos dos alunos. Sabemos que o processo de passagem do saber é algo doloroso porque ele, não raro, destrói visões pré-concebidas do mundo para, depois, ajudar a construir outras, mais sólidas.

O problema é que entre a proposição, aprovação e implementação de políticas públicas de educação, décadas se passam.

Cabe, enquanto isso, a quem ajuda a mediar o debate público, a qualificá-lo o melhor possível. Somos nós que semeamos muito do conteúdo que será, posteriormente, colhido, consumido e usado nos diálogos.

Se plantarmos ervas daninhas, são ervas daninhas que serão colhidas e consumidas.

Dizer que jovens não leem é um preconceito que não sobrevive à reflexão, uma vez que J.K.Rowling, Stephenie Meyer, E.L James ou mesmo Dan Brown vendem milhões de livros todos os anos, muitos deles catataus com centenas de páginas, que são devorados quase que instantaneamente pela molecada. Não é que muita gente não goste de ler. Aliás, nunca se leu tanto na história. Eles não gostam de ler certas coisas.

Nos últimos dias, conversei com vários colegas professores de jornalismo sobre a importância de fomentarmos nos novos profissionais a preocupação de construir textos que sejam realmente lidos. Ou seja, textos pensados para o leitor e não apenas para o nosso próprio prazer.

Daí lembrei desta reflexão que publiquei aqui no ano passado e resolvi resgata-la e atualiza-la.

Há algumas ações que professores ou profissionais da mídia, que querem dialogar com o público mais jovem, têm que obrigatoriamente fazer. Incorporar a linguagem e as mais atualizadas ferramentas de comunicação digital para a construção das narrativas. Conversar usando também elementos simbólicos da geração ou do grupo com o qual se quer trabalhar. Rediscutir a temática pensando no interesse do aluno ou leitor, mas também no que o professor ou jornalista considera importante. Entregar um produto bom e interessante, preparado e pensado, seja uma aula ou um artigo.

E, fundamental, descomplicar o discurso.

Por fim, mesmo que alguns qualifiquem o debate, outros vão optar pela saída mais rasa e atraente, nivelando por baixo.

Ou seja, é uma batalha de longo prazo que será muito difícil vencer. Mas se alunos seguem acreditando e não desistem, apesar de uma educação que não lhes faz sentido, que direito temos nós de desistir de tentar?

 


Dez impactos imediatos causados por uma mentira difundida pela rede

Leonardo Sakamoto

Um jornal impresso de Minas Gerais estampou em sua manchete de capa uma foto minha e uma declaração atribuída a mim – mas que nunca dei – de que “aposentados são inúteis à sociedade''. Dentro, uma entrevista – que também nunca concedi – com várias barbaridades contra os aposentados que eu nunca falaria. Ao que tudo indica, alguém pegou um post meu do ano passado, inverteu o sinal de tudo e o transformou em entrevista.

O que acontece no período entre uma difamação ser lançada na rede e o jornal, no caso o “Edição do Brasil'', soltar uma nota informando que a entrevista era falsa?

Desta vez, tive a curiosidade de registrar passo a passo o que acontece. Agora trago um grande passeio pela natureza humana na web. Isso pode ser útil quando disserem a vocês algo do tipo: “Ah, relaxa, é só a internet! Não dá em nada.''

 

 

1) Pessoas que não conhecem as ideias deste autor começam a compartilhar o texto, indignadas.

2) Mensagens espumando de raiva chegam até mim. Muitas de aposentados. As mais leves, desejam muita dor e sofrimento.

Como a de Durval Alves Correia Alves, do Rio de Janeiro (RJ): “Seu verme. Deveria ter vergonha do seu pai e da sua mãe que os colocou no mundo. Deveria ter a sensibilidade de saber que o idoso contribui muito mais do que você como jornalista. Acredito que você deverá morrer antes dos seus 40 anos, senão de alguma doença incurável ou de tiro. Toma vergonha na puta da sua cara e vê se faz alguma coisa de bom para aqueles que precisam de pessoas de dignidade. Seja homem e não um marginal. Cuidado com as merdas que fala, você é um ser mortal… Não se esqueças disso seu filho da puta, pela saco, inútil é você. Me processa.'' Não costumo dar nomes, mas a postagem dele foi aberta.

3) As conhecidas redes de ódio e intolerância, mesmo sabendo que aquilo não condiz com o pensamento deste autor, se apropriam do conteúdo e começam a dispara-lo como se não houvesse amanhã. Surge o primeiro “esse desgraçado é vendido para o governo federal'', afirmando que me pagam para falar mal de aposentados. Evitam dizer que sou crítico ao governo Dilma e às mudanças na Previdência e na legislação trabalhista que ela namora. Surgem os memes, que alimentam as hordas do Fla-Flu político nacional que, de forma leviana, reduzem todos que são de esquerda a um partido político.

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4) Alguém relaciona a entrevista falsa ao nazismo e diz que o nazismo e o socialismo são a mesma coisa. E que ser de esquerda significa querer acabar com os mais velhos. “Nazista é gente boa perto desse animal'', é um exemplo desses elogios. Alguém sugere a hashtag #Heil_Sakamoto.

5) Chegam as ameaças de morte.

Como a de Jullio Cavalcante Fortes, de Rio Branco (AC): “Este filho da puta, desgraçado, deve ser caçado e morto a faca. Vou distribuir este escarnio para todo o Brasil. E vamos aguardar no que vai dar. Gostaria muito de enfiar 5 balas 1.40 no meio da testa deste filho da puta para ele nunca mais falar mau dos idosos. Desgraçado (sic)''. A mensagem foi pública, por isso publico aqui.

6) Dou uma explicação simpática no Facebook, dizendo que nunca disse aquilo e aponto para o texto que escrevi defendendo o aumento do salário e que foi desvirtuado por ignorância ou má fé. Há pessoas que não acreditam (“se está se justificando é porque fez'') e outras simplesmente ignoram o claro sentido do texto e continuam me xingando.

7) Leitores frequentes do blog, que concordam com ele ou não, tentam convencer os amigos na rede de que aquilo não faz sentido e a acusação é falsa. Mostram o texto original de onde foi inspirada a falsa entrevista, explicam a distorção de tudo. Parte dos amigos dos leitores, em fúria, ignoram as explicações, dizem que nada disso importa. O que importa é que ele é de esquerda. E se é de “esquerda'' pode até não ter tido culpa nisso, mas alguma culpa ele tem. E, seguindo a lógica do linchamento (se a turba está contra ele é porque é o culpado), sentam o pau.

8) O primeiro colega jornalista entra em contato para repercutir a matéria. O texto atinge, em pouco tempo, cerca de 15 mil compartilhamentos.

9) O próprio jornal reconhece que não dei a entrevista a eles. Alega que ela foi respondida por uma pessoa que se fez passar por uma assessora minha para prejudicar a mim e ao jornal (justificativa que eles deram em nota que substituiu a entrevista falsa). Claro, nunca me ligaram para checar qualquer informação antes de colocá-la na capa.

10) Mas não importa mais, não depende mais do jornal. As redes de ódio ignoram e continuam divulgando o conteúdo original. Como um desmentido não é lido com a mesma voracidade que uma acusação, e como as pessoas só leem título e foto na internet antes de comentar, a porrada continua. Na verdade, o conteúdo não mais importa, nem o desmentido, nem a informação. Passo a ser obrigado a provar de que não falei aquilo e não o contrário. É raiva, apenas raiva que flui.

Tomarei as medidas judiciais cabíveis. Mas o próximo passo, eu já conheço: ser xingado no supermercado ou ser vítima de agressões e cusparadas na rua, como já aconteceu comigo quando circularam outras difamações no ano passado. Esses casos têm cauda longa, duram meses e anos, arrastando-se pela internet e sobrevivendo de incautos e ignorantes. É conteúdo que ficará circulando para ser capturado por grupos que promovem o ódio, saindo da rede e sendo transportados por pessoas sem discernimento que, no limite, fazem Justiça com as próprias mãos.

Tudo isso para me lamentar da vida? Não, longe disso. Quem atua na área de direitos humanos sabe que isso pode acontecer.

Isso é para lembrar que você ganha um pontinho no céu e um bebê panda sorri na China toda vez que você checar uma informação antes de compartilha-la em redes sociais. Então, não faça isso por mim ou pela verdade dos fatos. Faça pela sua alma. E pela alegria dos pandas.

 


Folia? Protestos? Rolezinho? Amor? A bomba é solução para tudo em SP

Leonardo Sakamoto

A Polícia Militar utilizou bombas para dispersar foliões, neste final de semana, em São Paulo, em um grande déjà vu do ano passado.

Não é novidade para ninguém que há uma relação de profundo amor de nossas forças públicas por artefatos explosivos que produzem luz, som e lágrimas.

Por aqui, a bomba se tornou uma panaceia utilizada para curar todos os males. Diálogo? Inteligência Policial? Técnicas não violentas? Esqueça tudo isso. Para garantir que o espaço público volte para seus donos, ou seja, os carros, o que liga é a bomba.

Folia em excesso? Bomba. Protestos contra tarifas? Bomba. Rolezinho? Bomba? Futebol? Bomba. Alegria? Bomba. Amor? Bomba.

Prova disso é seleção de notícias abaixo, veiculadas pela imprensa:

PM usa bombas durante bloco de Carnaval na Vila Madalena

PM usa bombas para dispersar protesto contra aumento da passagem em SP

Polícia usa bomba de efeito moral para dispersar torcedores

PM usa bombas e bala de borracha em 'rolezinho' em São Paulo

Após falha em trem, PM usa bombas para dispersar passageiros em SP

PM usa bombas para dispersar ato de alunos que bloqueou avenida de SP

Com bombas de gás, PM impede ocupação de sem-teto em prédio da região central

PM lançou uma bomba a cada sete segundos na Paulista para dispersar ato

Talvez, pela repetição à exaustão de ações como essas, estejamos perdendo a capacidade de perceber que o uso de bombas deveria ser o último recurso, não o primeiro. É a banalização da bomba e, com ela, da ignorância.

Considerando que a criatividade humana voa alto – tão alto que bombas foram recentemente despejadas em profusão contra professores em greve do vizinho Paraná – no limite a notícia será:

“PM usa bombas para reforçar toque de recolher''

Mas, então, esta discussão sobre o respeito às liberdades individuais e coletivas e sobre o direito à cidade não fará muito sentido…


“Por favor, me dá um beijo”: Formas de sentir vergonha alheia no Carnaval

Leonardo Sakamoto

Detesto sentir vergonha alheia.

Aquela vontade de cobrir o rosto e se esconder ao ver outro ser humano se afundando copiosamente e alegremente na lama e, impotente, não poder fazer nada para poder ajudá-lo.

Dar um toque talvez? O problema é que consciência é algo que pode até ser fomentado com informação, mas se desenvolve só, via reflexão pessoal.

Prefiro eu mesmo passar uma vergonha do que sentir vergonha alheia por conta do que esse sentimento patético em loop provoca.

Por exemplo, uma cena recorrente que presencio no carnaval é uma sequência de nãos seguida de um pedido “por favor, me dá um beijo'', normalmente com um sujeito que vai pegando no corpo da outra pessoa sem autorização.

Dignidade? Ninguém sabe, ninguém viu. Sabe o fundo do poço? Pois bem, lá tem um alçapão onde esse pessoal consegue ir aonde nenhum homem jamais esteve.

O debate público sobre o machismo nosso de cada diz esquentou no ano passado. Há mais gente empoderada e disposta a não deixar barato esse assédio sexual, inclusive chamando a polícia para por fim ao barato dos cretinos que acham que o corpo alheio é patrimônio público.

O problema é que a vergonha alheia não tem limites.

“Quem está aqui sozinha é porque quer isso.''

“A culpa não é minha, olha como você tá vestida!''

“Se saiu de casa assim, é porque está pedindo.''

“Me dá um beijo que eu te solto''

“Mas é carnaval, vadia!''

O sujeito aprendeu com amigos e família, viu na televisão, ouviu do chefe, que este é um momento em que as regras de convivência estão suspensas e todos querem sexo. Quando rejeitados, expressam toda a sua perplexidade em bordões.

Rapaz, uma dica: se os seus amigos te chamarem de “frouxo'' por você não tratar as outras mulheres, cis ou trans, como carne em açougue, sinta vergonha alheia por eles. “Frouxo'' é quem precisa da chancela da opinião de outra pessoa para poder ser feliz.


A nova Barbie e padrões de beleza: uma mercadoria pode ser revolucionária?

Leonardo Sakamoto

Após mais de meio século ajudando a ditar um padrão de beleza irreal para a maioria das meninas e mulheres, a Mattel, fabricante da icônica Barbie, resolveu diversificar. Agora, a boneca apresenta quatro tipos de corpo e 24 de cabelo, sete tons de pele e 22 cores de olhos.

Isso vem com atraso, em um momento em que a própria Barbie perde a relevância, simbólica e comercial, frente a videogames, smartphones e computadores. A mudança, portanto, é mais consequência de um mundo que se transforma do que vetor de transformação desse mundo.

É claro que isso contribui para o debate que vem sendo travado incansavelmente na sociedade sobre padrões ditados pela indústria da moda e do entretenimento e de como isso torna a vida de milhões de pessoas um inferno. Então, toda a ação é válida.

Mas uma amiga, sábia e antenada pesquisadora, me lembrou que a previsível satisfação de pais e ativistas pela mudança encobre uma discussão de fundo. Pois não é a “consciência'' da corporação que leva a essa mudança, mas a oportunidade de novos nichos de mercado.

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Um produto para consumo de massa que representa uma narrativa de “direitos humanos'' ou de “desenvolvimento sustentável'' é , antes de tudo, um produto. E, portanto, seu objetivo é ser vendido. E em grande quantidade a fim de dar lucro aos acionistas de uma corporação, se possível – afinal de contas, estamos falando de negócios, não de caridade.

Para tanto, ele demanda uma grande quantidade de recursos naturais e de mão de obra para fabrica-lo. E para que seja rentável à empresa que o planejou, faz-se necessário que esses custos (matéria prima e trabalho) sejam os mais baixos possíveis. É claro que dá para produzir pagando preços justos de matéria-prima e trabalho, mas aí o produto para consumo não seria tão de massa assim. Ou os lucros não seriam tão grandes. E talvez nem pudesse ser embutida a obsolescência programada de uma sociedade em que nada é feito para durar.

Dito isso, não se pode negar a engenhosidade do capitalismo, que captura o desejo de mudança em um símbolo, transforma esse símbolo em mercadoria, o fabrica em série, realiza campanhas para explicar o motivo pelo qual o povo deve ama-lo, empacota-o e o vende a prestações em uma loja perto de você. Parece que ele está sendo revolucionário, mas apenas quer ganhar dinheiro com quem deseja aquele símbolo.

A fetichização é tão velha quanto o comunista barbudo – Marx, não Jesus. Mas conseguimos sempre superar o seu alcance.

O problema é que a produção em massa desses símbolos pode encobrir, como já citado, a exploração irracional dos recursos naturais e do trabalho humano. Sim, não raro por trás de mercadorias que representam mudanças sociais, há – ironicamente – desmatamento, poluição, trabalho infantil, escravos.

Pode parecer paradoxal, mas é apenas mais uma das contradições do sistema. E ele, quer dizer, nós, vivemos muito bem com isso.

Por exemplo, há denúncias contra fornecedores da Mattel por seus trabalhadores na China não contarem com proteção adequada, atuarem por longas jornadas com poucas ou nenhuma pausas, estarem sujeitos a péssimas condições, desrespeitando, inclusive, as leis trabalhistas locais. A empresa nega.

Vejamos outros casos. Creio que todos lembram de “Wall.e'' – uma animação produzida pela Disney e a Pixar que conta a história de um robozinho cuja missão é organizar o lixo em que se transformou o planeta devido ao consumismo desenfreado dos habitantes e à ganância de grandes corporações.

De acordo com o filme, no futuro, a Terra terá se transformado em um lixão impossível de sustentar vida e os seres humanos terão se mudado para uma nave espacial à espera de que os robôs limpem as coisas. Paro por aqui para não dar spoiler – se bem que, a esta altura, você já deveria ter assistido ao filme.

Na época, na cadeira do cinema, fiquei matutando que Wall.e seria um bom instrumento para discutir com os mais novos a diferença entre consumir para viver e viver para consumir.

Pouco depois, passando por um loja, me deparei com uma prateleira inteira de produtos do filme. A vendedora me mostrou um Wall.e que funcionava à corda e cantava e dançava, um outro Wall.e para bebês (na verdade, para os pais dos bebês…) Explicou que a versão de controle remoto havia acabado, tamanha a procura.

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Vale ressaltar que os brinquedos inspirados em filmes têm vida curta – duram o suficiente até o próximo sucesso de bilheteria trazer novos bonecos. Ou seja, dentro de pouco tempo viram lixo de plástico e ferro.

O que temos aqui? O licenciamento de um filme sobre o consumismo promovendo mais consumismo. A Disney e a Pixar poderiam ter revolucionado e não autorizado a produção de quinquilharias baseadas neste filme? Sim, claro, mas isso aconteceria em uma realidade paralela, na qual o céu é verde e leite dá em árvore.

Outro exemplo interessante, que reúne a questão do padrão de beleza e da responsabilidade sobre o consumo, é uma dobradinha de comerciais. A Dove lançou uma propaganda sobre a importância de conversar com as meninas a respeito de padrões de beleza antes que a indústria da beleza fizesse isso. O resultado é muito bom e pode ser visto abaixo:

Pouco depois, o Greenpeace fez uma paródia do comercial, criando outro produto muito bom também, cutucando a Dove:

Fale com a Dove – que utilizava, segundo o Greenpeace, óleo de plantações de palma que ocupavam áreas onde antes estavam florestas tropicais – antes que fosse tarde, diz o mote do filme.

É claro que a mensagem do segundo comercial não anula a do primeiro, da mesma forma que é importante que bonecas sejam mais próximas das meninas de verdade. Mas é fundamental lembrar que, para atingir o objetivo final, fabricantes de brinquedos, de produtos de beleza ou de qualquer mercadoria, se apropriam de qualquer discurso que possa dar lucro.

Pois, no fundo, empresas não vendem mercadorias, mas estilos de vida. Do que somos. Do que gostaríamos de ser. Do que deveríamos ser – não em nossa opinião, necessariamente, mas de uma construção do que é bom e do que é ruim.

Muitos de nós ficamos tanto tempo trabalhando que nos tornamos compradores compulsivos de símbolos daquilo que não conseguiremos obter por vivência direta. Através desses objetos, enlatamos a felicidade – pronta para consumo, mas que dura pouco, o tempo da já citada obsolescência programada. Mas também enlatamos o nosso ativismo por determinado tema ou uma fórmula mágica para se livrar da culpa por não conseguirmos nos dedicar àquilo que achamos importante para a vida em comunidade.

Afinal, se a empresa mostra no comercial que planta meia dúzia de dentes-de-leão para compensar toneladas de emissão de carbono, protege uma família de perequitos-que-dizem-ni e doa dez estojos de lápis aquarelados para uma comunidade onde são jogados os efluentes tóxicos a cada produto comprado, ok, vamos adquiri-lo. Assim fazemos nossa parte e nossa consciência fica leve após a operadora do cartão autorizar.

Celebrar um produto como algo redentor pelo que ele aparenta ser esconde, na verdade, o que ele pode representar de fato: uma cadeia produtiva extensa com uma série de problemas trabalhistas, sociais e ambientais, que trazem alegria a alguns e tristeza a muito mais.

Este texto é para reclamar de uma boneca? Não, apenas para lembrar que, na economia de mercado globalizada, o que os olhos não veem o coração tá pouco se lixando.


Trabalho escravo: Falta de coragem ou de vergonha na cara?

Leonardo Sakamoto

Comemora-se, nesta quinta (28), o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. O Brasil é citado internacionalmente como exemplo global à escravidão contemporânea. Um dos motivos enlouqueceria os haters maniqueístas (que só têm um par de Tico e Teco entre as orelhas): o sistema nacional de enfrentamento a esse crime tem sido uma política de Estado, não de governo ou de partido.

Eu sei que é difícil para quem enxerga a política como torcida de jogo de futebol, mas convenhamos que o mundo é maior que o Jardim da Infância.

Criada por Fernando Henrique (que reconheceu diante das Nações Unidas, há 21 anos, a persistência da escravidão contemporânea em nosso território), aprimorada por Lula (que ampliou os mecanismos de combate a esse crime) e mantida por Dilma, a política nacional observou conquistas importantes sob governadores, como Geraldo Alckmin, ou prefeitos, como Fernando Haddad.

Ou seja, não adianta você fazer cara de nojinho. Independente do político em questão ser questionável em outros aspectos, ele teve contribuições positivas para o tema.

O que não deveria ser surpresa, porque com exceção de alguns semoventes no Congresso, em fazendas e empresas ou na sociedade, não há alguém em sã consciência capaz de defender trabalho escravo.

Meninos brincam em carvoaria, em foto de João Roberto Ripper

Meninos brincam em carvoaria, em foto de João Roberto Ripper

O sistema nacional de combate à escravidão resgatou cerca de 50 mil pessoas em operações de fiscalização em fazendas de gado, soja, algodão, frutas, cana, carvoarias, canteiros de obras, oficinas de costura, entre outros, desde 1995. Nesse período, o problema deixou de ser visto como algo restrito a regiões de fronteira agropecuária, como a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal e, paulatinamente, passou a ser um problema também nos grandes centros urbanos.

Milhões de reais em condenações e acordos trabalhistas foram pagos. Centenas de empresas aderiram ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, comprometendo-se a cortar negócios com que utiliza esse tipo de crime. Temos um Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, além de estados e municípios engajados em planos regionais.

Mas a política nacional de combate a esse crime está sofrendo pesados ataques de grupos que perdem dinheiro com ela.

Por exemplo, há – pelo menos – três projetos tramitando no Congresso Nacional para reduzir o conceito de trabalho escravo.

Hoje, são quatro elementos que podem definir escravidão contemporânea por aqui: trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes (quando a violação de direitos fundamentais coloca em risco a saúde e a vida do trabalhador) e jornada exaustiva (em que ele é submetido a esforço excessivo ou sobrecarga que acarreta danos à sua saúde ou risco de morte).

Mas há parlamentares que afirmam que é difícil conceituar o que sejam esses dois últimos elementos, gerando “insegurança jurídica''. Querem que as condições em que se encontram os trabalhadores, por mais indignas que sejam, não importem para a definição de trabalho escravo, mas apenas se ele está em cárcere ou não.

Ou seja, se trabalhadores bebiam a mesma água do gado, se eram obrigados a caçar no mato para comer carne, se ficavam em casebres de palha em meio às tempestades amazônicas, se pegavam doenças ou perdiam partes do corpo no serviço e se eram largados sós, entre tantas outras histórias que acompanhei em mais de uma dezenas de operações de libertação de escravos que participei no campo desde 2001.

O fato é que com o confisco de propriedades tendo sido aprovado, no ano passado, após 19 anos de trâmite, a bancada ruralista passou a atuar para afrouxar o conceito. É aquela coisa: concordo que se puna assassinato…desde que sejam apenas os cometidos por armas de fogo. Ou seja, praticamente condenar só quem usa pelourinho, chicote e grilhões, sendo que os tempos mudaram, a escravidão é outra e os mecanismos modernos de escravização adotados são sutis.

Com a mudança no conceito, milhares de pessoas que, hoje, poderiam ser chamadas de escravos modernos simplesmente vão se tornar invisíveis. Vamos resolver o problema chamando-o por outro nome.

Ao mesmo tempo, a “lista suja'' do trabalho escravo foi suspensa em decisão do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, no apagar das luzes de 2014, a pedido de uma associação das incorporadoras imobiliárias. Desde 2003, esse cadastro público que reúne empregadores flagrados com esse crime pelo Ministério do Trabalho e Emprego tem sido uma das maiores ferramentas para o combate à escravidão. Ele garante ao mercado transparência e informações para que empresas nacionais e internacionais possam gerenciar os riscos de seu negócio. E, consequentemente, proteger o trabalhador.

Por enquanto, a imprensa e a sociedade civil, utilizando a Lei de Acesso à Informação, reconstruíram e relançaram a lista a fim de manter a transparência sobre casos de trabalho escravo. Essa “nova lista” tem sido utilizada por várias companhias para análise de risco e bloqueio daqueles que utilizaram trabalho escravo. Mas os processos judiciais contra jornalistas e instituições que pedem transparência nos dados sobre trabalho escravo (e, por conta disso, cumprem um papel que deveria ser do poder público) têm se acumulado.

Por fim, caso seja aprovado do jeito em que está o projeto que regulamenta a terceirização e está tramitando no Congresso Nacional, o combate ao crime sofrerá um revés. Casos famosos de flagrantes de trabalho escravo surgiram por problemas em fornecedores ou terceirizados em que o governo federal e o Ministério Público do Trabalho puderam responsabilizar grandes empresas pelo que aconteceu na outra ponta. Consideraram que havia responsabilidade solidária por se constatar terceirização de atividade-fim.

Com o projeto aprovado, isso será mais difícil. Além do mais, os chamados “coopergatos'' (cooperativas de fachada montadas para burlar impostos) irão se multiplicar e o nível de proteção do trabalhador cair.

Há setores no governo federal, em governos estaduais e municipais e em diversos partidos que têm atuado firmemente no combate a esse crime. Contudo, há outros setores que fazem corpo mole ou agem contra. Nos corredores do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios, por exemplo, há quem defenda reservadamente que melhor seria deixar o conceito de trabalho escravo retroceder e a “lista suja'' ser derrubada porque a situação atual cria problemas para setores econômicos, como o da construção civil, que tocam obras do PAC. Ou doam recursos para campanha.

Ou seja, a construção da política nacional de combate a esse crime, por mais imperfeita que tenha sido, foi feita de forma suprapartidária. Corremos o risco de, agora, sob a velha justificativa da “governabilidade'' (palavra escrita em todos os muros do inferno) ou da “crise econômica'' (grandes atrocidades são cometidas no momento em que a proteção aos trabalhadores é mais necessária) retrocedermos no marco legal e no processo de erradicação da escravidão também de forma suprapartidária.

Às vezes, acho que falta coragem. Mas depois percebo que é vergonha na cara mesmo.