Blog do Sakamoto

Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel

Leonardo Sakamoto

O bicho está pegando na educação. É tanto problema que você pode montar o seu combo: roubo de merenda, escolas ocupadas, universidades em greve (e quebradas), proposta de teto orçamentário ameaçando investimentos na área, Plano Nacional de Educação completando dois anos sem NENHUMA meta cumprida e por aí vai.

Mas a julgar pelo que se passa na Congresso Nacional e na mídia, o grande mal da educação brasileira tem outro nome: “Doutrinação Político-Partidária”.

A questão é a bandeira principal do movimento Escola Sem Partido, aquele mesmo defendido por um dos maiores especialistas em Pedagogia (FROTA, Alexandre), em encontro com o ministro Mendonça Filho no fim do mês passado.

O ESP não consta da pauta de reivindicações ao titular interino do MEC, como mostrou a agência Lupa. Mesmo assim, o papo descontraído agradou o presidente do movimento, o advogado e procurador do Estado de São Paulo Miguel Nagib. Veja o recadinho em seu Facebook: “Quero agradecer publicamente ao Alexandre Frota por haver defendido o Projeto Escola sem Partido em sua audiência com o Ministério da Educação. Não exigimos atestado de bons antecedentes.”

Fico pensando em que mundo essa turma vive para achar que as escolas brasileiras – “em todos os níveis, do ensino básico ao superior” – sofrem de “contaminação político-ideológica” comandada por “um exército organizado de militantes travestidos de professores” (é sério, gente, tá tudo no site do movimento http://www.escolasempartido.org/).

A doutrinação na educação é um bichinho pequeno, mas o Escola Sem Partido joga um forte holofote sobre ele e pede que olhemos a sombra – monstruosa, assustadora – projetada na parede.

Uma boa reportagem publicada, nesta sexta (24), no site da Nova Escola confirma essa impressão. São perguntas e respostas que apontam o óbvio: não há evidência consistente do problema.

O Escola Sem Partido afirma ter um batalhão de denúncias de doutrinação, mas publica apenas 33 em seu site (detalhe: o Brasil tem 45 milhões de estudantes). São elas, e uma pesquisa encomendada pela revista Veja em 2008, que sustentam as ações do movimento.

Isso está muito longe de configurar uma tendência, que precisa de dados mais robustos e outros estudos comprovado que confirmem a hipótese. E tem uma outra coisinha: se existe doutrinação esquerdista, ela está dando muito, mas muito errado. Em uma pesquisa Datafolha de dois anos atrás, o próprio mapa eleitoral das últimas eleições registra um avanço da direita e um recuo da esquerda.

A reportagem também mostra que de “Sem Partido” o ESP não tem nada. O levantamento dos projetos de lei inspirados nas ideias do movimento mostra um claro predomínio dos partidos de direita e de centro. O campeão é o PSC, com cinco proponentes. Outro dado que ilustra o caráter “independente'' é a vinculação religiosa: 11 dos 19 proponentes de projetos inspirados pelo ESP são ligados a alguma igreja.

As propostas do movimento são perigosas para o pensamento livre. Além dos projetos de lei contra a militância partidária, o ESP disponibiliza uma notificação extrajudicial que ameaça processar professores que abordarem sexualidade e diversidade de gênero. Além de configurar constrangimento ao exercício profissional, é uma baita contradição para quem diz defender a “pluralidade” e o caminho oposto dos países de alto desempenho em educação: Estados Unidos (em que alguns estados oferecem educação sexual desde o século 19), Nova Zelândia, Suécia e Finlândia, França. Ontário, no Canadá, tem currículo que discute relacionamento homoafetivo e identidade de gênero. Aqui, querem interditar o debate.

Mesma coisa com os estudos indígenas e africanos, classificados como porta de entrada para favorecer “movimentos sociais”. Já na Noruega, o currículo é generoso com o povo sami, habitantes originais do norte da Escandinávia. “Doutrinação”, por lá, chama-se respeito à diversidade e às raízes da história do país.

Suspeito que por trás da gritaria esteja uma enorme confusão conceitual. O Escola Sem Partido elege o marxismo como chaga principal, sem sequer se preocupar em definir que raios quer dizer com isso.

Fica nas entrelinhas o entendimento de que joga no mesmo balaio as ideias de Marx, o fracasso do socialismo real e as atrocidades imperdoáveis dos regimes comunistas.

Dessa forma, fica mais fácil ilustrar a tal sombra monstruosa e aterrorizante que “domina as universidades brasileiras” – outra afirmação sem nenhuma evidência.

Aliás, queria muito conhecer essa universidade. Fiz minha graduação em Jornalismo e mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo. E, definitivamente, lá não é. Pelo contrário, a New School, universidade que me recebeu como pesquisador visitante, é bem mais progressista que minha querida USP. E, ironicamente, fica numa cidade comunista (Nova Iorque) de um país comunista, os Estados Unidos.

Para piorar, o principal evangelista dessa Bíblia do Mal, na opinião do movimento seria ninguém mais, ninguém menos do que Paulo Freire. Justo ele, pacifista convicto e obsessivo pela ideia de que as pessoas deveriam pensar livremente.

Coisa de quem nunca leu uma linha sequer do educador brasileiro mais respeitado no mundo. Ou, se leu, não entendeu nada.

O baixo nível do debate, aliás, é o mais triste. Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis e para lá de questionáveis.

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Ganha quem aposta na confusão e na contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos.

E o futuro, aquele que nunca chega, vai ficando a cada dia mais distante.


Reino Unido e Brasil: O inverno está chegando e será longo. Mas vai passar

Leonardo Sakamoto

Sei que é desesperador ver os defensores do retrocesso celebrando conquistas e conquistas da humanidade desintegrarem-se do dia para a noite e a noite tomar conta de tudo em uma marcha que parece vencer o tempo.

Mas é o tempo que nos chama a refletir sobre nossos erros para reconstruir a resistência – resistência que não significa apenas lutar contra retrocessos, mas apontar saídas – saídas que não podem excluir pobres, trabalhadores e minorias do mundo, pois o mundo só fará sentido se for construído com eles, por eles e para eles.

Isso vale para a saída do Reino Unido da União Europeia, para a crise política, econômica e social brasileira, para qualquer lugar.

Não raro esquecemos que a história não caminha em linha reta e é a resultante de forças que variam em tamanho e intensidade de acordo com cada época. E, por isso, caímos em desespero ao ver maiorias se formarem com base no medo e no ódio e engatarem marcha à ré na efetivação da solidariedade, da fraternidade e dos direitos humanos.

A história não segue o relógio de indivíduos e é lenta em seu processo de conflito e acomodação. Até pode ser catalisada durante revoluções, mas a cada metro que avançamos, retrocedemos outro devido à reação do status quo para, enfim, obtermos alguns centímetros.

Tudo o que foi garantido pode sim ser perdido, incluindo a definição conceitual de coisas caras à nossa civilização, como dignidade e liberdade. Sim, a nossa existência é uma eterna batalha para fugir do abismo que nós mesmos, humanidade, cavamos com nossos pés.

Por isso mesmo que a ideia de resistência é tão importante. É uma ideia paciente, da qual não podemos nos dar ao luxo de abrir mão. Precisa estar viva, nas ruas, nas conversas de bar, na grande política do nosso cotidiano e na pequena política dos parlamentos, gabinetes e tribunais.

A sociedade avança como uma família que segue de mãos dadas, querendo atravessar uma rua movimentada. O mais jovem e forte do grupo poderia chegar do outro lado em um piscar de olhos, ele tem as condições e a consciência disso. Mas não irá. Voltará com os demais quando aparecer um carro em alta velocidade ou um caminhão desgovernado. Terá que respeitar o ritmo do indivíduo mais lento ou doente. Ou todos atravessam juntos ou a família nunca chegará ao outro lado.

Neste momento, nuvens escuras se aproximam do horizonte e prenunciam uma longa tempestade que pode cobrir o mundo e durar um bom tempo. Mas a tempestade passa e, no final das contas, as coisas mudam. Lentamente, mas mudam, com base em muito diálogo e muita luta. É cansativo, é desolador, mas é a condição humana.

Não é otimismo porque não sofro dessa doença. Apenas não aceito que a capitulação à barbárie seja uma alternativa.


Próximo passo no MS é indígenas pedirem perdão por serem assassinados

Leonardo Sakamoto

Por Spensy Pimentel*, especial para o blog

Os políticos profissionais costumam incluir sempre em seus discursos e propagandas o mote do “trabalho duro”. É um dos grandes chavões nessa arte de iludir e empurrar com a barriga que se tornou a vida política nacional.

Se, porventura, algum político quiser provar que isso é puro preconceito, o Mato Grosso do Sul oferece, neste momento, uma excelente oportunidade. Resolver o imbróglio que o próprio Estado brasileiro criou ali ao distribuir para colonos não indígenas as terras dos povos Guarani-Kaiowa e Terena ao longo do século 20 é um imenso desafio, digno dos mais habilidosos estadistas.

Com todo o respeito, esse toque serve também para os ativistas que têm se sensibilizado com a causa indígena por lá: não é resolvendo a situação de uma, duas, três ou mesmo dez comunidades que os problemas por lá estarão equacionados. São dezenas de grupos locais, literalmente, envolvidos no conflito fundiário.

Cada grupo tem suas lideranças, e elas se encontram em assembleias, onde trocam informações e chegam a consensos. Grupos de lideranças, por vezes, fazem o papel de porta-vozes desses coletivos, criando conselhos. Esses conselhos, porém, não tomam decisões que são impostas aos coletivos. Pelo contrário, eles tentam comunicar aos não indígenas algo sobre os consensos – e também sobre os dissensos – surgidos em assembleias.

Mas por que estou falando disso? É que negociar acordos em Mato Grosso do Sul supõe a criação de mesas de negociação que têm de ser amplas, beeeem amplas. Suficientemente amplas para que caibam centenas de pessoas, líderes de famílias extensas que se espalham pelas dezenas de aldeias das áreas Guarani-Kaiowa e Terena.

Familiares no velório de Clodiode de Souza, de 26 anos, do povo Guarani-Kaiowa, morto no dia 14 de junho. Foto: Ana Mendes (Cimi)

Familiares no velório de Clodiode de Souza, de 26 anos, do povo Guarani-Kaiowa, morto no dia 14 de junho em ataque de fazendeiros. Foto: Ana Mendes (Cimi)

Do outro lado, também estão centenas, talvez mais de um milhar – os fazendeiros que, com apoio do Estado brasileiro, criaram “propriedades” sobre as terras indígenas na região. A parte simples da história é que, como diversos porta-vozes têm deixado claro nos últimos anos, da parte dos ruralistas, a discussão se resume a praticamente um único fator: dinheiro. Traduzindo em miúdos, a grande questão que está posta em MS diz respeito às indenizações a serem pagas pelo valor das terras a serem demarcadas.

Sejamos francos: há anos acontecem as maiores tragédias em Mato Grosso do Sul envolvendo os povos indígenas, e não se vê um pingo de solidariedade ou compaixão por parte da elite local. Todo o esforço dos ruralistas tem sido por criar teorias conspiratórias mirabolantes ou encontrar bodes expiatórios entre os indigenistas ou os próprios indígenas – com a variante recente, ao longo dos últimos anos, de jogar a responsabilidade no governo federal, já que ele estava sob controle (sic) do arquivilão PT.

Assassinada uma liderança? Culpa dos indigenistas, que incitaram a invasão de terras. Crianças indígenas morrem desnutridas? Culpa das mães, que não cuidam devidamente dos filhos. Suicídios dos jovens? Culpa deles mesmos, que se entopem de álcool. Parece insano? Acompanhe o noticiário local para comprovar. E o interessante de MS é que você nem precisa chegar aos comentários das notícias para alcançar as declarações mais bizarras.

Recentemente, a Assembleia Legislativa do estado gastou meses de trabalho e milhares de reais para levar a cabo duas Comissões Parlamentares de Inquérito com conclusões brilhantes: a primeira, conhecida como CPI do Cimi, “comprovou” (sic) que o Conselho Indigenista Missionário é o grande responsável pelas ocupações de terra no estado, “incitando” os índios.

Não, leitor, ocupações não acontecem por viverem espremidos em terras minúsculas que se tornaram verdadeiras favelas, repletas de violência, drogas e miséria bem ao lado de amplas fazendas, repletas de gado, cana e soja, frequentadas por brancos de imensas barrigas e com belas camionetes. Fazendas que, por sinal, seus pais e avós lhes contam que ficam nos exatos locais onde suas próprias famílias indígenas viviam antes. Mas não, não tem nada a ver com isso, tudo é culpa do Cimi, que, na cabeça dos ruralistas, age com objetivos semelhantes aos daquele ratinho dos desenhos, o Cérebro – quer dominar o mundo e roubar a água do Aquífero Guarani (sim, essa mesma água que o agronegócio entope de resíduos de agrotóxicos).

A segunda comissão era chamada de CPI do Genocídio e se destinava a apurar a responsabilidade do Estado de Mato Grosso do Sul nos crimes cometidos contra os indígenas. Mas os deputados ruralistas conseguiram proibir que fosse mencionado o termo genocídio dentro da comissão. Tudo bem, porque, no final, eles concluíram que o poder público não tem nenhuma responsabilidade no conflito. Pensando bem, o Estado de MS não tem nenhuma responsabilidade mesmo. É completamente irresponsável em sua omissão quanto à segurança nas reservas indígenas, em sua incompetência nas políticas de apoio à agricultura familiar nas terras indígenas, em suas diretrizes que impedem a plena aplicação de políticas sociais nos acampamentos indígenas.

Então, voltando ao que realmente interessa aos ruralistas, o dinheiro. Caso o único fator em jogo seja o valor “real” da terra no mercado, o jogo fica ainda mais complicado. Na mesa de negociação armada entre 2013 e 2014, o governo federal apresentou uma proposta de indenização de quase R$ 80 milhões pelas 30 fazendas incidentes sobre uma única terra indígena, a Buriti, de 17,2 mil hectares, onde foi morto, em 2013, o professor terena Oziel Gabriel. A oferta foi violentamente rechaçada por parte dos fazendeiros, inviabilizando-se a continuidade dos diálogos.

Quer dizer: ao mesmo tempo em que negociar indenizações é algo imprescindível, em alguma medida, é preciso ter mecanismos muito bem estabelecidos para evitar as chicanas ruralistas. E, de qualquer forma, é bom que tenhamos clareza: falar em indenizações num cenário como o de MS envolve valores na casa dos bilhões de reais. Como disse uma liderança Kaiowa certa vez: “O problema é que nossa tristeza não é barata”.

O que fazer, portanto, diante desses impasses, e num cenário nacional tão desfavorável?

Em primeiro lugar, o conflito fundiário envolvendo terras indígenas já era conhecido do PMDB desde os tempos do Sarney. O que as distintas administrações federais fizeram, ao longo dessas três décadas, foi basicamente, empurrar o problema com a barriga. Alexandre Moraes e Temer reverterão as recentes portarias de identificação lançadas pela Funai? Espere para ver a confusão que isso poderá causar. Não há murro na mesa que resolva o caso de MS.

Se, como dizem alguns, a Nova República está desmoronando, talvez tenha chegado o momento de nossos novos tutores nacionais, os procuradores do Ministério Público Federal, tomarem a frente para organizar as negociações, porque não há outra opção viável em vista. Até mesmo o ruralista Reinaldo Azambuja (PSDB), atual governador de MS, já acenou com um plano para viabilizar as indenizações – ele propõe trocar as parcelas mensais que o estado envia à União por sua dívida pelos pagamentos a serem feitos aos fazendeiros. Isso sem falar que há alternativas complementares, nunca postas em prática: utilizar fazendas confiscadas de traficantes em permutas, por exemplo.

Se não tivermos logo um aceno consistente para alguma possibilidade de diálogo, o que pode haver além da escalada de violência? Nos últimos cinco anos, o Judiciário tem sido mais atento com os processos envolvendo ordens de despejo – já não se mandam comunidades indígenas para a beira da estrada por conta de qualquer medida liminar de primeira instância, como costumava acontecer. Mas, até quando isso durará?

A triste situação dos povos indígenas de MS é um vexame internacional para o Brasil. Está certo que vergonha na cara tem sido um artigo raro no mercado interno, mas, em algum momento, nós precisaremos estancar essa fase terrível que vem desde aquele 7 x 1 em 2014.

Quem sabe começamos justamente por onde toda essa tragédia, no fundo, começou, buscando reparar alguns dos enormes erros cometidos contra os povos indígenas?

(*) Spensy Pimentel, doutor em antropologia, é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas na questão indígena no país.


Pânico nas redes sociais: Se “Bolsomito” não é invulnerável, nós também não

Leonardo Sakamoto

Muita gente não se deu conta do impacto da decisão do Supremo Tribunal Federal que aceitou, nesta terça (21), denúncia de incitação ao crime de estupro e transformou o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) em réu em uma ação penal. Bolsonaro havia declarado, no Congresso Nacional, que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela “não merece'', repetindo o conteúdo em uma entrevista.

Segundo os ministros que avaliaram a denúncia, apresentada pela Procuradoria Geral da República, Bolsonaro não estava respaldado por imunidade parlamentar porque o ocorrido não teve relação com o exercício de seu mandato. Segundo o relator Luiz Fux, a mensagem que ele proferiu significa que há mulheres em posição de merecimento de estupro. “A violência sexual é um processo consciente de intimidação pelo qual as mulheres são mantidas em estado de medo.''

Independentemente do desfecho do caso, essa decisão é emblemática. Os ministros do STF deixaram claro que ninguém pode usar sua liberdade de expressão para atacar os direitos fundamentais de outros grupos e pessoas. Isso é óbvio, mas vinha sendo ignorado de forma sistemática neste clima de polarização política que vivemos.

Bolsonaro é considerado um exemplo por muita gente – incluindo parte significativa da elite brasileira que o prefere como presidente da República em comparação a outros candidatos de acordo com pesquisas eleitorais. E o seu comportamento – de rolo compressor verbal sobre a dignidade de minorias em direitos – tem certamente inspirado muitas pessoas a fazerem o mesmo com a certeza de que nada aconteceria com eles. Até porque nada acontecia com seu líder.

Agora, aterrorizados, muitos de seus seguidores passaram o dia protestando contra a decisão do STF nas redes sociais. Afinal de contas, se “bolsomito'' não é imortal, imbatível e invulnerável, podendo ser punido pela Justiça caso incite violência sem se preocupar com as consequências, o exército digital que o segue (e consegue ser mais violento que seu líder) também pode.

Muita gente na internet confunde opinião com discurso de ódio. É um erro bem comum quando não se está acostumado às regras do debate público de ideias. O anonimato traz aquela sensação quentinha de segurança e, por conta disso, não raro, as pessoas extrapolam. Sentem-se livres de punição pelos seus atos. Afinal de contas, na rede é menos simples (mas não impossível) identificar quem falou ou fez a abobrinha.

Vamos por partes: o direito ao livre exercício de pensamento e o direito à liberdade de expressão são garantidos pela Constituição e pelos tratados internacionais que o país assinou. Vale explicar, contudo, para quem não é familiarizado com leis e normas, que a liberdade de expressão não é um direito fundamental absoluto. Porque não há direitos fundamentais absolutos. Nem o direito à vida é. Prova disso é o direito à legítima defesa.

Pois a partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, indo além de expor a sua opinião, espalhando o ódio e incitando à violência, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas.

Pessoas como Bolsonaro dizem que não incitam a violência. Sabemos que não é a mão delas que segura a faca ou o revólver, mas é a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna banais o ato de esfaquear, atirar e atacar. Ou, melhor dizendo, “necessários'', quase um pedido do céu. São pessoas como ele que cozinham lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo.

A liberdade de expressão, contudo, não admite censura prévia. Ou seja, apesar de alguns juízes não entenderem isso e darem sentenças aqui e ali para calar de antemão biografias, reportagens, propagandas, movimentos sociais, a lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizer o que pensam. E foi isso o que aconteceu. Bolsonaro quis falar, Bolsonaro falou.

Entretanto, as pessoas são sim responsáveis pelo impacto que a divulgação de suas opiniões causa. Como foi o caso de dirigir a um grupo específico (mulheres) um sentimento de ódio. E toda pessoa que emitir um discurso de ódio está sujeita a sofrer as consequências: pagar uma indenização, ir para a cadeia, perder o emprego, tornar-se inelegível na próxima eleição. Afinal, o exercício das liberdades pressupõe responsabilidade. Quem não consegue conviver com isso, não deveria nem fazer parte do debate público, recolhendo-se junto com sua raiva e ódio ao seu cantinho.

Por fim, a responsabilidade por uma declaração é diretamente proporcional ao poder de difusão dessa mensagem. Quanto mais pública a figura, mais responsável ela deve ser.

O problema, portanto, não é ter opinião. Muito menos declará-la. E sim como você faz isso. De forma respeitosa ou agressiva? Privilegiando o diálogo de diferentes e buscando uma convivência pacífica, ou conclamando as pessoas para desrespeitar ainda mais aqueles vistos como diferentes por medo ou desconhecimento? Como disse Paulo Freire, todos somos guiados por ideologias. A diferença é se sua ideologia é inclusiva ou excludente.

Vocês acham que as pessoas que ficam indignadas com as declarações de Bolsonaro são uma minúscula minoria da população? Desconfio que não. Uma grande parte acha graça no que ele fala ou mesmo concordou com ele, tal como a plateia riu quando Alexandre Frota contou uma narrativa de violência sexual em um programa de TV.

A decisão do Supremo, portanto, é civilizatória. Não apenas para Bolsonaro, mas para aquilo que encaramos no espelho diariamente.


Nesta crise, não dê dinheiro aos ricos. Isso os torna vagabundos

Leonardo Sakamoto

Os 10% mais rico da força de trabalho brasileira aumentou sua renda de 2015 para cá enquanto a metade mais pobre diminuiu. É o que aponta um levantamento realizado pela Universidade de São Paulo. Com isso, a desigualdade cresceu, ao contrário do que aconteceu entre 2001 e 2014, quando ela recuou pelo fato da massa da renda dos trabalhadores mais pobres ter crescido mais do que a dos mais ricos.

Traduzindo em português, nessa crise, como em todas as crises, a ralé rodou.

Nesse contexto, o governo interino de Michel demonstra um carinho grande com o andar de cima ao propor o limite de gastos com educação e saúde (que afeta o povaréu) e evitar medidas que tirem uma pequena lasca dos mais ricos.

Por exemplo, a taxação de lucros e dividendos recebidos de empresas e uma alteração decente na tabela do Imposto de Renda – criando alíquotas de 35% a 40% para cobrar mais de quem ganha muito e isentando a maior parte da classe média. Ou a regulamentação de um imposto sobre grandes fortunas e um aumento na taxação de grandes heranças – seguindo o modelo norte-americano ou europeu. Todas essas medidas têm função arrecadatória, mas também de redução da desigualdade social.

Não resolvem os problemas econômicos. Mas seriam ótimas ações para que o governo interino demonstrasse que suas prioridades de curto prazo não são apenas com as classes sociais e associações empresariais que os colocaram lá, mas também com o povão que não foi às ruas, nem a favor, nem contra o impeachment, e assistiu a tudo bestializado. Afinal, democratizar a chicotada também é por uma questão de justiça social.

É engraçado que muitos entre nós, os mais abastados, não reclamam do dinheiro público quando ele nos beneficia. Seja através do peso relativo menor na carga tributária, do benefício de estudar em boas universidades públicas, dos juros pagos em fundos baseados na dívida federal, da polícia que sarrafa os pobres e também morre para nos proteger.

Mas gritam, berram e vociferam ao defendermos a manutenção de programas de transferência de renda ou criticarmos a implantação de tetos para gastos públicos em educação e saúde. E fuzilam com os olhos ou partem para as vias de fato quando tenta-se discutir taxas e impostos sobre os mais ricos para que os que têm mais ajudem com mais para sairmos da crise.

Isso não é criminalizar quem é abastado, como muito tem se falado toda vez que se toca nesse assunto. Mas rediscutir um sistema que, em todos os momentos, de crise ou de bonança, faz com que os muito ricos sejam poupados, enquanto os mais pobres vão virando geleia.

Para muita gente, fraternidade e solidariedade são palavras que significam “doação de calças velhas para vítimas de enchente”, “brinquedos usados repassados a orfanatos no Natal” ou “um doc limpa-consciência feito a algum orfanato”.

Nada sobre um esforço coletivo de buscar a dignidade para todos, com distribuição imediata (e não depois que o bolo crescer) da riqueza gerada no país. Crescimento produzido pelos mesmos trabalhadores que não desfrutam da maior parte de seus resultados. Porque, apenas teoricamente, todos nascem iguais.

Considerando que o governo coloca em seu horizonte a discussão sobre as mudanças na política da valorização do salário mínimo para os da ativa e pensionistas, as alterações no financiamento do Bolsa Família e, é claro, a própria reforma da Previdência Social, percebe-se que a redução da desigualdade social não voltará tão cedo.

E se eu dissesse que “dar dinheiro aos ricos os torna vagabundos?” Por que usar a frase para os pobres é ser um “analista sensato da realidade” e usar a frase aos ricos é ser um “canalha de um comunista safado”?


Marca de luxo da Via Veneto é responsabilizada por trabalho escravo

Leonardo Sakamoto

Bolivianos trabalhavam mais de 12 horas por dia e viviam em condições degradantes em oficina onde costuravam roupas da marca Brooksfield Donna, pertencente à Via Veneto – responsabilizada pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social por trabalho análogo ao de escravo. A empresa nega envolvimento. Entre os trabalhadores, foi resgatada uma jovem de 14 anos. Leia a íntegra da matéria de Piero Locatelli, para a Repórter Brasil, sobre o caso.

Brooksfield Donna, marca da Via Veneto, é flagrada com trabalho escravo

Por Piero Locatelli, da Repórter Brasil

O mesmo tecido que estampa a capa da página da Brooksfield Donna no Facebook estava sobre mesas de uma precária oficina de costura na zona leste de São Paulo no começo de maio. Na rede social, o tecido vestia o corpo de uma modelo loira, magra e alta. Na periferia de São Paulo, ele era costurado por cinco bolivianos que trabalhavam ao menos 12 horas por dia, sete dias por semana, e moravam dentro do local de trabalho.

A Brooksfield Donna, marca feminina de luxo do grupo Via Veneto, produziu peças com mão de obra análoga à de escravo, de acordo com auditoria do Ministério do Trabalho e Previdência Social realizada no dia 6 de maio e divulgada agora pelo governo. A empresa nega ter qualquer responsabilidade sobre os trabalhadores encontrados (leia a íntegra da nota).

Catálogo (à esquerda) mostra roupa com a mesma estampa encontrada na oficina (à direita). Foto: Montagem (Piero Locatelli e MTPS)

Catálogo (à esquerda) mostra roupa com a mesma estampa encontrada na oficina (à direita). Foto: Montagem (Piero Locatelli e MTPS)

Na casa onde a oficina estava instalada, não havia extintores de incêndio, as instalações elétricas eram precárias e improvisadas, e o chão acumulava pilhas de tecidos, formando um cenário de fácil combustão onde a única porta de saída permanecia trancada.

O forte odor também escancarava as condições precárias de higiene, segundo os auditores fiscais. A ausência de papel higiênico, colchões dentro da cozinha e a falta de limpeza do local também agravavam a insalubridade. Segundo os auditores, “as condições de segurança e saúde eram inexistentes, tanto nos locais de trabalho, como nos locais de moradia.”

Loja da Brooksfield Donna na rua Oscar Freire, em São Paulo. Foto: Piero Locatelli

Loja da Brooksfield Donna na rua Oscar Freire, em São Paulo. Foto: Piero Locatelli

Um dos cinco trabalhadores era uma adolescente de 14 anos, filha do dono da oficina, Felix Gonzalo, que também foi encontrada na mesma situação. Segundo os auditores, a adolescente não poderia trabalhar porque a costura é uma das atividades econômicas onde é proibida a contratação de trabalhadores menores de 18 anos. O trabalho com instrumentos perfurantes, como a máquina de costura, está entre “as piores formas de trabalho infantil”, que o Brasil se comprometeu a eliminar até 2016.

Dentro da oficina, os fiscais encontraram outras duas crianças. Elas moravam com as mães, que passavam quase todo o tempo sobre as máquinas de costura. A demanda das crianças por cuidados agravavam os riscos de acidente em um trabalho que exige concentração e em um ambiente onde as máquinas não tem nenhum tipo de isolamento.

Etiquetas da Brooksfield Donna na oficina onde os trabalhadores foram encontrados. Foto: MTPS

Etiquetas da Brooksfield Donna na oficina onde os trabalhadores foram encontrados. Foto: MTPS

Via Veneto comandava produção – Embora todas as peças produzidas por essa oficina fossem para a marca Brooksfield Donna, o local era um fornecedor “quarterizado” da Via Veneto, ou seja, uma empresa subcontratada por outra companhia terceirizada pela marca. Esse tipo de prática é um elemento comum nas redes que exploram o trabalho escravo. Uma empresa intermediária, a MDS Confecções, recebia as encomendas e as repassava à confecção de Gonzalo, que costurava as peças exclusivamente para a Brooksfield Donna.

Cada costureiro recebia, em média, R$6,00 por peça costurada. Roupas da mesma coleção feita na oficina chegava a custar R$ 690,00 em lojas visitadas pela reportagem. Mesmo se um trabalhador costurasse 293 horas por mês, mais de catorze horas por dia útil, sua remuneração estaria abaixo do piso salarial da categoria, de R$ 1.246,50 mensais.

Detalhe de blusa costurada na oficina onde foi encontrado trabalhadores em condição análoga à de escravo. Foto: MTPS

Detalhe de blusa costurada na oficina onde foi encontrado trabalhadores em condição análoga à de escravo. Foto: MTPS

A empresa alegou aos auditores que não possui nenhuma relação com os trabalhadores. Questionada pela reportagem, a Via Veneto afirma que não terceiriza seus serviços, e que “não mantém e nunca manteve relações com trabalhadores eventualmente enquadrados em situação análoga a de escravos pela fiscalização do trabalho”.

A Via Veneto, porém, controlava todo o processo de produção e confecção segundo os auditores fiscais do trabalho. Era ela quem definia prazos, quantidades e os modelos das roupas. A empresa também estabelecia o preço pago à confecção, arbitrado na elaboração de “peças-pilotos”, os modelos a serem seguidos pelas costureiras nas oficinas. Além disso, o pagamento dos trabalhadores pelas empresas só era feito após a Via Veneto receber as encomendas.

Detalhes das peças encomendadas pela Brooksfield, em mural na MDS. Foto: MTPS

Detalhes das peças encomendadas pela Brooksfield, em mural na MDS. Foto: MTPS

A empresa também permitiu que a MDS, contratada por ela, terceirizasse a produção para outras empresas, o que reduz ainda mais os custos. Outras marcas que contratam a empresa para produzir roupas, como a Le Lis Blanc e a Animale, produzem as suas peças dentro da própria MDS, segundo a auditoria. A reportagem tentou entrar em contato com a MDS, mas não obteve resposta da empresa. Questionada pela Repórter Brasil, a Brooksfield não respondeu as perguntas sobre sua relação comercial com a MDS.

“Sem trabalho e em situação famélica” – Os trabalhadores encontrados continuam em uma situação de extrema fragilidade devido à postura da Brooksfield diante dos problemas. “A empresa demonstra uma falta de vontade de resolver uma situação básica, de dignidade básica do trabalhador,” diz Lívia Ferreira, auditora fiscal que coordenou a fiscalização. “[A Via Veneto] não teve nem uma humanidade mínima de pagar para cinco trabalhadores valores que nem são altos.” A empresa deveria pagar entre R$ 1.062,99 e R$ 4.156,39 mil para cada trabalhador, totalizando R$ 17.688,55 para todos os cinco.

Trabalhadores não receberam auxílio da Brooksfield, o que os deixa em uma situação de extrema fragilidade. Foto: MTPS

Trabalhadores não receberam auxílio da Brooksfield, o que os deixa em uma situação de extrema fragilidade. Foto: MTPS

A postura do grupo Via Veneto é distinta da maioria das empresas que foram flagradas com trabalho escravo nos últimos anos, e demonstraram alguma colaboração na tentativa de sanar as demandas urgentes dos trabalhadores logo após a fiscalização. Marcas como Le Lis Blanc e Luigi Bertolli aceitaram tomar medidas emergenciais, apesar de se defenderem das acusações de trabalho escravo em momento posterior. Ao negar o auxílio, a Via Veneto argumentou ao Ministério Público do Trabalho que “não é responsável por nenhuma das pessoas” do inquérito que investiga o caso.

A negação do problema coloca a Via Veneto entre os grupos mais atrasadas no combate ao trabalho escravo, um problema enraizado no DNA do setor têxtil do Brasil e do mundo. Admitir que a escravidão existe é apenas o primeiro passo para uma série de mudanças necessárias e urgentes no combate a esse tipo de exploração. Entre outras medidas a serem tomadas, estariam a transparência aos clientes sobre seus fornecedores e o monitoramento das condições de trabalho nessa cadeia.

Como a empresa sequer tomou o primeiro passo nesse sentido, agora quatro dos trabalhadores encontrados na oficina só estão recebendo o seguro desemprego no valor de um salário mínimo.Já a adolescente está numa situação de vulnerabilidade ainda maior, já que esse benefício não é previsto para os casos de trabalhadores com essa idade. Segundo o relatório dos auditores fiscais, enquanto a postura da empresa não mudar, esses trabalhadores devem continuar “sem trabalho e em situação famélica”.

Atualização em 23/06/2016: A MDS enviou nota à Repórter Brasil onde afirma que “a empresa não possui qualquer envolvimento com o trabalho análogo ao escravo, tampouco com a quarteirização de trabalhadores para a marca Brooksfield Donna''. Leia a íntegra da nota da empresa.

Atualização em 24/06/2016: A Brooksfield Donna enviou uma segunda nota à Repórter Brasil referente à reportagem. Leia a íntegra da nota da empresa.


No frio de SP, a ironia é tão bem cuidada que brota belas flores de cinismo

Leonardo Sakamoto

Um leitor educadamente criticou o fato de usar muita ironia nos meus textos.

Pedi desculpas se isso o agredia. Mas também dividi a responsabilidade com o fato de morar em São Paulo.

Onde o Largo da Forca, no qual condenados eram pendurados pelo pescoço durante o século 19, hoje se chama Praça da Liberdade.

Onde o principal cemitério municipal fica na Rua da Consolação.

Onde uma das ruas mais chiques, caras e elegantes da cidade, frequentada por uma elite por vezes acusada de preconceito, homenageia um baiano, o doutor Oscar Freire.

Onde o poder público acaba com um complexo de campos de várzea, nos quais a população mais pobre jogava futebol, para transformá-lo em um lugar sintonizado ao rico entorno. E, ao final, ainda mantém o nome de Parque do Povo.

Mas também onde certos grupos conservadores, que nunca se importaram com a vida ou a dignidade de quem não tem teto, usam as mortes deles pelo frio para atacar a prefeitura, que se considera progressista.

E onde a prefeitura, que se considera progressista, usou justificativa conservadora, como evitar a “refavelização'', para explicar a retirada de materiais que o povo de rua usa para se proteger em dias de frio intenso.

(O prefeito que se desculpou, disse ter sido interpretado e citado fora de contexto e reclamou do ano eleitoral. Mas para alguém morrer de frio neste momento, algo deixou de ser feito muito antes. Pelo poder público. Pela sociedade.)

Enfim, caro leitor, a ironia não é monopólio paulistano. Mas, por aqui, ela nos define.

E, de tão fina e delicada, floresce às vezes como um belo cinismo.


A placa diz que a cidade é de Jesus. Mas ele me disse que isso é intriga

Leonardo Sakamoto

Uma mensagem na entrada de Sorocaba, cidade do interior paulista, tem sido alvo de uma polêmica. O Ministério Público solicitou a remoção de uma placa com a frase “Sorocaba é do Senhor Jesus Cristo'' por considerar que ela viola a liberdade de crença e o Estado laico. Agora, a 11a Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça determinou que ela deve ser mantida.

O relator do processo, desembargador Oscild de Lima Júnior, afirmou, segundo reportagem do Estado de S.Paulo, que “o Brasil foi colonizado e formado dentro dos parâmetros da civilização cristã''. Ou seja, a questão seria cultural, não religiosa.

A seguir essa questionável lógica, outras placas poderiam ser colocadas. Afinal, a bíblia não é feita só do bom homem de Nazaré. Exemplos:

“Em Sorocaba, é proibido comer camarão'' (Levítico 11:09 e 10) ou

“Bem-vindo a Sorocaba, terra onde os bancos não podem cobrar juros'' (Levítico 25:37) ou ainda

“Em Sorocaba, não use mullets, muito menos megahair'' (Levítico 19:27)

Adoro quando alguém se utiliza do discurso de nossas “raízes históricas” para justificar a permanência de algo. Afinal, a escravidão, a sociedade patriarcal, a desigualdade social estrutural, a exploração irracional dos recursos naturais, a submissão da mulher como mera reprodutora e objeto sexual, as decisões de Estado serem tomadas por meia dúzia de iluminados ignorando a participação popular, lavar a honra com sangue, caçar índios no mato, tudo isso está em nossas “raízes históricas''. E, vale lembrar, que queimar pessoas por intolerância de pensamento está nas raízes históricas de muita religião.

Quando o ser humano consegue caminhar a ponto de ver no horizonte a possibilidade de se livrar das amarras de suas “raízes históricas'', obtendo a liberdade para acreditar ou não, fazer ou não fazer, ser o que quiser ser, instituições não ajudam a catalisar esse processo. Nossa primeira Constituição republicana já contemplava a separação entre Estado e Igreja, mas estamos mais de 120 anos atrasados em cumprir a promessa.

sorocaba

Foto: Pedro Negrão/Jornal Cruzeiro do Sul

Em 2012, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão de São Paulo pediu que a Justiça Federal determinasse que as novas notas de reais a serem impressas viessem sem a expressão “Deus seja louvado''. Não foi atendida, infelizmente.

O Banco Central (responsável pelo conteúdo das notas) informou que o fundamento legal para a inserção da expressão “Deus seja louvado” nas cédulas era o preâmbulo da Constituição, que afirma que ela foi promulgada “sob a proteção de Deus”. O procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, afirmou, na época, que “quando o Estado ostenta um símbolo religioso ou adota uma expressão verbal em sua moeda, declara sua predileção pela religião que o símbolo ou a frase representam, o que resulta na discriminação das demais religiões professadas no Brasil”.

Não é porque o país tem uma maioria de cristãos que espíritas, judeus, budistas, muçulmanos, ateus, religiões de matriz africana, enfim, minorias, precisem aceitar um crucifixo em um espaço do Estado. Mas considerando que crucifixos e referências religiosas adornam edifícios públicos como o próprio Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, não se pode dizer que o Poder Judiciário e o Legislativo são isentos na matéria.

E, o mais relevante: as denominações cristãs são parte interessada em polêmicas judiciais, como pesquisas com célula-tronco ao direito ou a extensão do direito ao aborto. Se esses elementos estão presentes nos locais onde são tomadas as decisões, como garantir que elas serão isentas? O Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos, tenham seus templos, igrejas e terreiros e ostentem seus símbolos. Mas não pode se envolver, positiva ou negativamente, para promover nenhuma delas em espaços públicos.

E não sou eu quem diz isso, mas Mateus: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus'' (Mateus 22:21).

“Ah, se é assim, vamos implodir o Cristo Redentor!'' Particularmente, mantendo o mirante do Corcovado, façam o que acharem melhor com a estátua. Ou coloquem um Goku gigante. Mas esse argumento é chantagem besta, do mesmo DNA de: “se for para começar a discutir as regras do jogo, levo a minha bola embora''.

Se a Justiça não quiser subtrair, que então some. Coloque uma placa com uma Estrela de Davi, uma Crescente com uma Estrela, um OM em sânscrito, uma Roda do Dharma, um Yin-Yang, um Khanda e algumas reflexões ateístas. Mas tendo em vista todas as manifestações religiosas e crenças do brasileiro, vai faltar espaço na entrada de Sorocaba para registrar tudo. Então, se não podemos todos, não coloque ninguém.

E, façamos justiça, Sorocaba não é a única cidade a ter um placa assim, há muitas outras. Aliás, eu e uma amiga já pensamos em colocar uma placa na entrada de Paraty (RJ) com a frase “Paraty pertence a Satanás'' para ficar ao lado de outra atribuindo a propriedade ao inspirador do cristianismo. Os leitores não dizem que sou satanista, então vamos colocar isso em prática, porque tenho meus direitos…

Você pode estar pensando que esse debate é inútil frente a tantas necessidades do país. Mas está enganado. Ele é simbólico, portanto estruturante do que entendemos como Brasil.

O respeito aos direitos humanos não deveria partir do medo de ser punido, mas da consciência de que a sociedade deve levar em conta a vontade da maioria desde que respeitada a dignidade das minorias. E isso não é negociável.

Se você acha que isso vale, por exemplo, para questões de cor de pele ou gênero mas não para origens étnicas ou religião, simplesmente não entendeu bem a ideia.


Manual de como NÃO fazer diplomacia. Ou a razão do mundo estar rindo de nós

Leonardo Sakamoto

Se existe alguma área de governo em que é desaconselhável dar cavalo de pau, é na política externa. A diplomacia de um país não fica mudando de sentido a cada vez que muda um governo. Pode até trocar algumas prioridades, mas quase nenhum governo do mundo já entra desfazendo o que fez o antecessor. Até porque, muito mais do que na política doméstica, onde os interesses das diferentes camadas sociais são mais conflitantes, na área externa é um pouco mais fácil discernir as posições que convêm ao país como um todo, independentemente dos governos.

Claro que tem diferenças, mas a base costuma ficar. Se um governo assina um tratado internacional, o próximo tem que respeitar. Sai Bush, entra Obama, e a política dos Estados Unidos para Israel é praticamente a mesma. Direita e esquerda na França vão ser protecionistas com sua agricultura. Trabalhistas e Conservadores na Inglaterra defenderão mais livre comércio. O México vai sempre abraçar o Tio Sam e sempre tentar puxar o tapete do Brasil. Na China e em Cuba… bem, não muda o governo na China e em Cuba…

Por aqui mesmo, alguns grandes princípios da nossa diplomacia, como a não-intervenção, a defesa do multilateralismo, a busca de maior justiça e equilíbrio no sistema internacional, a busca de um relacionamento diversificado com todos os povos e nações não mudaram completamente, nem mesmo ao longo do regime militar.

Enfim: nosso novo ministro interino de Relações Exteriores, José Serra, é uma pessoa inteligente e sabe perfeitamente disso. Por isso que, em seu discurso de posse, disse que iria fazer política externa de acordo com interesses do país, não conforme uma ideologia partidária. Ao contrário: iria restaurar a centralidade da política externa nas prioridades do governo e recuperar o prestígio internacional do Brasil, que foi altíssimo nos dois governos Lula e caiu horrores no governo Dilma. E isso não é “intriga da direita'', como alguns dilmistas querem vender. Pude verificar isso in loco em reuniões com diplomatas de outros países, em Genebra ou em Nova Iorque, por conta de minha função como conselheiro das Nações Unidas para a questão da escravidão contemporânea. Era latente a surpresa deles com a diferença de comportamento do país.

Portanto, que bom né? Não, infelizmente, a realidade tem sido outra.

Em apenas 30 dias de desgoverno, nosso chanceler interino parece que está fazendo força para demonstrar como NÃO fazer diplomacia.

A coleção de trapalhadas é impressionante para tão pouco tempo: mandou voltar atrás em um voto do Brasil que não era controverso sobre a Palestina numa resolução da Unesco, agência das Nações Unidas para Educação e Cultura, só porque a resolução qualificava Israel como “potência ocupante''.

Ah, vá! O Brasil vem votando de forma equilibrada, mas favorável, à causa Palestina e contra a ocupação militar israelense desde antes de FHC. Assim como outros 137 países, o Brasil reconheceu oficialmente a Palestina como um Estado, com as fronteiras que tinha em 1967. Se Israel está ocupando um território de uma nação que o Brasil reconhece como Estado, como é que não seria uma “potência ocupante''? Então agora vamos “desconhecer'' o Estado Palestino? Vamos defender que aquela bandeira que vemos hasteada nas sedes das Nações Unidas seja derrubada?

Não é à toa que essa atitude deixou metade dos observadores internacionais com quem tenho contato de boca aberta. A outra metade estava recolhendo o queixo do chão. Quando as bocas de ambos os grupos se fecharam e os queixos se juntaram, começaram a fazer tsc, tsc, tsc…

O que faz um chanceler interino mal chegar e encomendar “estudos'' para fechar a rodo embaixadas na Africa e no Caribe. Não por ideologia, claro. Talvez seja economia de gastos… Mas será que Serra não tem visão de longo prazo? Será que não sabe que a economia africana está crescendo robustamente nos últimos 15 anos e abrindo enormes oportunidades para o Brasil? Não sabe que se fechar 20 dessas embaixadas pequenas em países pobres, com baixos salários, não dá o custo da embaixada do Brasil em Paris? Não sabe que esses países africanos e caribenhos abriram embaixadas aqui em Brasília também (afinal de contas esses gestos são recíprocos) e reverter assim do nada tem um custo político elevado? E não sabe que foram essas embaixadas pequenas que nos ajudaram, entre muitas outras coisas, a obter os votos para emplacar brasileiros no comando de duas importantes organizações internacionais: a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO)?

E por falar em OMC: o Brasil vem há décadas jogando suas fichas nas negociações comerciais multilaterais conduzidas nessa organização. Fez isso não por ideologia, mas por saber que é o seu melhor interesse, pois seria o único lugar em que seria possível obter ganhos para nossa agricultura, o único palco de disputa aliás em que seria teoricamente possível ter espaço para exigir o fim dos subsídios protecionistas dos países ricos. E não é que nosso interino vai lá em Genebra e diz que está considerando abandonar a OMC? E diz isso na frente do Diretor-Geral brasileiro, que o Brasil suou para eleger, e que está por sua vez suando a camisa para conseguir um acordo comercial geral? Quando diplomatas e funcionários de agências internacionais, que atuam em Genebra, me perguntam o sentido de uma ação como essa, tento explicar o inexplicável.

O governo interino acha que vai se dar melhor fazendo acordos bilaterais. Ou melhor, considera que os governos anteriores não fizeram porque eram ideologicamente contrários, e não porque as condições oferecidas eram péssimas, bem piores que no âmbito da OMC. Ele, o chanceler tão não-ideológico, irá rapidinho descobrir, se já não descobriu, que o buraco é bem mais embaixo. Ou vai ter que entregar o ouro ou vai voltar para casa com o rabo entre as pernas.

Por isso, tenho dificuldades para descrever a declaração cometida por Serra durante o Roda Viva, da TV Cultura, ao ser perguntado por que ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU já não seria prioridade: “Não entendo muito desse assunto não, a disputa por um assento no Conselho de Segurança é briga de gente grande''.

Em outras palavras, vamos dormir e deixemos que briguem os grandes. Tipo a Itália.

Mas pelo menos nosso notívago chanceler está trazendo de volta o prestígio e a centralidade para nossa política externa, tão maltratada nos anos Dilma. Se você conversasse com qualquer diplomata brasileiro lotado em qualquer posto estrangeiro, seja ele conservador ou progressista, ouvia reclamações sobre o atraso no pagamento de ajuda para moradia e afins. O governo Dilma deixou atrasos vergonhosos no pagamento de aluguéis, mudanças e contas de luz.

Mas, até nesse ponto, a moral do chanceler está baixa. Quando assumiu, prometeu R$ 800 milhões para botar rapidamente as contas em dia. Até agora, não conseguiu nem 50 mangos com seus amigos interinos do Planejamento. E, até o fim do ano, o que devem vir é mais cortes. Talvez ele acredite que seja prestigioso publicar uma lista de 34 organizações internacionais que o Ministério do Planejamento interino considera que devemos abandonar porque supostamente não temos condição de pagar. Acredito, isso está fazendo um bem enorme à nossa imagem lá fora.

Só para destrinchar um pouco, entre essas organizações de que pensamos em nos escafeder, estão coisas tão básicas e fundamentais quanto o tribunal permanente de revisão do Mercosul Ou seja, ao sairmos, qualquer causa que os nossos sócios do Mercosul levantarem contra nós, perderemos de WO.

A lista de trapalhadas, infelizmente, não pára aí. As notas emitidas pela chancelaria são um capítulo à parte. De acordo com diplomatas estrangeiros com quem falei, em linguagem diplomática, só falta o Brasil xingar os vizinhos de bobos e feios.

Mas por outro lado, quando em Orlando, na Flórida, ocorre o pior assassinato em massa da história daquele país, que o próprio presidente Obama denunciou como um crime de ódio e de homofobia, a nota de nosso chanceler interino fala só em terrorismo, silenciando conscientemente sobre um dos aspectos mais perniciosos dessa tragédia. Tragédia que também ocorre no Brasil com a morte sistemática de homossexuais e transsexuais pelas mãos da intolerância. Ou seja, somos capazes de entender a dor deles porque também é a nossa dor.

Faltou solidariedade na hora certa. Um comportamento que leva os povos do mundo a se unirem e serem parceiros.

Mais sério ainda — e mais triste — é a brusca reversão da política de acolhimento de refugiados sírios e de migrantes. Tenho acompanhado, por conta de denúncias de exploração de trabalho escravo e tráfico de seres humanos envolvendo migrantes estrangeiros no Brasil, a situação das discussões para receber grupos de refugiados. E o que tinha tudo para ser um baita negócio, tanto do ponto de vista humano quanto dos interesses econômicos (grande parte desses sírios são profissionais com boa formação e que poderiam ajudar em déficit de mão de obra qualificada) e de longo prazo do Brasil – afinal, receberíamos dinheiro grosso alemão para ajudar a acomodar entre nós uma comunidade qualificada e trabalhadora, refugiada de guerra — foi abruptamente cancelado pelo governo interino.

E a acolhida humanitária aos migrantes haitianos afetados pelo violento terremoto de 2010 vai pelo mesmo caminho. Como parece aliás que vai toda a política externa humanitária do Brasil, internacionalmente reconhecida.

Mas por que será isso tudo? Não era para ser uma diplomacia não ideológica? Ou “ideologia'' é tudo aquilo que pensa quem não concorda comigo? A resposta passa por aqui: “Serra está usando chumbo grosso porque quer marcar posição de força no novo governo e, para isso, precisa sinalizar uma ruptura profunda com o governo Dilma'', explica Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da FGV e colunista da Folha.

Em outras palavras: Serra está querendo jogar para a plateia. Não está preocupado com a diplomacia, o que quer é um palco para tentar se cacifar para 2018 contra os seus possíveis rivais no campo conservador. Chamar a atenção, virar notícia, dizer que está fazendo e acontecendo. Ele, que sempre sonhou em ser presidente do Brasil, preferia ter como trampolim o Ministério da Fazenda, ou, não podendo, o do Planejamento. Teve que se contentar com o Itamaraty. Não é à toa que ele tem gasto boa parte de seu tempo querendo dar pitaco na candidatura tucana à Prefeitura de São Paulo, jogando seu xadrez político, revisitando as bases. Política externa, mesmo, esta ele está deixando à míngua, como ela era com Dilma – exceto para dizer ou propor as barbaridades listadas neste post de vez em quando.

Como disse Paulo Freire, um dos mais respeitados e citados acadêmicos brasileiros no exterior, que vem sendo vilipendiado por grupos de ultra-direira no Brasil, todos têm ideologia. A diferença é se sua ideologia é inclusiva ou excludente.

Tantos atropelos, tantas decisões impensadas, muitas delas desabonadoras e prejudiciais à imagem do país lá fora, tudo isso por parte de um governo interino de um partido que defende um programa que nunca seria eleito pelo voto popular. Que direito José Serra e Michel Temer têm de ensaiar esses cavalos-de-pau? O jeito é torcer para vários desses passos trôpegos não passem de ensaio ou bravata, sem jamais ganharem a avenida.

Serra é uma pessoa inteligente. Deveria analisar, portanto, outro ângulo: se ele está jogando para a plateia, creio que escolheu a plateia errada, porque essa, por mais conservador que possa parecer o panorama político nacional, não tem número suficiente de eleitores para elegê-lo presidente.

O chanceler interino está nu e, com ele, o Brasil. E, pelo que estamos ouvindo lá fora, o mundo está dando risada.


Brasil inaugura a fase sincera: “se não estou preso, é porque sou honesto”

Leonardo Sakamoto

“Alguém que teria cometido aquele delito irresponsável que o cidadão Machado apontou não teria até condições de presidir o país'', afirmou Michel Temer.

Eu ainda estou tentando descobrir se o presidente interino tem amigos. Amigos de verdade, daqueles que dão um toque do tipo: “Saka, papo reto: cê vai mandar mal se for por esse rolê, mano''.

Ou colegas leais? Funcionários atentos? Um assessor de imprensa que não estivesse jogando Candy Crush quando ele decidiu fazer um pronunciamento para negar informações presentes na delação premiada à Operação Lava Jato de Sérgio Machado? O ex-presidente da Transpetro afirmou que Michel teria negociado uma doação de recursos ilícitos a uma campanha eleitoral de Gabriel Chalita. E faltou alguém para dar um toque a ele a fim de que fizesse isso de uma forma decente.

“Se estou aqui, é porque não fiz nada de errado'' e sua derivação “se não estou preso, é porque sou honesto''. E até uma morsa em coma sabe que ambas construções retóricas são uma afronta à inteligência.

Com nobres exceções, a classe política dependeu, até agora, de recursos de empresas para se eleger. E se você acha que uma polpuda doação de campanha é um investimento desinteressado é porque viveu em uma caverna desde que nasceu, longe do restante da sociedade. Ou seja, muitos estão lá exatamente porque fizeram algo que varia do ilegal ao imoral.

Se essa frase brotou da consultoria jurídica, poderiam ter burilado um pouco mais. Colocado uma mesóclise, quem sabe? O fato é que ela também mostra um esforço de tentar se explicar sem se comprometer – vai saber o que a delação da Odebrecht aguarda…

A ideia é ruim porque pode ser usada para praticamente qualquer situação. Sendo você inocente ou não.

Se tivesse cometido delito, não teria condições de presidir o Brasil, diz Michel Temer.

Se tivesse cometido delito, não teria condições de presidir a Câmara dos Deputados, diz Eduardo Cunha.

Se tivesse cometido delito, não teria condições de presidir a CBF, diz Marco Polo Del Nero.

Mas acho que descobri a tática de nosso interino: confundir para dividir. Ótimo de bastidores, mas fraco de oratória, ele tenta dar o drible da vaca nos jornalistas – enquanto vocês acham que entenderam por onde vou, eu vou mesmo pelo outro lado. E também contando com o fato que nós ainda não nos esquecemos que sua antecessora, em discursos, saudava a mandioca, estocava vento e lembrava de cachorros como figuras ocultas por trás de toda criança.

Mas se o problema de dirigentes do país fossem só seus discursos, poderiam chamar coletiva diariamente só para cantar Justin Bieber que eu aplaudia.