Blog do Sakamoto

Ser mãe ou esposa de um preso é ir ao inferno junto com ele

Leonardo Sakamoto

Por trás de quem mata e quem morre, há outras pessoas que sofrem junto.

Quando um crime acontece, lembramos primeiro – e com toda a razão – da dor de quem perdeu o ente querido ou acompanhou seu sofrimento nas mãos de uma ação violenta, de um ato criminoso, de um gesto tresloucado ou inconsequente.

Mas há duas famílias envolvidas, sendo que a do outro lado raramente é lembrada. Pelo contrário, torna-se corresponsável. E, por mais que nenhum juiz declare pena, vão para o inferno junto.

Um grupo de mulheres que protestava na porta da penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, foi retirada com balas de borracha e spray de pimenta por policiais militares nesta quarta (18). Elas haviam queimado sofás e pneus. Uma delas chegou a desmaiar e outra, grávida, começou a ter convulsões. Segundo apurou reportagem do UOL,  o protesto é porque seus parentes, pertencentes a uma facção criminosa estão com medo de morrer pelas mãos de outra facção caso as transferências de presos deixem eles em minoria.

''Quero que meu filho pague, mas cumprindo o direito dele'', disse uma das mães ao repórter Carlos Madeiro. A chacina dentro desse presídio já deixou, ao menos, 26 mortos, e entra na conta da matança que está acontecendo no sistema prisional brasileiro no vácuo de políticas deixado pelo Estado.

Esclarecedor de nossa sociedade machista é que, nas redes sociais, leitores bradam que a culpa também foi dessas mulheres por terem criado seus homens assim. Bem, talvez sim. Talvez não. Talvez seja responsabilidade também de nossa ação e nossa inação como sociedade. Talvez da incompetência do Brasil em mudar sua política antidrogas e parar de mandar para a cadeia vendedor de maconha; em permitir que mais de um terço dos presos seja provisório, sem julgamento; de garantir que prisões sejam escolas de crime e não ressocializem, pelo contrário, gerem ódio contra a sociedade; de fornecer alternativas e oportunidades reais.

Quando alguém é preso, geralmente não segue para a cadeia sozinho pagar pelo crime que cometeu. Vão também mães, irmãs, esposas, filhas, avós que, religiosamente, fazem filas nas portas dos centros de detenção e presídios, ou das Fundações Casa e similares, desde as primeiras horas nos dias de visita.

No final, a pena de muitas mulheres começa na condenação de seus filhos, maridos, pais, irmãos e terminam quando eles deixam a cadeia. Quando deixam. Quando não as deixam. Quando conseguem sair, enfim, sem carregar a cadeia dentro de si. Sendo jovens, levam por toda a vida. E, daqui a pouco, talvez a partir dos 16.

É triste que as mesmas filas que se formam nas portas de um depósito masculino de gente não se formem do lado de fora dos presídios femininos. A quantidade de pais, irmãos, maridos, filhos, avôs que vão visitar mulheres encarceradas são, proporcionalmente, em número vergonhosamente menor do que a quantidade de visitantes mulheres de homens encarcerados.

O padrão em nossa sociedade é que mulheres acompanhem e sirvam, entendendo que precisam ser repostas, quando necessário. E que homens atuem para manter e defender esse ciclo idiota.

Os presos que são condenados devem pagar o débito com a sociedade. Mas eu, que não creio em transferência de culpa, sinto uma áspera tristeza em cenas como as de hoje. Mães não deveriam ser abandonadas. Não deveriam perder seus filhos assassinados por outros filhos que, por conta disso, também vão abandonar suas mães. E mães não deveriam tomar chuva e passar frio para visitar seus filhos.

Quando tratei desse assunto em outro texto por aqui, recebi uma mensagem de um leitor que cravou: ''mãe de bandido deveria ser esterilizada''. Nesta quarta, li coisas muito parecidas circulando na rede.

Talvez seja essa a saída e não a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos: esterilizar úteros que pariram criminosos. Ou, talvez, se nossa ciência permitir, descobrir com cálculos precisos os úteros ruins e impedir que deles brote algo.

Conhecendo nossa sociedade, os úteros ruins não serão úteros ricos, que sempre tiveram acesso a tudo – mesmo que, de alguns deles tenha brotado os que põem fogo em indígenas em pontos de ônibus, espancam pessoas em situação de rua, matam homossexuais ou transexuais pelo ódio à diferença ou a si mesmos. Ou que roubam bilhões do poder público, corrompem e são corrompidos, escravizam.

Mas úteros negros e pardos, que lavam roupa, fazem faxina e não raro criam os filhos sozinhos. Úteros que andam de ônibus, ganham uma miséria, dividem-se entre o trabalho e a família.

E, por isso, não vivem, apenas enfileiram-se, dias e noites, na periferia de alguma grande cidade.


Como sofismas e falácias dominam o debate público no Brasil

Leonardo Sakamoto

''Nosso governo dá todo apoio a quem apoia o Brasil e ao mesmo tempo pede a vocês que apoiem o governo, porque estarão apoiando o Brasil.''

A frase foi postada na conta pessoal de Michel Temer, no Twitter, na manhã desta quarta (18), pinçada de seu discurso no lançamento de um novo programa federal voltado a orientar pequenos empresários no acesso ao crédito e a reduzir a burocracia.

O tema é de suma importância – apesar das administrações federais até agora (e a dele inclusive) terem oferecido apenas migalhas aos pequenos e microempresários enquanto enormes subsídios são oferecidos ao grande capital, além da proteção dada à alta renda.

Dia desses, mantive um diálogo com o dono de um pequeno comércio que defendia que a origem de seus problemas era o excesso de ''regalias'' dos trabalhadores. Mostrei a ele números apontando que, na verdade, o trabalhador e o pequeno empresário são os que sempre se ferram em momentos de crise. Ele concordou com isso, mas, em pouco tempo, voltava a responsabilizar os trabalhadores, repetindo o discurso vendido por certos analistas e o governo.

Com as palavras e as emoções certas, marteladas insistentemente, somos capazes de nos tornar capatazes de nossos opressores. Todos nós, sem exceção.

E as ideias nem precisam ter sentido. Desde que se encaixem em nossa narrativa pessoal do mundo, mesmo que a ideia esteja equivocada, basta parecer fazer sentido para ser abraçada.

É triste que pessoas formem opinião através de sofismas e falácias. Isso é resultado de falhas não apenas na educação formal, mas também da falta de vivência coletiva e do conhecimento do outro – coisas que não se aprendem no banco da escola.

Mas é assustador que sofismas e falácias sejam usadas por administradores públicos como justificativa de convencimento. Nesse caso se encaixa a frase do começo deste texto, proferida e tuitada por Michel Temer.

Não é o único, claro. Em tribunas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em Assembleias Legislativas e Câmaras dos Vereadores, em prefeituras, em palácios estaduais e federal, elas são usadas para convencer dos maiores absurdos.

Trouxe, há algum tempo, exemplos que posto novamente:

É impossível gerar filhos a partir de duas mulheres ou dois homens. Portanto, casais homossexuais são uma aberração.

Com 16 anos, jovens podem votar. Então, com 16 anos também podem ser punidos como adultos.

Os sem-teto ocupam imóveis que não são deles. Portanto, podem ocupar a sua casa a qualquer momento.

Não se ouvia muitas histórias de violência na época da ditadura. Logo, a vida era mais segura entre 1964 e 1985.

Se índios usam celulares e computadores, que não coisas da cultura deles, logo já não são mais índios.

As mulheres recebem salários menores que os homens. Portanto, elas são menos competentes do que eles.

Eu não sou racista e ninguém que conheço é racista. Então, não existe racismo no Brasil.

Para enriquecer, é só trabalhar duro. Quem é pobre, é que não trabalha o suficiente.

Há corruptos no governo. E o governo é de esquerda/direita. Logo, toda a esquerda/direita é corrupta.

Antes, havia menos gays nas ruas. Agora, os gays se beijam em público. Logo, gays se beijando em público fazem as pessoas virarem gays.

Ele trabalhou desde muito pequeno e se deu bem na vida. Logo, o trabalho infantil faz bem às crianças.

A polícia prende mais jovens negros. Logo, jovens negros são bandidos.

Quais desses pensamentos enlatados, de falsa relação de causa e consequência, você já comprou e revendeu?

Não é uma crítica aonde se quer chegar, longe disso. Que cada um tenha sua opinião.

Mas ao caminho tortuoso que levou até lá.

Não concorda?

Ora, cidadãos devem amar seu país. E quem ama, não critica. Logo, se não o ama, deixe-o.


A prisão de Guilherme Boulos é recado do Estado a quem quiser resistir

Leonardo Sakamoto

A acusação de que Guilherme Boulos incita ao crime por mediar uma reintegração de posse e sua detenção são tão bizarras quanto as ações que foram movidas contra o coordenador do MTST por ter afirmado que parte da sociedade iria resistir nas ruas às reformas que reduzem direitos propostas pelo governo Michel Temer.

A Polícia Militar de São Paulo deteve Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), na manhã desta terça (17). Ele dava apoio a cerca de 700 famílias em uma reintegração de posse na ocupação ''Colonial'', em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo.

Boulos tentava mediar, junto com outras pessoas, o diálogo entre os moradores e a Tropa de Choque e foi acusado de incitação à violência e desobediência. ''Cometem a violência de despejar 700 famílias e eu que sou preso por incitação à violência?'', afirmou Boulos a este blog. Um comandante da polícia militar que participava da reintegração afirmou que o caso de incitação à violência era uma reincidência e citou manifestações realizadas com a participação de Boulos perto da casa de Temer.

Levado para o 49o Distrito Policial, em São Mateus, ele foi ouvido pelo delegado e, até a publicação deste post,  não havia sido solto. A PM afirmou, em nota, que atendeu a uma solicitação de apoio aos oficiais de Justiça e que moradores resistiram à reintegração de posse com pedras, tijolos e barricadas com fogo. A situação de acalmou e a reintegração seguiu com a retirada de móveis.

Guilherme Boulos foi liberado na noite de terça. Ele assinou um termo circunstanciado sob acusação de resistência (opor-se à execução de ato legal, mediante violência ou ameaça a funcionário competente para executá-lo ou a quem lhe esteja prestando auxílio). ''O secretário vai ter que se explicar, porque sequer os policiais que me prenderam colocaram no depoimento que eu teria atirado rojões'', disse ele, criticando nota da Secretaria de Segurança Pública que afirmou que ele teria atirado rojões contra a PM.

Resistência significa utilizar os meios possíveis e ao alcance de cada um para demonstrar sua insatisfação. Isso ocorre com as elites econômica e social brasileiras, que não fazem de rogadas ao usar recursos financeiros para fazer valer sua vontade. Mas quando trabalhadores e movimentos sociais prometem resistência, ocupando ruas, avenidas e outros espaços, a ação vira caso de polícia? Onde o pessoal acha que está? Ou quando gostaria que estivéssemos? No Brasil do final do século 19 ou em plena ditadura civil-militar?

A criminalização da resistência de apenas um dos lados mostra o quanto os atores de nosso sistema político são incapazes de entender o que é, de fato, uma democracia. Chamar de violenta toda forma de resistência com a qual não concordamos é, no mínimo, infantil. Como, por exemplo, mostrar resistência diante de uma injustiça, como aquela que ocorre quando se retira centenas de famílias em um dia de chuva, sem saberem para onde ir, nem como.

PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo

PM cumpre reintegração de posse de terreno em São Mateus, na zona leste da capital paulista. Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo

Dessa forma, ao que tudo indica, a detenção de Guilherme Boulos não ocorre por sua atuação na mediação da manhã desta terça, mas por seu papel na resistência social e política brasileira. Sua voz tem sido uma das principais nas críticas ao governo Michel Temer, assim como também era durante o governo Dilma Rousseff. Ou seja, essa é sim uma prisão política.

Por isso, é preciso calá-lo ou reduzir sua credibilidade. Para que a narrativa da criminalização de movimentos sociais seja efetiva na mídia, nas redes sociais, nos espaços políticos. Narrativa que quer inverter os sentidos das palavras e transformar resistência popular em ameaça à democracia e à governabilidade.

Boulos é liderança do principal movimento social de massa deste país em termos de centralidade da pauta, capacidade de mobilização e visão de atuação hoje. Um movimento com uma agenda antiga, mas com uma equipe que sabe se comunicar e influenciar a disputa simbólica da narrativa, pela mídia, pelas redes sociais.

E vem exatamente do posicionamento crítico adotado contra a administração federal anterior o respeito de vários setores da esquerda para com o movimento e com ele. Esse respeito e essa capacidade de mobilização, que conseguem colocar dezenas de milhares de militantes nas ruas quando preciso, assusta muita gente.

Que prefere vê-lo preso do que articulando ou em cima de um caminhão de som.

Essa seria uma forma do poder público de São Paulo, mas não apenas ele, dar um ''recado'' aos movimentos sociais, de acordo com fontes ligadas a ele ouvidas por este blog. Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo. Esse tipo de ação é uma amostra do que está acontecendo com parte da esquerda brasileira, com um macarthismo à brasileira se instalando aos poucos, como ação sistemática de limpeza ideológica. Já vimos, aqui e ali, a perseguição a quem usa roupas vermelhas e a agressão em espaços públicos contra quem defende determinado ponto de vista. Até o juramento de Hipócrates foi rasgado por médicos que acham normal não prestar atendimento a alguém que não compartilha da mesma opinião política que eles.

Daqui para a caça aberta nas ruas, escolas e empresas é um pulo.

Apesar de conquistas sociais obtidas na última década, o governo do PT não atendeu às pautas históricas propostas pelos movimentos sociais – o que, como já disse aqui, não seria nenhuma ''revolução'', mas melhoraria a vida de milhões de brasileiros que se mantêm excluídos. Pelo contrário, em nome da ''governabilidade'' fez alianças espúrias, apoiando forças econômicas e políticas que eram contrárias a esses interesses populares, ignorando o suporte oferecido por esses mesmos movimentos para um mandato que significasse uma mudança de paradigma.

E o Brasil sob Michel Temer só piora esse quadro, com o desmonte do simulacro de Estado de bem-estar social que temos por aqui por conta da Constituição Federal de 1988 e por décadas de lutas do sociais.

Todos os movimentos sociais sabem o que é serem considerados criminosos simplesmente por lutarem pelos direitos que lhes são garantidos pela Constituição. Sabem o que é levar cacete por representar o que está em desacordo com a visão hegemônica de ''progresso'' e crescimento econômico, seja no campo ou na cidade. E ainda guardam na memória as cicatrizes deixadas pelo passado, temendo que voltem a ser caçados dependendo do clima político do país.

Você pode não gostar de Guilherme Boulos. Mas, se preza pela liberdade, deveria repudiar a sua criminalização e dos movimentos sociais populares, da mesma forma que deve ser repudiada a criminalização de qualquer liderança social, de direita ou esquerda.

Pois, hoje é com ele. Depois, com uns sindicalistas, operários, padres, jornalistas…

Amanhã, quem sabe, não vai ser com você?

Post atualizado às 23h30 do dia 17/01/2017 para inclusão de informação sobre a soltura de Boulos.


Oito homens têm tanta grana quanto metade do mundo. E há quem ache bonito

Leonardo Sakamoto

O patrimônio somado de oito bilionários é equivalente à riqueza conjunta dos 3,6 bilhões mais pobres do planeta, ou seja, metade do mundo, de acordo com estudo da Oxfam divulgado por ocasião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Em 2010, eram 388 bilionários possuindo o mesmo que a metade mais pobre. A concentração foi aumentando ao longo dos anos até agora. E a tendência, segundo a organização, é piorar.

Os oito, todos homens, são Bill Gates, da Microsoft, Amancio Ortega, da Inditex (que controla a Zara), Warren Buffett, da Berkshire Hathaway, Carlos Slim, do Grupo Carso, Jeff Bezos, da Amazon,Mark Zuckerberg, do Facebook, Larry Ellison, da Oracle, e Michael Bloomberg, da Bloomberg.

Antes de mais nada, vale desenhar porque muita gente tem a cognição afetada quando o assunto é riqueza.

O problema não é ter dindim, erva, bufunfa, grana, mas a desigualdade de Justiça e de oportunidades ser tão gritante que dói.

O problema não é alguém ter um apartamento de 400 metros quadrados enquanto outro mora em um de 40. O que desconcerta é uma sociedade que acha normal um ter condições para desfrutar de um apê de 4 mil metros quadrados enquanto o outro apanha da polícia para manter seu barraco em uma ocupação de terreno, seja em Itaquera, Grajaú, Osasco, Pinheirinho, Eldorados dos Carajás, onde for.

Não é inveja, incauto leitor. É indignação diante de uma cena de terror de filme B.

A Oxfam propõe que governos aumentem impostos sobre grandes fortunas e sobre rendas mais altas e atuem para que os mais ricos não consigam adotar formas de pagar menos imposto – proporcionalmente – que os mais pobres.

As recomendações são as mesmas que este blog vem defendendo há anos. A taxação de lucros e dividendos de empresas, impostos decentes sobre grandes fortunas e sobre grandes heranças, uma alteração da tabela do Imposto de Renda (cobrando alíquotas de 35% a 40% de quem ganha muito e isentando a maior parte da classe média) e a redução do teto da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salário são ações no sentido de desconcentrar renda.

Se alguns pagarem mais imposto, a maioria pode pagar menos, considerando que, hoje, os muito ricos pagam, proporcionalmente, menos imposto que os mais pobres.

Isso não resolve de vez os problemas do país. Mas seriam ótimas ações para indicar o tipo de sociedade que gostaríamos de construir: Um país que acredita na redução da desigualdade como elemento fundamental para o desenvolvimento coletivo ou um que tem um orgasmo coletivo toda vez que um bilionário brasileiro sobe um degrau no ranking de bilionários globais.

Sim, pobre que sente prazer com o tamanho da fortuna alheia é patologia recorrente por aqui.

Ao invés disso, vemos circular declarações de advogados de gente rica reclamando da ''criminalização da riqueza'' no país.

No dia em que a parte rica, a caminho da praia de domingo, seja revistada pelo poder público e tenha que voltar para casa pois é suspeita de futuros crimes (como o novo secretário municipal de Ordem Pública do Rio de Janeiro afirmou querer retomar com os mais pobres da periferia), daí acho que essa ''solidariedade'' de classe fará sentido. E, olha, que os crimes dos ricos são mais danosos à sociedade do que os crimes dos pobres…

Mas, afinal, não estamos falando de criminalizar quem é rico. Mas rediscutir um sistema que faz com que os muito ricos sejam ainda mais ricos, enquanto os mais pobres vão virando geleia.

O então senador Fernando Henrique Cardoso, antes de pedir que esquecessem o que ele escreveu, defendeu a taxação de grandes fortunas no Congresso Nacional. Luiz Inácio Lula da Silva, antes de chamar os usineiros e não os cortadores de cana de ''heróis'', também defendia a redução na jornada de trabalho. O poder muda as pessoas, é fato. O pior é ter que ouvir que isso não é mudanças, apenas resultado da ampliação da consciência.

Infelizmente, estamos indo na contramão. E os mais pobres no Brasil foram, novamente, os escolhidos para pagar o pato pela crise. O governo Michel Temer conseguiu a aprovação de uma emenda constitucional que, na prática, vai impedir novos investimentos em áreas como educação e saúde pelos próximos 20 anos. Ao mesmo tempo, está propondo uma reforma da Previdência Social que fará com que trabalhadores, principalmente os braçais, sofram e talvez nem consigam se aposentar. Isso sem contar um reforma trabalhista que vai tirar direitos que garantem um mínimo de dignidade aos mais pobres.

O déficit público precisa ser equacionado e soluções amargas devem ser propostas e discutidas. Mas, como venho dizendo aqui, o governo Michel Temer demonstra um carinho grande com o andar de cima ao propor uma medida que limitará gastos públicos – o que afeta a xepa – e evitar as que tirem uma pequena lasca dos mais ricos, como as já citadas.

Entendo que este grande barco chamado Brasil seja um transatlântico de passageiros, com divisões de diferentes classes, com os mais ricos tendo mais conforto em suas cabines. Não estou propondo uma revolução imediata para que cabines deixem de existir – apesar de ser uma maravilhosa utopia. O ideal, pra já, seria que as cabines de terceira classe contassem com a garantia de um mínimo de dignidade e as de primeira classe pagassem passagem proporcional à sua renda.

E que, ao contrário do Titanic, que tenhamos botes salva-vidas para todos e não apenas aos mais ricos.

Na prática, contudo, seguimos sendo um navio que carrega escravos, como vem se provando, com parte dos passageiros chicoteando a outra parte. Afinal, o Brasil ao invés de buscar medidas que amorteçam o sofrimento dos mais pobres, que são os que mais sentem uma crise econômica, tenta preservar os mais ricos e as associações empresariais que trocam governos e elegem representantes. Esquece (ou ignora) que democratizar a chicotada também é uma questão de Justiça social.


“Não há inocentes na cadeia”, diz um povo ignorante ou doente

Leonardo Sakamoto

Um homem foi espancado até a morte e teve a casa incendiada e o bar destruído após ser acusado de ser o responsável pela morte de uma adolescente no interior do Estado de São Paulo há algum tempo. A investigação na época, contudo, não havia confirmado que ele era o responsável.

O povaréu envolvido no linchamento, que aumentou a bola de neve de rumores, fofocas e maldizeres, não quis saber e decidiu que ele era culpado. Ao final, questionado pela barbárie, um dos participantes da loucura declarou: “Se a gente fez, ele deve. Alguma coisa ele deve''.

Nas últimas semanas, brigas entre o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e outras facções levaram à morte de mais de 100 encarcerados em cadeias do país. Muitos dos quais, conforme relevaram boas reportagens de colegas, eram presos provisórios, que não tinham sido julgados ou condenados – parte dos quais, réus primários.

Quantos inocentes, que estavam lá por erro do sistema judiciário ou da polícia, podem ter sido assassinados devido à incompetência ou incapacidade do Estado brasileiro em garantir a vida de pessoas sob sua custódia e da própria Justiça em analisar, em um curto espaço de tempo, os casos de prisões provisórias? Lembrando que mais de um terço das pessoas que estão em prisões não foram declaradas culpadas pela Justiça nem em primeira instância. E que outros já cumpriram sua pena e não foram libertados.

Essa é uma situação angustiante. Ser preso por um crime que não se cometeu e morrer enquanto busca se provar a própria inocência.

Mais angustiante ainda é verificar, através de postagens em comentários de redes sociais, opiniões em blogs e textos em sites, que uma parte da sociedade não se importa com isso. E comemora como se fosse gol da seleção em final de Copa do Mundo a morte indiscriminada de presos.

Afinal de contas, para essas pessoas “se a gente colocou o sujeito na cadeia, ele deve. Alguma coisa ele deve''.

Parte da população, em momentos de comoção, feito uma horda desgovernada, pede sangue. Afinal de contas, ''aquele bando de bandidos não são seres humanos porque desrespeitaram a lei''. E mesmo ''os que não mataram ou estupraram, matariam se pudessem'', não é mesmo? ''Devem apodrecer por lá''. ''Inocentes? Não há inocentes na cadeia. Se estão na cadeia é que são culpados.''

Tenho medo desse ponto de vista. Ele está presente em turbas ensandecidas que ignoram a lei e fazem Justiça por conta própria. Mas também em uma população com tanto medo de si mesma que acaba por ignorar as leis e se guiar por discursos que prometem o impossível: garantir a paz promovendo a guerra. Pois, no final das contas, essa guerra com ares de inquisição se estenderá a todos, sem exceção.

O que me lembra sempre de Oscar Wilde: ''Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe. O segundo de papa. O terceiro de povo''.


Major da PM sugere “bala perdida” em quem defende “direitos dos manos”

Leonardo Sakamoto

O perfil e a página de Elitusalem Gomes de Freitas, major da Polícia Militar do Rio de Janeiro, sugeriram  ''50 vagabundos na vala'' para cada policial morto por facções criminosas e ''porrada'' nas favelas controladas por elas.

Afirmando que ''estamos em guerra'' e que ''Estado democrático de direito é o caralho'', a postagem diz que ''se os direitos dos manos começarem a fazer barulho, uma 'bala perdida' na cara do filho da puta que estiver gritando mais alto resolve''.

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''Cento e quarenta policiais mortos em 2016! Dez policiais mortos e mais 12 feridos e mutilados em 2017, o senhor me pergunta a razão de desejarmos uma resposta à altura de tais atos terroristas?'', afirmou o major Elitusalem Freitas a este blog. ''Nossa tropa morre dia e noite, são pais de família, filhos, filhas, irmãos e irmãs que não vão voltar para suas casas! Guerra total aos narcoterrorisitas, é isso ou nem o senhor e sua família poderão mais sair de casa''

O major foi candidato a vereador no Rio de Janeiro pelo PSC, apoiando o candidato a prefeito Flavio Bolsonaro, no ano passado. Obteve 4.497 votos e não foi eleito.

Em março de 2015, o jornal Extra mostrou que o oficial enviou mensagens a um grupo de oito policiais militares, convocando-os para atuar na pacificação do complexo da favelas da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ele teria usado a provocação ''Partiu guerra?''

A assessoria de imprensa da Polícia Militar do Rio de Janeiro informou que será aberto um ''procedimento apuratório'' para avaliar a conduta do policial. E que essa opinião não representa os princípios doutrinários da corporação.

Post atualizado às 21h20 do dia 12/01/2017 para inclusão do posicionamento do major.


Governo Crivella quer volta de revista aos pobres que vão à praia

Leonardo Sakamoto

O secretário de Ordem Pública do Rio de Janeiro, coronel Paulo Amêndola, escolhido pelo prefeito Marcelo Crivella, quer retomar a revista às pessoas que cheguem de ônibus às praias da Zona Sul carioca.

''Os ônibus vão chegando, despejando pessoas nas praias, e grupos de policiais vão revistar as pessoas, ver se estão armados, verificar se têm documentos. Tem menores de idade que saltam na zona sul sem dinheiro. Como vão voltar? Vão roubar de alguém! Ou dar calote. Os guardas nas areias estarão de olho nessas pessoas'', afirmou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Segundo ele, quem vier sem dinheiro se tornará um suspeito.

Não é a primeira vez que alguém tem essa ideia genial. Mas a cada vez que ela aparece, não deixo de me surpreender com a natureza humana.

Constranger o acesso a uma área pública, como uma praia, porque não se tem dinheiro no bolso é, além de autoritário e inconcebível, uma punição preventiva por um crime que ainda não se cometeu ou não se cometerá. Além de clara discriminação social e econômica pelo poder público. O coronel afirma que a atuação não será discriminatória – o que é difícil imaginar porque a ideia é, em si, discriminatória.

E se um amigo emprestar dinheiro ou a pessoa conseguir uma carona de volta? Quantas vezes pessoas já não foram, quando jovens, se divertir sem uma merreca no bolso, contando com a boa vontade dos outros?

E, vale lembrar, a revista de passageiros sem uma boa justificativa passa por cima de direitos e, por isso, a Justiça chegou a suspender essas ações preventivas no Rio. Não que a polícia não faça isso sistematicamente com moradores mais pobres das grandes cidades, mas a cena de um monte de gente, majoritariamente negra da periferia, sendo revistada enquanto outros, mais ricos, chegam e armam o guarda-sol sem serem incomodados, é gritante.

Há tantas razões para achar a medida uma besteira que não consigo entendê-la como proteção a moradores e turistas, mas segregação pura e simples.

As forças de segurança em uma grande metrópole, como o Rio ou São Paulo, são treinadas para, primeiro, garantir a qualidade de vida e o patrimônio de quem está na parte ''cartão postal'' das cidades e, só depois, garantir o mesmo para outras camadas sociais. Temendo que a parte ''encardida'' da cidade estrague a festa, a incapacidade do poder público garantir soluções estruturais cria situações como essa.

Muita gente escreveu sobre a possibilidade de terrorismo internacional nos jogos olímpicos, ao analisar as possibilidades midiáticas de difusão do medo pelos açougueiros do califado islâmico. O que se comprovou paranoia e não realidade. O que de fato continuamos tendo é o terrorismo de Estado contra a própria população.

O Rio cria entraves à liberdade ao reprimir ainda mais o punhado de direitos das comunidades pobres que ainda não foram defenestrados. A população cada vez mais teme seu governo ao invés de respeitá-lo. Dessa forma, vamos nos afastando das mudanças para garantir paz – que incluem um Estado que pense em qualidade de vida para todos e, ao mesmo tempo, em um horizonte de opções para os mais jovens que saem em busca de um lugar no mundo e caem no colo do tráfico.

Em nome da ordem, o Rio renova seu estoque de gás lacrimogênio, lançando mão de caveirões e bombas. Que limpam a cidade para os ''homens e mulheres de bem'', além de esportistas, jornalistas, políticos e turistas como se a dignidade fosse uma grande UPP.

Quando a população vai à rua protestar contra a redivisão dos royalties do petróleo, as elites econômica e política acham tudo bonito. Quando as pautas são sociais, pau neles. E quando é com pobre, aí é revista e se abrir a boca, já viu. Lembra os verde-olivas que adoravam uma marcha cívica, mas desciam o cacete nos estudantes que protestavam e nas “hordas de bárbaros” quando elas saíam da casinha.

Claro que ninguém quer ir à praia, com sua família e amigos, para correr o risco de ser assaltado por ladrões, apanhar ou coisa pior. O problema é que pseudopolíticas de segurança pública como essa, que tratam parcelas da população somo sub-gente, empoderam ainda mais ações como as de setembro de 2015, quando grupos se organizaram por redes sociais no Rio de Janeiro, para caçar, por conta própria, a ''origem da violência'' na praia.

Justiceiros urbanos desmiolados, em bando, tal como aqueles que promovem arrastões, atacaram ônibus com pessoas que consideravam suspeitas, espancaram jovens, construíram um novo conceito de Justiça para preencher o vazio deixado pelo Estado. Ao final, comemoraram tudo na internet.

Queria viver em um país em que não houvesse cidadãos de primeira e segunda classes. Ambientes mais coloridos de pessoas mas também de ideias. Só não sei se todo mundo iria querer viver em um lugar assim também.

A herança da escravidão se faz sentir ainda porque ela é constantemente reinventada, não mais atrelada apenas à cor da pele e origem étnica, mas ainda consequência desta.

Isso lembra a todos que a cidade é para alguns que têm um tanto na conta bancária e pensam de uma determinada forma. Esses podem participar dos destinos de sua pólis e ser tratados com dignidade. Para os outros, resta um ''Rio: ame-o ou deixe-o''.


Aumento da passagem em SP: Por que os mais pobres pagam o pato?

Leonardo Sakamoto

O prefeito João Doria prometeu que não reajustaria a tarifa de ônibus em São Paulo, criando uma saia justa para seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, que controla metrô, trens e ônibus metropolitanos. A fim de que uma promessa de campanha não fosse quebrada e para não diminuir a receita do metrô (que ficaria mais caro que o ônibus, afastando usuários), manteve-se as tarifas básicas municipais e estaduais.

Mas a conta do aumento do subsídio foi jogada nas costas dos trabalhadores que moram em outros municípios e trabalham na capital, a maior parte deles de baixa renda, com um aumento substancial no valor da integração entre os sistemas municipal e estadual. E apesar do Tribunal de Justiça de São Paulo ter confirmado a decisão liminar de primeira instância, fazendo com que o governo seja obrigado a reduzir o aumento da passagem integração, essa micareta está longe de acabar, pois o governo estadual ameaça, agora, aumentar todas as passagens.

O caso não trata apenas do direito à mobilidade na maior região metropolitana do país. É exemplar de como expulsamos os mais pobres para a periferia das grandes cidades ou para cidades-dormitório, enquanto os mais ricos podem aproveitar os serviços públicos de melhor qualidade morando na região mais central. E é exatamente quem tem menos recursos para deslocamentos o escolhido para pagar o pato.

Também mostra como concentramos riqueza, evitando a descentralização de oportunidades e o florescimento e o fortalecimento de novos ''centros'' nas periferias. Assim, pessoas poderiam trabalhar, estudar ou se divertir perto de casa. Mas a qualidade das opções públicas e privadas à disposição cai à medida em que nos afastamos do centro expandido da cidade de São Paulo.

Durante anos, para cursar o ensino médio em uma boa escola pública, eu tinha que me deslocar do glorioso Jardim Pirajussara, no Campo Limpo, até a região do Pari. O que dava quase duas horas para ir e voltar de ônibus e metrô. Se houvesse boas alternativas de trabalho e educação perto da casa de meus pais, talvez eu não teria gasto tanto tempo, recursos e vida com deslocamento.

Mas, nesse caso, a cidade seria justa e democrática e não um grande empreendimento direcionado para que empresas de ônibus, incorporadoras imobiliárias, indústria de carros e motos, construtoras, bancos, políticos, enfim, lucrem com a manutenção de profundas desigualdades que geram os grandes deslocamentos impostos aos trabalhadores.

São Paulo vive uma das maiores ''migrações'' diárias em todo o mundo. Sentimos isso pelas suas consequências, que engarrafam a cidade e depreciam a dignidade humana. E por não entendermos o contexto em que essa história está inserida, ovacionamos os que prometem supostos paliativos que apenas agravam o problema, como avenidas mais largas para carros e o aumento na velocidade das marginais.

São Paulo, ao longo do século 20, foi se aprimorando no urbanismo da exclusão. Houve pouco esforço de gestores públicos no sentido de reorganizar a cidade a fim de reduzir a necessidade dessas grandes ondas de ''migração''. Pelo contrário, até o traçado do metrô é motivo de protestos dos mais abastados, que não querem que estações cuspam trabalhadores pobres perto de sua casa, como foi o caso da futura estação Higienópolis.

Logo após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, José de Anchieta, com a ajuda de índios catequizados, ergueu um muro de taipa e estacas para ajudar a mantê-la ''segura de todo o embate'', como descreveu o próprio jesuíta. Os indesejados eram índios carijós e tupis, entre outros, que não haviam se convertido à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial, como na fracassada invasão de 10 de julho de 1562.

Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Vieram os bandeirantes – hoje considerados heróis paulistas -, que caçaram, mataram e escravizaram milhares de índios sertão adentro. Da África foram trazidos negros, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas do interior ou o açoite de comerciantes e artesãos na capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de direito, que fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários.

Mas, apesar da frenética transformação do pequeno burgo quinhentista em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, o muro ainda existe, agora invisível. E, 463 anos após a fundação de São Paulo, esse mesmo muro impede o acesso dos excluídos, expulsos dos locais onde a cidadania acontece, ao centro do burgo paulistano. Mesmo que seja apenas para trabalhar para muitos dos mesmos senhores e senhoras que negam a eles o mais básico dos direitos: o direito à livre locomoção.

O muro não é mais feito de taipa, mas de aumentos em passagens do transporte público para quem mora fora dos limites da cidade. E de políticos que existem para cumprir os desejos de determinadas classes sociais a que eles pertencem ou que financiam suas campanhas.

Como sempre digo, mal sabem que o futuro de todos na cidade está profundamente conectado. No final, São Paulo vai ser de todo mundo ou não será de ninguém.


Camareiras exploradas: O que hotéis não contarão aos hóspedes neste verão

Leonardo Sakamoto

Por Alexandre Bezerra e Antonio Biondi, para a Repórter Brasil

Jornadas excessivas de trabalho sem remuneração adicional, acúmulo de funções, remuneração baixa mesmo em se tratando de um dos setores da economia que mais cresce no mundo, episódios frequentes de assédios moral e sexual e baixo grau de proteção institucional aos empregados. Essa é a realidade a qual as trabalhadoras e trabalhadores do setor hoteleiro têm de conviver diariamente, em especial as camareiras – a subcategoria mais numerosa e considerada a mais desprotegida e explorada do segmento.

A receita dos hotéis brasileiros registra dez anos seguidos de crescimento, segundo dados consolidados de 2014 da pesquisa “Hotelaria em números”, realizada há 22 anos pela consultoria JLL. Com a desvalorização do real em relação ao dólar a partir de 2013, o Brasil atraiu mais estrangeiros e, mesmo em cenário de crise política e econômica, todo o setor hoteleiro se expandiu. Os resorts foram os estabelecimentos que mais se beneficiaram. Em comparação a 2013, o faturamento total desse tipo de hospedagem, que reúne recreação e divertimento, cresceu 33,4% e o resultado operacional bruto registrou aumento de 2,8% em 2014. Após a Copa do Mundo de 2014, o cenário dos dados relativos a 2015, a ser divulgado, tende a ser ainda melhor, por conta da expectativa e criada em torno das Olimpíadas no Rio de Janeiro.

A Organização Mundial do Turismo, ligada às Nações Unidas, informou que 1,184 bilhão de pessoas cruzaram alguma fronteira em viagens de lazer em 2015. As estimativas da organização para 2030 é que haverá 1,8 bilhão de chegadas turísticas internacionais.

“As perspectivas de crescimento para o turismo são favoráveis, considerando os números da China, um gigante cujos habitantes há pouco tempo estão saindo de suas fronteiras. Mas é nítido que, apesar de o turismo crescer, isso não se reflete em melhorias das condições de trabalho e salários dos trabalhadores do setor em todo o mundo”, afirma Gerardo Iglesias, secretário regional latino-americano da Uita (União Internacional de Trabalhadores de Alimentação, Agricultura e Turismo), entidade global que congrega 412 organizações afiliadas em 126 países. “Os baixos salários, com uma elevada percentagem de práticas fraudulentas que mascaram longas horas com contratos de tempo limitado, parecem se intensificar no meio hoteleiro”, observa.

Camareira de uma grande rede localizada nas imediações do Shopping Ibirapuera, na cidade de São Paulo, a trabalhadora Luzinete [nome fictício] discorre à Repórter Brasil sobre a invisibilidade e a vulnerabilidade das trabalhadoras desse setor. Luzinete alerta, também, para o excesso de trabalho e esforço, e para os consequentes problemas de saúde das trabalhadoras e trabalhadores – algo ignorado pelas redes. “O que importa é o relatório com as metas de limpeza e arrumação. Nós não existimos”.

O principal problema apontado por especialistas do setor é o excesso de horas trabalhadas, uma preocupação da categoria como um todo. Jornadas excessivas de mais de 60 horas semanais foram citadas pelos trabalhadores em pesquisa realizada em 2015 pela Contracs (Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio e Serviços), entidade ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT), em parceira com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudo Socioeconômicos).

“Muitas vezes, as horas extraordinárias não são pagas e tampouco há banco de horas. É quase um consenso entre os trabalhadores considerarem a incorporação das horas extras como jornada usual de trabalho, já que, de um modo geral, as empresas não obedecem escala de folgas”, afirma Eliezer Pedrosa Gomes, secretário de relações internacionais da Contracs e secretário de finanças do Sindicato dos Empregados no Comércio de João Pessoa (PB). “As cláusulas de convenções mais descumpridas pelas empresas são: o pagamento de horas extras, folga dominical, trabalho noturno e o pagamento da taxa de serviço”, acrescenta.

Classe sofrida – Dentre todas as categorias, o elo mais desprotegido da cadeia hoteleira é a classe das camareiras. No Brasil, os dados mais recentes fornecidos pela Contracs indicam que 66% sofrem de ansiedade por causa do trabalho; 61% têm falta de energia no desenvolvimento das atividades do dia-a-dia; e 51% se queixam de má qualidade do sono.

Essas trabalhadoras têm obrigações como ter de limpar até 30 quartos em uma jornada média de oito horas, o que traz sérios riscos à saúde. Os registros de lesões graves e crônicas, em articulações, na lombar, nas mãos, o desenvolvimento de algum tipo de transtorno musculoesquelético (TME) ou de alguma lesão por esforços repetitivos (LER) e a contaminação por produtos químicos, entre outras moléstias, são numerosos.

Os riscos aos quais essas profissionais são expostas chegam, muitas vezes, a patamares dramáticos. Rafaela [nome fictício] passou por um grave episódio em um hotel no qual trabalhava na capital paulista. “O hóspede jogou a agulha usada no lixo do banheiro. Não tem caixinha para recolher seringa descartável ou coisas semelhantes, não tem nada assim no hotel. Coloquei o saco de lixo do banheiro dentro do saco preto do lixo geral. Quando fui empurrar o carrinho, senti algo furando a minha perna”. Era a agulha que havia sido usada pelo hóspede. Exposta a graves riscos, Rafaela fez tratamento com o coquetel anti-HIV (antirretroviral) e conseguiu superar o episódio – mas praticamente nada mudou no hotel depois do ocorrido.

Leia mais sobre o caso: Um grave acidente. E tudo seguiu como antes

“Podemos avaliar que cerca de 95% das camareiras têm problemas de saúde decorrente de seu trabalho. E isso é um problema que não é exclusivo aqui do Brasil, vemos também no sindicato americano e em várias partes do mundo”, avalia Jana Silverman, diretora de programas do Centro de Solidariedade (Solidarity Center) da AFL/CIO, entidade de cooperação sindical ligada à maior central sindical dos Estados Unidos.

A Uita e outras entidades lançaram em 2015 a Campanha Mundial pela Dignificação das Camareiras, que versa sobre as condições de trabalho no setor. No Brasil, a Contracs e outras entidades estão colaborando com a campanha e com a pesquisa, que é realizada em diversos outros países. As situações enfrentadas pelas camareiras também estão registradas no livro “As que limpam os hotéis – histórias ocultas da precariedade no trabalho”, de Ernest Cañada.

Com perfil majoritário de mulheres negras com baixa escolaridade, as camareiras sofrem por não terem amparo dos sindicatos do setor hoteleiro. Há poucas delas em cargos de comando sindical e quase nenhuma arrumadeira como representante. “É uma categoria com taxas altíssimas de problemas crônicos de saúde, que sofrem assédio moral e sexual, tentativas de estupro, mas elas denunciam pouco, pelo medo de serem demitidas e não conseguirem outro emprego, já que possuem baixa escolaridade”, afirma Jana Silverman.

Leia o relato de uma camareira sobre as situações degradantes: Invisibilidade, constrangimentos e sobrecarga nos quartos dos hotéis

Recentemente, durante as Olímpiadas do Rio de Janeiro, ao menos quatro casos de assédio sexual e estupro foram denunciados por camareiras na Vila Olímpica. Característica comum em todas as denúncias, os agressores atacaram nos momentos em que as trabalhadoras faziam a arrumação do quarto. O enfrentamento a esse tipo de situação foi confirmado à Repórter Brasil por todos profissionais ouvidos para a produção desta série especial de reportagens – das camareiras aos porteiros, passando pelos seguranças e trabalhadores da área da manutenção.

No caso das camareiras, a Contracs organiza oficinas específicas periodicamente para as profissionais do setor, com o objetivo de debater a difícil realidade de trabalho enfrentada pela categoria e prestar apoio em relação aos direitos das trabalhadoras. Além disso, a entidade cumpre com uma agenda de encontros do setor hoteleiro, bem como eventos específicos de redes de hotéis de empresas multinacionais, a fim de propor melhorias.

Em conjunto com outras centrais sindicais, de trabalhadores e empresariais, e junto ao governo federal, a Contracs também compõe a mesa tripartite do setor de turismo e hospitalidade, estabelecida principalmente para ter foro voltado ao trabalho decente no setor hoteleiro. “Esse espaço está ameaçado, no entanto, devido à atual conjuntura do golpe do impeachment e consequente supressão dos direitos dos trabalhadores”, alerta Eliezer Gomes.

A crise política e econômica também traz reflexos nas formas de relacionamento entre os trabalhadores e trabalhadoras – ampliando, por exemplo, desde conflitos triviais e de falta de solidariedade a situações de discriminação e de maior precarização nas condições de trabalho.

Benjamin [nome fictício], que se mudou do Haiti para o Brasil a fim de buscar oportunidades frente à grave situação vivenciada por seu país, afirma à Repórter Brasil já ter percebido a profundidade de tais mudanças. Um funcionário que trabalha no setor de manutenção do mesmo hotel que ele, por exemplo, vem destilando um “comportamento xenofóbico, contra estrangeiros no geral e contra os haitianos em específico”, lamenta.

Conheça a história de Benjamin: Sonhos e decepções de um imigrante haitiano no Brasil

Falta de representatividade – Historicamente, os sindicatos brasileiros do setor hoteleiro são pouco articulados e com poucos resultados de conquistas por direitos e benefícios. “Não é comum ver greves no setor, que tem baixíssima filiação sindical. Por serem muitas entidades sindicais descentralizadas, não temos um número exato, mas acreditamos que no Brasil não passe de 10% de adesão”, acredita Jana Silverman.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, uma das 10 maiores do mundo, os cerca de 300 mil trabalhadores do setor hoteleiro são representados pelo Sinthoresp (Sindicato dos Trabalhadores no Comércio e Serviços em Geral de Hospedagem, Gastronomia, Alimentação Preparada e Bebida a Varejo de São Paulo e Região).

A entidade arrecada por volta de 50 milhões de reais por ano e é liderada por um mesmo grupo há cerca de 50 anos. É, no entanto, questionada por parte dos trabalhadores do setor, recebendo críticas por não agir em defesa da categoria, principalmente em relação ao salário, atualmente com cinco tipos de piso, entre R$ 970,00 e R$ 1.132,00. Rubens Fernandes, diretor-executivo do Sinthoresp, possui outra leitura sobre a atuação da entidade. “Estamos muito atentos. Temos feito um trabalho muito forte”, afirma, destacando que “a atuação jurídica do sindicato é muito forte”.

Leia entrevista com o diretor do sindicato: Sindicato dos trabalhadores aposta em ações judiciais contra hotéis

As eleições para o Sinthoresp realizadas em 2013 acabaram indo parar na Justiça, em decorrência de medidas adotadas pelas duas chapas envolvidas no pleito de então. Uma nova eleição foi realizada em outubro de 2016 e, ao contrário do pleito anterior, contou com uma única chapa. As duas chapas de 2013, formadas por grupos que historicamente se afirmaram como situação e oposição dentro da política da entidade, acabaram optando por uma composição, que foi referendada pela categoria na eleição deste ano.

A Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo (Abresi) foi contatada para comentar as questões levantadas por esta reportagem no dia 22 de dezembro de 2015, mas não concedeu entrevista.


Presídios ou escolas: Temer não entende que não temos um projeto de país

Leonardo Sakamoto

''Espero que, daqui a 20 anos, quem esteja nesta tribuna venha a dizer: olha estou construindo só escolas, só postos de saúde, não estou construindo presídios. Mas a realidade atual nos leva à necessidade imperiosa da construção de presídios.''

A declaração de Michel Temer, nesta segunda (9), parece uma resposta a uma frase de Darcy Ribeiro que está circulando pela internet após os massacres em presídios no Amazonas e em Roraima. O antropólogo, escritor, educador e político afirmou, na década de 80, que se não construíssemos escolas, em 20 anos, faltaria dinheiro para construir presídios.

De lá para cá, construíram-se muitas escolas. Mas a qualidade do ensino, deficiente às necessidades do indivíduo e do país, não acompanhou esse ritmo, principalmente na educação básica. E, consequentemente, sem poder oferecer a perspectiva de mudança de vida e de respeito à dignidade, a educação acabou perdendo jovens. Para as promessas do tráfico, por exemplo. Que, por sua vez, entopem os presídios – depósitos de gente e escolas de crime. E, lá, para fugir dos maus tratos ou para melhorar de vida fora dela, muitos se unem aos PCCs, CVs, FDNs da vida.

Mais do que construir presídios, a hora seria de reformar os já existentes, garantindo o mínimo de dignidade; começar uma grande ação para analisar os casos do mais de um terço de presos preventivos que ainda aguardam julgamento (há muitos inocentes lá dentro); verificar quem já poderia estar em liberdade, mas foi esquecido lá dentro; e buscar mudanças em leis para desafogar o sistema carcerário nacional. A legislação contra o tráfico de drogas, por exemplo, leva a polícia e ao Judiciário a perderem tempo trancando vendedor de maconha – tempo precioso que seria melhor gasto na investigação de latrocínios e estupros ou na prevenção a crimes.

Temer, para atender uma parcela da população que, mal informada, contenta-se com soluções simples para problemas complexos, que acredita que remediar é melhor que prevenir e que aprendeu (graças a políticos toscos e programas sensacionalistas na TV e no rádio) que vingança é melhor que Justiça, prioriza as promessas de mais cadeias.

O que, ele sabe, não resolverá o problema, apenas enganará mais gente que passou a temer (sem trocadilho) a própria sombra com a replicação nos smartphones de discursos do medo.

Pior, ele cria, com isso, uma falsa dicotomia no debate. A política educacional e de segurança pública andam de mãos dadas. Precisamos de estratégias que mexam com as estruturas que permitem a facções criminosas a continuar a crescer e isso só ocorrerá com a garantia de direitos, como educação de qualidade.  Ao adotar como ponto principal de sua reação a construção de mais presídios, Temer está apenas garantindo mais escolas ao crime organizado. Pois elas ficam mais poderosas à medida em que a população de encarcerados cresce sem que haja um mínimo de condições para recebê-los e reintegrá-los à sociedade.

Se Temer não consegue ser multitarefa, peça para sair.

A verdade é que não contamos com um projeto de país.

Do desenvolvimento econômico à garantia de direitos básicos à população, o que temos apenas são ações que nascem em reação a algo. E, o pior, é que essas respostas não resolvem o problema original e ainda tiram direitos de uma parte da sociedade para que outra sinta-se tranquila. As reformas trabalhista previdenciária que o digam.

Isso não é de hoje, claro. Mas está mais evidente devido ao fato da classe política ter perdido o pudor das aparências e, não se importando com as consequências, falar o que quiser. Considerando que tem maluco que aplaude torturador à luz do dia e o machismo é algo quase institucionalizado, não me admira esse pessoal surfar na onda da falta de empatia e de informação.

O PMDB pode reclamar e afirmar que o seu Ponte para o Futuro é um projeto de país. Não, não é. Ele não discute onde estamos e o que queremos ser e ter como um povo. É um plano de entrega rápida de direitos conquistados em décadas de suor e sangue dos mais pobres com o objetivo de garantir algum crescimento econômico a grupos que apoiaram o impeachment.

E, como eu venho dizendo neste blog há tempos sobre a situação carcerária no país, a segurança pública é uma bomba que, só por milagre, ainda não estourou. Quando isso acontecer, quem está do lado de fora não terá para onde correr.

Por isso, não sou tão otimista quanto Michel Temer.

Mais do que escolas, presídios e tribunas, espero que, em 20 anos, ainda sejamos um país.