Blog do Sakamoto

Quem não sabe votar não deveria ter o direito de eleger alguém
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Leonardo Sakamoto

É triste constatar que as eleições têm apresentado um nível sofrível de debates sobre políticas e, calcadas em baixarias, de qualquer lado que seja, invariavelmente descambam para um fim melancólico de guerra on-line, revelando o que há de mais obscuro na alma das pessoas.

Todos nós que fomos criados em uma sociedade racista, machista, homofóbica e elitista temos que percorrer um longo caminho para abandonar a programação bizarra a que fomos submetidos. Portanto, estes momentos são didáticos para que aprendamos com nossos erros no dia a dia, façamos correções de rumo e possamos nos reconstruir e construir uma sociedade melhor.

Mas esses comportamentos não deixem de assustar.

Após as eleições de 2010, colegas jornalistas receberam spams que defendiam a necessidade de separar o Estado de São Paulo e a Região Sul do restante do país por conta do fato de que as regiões Norte e Nordeste deram expressivas votações para Dilma.

Quem tem 30 anos ou mais lembra daquela campanha “O Sul é meu país'', que circulou com adesivos de qualidade duvidosa, acrescentando São Paulo a esse delírio separatista. Por um momento, parecia que a campanha estava de volta.

Tanto naquele momento quanto agora, nada sobre refletir, juntar quem não concorda com o governo eleito e fazer uma oposição firme, programática e responsável. Até porque, como sabemos, a tática do “perder e levar a bola embora” é super madura e fortalece a democracia, seja em São Paulo, Brasília, Salvador, qualquer lugar.

O mais triste foi ter que aguentar, desde então, quatro anos de comentários que sugeriam que pobre não sabe votar.

E, pior: se não sabe votar, não deveria participar de eleições e exercer sua cidadania.

Ou seja, só saberiam votar se o voto deles fosse no  candidato ou na candidata que os comentários defendem.

Já usei este exemplo aqui, mas acho salutar resgatá-lo. Por mais que o filme original não seja um primor de roteiro e de execução, seria extremamente didático para esse pessoal que espuma preconceito se houvesse uma versão tupiniquim do norte-americano “Um Dia sem Mexicanos”. A ideia da película simples: os imigrantes latino-americanos, que custam algumas centenas de milhões em serviço social e retornam bilhões em mão-de-obra, um dia somem da Califórnia – para a alegria dos xenófobos. Mas a vida se torna um caos com o sumiço deles. Por aqui, seria algo como “Um Dia sem Pobres”, com roteiro gravado em São Paulo:

A socialite acorda e vê seu poodle completamente despenteado. Tem um piti e grita pela empregada responsável pelo serviço que, pasmem, não estava em seu quartinho sem janelas. Nada. O empresário chega de seu cooper matinal e percebe que seu suco de laranja não está espremido como devido. Grita pelo mordomo. Nada. O editor reclama que o motoboy não apareceu para levar as provas para a gráfica. Nada.

- Deve ser enchente na favela onde mora com os filhos. Ela está sempre à mão, sabe? É pobre, mas tem caráter. Nunca sumiu nada lá em casa.

- É o quarto dia que aquele sujeito não vem. Sabe o que é isso? É o Bolsa Família! Torna as pessoas vagabundas. Deve estar bebendo em um bar

- Combinei uma coisa com ele e ele não veio. Esse povinho da periferia, viu? Se não caga na entrada, caga na saída.

E por aí vai. Até porque, como todos sabemos e o preconceito paulistano reafirma diariamente, muitos dos moradores pobres estão nessas ocupações, recebendo ofensas, porque gostam disso.

Seja na superfície, através de risinhos, ironias e preconceitos, seja estruturalmente, via baixos salários e uma desigualdade gritante, já passamos o recado de quem manda e quem obedece no país.

Não queremos que pobres tenham opinião, mas queremos sua força de trabalho.

Notei que, com uma certa frequência, algumas pessoas reclamam do que interpretam como “politicamente correto''. Ficam irritados com essa “onda'' de criticar quem manifesta preconceito por cor de pele, orientação sexual, classe econômica e por aí vai.

Cadê meu direito de tripudiar os párias da sociedade? Eu venci na vida, sofri muito bullying social. Agora é minha vez!

Considerando que direitos sociais e econômicos já são sistematicamente negados, nada mais justo que reivindicar que passemos a dizer não também aos direitos políticos.

E quando isso mudar também, revogamos, enfim, a Lei Áurea.

Então, reinará a paz.


Haitianos em situação análoga à de escravo são resgatados em SP
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Leonardo Sakamoto

O governo federal resgatou 14 trabalhadores haitianos que estavam em condições análogas à escravidão em uma oficina de costura na região central do município de São Paulo. A operação é a primeira envolvendo imigrantes dessa nacionalidade no Estado.

O caso é inédito. Apesar de haitianos já terem sido resgatados da escravidão no Brasil (por exemplo, 100, em Minas Gerais e 21, no Mato Grosso), nenhum caso havia sido registrado no Estado de São Paulo, nem no setor têxtil. Segundo depoimentos, os trabalhadores não estavam recebendo salários e passavam fome. A reportagem é Stefano Wrobleski, da Repórter Brasil:

Doze haitianos e dois bolivianos foram resgatados de condições análogas às de escravos em uma oficina têxtil na região central de São Paulo. O resgate ocorreu no início deste mês após fiscalização de auditores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e uma procuradora do Ministério Público Trabalho (MPT). As vítimas trabalhavam no local há dois meses produzindo peças para a confecção As Marias, mas nunca receberam salários e passavam fome.

Segundo a fiscalização, antes de serem aliciados, os haitianos estavam sendo abrigados pela pastoral Missão Paz, mantida pela paróquia Nossa Senhora da Paz para acolher migrantes de outros países que chegam a São Paulo. Além de alojar os migrantes, a pastoral promove palestras a empresários sobre a cultura e os direitos dos estrangeiros, onde os interessados em contratar os recém-chegados preenchem fichas com informações que são usadas para verificar a situação trabalhista das empresas na Justiça e monitorar as contratações.

A estilista e dona da empresa, Mirian Prado, afirmou à Repórter Brasil que não tinha conhecimento das condições de trabalho na oficina e que só terceirizava o trabalho: “A gente estava na hora errada, no lugar errado e fazendo a coisa errada sem saber”, disse. Depois da autuação, informou que a empresa passou a fiscalizar outros fornecedores e que pretende deixar de terceirizar o serviço em breve para ter melhor controle sobre sua produção.

Vítimas cumpriam jornadas de mais de 15 horas sentadas em cadeiras de plástico inadequadas. Foto: SRTE/SP

Vítimas cumpriam jornadas de mais de 15 horas sentadas em cadeiras de plástico inadequadas. Foto: SRTE/SP

De acordo com o padre Paolo Parise, que coordena a missão desde 2010, o interesse dos empresários pela Missão Paz diminui quando eles são informados de que os migrantes têm os mesmos direitos dos demais trabalhadores no Brasil. O padre diz que, de janeiro a julho deste ano, 587 empresas contrataram 1710 migrantes através da pastoral. O número de empresas, porém, equivale a apenas um terço do total de interessados que assistem à palestra inicial.

A dona da oficina onde as 14 vítimas de trabalho escravo foram resgatadas faz parte dos dois terços de empresários desistentes. “Em maio, ela e seu esposo vieram, participaram da palestra e, depois, sumiram sem contratar ninguém”, disse Paolo. Antes de ser aliciado, Daniel*, um dos haitianos, já tinha emprego fixo em um shopping da capital e retornava todas as semanas à pastoral para dar, voluntariamente, aulas de português aos colegas conterrâneos.

Daniel aprendera o idioma pela internet antes de vir para o Brasil e vem aprimorando seus conhecimentos desde 2012, quando chegou ao país pelo Acre. A maior parte dos seus colegas, no entanto, havia chegado fazia menos de um mês ao Brasil e o crioulo (junto com o francês, uma das línguas oficiais do país) era o único idioma que sabiam falar.

Ante a promessa de receber um salário menor, mas com benefícios como alimentação e alojamento garantidos pelo empregador, ele aceitou a oferta da dona da oficina: “O maior problema no Brasil são os custos de vida, como aluguel e outras coisas”, disse à reportagem. Daniel, então, deixou o emprego no shopping e chamou alguns colegas para quem dava aulas na Missão Paz. Para o trabalho, a dona da oficina havia dito a ele que não era necessário saber costurar: eles seriam contratados como aprendizes e teriam contato com o ofício trabalhando na confecção para As Marias. No Haiti, eles tinham ocupações diversas. Daniel era vendedor autônomo, enquanto outra das vítimas estudava para ser enfermeiro.

Condições degradantes - Na oficina, as vítimas começaram a trabalhar em junho. No local também ficavam os quartos onde os doze haitianos, um casal de bolivianos e seu filho de quatro anos dormiriam. Com colchões em mau estado no chão, mofo, infiltrações e péssimas condições de higiene, a auditora fiscal Elisabete Cristina Gallo Sasse, que participou da operação, disse à Repórter Brasil que os cômodos eram tão pequenos que “nós [a equipe] não conseguíamos nem ficar dentro deles”.

De segunda a sábado, submetidos a uma jornada que podia chegar a até 15 horas por dia, os bolivianos teriam a função de ensinar às demais vítimas a costurar. Assim, os haitianos tiveram suas carteiras de trabalho assinadas na função de “aprendiz de costureiro”. A fiscalização apurou que a maioria dos trabalhadores tinha mais do que a idade máxima, de 24 anos, para exercer a função de aprendiz e não havia qualquer instituição acompanhando o aprendizado. O artifício tinha a função de permitir o registro em carteira com salário de R$724, o mínimo brasileiro e inferior ao piso, de R$1017, da categoria dos costureiros para a região.

Fome - Apesar de baixo, o salário nunca veio. A alimentação, outra promessa inicial, era de baixa qualidade e não havia refeitório no local. Quando, quase dois meses depois do início do trabalho, as vítimas reclamaram que queriam ser pagas, receberam da dona da oficina um vale de R$100. Em contrapartida, deixaram de receber comida.

Ao chegar ao local, a fiscalização encontrou os trabalhadores almoçando pães franceses que eles mesmos haviam comprado. Os fiscais também descobriram uma cozinha de uso exclusivo da dona da oficina e em melhores condições do que a disponibilizada aos costureiros. Dentro dela, os alimentos eram escondidos no interior de um sofá. “O que mais me chocou foi ver a crueldade do ser humano de deixar trabalhadores passando fome, de ter o alimento e não fornecer, deixando-os em situação de penúria”, lamentou Elisabete.

Antes de deixar a oficina, a equipe interditou o imóvel e as máquinas de costura pelo “grave e iminente risco de incêndio”, conforme os fiscais escreveram no relatório da operação, por conta de instalações elétricas irregulares, da falta de extintores dentro do prazo de validade e da não existência de proteção das partes móveis das máquinas de costura.

A confecção As Marias foi responsabilizada pelas infrações aos direitos dos trabalhadores com base nasúmula nº 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST). A empresa pagou todas as verbas rescisórias e os salários atrasados dos funcionários e firmou Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho para fornecer cestas básicas e hospedagem às vítimas.

Já Daniel, que passara por outros empregos no Acre, Rio Grande do Sul e São Paulo antes de ser escravizado, disse pensar em voltar para seu país natal: “No Brasil tem muitos empregadores que falam para a gente [haitianos] que vão pagar uma coisa e, quando a gente chega lá, acabam pagando menos, não pagam hora extra… Muitos empresários pagam direito, mas eu tive muitos problemas”, explicou.

MTE assina protocolo contra escravidão – Em coletiva de imprensa, o superintendente regional de São Paulo do MTE, Luiz Antônio de Medeiros Neto assinou portaria que regulamenta o envio direto de ofício com informações sobre empresas flagradas com trabalho escravo no Estado de São Paulo para a Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo (Coetrae) e a Secretaria da Fazenda do Estado. A medida visa garantir a efetividade da lei nº 14.946/2013, que prevê a cassação do registro do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de empresas flagradas com trabalho escravo e seu banimento do estado por dez anos.

Em outra ação, adolescente grávida é resgatada – Também em São Paulo, uma equipe do MTE resgatou 17 bolivianos submetidos a trabalho escravo em outra oficina têxtil, produzindo para a empresa Seiki. Dentre as vítimas estava uma adolescente de 15 anos grávida de sete meses. As jornadas chegavam a 12 horas por dia e os documentos dos trabalhadores haviam sido retidos, o que caracterizou restrição de liberdade: “Todos os aspectos de suas vidas privadas eram controlados”, concluiu a fiscalização no relatório da operação.

Os alojamentos ficavam junto dos locais de trabalho. Além dos trabalhadores, quatro crianças de seis meses a sete anos de idade moravam no local, considerado em condições degradantes. Por mês as vítimas recebiam R$700 cada, um valor menor que o salário mínimo e de cerca de 40% do piso para a categoria. Os funcionários mais antigos trabalhavam no local desde novembro de 2013.

A terceirização foi considerada ilegal e a Seiki pagou todas as verbas rescisórias, responsabilizando-se solidariamente pelos trabalhadores, conforme determina a legislação vigente. Horácio Conde, advogado da empresa, disse à reportagem que a empresa desconhecia as infrações e não sabia do número total de contratados, já que somente três tinham carteira de trabalho assinada. Horácio afirmou ainda que, após o flagrante, a Seiki deve “aprimorar determinadas práticas de fiscalização”.

Post atualizado às 16h50 do dia 22 de agosto de 2014 para atualização de informações.


Em nome de uma sociedade mais plural, Entreviste uma Mulher
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Leonardo Sakamoto

Não existe imparcialidade jornalística. Qualquer estudante de jornalismo aprende isso nas primeiras aulas. Quando você escolhe um entrevistado e não outro está fazendo uma opção, racional ou não, por isso a importância de ouvir a maior diversidade de fontes possível sobre determinado tema. E essa diversidade, que já é pequena nas redações convencionais ou alternativas, progressistas ou conservadoras, é menor ainda quando se diz respeito ao gênero. Sim, mulheres são pouco ouvidas. E isso acaba distorcendo a forma através da qual a sociedade entende a si mesma.

Para tentar ajudar a mudar essa realidade, a Olga, uma organização que se dedica a elevar o nível de discussão sobre a feminilidade hoje, lançou o projeto “Entreviste uma Mulher“, que pretende aumentar o número de mulheres entre as pessoas entrevistadas sobre os mais diferentes temas. Para isso, está montando um grande banco de dados público que pode ser acessado por jornalistas ou qualquer pessoa interessada em diversificar suas fontes de informação.

De acordo com Juliana de Faria, uma das coordenadoras do Olga, existe uma ausência de fala feminina na mídia. “E os motivos são vários. Vai desde a falta de mulheres na liderança até a baixa participação em profissões ditas masculinas, como engenharia, mas todas essas justificativas ainda permeiam o sexismo''.

Segundo ela explicou a este blog, “isso é problemático para o jornalismo, que pode acabar trazendo debates empobrecidos ou enviesados, e para a democracia também. E nosso projeto não quer que homens não sejam mais entrevistados. A proposta aqui é auxiliar comunicadores a se conectar com fontes com que normalmente não falariam, justamente para promover a diversidade''.

O Olga também foi responsável pela campanha “Chega de Fiu Fiu“, que pautou o debate sobre o assédio sexual travestido de cantada “inofensiva'' em locais públicos. A campanha se baseou em uma reveladora pesquisa produzida pela Olga junto a mulheres pela internet.

Ilustração: Leah Goren

Ilustração: Leah Goren

Abaixo, mais informações sobre o “Entreviste uma Mulher'' retirado do site do Olga:

Seja de direita ou de esquerda, você hoje encontra milhares de colunistas, fontes e colaboradores em jornais, revistas, TV e internet para ajudar você a entender o mundo e formar a própria opinião. Existem vários grupos de minorias, no entanto, que têm relativamente poucos representantes. Um deles são as mulheres. Em 2013, a Universidade de Nevada pesquisou 352 matérias de primeira página do jornal The New York Times e viu que, dentre os entrevistados, 65% eram homens e apenas 19% eram mulheres (17% se referiam a fontes institucionais). No Brasil, a Superinteressante abordou o tema em 2010 e revelou que apenas 25% das fontes eram mulheres.

No jornalismo, essa ausência de fala feminina traz muitos problemas para a sociedade e para a democracia. O debate em assuntos de interesse especial às mulheres — como o aborto, por exemplo — ficam empobrecidos ou enviesados. Basta ver a reação recente à questão do assédio sexual em locais públicos: homens no spotlight da mídia se davam ao direito de opinar também sobre a dor que as mulheres sofriam, porque estão acostumados a ser os únicos a opinar sobre tudo. É necessário que a mídia busque a diversidade, incluindo as mais diferentes perspectivas e pontos de vista, para criar reportagens e análises mais ricas e complexas. E isso não será atingido se as opiniões de metade da população não forem levadas em conta.

Há vários motivos para essa baixa presença feminina nas notícias. Faltam mulheres em algumas áreas (como as engenharias, por exemplo). Há também um gap de gênero em posições de liderança: sejam colunistas, blogueiros, CEOs e diretores de empresas, ainda há um enorme território a ser conquistado pelas mulheres. Mas, apesar desses desequilíbrios de gênero existirem, sim, não precisamos perpetuá-los.

Queremos ajudar a mudar esse cenário. E, para isso, estamos lançando o projeto Entreviste Uma Mulher, que se propõe a encontrar essas mulheres e conectá-las aos jornalistas.

Publicamos aqui um documento com os contatos de mulheres inspiradoras, com trabalhos relevantes em suas áreas, que podem ser fontes em matérias, auxiliar em pesquisas, participar de debates e palestras. Atenção: não estamos dizendo que homens não devem ser entrevistados, nem que só as mulheres têm a palavra final sobre os assuntos a serem discutidos. O que propomos aqui aos responsáveis pelos veículos de comunicação é que prezem pela a diversidade ao elaborar suas pautas.

Quer procurar uma fonte? – Editores, repórteres, produtores de TV e promotores de eventos podem procurar um profissional que se encaixa em sua pauta — disponibilizamos uma mini biografia e suas áreas de conhecimento — e entrar em contato diretamente com as participantes. O documento está organizado em ordem alfabética. Então sugerimos que realize a procura (ctrl + F) por uma palavra-chave.Aceitar ou não o convite fica a cargo delas, claro.

Quer ser uma fonte? – Qualquer mulher pode fazer parte do projeto. Envie uma mini bio (no máximo, 4 linhas), as áreas de seu expertise, exemplos do seu trabalho (links, estudos, sites, páginas no Facebook), a cidade onde vive e seu contato (não se esqueça do DDD) para o e-mail juliana@thinkolga.com com o título Entreviste Uma Mulher. Também é permitido indicar outras mulheres, desde que com o devido consentimento. Todos os perfis serão submetidos a análise.

Para acessar o “Entreviste uma Mulher'', clique aqui.


Nestas eleições, aprendam: “mulher” é uma coisa, “vaca” é outra
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Leonardo Sakamoto

“Vaca'' e “galinha'' não são análises de honestidade e competência de qualquer candidata a um cargo público e sim uma forma machista de depreciar uma mulher simplesmente por ser mulher. De colocá-la no seu “devido lugar'', que é fora da política institucional.

Isso vale, por exemplo, para Marina Silva e para Kátia Abreu. Pois a origem da truculência masculina percorre todo o espectro político.

É triste que, a medida em que aumenta o número de candidatas a cargos públicos (apesar da proporção ainda ser ridicularmente baixa), tenho a impressão de que também cresce o chorume daqueles que, aberta ou veladamente, as atacam por uma questão de gênero.

Pois o significado de “vaca'' e “galinha'' que os ignóbeis usam não remete ao dos simpáticos animais, mas sim o de termos que denotam uma crítica moral sobre um comportamento sexual.

É meio ridículo explicar a adultos que mulheres, em nenhuma hipótese, devem ser confundidas com ruminantes. Ou chamadas de “prostitutas'' como xingamento genérico para qualquer comportamento em desacordo com o que se “espera'' de uma “mulher de bem''. E que prostitutas continuem a serem reduzidas a xingamento e não tratadas com o mesmo respeito despendido a qualquer outra trabalhadora. E que alguém ainda tenha a cara-de-pau de usar a expressão “mulher de bem''.

Os partidos políticos ainda estão longe de investir pesado em candidaturas de mulheres a fim de contribuir para que os parlamentos representem, realmente, a sociedade brasileira – apesar de importantes ações do Ministério Público para assegurar esse direito.

Temos duas mulheres entre os três primeiros colocados para o Planalto neste ano. Simbolicamente relevante, politicamente insuficiente. São poucas as governadoras, prefeitas, senadoras, deputadas, vereadoras. Mas também CEOs, executivas, gerentes, síndicas de condomínios. Isso sem falar das chefias de redação. E o judiciário ainda transpira machismo, haja visto as interpretações distorcidas proferidas por arautos da masculinidade de toga sobre a Lei Maria da Penha.

Nas manifestações de junho do ano passado, abordei educadamente um rapaz que carregava um cartaz chamando Dilma de “vaca”. Pedi desculpas pela intromissão, mas expliquei que o protesto dele seria muito mais legítimo se ele usasse um termo para criticá-la que não fosse tão machista. Poderia questionar a ideoneidade, a competência, a capacidade para o cargo e um sem número de coisas.

Ele entendeu, ficou sem graça e disse que tinha escolhido só porque rimava com o restante da ideia.

Contudo, um senhor mais velho que o acompanhava afirmou que ela é mesmo uma “vaca”. Ele disse que sabia disso porque que era professor universitário de história e havia estudado a vida de Dilma e podia atestar que ela é uma “vaca” (WTF?).

É o que eu já disse aqui antes: todos nós, homens, somos sim inimigos até que sejamos educados para o contrário. E tendo em vista a formação que tivemos, é um longo caminho até alcançarmos um mínimo de decência para com o sexo oposto.

Infelizmente, as eleições não estão sendo um bom momento para ampliar o entendimento do outro e de seus direitos. A polarização idiota interditou qualquer debate. Prova isso são os comentários que poderão ser lidos neste post, com argumentos de crianças de seis anos.

Se é assim, vamos desenhar:

“Vaca'' é um bichinho que tem rabo, muge e come pasto o dia inteiro. “Mulher'' é um ser humano, que fala, pensa e tem sentimentos. Não, “homem'' não é o único ser humano, “mulher'' também é. Só gente ruim diz que “mulher'' e “vaca'' são a mesma coisa. A “vaca'' não se importa. Mas a “mulher'' sim.


E se o horário eleitoral na TV tivesse momentos de sinceridade?
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Leonardo Sakamoto

Sou apaixonado por House of Cards. A jornada de vingança do congressista norte-americano Frank Underwood só é comparável à época das melhores temporadas de Gregory House – o médico – e Walter White – o professor de química. Na minha opinião, é claro. Contudo, como todos os episódios são entregues de uma só vez pelo Netflix, a alegria dura apenas algumas madrugadas regadas a café.

Depois, o sinistro vazio.

Não há como deixar de me lembrar de House of Cards com o horário eleitoral obrigatório ressurgindo na TV.

Não pela qualidade, é claro. Frank está muito acima de quase todos os candidatos disponíveis.

Mas, de tempos em tempos, ele vira para o telespectador e explica seus planos, faz uma confissão, enfim: dá a real da política com muito cinismo.

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Que, junto com a ironia e o sarcasmo, são as melhores coisas da vida.

Adoraria que, durante suas peças de publicidade do horário eleitoral, os candidatos à Presidência e aos governos estaduais e distrital virassem para a câmera e dissessem também o que estão pensando. Por exemplo:

- É fascinante como as pessoas acreditam em qualquer imagem besta que toque seu coração patético. Poderíamos ter colocado fotos de cachorrinhos, mas seria desnecessário. O povo se contenta com menos.

ou

- O povo é tão mal instruído que não percebe que essa proposta é inexequível, quase um acinte. Mas como números têm um poder sobrenatural sobre a massa, não questionam quando eles aparecem. Dizem amém.

ou ainda

- Hiprocrisia não é eu criticar o setor do meu maior doador de campanha. Hiprocrisia é muitos veículos de comunicação não dizerem nada sobre isso. Talvez porque os maiores doadores são também os maiores anunciantes da imprensa.

A campanha eleitoral tornou-se um momento complicado para a discussão de temas públicos relevantes – ao contrário do que a teoria afirma. É quando marqueteiros dobram a realidade, procurando mexer com a emoção e não a razão dos eleitores. Qualquer tema que seja visto com potencial de angariar ou tirar votos será tratado como um carro novo em anúncio de TV. E vendido como tal. Ou seja, a verdade sobre o objeto em questão é um mero detalhe.

Alguns candidatos e partidos até marcam posições importantes. Mas, com o domínio completo do marketing sobre todas as outras esferas da política, tudo é controlado para dar ao povo o que o povo quer.

Ou acha que quer.

Ou o que um grupo pequeno quer que o povo continue achando que quer.

Por isso, imaginei que os candidatos se virassem para a tela e tivessem o tal momento sincero. Quiçá:

- Cansou? Tá achando ruim? Calma, está só começando…


Daí, você pensou em algo “genial” sobre política e quer postar já
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Leonardo Sakamoto

Você pensou em algo “genial'' sobre política e quer postar imediatamente. Não importa se tem quatro pós-doutorados no Instituto Internacional da Coxinha Creme ou se não concluiu o ensino fundamental.

Pare. Encha bem o pulmão de ar e solte lentamente. Faça isso mais duas vezes.

Depois, pense: O que estou prestes a postar configura algum crime virtual, promove o ódio ou pode ser ocasionado por minha incapacidade de exercer as faculdades relacionadas à interpretação de texto?

Sim? Então, vá tomar um cafezinho.

Se não, pense: O que estou prestes a postar é realmente necessário e acrescenta algo ao debate?

Não? Então, vá tomar um cafezinho.

Se sim, pense: O que estou prestes a postar serve apenas para eu me sentir aquecido e amado através dos “likes'' dos meus amigos?

Sim? Então vá tomar um cafezinho.

Se não, pense: O que estou prestes a postar possui um argumento baseado em fatos reais ou, ao menos, em alguma lógica?

Não? Então, vá tomar um cafezinho.

Se sim, pense: O que estou prestes a postar é machista ou regado por preconceitos por gênero, orientação sexual, cor de pele, origem social ou etnia?

Sim? Então, vá tomar um cafezinho.

Se não, pense: O que estou prestes a postar poderia ser dito de forma mais educada, sem xingamentos gratuitos, mesmo que outras pessoas estejam xingando gratuitamente no debate?

Não? Então, vá tomar um cafezinho.

Se sim, reformule a postagem em outros termos e pense: Eu teria coragem de dizer o que estou prestes a postar para um auditório lotado com 500 pessoas desconhecidas ao vivo?

Não? Então, vá tomar um cafezinho.

Se sim, poste e seja feliz.

Este post é mais um serviço da campanha “Ajude o Brasil a chegar inteiro até outubro''. E o meu apoio aos produtores brasileiros de café (ao menos aqueles que não foram flagrados com trabalho escravo).


Eleições: Compromisso quer candidatos engajados contra a escravidão
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Leonardo Sakamoto

Uma carta-compromisso para que candidatos e candidatas à Presidência da República e aos governos estaduais estabeleçam como prioridade o combate à escravidão contemporânea em suas gestões, caso sejam eleitos, foi lançada pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).

Durante as eleições de 2010, dezenas de candidatos aos governos dos Estado e à Presidência da República assinaram o documento. Ao final, 12 governadores eleitos (Amazonas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Paraná, Piauí, São Paulo e Sergipe) e a atual presidente da República aderiram à carta.

Desde então, imprensa, organizações da sociedade civil e eleitores usaram a carta para cobrar a aplicação de políticas públicas voltadas a esse problema. A carta-compromisso também foi distribuída nas eleições de 2006, 2008 e 2012.

Como resultado, políticas públicas adotadas nas gestões dos eleitos tiveram origem no documento, como a criação de Comissões Estaduais e Municipais de Erradicação ao Trabalho Escravo, o lançamento de Planos Estaduais de combate a esse crime e a aprovação de leis que restringem as compras públicas de mercadorias produzidas com trabalho escravo ou criam entraves à existência de empresas responsabilizadas pela situação.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin implantou a Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo, atendendo ao compromisso assinado. O mesmo vale para o prefeito Fernando Haddad, que criou a Comissão Municipal para a Erradicação do Trabalho Escravo, em resposta à carta. Outros estados como o Mato Grosso do Sul, aprovaram leis para combater a escravidão propostas pelo documento. E o governo federal atuou, por exemplo, na aprovação da PEC do Trabalho Escravo atendendo ao documento – promulgada, em junho, a emenda constitucional confisca propriedades flagradas com esse crime.

Qualquer um pode pedir a seu candidato ou candidata para aderir à carta-compromisso. Uma assinatura voluntária não é a certeza de que, uma vez eleito, o administrador irá cumprir o prometido. Mas é um bom instrumento para que o cidadão monitore e cobre de seu governante. E, daqui a quatro anos, pense duas vezes antes de dar-lhe outro voto de confiança.

Todos os candidatos à presidência da República bem como aos governos estaduais e distrital devem ser convidados a assinar a Carta-Compromisso. Suas respostas serão publicadas no site www.compromissopelaliberdade.org.br e divulgados à imprensa.

CARTA-COMPROMISSO CONTRA O TRABALHO ESCRAVO

Caras cidadãs, caros cidadãos;

Eu, _______________________________________________, candidata(o) à Presidência da República/ao Governo Estadual de ___________________________________________, firmo aqui o compromisso de atuar pela erradicação do trabalho escravo contemporâneo. Tendo em vista as condições a que estão sujeitos milhares de brasileiros, tolhidos de sua liberdade de ir e vir, despidos de seus direitos e de sua dignidade, desde já assumo o compromisso público de que o combate ao trabalho escravo será uma das prioridades do meu mandato.

Considerando que: a) O Estado brasileiro reconheceu, em 1995, a existência de escravidão contemporânea diante das Nações Unidas; b) Após a criação, pelo governo federal, do sistema de combate ao trabalho escravo, mais de 46 mil trabalhadores foram libertados da escravidão; c) Malgrado os esforços e avanços empreendidos por órgãos governamentais, entidades da sociedade civil, empresas e movimentos sociais, focos de trabalho escravo ainda permanecem no Brasil; d) Os fundamentos da dignidade da pessoa humana e da valorização social do trabalho estão previstos no artigo 1°, III e IV, no artigo 3º, I e III, no artigo 4º, II, no artigo 170, III e VIII e no artigo 186, III e IV, todos da Constituição Federal; e) O Código Penal, em seu artigo 149, prevê a punição a este crime desde 1940; f) Todas as formas contemporâneas de escravidão são graves violações aos direitos humanos, condenadas expressamente por instrumentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e as Convenções 29 e 105 da Organização Internacional do Trabalho, a Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura, do Tráfico de Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à Escravatura e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, das quais o Brasil é signatário.

Assumo, caso eleita(o), o compromisso público de:

1) Não permitir influências de qualquer tipo em minhas decisões, que me impeçam de aprovar leis ou implementar ações necessárias para erradicar o trabalho escravo;

2) Efetivar ações presentes no 2º Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e nos Planos Estaduais para a Erradicação do Trabalho Escravo (onde eles existirem), além de apoiar a implantação e/ou manutenção de comissões municipais para erradicação do trabalho escravo e desenvolver políticas públicos de erradicação ao trabalho escravo;

3) Reconhecer e defender a definição de trabalho análogo ao de escravo presente no artigo 149 do Código Penal, caracterizado por trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes ou jornada exaustiva. A definição desse artigo, considerada como uma referência global pelas Nações Unidas, tem sido fundamental para o resgate da dignidade de trabalhadores em todo o país;

4) Não promover empreendimentos e empresas, dentro ou fora do País, que tenham utilizado mão-de-obra escrava ou infantil. Por outro lado, apoiar iniciativas de empresas que combatem a incidência desse crime em seus setores produtivos;

5) Buscar proteção aos defensores dos direitos humanos e líderes sociais que atuam no combate à escravidão e na defesa dos direitos dos trabalhadores;

6) Destinar recursos e garantir apoio político para a manutenção das ações de fiscalização de denúncias que resultam nas libertações de trabalhadores;

7) Fortalecer a prevenção ao trabalho escravo, ampliando os programas de geração de emprego e renda nos municípios fornecedores de mão de obra escrava, priorizando a reforma agrária nessas regiões e fortalecendo as ações de reinserção social dos libertados;

8) Apoiar a criação e implantação de estruturas de atendimento jurídico e social aos trabalhadores migrantes brasileiros e estrangeiros em território nacional;

9) Informar aos trabalhadores sobre seus direitos por intermédio de campanhas de informação, que incluam as entidades públicas competentes e buscar a inclusão da temática do trabalho escravo contemporâneo nos parâmetros curriculares da rede pública de ensino municipal;

10) Apoiar a implementação de uma política de atendimento aos trabalhadores resgatados com ações específicas voltadas à educação básica e profissionalizante e à reintegração social e econômica do trabalhador;

11) Buscar a aprovação ou a regulamentação de projetos de lei que contribuirão com a erradicação desse crime, como aquele que condiciona a formalização de contratos com órgãos e entidades da administração pública a empresas que declarem não ter utilizado trabalho análogo ao de escravo na produção de seus bens e serviços;

12) Apoiar o cadastro de empregadores flagrados com mão de obra escrava, conhecido como a “lista suja”, instrumento mantido por intermédio da Portaria Interministerial 02/2011, do Ministério do Trabalho e Emprego e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que tem sido um dos mais importantes mecanismos de combate a esse crime.

Por fim, asseguro que renunciarei ao meu mandato se for encontrado trabalho escravo sob minha responsabilidade ou se ficar comprovado que alguma vez já utilizei desse expediente no trato com meus empregados. Além disto, garanto que será prontamente exonerada qualquer pessoa que ocupe cargo público de confiança sob minha responsabilidade que vier a se beneficiar desse tipo de mão de obra.


Aplicativo avalia 45 marcas e lojas de roupas quanto a trabalho escravo
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Leonardo Sakamoto

Foi ao ar, nesta segunda (18), a atualização do aplicativo Moda Livre. Disponível gratuitamente para download em versões para iPhone e Android, ele avalia as ações que as principais marcas e varejistas de roupas no país vêm tomando para evitar que as peças de vestuário de suas lojas tenham sido produzidas por mão de obra escrava. O Moda Livre é também uma das primeiras reportagens feitas no Brasil em formato de aplicativo.

Como baixar:
Ele está disponível na loja da Apple e no Google Play e roda nos sistemas operacionais iOs 5+ e Android 4+.

Nesta nova atualização, a base de empresas avaliada pelo Moda Livre foi ampliada para incluir mais nomes consagrados no mercado nacional da moda, atingindo 45 marcas e varejistas. É o caso das holdings Inbrands – que controla grifes refinadas como Ellus, Richards, Mandi e Bobstore – e do grupo AMC Têxtil, responsável por marcas conhecidas do público brasileiro, como Forum, Colcci e Triton.

Outra companhia detentora de marcas valiosas (como Siberian, Crawford e Memove), a Valdac Global Brands também integra o hall de companhias analisadas pela equipe da Repórter Brasil. Há também varejistas presentes de norte a sul do Brasil, como as Lojas Americanas, e fabricantes de roupas bastante tradicionais no mercado nacional – como Malwee e Marisol. iphone

O Moda Livre avalia os principais grupos varejistas de moda em atividade no país, além das empresas em que a produção de roupa foi marcada por casos de trabalho escravo flagrados por fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A Repórter Brasil convidou todas as companhias a responder a um questionário-padrão que avalia basicamente quatro indicadores:

1. Políticas: compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento.
2. Monitoramento: medidas adotadas pelas empresas para fiscalizar seus fornecedores de roupa.
3. Transparência: ações tomadas pelas empresas para comunicar a seus clientes o que vêm fazendo para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo.
4. Histórico: resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo o governo.

As respostas geram uma pontuação e, com base nela, as empresas são classificadas em três categorias de cores: verde, amarelo e vermelho. Aquelas que não responderam ao questionário, apesar dos insistentes convites, foram automaticamente incluídas na categoria vermelha. A razão é simples: considerou-se que elas zeraram o questionário.

O Moda Livre não recomenda que o consumidor compre ou deixe de comprar roupas de determinada marca. Apenas fornece informação para que faça a escolha de forma consciente. O aplicativo é fruto da apuração da equipe de jornalismo da Repórter Brasil e do design e desenvolvimento da agência PiU Comunica.

Passei anos ouvindo que o consumidor é o culpado pelas desgraças do mundo ao não adotar um comportamento mais responsável ao escolher os seus produtos. Esse discurso, é claro, tira parte do peso da cobrança de cima das costas de empresas e de governos e ignora um elemento básico: falta informação de qualidade para que a maioria das pessoas possa tomar sua decisão. Daí surgiu a ideia do aplicativo, que tive o prazer de coordenar.

O aplicativo, que também conta com uma seção de notícias sobre trabalho escravo e o setor de vestuário, atualizada quando ocorrem resgates de trabalhadores e surgem outras informações relevantes, também pode ser encontrado na loja da Apple e no Google Play com os termos de busca “moda livre'' e “moda livre repórter brasil''.


Você foi ao velório? Ué, mas não vi fotos suas nas redes sociais…
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Leonardo Sakamoto

A maioria dos que vão a um velório quer prestar homenagens à pessoa que faleceu e solidariedade à família e aos amigos. Outros comparecem para verem e serem vistos. Sem contar os que são guiados pela mera curiosidade.

Um grupo, contudo, vai a velórios de gente conhecida porque quer fazer parte de algo sobre o qual toda a mídia está falando – mesmo que a pessoa não lhe significasse nada em especial. Querem ir para poderem dizer “estive lá''. Foi assim com parte dos que visitaram nomes como Ayrton Senna ou Roberto Marinho, cujas mortes, como a de Eduardo Campos, foram intensamente cobertas por veículos de comunicação por diferentes razões.

Para muitos destes, a certificação da presença se dá através da postagem de uma foto nas redes sociais. Se possível, com uma selfie que é para não deixar margem de dúvida. Caso não mostre a foto a ninguém, o esforço de ter ido ao velório não fará sentido algum. Pois, para essa pessoa, a constatação de que aquilo foi real depende de validação externa, a partir do momento em que sua imagem for atestada coletivamente por “likes''.

Ou, além: se você não fotografou e/ou não postou é porque não esteve lá. E estar “lá'' conecta com o mundo naquele momento, coloca você no lugar quentinho que é o sentimento de pertencimento. Afinal, o mundo inteiro está falando de “lá''.

Não estou dizendo que isso esvazia a experiência individual e coletiva de viver a catarse causada por um velório de massa. Também não estou afirmando que existe apenas uma forma de expressar o luto e respeito. Mas esse tipo de comportamento, muito típico das chamadas “gincanas digitais'', transforma essa experiência em algo novo.

É possível fazer uma analogia com o comportamento em museus e exposições, por exemplo. Será que as pessoas que visitam esse locais fotografando compulsivamente tudo o que aparece pela frente, ziguezagueando feito uma barata que cheirou uma carreira de coca, realmente se lembram do que viram um mês depois? Ou conseguiram dialogar com o artista? Será que ao menos elas estavam lá?

Pior do que sair fotografando obras de arte de forma alucinada é gravar shows inteiros de música no celular. Perde-se o show para, depois, subir um vídeo tosco no YouTube a fim de validar a presença da pessoa publicamente.

Enfim, capturar é mais importante que sentir em um mundo em que ter é mais relevante que ser. A impressão é que a memória vai sendo transferida, paulatinamente, da cabeça para cartões SD, tornando-nos cada vez mais dependentes deles para recriar nossas vivências.

O mesmo se aplica a viajar. Para muitos, conhecer uma nova realidade é ir ticando uma lista de ícones – “pronto, já vi'' – derivados de guias simplistas ou matérias de turismo duvidosas que reforçam a caça ao tesouro. Sem considerar, é claro, uma vida inteira de bombardeio de padrões pela mídia, em programas de auditório ou comerciais de TV, que deixavam claro que se foi à Roma e não visitou a Basílica de São Pedro (mesmo que ache aquilo um porre), você não viu nada, é um pária social.

Quantos têm coragem de dizer não e fugir da manada? Quantos conseguem alterar a programação a qual foram submetidos por anos?

Quantos percebem que a vida basta em si mesma, sem necessidade de validação?

Em tempo: Estou com aquele sentimento de vergonha alheia pelos petistas e tucanos que estão espalhando fotos de um sorriso de Marina Silva no velório como se ela estivesse curtindo demasiadamente aquele momento. Vocês têm titica na cabeça? Pelamordedeus, cresçam. Cada vez mais acho que o Brasil não chega até o final de outubro.


Quem tira fina de bicicleta na rua não vai para o céu
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Leonardo Sakamoto

- Sai da rua, mané!

O berro veio de dentro de um carro grande, daqueles que ironicamente carregam um “Salve a natureza'' no protetor do estepe traseiro, ao passar quase raspando pela minha bicicleta. E não foi bem “mané'' que ele disse mas, neste horário, há crianças na sala.

Mais do que o susto, fiquei um tanto quanto intrigado com a razão pela qual, em uma avenida com faixas vazias, ele resolvei tentar tirar uma lasquinha logo de mim. A única explicação plausível, descontando possíveis condições psicológicas ligadas à variação brusca de humor ou o reconhecimento deste que vos escreve por algum comentarista deste blog, seria uma tentativa de impor uma punição.

Afinal de contas, eu precisava ser educado, pela palavra e pela pedra, que a cidade foi feita para carros.

Particularmente, acho essas tentativas de catequização automobilística extremamente elucidatórias. Pois sabe aquela tese de que o nível de consciência da cidadania é diretamente proporcional à renda? Então, é cascata.

Uma pessoa em uma bicicleta tem tanto direito quanto uma pessoa em um carro de trafegar pelas ruas da cidade. E isso vai ter que ser respeitado, cada vez mais, quer o povo que tem orgasmo com essência de carro novo goste ou não.

Não acho que o pessoal ande derrubando ciclistas como pato em parque de diversão de propósito. Mas finas são tiradas de forma consciente, como parte desse processo pedagógico que querem nos impor. Até porque, na cabeça desse povo, tudo isso é um grande “ou eles, ou eu''.

E, sabe como é: com essa onda maluca de ciclovias pela cidade, a paz dos motorizados está ameaçada. Qual o próximo passo? Uma política comunista de priorizar o transporte coletivo, dando menos atenção ao individual? Já não basta ter que dar direitos às mucamas e combater o trabalho escravo contemporâneo, agora mais essa? Como é que ficam os direitos dos “homens de bem''?

Tempos atrás, vi uma cena de um carrinho de bebê que, aos trancos, salvou-se de ser atropelado por um possante prateado. O motorista ainda teve a pachorra de abrir o vidro para xingar uma mãe de guarda-chuvas por atravessar em faixa de pedestres num dia molhado. Eisenstein nem precisaria da escadaria para filmar “O Encouraçado Potemkin'' por aqui. Dane-se que é um carrinho de bebê. Se não funciona com um motor à explosão, não pode estar na rua.

Um pequeno congestionamento havia se formado mais à frente por conta de dois carros batidos. Por isso, deu tempo de encontrar o Mr. Driver (Pateta, #adoro) no semáforo. Depois de um longo silêncio, disse a ele a única coisa que fazia sentido:

- Trânsito louco esse, não?