Blog do Sakamoto

Deus ignora Itu e moradores percebem que falta d’água é culpa das pessoas
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Leonardo Sakamoto

Qual é o exato momento em que um povo se cansa de esperar a ajuda de Deus e vai à luta? A resposta não é fácil. Depende da história desse povo, o nível de consciência sobre si mesmo e o lugar em que vive, o tamanho ou a gravidade do problema e, quase sempre, de uma faísca que acende o pavio.

Atenção para o título desta matéria da Folha de S. Paulo, de 11 de julho deste ano:

Moradores de Itu fazem procissão para pedir chuva

Cerca de 2 mil fiéis da cidade do interior paulista, que estava sob racionamento já havia cinco meses na época, saíram em caminhada pedindo que o sobrenatural enviasse chuva à região. Oraram e lavaram uma cruz com garrafinhas de água.

“Assim como o profeta Elias em um momento da história também suplicou a Deus, e Deus mandou chuva. Nós nos baseamos em situações bíblicas e, diante da necessidade de água, pedimos por todas as cidades, não só por Itu'', disse o padre Francisco Carlos Rossi, em depoimento colhido pela repórter Ana Krepp.

Coincidentemente choveu naquele dia.

Há quem diga que foi vontade divina.

Mas, se foi, veio de um Deus bem sovina porque a chuva não bastou.

Nesta segunda (22), mais de dois meses de seca depois, outro título, agora do UOL:

Câmara de Itu (SP) é apedrejada em protesto por causa de falta de água

Outras 2 mil pessoas protestaram em frente à Câmara dos Vereadores da cidade por conta da falta de ações efetivas para enfrentar a falta de água. Manifestantes lançaram pedras e ovos contra o edifício. Ao final, a polícia militar interveio no protesto, que havia sido convocado pelas redes sociais. Bombas de efeito moral foram usadas.

Os reservatórios de Itu estão com menos de 2% de sua capacidade. Há bairros que ficam uma semana com as torneiras secas e aulas foram suspensas, segundo a reportagem.

Vocês vão dizer que os 2 mil que pediram a intervenção divina não foram os mesmos 2 mil que exigiram ação política. Talvez digam que alguém se beneficiará do ponto de vista eleitoral. E que lançar pedras não é o melhor jeito de expressar insatisfação. Provavelmente estarão cobertos de razão para tudo isso.

Mas a mesma Itu que gerou uma procissão para pedir aos céus, também produziu um ato político, responsabilizando homens e mulheres e mostrando que, ao contrário do que aponta o senso comum, perto do abismo, há quem saiba o que dá certo e o que não dá.

Isso é daquelas coisas que fazem a gente ter um pouquinho mais de fé. No ser humano, claro.


Eleições: Não há anjos, nem demônios. Mas queremos acreditar que existem
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Leonardo Sakamoto

Duas versões de um mesmo acontecimento são confrontadas.

A primeira, está fundamentada em fontes com diferentes pontos de vista, dados de instituições confiáveis, informações investigadas e checadas em longa apuração. Passa no crivo da lógica, mas é chata pra diabo.

A segunda baseia-se em uma teoria mirabolante, conspiratória e deliciosa, que coloca uma outra pessoa, candidato, empresa ou governo em maus lençóis. Não faz sentido algum, mas ajuda a reafirmar a sua visão de mundo.

Em qual você prefere acreditar?

A maioria responde “a primeira'', quando observada pelo coletivo, e “a segunda'' no silêncio do anonimato – o lugar quentinho em que nos refugiamos da razão, aquela castradora maldita.

E quando alguém traz dados para mostrar que a “segunda'' não se confirma, é prontamente convidado a se retirar ou a calar-se. E não estou falando apenas das eleições. Isso acontece o tempo todo.

Sugestão: se você quer chegar vivo até o final de outubro, ou melhor, se você preza sua sanidade mental e quer continuar assim, refugie-se no alto do seu cinismo. Agora e sempre.

Não acredite no que a internet diz, ou no que a imprensa diz, ou no que seus candidatos dizem.

Desconfie de seus amigos, chefes, colegas, vizinhos, governos.

Ponha em xeque os ensinamentos de sua família, do seu professor, de seu guru espiritual ou daqueles que dizem falar em nome do seu deus.

Duvide deste blogueiro cabeçudo.

Esteja aberto a pontos de vista diferentes dos seus, sem necessariamente comprar as ideias neles presentes.

Absorva o máximo de informação possível, de fontes com visões diferentes das coisas.

Depois, com calma, converse, verifique, reflita, analise.

Pense. Não deixe que pensem por você.

Garanto que o mundo ficará muito menos colorido e sem graça. Mas a vida não é conto de fadas. Infelizmente, a vida é isso aí que está diante dos seus olhos mesmo, crua, seca e dura. Acostume-se e pare de fugir, criando bandidos e mocinhos, heróis e vilões, onde eles não existem.

O pior é que, ainda por cima, sou obrigado a ouvir que maconha é que afasta as pessoas da realidade.


Nesta eleição, vote pela retirada de crucifixos de instituições públicas
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Leonardo Sakamoto

Defendo fortemente que a retirada de símbolos religiosos de prédios públicos seja realizada por todos os que ocupam cargos públicos no país. Pessoas são eleitas para representar cidadãos de todas as crenças (inclusive os que acreditam em nada) e não apenas cristãos.

A discussão não é nova no país ou mesmo neste blog, mas acho que é obrigação cívica resgatá-la em época de eleições.

A questão da retirada de crucifixos, imagens e afins de repartições gerou polêmicas ao longo da história a partir do momento em que um Estado se afirma laico. A França retirou os símbolos religiosos de sedes de governos, tribunais e escolas públicas no final do século 19. Nossa primeira Constituição republicana já contemplava a separação entre Estado e Igreja, mas estamos mais de 120 anos atrasados em cumprir a promessas dos legisladores de então.

E se, no local do crucifixo no plenário do Supremo Tribunal Federal, colocássemos o escudo da gloriosa Sociedade Esportiva Palmeiras?

E se, no local onde está o crucifixo do plenário do Supremo Tribunal Federal, colocássemos o escudo da gloriosa e centenária Sociedade Esportiva Palmeiras?

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil chegou a lançar uma nota, no passado, em que rejeitou “a criação de ‘mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União’, pois considera que tal medida intolerante pretende ignorar nossas raízes históricas”. Adoro quando alguém apela para as “raízes históricas” para discutir algo.

A escravidão está em nossas raízes históricas.

A sociedade patriarcal está em nossas raízes históricas.

A desigualdade social estrutural está em nossas raízes históricas.

A exploração irracional dos recursos naturais está em nossas raízes históricas.

A submissão da mulher como reprodutora e mercadoria sexual está em nossas raízes históricas.

As decisões de Estado serem tomadas por meia dúzia de iluminados ignorando a participação popular estão em nossas raízes históricas.

Lavar a honra com sangue está em nossas raízes históricas.

Caçar índios no mato está em nossas raízes históricas.

E isso para falar apenas de Brasil. Até porque queimar pessoas na fogueira por intolerância de pensamento está nas raízes históricas de muita gente…

Quando o ser humano consegue caminhar a ponto de ver no horizonte a possibilidade de se livrar das amarras de suas “raízes históricas'', obtendo a liberdade para acreditar ou não, fazer ou não fazer, ser o que quiser ser, instituições importantes trazem justificativas fracas como essa, que fariam São Tomás de Aquino corar de vergonha intelectual.

Por outro lado, o pessoal ultraconservador sente aquele comichão de alegria e excitação.

Iniciativas dos três poderes e do ministério público têm tentado garantir a saudável separação entre igreja e Estado, autorizando que crucifixos que adornavam repartições fossem retirados. Algumas dessas ações têm vida curta, mas o que importa é que há um processo de conscientização e ação em andamento. Lento, mas há.

É necessário que se retirem adornos e referência religiosas de edifícios públicos, como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Não é porque o país tem uma maioria de católicos que espíritas, judeus, muçulmanos, enfim, minorias, precisem aceitar um símbolo cristão em um espaço do Estado.

As denominações cristãs são parte interessada em várias polêmicas judiciais – de pesquisas com célula-tronco à extensão do direito ao aborto. Se esses elementos estão escancaradamente presentes nos locais onde são tomadas as decisões sem que ninguém se mexa para retirá-las, como garantir que as decisões serão isentas?

O Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos, tenham seus templos, igrejas e terreiros e ostentem seus símbolos publicamente. Não pode se envolver, positiva ou negativamente, em nenhuma delas. Estado é Estado. Religião é religião.

“Ah, mas então vamos retirar o Cristo Redentor do morro do Corcovado. E vamos acabar com os feriados religiosos no Brasil''. Como é política deste blog ignorar previamente comentários com argumentos bobos, sobre isso, digo apenas: Ahã, Claudia, senta lá.

Não sou eu quem pede isso e sim Mateus. É, Mateus. O coletor de impostos que registrou a fala do revolucionário de barba, que pregava a igualdade entre os povos. Não, Marx não. Jesus de Nazaré.

No capítulo 22, versículo 21 do livro atribuído ao evangelista, está registrado: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus''.

Nesta eleição, você, pessoa de fé naquilo que não vê ou de fé apenas naquilo que vê, vote em quem prometer tirar crucifixos de gabinetes e plenários e enviá-los ao seu devido lugar. Ou seja, qualquer um longe das paredes das instituições que pertencem a todos e todas, independente do credo.


Marina: a confusão sobre o trabalho escravo em seu programa de governo
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Leonardo Sakamoto

Pequenas falhas acabam se tornando uma bola de neve, por vezes difíceis de se controlar. Ainda mais em período eleitoral.

Quando Marina Silva divulgou seu programa de governo, achei estranho a publicação de uma meta sobre dar nova redação ao artigo 149 do Código Penal, que conceitua e prevê penas a quem submete outras pessoas a trabalho análogo ao de escravo. A proposta prevê “tipificar de forma mais precisa'' o crime.

Walter Feldman, um dos seus assessores mais próximos, foi relator da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Trabalho Escravo, que ocorreu nesta última legislatura na Câmara dos Deputados, e havia se colocado contra qualquer mudança no conceito. Outras pessoas que fazem parte da entourage de Marina sempre defenderam o conceito atual.

Ao mesmo tempo, seria um tanto quanto mirim por parte da candidata publicar uma proposta tão acintosa aos interesses dos trabalhadores em seu programa. Até porque, para afagar os ruralistas, há formas mais palatáveis.

A pauta de tipificação do 149 é um daqueles casos irônicos. No início da década passada, ativistas contra o trabalho escravo contemporâneo e membros do Ministério Público lutavam para mudar a redação do artigo, muito aberta e que dava margem a interpretações muito restritas do que seria o crime. Por isso, a atualização do artigo foi inserida como meta no Programa Nacional de Direitos Humanos 2, como demanda da sociedade civil.

A atualização veio a ocorrer através da lei número 10.803, de 2003, que tramitou durante anos no Congresso Nacional e foi alvo de intensos debates. Definiu-se que servidão por dívida, trabalho forçado, condições degradantes (que limam a dignidade do trabalhador) e jornada exaustiva (que coloca em risco a saúde e a vida do trabalhador e não tem a ver com desrespeito às horas extras) definem o crime – indo ao encontro do que defende a relatoria para formas contemporâneas de escravidão das Nações Unidas.

Parte dos ruralistas nunca se conformou com a mudança e, desde então, atua para retirar as condições degradantes e a jornada exaustiva da lei. Ou seja, hoje a mudança do artigo não é mais demanda da sociedade civil e sim da representação de agricultores e pecuaristas no parlamento.

Conversei com pessoas que possuem papel central na campanha de Marina Silva, que, reservadamente, também estranharam a meta. Chegaram à conclusão de que o provável é que, durante a produção do programa, acreditou-se que seria algo bom a incorporação de demandas do PNDH 2. Que, ao contrário do que o candidato Aécio Neves afirmou, não pertence ao governo Fernando Henrique, mas é fruto de intensa participação da sociedade civil em parceria com o poder público.

O problema é que o PNDH 2 é de 2002 e a referência usada deveria ter sido o PNDH 3, de 2009, que também elenca uma série de ações para erradicar a escravidão do país. Pois a meta de mudar o texto do artigo 149 já fora cumprida em 2003.

A percepção tardia disso gerou um certo desconforto. Pessoas próximas da candidata me lembraram que, durante sua gestão como ministra do Meio Ambiente, Marina Silva criou a lista de embargos do Ibama, que relaciona pessoas e empresas flagradas com sérias irregularidades ambientais. E esse cadastro teve inspiração exatamente no cadastro de empregadores flagrados com mão de obra escrava, a chamada “lista suja'', do Ministério do Trabalho e Emprego, como ela mesma reconheceu na época.

Assessores próximos da candidata afirmaram a este blog que não há acordo com os ruralistas no sentido de mudar ou retirar qualquer um dos quatro elementos que caracterizam trabalho escravo contemporâneo, muito menos houve a intenção de agrada-los através dessa proposta.

Então, o discurso público adotado na campanha para resolver esse embrólio foi o de que a meta para tornar mais claro o 149 serve para reafirmar a definição existente e não para diminuir direitos trabalhistas.

Como forma de reafirmar que ela não teria intenção de mudar o conceito de trabalho escravo, a candidata assinou, em 10 de setembro, a Carta Compromisso contra o Trabalho Escravo, proposta pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). Nela, compromete-se a “reconhecer e defender a definição de trabalho análogo ao de escravo presente no artigo 149 do Código Penal, caracterizado por trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes ou jornada exaustiva''.

Dilma Rousseff, Eduardo Jorge e Luciana Genro também assinaram a Carta-Compromisso. Aécio foi convidado mas, até o momento, não endossou o documento.

Se ela vai cumprir ou não o que está na carta, uma vez eleita, é um exercício de futurologia. E de imaginar como se dará a composição da base de apoio, entre progressistas e conservadores, em um futuro governo.


A morte do ambulante não foi “caso isolado”. Foi “incidente padrão”
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Leonardo Sakamoto

O prefeito Fernando Haddad disse que o caso da morte do vendedor ambulante Carlos Augusto Braga por um policial militar durante blitz contra o comércio irregular, na capital paulista, nesta quinta (18), foi um “caso isolado''. Referia-se ao contexto da Operação Delegada, um “bico'' de policiais em horários de folga, pago pela prefeitura.

Creio que ele foi bastante infeliz ao utilizar o termo (a Prefeitura é bastante capenga em comunicação, diga-se de passagem). Pois o despreparo para lidar com situações-limite é o padrão na polícia de São Paulo. Como disse aqui no post sobre o caos na desocupação de um imóvel no Centro de São Paulo, nesta semana,  a polícia deve ser mais fria que o cidadão, engolindo sapos se necessário.

Deve estar preparada psicologicamente para situações assim, sabendo quando avançar, retroceder, agir sozinho, atuar em grupo. Quando sacar uma arma de fogo. E, principalmente, saber o que é tático e o que estratégico: quando deixar de fazer uma autuação por comércio irregular ou qualquer outro delito menor em detrimento a começar um tumulto que, ele próprio, não terá condições de controlar.

Como já disse aqui, policiais não nascem violentos, aprendem a ser violentos e entendem que, em sua função, não podem ser contrariados ou mesmo atacados. Nunca os métodos da ditadura foram questionados a ponto de serem trocados por uma abordagem mais humana e racional. A formação desses policiais é muito ruim e não faz frente a uma realidade democrática em que as pessoas sentem-se livres para questionar ações do Estado e seus agentes sobre prisões indevidas.

Nesse sentido, melhor se o prefeito falasse, ao invés de “caso isolado'', em “incidente padrão''. Pois, mesmo tendo sido acidente, não terá sido acidente. Isso já estava previsto para acontecer desde que o soldado deixou a academia. Apesar dele ter disparado, mas muita gente, que formula políticas de segurança pública e as executa, já tinha deixado a bala na agulha.


Já estou preparado para uma vida sem água. E você?
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Leonardo Sakamoto

Minha mãe disse que, quando acabar a água do sistema Cantareira, que abastece a região onde moro aqui em São Paulo, posso ir tomar banho e lavar roupa na casa dela, suprida pelo sistema Guarapiranga.

A pergunta não foi um cutucão político, pois ela não acompanha muito os debates da vida pública. Creio que teve motivação mais prosaica. Pois, dessa forma, pode ver mais o filho que anda tão ocupado que não tem mais tempo para comer as coxinhas e as empadinhas que ela faz.

Perguntou quando isso deve acontecer. No que respondi, final de outubro.

- Mas isso é logo depois das eleições, né?
- É…
- Mas o pessoal sabe disso?
- Sabe…

Fazendo reportagens pelo interior do Brasil, tive que, por vezes, me virar com pouca água limpa e muitos baby wipes.

Em Timor Leste, numa incursão mato adentro, fiquei cinco dias sem banho. Não me pergunte como.

Realizando coberturas em áreas desérticas ou áridas, aprendi truques milenares para usar um cantil por dia para tudo.

Reaproveitar roupas usadas sem precisar lavar é uma arte.

Usar paninhos com produtos de limpeza que dispensam água em móveis e no chão, um conhecimento útil.

Captar água das raras chuvas para regar plantas, ecologicamente bonito.

Limpar pratos sem água, um sucesso.

Não tenho carro, então dane-se a mangueira. Bike suja é bike de luta.

Rasparei o cabelo. Direi que é charme.

Suco? Chupe fruta!

Café? Coma o pó!

Regar plantas? Flores secas são lindas.

Dar descarga, para quê? Deixa juntar, oras! Deu nojinho? São Paulo é para os fortes, mano!

E aprenderei as técnicas de Pai Mei a fim de controlar a transpiração.

Se tudo falhar, comando uma marcha dos paulistas bons em direção à Terra da Água Prometida. Afinal, somos ou não um povo bandeirante? Pode ser Rondônia, onde transformaremos tudo em um grande shopping center. O Acre será o estacionamento.

É isso.

Vem em mim, novembro, que estou pronto para você.


Dilmistas, Marinistas e Aecistas: andem uniformizados, por favor
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Leonardo Sakamoto

Gosto de acompanhar os debates dos presidenciáveis comentando pelo Twitter. Já foram ossos do ofício. Hoje, considero apenas um hábito não saudável.

E, ao contrário do que muitos possam pensar, todos os candidatos e candidatas têm muito o que oferecer. Principalmente no campo da graça.

Com o tempo, percebe-se que há comportamentos que se repetem entre os tuitadores.

Se você faz um comentário jocoso sobre o candidato A, o eleitor do B posta que você é “gênio da raça''. No momento seguinte, ao fazer um comentário jocoso sobre B, o mesmo eleitor diz que você é o “maior débil mental da face da Terra''. Se você goza de C, o cara de B volta a dizer que “Saka é rei''. Para, depois, sugerir que você seja “processado pela lei eleitoral'' quando fala novamente de B, porque B dá margem para isso (comentários reais retirados do Twitter).

Na minha timeline, não salva ninguém. Todos têm torcidas organizadas na rede – Dilmistas, Marinistas, Aecistas…- para falar dos três candidatos à frente. E não falo do povo que faz o debate político saudável, não. Muito menos dos haters e trolls contratados pelas campanhas para fazer o papel de contrainformação, desconstrução, vigilância e ataque. Estou falando do pessoal que faz isso na faixa, por amor à camisa.

Mais do que um sentimento de estar construindo um mundo novo, coletivamente, esse pessoal se junta guiado pela sensação de conforto trazida pelo sentimento de pertencimento a um grupo. E, o melhor: esse grupo se define muitas vezes não pela aceitação das propostas do seu candidato, mas por identidade reativa ao adversário. Juntam-se pelo ódio ao outro, não pelo amor ao seu.

Eles abandonam a razão muito antes que o povo das organizadas do futebol. Esse sabe quando o seu time dá vexame e quando manda bem, protesta contra os dirigentes, vaia a própria esquadra, reconhece jogadas de craque do adversário, enfim, “lealdade, humildade, procedimento''.

As organizadas eleitorais da internet, não. Tudo o que sai da boca de seu candidato ou sua candidata é a Verdade Suprema com cheiro de lavanda, ladeado por coelhinhos brancos e fofos. E, da boca do outro, a mais completa titica pútrida e fétida, infestada de vermes e baratas.

Muito se critica a Mancha Verde, a Gaviões da Fiel ou a Independente. Mas, ao menos, o pessoal das torcidas anda uniformizado. Na internet, com exceção de alguns poucos que se identificam como tal, não temos muita informação sobre eles. Estão na penumbra. Andando nas sombras. Podem ser qualquer um.

Você pode estar, neste momento, pedindo uma caracu com ovo e um torresmo à milanesa no boteco ao lado de um deles e nem sabia. Isso dá medo, não?

Por isso, peço que cada uma das organizadas lancem seu uniforme próprio, digital e analógico de preferência. Não é discriminação, longe disso.

Mas, dessa forma, é mais fácil ser condescendente até outubro quando tiverem seus ataques bipolares de raiva.

“Calma, ele é um torcedor eleitoral, não um eleitor. Não é culpa dele. Não sabe o que diz.''


E São Paulo fez, novamente, o que faz de melhor: expulsar pobre
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Leonardo Sakamoto

Foram bizarras as cenas de violência policial contra os sem-teto na desocupação de um prédio, na região central de São Paulo, nesta terça (16).

Daí, dou uma fuçada na rede e vejo que há muita gente defendendo o que houve. Dizendo que a pancadaria foi justa (pancadaria, sim, porque não existe confronto possível entre bombas e balas e paus, pedras e móveis usados). Ou que os sem-teto estavam “pedindo'' para apanhar ao ocuparem um edifício.

Quando vejo pessoas ocuparem um prédio ocioso, não consigo deixar de ficar feliz porque aquele imóvel, finalmente, poderá ter uma função social. Com exceção do dono do prédio, de outros donos de edifícios ociosos e de seus representantes políticos, legais e econômicos, ou das pessoas que pertençam às mesmas classes sociais desse pessoal já citado ou que é por eles pagos para defender seus interesses, é difícil entender a razão de ter gente que sai atacando uma ocupação de sem-teto como essa, fazendo o papel de soldadinho não-remunerado.

Vou dar um exemplo que já trouxe aqui. Atenção para a declaração abaixo:

“Trabalhei a vida inteira e nunca tive uma casa própria. Agora, vem um bando de desocupado e invade um prédio para chamar de seu? A polícia tem que descer o cacete nesse povo para aprender que patrimônio só surge do suor e do trabalho.''

Nada como uma sociedade doutrinada para servir de cão de guarda, não? Já eu prefiro esta versão mais sincera:

“Se eu sou um covarde e não tenho coragem de lutar pelo que acredito ser uma vida digna, permanecendo na ignorância (que é um lugar quentinho) e preferindo ruminar silenciosamente entre os dentes a minha infelicidade, quero que o mundo faça o mesmo.''

Vocês acham realmente que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade, que podem propiciar alternativas de vida, sao alcançáveis a todos e todas desde o berço? E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta? Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação? Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Então, saiba que sem essa vigilância invisível feita pelos próprios controlados (que não refletem, apenas repetem), é impossível um grupo se manter no poder por tanto tempo e de forma aparentemente pacífica como ocorre por aqui.

Bem, já coloquei aqui meu ponto de que acho que lançar famílias ao relento enquanto a especulação imobiliária corre solta é ridículo.

Mas há outra coisa importante. A polícia tem que ser mais fria que o cidadão em uma desocupação ou um protesto. Se a sua missão for garantir a segurança de todos, ela deveria cumprir isso evitando o confronto. Engolindo mais sapos se for necessário, afinal ela não está em guerra com a sua própria gente. Muito menos em uma competição para ver quem tem mais poder.

Porque isso já deveria ser claro: o povo.

E, para isso, a polícia tem que estar preparada, principalmente psicologicamente. Mas não está.

Não, policiais não são monstros alterados por radiação após testes nucleares em um atol francês no Pacífico. Não é da natureza das pessoas que decidem vestir farda (por opção ou falta dela) tornarem-se violentos. Elas aprendem.

No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua herança mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter o status quo.

Investido de poder para cumprir essa missão, o policial aprende a não ser contrariado ou atacado. Foi hostilizado por famílias que não têm nada, nem onde morar, revoltadas por estarem sendo colocadas na rua? Manda bomba. Recebeu uma resposta atravessada em uma blitz? Esculacha. Achou que a presença da imprensa é uma afronta à sua atuação como profissional? Atira bala de borracha.

O problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma revisão sobre o papel e os métodos da polícia em nossa sociedade.

E com mudanças políticas. Porque, por mais que a polícia faça o que quer, ela responde a ordens. E ordens de quem?

Setores da polícia estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não cumpram as regras. Outra parte sabe que a mesma sociedade está pouco se lixando para eles e suas famílias, pagando salários ridículos e cobrando para que se sacrifiquem em nome do patrimônio alheio.

Parte da população apoia esse tipo de comportamento policial. Gosta de se enganar e acha que se sente mais segura com o Estado agindo dessa forma. Essas pessoas são seguidoras da doutrina: “se você apanhou da polícia, é porque alguma culpa tem''.

E se não se importam com inocentes, imagine então com quem é culpado. Para eles, é pena de morte e depois derrubar a casa e salgar o terreno onde a pessoa nasceu, além de esterilizar a mãe para que não gere outro meliante. Enfim, mais do que um país sem memória e sem Justiça, temos diante de nós um Brasil conivente com a violência como principal instrumento de ação policial.

Ou talvez isso nem seja um problema, não é? Afinal, com algumas exceções, isso é uma briga envolvendo pobres (policiais) contra pobres (quem é baleado ou é mandado para a cadeia).

Que já é muito útil normalmente para manter as coisas como estão. Em período eleitoral, então, nem se fala.

 


Ei, classe média! Dá para viver deixando o carro na garagem
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Leonardo Sakamoto

Quando vendi meu carro, anos atrás, amigos mais chegados se preocuparam com minha existência.

- Mas assim, tão de repente?
- Também estranhei. Ele era tão apegado.
- Olha, não vai aguentar viver sem.
- Também acho. Teremos que estar lá para dar o apoio que precisa. Teremos que ser fortes por ele.

Eu era do tipo que fazia tudo usando automóvel. Não, não do tipo patológico, que tem medo da cidade e pega o carro para ir à padaria, à academia ou ao supermercado, que ficam a duas quadras de distância. A esse tipo, o meu desprezo eterno e um beijinho no ombro. Mas, sabendo que teria um carro à disposição, programava minha vida com reuniões em cantos diferentes da cidade e fora dela, visitava amigos que moravam longe e ia com eles botecar onde quer que fosse. Por que? Porque eu podia, oras! Estava de carro!

Veja a cobertura especial do UOL da Semana da Mobilidade

Para entender o “Sakamotor'', vamos voltar alguns anos. Fiz o ensino médio na então Escola Técnica Federal de São Paulo, que fica na zona norte, enquanto morava no Campo Limpo, na zona sul. Entre caminhada, metrô e ônibus, eram, pelo menos, duas horas para ir e o mesmo tanto para voltar. Isso sem contar o calor humano de conduções lotadas em dia de chuva e a sensação de completo perdedor ao cochilar e acordar no ponto final do Jardim Macedônia ou do Parque Ipê (abraço para galera do Ipê!) já tarde da noite.

Tinha seu lado lúdico, é claro. Quando você perde o medo do transporte coletivo e entende como ele funciona, mesmo no alto da precariedade do começo dos anos 90, a cidade vira seu quintal. A Cidade Ademar e a Cidade Tiradentes tornam-se alcançáveis, da mesma forma que São Miguel Paulista, São Mateus e Santo Amaro. Ao mesmo tempo, a minha casa no Campo Limpo vivia cheia de amigos de todos esses lugares.

Era a época do mercado negro de passes de ônibus. Quem nunca trocou dois passes escolares por um churrasco grego com suco grátis no ponto final da Estação da Luz que atire o primeiro hambúrguer gourmet.

Mas essa vida cansa. Ficar sem grana por qualquer motivo (como ter comprado dois churrascos gregos na Luz…) levava à gincana de convencer o cobrador a deixar passar por baixo da catraca. E eu não era exatamente um cara magrelo. Na faculdade, portanto, assim que tirei a carta fiz de tudo para ter um carro e, com ele, mais conforto.

Deparei-me, então, com um novo tipo de pessoa. O Revolucionário com a Cabeça Alheia (para não falar de outra parte do corpo). Por mais que defendesse com unhas e dentes o transporte coletivo, ficava irritado com alguns amigos que sempre viveram na região mais nobre da cidade quando culpavam o tiozão da fuqueta 69 ou do 147 tunado pelo trânsito ser como era. “Ah, essas pessoas deveriam ser mais conscientes e deixar o carro delas em casa, pois o trânsito está impossível.'' Quando questionadas se não seriam eles que teriam que abandonar primeiro os seus carros na garagem (afinal, o transporte coletivo já era razoável para quem vivia nessa região central, como qualquer outro serviço público), faziam cara de nojinho. Gente pobre? Cruzes…

Quando me mudei para o Principado do Sumaré, que reúne boa parte de nós, da esquerda caviar paulistana, mantive carros de forma intermitente por um tempo ainda. Meu derradeiro – e grande amor sobre rodas – foi um jipe Willys 1964, azul perolado, com capota conversível. Não era um carro, era uma entidade. Mas, quatro canecos, bebia feito um condenado. Além de me deixar mais pobre a cada acelerada, fazia do planeta um lugar pior para se viver. Não nego que a culpa ambiental foi um dos grandes motivos que me levou a deixar que esse bêbado caísse no mundo para nunca mais voltar.

Essa caminhada me levou até o seguinte pensamento: minha vida precisa de um carro. Mas se eu invertesse a lógica e fizesse a minha vida caber no fato de que não tenho carro?

Na tentativa e erro, fui me adaptando. Tentar manter os empregos o mais próximo possível de casa, ajuda, mas não resolve – afinal passo mais tempo na rua do que no escritório ou na sala de aula. Daí, montei um pacote multimodal de mobilidade.

Para ir dar aula ou chegar em lugares que ficam a cinco quilômetros de distância (às vezes, mais), uso bicicleta regularmente. Esse limite tende a aumentar à medida em que as ciclovias forem se espalhando por essa cidade cheia de malucos que acham que bike é aquele alvo móvel de parque de diversão.

Nas primeiras tentativas, chegava com uma pizza em embaixo de cada braço e pegajoso feito goiabada cascão. O Sumaré é um bairro de altos e baixos, por assim dizer.

Acabei comprando uma bicicleta elétrica. Mas, paradoxalmente, senti o preconceito de alguns ciclistas que têm uma visão um pouco estreita da coisa: de que sem esforço, não vale. Ah, gente, vocês acham que só o Malafaia é fundamentalista? Sofri bullying em loja de bicicletas, tempos atrás, ao perguntar se tinha um modelo com bateria. “Nós vendemos bicicleta e não mobilete. Sai dessa! Subida se enfrenta nas pernas, meu irmão.'' Saí de lá me sentindo a titica do cavalo do bandido.

Mas, então, descobri que, na China, elas são uma febre. E, na Europa, vêm ganhando espaço rapidamente, conquistando aqueles que, como eu, queriam usar bicicleta para se deslocar, mas não chegar meladão no trabalho.

A bicicleta elétrica dá assistência, principalmente nas subidas, fazendo com que uma ladeira seja tão fácil de vencer quanto um caminho plano. Mas não anda sozinha – tem que pedalar. É bem mais cara que uma bike normal, mas se os bancos criassem linhas de financiamento a longo prazo com juros ridículos ou se o governo cortasse impostos como faz com os carros, seria uma opção viável para muita gente.

Hoje até vou de terno para algumas reuniões usando bicicleta.

Para deslocamentos mais longos que estejam perto do ramal do metrô ou do trem, utilizo esses transportes de massa, normalmente pegando um ônibus ou indo de bicicleta até a estação. Para o centro da cidade e outros destinos em que exista uma faixa exclusiva, prefiro obusnao.

Só quem não depende de ônibus (atenção, depender é diferente de pegar eventualmente) é que tem a pachorra de criticar a criação das faixas. É claro que elas podem ser aprimoradas, mas os moradores da cidade precisam aprender que são pessoas e não carros que mandam por aqui.

Um das sacadas mais legais que São Paulo importou foi o carsharing, um sistema de aluguel de carros por hora. Você se torna assinante do serviço, pagando uma taxa por mês, e tem acesso a dezenas de veículos em estacionamentos espalhados em bairros da cidade. Reserva o carro pela internet, dizendo quanto tempo ficará com ele, depois vai ao local, destrava o modelo que escolheu com um cartão e, pronto, é só usar. Depois paga pelas horas utilizadas e pela quilometragem e devolve ao mesmo lugar. O combustível é a empresa que fica responsável por pagar.

Muito útil para fazer compras, levar alguém para jantar ou fazer deslocamentos em curto espaço de tempo para locais não tão abastecidos por metrô e ônibus. Aos finais de semana, por exemplo, quando quero levar algo para meus pais, pego o serviço e vou até o Campo Limpo.

Por fim, o táxi. Viajo bastante a trabalho, então a saída é ir de táxi até o aeroporto – seja direto de casa, seja em estações mais próximas ao aeroporto, enquanto o poder público não termina o monotrilho até Congonhas e não constrói o trem rápido para Cumbica.

E, é claro, em dias de balada, porque voltar dirigindo depois de ter bebido é coisa de desmiolado.

Não tenho saudades do carro. Mentira, tenho saudades do meu jipe sim. Aliás, se alguém encontrar ele por aí, diga que posso até me casar de novo, mas o grande amor da minha vida motorizada é ele.

Mas por enquanto não preciso de um. Ando bastante pela cidade, mas sou solteiro. Daqui a um tempo, com família, talvez precise de um novamente para algumas necessidades.

O problema não é ter carro, mas gravitar toda a sua vida em torno do fato de ter um, transferindo a ele não apenas o caminho para a felicidade ou a condição necessária para o pertencimento social, mas a organização do seu cotidiano. Sem repensar isso, fica difícil diminuir a sua importância relativa usando outros meios de transporte – na medida do possível e dependendo de onde você viva, é claro.

Contei essa história não para mostrar como virei um hippie, até porque estou longe disso. Mas para convencer pessoas da classe média que, como eu, vivem em regiões abastecidas por estações de metrô, boas linhas de ônibus, estações de carsharing e, finalmente, ciclovias. Quando não se usa transporte público ou bicicleta, você se engaja menos para forçar os eleitos a melhorar a qualidade dos serviços públicos.

Ah, você é daqueles que acham que o problema da mobilidade de uma grande cidade se resolve abrindo mais avenidas, pontes e túneis? Sabe de nada, inocente!

E não precisa deixar o carro em casa por causa de uma modinha de uma data ou porque um japonês doido disse que é legal ter contato com as pessoas ao invés de ficar em uma bolha. Faça porque isso vai diminuir o trânsito, trânsito do qual você faz parte, e te dar mais horas para curtir a sua vida.

Mas se isso for indiferente para você também, meu último argumento: eu gasto muito, muito, muito pouco para me deslocar por São Paulo, mesmo a lugares distantes. E você?

Post produzido especialmente para a cobertura da Semana da Mobilidade do UOL, quando várias cidades do mundo realizam atividades em torno do Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro).


Dá para torcer pelo (glorioso) Palmeiras e o Corinthians ao mesmo tempo?
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Leonardo Sakamoto

Dá para torcer pelo glorioso Palmeiras e o Corinthians ao mesmo tempo? Pois é o que fazem grandes doadores de campanha que colocam recursos em muitos cavalos ao mesmo tempo, mesmo cavalos concorrentes. Dizem que querem promover a democracia com isso. Ahã, Claudia, senta lá.

Por mais que o programas de governo dos principais candidatos sejam cada vez mais parecidos (muito por conta da falta de propostas detalhadas), ainda assim é muita cara de pau de doadores apostarem em todos os números da roleta para, sempre, sair vencedor. Passei algumas horas verificando os dados de doações para diferentes cargos e é um faz-me-rir atrás do outro.

Teoricamente, o ato de doação é um indício de que o doador comunga das propostas do candidato, deseja que ele o represente politicamente, seja por suas ideias, seja por sua classe social ou quer criar com ele um vínculo por meio desse apoio em campanha. Alguns eleitos mantém apenas diálogos cordiais com os financiadores (do tipo, “obrigado, mas fiquemos a uma distância de segurança para não pegar sapinho''), outros literalmente “pagam'' através de serviços prestados.

Mas não é um pagamento retroativo, mas um pensando em garantir a continuidade do financiamento na próxima eleição.

Sugestão, se me permitirem radicalizar: tornar mais transparente a participação de doadores de campanha em licitações públicas. No mínimo, que o cidadão seja informado disso.

Adoraria, por exemplo, ver naquelas placas de obras, logo abaixo do valor do contrato, a frase:

“Empresa doadora de campanha que elegeu o(a) atual presidente(a)''.

Ou, que ficasse carimbado nos projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional e nos quais verifica-se conflito de interesses, o aviso:

“Projeto elaborado por parlamentar financiado por bancos/empreiteiras/empresas agropecuárias.''

A informação é aberta, via Tribunal Superior Eleitoral. Basta aprovar uma leizinha.

Note que não estou falando de impedir contratos com financiadores de campanha (o que seria uótemo), mas pedindo mais instrumentos de transparência.

Há também aqueles candidatos, de diferentes partidos, de progressistas a conservadores, que não aceitam doações de pessoas jurídicas. São os chamados “idiotas''. Pois não teriam percebido que o mundo é outro e não se faz política sem muito dinheiro e sem empresas fluindo rios de recursos. Mas a verdade é que o mundo é outro porque nós permitimos que as eleições se tornassem uma grande mesa de fundos de investimentos futuros.

Estou ansioso para ver como serão as próximas eleições com as limitações para doações de pessoas jurídicas.

A ladainha é antiga, mas ou viramos o jogo, o que inclui uma discussão mais séria sobre financiamento de campanha ou continuará sendo muito difícil encontrar alguém que ganhou uma eleição sem compromissos a serem quitados neste país.