Blog do Sakamoto https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Thu, 05 Dec 2019 21:51:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 É chocante que Doria tenha se chocado só agora com a PM em Paraisópolis https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/05/e-chocante-que-doria-tenha-se-chocado-so-agora-com-a-pm-em-paraisopolis/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/05/e-chocante-que-doria-tenha-se-chocado-so-agora-com-a-pm-em-paraisopolis/#respond Thu, 05 Dec 2019 21:09:08 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50885

Policial desfere golpe em rapaz com muletas, no dia 19 de outubro, na comunidade de Paraisópolis. Imagem: Reprodução

É chocante a facilidade com a qual o governador João Doria mudou de posição com relação aos procedimentos da Polícia Militar contra bailes funk. Na madrugada deste domingo (1), nove jovens foram mortos em uma delas, na favela de Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo, após uma ação policial.

Nem bem os corpos esfriaram e lá estava ele, no dia seguinte, dizendo que “a existência de um fato não inibirá as ações de segurança”, reafirmando que “a política de segurança pública não vai mudar”, cravando que Paraisópolis e outras comunidades continuariam sendo alvo. Gastou mais tempo defendendo a polícia do que dando palavras de alento às nove famílias que perderam seus filhos e às outras tantas que estão cuidando, neste momento, dos ferimentos dos sobreviventes.

Vale ressaltar que o que ele chama de “um fato” são biografias, a mais jovem delas com 14 anos, que foram interrompidas por ação de servidores públicos do Estado que ele governa.

Talvez amparado pelas palavras de apoio – “mata mesmo”, “nove a menos”, “se tava lá é porque merecia” – das caixas de comentários das reportagens sobre o caso (onde a razão, não raro, dá lugar ao chorume) ou influenciado por decisões de conselhos comunitários de segurança (que colocam pancadões em primeiro lugar na lista de reclamações), João Doria praticamente botou a mão no fogo pela corporação.

Nos dias que se seguiram, o caso foi tratado como chacina policial dentro e fora do país. As histórias dos jovens foram contadas à exaustão – de como estudavam, trabalhavam, namoravam, ajudavam suas famílias. E de como foram sumariamente executados pelo crime de se divertir em uma metrópole em que jovens pobres não tem esse direito, só os ricos.

Surgiram vídeos provando a violência policial não só no dia da festa, mas ao longo do tempo, nessa e em outras comunidades. Gravações feitas com celulares em que policiais torturam adolescentes e demonstram sentir prazer com isso.

Até o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, figura elogiada diuturnamente pelo governador, veio a público dizer que “aparentemente houve um excesso realmente, um erro operacional grave, que resultou na morte de algumas pessoas”.

Qualquer pesquisa de opinião encomendada neste momento pelo Palácio dos Bandeirantes para poder guiar a tomada de decisões de João Doria apontaria para o fato que a população considera o que aconteceu algo inominável.

Com isso, ele mudou de posicionamento. “Como governador do estado de São Paulo, eu não aceito que no Estado onde, tendo sido eleito governador, esse tipo de procedimento exista. E não mais vai existir”, afirmou nesta quinta (5).

Disse que vai revisar protocolos e treinamentos. Usou como exemplo o caso de um vídeo, de 19 de outubro, que mostra um policial desferindo golpes indiscriminadamente em jovens, enquanto sorri“Eu mesmo fiquei muito chocado quando vi as imagens que não eram de Paraisópolis agora, num outro momento, de outubro, onde um policial militar agredia jovens que estavam saindo, não sei se de uma sala ou de uma área, desnecessariamente, gratuitamente”, disse. 

Mas o primeiro protocolo que deve ser revisado é o dele, que vem apoiando a letalidade policial. Quiçá receber um treinamento para entender que a melhor forma de agir com fluxos, bailes, pancadões é através da criação de espaços públicos para os jovens pobres poderem fazer suas festas.

Já faz tempo que São Paulo e Rio optaram pelo caminho mais fácil do terrorismo de Estado contra determinados grupos sociais ao invés de buscar mudanças estruturais – como garantir qualidade de vida à população e perspectivas para os mais jovens.

Essa política, que não começou com o trio Bolsonaro, Doria e Witzel, certamente enxerga neles o apoio necessário para não se incomodar com as aparências. Perde-se o pudor de matar e cai o tapa-sexo das justificativas, que ainda tentavam encobrir algumas vergonhas. O primeiro depoimento de Doria, na última segunda (2), parecia se basear nessa sensação de “tudo pode”. Por sorte, ainda temos imprensa crítica, sociedade com alguma liberdade e jovens que, cada vez mais, não levam desaforo para casa.

Apesar de haver uma maioria honesta de policiais, há setores das corporações que estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não cumpram regras. Por isso, é preciso avançar no debate sobre a desmilitarização da polícia e a responsabilização de policiais e administradores públicos por cada ato de violência estatal. Não é possível que atuem como se estivessem em guerra contra seu próprio povo.

Não entregamos para o Estado o poder de usar a violência como último recurso a fim de proteger os cidadãos para que ele a use como padrão de solução de conflitos. Se for para isso, não precisamos de um Estado, muito menos de um governador.

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Governo suja o nome do Brasil lá fora ao brigar com dados e estatísticas https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/04/governo-suja-o-nome-do-brasil-la-fora-ao-brigar-com-dados-e-estatisticas/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/04/governo-suja-o-nome-do-brasil-la-fora-ao-brigar-com-dados-e-estatisticas/#respond Wed, 04 Dec 2019 14:54:21 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50874

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

O Financial Times, um dos jornais sobre economia mais importantes do mundo, trouxe uma reportagem questionando a credibilidade de dados divulgados pelo governo Jair Bolsonaro.

“O Ministério da Economia do Brasil revisou seus números de exportação pela segunda vez em menos de uma semana, colocando dúvidas sobre as principais divulgações de dados relevantes e deixando os analistas se perguntando se ainda devem confiar nas estatísticas brasileiras”, afirma o texto.

De acordo com a reportagem, números mostravam uma deterioração do saldo da balança comercial. Daí, o Ministério da Economia revelou que as exportações em novembro foram 3,8 bilhões de dólares maior do que anteriormente divulgado. Dias depois, afirmou que o erro havia sido uma falha no registro nos últimos três meses e que exportações de setembro e outubro também haviam sido subnotificadas em 1,37 bilhão e 1,35 bilhão de dólares, respectivamente.

“As recentes revisões e a possibilidade de mais por vir levantaram dúvidas pela primeira vez sobre os dados brasileiros, vistos há muitos tempo como um exemplo de pontualidade e transparência entre os países emergentes”, afirma a reportagem.

Quem deseja cortes e mais cortes no quadro de servidores públicos deve saber que eles trazem consequências, como sobrecarga de pessoal encarregado de produzir informações, por exemplo. Cortes que o próprio Financial Times defende, diga-se de passagem.

O Brasil sempre produziu números confiáveis, nossos institutos têm renome internacional e os trabalhadores desses órgãos são de grande competência. Não é preciso ser especialista para entender que um país deve fornecer dados confiáveis não apenas sobre sua economia, mas a respeito dos outros aspectos da vida cotidiana, a fim de que pessoas, organizações e empresas tomem decisões baseadas na realidade. Mesmo, e principalmente, se os dados forem negativos. Diante disso, não importa se erros são originados por má gestão, incompetência ou má fé, esse tipo de coisa é desastrosa para a imagem do país lá fora.

Ainda mais em um momento em que o próprio governo, insatisfeito com a realidade, vem comprando brigas com indicadores. Para ele, não raro, o problema não é a febre, mas o termômetro.

Bolsonaro já afirmou que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE estava errada porque não concordava com ela. O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, disse que as taxa de desmatamento eram manipuladas e infladas. Osmar Terra, do Ministério da Cidadania, disse não confiar em pesquisas da Fiocruz, instituição de renome internacional. O chanceler Ernesto Araújo não acredita em mudanças climáticas e afirmou que o aumento da média da temperatura global ocorreu porque estações de medição de temperatura que estavam no “mato” hoje estariam no “asfalto”. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, menosprezou o questionário do Censo.

Um bom exemplo foram as brigas públicas durante o salto no desmatamento ocorrido neste ano. Após dizer que tem a “convicção” de que dados de desmatamento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais são “mentirosos”; acusar Ricardo Galvão, chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de estar “a serviço de alguma ONG”; ouvir resposta do próprio Galvão, afirmando que ele tomou uma atitude “covarde” e que espera a repetição da acusação olho no olho, Bolsonaro revelou que o objetivo era maquiagem.

Disse que estava preocupado com dados que podem “prejudicar o país”, ser “propaganda negativa” ao Brasil no exterior. E que se Galvão tivesse identificado dados alarmantes, deveria ter procurado seus superiores para avisar por questão de “responsabilidade” e “patriotismo”.

Bolsonaro é um motorista que conduz o governo por uma estrada esburacada e, ao invés de usar toda informação possível para uma travessia tranquila, grita que as placas sinalizando “pista escorregadia” são fake news e acelera. Após um esperado acidente, lamenta o acidente dizendo que nunca desconfiou das placas ou as culpa por uma suposta falta de clareza – e critica quem diz que ele não sabe dirigir.

Isso seria engraçado se nós não fossemos passageiros desse carro, que não conta com cinto de segurança e, claro, nem cadeirinha de bebê porque o governo disse que sua obrigatoriedade é um absurdo.

Políticos pouco afeitos à democracia, quando colocados contra a parede, tendem a reduzir a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa. Esperemos que diante de cenários negativos o governo não esteja pensando em torturar os números até que eles gritem o que ele deseja ouvir. O Brasil, que já anda com a credibilidade baixa, vai passar a ser visto como o café-com-leite das relações internacionais.

“Falhas” na divulgação de dados econômicos, críticas às estimativas públicas sobre desemprego, ataques a índices de desmatamento… O governo brasileiro ainda está longe do descrédito que acometeu a Argentina do tempo da então presidente Cristina Kirchner, em que os dados oficiais do Indec, o IBGE argentino, sobre PIB, inflação e até sobre pobreza eram motivo de chacota no mundo todo. Mas poderá chegar lá rapidamente se esses tropeços e discursos mal explicados continuarem.

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Paraisópolis: O PM que espanca rindo é a evolução do torturador da ditadura https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/03/paraisopolis-o-pm-que-espanca-rindo-e-a-evolucao-do-torturador-da-ditadura/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/03/paraisopolis-o-pm-que-espanca-rindo-e-a-evolucao-do-torturador-da-ditadura/#respond Tue, 03 Dec 2019 19:40:53 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50857

Um policial militar aparece, em um vídeo, agredindo jovens que saem de uma festa na favela de Paraisópolis com algo que pode ser um cano ou um pedaço de pau. Acerta muitos deles no rosto, agindo indiscriminadamente. Atinge até um rapaz que usa muletas para se locomover. Parece se divertir com o que está fazendo. A Ponte Jornalismo conseguiu o vídeo com um morador da comunidade.

A PM afirmou que as imagens são do dia 19 de outubro, que a cena “não tem relação com o ocorrido no último final de semana” e que o policial foi afastado, nesta terça (3), do policiamento de rua e um inquérito de abuso de autoridade foi instaurado.

Mas a polícia está duplamente enganada. Primeiro: há uma clara relação, pois é exatamente esse o contexto da repressão contínua e violenta em que está inserida a morte dos nove jovens que estavam no baile funk na madrugada deste domingo (1). Pouco importa se a gravação foi feita há dois dias ou dois meses. Temos um policial, em tese, treinado para proteger os cidadãos claramente sentindo prazer com a agressão de jovens desarmados em um espaço público.

Segundo: isso não é abuso de autoridade. É tortura.

Já fiz essa reflexão aqui antes, mas faço novamente. Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial, local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista, durante a ditadura, os vizinhos no bairro do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar.

Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria. Ele precisa ser freado pelo resto da sociedade.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário “quebrar” a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era e pelo que representava. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também um lugar de fala, uma visão de mundo, uma ideia.

Entrevistei várias pessoas que foram torturadas no antigo DOI-Codi. Contam que havia algo mais além da justificativa ideológica, uma sensação de prazer no que faziam. Talvez esse prazer surja da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. A tortura não nasceu com eles no Brasil, mas a metodologia desenvolvida durante esse período e a certeza do “tudo pode” continua provocando vítimas em delegacias e batalhões policiais espalhados pelo país e nas periferias das grandes cidades, como em Paraisópolis – onde a vida vale muito menos que nos bairros ricos da cidade.

Dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram pelo prédio do DOI-Codi amavam isso. Pelo rosto do policial em Paraisópolis, podemos dizer o mesmo.

Não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Muito menos em uma missão divina porque Deus, se existir, nunca ouviu os gritos que saíram de lá. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E o mal precisa ser extirpado, tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados ou contidos. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro.

Protocolos de ação policiais em comunidades (que afirmam que a dignidade deve ser preservada) são rasgados hoje diante do discurso que transforma esses jovens no “mal”. Afinal, juntam-se “ilegalmente” aos milhares para corromper os valores dos “homens e mulheres de bem” em “perversão” atrapalhando “quem paga imposto”.

O golpe de 1964 e a ditadura ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.

O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Os torturados do passado são torturados novamente e todos os dias, no Brasil, sob outros nomes. Normalmente, jovens, negros e pobres.

Policiais e militares não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser humano. Não é da natureza da maioria das pessoas que decide vestir farda tornar-se violenta. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter a ordem a qualquer preço.

Não há ordens diretas para matar negros e pobres da periferia dados pelo comando do poder público. Mas nem precisaria. As forças de segurança em grandes metrópoles, como o Rio ou São Paulo, são treinadas para, primeiro, garantir a qualidade de vida e o patrimônio de quem vive na parte “cartão postal” das cidades, atuando na “contenção” dos mais pobres. Segundo, com governos apoiando a letalidade policial como política de combate à violência, a percepção da impunidade ajuda a agir sem pensar nas consequências.

Nossa geração tem sido incompetente para garantir dignidade à próxima. Espero que os mais jovens nos perdoem e sejam mais capazes que nós em construir uma sociedade em que esse tipo de cena não aconteça. E, se acontecer, não venha com aplausos na forma de uma chuva de likes.

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Além de brigadistas, sem-terra foram presos sem provas por fogo na Amazônia https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/03/alem-de-brigadistas-sem-terra-foram-presos-sem-provas-por-fogo-na-amazonia/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/03/alem-de-brigadistas-sem-terra-foram-presos-sem-provas-por-fogo-na-amazonia/#respond Tue, 03 Dec 2019 10:41:25 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50850

Imagem de incêndio em Alter do Chão (PA) em setembro de 2019. Foto: Eugênio Scannavino

Por Daniel Camargos*, especial para o blog

Cobrados a dar uma resposta pelo fogo que consumia a Amazônia em capas de jornais, longas matérias de TV e nas redes sociais de todo o mundo, nos últimos meses, o Estado brasileiro resolveu mandar um bode expiatório para a cadeia. Um não, na verdade sete.

O país ficou conhecendo com detalhes a história de quatro deles, jovens brigadistas de Alter do Chão, no Pará, presos por três dias pela acusação de atearem fogo na floresta para que seu trabalho tivesse mais visibilidade e, com isso, captassem mais doações. Mas não foram os únicos, nem os que ficaram mais tempo detidos. Três trabalhadores rurais sem-terra ficaram 50 dias na cadeia pelo que ficou conhecido como o “Dia do Fogo” – um ataque organizado para incendiar áreas de reserva ambiental, em Novo Progresso (PA). 

Em ambos os casos, o papel do jornalismo foi fundamental para que a prisão deles fosse revogada, pois reportagens apontaram problemas nos inquéritos policiais, pressionaram os órgãos públicos em busca de explicações imediatas e evitaram que prováveis injustiças perdurassem por mais tempo.

No caso dos brigadistas de Alter, a imprensa nacional e internacional questionou a polícia, o Ministério Público, a Justiça e o governador. A debilidade do inquérito policial e os indícios de que o fogo foi orquestrado por empresários interessados na especulação imobiliária, como aponta a investigação do Ministério Público Federal, colocou em xeque o argumento de acusação.

Soma-se a isso o áudio revelado com exclusividade, no domingo (1), pela Repórter Brasil, em que o prefeito de Santarém, Nélio Aguiar (DEM) diz ao governador do Pará, Hélder Barbalho (MDB), que o incêndio em Alter do Chão foi causado por “gente tocando fogo para depois fazer loteamento, vender terreno” e que essas pessoas contam com o apoio de policiais.

A mobilização midiática e da sociedade foi bem menor no caso dos trabalhadores rurais sem-terra. Eles foram presos em 3 de setembro, 20 dias depois do “Dia do Fogo”, em Cachoeira da Serra, distrito de Altamira repleto por madeireiras clandestinas. Ao chegar em Novo Progresso no final de setembro para uma investigação jornalística, ouvi a versão desses três presos e entrevistei a líder deles, Silvanira Teixeira de Paula, na cadeia.

Ela não compreendia porque estava ali, pois dias antes havia denunciado a ação de madeireiros ilegais na Gleba Gorotire, local onde, há alguns anos, um grupo de pessoas acampou para pressionar pela reforma agrária. “Quando os policiais chegaram na minha casa, pensei que viessem para prender os madeireiros, mas me prenderam”, disse. O delegado responsável pela prisão sustentava que ela vendia lotes que haviam sido ocupados, usando o movimento para lucrar.

Entrevistei os outros acampados da Gleba, que afirmaram não haver venda de lotes, mas sim uma divisão das despesas para que Silvanira pudesse viajar para Brasília e Santarém a fim de agilizar a regularização das terras. “Ela sempre pediu para não deixar madeireiro entrar”, disse um deles, destacando que o acampamento atrapalha os interesses de madeireiros ilegais da região. Haveria, segundo eles, uma relação estreita entre policiais da região e empresários que desmatam a Floresta Nacional do Jamanxim. 

Detalhe: Silvanira estava incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Pará (PPDDH-PA) por conta das constantes ameaças que vem sofrendo dos madeireiros. E os policiais desconheciam esse fato.

Silvanira Teixeira, que foi presa acusada de participar de incêndio ilegal. Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil

Cobrei um posicionamento da Secretaria de Segurança Pública do Pará e levei o caso ao procurador Paulo de Tarso Moreira de Oliveira, do Ministério Público Federal, em Santarém. Duas semanas depois, ele solicitou à juíza Sandra Maria Correia da Silva, do Tribunal Regional Federal, que os três fossem liberados. Ela revogou a prisão cautelar, por entender que os três não são pessoas perigosas.

Mas esses não resumem a questão de inquéritos policiais problemáticos no Pará envolvendo a sociedade civil. Por exemplo, um deles ocorreu em Anapu, local onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada, em 2005, aos 73 anos. 

O sucessor dela na organização dos trabalhadores que lutam pela manutenção do programa de desenvolvimento sustentável foi o padre Amaro Lopes de Souza. Ele ficou 92 dias preso, entre março e junho de 2018, acusado de associação criminosa, ameaça, extorsão, invasão de propriedade e lavagem de dinheiro. O processo contra ele tem à frente Silvério Fernandes, madeireiro e presidente do Sindicato Rural de Anapu. Laudelino Délio Fernandes, seu irmão, confessou ter ajudado na fuga de um dos mandantes da morte de Dorothy, mas não foi condenado.

O madeireiro acusador do padre já foi vice-prefeito de Altamira, candidato a deputado estadual derrotado na última eleição e foi um dos principais cabos eleitorais do, hoje, presidente eleito Jair Bolsonaro na região. 

“Desconfio que eles armaram para me matar dentro da cadeia”, contou o padre em entrevista que me concedeu, em Anapu, em novembro de 2018. Amaro ficou preso em Altamira, no mesmo local, em julho deste ano, ocorreu o massacre no qual 58 presos foram mortos.

Prender defensores dos povos e do meio ambiente na Amazônia, jogando sobre eles a responsabilidade de crimes mesmo sem provas, é o comportamento padrão. Difícil é ver grileiros, madeireiros, pecuaristas e garimpeiros que atuam fora da lei amargando um tempo detidos. Se nas grandes cidades, o Estado não garante que a Justiça seja igual para todos, imagine então na região de expansão agropecuária e extrativista, onde o Estado tem dono.

(*) Daniel Camargos é jornalista da Repórter Brasil.

 

 

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Paraisópolis: Há um Brasil defendendo que festas sejam caladas com sangue https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/paraisopolis-ha-um-brasil-defendendo-que-festas-sejam-caladas-com-sangue/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/paraisopolis-ha-um-brasil-defendendo-que-festas-sejam-caladas-com-sangue/#respond Mon, 02 Dec 2019 21:55:46 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50837

Moradores protestam contra ação da PM em Paraisópolis. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Três declarações de autoridades negando a realidade vieram a público, nesta segunda (2), mostrando que este imenso Brasil segue triunfante em direção ao terraplanismo social.

“O rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo.”

O comentário é de Dante Mantovani, novo presidente da Funarte, do governo Jair Bolsonaro, responsável por fomentar o desenvolvimento artístico nacional.

“Livros didáticos estão cheios de músicas de Caetano Veloso, Gabriel O Pensador, Legião Urbana. Depois não sabem por que está todo mundo analfabeto.”

E este é de Ricardo Nogueira, novo presidente da Biblioteca Nacional, também do governo Bolsonaro, responsável por garantir o patrimônio de um dos maiores acervos documentais do mundo.

“A letalidade não foi provocada pela Polícia Militar, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo o baile funk.” “A política de segurança pública do Estado de São Paulo não vai mudar.”

E essas declarações são do governador de São Paulo, João Doria Jr, que negou responsabilidade da PM pelos nove jovens mortos após ação da corporação na favela de Paraisópolis, durante um baile funk que reunia 5 mil pessoas, na madrugada deste domingo.

As duas primeiras foram listadas entre os assuntos mais falados do dia nas redes sociais, talvez pelos disparates que representam serem mais escrachados. A terceira, contudo, a mais absurda de todas, pois isenta a polícia do envolvimento na morte de jovens negros e pobres da periferia, não teve a mesma repercussão.

A principal causa de morte violenta de jovens na cidade de São Paulo, nos últimos anos, tem sido a polícia, seguida de acidentes de trânsito e, só depois, os homicídios comuns, de acordo com Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mas quem se importa? Antes, pacotes de mortes como essas chocavam a ponto de criar constrangimento em governos. Agora, parte da população bate palmas nas redes sociais, defendendo que o barulho de uma festa seja silenciado com sangue. Afirmando que, se os nove foram mortos pela polícia, é porque algo de errado estavam fazendo. O padrão mudou é a vítima se tornou a principal suspeita. O valor da vida é medido em decibéis.

Como já disse aqui antes, vivemos a “Era do Foda-se”. Sabe aquele esforço para se preocupar com as consequências das próprias ações e palavras e, no mínimo, manter as aparências? Então, ele se aposentou ou tirou férias, mandando avisar que só dá as caras quando a democracia plena voltar ao Brasil. Até lá, cada autoridade ou membro da elite econômica e política deste país pode falar ou fazer o que quiser, sem medo da repercussão negativa junto à população. Até porque, convenhamos, foda-se.

Alguns dizem que isso vai gerar uma transparência sem igual na sociedade que nos levará a um patamar superior da existência no futuro e o melhor é tudo acontecer à luz do dia ao invés de se passar nos porões das casas 58 ou 66 de um condomínio na Barra da Tijuca. Há uma falsa dualidade nessa história.

Ricardo Augusto de Mello Araújo, ao assumir o comando da Rota, tropa da PM paulista, em 2017, assumiu que não era possível abordar pessoas da periferia e em bairros nobres da mesma forma. “É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia], da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins, ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”, explicou ao repórter Luís Adorno, do UOL. “Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando.”

O problema é que, para muita gente, não é mais chocante ver um comandante afirmar que o policial deve se adaptar ao lugar em que está. Claro que isso não é novidade para qualquer jovem negro e pobre da periferia que, não raro, é suspeito por ser negro e pobre da periferia. Mas a sociedade não pode naturalizar esse tipo de comportamento, da mesma forma que deveria refletir sobre o significado de empatia antes de postar que os jovens em Paraisópolis tiveram o que mereciam.

Seria necessária nova pactuação política e social, aliada a muito suor em articulações para a construção de novos consensos que vençam o imobilismo do “foda-se” visando à construção de um Estado e de uma polícia que encare todos como iguais. A dúvida é se, diante de todo o esgarçamento institucional que vivemos, as pessoas não ligaram o Modo de Sobrevivência, no qual é cada um por si e o sobrenatural por todos.

Eu diria “Que Deus nos ajude” diante disso. Mas Jeová, se realmente for a imagem e semelhança de seu povo, deve estar ocupado com um policial que invadiu sua casa sem mandado.

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Quem foi a melhor prefeita de SP? Lula diz Marta, Boulos fala em Erundina https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/lula-e-boulos-divergem-sobre-quem-foi-a-melhor-prefeita-de-sao-paulo/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/lula-e-boulos-divergem-sobre-quem-foi-a-melhor-prefeita-de-sao-paulo/#respond Mon, 02 Dec 2019 14:55:51 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50827

Foto: Valor Econômico

São Paulo teve duas prefeitas eleitas em sua história: Luiza Erundina (1989 a 1992) e Marta Suplicy (2001 a 2004). Ambas governaram pelo PT, saindo, posteriormente, por conta de desentendimentos com a cúpula do partido. Luiza passou pelo PSB e, hoje, está no PSOL. Marta passou pelo MDB e agora está sem partido.

Lula inseriu o nome de Marta no debate sobre a sucessão de Bruno Covas pela primeira vez em entrevista que concedeu a mim e a Flávio Costa, pelo UOL, quando estava preso na Polícia Federal, em Curitiba, em outubro.

O ex-presidente rasgou elogios à administração de Marta. Questionado se a convidaria a voltar ao PT, respondeu que não queria que ela tivesse saído e não gostou de perdê-la. Deixou as portas abertas para um retorno e afirmou que ela “continua sendo a prefeita mais bem avaliada de São Paulo”.

Como Lula é um animal político, a mensagem foi compreendida no PT como um sinal de que trabalhava com a hipótese de tê-la como candidata a prefeita da capital paulista no ano que vem pelo partido ou disputando a vice através de uma chapa, talvez via uma sigla aliada. A ex-senadora é bem avaliada na periferia de São Paulo, região que o partido perdeu a hegemonia.

Fernando Haddad, que não deseja disputar a Prefeitura, mantendo-se no cenário nacional, vê com bons olhos o movimento.

Enquanto isso, Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), prestou uma homenagem à Luiza Erundina, por conta do aniversário de sua correligionária neste sábado (30). “Paraibana, mulher que enfrentou a ditadura e a melhor prefeita que São Paulo já teve. Muita honra em caminhar contigo”, postou em sua conta no Twitter.  

As palavras escolhidas não foram aleatórias. Como petistas (à exceção de Dilma Rousseff, responsável pela saída de Marta de seu governo) estão repetindo a ideia de Lula, apontando Marta como a melhor prefeita, Boulos marcou posição, elogiando outra administração petista, mais à esquerda no espectro ideológico, da época em que Paulo Freire era secretário municipal de Educação. Apesar de desconversar sobre o assunto, Boulos é cotado como um dos pré-candidatos do PSOL à Prefeitura de São Paulo. Ela é citada sempre como sua possível companheira de chapa.

Em 2012, Luiza Erundina havia aceitado ser a vice de Fernando Haddad, quando ainda estava no PSB, mas desistiu após a famosa foto de Lula e seu candidato apertando as mãos de Paulo Maluf, situação que foi pré-condição do ex-prefeito para oficializar o apoio. “É demais para mim”, disse na época.

Vale lembrar que uma parte da militância petista não quer ver Marta Suplicy pintada de ouro à frente por conta de seu engajamento no impeachment e na Reforma Trabalhista. Enquanto isso, outra parte vê nomes como o de Luiza Erundina como muito radicais. Claro que ambos os grupos não são do mesmo tamanho.

A questão não é uma competição de popularidade. Pois esse debate encobre outro, sobre os caminhos que devem tomar o PT e a esquerda neste momento: optar por uma ação mais conciliadora e pragmática, visando às eleições, ou mais combativa e programática, visando a reformular o projeto de país que tem a oferecer. Mais do que uma estratégia eleitoral, faz parte da disputa pela renovação do campo progressista.

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PM é responsável por mortes em Paraisópolis. Resta saber: burrice ou má fé? https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/01/pm-e-responsavel-por-mortes-em-paraisopolis-resta-saber-burrice-ou-ma-fe/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/01/pm-e-responsavel-por-mortes-em-paraisopolis-resta-saber-burrice-ou-ma-fe/#respond Sun, 01 Dec 2019 21:34:52 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50809

Foto: Joel Silva/Folhapress

A Polícia Militar de São Paulo é responsável pela morte de nove pessoas pisoteadas, na madrugada deste domingo (1), após uma ação da corporação ter dispersado frequentadores de um baile funk na favela de Paraisópolis. Não foi uma tragédia acidental, como querem vender. A questão é descobrir qual a razão do comportamento criminoso da corporação.

Policiais dizem que, primeiro, foram atacados por pessoas que usaram a multidão como escudo e que frequentadores do baile lançaram objetos contra eles. Mesmo se essa versão fosse verdade, ainda assim a PM teria assumido o risco ao reagir. 

Agentes de segurança pública são treinados para atuar com inteligência e frieza e saber que atirar balas de borracha e bombas de gás e de fragmentação contra um bloco de cinco mil pessoas causa muito, mas muito mais dano à sociedade do que deixar suspeitos fugirem.

As histórias e imagens que chegam, contudo, é de que o objetivo da polícia era reprimir o baile, caçando jovens pelas vielas, distribuindo golpes covardes de cassetete, cercando e impedindo a dispersão dos frequentadores. O objetivo era morte.

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Claro que, para o poder público, uma vida em Paraisópolis vale bem menos do que uma no Morumbi – um dos bairros mais ricos do país que faz divisa com a comunidade pobre. Mas operações descaradamente violentas como essa servem para lembrar que o Estado tem dono.

No mínimo, o que houve foi burrice e barbeiragem. Considerando que a polícia tem longa experiência com bailes funk em São Paulo, sabe que agir contra a massa de frequentadores após iniciada uma festa daquelas dimensões e dificultar que ela se disperse em caso de problema é provocar dor e sofrimento. Sabe, aliás, por experiência própria, uma vez que já fez isso várias vezes.

A justificativa de que “o sangue subiu à cabeça” de policiais e os “tirou do sério” é ridícula, quem a usa não merece a farda. Caso isso tenha sido ordem de superior, alguém precisa ser exonerado. Faz-se necessária uma investigação rápida e que aponte os envolvidos para a devida punição, o que inclui prisão. E que o Estado indenize cada uma das famílias, com um pedido de desculpas – afinal, o governador é um defensor da letalidade policial. E que isso seja ponto de partida para uma mudança de comportamento.

A outra hipótese é a má fé. Perseguição, humilhação e espancamento poderia ser o objetivo desde o início, a fim de reprimir o baile.

Ou oprimir a comunidade. Paraisópolis estava apreensiva desde que o sargento Ronald Ruas morreu após ser baleado na comunidade, em 1º de novembro, enquanto fazia patrulhamento. No dia seguinte, a PM começou uma megaoperação para “combater o tráfico e prender criminosos”.

Moradores, com os quais o blog conversou, disseram que o clima estava mais pesado, com abordagens mais violentas. Entre os participantes do baile funk deste domingo, o ato foi visto como “vingança”.

Exames nos corpos das vítimas precisam ser feitos e os laudos divulgados para confirmar a causa das mortes. A possibilidade de “desforra” ou de “execução” é sempre mais assustadora porque mostra agentes de segurança agindo como milícia.

Agora, imaginem, se o “excludente de ilicitude”, defendido arduamente pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, estivesse em vigor? Com um juiz podendo deixar de aplicar uma pena ao policial que agrediu e matou se o “excesso decorrer de escusável medo, surpresa ou violenta emoção”?

Perderíamos o fino verniz de civilização que tenta esconder o fato de que ser jovem negro e pobre no Brasil não vale nada.

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Escravas sexuais são resgatadas por curdos dos conflitos no Oriente Médio https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/01/escravas-sexuais-sao-resgatadas-por-curdos-dos-conflitos-no-oriente-medio/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/12/01/escravas-sexuais-sao-resgatadas-por-curdos-dos-conflitos-no-oriente-medio/#respond Sun, 01 Dec 2019 13:41:27 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50792

Hoshyar Malo, em evento na ONU sobre o Dia Internacional para a Abolição da Escravatura, observado pela relatora especial das Nações Unidas sobre o tema, Urmila Bhoola. Foto: Philippe Liondjo 

Genebra – “Noal era uma refugiada curda do Leste da Síria que foi ao Iraque. Um líder militar de alta patente a sequestrou, escravizou e estuprou por quase dois anos. Noal se tornou uma escrava sexual de um warlord [senhor da guerra]. Mas fugiu com a ajuda da nossa organização. Nós a escondemos por um tempo num local seguro. Depois, conseguimos documentos que, hoje, garantem a ela uma vida tranquila na Europa. Esteve na TV, há poucos dias, e agradeceu a todos nós – ainda que não pudesse dizer nossos nomes por questões de segurança.”

O advogado Hoshyar Malo, nascido no Curdistão iraquiano, dirige a Kurdistan Human Rights Watch, uma das mais antigas organizações de defesa dos direitos humanos dessa região autônoma, em Erbil, norte do país. Uma de suas tarefas é ajudar a libertar e atender vítimas do trabalho escravo, como escravas sexuais, e prevenir que crianças sejam forçadas a se tornarem soldados. “Muitas das milícias e partidos políticos usam tudo o que podem na luta contra outras milícias, inclusive crianças-soldado”, explica.

Atuam também com refugiados, deslocados internos e minorias, no treinamento de militares para os direitos humanos e no monitomento ao desrespeito à dignidade das pessoas. Atendem mais de 760 mil pessoas.

Hoshyar Malo conversou com o UOL antes de falar em um evento do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra, na Suíça, em comemoração ao Dia Internacional para a Abolição da Escravatura – celebrado anualmente no dia 2 de dezembro. Disse que quer saber mais do Brasil para além do futebol e seus jogadores. E lembrou que o trabalho deles evita o aumento do fluxo de refugiados para locais como o nosso país. “Espero que vocês possam compartilhar conosco alguns de seus sentimentos, experiências. E, talvez, suporte técnico, financeiro e treinamento.”

Apesar de serem um dos principais grupos étnicos do Oriente Médio e estarem espalhados por uma região entre a Síria, Iraque, Irã, Turquia e Armênia, os curdos nunca tiveram um Estado próprio e qualquer tentativa nesse sentido – motivada pela discriminação que sofrem – tem sido violentamente oprimida. Foram uma das principais forças combatentes contra o grupo terrorista ISIS (Estado Islâmico) na região e um dos povos que mais sofreu com a guerra na Síria e no Iraque. Estimativas apontam para até 35 milhões de curdos.

“Acredito que se vamos ter um Estado, é melhor termos um ‘Estado respeitoso’. É melhor ter um Estado que proteja a dignidade e os direitos humanos. Se continuarmos sendo uma região pertencente ao Iraque, com respeito aos direitos humanos, é melhor do que termos um estado ditatorial que não reconhece os direitos humanos”, afirma.

Segue a entrevista:

As guerras dos últimos anos na região onde vivem os curdos aumentaram o número de pessoas escravizadas?

Como sempre, toda guerra contribui com o aumento da vulnerabilidade e o enfraquecimento das pessoas. Da mesma forma, com o crescimento da corrupção e das violências – entre elas, as formas contemporâneas de escravidão. Algumas implicações diretas da guerra como migrações e deslocamentos forçados, que levam muita gente a viver em barracas e campos de refugiados, deixam as pessoas mais expostas a serem vítimas de abuso e exploração. Essa situação também leva a mais trabalho escravo. Para além das mortes, durante as guerras todos os outros aspectos da vida param em qualquer lugar do mundo. O desenvolvimento para. Isso é algo sobre o qual sequer se pensa. Por ora, só queremos acabar com a guerra e, talvez, no futuro, o crescimento econômico possa entrar em pauta.

O objetivo imediato é sobreviver.

Isso. Nos contextos de crise humanitária, há sempre mais espaço para exploração e escravidão porque não há mais responsabilização. As pessoas fazem de tudo para sobreviver. Isso em qualquer lugar do mundo. E, claro, o Iraque e o Curdistão sofrem muito com esse tipo de situação.

Que formas de escravidão contemporânea ocorrem na região em que a sua organização trabalha?

Trabalho forçado, escravidão sexual, crianças e adolescentes trabalhando como escravos em milícias e forças armadas. Muitas das milícias e partidos políticos usam tudo o que podem na luta contra outras milícias. Temos provas que mostram o uso de crianças-soldado. A guerra, novamente, cumpre um papel negativo e faz a vida das pessoas envolvidas muito mais difícil.

Há alguma história de um sobrevivente da escravidão que te marcou?

A Noal – o nome é fictício por razões óbvias – era uma refugiada curda do Leste da Síria que foi ao Iraque, onde trabalhava num centro de massagem. Um líder militar de alta patente a sequestrou, escravizou e estuprou por quase dois anos. Noal se tornou uma escrava sexual desse oficial militar, fazendo tudo o que ele queria. Podemos considerá-lo um warlord [senhor da guerra] pelo seu poder. Quando a guerra começa, algumas pessoas se tornam grandes e ricas. Os auxílios internacionais que vêm ao Iraque em forma de armas são vendidos no mercado negro por algumas pessoas. Ele era uma delas, o que fazia com que tivesse boas relações com todos que buscavam se armar.

Noal decidiu fugir com a ajuda de amigos da nossa organização. Nós a escondemos por um tempo num local seguro. Depois, agradecidamente, com o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, conseguimos documentos que, hoje, garantem a ela uma vida tranquila na Europa. Ela esteve na TV, há poucos dias, e agradeceu a todos nós – ainda que não pudesse dizer nossos nomes por questões de segurança. Eu fiquei muito feliz. Temos vários casos positivos como esse, mas, novamente, temos também muitos casos negativos que não conseguimos ajudar.

A resistência de Noal me lembrou que, antes da entrevista, você estava me contando da força das mulheres curdas, que participam do comando das forças militares.

Isso é parte da nossa história, parte da forma como nos criamos. O Curdistão é um pouco diferente de outros países árabes. Os curdos têm outra língua, outra cultura, a única coisa que os conecta aos países árabes é a maioria de religião islâmica. Mas, mesmo assim, temos nossas próprias práticas. Historicamente, mulheres são as responsáveis pela proteção da família e não os homens. Os homens dão maior suporte econômico, mas as mulheres são aquelas que lutam – literalmente – contra quaisquer perigos.

Recentemente, as mulheres lutadoras do Curdistão ganharam maior visibilidade através da mídia internacional. Achávamos que todos já sabiam, mas parece ser algo bastante novo para a comunidade internacional. Eles nos perguntam muito, por exemplo: “como podem mulheres no Oriente Médio estarem lutando contra o ISIS [Estado Islâmico]?” Na verdade, mulheres das forças armadas do Curdistão não são somente membros. Elas são lideranças. Conheço muitas delas.

Como é a questão de violência de gênero?

Promovemos treinamentos sobre violência de gênero, proteção contra exploração e abuso sexual, direitos humanos, direitos internacional humanitário, como lidar com crianças. Também sobre como manejar as armas – não sobre como atirar necessariamente, mas sobre os cuidados que devem ser tomados junto à população por contas das armas. Também estamos tentando estabelecer alguns mecanismos de reclamação e encaminhamento sobre violência de gênero. As forças armadas nunca foram treinadas para isso, então estamos fazendo.

Entre 2017 e 2019, fomos capazes de treinar quase 6 mil membros com o suporte do governo da Suíça. Conheço lideranças militares femininas que comandam mil homens e mulheres. Elas não ficam tímidas por terem homens sob seu comando, pois nos quadros militares, isso é hierarquia. Nós queremos – e agora falo como curdo – que nossas forças militares sejam respeitáveis, responsáveis, sistemáticas. Não acreditamos que podemos ficar como uma “milícia” para sempre.

Os curdos estão presentes na Turquia, Síria, Iraque, Irã, Armênia. Há curdos que lutam não só por autonomia nos países em que estão, mas pelo estabelecimento de um Estado soberano. Você acha que, com um Estado curdo, situações de trabalho escravo seriam mais bem combatidas?

Acredito que se vamos ter um Estado, é melhor termos um “Estado respeitoso”. É melhor ter um Estado que proteja a dignidade e os direitos humanos. Se continuarmos sendo uma região pertencente ao Iraque, com respeito aos direitos humanos, é melhor do que termos um estado ditatorial que não reconhece os direitos humanos. O que nossa organização faz é se certificar que os direitos humanos estão protegidos – seja como Estado ou região.

Se ter um Estado nos ajudar a contar com maior proteção dos direitos humanos, então sim, seríamos favoráveis. Mas se um Estado nos fizer regredir em termos de direitos e liberdades, então não o apoiaríamos. Há dois anos houve um grande referendo no Curdistão e nós, enquanto organização, monitoramos o processo. Contamos com mil observadores sem apoio internacional, somente com nossos próprios esforços. Ele foi um bom passo para saber qual é a opinião dos curdos em relação a continuar sendo parte do Iraque ou ter um Estado soberano [mais de 90% dos 3,3 milhões que votaram defenderam a independência; o governo central iraquiano não reconheceu a votação].

E esse seria um Estado étnico curdo?

Pessoalmente, não gosto muito da ideia clássica de um Estado – com fronteiras, exército. Se pudéssemos construir uma boa economia e uma terra de liberdade, com a devida proteção aos direitos humanos, poderíamos, mesmo sem um Estado soberano, viver uma boa vida e ter a garantia que nossas crianças terão vidas ainda melhores. Essa deve ser a principal ideia. Agora, no século 21, você estabelecer um Estado étnico curdo para mim não faz sentido. É como reinventar algo que foi inventado há 200 anos atrás. Quer dizer, em pleno século 21, os curdos tentarem estabelecer algo somente para seu grupo étnico. Se quiséssemos estabelecer um Curdistão, deveríamos tê-lo feito 200 anos atrás, não agora em 2019.

O Brasil recebeu muitos imigrantes do Oriente Médio durante sua história. E, recentemente, veio nova leva de refugiados das guerras de sua região…

Qualquer violação de direitos humanos que aconteça em qualquer lugar do mundo afeta o planeta inteiro. Creio que é ruim para o Brasil e para a América Latina que as violações continuem no Iraque e na região do Curdistão. Há refugiados no seu país e, no final das contas, isso representa mais gastos, mais problemas e também mais exploração para eles. Por outro lado, também acredito que quando uma região prospera, o mundo inteiro prospera. Dirigindo-me aos brasileiros, minha mensagem é a de que vocês podem acreditar que há pessoas aqui na região do Curdistão e no Iraque que estão lutando por liberdade e contra o terrorismo. Em função desses problemas, muitos emigram como refugiados. Ajudem-nos. Sei que ao longo da sua história, o Brasil já passou por situações difíceis e as superou com êxito. Conhecemos, claro, o seu futebol e seus jogadores. Mas precisamos ir além. Espero que vocês possam compartilhar conosco alguns de seus sentimentos, experiências. E, talvez, suporte técnico, financeiro e treinamento. Gostaria de estar mais próximo do povo brasileiro, de sua cultura, de suas histórias de sucesso, da arte.

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Por covardia, Bolsonaro culpa DiCaprio, imprensa, cientistas, índios, ONGs https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/11/30/por-falta-de-coragem-bolsonaro-culpa-dicaprio-midia-cientistas-indios/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/11/30/por-falta-de-coragem-bolsonaro-culpa-dicaprio-midia-cientistas-indios/#respond Sat, 30 Nov 2019 16:58:09 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50776

Bolsonaro age como a criança mimada que, quando colocada contra a parede por ter feito algo errado, não tem coragem de assumir e transfere a responsabilidade a terceiros. Agora, acrescentou a essa lista o ator Leonardo DiCaprio.

O governo federal estimulou o desmatamento e as queimadas na Amazônia, ao longo de 2019, com seus discursos a madeireiros, grileiros garimpeiros e pecuaristas, prometendo botar um cabresto na fiscalização.

A parte irresponsável do agronegócio celebrou a sensação de liberdade para derrubar e queimar vegetação nativa, expulsar e aterrorizar indígenas e outras populações tradicionais, manter o ciclo da grilagem de terras e da zorra fundiária e cometer concorrência desleal e dumping socioambiental, dando uma rasteira nos empresários que agem dentro da lei. Sem contar o uso de trabalho escravo.

Garimpeiros e madeireiros fecharam rodovias para chamar a atenção de Jair e ouviram palavras de carinho do presidente da República, enquanto os fiscais foram criticados e deixados à própria sorte. Pior: ele chegou a dizer que “quem quer atrapalhar o progresso, vai atrapalhar na Ponta da Praia” – referência à base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio, usada como centro de tortura durante a ditadura.

Quando os números mostraram um salto na perda de cobertura florestal, alertando o Brasil e o mundo, primeiro, Bolsonaro disse que era mentira dos cientistas. Conseguiu derrubar o chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que cuida do monitoramento por satélite do desmatamento. Provou que não acredita em fatos, apenas em convicções.

Depois culpou indígenas e ribeirinhos, tentando fazer crer que o fogo era causado por formas de plantios tradicionais que usam queimadas. Foi como responsabilizar a azeitona da empada pela azia de alguém que deu perda total em um churrasco.

Daí, culpou a “imprensa sensacionalista” por estar causando estragos à imagem do país no exterior. Ou seja, a responsabilidade pelas bobagens que ele diz e faz é do mensageiro.

Sem contar que, diante das críticas, ele falou grosso com mandatários estrangeiros e abusou do conspiracionismo e da paranoia, onde seus seguidores mais fiéis se sentem bem. Disse que as críticas ao desmatamento na Amazônia eram um ataque à nossa soberania.

Então, quando uma investigação bizarra, com mais furos que um formigueiro, apontou de forma irresponsável e sem evidências concretas, que membros de uma brigada de incêndio estaria recebendo recursos financeiros de ONGs conhecidas e respeitadas para botar fogo na floresta, ir lá apagar e ganhar fama, o presidente resolve pegar carona na história. Acusou, sem provas, o ator Leonardo DiCaprio de cumplicidade, pois estaria financiando as organizações.

Detalhe: os jovens brigadistas que haviam sido presos foram soltos e o Ministério Público Federal questionou a investigação, pois os indícios estariam apontando o envolvimento de grileiros e outros empresários.

O ator Leonardo DiCaprio negou, nesta sexta (29), que tenha feito doações, mas afirmou que as organizações as mereceriam, pois estão atuando para proteger a floresta.

Não dá para dizer que Bolsonaro virou piada global porque uma piada é engraçada. Já as consequências das mudanças climáticas, não.

O medo de perder mercados e investimentos, fez com que ele passasse a mentir descaradamente para encobrir todo o apoio que deu à construção do caos que vivemos hoje na área ambiental. Jura que o país continua protegendo o meio ambiente e caminhando na direção de um desenvolvimento sustentável. Dá para apostar um copo de petróleo com areia de praia que isso não procede.

Uma coisa é conviver com um governo anacrônico e retrógrado, que põe em risco as populações da Amazônia, a qualidade de vida desta e das futuras gerações e o nosso comércio internacional. O outro é conviver com um governo que, além disso tudo, também é covarde e não suporta as consequências de seus atos.

O primeiro causa desespero, o segundo, contudo, acrescenta uma boa dose de vergonha alheia.

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Moro usou PF para intimidar porteiro e proteger clã Bolsonaro, acusa Freixo https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/moro-usou-pf-para-intimidar-porteiro-e-proteger-cla-bolsonaro-diz-freixo/ https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/moro-usou-pf-para-intimidar-porteiro-e-proteger-cla-bolsonaro-diz-freixo/#respond Fri, 29 Nov 2019 22:03:21 +0000 https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/?p=50763

Marielle Franco (PSOL), vereadora assassinada em 14 de março de 2018

Por Anielle Franco e Marcelo Freixo*, especial para o blog

O ministro da Justiça Sergio Moro sempre dedicou ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) o seu absoluto silêncio e omissão. Ao longo de 600 dias, nunca manifestou solidariedade, procurou a família ou se pronunciou sobre o grave ataque que a execução de uma parlamentar representa à democracia. Quando questionado, dizia que não caberiam comentários a uma apuração realizada na esfera estadual.

Tudo mudou após os nomes de seu chefe Jair Bolsonaro e do vereador Carlos Bolsonaro aparecerem nas investigações sobre quem seria o mandante da execução. Moro passou da profunda indiferença à agressividade de um capanga. O ministro assumiu de vez o papel de advogado particular do clã presidencial.

A mudança de postura ficou evidente em entrevista à Rádio CBN. O ex-juiz classificou como “total disparate” a menção ao presidente e falou em politização do crime. Ora, quem politiza o assassinato é o ministro da Justiça, que não se constrange em usar o aparato policial do Estado brasileiro para intimidar um porteiro, homem humilde que mora numa área controlada por milícia, transformando uma testemunha em réu, para proteger a família Bolsonaro.

Moro também politiza o crime ao defender a federalização das investigações, que estão sob a responsabilidade da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, sem o devido embasamento técnico que sustente a mudança.

Certamente, o ex-juiz sabe que o art. 109, V-A, §5º da Constituição brasileira é claro ao definir os requisitos para que haja a transferência da apuração de um crime para a Polícia Federal e o Ministério Público Federal. Além disso, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a quem caberá o julgamento do pedido de federalização, também aponta que o deslocamento de competência só poderá ocorrer quando se verifica a incapacidade das autoridades locais em oferecer respostas efetivas, seja por leniência, omissão ou conluio.

Nenhum desses critérios são observados quando analisamos as investigações realizadas pela Polícia Civil e Ministério Público do Rio de Janeiro. Afinal, dois suspeitos de terem cometido a execução foram identificados e presos. Um deles, o PM reformado Ronnie Lessa, nunca havia entrado numa delegacia na condição de acusado, apesar de ser um dos mais perigosos matadores do Estado e membro de um grupo de assassinos profissionais chamado Escritório do Crime. Sua prisão mostra que as apurações, por mais difíceis que sejam, estão progredindo.

Para além da fragilidade jurídica, o posicionamento de Moro desrespeita a família de Marielle, que já manifestou publicamente ser contra a federalização. Os familiares redigiram uma carta aos ministros do STJ pela qual apresentam argumentos legais para que a investigação permaneça na esfera estadual. Estamos nos reunindo com ministros da corte para entregar esse documento e apresentar as preocupações dos parentes com essa tentativa de intervenção.

Se Moro quer de fato contribuir com o caso, ele pode descobrir onde está o capitão Adriano Nóbrega, miliciano e membro do Escritório do Crime, que está foragido. A esposa e a mãe do bandido, que é comparsa de Ronnie Lessa, eram assessoras do filho mais velho do presidente.

Em vez de federalizar esse crime, o ministro poderia federalizar o combate às milícias, como já sugerimos no Congresso Nacional através de uma proposta de emenda à Constituição. Mas por que não o faz?

Há muitas formas de Moro colaborar sem agredir a família de Marielle e sem politizar seu assassinato.

(*) Anielle Franco é mestra em jornalismo e inglês pela Universidade da Carolina do Norte e irmã de Marielle; Marcelo Freixo é professor e deputado federal (PSOL-RJ) 

Foi encaminhado um convite ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, para comentar o artigo ou publicar um texto sobre o assunto neste espaço. 

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