Blog do Sakamoto

Curar gays? Então, curemos cristãos também

Leonardo Sakamoto

Pior do que algum instituto de pesquisa obscuro revelar que encontrou a cura para a homossexualidade é o fato de nós, jornalistas, darmos espaço acrítico para a divulgação desses milagres científicos. Isso gera audiência e leitura? Ô se dá! Pais aliviados ficam agradecidos, uma vez que isso mostraria que seu filho ou sua filha apenas ''padece de uma terrível doença'' e seu comportamento ''não foi um erro de criação''.

E, ao mesmo tempo, ajuda a reforçar como um desvio o fato de alguém ser atraído por uma pessoa do mesmo sexo. E se é um desvio, pode ser corrigido. Arrumado. Consertado. Curado. Imagine só, você não curte de verdade aquela pessoa. Está apenas dodói.

Uma das primeiras orientações a estudantes de jornalismo é verificar a fonte da informação. E tentar entender quais os interesses por trás dela. Uma pesquisa que encontra algum ''gene gay'' financiada com recursos de organizações religiosas deve ser tão levada a sério quanto um estudo sobre os benefícios do tabaco bancado pela Souza Cruz ou a Phillip Morris.

E se fosse o contrário? Tempos atrás, me recomendaram o vídeo abaixo, que ironiza a situação. Procurando um argumento para enviar a um colega que tem medo da sexualidade alheia, reencontrei-o.

Todos têm direito a expressar sua fé, como todos deveriam ter direito de ter sua orientação sexual respeitada. Ainda mais porque escolhemos a fé. Não a orientação sexual.

O vídeo serve como provocação para ajudar a percebermos como os argumentos pífios que usamos podem ser ridículos quando voltados contra nós mesmos.

É um absurdo que a essa altura da história nossa sociedade ainda esteja discutindo se deve ou não universalizar direitos. Que, de tempos em tempos, gays e lésbicas sejam espancados e assassinados nas ruas só porque ousaram ser diferentes da maioria. Que seguidores de uma pretensa verdade divina taxem o comportamento alheio de pecado e condenem os diferentes a uma vida de inferno aqui na Terra. E, se não bastasse tudo isso, representantes políticos (que deveriam garantir que direitos fossem válidos a todos os cidadãos) agem não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim no intuito de incentivar a intolerância, empurrando a sociedade para o precipício.