Blog do Sakamoto

Haddad promete criar 8 milhões de empregos se Congresso aprovar reformas

Leonardo Sakamoto

O candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, afirmou em entrevista exclusiva a este blog, neste domingo (14), que sua meta é gerar em torno de 2 milhões de postos de trabalho por ano, totalizando 8 milhões em quatro anos, caso eleito. De acordo com o IBGE, o país conta com 12,7 milhões de pessoas desocupadas.

Para chegar a esse montante, segundo ele, será necessário que o Congresso Nacional aprove seus projetos de mudança legislativa – uma Reforma Bancária, para reduzir os juros aos empresários, uma Reforma Tributária, para aumentar o poder de compra dos consumidores, e reverter a Emenda do Teto dos Gastos, que congelou novos investimentos do governo federal. Um caminho difícil, considerando que, se conseguir vencer Jair Bolsonaro, terá um Congresso hostil pela frente.

Sobre o governo de Nicolás Maduro, na Venezuela, Haddad afirmou que não compactua com ''nenhum regime autoritário de direita e de esquerda'' e que ''a falta de liberdade é o caminho para o inferno''. O aumento nas críticas vem alinhado com uma tentativa de criar uma ''frente democrática'' contra Bolsonaro.

Afirmou que deve procurar Ciro Gomes, assim que ele retornar ao Brasil, além de estar conversando com outras lideranças e personalidades, como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e o filósofo e educador Mario Sérgio Cortella. Disse que seu governo irá além do PT: ''Nós não podemos ter, hoje, o projeto de um partido, ou de uma cabeça só''.

Haddad disse que seu adversário tem responsabilidade na violência eleitoral, que deixou um morto e vários feridos pelo país. ''O que ele diz, o que ele fala e a maneira que se comporta faz diferença, no caso de uma pessoa que é referência na sociedade'', explica. ''Quando diz 'vamos metralhar petistas', ele está sinalizando o que pensa da violência. Quando diz que a ditadura errou ao só torturar as pessoas e não matar, que deveria ter matado 30 mil pessoas, sinaliza que considera a violência um instrumento legítimo de solução de conflitos.''

Criticou duramente as acusações de que teria distribuído um ''kit gay'' às escolas para influenciar na orientação sexual das crianças. ''É um desrespeito com o magistério brasileiro. Você que algum profissional da educação iria compactuar com uma loucura dessa? Só na cabeça de uma pessoa desequilibrada pode passar a ideia de que a escola pública se subordinaria a um projeto absurdo como o que ele descreve.''  E acusou o adversário de tentar transformar a Igreja Universal do Reino de Deus na religião oficial do Estado brasileiro.

Disse que vai colocar a Polícia Federal para combater o crime organizado nacionalmente. ''Nós temos que botar na cadeia os criminosos que colocam em risco a vida e o patrimônio das pessoas.'' E criticou a proposta de Bolsonaro de facilitar o acesso às armas: ''Você vai ter muita morte no trânsito, a tiros, vai ter muita morte entre vizinhos, a tiros, vai ter muita morte dentro de casa. O sujeito perde a paciência, tem uma arma na mão, e comete muitas vezes um homicídio.''

Solicitamos uma entrevista com o candidato Jair Bolsonaro (PSL), primeiro colocado nas pesquisas, mas ainda não obtivemos resposta.

Leia a entrevista, assista aos vídeos com trechos ou à íntegra da conversa ao final.

Vídeo – Violência eleitoral: Haddad diz que Bolsonaro tem responsabilidade

O Brasil esta vivendo uma onda de violência política. No caso mais grave, um eleitor petista foi assassinado por um eleitor de Bolsonaro, em Salvador, na Bahia, após uma discussão em um bar. Além de pessoas feridas e jornalistas agredidos. Considera seu adversário responsável por fomentar essa violência?

Sendo bem preciso para não ser irresponsável, acho que o homem público tem uma responsabilidade derivada, não é só a responsabilidade de ele próprio não agredir pessoalmente ninguém. O que ele diz, o que ele fala e a maneira que ele se comporta faz diferença, no caso de uma pessoa que é referência na sociedade. Para bem e para o mal. Quando você vai a um Estado, como ele foi ao Acre, e diz ''vamos metralhar petistas'', ele está sinalizando o que ele pensa da violência. Quando ele diz que a ditadura errou ao só torturar as pessoas e não matar, que deveria ter matado 30 mil pessoas, sinaliza que considera a violência um instrumento legítimo de solução de conflitos. Ele tem uma formação que toma a violência como instrumento de transformação da sociedade. Eu sou professor, eu tenho o oposto disso como critério. O critério do professor é o diálogo, é aprender com humildade para poder ensinar. É conviver com a diferença. Ele vê a diferença como um inimigo. Para mim, o diferente é uma oportunidade de aprender.

O PT não contribuiu com o clima de polarização que temos hoje e indiretamente com alguns desses atos? O número é bem menor, mas há registros de eleitores de Bolsonaro que também foram agredidos. Há um levantamento da Agência Pública que apontou 50 casos de violência por parte de bolsonaristas e seis contra bolsonaristas.

O importante é quais são as minhas mensagens em relação à violência. Eu tenho 18 anos de vida pública. Ele tem 28 anos no Congresso Nacional. Compara as mensagens que ele emitiu com as mensagens que eu emiti. Outro dia chegou ao meu conhecimento um discurso dele chamando Dom Paulo Evaristo Arns, ex-cardeal de São Paulo, uma das pessoas mais respeitáveis da história deste país, de ''vagabundo'' e ''picareta''. Esta manhã, algumas igrejas católicas amanheceram com a suástica pichada. Você vai falar que não tem relação uma coisa com outra. Na minha opinião, tem sim. Porque quando você cultiva esse tipo de sinal, está autorizando seus correligionários a agirem dessa maneira. Por isso que a violência do lado de lá é dez vezes maior do que a do lado de cá. Não é que não há violência do nosso lado. Mas os sinais que eu emito são as coisas mais importantes. E meu sinal é de diálogo permanente, com todas as forças políticas deste país.

Diálogo é algo que tem faltado nas eleições. Pais brigam com filhos, amigos se tornam inimigos. Se você vencer, vai governar para petistas, antipetistas e para uma multidão que está tão decepcionada com a política que quer distância de Bolsonaro e de você. Como pretende juntar os cacos de um país dividido?

Eu pretendo fazer um governo muito mais amplo. Penso que nós temos que ter o melhor do país a serviço do próximo governo para recompor esses cacos a que você se referiu. Nós não podemos ter, hoje, o projeto de um partido, ou de uma cabeça só. A gente vai ter que ampliar o diálogo, somar forças democráticas, alinhar essas forças em proveito de um projeto de reconstrução nacional. Está tudo por reconstruir, as instituições, a economia, as relações pessoais. E isso só vai se fazer com gestos e com medidas duras que precisam ser tomadas para arrumar as coisas. Medidas duras não significa não-pactuadas, significa medidas profundas que a gente possa efetivamente chegar à raiz dos problemas.

Falando em medidas e no caráter simbólico delas, o fato de sua campanha ter trocado o vermelho pelas cores da bandeira nacional é um aceno nesse sentido? 

Segundo turno é o turno da ampliação. Então, tenho procurado não só partir dos que têm compromisso com a democracia e com a causa social, como PSB, o PSOL e o PDT, Ciro Gomes, [Guilherme] Boulos e os governadores do PSB que estão me apoiando, mas também com algumas personalidades, pessoas que representam valores para a sociedade. A minha visita à CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] foi um gesto de que os valores vão ser cultivados, de que o diálogo vai ser mantido. O que os bispos do Brasil estão pedindo? Manter o combate à corrupção firme, fortalecer as instruções democráticas, preservar a vida, superar a violência, preservar o meio ambiente. Será que alguém discorda disso? No nosso campo não. Eu sei que meu adversário discorda. Democracia para ele não é um valor absoluto, meio ambiente para ele não é um valor absoluto, ele quer acabar com Ministério do Meio Ambiente. A superação da violência não é um valor absoluto. Mas para mim os cinco são compromissos absolutos. Então é mediante gestos dessa natureza que nós vamos ampliar.

Essa ampliação significa que Ciro Gomes, Fernando Henrique, Marina Silva, Joaquim Barbosa vão entrar na sua campanha? Circulam na internet informações com potenciais ministeriáveis do seu lado. Há alguma novidade?

Eu não convidei ninguém ainda para ministro. Mas tenho interlocução com pessoas que eu respeito. Fui falar com Joaquim Barbosa porque entendo que ele tem um serviço prestado ao país muito relevante. São 40 anos de serviço público, como membro do Ministério Público e como ministro do Supremo Tribunal Federal. Não tenho como deixar de considerar a opinião dele para uma agenda tão importante quanto a questão republicana, de combate à corrupção, do fortalecimento da democracia. Falei ontem com [o filósofo e educador] Mario Sérgio Cortella, sobre educação, dei abertura para que pudéssemos conversar depois das eleições. Quando Ciro voltar de viagem, vou procurá-lo, porque entendo que o Ciro é uma liderança preparada para ajudar Brasil a sair da crise. Independentemente da decisão dele de participar de governo ou não, é uma personalidade que eu respeito e que pode dar grandes e boas ideias para o futuro governo.

Por que as pessoas deveriam dar um voto de confiança ao PT considerando os casos de corrupção dos últimos anos e os erros do governo Dilma na condução da economia, que você mesmo reconhece? 

Entendo que o balanço dos nossos governos é muito favorável. O PT mudou a vida de metade da população brasileira para muito melhor e a outra metade para melhor. Todo mundo melhorou, mas a metade debaixo melhorou mais que a de cima. Isso significa dizer que enfrentamos o principal desafio do país que é [a geração de] oportunidades. Eu digo a você, até modéstia à parte, na condução do Ministério da Educação, fui o ministro que mais abriu oportunidades para os jovens que não podiam pagar uma faculdade, que não conseguiam ensino médio, à criança com deficiência que não conseguia escola, a mãe que não consegue colocar filho em uma creche. Então, há erros a serem salientados, eu mesmo em toda entrevista sempre reconheço que houve erros que vamos corrigir. Mas não acho que o projeto deve ser abandonado. Um projeto de Brasil mais inclusivo, mais solidário, esse projeto que esse campo representa precisa ser fortalecido e retomado. Corrigindo o que estiver errado. Estamos aí três anos com governo Temer, no que que deu?

Vídeo – ''Não compactuo com nenhum regime autoritário de direita e de esquerda''

Muitas pessoas acham que o Brasil pode virar uma Venezuela se o PT ganhar. O senhor recentemente fez críticas ao governo de Nicolás Maduro. Por que é tão difícil contrariar dogmas do partido que pararam no tempo e simplesmente encarar a realidade de que mortes pelas mãos do Estado e prisões arbitrárias são inadmissíveis?

Escrevi um livro com 26 anos de idade, em 1989, sobre a União Soviética, contra todos os regimes autoritários de esquerda. Até por pertencer ao campo progressista, achei que devia, pela paixão que tenho pela política, deixa claro no começo da minha vida pública, que eu não compactuo com nenhum regime de arbítrio, nenhum regime autoritário de direita e de esquerda. Para mim, falta de liberdade é o caminho do inferno. A liberdade é que constrói as soluções duradouras para a humanidade. Não acredito em regime de força. Meu adversário é que tem que responder à questão do porquê, até hoje, enaltece a tortura, a cultura do estupro, porque havia estupro nos cárceres da ditadura, e por que ele é tão violento na solução de conflitos, por que se recusa a promover o diálogo. Para mim regime autoritário é um regime errado de antemão. Não teria problema de questionar qualquer governo da América Latina, inclusive o dele [Nicolás Maduro].

Não teria problema de considerar a Venezuela uma ditadura?

Se tivermos que caracterizar qualquer regime de força como uma ditadura, o faremos. A questão é outra. Há uma cobiça internacional em relação à Venezuela e ao Brasil, não por causa da democracia, mas por causa do petróleo. Os Estados Unidos querem transformar isso aqui num Oriente Médio. Não podemos cair nessa armadilha. O Fernando Henrique não tomou nenhuma medida contra Venezuela, sabe o que ele fez? Compôs um grupo de trabalho de amigos da Venezuela para ajudar o país a sair das armadilhas em que ela estava colocada. Estamos num momento ruim da Venezuela e não temos que declarar guerra, nem patrocinar uma ingerência nos assuntos internos. O que nós temos que fazer? Buscar uma solução pactuada e democrática, que envolva a oposição e a situação. Minha perspectiva é não deixar um conflito armado chegar na região, não promover instalação de base militar americana em território nacional, nada de bater continência para bandeira americana – isso não é papel de alguém que almeja a Presidência da República. Nada de criar conflito armado com o vizinho depois de 140 anos de paz. Chamar as lideranças latino-americanas, os organismos internacionais, os observadores externos, chegar na Venezuela e falar ''chega, chega de morte, chega de briga, vamos ajustar um protocolo para saída da crise, de forma democrática, no qual o povo dê a última palavra''.  Acho que a liderança do Brasil é suficiente para chegar a um acordo desse tipo.

O seu adversário o acusa de distribuir um kit para que crianças aprendam a ser gays. Ele se refere ao material didático do Escola sem Homofobia. É possível fazer com que crianças se tornem gays através da educação?

Eu não sei se isso é um aspecto doentio da personalidade dele ou se é pura má fé. Por que é que ele tem tanto problema com esse assunto? Parece ser meio patológica a obsessão. Segundo, nunca foi distribuído material para criança de seis anos [como afirmam mensagens nas redes]. Terceiro, é um desrespeito com o magistério brasileiro. Você acha que pais, mães e professoras (80% da categoria é composta de mulheres), que algum profissional da educação iria compactuar com uma loucura dessa? Só na cabeça de uma pessoa desequilibrada pode passar a ideia de que a escola pública se subordinaria a um projeto absurdo como o que ele descreve. Eu não sei qual é a intenção dele, se é só confundir a opinião pública e usar a boa fé das pessoas quanto a isso. Hoje soltou um novo boato. Falou que eu sou a favor do incesto. Ou seja deu um a passo mais. O filho dele tuitou. Para mim, é uma mente doente. Eu serei o presidente de todas as religiões, de todas as crenças. Eu, ao contrário dele, não vou transformar uma única igreja, na igreja oficial do Estado, como ele pretende, um projeto de poder de uma única igreja.

E qual igreja seria?

Nós sabemos, já falei isso publicamente, mas você sabe que tem livro escrito sobre um plano de poder de uma única igreja no país que ele abraçou [o candidato já havia se referido em outras entrevistas à Igreja Universal do Reino de Deus]. Do meu ponto de vista, o Estado tem que acolher todas as crenças religiosas. Não pode ter religião oficial no Brasil. Judeus, ateus, muçulmanos, cristãos, matriz afro, todo mundo tem lugar no Brasil, é cidadão brasileiro.  E tem que receber a mesma proteção do Estado que qualquer outra pessoa. Agora, ele usa esse subterfúgio e talvez por isso fuja dos debates. Para não ter que encarar a verdade.

Falando em debates, o candidato Bolsonaro tem se negado a participar. No começou, justificou-se por questões médicas, e agora afirmou que, por questões estratégicas, não iria. Pretende pedir para que as emissoras mantenham esse espaço?

Estou participando de todos os convites de sabatinas, debates, entrevistas, estou participar de tudo porque não tenho medo.

O PT já não se negou a participar de debates?

Não me lembro de ninguém. Acho que uma vez o Lula não foi ao debate, em 2006, em uma ocasião. Mas foi nos outros, não é que não foi em nenhum. [Dilma também desistiu de ir a debates nas eleições de 2010 e 2010]. Eu acho que o Brasil merece um debate. Eu não tenho nenhum temor de debater o que quer que seja, não tenho nada esconder, tenho um projeto para o país que está sendo ampliado com a adesão de novas forças personalidades, movimento social, movimento popular. Lamento que uma pessoa fuja dessa maneira de uma discussão séria sobre o Brasil.

Vídeo – Se armar a população, você vai ter muita morte no trânsito, entre vizinhos

O Brasil teve 64 mil mortes violentas em 2017, dado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dessas,5.144 foram causadas por intervenções policiais e 367 policiais foram mortos. Tanto a letalidade policial quanto a morte de policiais são números grandes para qualquer país do mundo. Como pretende diminuir essas taxas?

A Polícia Federal tem que participar mais e assumir algumas responsabilidades em relação ao crime organizado. Hoje, estamos sem foco. Nós temos que botar na cadeia os criminosos que colocam em risco a vida e o patrimônio das pessoas. Homicídio, lesão corporal grave, roubo, estupro. As polícias locais têm que ter foco nisso. Prioritário. Mas, para isso, a Polícia Federal vai ter que assumir uma parte da responsabilidade, sobretudo com relação ao crime organizado. E eu entendo que os prefeitos devem participar das ações de planejamento territorial. Prefeito conhece muito a área territorial e pode ser parte da solução na formação daquilo que a gente chama de Sistema Único de Segurança Pública. Todos os estudos que me chegaram ao conhecimento sem exceção dizem uma única coisa: armar a população é retirar o Estado da responsabilidade que é dele e aumenta a violência. Você vai ter muita morte no trânsito, a tiros, vai ter muita morte entre vizinhos, a tiros, vai ter muita morte dentro de casa. O sujeito perde a paciência, tem uma arma na mão, e comete muitas vezes um homicídio. Arma na mão de policial preparado, que faz a ronda, que esteja presente, essa é a solução para a segurança.

Em seu programa de governo, fala da necessidade de retomar obras paradas, de investir no ''Minha Casa, Minha Vida'' e na Petrobras para gerar empregos. Mas não traz uma previsão. Quantos empregos pretende gerar, afinal, temos um estoque de mais de 12 milhões de desempregados, 27 milhões de subempregados e 4,8 milhões de pessoas em desalento, que desistiram de procurar emprego. E como vai apoiar o micro e o pequeno empresário, que são os grandes geradores de emprego do Brasil?

A lei mais revolucionária para apoiar o micro e pequeno empresário foi feita por nós, o Super Simples. Uma coisa de outro mundo, nem na Europa e nos Estados Unidos tem uma lei tão amigável para o pequeno e micro empresário. Outra lei importante foi a MEI, o Microempreendedor Individual. Milhões de brasileiros adotaram a MEI como forma de atuação econômica em função dos benefícios fiscais. Agora, estamos precisando de uma Reforma Bancária, para acabar com a concentração bancária e diminuir os juros para o tomador. É impossível o empresário tomar empréstimos para investir porque o lucro dele não paga o juro. Temos que viver num país em que o tamanho do lucro seja maior que o tamanho dos juros. Senão, ninguém vai investir. A segunda, é uma Reforma Tributária que aumente o poder de compra das classes média e baixa porque isso vai aquecer o mercado de consumo. E a terceira coisa é acabar com o congelamento de investimento do governo federal, com ajuda inclusive do Bolsonaro, que apoiou todas as medidas do governo Temer, e retomar as 2800 obras públicas paradas. É muita obra parada para a gente não aproveitar e dar um choque de emprego logo nos primeiros meses de governo.

Tem um número do que é possível gerar nos quatro anos de seu governo?

Em 2002, dissemos que pretendíamos gerar 10 milhões de empregos. Em oito anos, geramos 15 milhões de postos de trabalho. Em 12 anos, nós geramos 20 milhões. É possível gerar. Agora, fixar uma meta nesse contexto é mais difícil porque vai depender um pouco do Congresso Nacional. Se o Congresso Nacional aprovar até o primeiro semestre do ano que vem as reformas que estou anunciando, essa meta é absolutamente factível. Você consegue gerar dez milhões de postos de trabalho.

Então se o Congresso Nacional aprovar suas propostas, acha que viável gerar 10 milhões?

Alguma coisa em torno de 2 milhões de postos de trabalho por ano.

Vídeo – Haddad: Vamos gerar oito milhões de empregos em quatro anos

Se todas as reformas forem aprovadas, oito milhões de postos de trabalho. Você propôs mudanças na aposentadoria e seu adversário, uma Reforma da Previdência que considera a capitalização individual. Eu gostaria que você falasse sobre as suas mudanças e as propostas dele.

A proposta dele não foi anunciada, eu não sei o que é. Até outro dia ele estava apoiando o governo Temer. Ele aprovou a Reforma Trabalhista do Temer, aprovou o Teto de Gastos do Temer [que congela novos investimentos públicos por duas décadas], as reformas do Temer contaram com apoio do Bolsonaro. Ele aprovou o projeto de Lei da Terceirização. Agora está dizendo que não, que não é bem assim. Mas ele foi lá e votou. Desde o começo da campanha, no programa de governo, fui claro, disse que nós vamos começar pela reforma dos regimes públicos de Previdência, porque os governadores não conseguem hoje pagar a folha de pagamento,  quanto mais a aposentadoria. Temos que fazer um ajuste na Previdência pública e depois, ato contínuo, depois de decidido qual vai ser o critério da Previdência pública, vamos aprovar uma lei para convergência do regime geral e do regime próprio em um só regime. Aí vamos ter sustentabilidade da Previdência para sempre.

O Benefício de Prestação Continuada [pensão para idosos pobres e pessoas com deficiência, entre outros] e a aposentadoria rural não serão mexidos?

A questão da aposentadoria rural e do Benefício é um crime mexer. As pessoas estão passando necessidade, você vai tirar delas? É uma visão completamente distorcida de como fazer o ajuste das contas.

Para finalizar, gostaria de pedir para que dissesse o que o eleitor de Bolsonaro pode esperar de você, caso seja eleito?

Democracia, paz, respeito, diálogo. Tudo que eu fiz a vida inteira como ministro, como prefeito. Você não vai ver uma frase minha desabonadora de uma pessoa, desrespeitosa a um adversário. Eu respeitei todo mundo que me respeitou. E mesmo os que me desrespeitaram, ocasionalmente, eu procurei minimizar, porque sou uma pessoa do diálogo, sempre construí consensos. No Ministério da Educação, aprovei duas emendas constitucionais e mais de 50 projetos de lei, sem que um único líder partidário indicasse voto contra. Aqui na Prefeitura de São Paulo, a mesma coisa. Conseguimos aprovar, eu com 20% da Câmara Municipal, plano diretor, lei de zoneamento, código de obras, reforma tributária, leis difíceis, com diálogo, convencendo a oposição de que aquele era o caminho para a cidade. Isso é o que eu pretendo, reconstruir o país com o diálogo, sem violência. Estimular a violência é o maior erro que estamos cometendo contra esse país.

Vídeo – Íntegra da entrevista:


Diálogo no Congresso Nacional pode ser substituído por bullying digital

Leonardo Sakamoto

Manifestante ferido durante protesto em Brasília em 24/05/2017. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Mais de 12 milhões de desempregados e 64 mil mortes violentas por ano, junto à incapacidade da política em encontrar soluções efetivas (inclusive para depurar a si mesma), alçaram o discurso da mudança ao papel de estrela das eleições. ''Discurso'', ressalte-se, não a mudança em si, porque a análise das propostas por trás dele, não raro, mostram saudades da estrutura social do Brasil Colônia.

Os brasileiros, com isso, decidiram renovar seu parlamento – 243 dos 513 deputados federais nunca ocuparam esse cargo, ou seja, 47,4% do total. Mais da metade dos deputados não se reelegeu. Grandes nomes envolvidos pela operação Lava Jato em casos de corrupção não se reelegeram, outros grandes nomes sim. Os partidos que mais perderam cadeiras foram o PSDB (-25) e MDB (-31), protagonistas do processo de impeachment de Dilma Rousseff e de escândalos. Há bons nomes eleitos pela primeira vez, da esquerda à direita, que prometem melhorar o debate político.

Aumentou de 10% para 15% o números de mulheres eleitas na Câmara dos Deputados, mas seguimos com uma porcentagem inferior à do Níger (17%), país com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo. Ou seja, tudo deve ser visto em seu contexto.

Portanto, vale ressaltar que renovação não significa melhoria. Afinal, ao contrário do que ensina o filósofo Tiririca, pior do que está, ah, sim, fica. Em português claro: no fundo do poço pode ter um alçapão.

É uma ginastica mental tentar imaginar o que será do Congresso Nacional sem parte de seus principais articuladores do centro, centro-direita, que foi defenestrada pela população. A tendência natural do cidadão comum é entender a palavra ''articulador'' como ''corrupto'', quando isso não é necessariamente verdade. Bem, é que no caso de muitos dos nobres parlamentares era sim.

Qualquer parlamento do mundo precisa de pessoas que conheçam bem as regras e leis e saibam fazer política, ou seja, dialogar muito, costurar saídas, levar um grupo a ceder aqui, o outro ceder ali e dialoguem com posições polarizadas A democracia é o cumprimento das decisões da maioria, desde que respeitada a dignidade da minoria. Ignorar isso no parlamento não apenas esgarça instituições, como pavimenta o caminho para um Estado autoritário. Este blog conversou com três deputados eleitos de diferentes partidos e colorações ideológicas para discutir esse cenário.

No Brasil de Michel Temer, tivemos um ensaio da quebra. Pautas do empresariado que deu suporte ao impeachment (Reforma Trabalhista e Lei da Terceirização Ampla) e do mercado (Emenda do Teto dos Gastos) foram enfiadas goela abaixo na Câmara e no Senado, sem o devido debate e sem possibilidade de tornar as mudanças mais palatáveis à população mais vulnerável. Mas, ainda assim, havia um mínimo de diálogo em muito articulado por nomes fortes do Congresso.

Sem articuladores que topem fazer pontes e não tenham preguiça de fazer política, abre-se a possibilidade da minoria viver em obstrução ou, a depender do presidente da Câmara que vier a ser eleito, dos regimentos da Câmara e do Senado serem rasgados todos os dias. O Supremo Tribunal Federal seria chamado, a todo o momento, para mediar a relação entre base governo e oposição –  o que seria péssimo.

E o que acontecerá se o diálogo for substituído por coação digital contínua? A pressão popular é e sempre foi legítima para influenciar no processo parlamentar, apesar da truculência com movimentos populares, como no dia 24 de maio de 2017, quando o governo despejou porrada, bomba e bala de borracha na Esplanada dos Ministérios. Abaixo-assinados e mensagens a parlamentares em nome de pautas importantes fazem parte das ferramentas do cidadão.

Mas qual será a reação se alguns deputados federais, senadores ou mesmo o chefe do Poder Executivo acharem que podem jogar seus seguidores para ameaçar parlamentares a cada nova proposta de seu interesse em trâmite no Congresso, usando WhatsApp e redes sociais? Aliás, não apenas seguidores, como também consultorias contratadas para entregar esse serviço, disparando dezena de milhares de mensagens por dia, que fazem parte desse ecossistema. O que acontece se alguém decidir exercer seu mandato usando o medo digital como arma?

A propaganda teve um papel fundamental para manter o controle do partido nazista sobre a Alemanha após sua ascensão ao poder por via eleitoral. Oitenta anos depois, a máquina de manipulação do debate público montada por Donald Trump em sua administração ajuda no suporte ao governo por parte de seus eleitores, anulando a influência de investigações e denúncias por parte da imprensa. Não somos nem a Alemanha da década de 1930, nem os Estados Unidos de hoje, com suas instituições em que freios e contrapesos funcionam melhor. O resultado, por aqui, é imprevisível.

Fala-se muito de um suposto aumento do poder das bancadas ruralista, do fundamentalismo religioso e corporativa de agentes da segurança pública – o chamado BBB, boi, bíblia e bala. É cedo, porém para afirmar que Jair Bolsonaro, se vier a ser eleito, conseguirá ignorar a negociação com os partidos tradicionais (e suas demandas) e tratar diretamente com as bancadas. Primeiro, por que não se sabe ainda o tamanho dessas bancadas – exceção à de segurança pública, as outras devem cair. Segundo, essas bancadas perderam nomes fortes, que sabiam operar no Congresso, especialmente a ruralista.

Claro que nomes são substituíveis. O deputado federal Rogério Marinho (PSDB-RN) e o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), relatores da Reforma Trabalhista, não se reelegeram. Marinho teve grandes doações eleitorais de donos de megaempresas, mesmo assim, naufragou. Enquanto isso, Ronaldo Nogueira (PTB-RS), ex-ministro do Trabalho, que apoiou a reforma e ficou marcado por aprovar uma portaria que enfraquecia o combate ao trabalho escravo, dificultando a libertação de trabalhadores, também não se reelegeu à Câmara. Fizeram o serviço ao empresariado, mas outros ocuparão seus lugares. O mesmo não se pode dizer de parlamentares que estava há muito tempo e faziam essas pontes.

Não eram grandes articuladores. Apenas as pessoas úteis na hora certa.

Contudo, falar para seguidores nas redes sociais é bem diferente de liderar articulações no Congresso Nacional.

Em entrevista a Carla Jiménez, do El País, o professor Fernando Limongi, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições, lembrou que muita gente não exerce força porque não sabe ou não gosta de conversar e fazer política. ''O que fez do Eduardo Cunha aquela pessoa imensamente poderosa? A capacidade de conhecer aquilo, como aquilo funciona. O cara era uma máquina. Sabe tudo, tinha controle sobre absolutamente tudo, com três celulares. Não é coisa para amador. Tem um voluntarismo bobo que tomou conta da juventude e empresários. De que tudo com boa vontade se resolve… as pessoas entram em conflito.''

O Congresso Nacional é o local para que conflitos sejam resolvidos dentro de regras, onde saídas são costuradas, evitando assim que diferentes grupos sociais entrem em embate direto no resto do país. Nosso parlamento é uma tragédia que não funciona bem, mas nem por isso é justificativa para ser subvertido – ruim com ele, pior sem. Se o diálogo for interditado pela falta de articulação ou por conta do medo e da perseguição, haverá descontentamento dos grupos cujos representantes forem ignorados no parlamento. E, dependendo de quem estiver nos governos federal e estaduais, diante dos protestos consequentes, virá pesada repressão do poder público. Isso é óbvio para quem sabe fazer política, mas obscuro para quem prefere o atalho do assédio, do bullying, da ameaça.

Para muitos analistas, seria difícil aparecer uma legislatura tão complicada quanto esta que termina no começo do ano. A experiência, essa sábia senhora, pede, contudo, que se espere até o 2019 antes de avaliações tão cheias de certeza.


Advogados pedem federalização de casos de violência por motivo eleitoral

Leonardo Sakamoto

Enterro do mestre de capoeira e compositor Moa do Katendê, morto a facadas, vítima da violência política nestas eleições

O Coletivo Advocacia em Direitos Humanos protocolou, nesta sexta (12), uma representação na Procuradoria-Geral da República solicitando que o Ministério Público Federal concentre todas as investigações e denúncias de violência física e verbal provocadas por intolerância e discordância política no período pré-eleitoral. Na avaliação dos advogados, os órgãos estaduais não tem dado a devida atenção às agressões e suas consequências.

“Apenas uma investigação de âmbito nacional pode entender e combater o problema com a clareza e a firmeza necessárias”, diz o pedido. “Os ataques estão sendo realizados neste momento em diversos locais do país e o que temos percebido é que as instâncias locais são incapazes de enfrentar, de forma organizada e sistemática, as violações”, diz a representação.

''É a primeira vez que a PGR vai precisar responder a um movimento de intolerância caracterizado como grave violação de direitos humanos'', explicou ao blog Eloísa Machado, professora da FGV Direito SP, umas das advogadas que subscreve a ação.

''Movimentos populistas e nacionalistas de extrema-direita têm promovido ações de discriminação contra minorias, de acordo com a relatora especial sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância das Nações Unidas. O mesmo pode estar acontecendo no Brasil'', completa a advogada.

A representação demanda os seguintes pontos:

–  Criação de uma operação de caráter nacional, integrada às Procuradorias Regionais dos Direitos dos Cidadãos, para sistematização e análise de todos os atos de violência intolerante no contexto das eleições presidenciais de 2018;

– Criação de um canal de comunicação para recebimento de denúncias;

– Adoção de providências cautelares, como salvo condutos, ou medidas de proteção à pessoas ameaçadas, na medida de sua necessidade.

– E, após as investigações, a federalização de todos os casos. Ou seja, que eles sejam deslocados da Justiça Estadual para a Justiça Federal.

A centralização dos dados permitiria concluir se os atos são difusos, coordenados ou incitados. Ou seja, apurar as responsabilidades direta e indiretas.

De acordo com comunicado enviado pelos advogados à imprensa, os casos relatados nos veículos de comunicação trazem indícios de crimes de intolerância política combinados a um discurso discriminatório, também intolerante, contra minorias.

“Esses casos de agressões, em sua maioria são contra mulheres, lésbicas e gays, negros e negras, nordestinos e nordestinas, e não apenas afetam a integridade física das pessoas, mas representam também um ataque a sua liberdade política”, explica Eloísa Machado.

“Historicamente, o Brasil é um país violento contra negros, mulheres, nordestinos, indígenas e LGBTTTIs, mas o que se percebe agora é algo diferente: os atos de violência estão intimamente associados não só a motivação política, mas às eleições presidenciais, especificamente, por isso precisam ser tratados em âmbito federal.'' Thiago Amparo, também advogado da ação, afirma que há um movimento sistemático e nacional de intolerância, em especial contra negros e LGBTTTis, que pode se caracterizar como grave violação a direitos humanos.

De acordo com o CADHu, que trabalha voluntariamente em ações sobre o tema, as agressões contrariam tratados ratificados pelo país, como o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, o Pacto de São José da Costa Rica, Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas Discriminação Racial, Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher e a Convenção Interamericana Contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância.


Violência política pode parir milícias de ódio para calar e punir em 2019

Leonardo Sakamoto

A servidora pública Paula Guerra foi espancada num bar, em Recife, após criticar ideias do candidato Jair Bolsonaro

Caso um freio não seja posto imediatamente na escalada de violência perpetrada por seguidores de Jair Bolsonaro, veremos esse ódio parir milícias que atuarão para que grupos vulneráveis, adversários ideológicos e opositores políticos sejam calados e punidos em um possível futuro governo do deputado.

Quem lê este blog sabe que tenho escrito há meses que isso aconteceria dado o monitoramento de grupos que propagam ódio nas redes sociais. A situação, contudo, é bem pior do que a caça às bruxas realizada durante o processo de impeachment, em que pessoas apanharam por usarem a ''cor errada''.

Não há, sob nenhum aspecto racional, possibilidade de comparar os casos de violência envolvendo seguidores de Jair Bolsonaro, que partiram para a porrada nas ruas empoderados com a perspectiva de sua vitória, com as denúncias de violência por parte de seguidores do PT. Não que apoiadores do partido de Fernando Haddad não tenham ameaçado e agredido, mas a escala é absurdamente desproporcional. As ações de bolsonaristas que circulam pelas redes têm inspirado outros a fazerem o mesmo. A sensação é de ''liberou geral'' à medida que o dia 28 de outubro se aproxima.

Não adianta Bolsonaro dizer que será um ''escravo'' da Constituição Federal, como declarou. Enquanto seus seguidores estiverem atacando outras pessoas nas ruas inspirados pelo conjunto de seus discursos violentos ao longo dos anos, não é possível acreditar que defenderá a democracia – se eleito. Precisa abandonar o discurso violento, condenar veementemente os ataques e comprometer-se que coisas assim serão especialmente punidas sob seu mandato.

Quando o presidente Rodrigo Duterte ganhou as eleições nas Filipinas, grupos de seus apoiadores sentiram-se livres para atacar quem consideravam o lixo da sociedade. Se nada for feito agora no Brasil, o anúncio do resultado do segundo turno pode ser sucedido de uma onda maior de ataques do que a que vivemos agora. E após a posse presidencial no início de janeiro, milícias passariam a operar nas sombras.

O que isso significa? Jovens rapazes de uma escola se juntando para dar ''corretivos'' nas colegas feministas e mostrar quem manda junto às outras mulheres do bairro. Fazendeiros se juntando para atacar movimentos de sem-terra, indígenas, quilombolas, ignorando decisões judiciais. Empresários recriando grupos de extermínio para remover a população em situação de rua e os sem-teto de seu entorno. Grupos homofóbicos se juntando para atacar baladas do público LGBTT e grupos racistas partindo para o ataque a rapazes negros que voltam à noite para casa após o trabalho. Grupos indo atrás de jornalistas e de opositores políticos, que insistem em dizer o contrário do que o grupo de WhatsApp ensinou.

Nenhum desses brotará de um chamamento do presidente eleito. Mas munidos com armas legalizadas e com o ódio que fermentaram ao longo do tempo e com a sensação de estarem fazendo um serviço público, agirão para ''limpar o país da escória''.

Um líder político como ele, exemplo a tantas pessoas, não pode afirmar que não tem responsabilidade com a violência que agora brota. Não são suas mãos que agridem, mas é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que faz das palavras ao longo do tempo que distorcem a visão de mundo de seus seguidores e tornam o ato da violência banal. Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois é consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

Como já disse aqui várias vezes, Bolsonaro, mais do que ninguém, sentiu na pele o significado da loucura política e do ódio através do atentado abominável que sofreu. Isso mostra, no mínimo, que ele não tem a mesma empatia pelas vítimas que os seus adversários tiveram com ele.

Se as instituições fossem sólidas, como muitos gostam de alardear, o poder público já teria colocado a situação como prioridade e tanto o Tribunal Superior Eleitoral quanto o Supremo Tribunal Federal não estariam amedrontados e negando a realidade, mas articulando uma resposta à altura. Pois quando cidadãos apanham e morrem nas ruas em meio a um processo eleitoral pelas mãos de fãs de um candidato, as eleições já não ''transcorrem tranquilas''. E o que pode sair disso tudo talvez não tenha cara de democracia.

Não adianta Bolsonaro avisar que agressores não devem votar nele, como fez. É preciso deixar claro que seu governo não dará salvo-conduto a esse pensamento e punirá com rigor violência política e crimes de ódio. O necessário combate à corrupção não pode servir de desculpas para levar alguém ao cargo político máximo que feche os olhos – e, logo, seja conivente – com atitudes de violência política explícita.


Bolsonaro fomenta paranoia e até extrema-direita francesa vira “comunista”

Leonardo Sakamoto

Graças à sabedoria que circula na redes sociais, descobrimos – nestas eleições – que a cantora Madonna, a revista Economist, as Nações Unidas, o jornal New York Times, a Rede Globo, o Facebook, o cantor e compositor Roger Waters, o filósofo e economista conservador Francis Fukuyama e a deputada de extrema-direita Marine Le Pen são comunistas. Particularmente, eu achava que a Madonna era mais anarcossindicalista, mas o resto nunca me enganou.

Há uma estranha reação de parte dos seguidores de Jair Bolsonaro, que é tachar qualquer pessoa que faz críticas a ele de comunista. De um filósofo conservador norte-americano a uma política de extrema-direita francesa, da bíblia do capitalismo a uma das maiores empresas do mundo, todos são comunistas e, portanto, defenderiam a propriedade comum dos meios de produção, Cuba e Venezuela.

Aliás, recentemente, brasileiros chamaram a Embaixada da Alemanha de comunista por ela ter postado um vídeo explicando que o nazismo é um movimento de extrema-direita e não de esquerda. Na verdade, nossos conterrâneos foram além na vergonha-alheia, tentando explicar aos alemães que eles não entendiam muito bem do tema. Arrogância que se repete com frequência, como ao tentarem explicar a Roger Waters, fundador do Pink Floyd, que ele não entende muito bem Another Brick in the Wall, sua própria música.

É claro que muitos que ''xingam'' pessoas ou instituições de comunistas não compreendem o que isso, de fato, significa – o que nos leva a lamentar que falhamos retumbantemente na educação do país. Caso as pessoas soubessem história e um mínimo do que se passa à sua volta, entendendo o que foi o comunismo ao redor do mundo, poderiam criticar de forma embasada – e há mais críticas do que elogios a serem feitos. Porém, o que vemos é uma mistura de inocência, ignorância, paranoia e má fé, transformando a palavra em um palavrão.

Isso quando não enfiam a ditadura venezuelana ou a norte-coreana no meio para fazer volume.

Há um esvaziamento do sentido original da palavra. Não raro, muitos que chamam alguém de comunista, queriam alcunhá-lo de corrupto, ladrão, despudorado, assassino, ateu, invasor de propriedade. Em suma, o inimigo externo, aquele que vem de fora para destruir nossas tradições e nosso modo de vida. Praticamente, uma ação reativa diante desse mundo grande e desconhecido.

Despida de seu significado original, a palavra também se tornou um elemento de identificação. Ou seja, uma postagem chamando a Economist, a tal bíblia capitalista, de comunista, imediatamente passa uma mensagem compreendida pelos demais membros do grupo, gerando conexão. De que aquilo é ruim, de que não deve ser consumido, de que deve ser combatido.

Quando uma candidatura, como a de Jair Bolsonaro, escolhe chamar atenção à ''ameaça comunista'' que seria representada por seu adversário, o mais tucano dos petistas, primeiro na internet, depois na propaganda eleitoral no rádio e na TV, alimenta mais ainda a paranoia de que há risco do comunismo ser implantado no Brasil ou ''virarmos uma Venezuela ou uma Cuba''. Sendo que, convenhamos, é mais fácil nos tornarmos uma ditadura de extrema-direita.

Isso faz com que voltemos 50 anos no tempo, para um mundo polarizado, com autointitulados mocinhos e intitulados bandidos, em que essa ''ameaça vermelha'' era usada como justificativa para torturar, matar e tolher a liberdade e a democracia por aqui.

Uma pena porque essa pode ser a sua zona de conforto. Mas certamente não é a de muita gente.


Preparem-se: ansiedade eleitoral pode não terminar

Leonardo Sakamoto

“Vivendo sob Trump, você não sabe o dia de amanhã.” A frase, dita por uma amiga jornalista nos Estados Unidos, resume o que alguns psicoterapeutas norte-americanos estão chamado de ''Ansiedade de Trump''.

O comportamento do ocupante da Casa Branca é tão imprevisível que, frequentemente, seus assessores – mesmo os mais próximos – são pegos de surpresa por alguma ideia nova que ele teve e resolveu tuitar antes de consultá-los sobre sua viabilidade econômica e política.

E se as pessoas que estão em seu entorno são pegas de surpresa (funcionários da Casa Branca já revelaram à imprensa que, no pânico, tiram documentos de sua mesa ou tentam dar um perdido em determinadas ordens para evitar mergulhar a administração no caos), imagine o restante da população que apenas cumpre ordens.

Não saber em que guerra o presidente pode meter o país, qual grupo socialmente vulnerável ele irá atacar em seguida com seus rompantes, qual a nacionalidade dos migrantes e refugiados que irá mandar deportar dessa vez, quais direitos e proteções sociais pretende revogar leva parte da população à loucura.

Daniel Keating, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Michigan, em artigo publicado na Psychology Today, afirmou que, entre 2016 e 2017, os maiores aumentos de estresse e ansiedade estiveram entre negros, hispânicos, mulheres e pessoas de baixa renda nos Estados Unidos.

Para ele, os grupos mais afetados negativamente são aqueles que foram alvo das políticas e atitudes da administração Donald Trump, eleito em novembro de 2016, demonstrando medo, incerteza e percepção de falta de controle sobre a vida e o futuro das pessoas.

Entre homens brancos, grupo em que está a maioria dos que controlam a economia norte-americana, o aumento de estresse não foi considerável com a transição de ano e de governo. Trump está aprovando medidas, como reduções de impostos, que favorecem as grandes empresas e as pessoas ricas.

Mas parte de suas decisões políticas e econômicas, tomadas de uma hora para outra, sem consultar ninguém, também geram incerteza aos mercados de lá e de todo o mundo. Nesse sentido, a ''Ansiedade de Trump'' é uma desordem que se alastrou fácil como palha esperando para ser queimada.

Um chefe de Estado em uma democracia pode muita coisa, mas não pode tudo. O Poder Executivo deve ser freado e contrabalanceado por instituições fortes nos outros poderes – coisa que – não adianta repetirmos diante do espelho para ver se aparece – não temos por aqui ainda. Nossa democracia é nova e não conseguiu consolidá-las. E, pelo andar da carruagem, talvez nem consiga.

Bolsonaro já afirmou que admira o presidente norte-americano.

Declarações de Jair Bolsonaro e de sua equipe de campanha frustraram o mercado nos últimos dias. Criticaram o projeto de Reforma da Previdência, disseram que não vão privatizar a geração de energia elétrica, nem a parte de produção de petróleo da Petrobras e reclamou das parcerias em território nacional com os chineses. Como um político de trajetória estatista e nacionalista vai obedecer o plano de um economista neoliberal e globalista é um conto de fada tão bonito quanto aquele do general que aceitava ordens de um capitão. No meio de tudo isso, o caos. Já tivemos um estelionato eleitoral em 2014. Deu no que deu.

Nem o deputado ganhou ainda e a ''Ansiedade de Bolsonaro'' já acomete uma parcela da população, entre mulheres, negros, professores, moradores de comunidades pobres, jornalistas, pessoas com deficiência, camponeses, indígenas, pessoas em situação de rua, homossexuais, ativistas pelos direitos de outras pessoas e pelo meio ambiente ou qualquer ser humano, à esquerda e à direita, que receie apanhar na rua por indivíduos e milícias que o apoiam.

Falar algo que não devia, vestir algo que não devia, morar em lugar que não devia, pensar de um jeito que não devia ou pelo simples de estar no lugar errado, na hora errada. Existir.

“Vivendo sob Bolsonaro, você não saberá o dia de amanhã?” Se isso te consola, desconfio que nem ele.


Parte de fãs de Bolsonaro acha que vitória é salvo-conduto para violência

Leonardo Sakamoto

Romualdo Rosário da Costa foi assassinado com 12 facadas em Salvador

Jair Bolsonaro ainda não entendeu a gravidade da situação. É preciso deixar bem claro: Pessoas vão morrer e ser agredidas pela parcela de seus fãs que entendeu sua vitória como um salvo-conduto para o ódio reprimido. Esses criminosos acham que seu governo não punirá barbaridades que forem cometidas contra determinados grupos e já começaram a botar as mangas de fora. A lista já tem um morto, o mestre capoeirista, Romualdo Rosário da Costa, com 12 facadas em Salvador, e dezena de agredidos.

Chamado a se pronunciar a respeito da violência que vem sendo perpetrada por alguns de seus seguidores, primeiro disse que não possuía responsabilidade sobre aquilo. Depois, que lamentava, mas não tinha controle sobre eles. Daí, com os casos se avolumando, afirmou que ''dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim''.

Não é o voto que está em jogo, mas a vida, candidato. O senhor pode dispensar votos, mas não pode dispensar vidas. Tem que deixar claro que isso não terá lugar em seu governo e que quem optar por esse caminho será devidamente punido. Pode parecer óbvio, mas para essa parcela de seus seguidores, não é.

Como já disse aqui várias vezes, há registros de violências cometidas por simpatizantes do PT ou fomentada por seus membros contra jornalistas ou adversários ao longo dos anos. Mas nada que se compare à onda que estamos vivendo agora. Não havia incerteza diante da integridade física. Agora, vemos grupos de mulheres e gays se organizarem para não saírem sozinhos à noite com medo desses ataques. Regredimos décadas em semanas.

Essa é a parte assustadora do dia seguinte à abertura das urnas: a percepção de que milícias ou indivíduos, que operam na escuridão, vão se sentir empoderados para atuar à luz do dia contra mulheres, negros, professores, moradores de comunidades pobres, jornalistas, pessoas com deficiência, camponeses, indígenas, pessoas em situação de rua, homossexuais, ativistas pelos direitos de outras pessoas e pelo meio ambiente, pessoas ideologicamente à esquerda ou qualquer ser humano com o qual não concordem.

De ameaças de morte comunicadas ao Ministério Público Federal a agressões físicas por conta de notícias falsas e campanhas de difamação, tenho uma certa experiência no ramo de ser um alvo ambulante. Mas a frequência dos ataques aumentou, com ameaças de morte na rua e afins.

Se minha vida pessoal é um termômetro, digamos que o Brasil está com febre. Não é uma aspirina entregue pelo candidato que vai resolver o problema. O remédio tem que ser mais forte, ele precisa dizer que – em seu governo – esse ódio seria punido.

Porque ele, como toda liderança, seja à esquerda ou à direita, tem responsabilidade neste momento.

Apesar de vender-se como o garantidor da ''ordem'', Bolsonaro ajudou a fomentar a desordem com seus discursos violentos. Líderes políticos, religiosos, sociais e comunicadores afirmam que não incitam a violência através de suas palavras. Porém, não são suas mãos que agridem, mas é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fazem das palavras ao longo do tempo que distorcem a visão de mundo de seus seguidores e tornam o ato da violência banal. Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois será consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

Bolsonaro, mais do que ninguém, sentiu na pele o significado da loucura política e do ódio através do atentado abominável que sofreu no início de setembro. E como é considerado exemplo para muita gente e prometeu, repetidas vezes, que iria pacificar o país, deve desarmar o discurso e ser energético contra esse comportamento. Caso contrário, terá responsabilidade em todo o sangue que for derramado.


Sem debates, Brasil vai entregar “cheque em branco” a novo presidente

Leonardo Sakamoto

Fotos: Rodolfo Buhrer/Reuters e Nelson Almeida/AFP

Jair Bolsonaro (58% dos votos válidos) largou à frente de Fernando Haddad (42%) na primeira pesquisa Datafolha após o início do segundo turno das eleições presidenciais, divulgada na noite desta quarta (10).

Algumas horas antes, a equipe médica que acompanha Bolsonaro desde o abominável atentado que sofreu em 6 de setembro, recomendou mais uma semana de repouso, dizendo que não estaria autorizado a viajar.

Com isso, ele está fora dos debates de TV na Band (12/10), Gazeta (14/10), RedeTV (15/10) e Folha, UOL, SBT (17/10). Sobraria Record (21/10) – canal cujo dono declarou apoio ao candidato – e Globo (26/10), último antes da votação e um canhão de audiência.

Por conta disso, uma hashtag que criticava o candidato devido à ausência tornou-se o principal trending topic mundial no Twitter na tarde desta quarta.

O atestado médico garantiu que ele continuasse em plena campanha, postando vídeos, memes e textos nas redes sociais e aplicativos de mensagens, concedendo entrevistas e participando de sabatinas, podendo escolher os veículos de comunicação e as condições, sem precisar ir a debates. Com isso, mantem-se ileso, criando um problema para Haddad – que precisa tirar votos dele.

Não é a primeira vez, nem será a última que o primeiro colocado nas pesquisas presidenciais falta a debates. Mas, por conta de sua condição médica, Bolsonaro conseguiu a justificativa perfeita para não precisar se desgastar em um embate no qual, do ponto de vista de sua estratégia, não teria nada a ganhar.

É uma pena porque o segundo turno é o momento para que os dois projetos de país sejam colocados, lado a lado, a fim de serem discutidos e conhecidos pelo eleitores. Para que ambos expliquem suas próprias propostas e apontem as falhas nas do adversário.

Bolsonaro e Haddad precisam detalhar como pretendem resolver o ajuste fiscal, a Reforma da Previdência, a geração de postos de trabalho, a Reforma Tributária, as políticas de segurança pública. Precisam dizer se vão continuar tocando ações básicas para a garantia da dignidade, como libertar trabalhadores escravizados, ou fecharão os olhos para isso por conta de acordos políticos em nome da governabilidade.

Sem isso, a população vai entregar um cheque em branco ao eleito baseado na maravilhosa realidade das propagandas de TV ou nas certezas absolutas dos vídeos de WhatsApp.


Mulher denuncia ter sido marcada com suástica por usar camiseta com #EleNão

Leonardo Sakamoto

Uma mulher de 19 anos afirmou à Polícia Civil ter sido agredida por três homens, em Porto Alegre (RS), por estar usando uma camiseta com a expressão #EleNão. Conta que, após ser esmurrada, foi segurada e marcada, com um canivete, com uma suástica na barriga.

O caso é bizarro por si só. E demanda investigação urgente – ainda mais que a sociedade vê aumentar a extensa lista de agressões envolvendo seguidores de Jair Bolsonaro, nesta campanha eleitoral, que incluem a morte de um mestre capoeirista, Romualdo Rosário da Costa, com 12 facadas em Salvador (BA), na segunda (8).

Contudo, o delegado que cuida do caso, Paulo Jardim, da 1ª DP de Porto Alegre, conseguiu aumentar a polêmica. ''Não é uma suástica. Tenho absoluta convicção. O que temos é um símbolo milenar religioso budista. Símbolo de amor, paz e harmonia'', afirmou em entrevista ao programa Gaúcha+.

Afirmando-se especialista nesse tipo de crime, disse que ''o movimento neonazista, quando iniciou, pegou um símbolo budista e inverteu. O que temos aí é o símbolo budista''. Antes, à Gaúcha ZH, afirmou que o agressor poderia não ter ideia de que aquilo era um símbolo nazista: ''Me chama a atenção que o desenho é semelhante a uma suástica, mas não está correto. Está ao contrário. Quem fez aquilo ali não sabia o que era uma suástica''.

Há registros do uso do símbolo da suástica em objetos que datam de 7 mil anos a.C. na Mesopotâmia. Ela também apareceu entre diversos povos da Ásia, África Europa e América. Em alguns, a cruz suástica tem as pás viradas para a esquerda e, em outros, para a direita. O nazismo ressignificou uma delas para representação da raça ariana e sua superioridade.

Não importa que a suástica budista seja o espelho da suástica nazista. Ou seja, se ela foi ''desenhada'' corretamente ou não. Há uma mulher que afirmou que teve o corpo marcado com algo que queriam que parecesse uma suástica. Se o delegado quer descartar grupos neonazistas da investigação por conta desse detalhe técnico, tudo bem, mas não dê declarações como essa, que soam insensíveis, e só confundem.

Qualquer semovente que respire e faça sombra e assistiu, ao menos, um filminho miserável sobre a Segunda Grande Guerra sabe qual foi o grande uso desse símbolo no partido nazista alemão. Sabem o que isso significa. Uso que resgatado pelos movimentos neonazistas de todo o mundo – inclusive, os brasileiros, que estão se sentindo empoderados pela votação expressiva recebida no primeiro turno por um candidato de extrema direita no país.

Ou alguém acha que três agressores teriam socado uma moça de 19 anos na rua e a prenderam para gravar em sua barriga, no estilo Bastardos Inglórios, um símbolo de ''amor, paz e harmonia'' por que foram com a cara dela?

A depender do resultado, vai haver expurgo no dia seguinte ao segundo turno das eleições. Com a anuência silenciosa do presidente eleito, que não condenou até agora outros atos, como agressões de jornalistas e o assassinato do mestre capoeirista feitos por seus seguidores. E os comentários edificantes de membros da força policial.


O que Bolsonaro tem a dizer sobre a violência envolvendo seus militantes?

Leonardo Sakamoto

Enterro do mestre de capoeira e compositor Romualdo Rosário da Costa, morto após uma discussão política

Jair Bolsonaro recebeu a solidariedade de todos os adversários quando sofreu o abominável atentado contra sua vida, no dia 6 de setembro, em Juiz de Fora (MG). Ao contrário de parte de eleitores de outros partidos, que se descolaram da realidade e negaram a facada, os candidatos até paralisaram sua ações de campanha por terem considerado grave o que aconteceu ao ex-capitão. Os políticos lembraram que diferenças se resolvem pelo diálogo, não calando ou matando o outro.

Por isso, pergunta-se por que Bolsonaro não tem repudiado de forma enérgica e consistente as perseguições, agressões e até assassinato cometidos por indivíduos de sua militância (indivíduos, não a massa de seus eleitores). Ele, mais do que ninguém, sentiu na pele o significado da loucura política e do ódio. E como é considerado exemplo e liderança para muita gente e prometeu, repetidas vezes, que iria pacificar o país, poderia começar pedindo a seus seguidores optarem pelo diálogo ao invés da violência, dizendo que esse comportamento será reprimido em seu governo. Pois o silêncio de hoje alimentará um monstro incapaz de ser controlado amanhã, levando à normalização da porrada como resposta à discordância política.

Não estou, com isso, dizendo que a extrema direita detém o monopólio da violência política – os registros de agressões por parte de membros e apoiadores do Partido dos Trabalhadores a jornalistas e outros militantes, pela mídia, ao longo dos anos, provam que não. Como foi o caso da agressão de um homem que bateu-boca com apoiadores do PT, em frente ao Instituto Lula, em abril deste ano, e teve que ser hospitalizado. Ou os jornalistas atacados durante o ato contra a prisão de Lula, em São Bernardo, no mesmo mês.

Mas, neste momento em que a sociedade está ultrapolarizada por conta da campanha eleitoral, têm sido mais frequentes os relatos de colegas jornalistas que foram ameaçados, perseguidos e agredidos, vítimas de assédio on-line e offline por parte de fãs do candidato. Desde o início do ano até 7 de outubro, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 137 agressões e ameaças contra jornalistas por conta da cobertura do processo eleitoral – boa parte delas ligadas a defensores do ex-capitão.

Uma das vítimas dessa loucura foi o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, o Moa do Katendê, de 63 anos, que foi compositor do Ilê Aiyê, assassinado com 12 golpes de faca após ter defendido Fernando Haddad em uma discussão sobre as eleições presidenciais, por um defensor de Jair Bolsonaro, num bar na periferia de Salvador, na madrugada desta segunda (8). O criminoso voltou até sua casa, pegou um facão para matar a vítima. A polícia conseguiu prendê-lo, que confessou o crime. Doze golpes de facão.

No dia anterior, uma jornalista foi agredida e ameaçada de estupro, após votar, em Recife (PE). Ela estava identificada com um crachá e é ligada ao portal NE 10, que pertence ao Jornal do Commercio. Segundo a vítima, os agressores afirmaram que “quando o 'comandante' ganhasse, a imprensa toda ia morrer”. Um deles usava uma camiseta preta com a foto do candidato e os dizeres 'Bolsonaro Presidente'. Ela mostrou à imprensa hematomas e cortes nas mãos e no rosto que sofreu. Quando um carro buzinou, os agressores fugiram. A jornalista foi encaminhada para exame no Instituto Médico Legal e a Polícia Civil está investigando a denúncia.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Pernambuco e a Federação Nacional dos Jornalistas emitiram notas públicas repudiando o ocorrido e exigindo pronta responsabilização dos envolvidos.

O grosso da população, incendiado no período eleitoral, deve voltar ao ''normal'' após a apuração dos votos no próximo dia 28 da mesma forma que houve uma descompressão após a votação do impeachment. O que não significa que parte da sociedade não se manterá em guerra, seja pela sensação de impunidade que a vitória política traz ou pelo ressentimento da derrota eleitoral. Vai demandar um exaustivo trabalho de redução de animosidades e de sinalização ao lado derrotado por parte do eleito. O problema é que nem todo mundo aceita essa distensão. Afinal, o medo é um excelente instrumento de governo.

Caso Bolsonaro vença, grupos radicais, sentindo-se empoderados pela mudança de governo, vão se estar à vontade de ir às ruas, atuando como milícias políticas, para monitorar e punir opositores do governo, ativistas dos direitos humanos e jornalistas? Ou, em caso de derrota, eles também sairão às ruas para se vingar? Bolsonaro terá coragem de se mostrar solidário com quem pensa diferente? Essas dúvidas pairam sem resposta.

Durante o processo de impeachment, o ''vermelho'' se tornou a cor errada por um longo tempo, levando a pessoas que vestisse essa cor fosse punido, com ameaças, socos e pontapés. A perseguição ideológica de um certo ''macarthismo à brasileira'' pode se instalar por aqui, bem como um clima de caça às bruxas a toda ideologia que não seja aquela que não se afirma como ideologia e que, por isso, mais ideológica é. Jornalistas, sejam eles conservadores ou progressistas, podem vir a ser calados, não necessariamente pelo governo, mas por milícias digitais e convencionais que atuariam livremente, caso não contem a ''verdade'' que interesse a quem esteja no poder.

Já fiz esse relato aqui, mas vale repetir. Perdi a quantidade de vezes que fui xingado e ameaçado ou que me acusaram de coisas que nunca fiz, aos gritos, em restaurantes, supermercados e outros espaços públicos nos últimos anos. Já fui perseguido e chegaram às vias de fato, tendo sido cuspido e derrubado na rua. Grandes empresas já pagaram campanhas de difamação, milícias digitais criaram notícias falsas contra mim. O Ministério Público Federal recebeu e solicitou investigação policial de ameaças graves que recebi. Afinal de contas, tratar de direitos humanos e trabalho escravo é crime no Brasil.

É assustador saber que alguém visto como ''normal'' e ''comum'' pode ser capaz, nos contextos histórico, político e institucional apropriados, tornar-se o que convencionamos chamar de monstro. Ou seja, os monstros são nossos vizinhos ou podemos ser nós mesmos. Pessoas que colocam em prática o que leem todos os dias na rede e absorvem em redes sociais: que seus adversários políticos e ideológicos são a corja da sociedade e agem para corromper os valores morais, tornar a vida dos ''cidadãos pagadores de impostos'', um inferno, e a cidade, um lixo. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos do bem.

A dificuldade de colocar-se no lugar do outro e entender que ele merece a mesma dignidade que sonhamos para nós mesmos esteve sempre presente. Mas não estava distribuída pela internet, conectada pelas redes sociais, amplificada pela popularização de smartphones e organizada por grupos políticos interessados em moldar a opinião pública e o processo eleitoral por meio digital. Fábricas de notícias falsas anônimas estão aprofundando a ultrapolarização, ajudando a levar o país às vias de fato, incitando a população e municiando-a para o confronto. Mas o conflito deflagrado e fermentado pelo rancor ao antipetismo no período eleitoral pode ser apenas o início. O receio é o que pode acontecer no dia seguinte às eleições, dependendo do resultado.

O problema não é apenas um governo que não se preocupe com os direitos fundamentais e sim líderes que não controlem seus seguidores – que, nas ruas ou na rede, queiram eliminar os que são vistos como ameaças,.

Quem pode controlar agora a massa dos seguidores são os candidatos. Espero que isso seja feito rapidamente, sob risco do surgimento de milícias ideológicas, punindo jornalistas e cidadãos comuns por não ''pensarem direito''.

A democracia, às vezes, não faz estardalhaço ao morrer. Pode ser de dia, ameaçada de estupro depois de votar. De madrugada, com 12 golpes de faca após discutir política. Ou de noite, como uma vereadora negra executada dentro de seu carro e, depois, difamada nas redes sociais.

Atualização: Após a publicação deste texto, Bolsonaro foi questionado pelo repórter Gustavo Maia, do UOL, sobre os episódios de violência envolvendo militantes. Afirmou que a pergunta estava invertida, citando o atentado que sofreu no dia 6 de setembro. ''Quem levou a facada fui eu, pô. O cara lá que tem uma camisa minha e comete um excesso, o que é que eu tenho a ver com isso?'' Perguntado se condenava o ocorrido, respondeu que lamentava.

Disse não ter controle sobre isso – ''Peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam'' – e afirmou que ''a violência'' e ''a intolerância'', na verdade, vêm do outro lado. ''Eu sou a prova, graças a Deus, viva disso daí.'' Analisa o clima como ''acirrado'', mas que ''são casos isolados''.

O candidato não tem controle, mas tem influência – e muita. É, portanto, fundamental que reflita e se pergunte: isso é tudo o que tem a dizer sobre a violência envolvendo seus militantes aos seus militantes?

Post atualizado às 21h, do dia 09/10/2018 para inclusão de declaração de Bolsonaro.