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Bolsonaro deveria ter uma DR com Mourão ao invés de deixar o filho atacá-lo

Leonardo Sakamoto

2023-04-20T19:15:53

23/04/2019 15h53

Foto: Antonio Scorza

Os tuítes que praticamente acusam de traidor o vice, Hamilton Mourão, partiram de Carlos Bolsonaro. Mas não são uma reação destemperada do responsável pelas redes sociais da Presidência da República e sim algo que vai ao encontro da opinião de seu pai e seus irmãos, insatisfeitos com o protagonismo que o general vem assumindo ao se vender como alguém mais equilibrado e racional que o presidente.

Carlos, Eduardo, Flávio e Jair compõem juntos o mesmo animal político. Por isso é inútil qualquer tentativa de afastar o presidente da República das polêmicas levantadas pelo vereador carioca, pelo deputado federal ou pelo senador nas redes sociais. Não é que Jair tolera as estripulias deles, todos atuam em sintonia, nem sempre quanto à forma, mas certamente com relação ao conteúdo.

Cada um tem uma função nesse processo – cultivar e defender a imagem do presidente junto ao público, amealhar apoio e visibilidade internacional, garantir suporte interno de ruralistas, evangélicos e policiais, ser um grande animador de torcida. Mas, para além de implantar uma agenda conservadora e reacionária, há um projeto, que é a própria manutenção desse animal político no poder.

Não admiraria, portanto, que além de Bolsonaro tentar a reeleição em 2022 – provavelmente, sem Hamilton Mourão na chapa, esse animal político tentará calçar o caminho para algum de seus outros membros. Não logo depois, mas após as disputas que contarão com Sérgio Moro e João Doria.

O que Bolsonaro não pode falar, falam seus filhos. Se eles não podem dizer, manifesta-se sua rede de apoio ideológica dentro do governo. Quando isso não é desejável, declarações de Olavo de Carvalho preenchem o vazio. O polemista é útil pois atua como um grilo falante do governo e um porta-voz do lado B. Será mantido por perto enquanto servir ao seu propósito.

Esse processo de engenharia política que criou uma Hidra com quatro cabeças não é de agora, mas foi se construindo ao longo dos anos. Provavelmente, nem eles sabiam que se tornariam um só.

Mas quando um político que nunca teve grandes aliados, nunca fez parte de um partido político de forma orgânica, nunca desenvolveu coletivamente um projeto de país, ascende ao poder, a tendência é dividir poder real com as únicas pessoas em quem realmente confia, neste caso, a família.

O problema é que, ao contrário da história da Hidra de Lerna na mitologia grega, que ganhava uma nova cabeça cada vez que uma das suas era cortada, a morte política de qualquer um dos Bolsonaros pode ferir o animal inteiro. Não à toa, a operação abafa em cima do caso envolvendo Fabrício Queiroz e as relações de milicianos com o gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro – que seguem sem resposta.

O fato de Mourão estar bem posicionado caso sobre uma bola para ele não diria muita coisa caso o governo federal soubesse que está indo bem. O principal adversário de Bolsonaro até agora não é o Congresso Nacional, a imprensa, as feministas, o comunismo. É ele mesmo, com todas as suas golden showers.

O que mais assusta, contudo, é que o presidente da República tenha decidido junto com seus filhos adotar a estratégia de atacar Mourão on-line enquanto faz cara de paisagem off-line. Deveria ter uma boa conversa com seu vice e aparar arestas. Mais do que gerar uma crise institucional, guerrear por tuítes ou em recadinhos pela imprensa, bombados por teorias da conspiração, não demonstra muita maturidade dos envolvidos.

Em tempo: Talvez por ter ouvido sobre a tática do "dividir para governar", Bolsonaro esteja mantendo o governo em constante conflito. Se for assim, ninguém lhe explicou que é para dividir o inimigo, não os aliados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.