Blog do Sakamoto

A morte de Marcos Vinícius entra na conta da intervenção de Temer no Rio

Leonardo Sakamoto

Uniforme escolar de Marcos Vinícius manchado com seu sangue. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, foi morto quando ia para a escola nesta quarta (20), no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, durante uma operação da Polícia Civil com o apoio do Exército.

A imagem da camisa de seu uniforme, branca e azul, manchada de sangue é mais uma prova de que a intervenção federal na área de segurança pública do Estado, que colocou as Forças Armadas no comando, não cumpriu suas promessas de reduzir a sensação de insegurança. Pelo contrário, ao assumir o comando de uma estrutura e de uma política falidas, tornou-se ela mesma vetor da violência.

Desde fevereiro, quando foi decretada por Michel Temer com objetivos marqueteiros e eleitoreiros, a intervenção tem visto cadáveres continuarem a se amontoar diante de seus pés. Entre eles, os da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, cujas mortes completaram, nesta sexta (22), 100 dias.

Na operação na Maré, mais seis pessoas morreram – suspeitos que reagiram, segundo a polícia. E um helicóptero dava suporte, atirando do céu na comunidade. Como em um videogame.

Uma população assustada com a violência quer acreditar que exista uma saída rápida e fácil para fazer com que ela volte a se sentir segura. É, portanto, compreensível que uma grande quantidade de pessoas acreditasse, em fevereiro, que a intervenção reduziria as mortes de inocentes. Mesmo com a montanha de evidências de que ela não havia sido planejada, mas lançada como pelo governo federal para ganhar popularidade e distrair a sociedade quanto à sua incapacidade de governar.

Essa população com medo, quando confrontada com números de outros países, outras cidades brasileiras ou mesmo do Rio, mostrando que interferências com comando de militares apenas jogam mais gasolina no fogo, não resolvendo o problema e aprofundando a corrupção na caserna, simplesmente gritou que os dados eram ''notícia falsa''.

E tapou os ouvidos ao escutar que as Forças Armadas não eram treinadas para operar esse tipo de ação de policiamento, informação que saiu da boca de seus próprios comandantes que sabiam a enrascada em que estavam sendo metidos.

Ao se agarrar a promessas vazias, essas pessoas até agora não conseguem entender o que é e como funciona uma comunidade dominada por facções criminosas. E que inocentes, como Marcos, costumam morrer em conflitos ocorridos nesses territórios. Aceitam que o Estado mate quem for preciso para garantir a ordem. Mesmo que, ao final, isso signifique o sangue de dezenas de policiais e soldados e de milhares de moradores. Uns lamentam o que chamam de ''dano colateral'', outros dizem abertamente que se morreu é porque alguma culpa tinha.

Como ocorreu as redes sociais em que ignóbeis afirmavam do alto de sua estupidez que o menino estava armado, atirando, como soldado do tráfico de drogas.

Seria ótimo que, ao invés de propor uma saída fácil, vazia, marqueteira e eleitoreira, o governo Michel Temer tivesse chamado as comunidades afetadas para construir um plano de ação, evitando soluções impostas de cima para baixo que servem apenas ao controle populacional das chamadas ''classes perigosas''.

E que também tivesse trazido a público a discussão sobre a desmilitarização da força policial (o que significa mudar seu treinamento a fim de priorizar a proteção da população antes de matar inimigos), ao mesmo tempo em que tivesse buscado a melhora de seus salários e de suas condições de trabalho.

E tivesse investido em inteligência policial e no cruzamento de dados da segurança pública, além de tornar efetiva a punição caso seja constatado o envolvimento de policiais em delitos. E tivesse dado voz aos policiais honestos para que ajudassem a encontrar saídas. Afinal, eles também tombam de forma inaceitável não apenas no cumprimento do dever, mas também como vítimas de crimes, quando descobertos nos bairros e comunidades pobres em que moram.

Se o debate sobre segurança pública não passar por ações estruturais que melhorem a qualidade de vida, garantam justiça social, permitam que o jovem pobre tenha perspectiva real de futuro, não teremos solução sustentável. Pois matar geral e colocar criança em cadeia privatizada só piora o quadro. A cada soldado do tráfico abatido, há outros dez na fila para entrar. Para cada dono de morro preso, surgem imediatamente outros três. Sem contar que acabar com o CV, o TC e a ADA no Rio sem entrar fortemente com um Estado de bem-estar social, é um convite à substituição por uma filial do PCC.

E, é claro, enterrar a fracassada política de ''guerra às drogas''. Enquanto ela for mantida e não caminharmos para a descriminalização paulatina, encarando o problema como de saúde pública, o Estado seguirá alimentando o tráfico de armas e promovendo violência. Os grandes traficantes não estão na favela, mas moram em casas confortáveis em bairros chiques de grandes cidades.

É importante frisar que o fracasso em políticas de segurança não é monopólio da direita, do centro ou da esquerda – todos têm sido responsáveis pelo buraco em que estamos. PT e PSDB, porque governaram o país e grandes estados da federação por muito tempo. E o PMDB porque sequestrou o país desde a redemocratização.

A cúpula do governo federal, sabendo que a população tende a encarar soluções estruturais e complexas como mimimi de quem não quer resolver o problema, aproveitou para lançar uma intervenção insustentável e que não alcançará seus objetivos.

Falhamos. Profundamente, amargamente. Não apenas ao manter governantes incompetentes, corruptos e insensíveis, que perseguem soluções simplistas e fogem de ações estruturais, mas também ao permitir que a cidadania não seja universalizada (desde 13 de maio de 1888) e que a vida desses não-cidadãos valesse menos do que um instrumento descartável de trabalho. O sangue na camiseta do uniforme escolar do jovem de 14 anos é prova disso.

Qual vocês acham que era a cor da pele de Marcus Vinícius? E por que, no Brasil, essa pergunta é quase desnecessária?


O Brasil pode seguir o caminho da política racista de Trump para migração?

Leonardo Sakamoto

Agente de migração na fronteira para mãe e criança nos Estados Unidos. Foto: John Moore/Getty Images

Quem se indigna com a política migratória do governo Donald Trump, que teve como capítulo mais recente a separação forçada de famílias que tentaram entrar nos Estados Unidos de forma ilegal, com o enjaulamento de crianças enquanto seus país eram encaminhados a presídios federais, precisa acompanhar o tema mais de perto no Brasil.

Diante do pedido de fechamento da fronteira do Brasil, em Roraima, com a Venezuela feito pela governadora Suely Campos (PP-RR) ao Supremo Tribunal Federal a fim de reduzir o número de migrantes, o ministro das Relações Exteriores Aloysio Nunes Ferreira soltou um ''Esta é uma ideia…tenha santa paciência''. O governo Michel Temer tem, portanto, mantido a fronteira aberta e não deve adotar nenhuma medida mais extravagante para lidar com o problema. O que é um bom sinal.

Mas se não são muitos os que defendem o fechamento total de fronteiras para refugiados e a expulsão sumária de migrantes sem documentos de permanência por aqui, por outro é crescente a quantidade daqueles que acreditam que eles roubam empregos e pioram a crise. Ou que caem no conto da notícia falsa que diz que o Brasil vai gastar bilhões com Bolsa Família para refugiados, tirando da boca dos nativos.

Sem contar os fãs de Donald Trump, que aprendem a serem pessoas piores ao absorver como verdade as seguidas declarações dele sobre o tema. ''Nós devemos manter o 'mal' fora de nosso país!'', tuitou ele sobre uma decisão do Tribunal Federal de Seattle que havia suspendido o seu decreto impedindo a entrada de pessoas de sete países de maioria islâmica no ano passado. E quem é o mal? Desde sua campanha eleitoral, culpa os migrantes pobres por desgraças que acontecem em solo norte-americano – de estupros ao tráfico de drogas e principalmente o terrorismo. Recentemente, disse que eles ''infestam'' o país.

Vale lembrar que, no ano passado, pouco antes da sanção da Lei de Migração, grupos de extrema direita realizaram microprotestos em cidades como São Paulo usando argumentos que reduzem migrantes pobres a ladrões e traficantes – o mesmo discurso adotado por Trump. Diziam que o país se transformaria no caos com a mudança da lei, seguindo o que há de pior no nacionalismo ultraconservador que tenta fazer com que a Europa e os Estados Unidos se tornem uma sucursal do inferno. O mais irônico é que a lei nasceu com problemas que ainda dificultam a vida dos refugiados e migrantes mais pobres.

Esses grupos radicais no Brasil culpam migrantes por roubar empregos, trazer violência, sobrecarregar os serviços públicos porque é mais fácil jogar a responsabilidade em quem não tem voz (apesar de darem braços para gerarem riqueza para o Brasil) do que criar mecanismos para trazê-los para o lado de dentro do muro que os separa da dignidade – o que, inclusive, gera recursos através de impostos.

Grande parte desses migrantes faz o trabalho sujo que poucos querem fazer, limpam latrinas, costuram roupas, recolhem o lixo, extraem carvão, processam gado, constroem casas. Até porque os países que recebem esses trabalhadores ganham com sua situação de subemprego e o não pagamento de todos os direitos. Não se enganem: a porosidade de fronteiras ajuda na regulação do custo da mão de obra global.

Em São Paulo, o preconceito tem perdido a vergonha e brotado do esgoto. Ataques violentos a bolivianos e haitianos foram registrados nos últimos anos. Pedidos de devolução de refugiados sírios são lidos nas redes sociais. Ataques xenófobos a venezuelanos são registradora em Roraima.

O que nos faz lembrar que o problema não é com os migrantes ricos e brancos, mas os refugiados econômicos, sociais e ambientais. Ou seja, com pobres e – claro – negros. Por que os racistas brasileiros não são diferentes dos racistas norte-americanos.

Trabalho há quase 20 anos com a questão do tráfico de seres humanos para o trabalho escravo e posso atestar que nossa sociedade tem despejado preconceito, racismo e xenofobia sobre trabalhadores que veem para cá fugindo de catástrofes ou na esperança de uma vida melhor. Se, por um lado, muitos abrem os braços para eles, por outro, há quem os escraviza. Bolivianos, paraguaios, haitianos, chineses, venezuelanos já foram resgatados pelo poder público em oficinas de costura, frigoríficos, empresas de construção civil, mineradoras. Nossa roupa barata e nossa comida barata não raro custam caro para muita gente.

É claro que não há nada tão ruim que não possa piorar ainda mais. Pois são vários os candidatos a cargos públicos nas eleições de outubro que compartilham com a visão de fronteiras e de migração do presidente norte-americano. Não é possível dizer que concordam com o enjaulamento de crianças, mas já se declararam simpáticos a ações adotadas por Trump nessa área. Um deles é o deputado federal Jair Bolsonaro.

Em evento de pré-campanha, nesta quinta (21), em Campina Grande (PB), ele afirmou ao repórter Leandro Prazeres, do UOL, que não adotará a separação de crianças caso assuma a Presidência da República, mas defendeu o endurecimento da política migratória. ''Não pode separar pais e filhos. Mas também não pode receber imigrantes ilegais. Ninguém entra na tua casa sem autorização. No Brasil, qualquer imigrante tem que ser legal. Mas não pode separar. Você pode até deportar, sem problema nenhum'', afirmou.

Questionado pelo jornal O Estado de S.Paulo, em março deste ano, sobre a ampliação do muro separadando os EUA do México, ele afirmou:

''Ele [Donald Trump] quer cérebros lá dentro. Os Estados Unidos, pelo que eu entendo, são uma fábrica de cérebros. E não pode, no meu entender – no lugar dele eu faria a mesma coisa – aceitar à vontade tudo quanto é tipo de gente. Porque junto com gente boa entra quem não presta. Olha a nossa querida Roraima, Boa Vista e Pacaraima. Eu estive lá. Hoje em dia calculam que Boa Vista tem em torno de 40 mil venezuelanos. E olha só, a ditadura, quando começa a tomar forma, a elite é a primeira a sair. Essa foi pra Miami. A parte mais intermediária, grande parte foi para o Chile. E agora os mais pobres estão vindo para o Brasil. Nós já temos problemas demais aqui. Se vamos incorporar aquele exército que recebe Bolsa Família, quem vai pagar isso aí? Vamos aumentar impostos?''

Logo na sequência, questionado sobre a solução, afirmou:

''Primeiro, via Parlamento, revogar essa lei de imigração aí. Outra, fazer campo de refugiados. Outra: em vez de esperar passar o vexame do [Nicolás] Maduro expulsar os nossos embaixadores, já era para ter chamado há muito tempo e tomado outras decisões econômicas contra a Venezuela.''

O tamanho do deslocamento de venezuelanos através da fronteira Norte por conta da crise do governo Maduro não justifica, nem de longe, a construção de campos de refugiados. Eles são considerados pela comunidade internacional o último recurso, pois trazem ainda mais sofrimento aos envolvidos. Já visitei vários deles na África e na Ásia como repórter e sei o que significam. Buscar a inserção econômica desses trabalhadores, de acordo com a aptidão e a formação de cada um, tende a ser uma das melhores saídas não apenas para eles mas também para a economia brasileira.

O Brasil não é o local mais acolhedor do mundo para estrangeiros, apesar de mentir para si mesmo que é. Ficar em silêncio diante do crescimento do discurso xenófobo por aqui, alimentado por uma extrema direita maluca, vai apenas ampliar esse fosso entre a fantasia sobre quem somos e a dura realidade.

Capa da revista Time usando a foto do início deste post


Temer tira recursos da Educação em nome da Segurança. Ache o erro da frase

Leonardo Sakamoto

Michel Temer participa da abertura da Expozebu. Foto: Joel Silva/Folhapress

O governo Temer vai retirar quase R$ 1 bilhão da educação para financiar a área de segurança pública. Mais especificamente do financiamento estudantil para o ensino superior (Fies). O que é uma bobagem.

Bora desenhar:

1) O objetivo da segurança pública é prevenir e combater a violência.

2) Entre as causas da violência estão a falta de perspectivas e de oportunidades entre os jovens, aliada a uma gigantesca vulnerabilidade social e uma desigualdade crônica na efetivação de direitos.

3) A educação é reconhecida como um dos principais instrumentos para trazer perspectivas e oportunidades aos jovens, reduzir a vulnerabilidade social e tornar menos grosseira a desigualdade na efetivação de direitos.

Ou seja, a qualidade da segurança pública de um país está diretamente relacionada à da educação que oferece à população. Quanto mais você gasta em educação, menos precisará gastar em segurança pública. Como previu o antropólogo, escritor, educador e político Darcy Ribeiro, na década de 80, se não construirmos escolas, em 20 anos, faltará dinheiro para construir presídios.

Apesar dessa relação estar largamente comprovada a ponto de nortear as políticas de segurança pública de uma série de democracias, parece que o governo Temer quer coloca-la à prova.

E não apenas vai pagar para ver, mas dobrou a aposta. Os cortes, que reduzem consideravelmente recursos oriundos das loterias federais para a educação, também vão atingir os ministérios da Cultura e do Esporte e o apoio a instituições como a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

A promoção da cultura e do esporte entre jovens e crianças também é fundamental para reduzir sua vulnerabilidade e, portanto, para melhorar a segurança.

Reportagem de Angela Boldrini, da Folha de S.Paulo, desta quinta (21), mostra que ao invés de destinar uma parte da arrecadação dos recursos de loterias, o governo vai destinar apenas o valor dos prêmios que não forem buscados pelos ganhadores e caducarem. Se isso estivesse valendo no ano passado, a diferença teria sido de quase um bilhão.

O financiamento público do ensino superior beneficia, principalmente, os filhos das famílias mais pobres – uma vez que os filhos das mais ricas tendem a ficar com as melhores vagas das universidade públicas porque tiveram recursos para se prepararem para o Enem e os vestibulares.

Tudo isso ajuda a explicar por que 62% dos jovens, entre 16 e 24 anos, desejam se mudar para outro lugar, segundo pesquisa Datafolha, divulgada neste domingo (17). Muitos desistiram do país por que o país desistiu deles muito antes.

Claro que é importante conseguir recursos para garantir estrutura, remuneração, formação às forças de segurança e investir em inteligência do sistema. Mas não tirar dessas áreas, nunca dessas áreas.

O bom de ser um governo com 3% de aprovação e 82% de desaprovação (novamente, Datafolha) em reta final de mandato é que você não precisa se preocupar em tentar explicar sua lógica para a sociedade. Principalmente quando sua lógica fere a lógica.


Vídeos mostram que o “país do futebol” também é o da violência sexual

Leonardo Sakamoto

Não sei se podemos dizer que a seleção brasileira de futebol masculino representa o Brasil na Rússia. Mas certamente os brasileiros que foram pegos assediando sexualmente mulheres de outros países em criminosos vídeos machistas e violentos que viralizaram na rede representam um grande naco da população daqui.

Claro que há países tão ou mais machistas e violentos entre os que disputam a Copa do Mundo, a exemplo daqueles que protagonizaram o jogo de estreia, a anfitriã Rússia e a Arábia Saudita. Mas os vídeos mostraram orgulhosamente ao mundo que parte de nós, homens brasileiros, não é apenas tosca, mas parece ter vontade de compartilhar essa informação com o universo. Ou talvez achem que estão em alguma competição, via redes sociais, para saber quem é mais burro.

Pode ser que não ganhemos a Copa, mas dada a repercussão dos vídeos, o Troféu de Imbecilidade já recebemos.

E não se engane. Não é só meia dúzia de celerados. Ataques como esse traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em uma festa está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem ''seus homens'', andando por aí, está à disposição.

A última pesquisa Datafolha disponível sobre o tema aponta que 42% das mulheres relata já ter sofrido assédio sexual no Brasil. Os números indicam que 29% delas foi assediada na rua (valor que vai a 45% se considerado apenas as mulheres entre 16 e 24 anos), 22% no transporte público, 15% no trabalho, 10% na escola ou faculdade e 6% em casa – sendo que houve entrevistadas que relataram mais de um tipo de assédio.

Outra pesquisa Datafolha, essa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em setembro de 2016, mostrou que, dos entrevistados, 30% achavam que a afirmação ''a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada'' está correta. O percentual é o mesmo entre homens e mulheres e aumenta entre idosos e pessoas com menor grau de escolaridade. Ao mesmo tempo, 37% dos entrevistados concordavam que ''mulheres que se dão ao respeito não são estupradas''. Neste caso, a porcentagem era maior entre homens (42%) do que entre mulheres (32%).

Para muitos desses homens envolvidos nessas situações deploráveis, provavelmente não se enquadram na categoria de ''objetos sexuais'' apenas suas mães e avós, que dormem o sono das santas católicas, enquanto quem é ''da vida'' povoa as ruas, as festas, os jogos de futebol. Porque ''mulher de bem'' não aceitaria nunca colocar um vestido acima do joelho e deixar as costas de fora, não bebe, fuma ou tem vícios detestáveis, não ama apenas por uma noite e não ri em público, escancarando os dentes a quem quer que seja. ''Mulher de bem'' permanece em casa para servir o ''homem de bem'' e estar à sua disposição como empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira ou objeto sexual, a qualquer hora do dia e da noite. Por que? Porque, na sua cabeça, elas pertencem a eles. Porque assim sempre foi, é assim que se ensinou por nós, homens, e foi aprendido. É a tradição, oras! E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado.

Nesse sentido, aqui no Brasil, as mulheres que ousam sair desse padrão, podem ser vítimas de alguns ''corretivos sociais''. Reclamamos de estúpidos muçulmanos que, do alto de uma interpretação bisonha do Corão, atacam mulheres que resolveram ser independentes, mas acabamos por fazer o mesmo aqui. Não é a contundência de um vidro de ácido lançado no rosto de quem deixou a burca ou o shador em casa. Mas pode corroer tão fundo quanto e deixar marcas que podemos não perceber.

Nós, homens, pensaríamos duas vezes antes de fazermos comentários machistas, preconceituosos e violentos se tivéssemos medo de sermos criticados, repreendidos e humilhados publicamente por outros homens em um almoço de família, no intervalo das aulas da faculdade, na mesa de bar. E, é claro, também nas conversas, publicações, curtidas e compartilhamentos nas redes sociais.

Mais do que isso, não veríamos como ''brincadeira'' esse comportamento criminoso contra mulheres se deixássemos de passar a mão nas cabeças de outros homens, relativizando um assédio ou um ato violento como se fosse ''brincadeira'' ou um ''xaveco''. Ou se o sistema policial e de Justiça do país não refletisse, ele próprio, o machismo corrente na sociedade e atuasse de forma mais firme.

Em uma sociedade historicamente estruturada em torno da violência de gênero, nossa responsabilidade como homens não é apenas evitar que nós mesmos sejamos vetores dessa violência. Não basta cada um fazer sua parte para que o mundo se torne um lugar melhor. Se você fica em silêncio diante de situações de violência de gênero, sinto lhe informar que tem optado pela saída fácil da delinquência social.

Sim, ao ver um colega relinchando aberrações inconcebíveis na mesa do bar e não questioná-lo por isso, dando uma risadinha de conta de boca; ao ouvir aquele tio misógino defender que ''mulher que se preze não usa saia curta'' e ficar em silêncio; ao assistir àquele ''humorista'' fazer apologia ao estupro e não mudar de canal ou enviar mensagem protestando às autoridades; ou ao se deparar com um amigo compartilhando histórias de violência sexual e sua única reação foi um beicinho de desaprovação, você está sendo cúmplice de tudo isso.

Como já disse aqui, nós, homens, temos a responsabilidade de educarmos uns aos outros, desconstruindo nossa formação machista, explicando o que está errado, impondo limites ao comportamento dos outros quando esses foram violentos, denunciando se necessário for. Não é censura, pelo contrário. Esses são atos para ajudar a garantir que as mulheres possam desfrutar da mesmo liberdade que nós temos – liberdade que nossos atos e palavras sistematicamente negam a elas.

Por fim, as desculpas dadas pelos envolvidos – que parecem ter surgido muito mais pelo medo da repercussão e das consequências do que por um arrependimento genuíno aliado a um desejo de mudança – mostram que estamos distantes do fair play.

Nós, homens, estamos ainda disputando as eliminatórias do respeito à dignidade humana – que é o campeonato que realmente importa. Mas, infelizmente, nunca conseguimos ser classificados para passar de fase. Permanecemos um bando de desqualificados.


Para combater o terror, Trump deveria expulsar homens brancos dos EUA

Leonardo Sakamoto

Dylann Roof confessou ser responsável pela morte de nove pessoas após abrir fogo em uma igreja frequentada por afrodescendentes na Carolina do Sul, nos EUA, em 2015. Reconhecendo-se como "supremacista branco", ele afirmou: "nossa gente é superior. Isso é apenas a verdade"

Dylann confessou ser responsável pela morte de nove pessoas após abrir fogo em uma igreja frequentada por afrodescendentes na Carolina do Sul. Reconhecendo-se como ''supremacista branco'', afirmou: ''Nossa gente é superior. Isso é apenas a verdade''

''Nós devemos manter o 'mal' fora de nosso país!''. Donald Trump respondeu dessa forma, em sua conta no Twitter, a uma decisão do Tribunal Federal de Seattle que havia suspendido temporariamente o seu decreto impedindo a entrada de pessoas de sete países de maioria islâmica no ano passado.

A ideia de ''mal'' usada por ele tem significados que se desdobram: A princípio representa o terrorismo de algumas organizações que ele afirma tentar evitar – apesar de nenhuma pessoa dos países barrados por ele, até aquele momento, ter cometido atentados nos Estados Unidos. Mas ao baixar uma proibição indiscriminada a todos os cidadãos desses países, Trump os tornava suspeitos simplesmente porque foram proibidos de entrar. E a percepção do que seja o ''mal'' se estende, metonimicamente, aos inocentes. É a tática do linchamento: se adoto uma punição contra você é porque você fez algo errado.

Nesse sentido, tanto as crianças quanto seus pais, separados uns dos outros pelo governo dos Estados Unidos ao tentarem entrar de forma ilegal no país, acabaram sendo os culpados de tentarem perverter o país. Adultos são processados criminalmente e encaminhados a presídios federais, enquanto crianças ficaram em abrigos. Os vídeos que circularam pela mundo e mostram montes delas, enjauladas, chorando. Antes, as famílias permaneciam unidas em centros de detenção. São as culpadas porque foram presas.

Durante a campanha de Trump à Presidência, o tema da migração ganhou destaque com o então candidato culpando os estrangeiros pobres por todas as desgraças que acontecem em solo norte-americano – de estupros ao tráfico de drogas e principalmente o terrorismo.

E isso está longe de corresponder à realidade. Mayra Cotta, pesquisadora da New School for Social Research, em Nova York, mostrou, em artigo neste blog, que 64% dos ataques com armas em espaços públicos nos Estados Unidos foram causados por homens brancos que nasceram naquele país. Homens brancos, frequentemente supremacistas brancos, que entraram armados com sua ideologia racista em jardins de infância, escolas, universidades, cinemas, igrejas, repartições e escritórios e começaram a matar as pessoas ao se redor, sem necessariamente um alvo específico.

E Trump não se refere a eles como o ''mal''. Até porque seria muito difícil explicar a seus eleitores – pelo menos os que buscam soluções fáceis para o medo que sentem – que parte da violência em seu país está ligada a desvios e questões mal resolvidas de sua própria sociedade. Como o racismo que segue sendo uma chaga aberta, tornando, mais de 150 anos após a abolição da escravidão por lá, necessária uma campanha a fim de deixar claro que ''Black Lives Matter'' – vidas negras importam.

Ou as intervenções militares norte-americanas em outras sociedades que, sob a justificativa de garantir o respeito aos direitos humanos, criam montanhas de cadáveres e fluxos de refugiados para, ao final, sair com vantajosos contratos para extração de petróleo e de recursos naturais e exploração de mercados consumidores. Em maior ou menor grau, esse é o modus operandi de sucessivas administrações norte-americanas, incluindo a festejada e já saudosa gestão Obama.

O problema de Trump é que ele escancara isso sem mediações e estica a corda, ultrapassando o limite da racionalidade e atingindo pilares da democracia. Ao eleger inimigos, tachá-los (famílias de latino-americanos como ladrões e estupradores, muçulmanos, terroristas, chineses, desleais…) e afirmar que estão apodrecendo a sua sociedade, transfere o problema para terceiros e enfraquece a possibilidade de reflexão sobre os problemas causados pelo país e sua elite dominante. O ''mal'' é sempre o outro, o islâmico, o negro, o migrante, o homossexual, o que não se parece com a nossa elite, nunca nós mesmos.

Com já disse aqui, isso empodera muita gente. Como as centenas de desprezíveis racistas e neonazistas que marcharam, em 11 de agosto do ano passado, em Charlottesville, nos Estados Unidos, carregando tochas e entoando palavras de ordem contra negros, migrantes, homossexuais, judeus.

O que fazer quando o ''mal'' somos nós mesmos? Simples, encontrar um inimigo externo e insistentemente transferir o problema a ele até que nos esqueçamos de sua origem e fique só o preconceito. Nunca falha.


Apesar da paranoia dos ricos, 85% dos refugiados estão em países pobres

Leonardo Sakamoto

Campo de refugiados em Angola. Foto: Leonardo Sakamoto

As imagens de crianças separadas dos pais pelo governo dos Estados Unidos ao tentarem entrar de forma ilegal no país provocaram comoção internacional. Adultos são processados criminalmente e encaminhados a presídios federais, enquanto crianças ficam em abrigos. Os vídeos que circularam pela imprensa norte-americana mostram montes delas, enjauladas, chorando. Antes, as famílias permaneciam unidas em centros de detenção.

Durante a campanha de Donald Trump à Presidência, o tema da migração ganhou destaque com o então candidato culpando os trabalhadores estrangeiros por desgraças que acontecem em solo norte-americano – de estupros ao tráfico de drogas. Desde então, está obsessivo com o prolongamento do muro isolando o México dos Estados Unidos e chegou a anunciar o veto à entrada de muçulmanos.

Corporações de países ricos ou em desenvolvimento superexploram territórios na periferia do mundo ou seus governos promovem conflitos armados em nome de recursos naturais ou de interesses geopolíticos. Comunidades sofrem com isso e são obrigadas a deixar suas casas. Daí, vão bater as portas de países ricos ou em desenvolvimento, mas nem todos os recebem de braços abertos, apesar de serem cúmplices do sistema que os expulsou.

Em todo o mundo, culpamos os migrantes por roubar empregos, trazer violência, sobrecarregar os serviços públicos porque é mais fácil jogar a responsabilidade em quem não tem voz (apesar de darem braços para gerarem riqueza para o lugar em que vivem) do que criar mecanismos para trazê-los para o lado de dentro do muro que os separa da dignidade ou políticas para evitar e reduzir conflitos em suas terras de origem.

Qualquer pessoa que estuda migração sabe que esse fluxo de gente tem sido fundamental para a economia do centro rico. Países desenvolvidos, como os Estados Unidos, apesar de venderem o discurso de que querem barrar a migração não-autorizada, sabem que dependem dela para ajudar a regular seu custo da mão de obra. É cômodo deixar uma massa de pessoas ao largo dos direitos por serem invisíveis, mas com muitos deveres e baixa remuneração. Mas o que são favelas e cortiços senão campos de refugiados econômicos?

O relatório ''Tendências Globais'', do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), mostra que 85% dos refugiados estão nos países em desenvolvimento, muitos dos quais são extremamente pobres e recebem pouco apoio para cuidar dessas populações. Outro dado importante: Quatro em cada cinco refugiados permanecem em locais vizinhos aos de seus de origem.

Semelhante à questão da violência urbana em cidades como o Rio: quem sofre as consequências são os pobres, mas os ricos acham que são eles os principais atingidos.

O número de pessoas forçadas a deixarem suas casas – deslocando-se internamente em seu país ou buscando refúgio fora – chegou a 68,5 milhões em 2017, de acordo com o Acnur, o que significa 2,9 milhões a mais que no ano anterior. O principal grupo continua sendo os da Síria (12,6 milhões), seguido por Afeganistão, Sudão do Sul, Mianmar (por conta da violência contra a minoria rohingya) e Somália.

No Brasil, como relata Patrícia Campos Mello, na Folha de S.Paulo, desta terça (19), mais que dobrou o número de refugiados, dos que pediram refúgio e daqueles que estão com permissão temporária de residência. Em 2017, foram 148.645 pessoas, principalmente por conta da crise humanitária venezuelana.

É normal que tenhamos medo daquilo ou daqueles que não conheçamos bem. Daquilo que é ''de fora''. Mas esse medo é infundado, equivocado, preconceituoso. Os migrantes estrangeiros vêm buscar oportunidades de vida que não são encontradas em seu país, fugindo de guerras ou de desastres naturais. E muitos também vieram atendendo a um chamado por mão de obra. Sim, esse fluxo migratório respondeu à demanda por força de trabalho no Brasil, que cresceu até o começo deste década. Determinadas ocupações já não são preenchidas apenas por brasileiros, como empregadas domésticas, costureiras, operários da construção civil e de frigoríficos. E há jovens brasileiros de classes mais baixas que não querem ser costureiros ou empregadas domésticas. Preferem se aventurar como atendentes de telemarketing, que é o novo proletariado urbano.

Todos estão produzindo riqueza por aqui. Mas sob a perspectiva mal informada de parte população, contudo, eles vêm ''roubar'' empregos. Isso quando o preconceito não descamba para a paranoia de que todos sejam ladrões de relógios, joias, carros e casas. A verdade é que muita gente, de Roraima a São Paulo, passando por Brasília, quando questionada, não sabe de onde vem o incômodo que sente ao constatar centenas de venezuelanos andando nas ruas. Mas se fossem loiros escandinavos ricos pedindo estada ao contrário de indígenas pobres, a história seria diferente. Ou seja, para muita gente, o problema é racismo e preconceito de classe mesmo. Com todas as letras.

O governo federal demora para viabilizar e financiar estruturas de acolhida, apoio e intermediação oficial de mão de obra de modo a evitar a superexploração e o trabalho escravo de venezuelanos, bolivianos, paraguaios, haitianos, chineses que acontece em oficinas de costura, canteiros de obras e até pastelarias.

A história de nosso país, mas também dos Estados Unidos, é uma história de migrações, de acolher gente de todos os cantos do mundo (não tão bem, é claro – São Paulo, por exemplo, é a maior cidade nordestina fora do Nordeste e, ao mesmo tempo, ostentamos ainda um preconceito raivoso e irracional). Não podemos esquecer que a maioria de nossos antepassados foi explorada até o osso quando aqui chegou. Pois a esmagadora maioria de nós é descendente de migrantes. Nossos avós eram os forasteiros que sofriam nas mãos dos estabelecidos. Hoje, somos nós os estabelecidos que criticam os forasteiros. Com exceção, é claro, dos indígenas, que sofreram – e ainda sofrem – um processo lento de genocídio.

A mobilidade deveria ser livre em todo o planeta. Afinal, se o capital não vê fronteiras, os trabalhadores também deveriam não serem barrados nelas. Ou morrer afogados ou à bala enquanto tentam ultrapassa-las.

Os mais irônico é que a decisão do presidente norte-americano de abandonar o Acordo de Paris, o que foi um retrocesso no combate às mudança climáticas, vai contribuir no médio e longo prazo com o crescimento de outro tipo de refugiado: o ambiental. Pois, à medida em que o nível do mar subir, tempestades e furacões destruírem áreas inteiras, secas e nevascas acabarem com criações de animais e plantações, vai aumentar o número daqueles que são obrigados a sair de casa para sobreviver.

O problema é que, no limite, não temos outro planeta para nos refugiar se este der errado.


Seleção cuja torcida for homofóbica ou racista deveria perder ponto na Copa

Leonardo Sakamoto

Foto: Eduardo Verdugo/AP Photo/

A Fifa abriu procedimento disciplinar contra o México pelos gritos homofóbicos de sua torcida durante a vitória do time contra a Alemanha no domingo (17). A Federação Mexicana de Futebol, em mais de uma ocasião, havia pedido que isso fosse evitado, mas não adiantou. Agora, pode ser multada mais uma vez.

O comportamento de parte dos torcedores mexicanos é muito semelhante ao de parte dos torcedores brasileiros, gritando ''puto'' (o equivalente a ''bicha'') em tiros de meta.

Não basta multa. É necessário que a Fifa anuncie que as seleções com torcidas que apelem para a homofobia, transfobia ou racismo perderão pontos que venham a conquistar em campo. Daí, teremos um resultado real.

Isso teria o potencial de repercutir em partidas de campeonatos internacionais, nacionais ou regionais em todo o planeta pelos próximos anos e décadas. É claro que esses crimes continuariam a acontecer e muitas federações ainda fariam vistas grossas ou mesmo dariam apoio de forma velada ao preconceito. Mas seria uma indicação de que há coisas que não podem e não devem ser toleradas. Isso não é cultura ou tradição, mas apenas uma imbecilidade violenta.

Claro que essa defesa que fiz agora será respondida com reclamações dos que tentam justificar o injustificável. ''E se alguém usar uma camisa de outro país?'' (como se até uma ameba em coma não fosse capaz de descobrir isso), ''Cadê minha liberdade de expressão?'' (liberdade de expressão não admite censura prévia, mas prevê responsabilização caso agressão à dignidade)  ''Ah, mas que radicalismo!'' (argumento dado usado sempre pelo lado que pratica a violência), ''Deixa o povo se divertir'', ''É só brincadeira'', ''É só futebol''.

Como já havia dito na Copa no Brasil, há quatro anos, não, não é só futebol. Porque futebol é grande demais para ser só futebol. É também espelho da sociedade que somos e farol daquele que desejamos ser. E quando futebol é palco para agressão da dignidade, não é apenas um determinado grupo, mas toda a sociedade que é atacada.

E não importa se são cem ou mil os que gritaram. Diante de homofobia e racismo, o silêncio por parte dos outros torcedores é conivência. E como conivência também deve ser punida.

Sabemos que dizer que alguém é “gay'' ou “lésbica'' em uma sociedade heteronormativa e machista pode carregar uma montanha de intenções negativas. O significado não é apenas a orientação sexual, mas todo um pacote de comportamentos fora do padrão que foram equivocadamente imputados a esses grupos ao longo do tempo.

O que não é aleatório, mas sim uma forma de separar o certo e o errado, o quem manda e quem obedece, ditados pelo grupo hegemônico. Como as piadas, que existem em profusão para rir de gays, travestis, negros, mulheres, terreiros, pobres, imigrantes e raramente caçoam de pessoas ricas ou famílias de comerciais de margarina na TV.

Torcedores de futebol, quando entoam coros chamando determinados jogadores de “bicha'', que é um termo depreciativo, têm o intuito de transformar uma orientação sexual em xingamento. Afirmam, dessa forma, que ser “bicha'' é ser ruim, ser frouxo, medroso, incapaz e tantos outros valores falsos acrescidos à palavra para reduzir os gays ao longo do tempo.

Nesse caso, o uso da expressão não está atacando apenas um jogador (independentemente da orientação sexual do esportista), mas toda a coletividade, pois reforça preconceitos e questiona a dignidade de determinado grupo.

Fazendo um paralelo simples: um naco da torcida gritando que um jogador negro é “negro'' não é simples observação da realidade, mas quer passar um recado cuja intenção não é das melhores. Assume uma conotação diferente do significa original da palavra, com um significado bem distante de gritar que um jogador branco é “branco'' em uma torcida de brancos. Pois sabemos bem que certas sociedades dá pesos diferentes a negros e brancos e que o racismo é presente em muitos lugares.

Em resumo: se não sabe brincar, não vá ao estádio. Ou, estando lá, não abra a boca. E se sentiu ofendido porque foi criticado ao ser homofóbico, racista ou preconceituoso, vê se cresce.


Ao negar que é largamente impopular, Temer se refugia em realidade paralela

Leonardo Sakamoto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Michel Temer afirmou que a última pesquisa Datafolha – que apontou que 82% da população considera seu governo ruim ou péssimo – ''não é verdadeira''. A declaração foi dada, nesta segunda (18), após reunião de cúpula dos presidentes do Mercosul no Paraguai.

Entendo que o número seja assustador e talvez sua vaidade não permita admitir que é verdadeiro. Afinal, ele é Michel Michel Elias Temer Lulia, imperador do Jaburu, amansador de frigoríficos, conquistador do Porto de Santos, guardião das palavras sagradas ''Tem que Manter Isso, Viu?'', quarto patriarca do MDB, poeta e menestrel de Tietê, o primeiro de sua linhagem.

Garanto, contudo, que os números são verdadeiros. Para ser honesto, boa parte dos jornalistas que cobre o dia a dia da política nacional deve ter ficado surpresa que ainda conte com 3% de ótimo e bom. Onde vivem, o que comem, quanto de subsídios, emendas e perdões de impostos recebem essas pessoas?

Se ele não quiser acreditar em institutos de pesquisa, pode dar uma passada na periferia de grandes cidades brasileiras ou no interiorzão e perguntar para as pessoas comuns. Há pelo menos 13 milhões de desempregados e 4,6 milhões de desalentados que adorariam dizer o que pensam de seu governo.

Temer está nu. Sua corte está nua. Mas já não se importam mais com isso, contanto que sobrevivam até o final do ano sem ir para o xilindró. Está rolando Copa do Mundo e, junto com ela, o Norte e o Nordeste vivem as festas juninas. Depois, começa o calendário eleitoral. Ou seja, muito difícil que caia.

Mesmo que ele próprio saiba que a situação é insustentável. Em setembro de 2015, perguntado a respeito de uma Dilma na corda bamba, ele afirmou que ''ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo [de popularidade]. Se a economia melhorar, acaba voltando um índice razoável. Mas, se ela continuar com 7% e 8% de popularidade, fica difícil''.

Como ostenta menos da metade disso, só resta a Temer ignorar o realidade e chamar urubu de sabiá.

Kellyanne Conway, então assessora direta do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, quando questionada sobre a declaração de seu chefe, de que sua cerimônia de posse tinha a maior da história, apesar das fotos mostrarem que isso não se sustentava, afirmou a Chuck Todd, da rede de TV NBC: “Você está dizendo que é uma mentira. Nosso chefe de imprensa, Sean Spicer, apresentou fatos alternativos a isso”. O jornalista respondeu corretamente que ''fatos alternativos não são fatos. São falsidades''.

Temer pode dizer o que quiser, pois nada mudará o fato de que será lembrado como nosso presidente mais impopular.

O problema é que a maioria dos brasileiros não vive uma realidade paralela em palácios brasilienses, mas luta pela sobrevivência diariamente. O que ficou mais difícil com ele no poder.


Brasil “exporta” haters na Copa para mostrar que é craque no linchamento

Leonardo Sakamoto

Foto: Jason Cairnduff/Reuters

Insatisfeitos com a arbitragem do mexicano César Ramos no empate com a Suíça, hordas alucinadas de brasileiros caçaram-no para expressar seu ódio em redes sociais. De acordo com o blog #Hashtag, da Folha de S.Paulo, os haters erraram o alvo duas vezes, xingando – aos milhares – homônimos que não tinham nada a ver com a história.

Não se espera muita reflexão e raciocínio de hordas que abraçam o linchamento, sejam ele dentro ou fora da rede. Mas não é todo dia que vemos um caso de linchamento triplamente burro.

Não foi o único caso. Inconformados com a marcação do meia suíço Valor Behrami sobre Neymar, brasileiros atacaram o jogador nas redes sociais. Assim como atacarão outros jogadores e árbitros nas próximas partidas. E, se perdermos, os próprios jogadores brasileiros serão os alvos. Isso sem falar que as reclamações sobre o comportamento bizarro da torcida brasileira, na rede ou fora dela, são antigas em vários esportes.

Uma coisa é reclamar diante de algo visto como injusto, o que faz parte do jogo. Outra é linchar e perseguir alguém. Muitos são os que não sabem quando termina a crítica contundente e começa a agressão violenta. Ficam em dúvida se caminham com duas pernas ou quatro cascos.

O comportamento não é novo, muito menos um monopólio brasileiro, mas aumenta a cada Copa do Mundo à medida em que cresce a quantidade de pessoas conectadas na internet por aqui. E considerando que são muitos os que ainda acreditam que a tela do celular ou do computador é uma garantia de anonimato e acham que o ambiente virtual é terra de ninguém, conseguimos mostrar ao mundo o que há de pior no ser humano em eventos como esse.

Parte dos perfis raivosos é de gente que posta conteúdo descontrolado e violento sobre política, como é possível verificar em uma rápida checagem. E há gente de todas as colorações ideológicas nessa lacuna de civilidade – apesar de ser possível constatar uma alta incidência entre os seguidores daquele político especializado em ódio.

Por mais que entendamos os processos que levam à desumanização do adversário ou mesmo os mecanismos que fazem com que pessoas pacatas se tornem monstros descontrolados quando em bando, não consigo deixar de considerar tosca uma pessoa que vai caçar outra nas redes sociais apenas para xingar por conta de um jogo de futebol. Porque, no fundo, não é o futebol o motivo da agressão. Há algo maior lá embaixo. O futebol é apenas o instrumento de descarga.

Poderíamos falar de nosso machismo, em que educamos meninos para se comportarem como monstrinhos. Ou da incapacidade de lidar com a falta de sentido ou de controle da própria vida, transferindo frustração do dia a dia para um ato de violência protegido pelo anonimato da manada. Ou ainda do isolamento digital, físico ou social que leva à desumanização e dificulta o reconhecimento da outra pessoa como detentor dos mesmos direitos.

O sujeito que usa da violência para espancar outros torcedores é incapaz de canalizar a energia para o que realmente afeta sua dignidade e se organizar, coletivamente, para resolver problemas. Preferem seguir ''líderes'' que propõem soluções fáceis e violentas para o vazio que ostentam no peito. Como as lideranças que prometem paz através da imposição do silêncio ao outro – seja esse outro o adversário que diz que seu time é o melhor, seja homossexuais, transexuais, mulheres, entre outros, que exigem ser tratados com os mesmos direitos. Temos visto isso por declarações de jogadores de futebol que dizem apoiar políticos violentos que prometem a imposição do silêncio se eleitos como presidentes.

Nesse contexto, há torcidas políticas que abandonam a razão muito antes que alguns torcedores de times de futebol. Pois apesar de muitos destes estarem envolvidos em atos de barbárie e selvageria, seus componentes não sabem quando o seu time dá vexame, protestam contra os dirigentes, vaiam a própria esquadra, reconhecem jogadas de craque do adversário. Mas não é assim com muita gente que se torna torcedora fanática na política e adota ares de seita fundamentalista religiosa, dividindo o mundo entre o divino e o satânico.

Claro que, em última instância, há também aqueles com sérios distúrbios psicológicos ou, mesmo, sociopatas que se escondem em grupos políticos ou torcidas de futebol para praticar seus delitos, sem senso moral ou responsabilidade, sem sentimento de culpa ou reflexão sobre as consequências. E estou excluindo desta discussão  aqueles que são pagos para tocar o terror e agredir fisicamente um grupo adversário. Esses, independentemente de sua coloração, entram na categoria de mercenários e deveriam ser analisados como tais.

Sabemos, é claro, que temos um déficit de formação para a cultura do debate e para a convivência com a diferença e que, infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites.

Parte dos brasileiros foi ensinado que a violência é o principal instrumento de resolução de conflitos. Por falta ou fraqueza de instituições públicas ou sociais confiáveis que assumam esse papel, por achar que alguns possuem mais direitos que outros por conta de dinheiro ou de músculos, por alguma patologia que nunca consegui entender muito bem.

Há uma minoria de violentos, como já disse aqui. Na política, no futebol, na religião. E que, portanto, deveria ser tratada ou expelida por seus companheiros políticos, suas torcidas, os outros fiéis. O problema é que o resto da sociedade, por cumplicidade ou indiferença, segue no papel de refém e espectadora de um show de horrores que parece não ter fim.


62% dos jovens querem ir embora. Até por que o Brasil deseja matá-los

Leonardo Sakamoto

Jovem de 17 anos, vítima de chacina, na Zona Leste de São Paulo em 2014. Foto: Avener Prado/Folhapress

Quando 62% dos jovens entre 16 e 24 anos de um país desejam mudar-se para outro lugar, pode-se dizer que o futuro desistiu.

Mas o futuro não desiste tão facilmente. Ainda mais por que estamos falando de jovens, o grupo social que alimenta a ideia de que o dia seguinte será melhor. Para chegar a essa situação, portanto, houve um esforço amplo e duradouro desse país.

O futuro desistiu do Brasil por que o Brasil desistiu do seu futuro muito antes.

E não se trata aqui apenas falhar na garantia de emprego decente e educação de qualidade. Mas no respeito à vida e na proteção nos níveis mais básicos da dignidade.

Pesquisa Datafolha, divulgada neste domingo (17), da qual esse número foi extraído, aponta também que quanto mais rica e escolarizada, mais a pessoa iria embora se pudesse.

Para os jovens, principalmente negros e pobres, migrar para fora do Brasil deveria ser uma garantia humanitária, uma vez que o seu próprio país não apenas deseja matá-lo, como efetivamente mata.

De acordo com o Atlas da Violência 2018, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, sobre dados do Ministério da Saúde, de 2006 a 2016, 324.967 jovens entre 15 e 29 anos morreram de forma violenta.

A taxa de homicídios nesse grupo (65,5 por 100 mil habitantes) é mais que o dobro da média nacional e seis vezes a média global. Considerando apenas jovens homens, ela sobe para 122,6/100 mil.

Nesse período de tempo, o número de homicídios de negros aumentou 23,1% e, do restante da população, caiu 6,8%. Em 2016, a taxa de homicídios de negros foi de 40,2 mortes para cada 100 mil habitantes, enquanto os demais grupos registraram 16 mortes para cada 100 mil.

Muitas dessas mortes ocorrem na forma de pacotes, em chacinas, nas periferias das grandes cidades brasileiras, seja pelas mãos do tráfico, de milícias ou de integrantes da própria polícia. Não raro, elas permanecem sem solução. Não é que a nossa sociedade não consegue apontar e condenar culpados. Ela não faz questão. Pelo contrário, não raro apoiam formas de ''limpeza social'' do que chamam de ''pessoal perigoso'', que ameaçam os ''cidadão de bem'' pagadores de impostos.

Somos um povo que, para construir um futuro melhor, vai matando seu próprio futuro. O mais triste é que, quando percebermos essa contradição, já será tarde demais.