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Sete maneiras de ser presidente e não se preocupar em dizer a verdade

Leonardo Sakamoto

18/12/2018 17h16

1) Desminta na cara dura, sem piscar. Não importa que algo foi dito por sua equipe, família, papagaio ou mesmo por você dias antes. Diga que a imprensa age com má vontade e que cria narrativas fantasiosas, fale de complôs. Em quem seu eleitor vai acreditar?  Numa reportagem com fatos e fontes que ele desconhece ou no seu tuíte, que foi compartilhado animadamente pela tia dele? Além disso, é bem possível que ele nunca venha a ler a reportagem, pois muitos fazem parte da imensa massa que não têm dinheiro para assinar um bom plano de internet. E, portanto, quando a franquia acaba, conseguem ver apenas mensagens e redes sociais, mas não visitar sites da imprensa.

2) Diante de uma emergência (seu motorista desaparecer, por exemplo), plante uma distração na esfera pública. Ela não pode ser muito exagerada (como alertar para um plano visando ao seu assassinato pelo seu próprio grupo político), sob o risco de ninguém levar muito a sério. Pode ser o anúncio de um decreto de revisão de uma terra indígena, por exemplo. Você sabe que o Supremo Tribunal Federal vai barrar lá na frente, mas, até lá, mídia e sociedade vão ter o bastante para se entreter. E ainda dá para ganhar, de lambuja, a gratidão de ruralistas e mineradoras e garantir que nem um centímetro mais seja demarcado em seu governo.

3) Coloque uns bodes na sala, daqueles bem catinguentos. Por exemplo, proponha algo bisonho, como sair de um acordo internacional para evitar mudanças climáticas. Deixe que uma parte do país te chame de burro e idiota para que a parcela de seus seguidores que não acreditam em ciência ou acham que Jesus volta antes da hecatombe, sintam-se ofendidos e saiam à luta para te defender. Depois, avalie. Se o caminho estiver livre, grite "America First!" e siga em frente. Caso contrário, se barreiras comerciais despontarem no horizonte, suavize a posição, mostrando que você é aberto ao diálogo, ganhando elogios de uma parcela dos que antes te criticavam, como os ambientalistas.

4) Finque não um, mas vários espantalhos nas redes sociais e atribua a eles a gênese de todas as tragédias e dores do país. Depois, com a ajuda de fazendas de perfis, espalhe o seu discurso. Cuba, Venezuela e "ideologia de gênero" funcionam bem, mas nada se compara ao PT. Sempre que for questionado sobre políticas em áreas como previdência, tributos, segurança pública e saúde, acuse o espantalho de alguma coisa passada, presente ou futura. Essa tática é mais popular que o samba, o brega e o sertanejo universitário juntos e é reproduzida milhões de vezes por hora nas redes sociais de todo o país sob o formato do comentário trava-debate "E o Lula, que tá preso?"

5) Diga que tudo o que veio antes era "ideológico". E, com a autoridade de quem critica a ideologia, multiplique por dez o nível da orientação ideológica anterior e diga que, agora, a abordagem é "pragmática" e "técnica" – por mais ideológica que seja.

6) Peça para alguém de sua confiança trazer alguma proposta bem chocante, como, por exemplo, a pena de morte. Deixe fermentar até que ela se transforme em pauta ou, melhor, Trending Topic. Depois, dê uma declaração dizendo que não autorizou tal comentário e que sua posição sempre foi outra. A rede de seus seguidores fica mais confiante ainda que escolheu o herói certo. Os indecisos passam a te ver como alguém sensato e que põe ordem na própria casa. E a imprensa e a oposição vão gastar muito tempo criticando a situação e se defendendo de ataques. Com isso, sobra pouco espaço para discutir temas como o tal motorista desaparecido.

7) Propague que os jornalistas são os maiores inimigos do povo, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil. Engane dizendo que comunicação via redes sociais é mais honesta por que não tem a intermediação da imprensa, mesmo que isso signifique também a perda de um ator que, com todos os seus muitos defeitos, ajuda a contextualizar, interpretar e fiscalizar o comportamento de quem ocupa o poder. Não precisa ameaçar diretamente o mensageiro: basta falar mal dele o tempo inteiro, vinculando-o ao Mal. Em algum momento, alguém fará o serviço sujo, achando que está purificando o país. Afinal, contar uma grande mentira não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona. 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.