Blog do Sakamoto

Há uma coisa de Trump em Temer: A mentira como instrumento para governar

Leonardo Sakamoto

Michel Temer em jantar Donald Trump, em Nova York. Foto: Beto Barata/PR

Há uma coisa de Trump em Temer. Não é uma questão física, Trump tem cabelos alaranjados e Temer conta com mãos que fazem gestos indecifráveis em discursos. Também não são iguais na capacidade de expressão – independentemente do conteúdo, antes de presidente, o bilionário americano já é um comunicador. Já o povão não entende o que o brasileiro fala. Muito menos a razão de ainda estar lá.

Mas diante da popularidade decrescente, a impressão é de que Temer foi abandonando a preocupação em expor fatos e números comprováveis em seus pronunciamentos, apresentando no lugar elementos que estariam melhor em um conto de fadas. Nesse sentido, ambos usam e abusam de ''fatos alternativos'', expressão consagrada por Kellyanne Conway, assessora do presidente norte-americano, para rebatizar uma ''mentira'' divulgada por seu governo. Não importa o que os cinco sentidos apontam, mas se as evidências não se encaixam no discurso vendido pelo poder, a realidade é que está errada.

Após o dicionário Oxford eleger ''pós-verdade'' (que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais) como a palavra do ano de 2016, ela virou vedete. Mas, por mais gasta que esteja, cabe bem aqui na discussão. Pois, na internet, ''verdade'' é tudo aquilo com a qual acreditamos e ''mentira'' é tudo aquilo com a qual discordamos. Para alguns políticos, essa regra é usada de forma estratégica para conquistar corações e mentes, travar uma guerra simbólica com a imprensa e a oposição e/ou se manter no poder.

Temer não tem acesso a um botão de lançamento de mísseis nucleares e seus discursos não impactam nem a economia, ficando restritos ao anedotário popular brasileiro, enquanto Trump brinca de fazer guerra para aumentar sua popularidade e passa a mão na cabeça de grupos neonazistas, que sentem-se à vontade para espalhar sua ideologia violenta pelos Estados Unidos e o mundo.

Mas por mais que Trump seja um perigo para a integridade simbólica e física do mundo, a escolha de sua agenda de governo foi decidida pelo voto. E os Estados Unidos contam com um sistema de freios e contrapesos mais robusto que o nosso, tanto que Trump conseguiu ainda derrubar integralmente o projeto de saúde implementado por seu antecessor, apelidado de Obamacare.

Já a agenda adotada por Temer, não. Como ela passa pela perda de proteção à população mais vulnerável, pela diminuição da qualidade de vida dos trabalhadores, por ataques à dignidade de povos tradicionais e uma banana ao meio ambiente, nunca seria aprovada pelo voto popular. Pelo contrário, teve que ser definida a portas fechadas por parte do poder econômico e da velha política. E, por aqui, as relações entre os Poderes Executivo e Legislativo – com louváveis exceções – têm sido bem azeitadas pela fisiologia.

Trump não se importa em mentir descaradamente e acusar quem desmascara suas mentiras de estar espalhando notícias falsas. Segundo o instituto Gallup, ele contava com 37% de aprovação após os setes primeiros meses de seu governo.

Antes, quando confrontado com críticas, Temer buscava, ao menos, dar uma nova justificativa para a presepada que estava fazendo. Agora, diante das pesquisas que mostram de 3% a 5% de aprovação, seu governo adotou o ''foda-se'' como política. Afinal, ele não precisa, como Trump, tentar agradar uma fatia maior do eleitorado. Sabe que não será reeleito e, ao final de seu mandato, pode ser processado por corrupção. Por isso, se esforça em manter a simpatia do grande empresariado e da maioria do Congresso Nacional para chegar até janeiro de 2019.

Hoje, com mais desenvoltura, Temer diz que a imagem de um cavalo é, na verdade, uma capivara. E fica por isso mesmo. Não, ele não está discutindo a relação entre o objeto e sua representação, tal propôs René Magritte com o famoso quadro ''Ceci n'est pas une pipe'' (Isto não é um cachimbo). Ele está dissociando o objeto de sua representação largamente aceita, propondo uma nova, de acordo com seus interesses.

Ao contrário de Trump, seu discurso não vai alimentar simbolicamente um grupo numeroso que o sustenta e nele votou. Temer sabe que poucos o levam a sério, então para que se preocupar? É escrever um discurso protocolar de um Brasil que não existe, porque a negação disso poderia facilitar a sua queda, e correr para o abraço.

O discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas foi um exemplo. Temer soltou um pacote de mentiras e imprecisões sobre a situação econômica do país, as condições sociais e a proteção ao meio ambiente. Se alguma nação estrangeira estivesse prestando atenção no que ele falava ou se o discurso repercutisse para além do nosso país, seria um problema. Mas quem estava no plenário esperava ansiosamente o discurso do orador seguinte, exatamente Donald Trump. E torcia para que Temer terminasse rapidamente o seu.

Nesta sexta, Temer divulgou, nas redes sociais, um novo pronunciamento para se defender da segunda denúncia contra ele a ser analisada pelo plenário da Câmara dos Deputados. Desta vez, os parlamentares devem ser ''recompensados'' por negar a admissibilidade do processo por obstrução de Justiça e organização criminosa. O pronunciamento é repleto de cinismo, chegando ao ponto de reclamar de ''conspiração''. Logo ele, que conspirou a céu aberto pelo impeachment de sua antecessora.

A lista é longa. Em agosto, por conta de sua viagem à China, Temer afirmou à TV estatal chinesa que a Reforma Trabalhista ''está fazendo um sucesso extraordinário [no Brasil] porque flexibiliza as relações trabalhistas''. Ele poderia dizer que a aprovação da reforma atende a uma antiga reivindicação dos empresários, causará impactos negativos à saúde e segurança dos trabalhadores, mas que espera que isso seja traduzido em empregos, mesmo que de mais baixa qualidade.

Mas preferiu novamente flanar fora da realidade, esquecendo que o país é um pacote plural de 207 milhões de almas – das quais dezenas de milhões estão comendo o pão que o diabo amassou e serão afetadas profundamente pela Reforma Trabalhista. Enquanto apenas algumas milhares perfazem o perfil de empresário para o qual ele gosta de falar e prestar contas em eventos corporativos.

Temer não é o único, nem quem melhor imita Donald Trump. O prefeito de São Paulo, João Doria, por exemplo, espelha-se no presidente tuiteiro norte-americano. A violência com a qual contesta posicionamentos trazidos pela imprensa tem sido o sinal para acionar milícias digitais que o seguem nas redes sociais e atacam repórteres de veículos de comunicação, como a CBN e a Folha de S.Paulo, quando há reportagens com denúncias que podem constranger o alcaide paulistano e pré-candidato à Presidência da República.

Quando a classe política, de qualquer espectro ideológico, ignora evidências e bate na imprensa ou na sociedade, dizendo que elas apresentam ''fatos alternativos'' ou quando essa classe política resolve ela mesma, ignorar evidências, e propor esses ''fatos alternativos'', começamos a brincar um jogo perigoso.

Verdades absolutas não existem, elas são construções a partir da reunião de versões. Mas se dados e informações são inúteis para a construção da narrativa de nosso tempo, se ignoramos elementos que podem ser imagens de uma cerimônia de posse ou documentos, depoimentos, gravações e delações (comprovadas) para formar nossa convicção, se o discurso não precisa de mais nada além dele mesmo para se referendar, temos – entre outros problemas – o desabamento do controle social da política e, por conseguinte, a derrocada das instituições.

Com políticos produzindo e circulando conteúdo em redes sociais a fim de reforçarem suas próprias narrativas sem a mediação crítica de ninguém e com esse conteúdo modelado reforçando visões de mundo do público-alvo, assistimos à formação de grupos cada vez mais refratários a pensar que o mundo não se resume ao maniqueísmo do bem contra o mal. Sendo que ele é o bem e o outros são o mal.

Espero que possamos nos dar conta disso e organizar juntos uma resposta antes que seja tarde demais.


Legalização das drogas: Ignorar esse debate mata pobres e policiais no Rio

Leonardo Sakamoto

Moradoras da Rocinha se refugiam em passarela durante tiroteio. Foto: Gabriel Paiva/Agência O Globo

''Pezão é um ex-governador em exercício.'' A declaração do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), dada a este blog, ajuda a explicar a sensação de caos na segurança pública do Rio de Janeiro. Pois ao tentar culpar a crise econômica pela qual o Estado passa – que atrasa salários, reduz investimentos e limita gastos públicos – o poder público carioca quer fazer crer o problema é recente e conjuntural, tentando se eximir de responsabilidade.

''É um momento difícil da economia. Estamos vivendo a maior crise brasileira. Estamos pagando o preço por esse decréscimo'', disse Pezão em entrevista à GloboNews.

Estamos pagando sim o preço de uma falência institucional pela qual o grupo ao qual o governador pertence tem grande responsabilidade. Do ponto de vista econômico, através da adoção de medidas de desoneração e subsídios em benefício de empresas que ajudaram a quebrar o Estado. Isso sem contar a corrupção, que já levou o seu antecessor, Sérgio Cabral, a ser condenado a 45 anos de prisão.

Um governo estadual sem aprovação e sem legitimidade dá lugar a um vazio. Contudo, poder não admite vácuo, que é rapidamente preenchido por outras forças – sejam elas policiais, criminosas, milicianas. Daí, sem controle, o Rio se aprofunda no caos.

Mas também pagando um preço por conta da manutenção de uma política falida de ''guerra às drogas'', mantida por sucessivos governos, inclusive o atual.

Em nome de combater o comércio ilegal de psicoativos, estabeleceu-se as bases para a violência armada organizada na capital carioca – que não serão alteradas até que mude a própria política para drogas.

As maiores batalhas do tráfico sempre acontecem longe dos olhos da classe média e alta, uma vez que a imensa maioria dos corpos contabilizados é de jovens, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas, pelas leis do tráfico e pelas mãos da polícia e das milícias. Os mais ricos sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que os mais pobres são obrigados a viver no dia a dia.

Não percebemos isso com frequência porque boa parte das TVs registram com mais facilidade o fechamento de escolas das classes alta e média alta quando a violência desce o morro ou transborda da periferia do que as portas de escolas públicas constantemente fechadas por conta da violência em comunidades pobres. Considerando que policiais, comunidade e traficantes são de uma mesma origem social e, não raro, da mesma cor de pele, é uma batalha interna. E muita gente torce não para resolver o problema em definitivo, mas para que os conflitos voltem a ser contidos naquele território, gerando falsa sensação de segurança na parte ''civilizada'' da cidade.

A forma como o tráfico se organizou e a política adotada pelo poder público para combatê-lo estão entre as principais razões desse conflito armado organizado. Sim, o combate ao tráfico gera mais mortos que o consumo de drogas – até porque a droga que, estatisticamente, mais mata e provoca mortes se chama álcool. Você pode comprá-la no supermercado ou ver sua propaganda na TV. Mas ela não é proibida, apenas regulada. Tal como o tabaco.

Toda a expansão de mercado é conflituosa. Em uma sociedade que funciona dentro das normas legais, apela-se à Justiça para decidir quem tem razão em uma disputa. Mas quando se vive em um sistema ilegal, condenado pela própria Justiça, a solução é ter o maior poder bélico possível para fazer valer o seu ponto de vista sobre os demais, sobre a polícia, sobre os moradores de determinada comunidade.

Policiais honestos são vítimas dessa situação, em detrimento aos que não seguem as regras e os que criam milícias. Foram 102 assassinados neste ano, o dobro de anos anteriores – o que já era um número absurdamente alto e inaceitável. A verdade é que normalizamos o absurdo e vamos seguindo enxugando gelo. A maioria das mortes não são de agentes de segurança em serviço. Eles morrem porque são descobertos com armas ou identidade policial em assaltos, mas tudo começa porque são vítimas de assaltos no bairro pobre onde mora. Como a maioria da população.

Ao mesmo tempo, segue o genocídio de jovens negros e pobres nas periferias.

Não há saída para a violência armada organizada no Rio de Janeiro que não passe pela discussão da legalização das drogas. Outros países têm feito esse debate como uma das soluções para reduzir a disputa armada por territórios. Sabem que a ''guerra às drogas'' falhou, servindo apenas para controle político e para fortalecer grupos de poder locais e o tráfico de armas. Por aqui, infelizmente, ainda se discute qual o tamanho do porte de maconha que pode dar cadeia.

Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, na última terça (19), o presidente da Colômbia Juan Manuel Santos criticou a ''guerra às drogas'' e defendeu que são necessários outros enfoques e novas estratégias. ''É preciso entender o consumo de drogas como um assunto de saúde pública e não de política criminal'', disse.

Foi uma resposta ao presidente norte-americano Donald Trump, que demandou que a Colômbia aumentasse o combate à produção e ao comércio de cocaína. Santos lembrou que, enquanto houver consumo, haverá oferta e pediu aos outros chefes de Estado que conhecessem as experiências de regulação da produção, comércio e uso de drogas que estão sendo implementadas ao redor do mundo.

''A guerra contra o narcotráfico ceifou muitas vidas, e, na Colômbia, estamos pagando um preço muito alto, talvez o mais alto entre as nações, e o que estamos vendo é que o remédio está sendo pior que a doença'', afirmou o presidente colombiano, um dos responsáveis pelo acordo de paz que pôs fim à guerra contras as Farc.

Isso cai como uma luva para o Brasil e o Rio de Janeiro de hoje: o remédio está sendo pior que a doença. No intuito de combater o tráfico, estamos matando milhares de pessoas todos os anos – a maioria, moradoras de áreas pobres, policiais ou traficantes. Ou seja, gente considerada dispensável. E, ao mesmo tempo, vamos mantendo a indústria do medo em curso e promovendo o controle de determinadas classes sociais através da justificativa de conter a violência. Tudo isso é muito mais danoso à sociedade do que a liberação controlada e regulamentada de drogas.

Se o Rio de Janeiro e o Brasil tivessem governos, neste momento eles deveriam ir às comunidades mais pobres participar dos debates que vêm sendo puxados por elas, sobre as soluções para a violência na disputa de territórios controlados pelo crime organizado. E assumir um planejamento legal e de saúde pública para a legalização e a regulamentação das drogas, desidratando o tráfico de drogas e o tráfico de armas através do fim de seu mercado ilegal.

Isso se o Rio e o Brasil tivessem governos, claro.


Temer reclamar de conspiração é surreal demais até mesmo para o Brasil

Leonardo Sakamoto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Michel Temer provou, mais uma vez, que o poço não tem fundo. Em pronunciamento divulgado pelas redes sociais, nesta sexta (22), ele mostrou que, lá embaixo, há sempre um alçapão.

''Sabe-se que, contra mim, armou-se conspiração de múltiplos propósitos. Conspiraram para deixar impunes os maiores criminosos confessos do Brasil, finalmente presos, porque sempre apontamos seus inúmeros delitos'', disse ele.

Os controladores da JBS grampearam Temer e parte da elite política para entregá-los de bandeja a Rodrigo Janot e se safarem de punição por corrupção. Ao que tudo indica, Joesley Batista tentou manipular esse processo para evitar que fosse punido e, agora, está preso. Isso não apaga o que foi constatado. E nem dá a Temer o direito de reclamar de conspiração, uma vez que ele fez isso a céu aberto pela queda de sua antecessora.

Não importa se você considera que houve impeachment legal, golpe parlamentar ou sucrilhos com banana contra Dilma Rousseff. Há de convir que Temer não teve um comportamento como o de Itamar Franco diante da queda de Fernando Collor. Pelo contrário, vendeu-se como o único capaz de tirar o país da crise e aplicar as reformar liberalizantes desejadas pelo poder econômico, enquanto prometia salvar políticos que eram alvos da Lava Jato e ajudar a aprofundar o Congresso Nacional como um balcão de negócios.

O pronunciamento desta sexta teve o objetivo de convencer a população de que a segunda denúncia contra ele (promovida pela Procuradoria Geral da República e enviada à Câmara para ser admitida ou rejeitada para análise no Supremo Tribunal Federal) quer incrimina-lo injustamente. Na verdade, ficou parecendo um grande escárnio.

Quando Temer diz que ''só regimes de exceção aceitaram acusações sem provas, movidos por preconceito, ódio, rancor ou interesses escusos'' e depois completa com ''lamento dizer que, hoje, o Brasil pode estar trilhando este caminho'' parece querer ignorar como foi o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Claro que ela tem parte parcela considerável de responsabilidade em nossa atual crise econômica devido às suas decisões equivocadas. Mas sempre defendi que uma cassação de mandato deveria vir de onde havia fartos elementos, como a utilização de caixa 2 nas eleições presidenciais de 2014. Apeá-la de um mandato alcançado democraticamente por conta da emissão de créditos suplementares/pedaladas fiscais foi uma forçação de barra. Instituições foram esgarçadas para que o impeachment coubesse nas necessidades do poder econômico e da velha política. Agora, pagamos todos o preço do esgarçamento de leis e regras e o consequente ''foda-se'' a tudo aquilo que nos une como um país.

Lembrando também que uma característica de ''regimes de exceção'' é militares de alta patente ameaçarem a democracia e os governantes civis abaixarem a cabeça com medo porque sabem que, em uma disputa direta, seriam decapitados.  Como ocorreu recentemente no Brasil.

Temer também afirmou que ''a única vacina contra essa marcha da insensatez é a verdade''. E prosseguiu: ''A verdade é a única arma que tenho para me defender desde o início deste processo de denúncias e que busca desestabilizar meu governo e paralisar o avanço do Brasil.''

Se Temer contasse toda a verdade que sabe sobre os podres de seu partido e aliados atuais e passados, a República cairia duas vezes e prenderiam todos os que trabalharam com ele. Eu já sugeri, neste blog, isso mais de uma vez – ''Delata, Temer, delata!'' – como forma de garantir que sua biografia ainda saia por cima dessa zorra toda. Mas ele não me ouve.

Não satisfeito, Michel Temer não apenas nos tortura ao lembrar que seu mandato termina apenas em janeiro de 2019, mas também ''ameaçou'' os trabalhadores e as populações mais vulneráveis (que são os que mais vão sofrer com as mudanças e reformas que vêm sendo promovidas por ele): ''Farei muito mais até janeiro de 2019''. Mais? Já não bastou a PEC do Teto dos Gastos (que limita por 20 anos investimentos públicos em áreas como educação, saúde, ciência, entre outras) e a Lei da Terceirização Ampla e a Reforma Trabalhista, precarizando condições de saúde e segurança do trabalhador? Sim, mais. A capivara é longa e pode ficar ainda mais.

Ele estava insaciável hoje. Também disse: ''A verdade prevaleceu ante o primeiro ataque a meu governo e a mim''. Tradução: ''Comprei os votos necessários para livrar meu pescoço. Não entreguei tudo ainda aos deputados, mas cumprirei com minha palavra''.

E mais: ''Tenho convicção de que os parlamentares submeterão essa última denúncia aos critérios técnicos e legais, e à verdade dos fatos. Uma análise crítica e desapaixonada provará os abusos dos que conspiraram contra a Presidência da República e o Brasil''. Ou seja: ''Não tem mais tanto dinheiro para liberação de emendas e cargos, mas posso prometer apoio do governo a perdões bilionários de dívidas de parlamentares e de seus patrocinadores. Ou ajuda na aprovação de leis que facilitam a vida dos ricos e empresários, atrapalhando ainda mais a xepa pobre''.

Gostaria de voltar, porém, a um trecho, já citado. Nele, há duplo sentido e, quem sabe, uma sinceridade envergonhada ou uma vontade de reconhecer seus erros ao mundo: ''Conspiraram para deixar impunes os maiores criminosos confessos do Brasil, finalmente presos''.

Pode-se interpretar esse trecho como a prisão dos controladores da JBS. Mas gostaria de acreditar que ele estava falando de Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha, entre outros do que batizado de o ''Quadrilhão do PMDB'', finalmente presos.

O mais interessante é que, quando a discussão sobre a viabilidade ou constitucionalidade de nova eleições presidenciais foi feita por setores da sociedade, incluindo grupos pró e anti impeachment, como uma forma de termos um governo tampão a legitimidade de uma agenda aprovada pelo voto popular, Michel Temer chamou isso de golpe. Independentemente se você concorda ou não com novas eleições, vai perceber o quanto soa como surreal diante de tudo.

Eu gosto de cinismo. Mas ele é feito sal.

Usado com comedimento, ajuda a temperar a vida.

Em demasia, estraga tudo.

E uma overdose dele pode nos matar.

Já que Temer não quer sair, poderia se controlar e evitar tripudiar a nação, assim dessa forma. Ou, em outras palavras: não esculacha.


“Do que pessoas estão morrendo no Rio? De overdose ou de tiro?”

Leonardo Sakamoto

Moradoras da Rocinha se protegem de de tiroteio. Foto: Gabriel Paiva/Agência O Globo

''Do que as pessoas estão morrendo no Rio de Janeiro? De overdose ou de tiro? É de tiro. As pessoas estão morrendo pela lógica da 'guerra às drogas', onde há os territórios do tráfico, os 'matáveis', os 'sobrantes'. A PM é uma 'sobrante' dessa sociedade. É descartável tanto quanto o jovem negro. Essa guerra é insana. Um fardado mata dez esfarrapados, um esfarrapado mata um soldado. Quem é o vencedor dessa guerra? Não tem.''

A declaração é do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que conversou com a TV UOL sobre o caos na segurança pública em que o Rio está mergulhado. Segundo ele, a situação atual não é fruto apenas  da grave crise econômica pela qual o Estado passa, mas também de políticas que sempre beneficiaram uma parcela pequena de ''cidadãos'' de áreas mais nobres – deixando para morrer uma legião de moradores de áreas pobres, policiais e bandidos.

Por conta de conflitos relacionados à disputa de territórios do tráfico de drogas, a comunidade da Rocinha, na capital carioca, vive seu quinto dia de confrontos envolvendo criminosos e policiais. Diante dos tiroteios, alunos foram dispensados das aulas. O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) pediu ajuda às Forças Armadas para o cerco policial.

Para Freixo, que faz parte da bancada de oposição na Assembleia Legislativa, a tendência é de piora do quadro, pois o Rio de Janeiro estaria sem governo. Segundo ele, Luiz Fernando Pezão ''é um ex-governador em exercício''. O deputado do PSOL defende que os moradores das comunidades e policiais sejam chamados para debater a crise de segurança e que sejam evitadas saídas impostas de cima para baixo.

''O debate de segurança pública passa por discutir para quem a cidade vai funcionar, com quem a cidade vai funcionar e pela radicalização de um processo de democracia. Precisa-se discutir com as favelas e elas já estão se organizando para isso. Chega desse processo 'civilizatório', colonizador e catequizador chegando nessas áreas e dizendo o que vai acontecer.''

Uma política de segurança pública, segundo ele, deve avançar no debate sobre a legalização das drogas, o que – claro – não deve ocorrer de forma imediata e local. Mas ainda assim seria um ponto decisivo para combater a existência dos territórios dos ''matáveis'', em que impera uma lógica de disputa, nos quais a maioria dos mortos é pobre jovem negro e policial.

Outros países têm discutido a legalização como uma das soluções para reduzir essa disputa armada por territórios. Sabem que a ''guerra às drogas'' falhou, servindo apenas para controle político e para fortalecer grupos de poder locais e o tráfico de armas. Por aqui, a Justiça ainda discute qual o tamanho do porte de maconha que pode dar cadeia. Drogas matam. Mas os óbitos por overdose ou em decorrência de crimes cometidos sob a influência de entorpecentes ilegais são a minoria dos casos. Registros policiais mostram que há mais homicídios relacionados ao consumo excessivo de álcool – que é uma droga permitida por lei e estimulada pela TV – do que a qualquer outra.

As maiores batalhas do tráfico sempre acontecem longe dos olhos da classe média e alta, uma vez que a imensa maioria dos corpos contabilizados é desses jovens, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas, pelas leis do tráfico e pelas mãos da polícia e das milícias. Os mais ricos sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que os mais pobres são obrigados a viver no dia a dia. Considerando que policiais, comunidade e traficantes são de uma mesma origem social e, não raro, da mesma cor de pele, é uma batalha interna.

A forma como o tráfico se organizou e a política adotada pelo poder público para combatê-lo estão entre as principais razões desse conflito armado organizado. Toda a expansão de mercado é conflituosa, mas em uma sociedade que funciona dentro das normas legais, apela-se à Justiça para decidir quem tem razão na disputa. Mas quando se vive em um sistema ilegal, condenado pela própria Justiça, a solução é ter o maior poder bélico possível para fazer valer o seu ponto de vista sobre os demais, sobre a polícia, sobre os moradores de determinada comunidade.

Policiais honestos são vítimas dessa situação, em detrimento aos que não seguem as regras e os que criam milícias. Neste ano, foram 102 assassinados. Ao mesmo tempo, segue o genocídio de jovens negros e pobres nas periferias. Para Freixo, os números altos de homicídios de policiais não são em locais como Leblon, Ipanema, Gávea e Jardim Botânico, mas nas grandes favelas, na Zona Norte e na Baixada Fluminense. A maioria das mortes não são de agentes de segurança em serviço. ''Ele morre porque é policial, mas tudo começa quando ele é assaltado, como tantos outros naquelas regiões estão sendo assaltados. Há um problema da segurança pública que você não resolve com a lógica da guerra.''

''As armas são de guerra, o número de mortos é de guerra, as cenas são de guerra. Mas a lógica da guerra não é feita pela imagem da guerra'', afirma o deputado estadual. Para ele, a lógica da guerra pressupõe um grupo que está disputando um poder e guerreia para tomar o poder. ''Não há uma guerra civil no Rio, como existem em diversos países. O crime mais organizado do Rio de Janeiro não disputa o poder, ele já está no poder. O crime organizado é o PMDB e ele já está no poder.''

''Nós não podemos achar que a solução para a segurança pública de uma cidade é eliminar o inimigo. Há um processo da criminalização da pobreza, das favelas, das periferias, de onde vem os próprios policiais. E o resultado é que você tem é a polícia que mais mata e a que mais morre. Homens de preto, matando homens pretos, quase todos pretos'', conclui.

Veja a íntegra da entrevista:


Temer é refém de sua conspiração. E trouxe a gente para o cativeiro com ele

Leonardo Sakamoto

Eliseu Padilha, Romero Jucá, Geddel Vieira Lima, Michel Temer, Henrique Eduardo Alves e Moreira Franco. Arte UOL

O Supremo Tribunal Federal não teve dó ou piedade do bolso e da dignidade dos brasileiros e encaminhou, nesta quinta (21), a segunda denúncia contra Michel Temer para que a Câmara dos Deputados decida se ele pode ser processado pelos crimes de organização criminosa e obstrução de Justiça e, com isso, acabar afastado do cargo.

Considerando que ele usará todos os recursos que têm à mão para ''convencer'' quem for preciso de que seus 3% de aprovação são os que o Brasil precisa agora, deve permanecer onde está.

Michel Temer é um mandatário que pediu para ser sequestrado. Para falar a verdade, ele lutou bravamente a fim de que fosse posto em cativeiro. Apesar de não ter condições éticas para assumir a Presidência da República, conspirou a céu aberto para derrubar sua antecessora – que era tão boa em fazer política quanto em produzir discursos de improviso. E, pior: prometeu a diferentes grupos de atores que seria um refém bem bonzinho e prestativo.

O único ponto é que alguns de seu grupo, ao que tudo indica, continuariam fazendo uma poupança enquanto estivessem no poder. Temos 51 milhões de razões para crer que Geddel, por exemplo, fazia isso. Pois, como todos sabem, o cativeiro não é para sempre.

Temer recebeu a incumbência de servir aos interesses de parte dos grandes empresários, do mercado financeiro e da elite brasileira, garantindo que a conta para sair da crise fosse paga prioritariamente pelos mais pobres, mantendo intactos os privilégios dos mais ricos. Por exemplo, mantendo a carga tributária menor para quem ganha muito. Isso sem contar os perdões bilionários de dívidas previdenciárias e fiscais concedidas e prometidas a empresários, enquanto os trabalhadores são instados a pagar sozinhos o Pato pela falta de recursos na Previdência.

Quando esses empresários, que detém uma chave do cativeiro, olham atravessado para Temer, lá aparece ele, o supremo mandatário, pedindo a benção deles de joelhos em eventos corporativos na capital paulista.

Mas também segue sequestrado pela velha política no Congresso Nacional, que possui a outra chave. Deputados federais, que sabem que o governo não vale uma nota de três reais, aceitam vender, trocar e financiar seus votos pela sobrevivência política de Temer e a de seu bando. Que vai se tornando menor a cada dia uma vez que os membros seguem indo para a cadeia – Henrique Eduardo Alves, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima…

Da mesma forma como foi com a primeira denúncia feita pela Procuradoria Geral da República, nesta o Palácio do Planalto também deve desembolsar emendas e cargos e, principalmente, apoio à aprovação de projetos de lei e perdões de dívidas para que Temer continue podendo ir à Assembleia Geral das Nações Unidas contar mentiras sobre o país (ainda bem que, lá fora, ninguém levou ele muito a sério mesmo).

Outros setores também ajudam a manter Temer sequestrado. Ele é, por exemplo, refém de parte dos militares – pelo menos o grupo que faltou às aulas de democracia no fim da ditadura ou tem saudades da época em que o pau-de-arara construía verdades nos porões de quartéis e delegacias. Basta os militares darem uma tossidinha que o governo volta atras e retira essa categoria de projetos de taxação ou reforma. E quando um general fala tamanha aberração, como a história da ''intervenção militar'', Temer tem tanto medo que permanece em silêncio. Sabe que está sequestrado e acha que, se reclamar, podem lhe cortar a cabeça. Capaz até dele desenvolver uma Síndrome de Estocolmo com os militares.

Quem acompanha o dia a dia do Congresso Nacional e do Poder Executivo sabe que vivemos um 7 a 1 por dia, com a vida de trabalhadores e grupos vulneráveis virando geleia. Há uma completa inversão de prioridades, como a falta de dinheiro para gasolina de carro de fiscais que tiram crianças do trabalho infantil. Ou seja, desapareceu o mínimo civilizatório.

Temer poderia se libertar do cativeiro que criou para si mesmo e, consequentemente, para todos nós – um pesadelo que parece nunca acabar. É só renunciar.

Nem acho que ele iria para a cadeia caso os indícios contra ele fossem investigados e confirmados em um processo correndo já sem o mandato presidencial. Primeiro, pois levaria um tempão até que todo o trâmite dos recursos transitasse em segunda instância. Ele, que faz 77 anos neste sábado, já teria uma idade mais avançada quando as condenações saíssem, o que iria pesar na decisão da Justiça de um condicional por fatores humanitários, por exemplo. Até imagino que, em seu íntimo, em algum momento ele deve ter pensado: ok, chega, tá ficando feio. O problema é que seus amigos Eliseu Padilha e Moreira Alves não teriam tanta sorte.

Portanto, as coisas não devem mudar. Mas estou realmente cansado de pagar, diariamente, resgate por alguém que a maioria dos brasileiros vê com desgosto. Alguém que enche a bola de seus parceiros sequestradores, grupos que têm compromisso apenas com sua visão estreita de Brasil.


Gilmar Mendes age como hater de rede social para ironizar o Estado laico

Leonardo Sakamoto

Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

O Supremo Tribunal Federal está analisando se o ensino religioso pode ser ou não confessional nas escolas públicas, ou seja: ele deve contemplar a história e a filosofia de diferentes religiões ou pode adotar uma crença em particular? O Ministério Público Federal defende que essa disciplina, de matrícula já opcional, não tome partido de nenhuma religião, mas há o risco das coisas não serem bem assim daqui para frente.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação proíbe a doutrinação de uma religião, mas um acordo entre o Brasil e o Vaticano proíbe discriminação de crença. O STF analisa essa questão sob a Constituição Federal, o que pode levar à crença a ser ensinada em escolas públicas de ensino fundamental.

A discussão foi interrompida quando estava 5 a 3 a favor de que as aulas possam seguir os ensinamentos de uma religião específica. A votação deve ser retomada na próxima semana. O que chamou atenção, especialmente, foi a participação de Gilmar Mendes. Ao votar a favor do ensino confessional, o ministro ironizou o Estado laico de uma forma bem tosca.

''Aqui me ocorre uma dúvida interessante: será que precisaremos em algum momento chegar ao ponto de discutir a retirada da estátua do Cristo Redentor do Morro do Corcovado, por simbolizar a influência cristã em nosso país?''

E foi além: ''Ou a extinção do feriado nacional da padroeira Nossa Senhora Aparecida? A alteração do nome dos Estados? São Paulo passaria a se chamar Paulo? Santa Catarina passaria a se chamar Catarina? Espírito Santo poderia se pensar em Espírito de Porco ou qualquer outra coisa''.

Segundo ele, símbolos cristãos do Brasil poderão ser extintos em consequência da discussão dessa ação no STF.

Esse tipo de argumento é sistematicamente usado em conversas de botequim ou por enxames de haters na internet quando o assunto é o Estado laico. Estranho, portanto, ouvir isso de alguém que tem assento no Supremo Tribunal Federal e, por conhecer História e Filosofia, não deveria usar argumentos pobres como esses nem por brincadeira. Ou não.

De tanto assistir às sessões do Supremo Tribunal Federal, creio que seria capaz de fazer uma maquete do plenário de memória. E um dos elementos que mais chama a atenção é um impávido crucifixo que ornamenta o plenário do Supremo, lembrando que já passamos da hora de retirar adornos e referência religiosas de edifícios públicos, como o STF e o Congresso Nacional.

A França retirou os símbolos religiosos de sedes de governos, tribunais e escolas públicas no final do século 19. Nossa primeira Constituição republicana já contemplava a separação entre Estado e Igreja, mas estamos mais de 120 anos atrasados em cumprir a promessas dos legisladores de então.

Não é porque o país tem uma maioria de católicos que outras religiões cristãs que não concordam com um símbolo do Cristo crucificado, mas também espíritas, judeus, budistas, muçulmanos, ateus, religiões de matriz africana, enfim, minorias, precisem aceitar essa imagem em um espaço de Estado.

Isso não é uma questão artística, estética ou um registro histórico. Não é uma estátua ornando um local público. É uma re-par-ti-ção pública! As denominações cristãs são parte interessada em polêmicas judiciais, como pesquisas com célula-tronco ao direito ou a extensão do direito ao aborto. Se esses elementos estão presentes nos locais onde são tomadas as decisões, como afirmar que elas serão isentas? Talvez a maior prova disso é o próprio voto de Gilmar Mendes, mesmo que ele não perceba isso.

O Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos, tenham seus templos, igrejas e terreiros e ostentem seus símbolos. Mas não pode se envolver, positiva ou negativamente, para promover nenhuma delas.

O Ministério Público do Piauí pediu, em 2009, a retirada de símbolos religiosos dos prédios públicos. O presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro mandou recolher os crucifixos que adornavam o prédio e converteu a capela católica em local de culto ecumênico. Algumas dessas ações têm vida curta, outra nem são atendidas, mas o que importa é que percebe-se um processo em defesa de um Estado que proteja e acolha todas as religiões, mas não seja atrelado a nenhuma delas.

A Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão de São Paulo pediu, em 2012, que a Justiça Federal determinasse que as novas notas de reais a serem impressas viessem sem a expressão ''Deus seja louvado''. Não foi atendida, infelizmente.

De acordo com o Ministério Público Federal, o Banco Central (responsável pelo conteúdo das notas) informou que o fundamento legal para a inserção da expressão “Deus seja louvado” nas cédulas é o preâmbulo da Constituição, que afirma que ela foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Depois, a frase teria permanecido por uma questão de tradição. Na época, o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, lembrou que “quando o Estado ostenta um símbolo religioso ou adota uma expressão verbal em sua moeda, declara sua predileção pela religião que o símbolo ou a frase representam, o que resulta na discriminação das demais religiões professadas no Brasil”.

Se o Supremo não quiser subtrair, então some. Coloque uma Estrela de Davi, uma Crescente com uma Estrela, um OM em sânscrito, uma Roda do Dharma, Yin-Yang, um Khanda e algumas reflexões ateístas. Mas tendo em vista todas as manifestações religiosas e crenças do brasileiro, mesmo aquele paredão será insuficiente para registrar tudo. Caso não possamos colocar todos, não coloquemos ninguém.

Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

Quanto à ironia de Gilmar Mendes sobre o Cristo Redentor: Em janeiro de 2010, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou uma nota em que rejeitou “a criação de ‘mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União’, pois considera que tal medida intolerante pretende ignorar nossas raízes históricas”. Na época, auto-intitulados representantes de Deus, afirmaram que se movimentos quisessem retirar símbolos religiosos, então deveriam começar pelo Cristo Redentor.

Particularmente, podem demolir a estátua que não dou a mínima (e, com essa frase iconoclasta, lacro a excomunhão deste que já foi até coroinha). Desde que coloquem um mirante por lá, tá ótimo. Mas sei que a sociedade, que tem apreço por ela, não deixaria meia dúzia de ''iluminados'' sacerdotes tomar tal medida uma vez que o monumento pertence, na prática, à cidade do Rio e não à Cúria. E, o mais importante, difícil imaginar que uma instituição milenar (a Igreja Católica) que possui a propaganda de ideias como um de seus alicerces, vá além das bravatas sobre o maior e mais alto ''anúncio religioso'' a céu aberto do mundo.

Por fim, como já disse aqui várias vezes, adoro quando alguém apela para as “raízes históricas” para discutir algo. A escravidão, sociedade patriarcal, a desigualdade social, a exploração irracional dos recursos naturais, a submissão da mulher como mera reprodutora e objeto sexual, o patrimonialismo e o elitismo, caçar índios no mato, manter negros como carne de segunda – tudo isso está em nossas raízes histórias. E queimar pessoas por intolerância de pensamento está nas raízes históricas de muita gente.

Quando o ser humano consegue caminhar a ponto de ver no horizonte a possibilidade de se livrar das amarras de suas ''raízes históricas'', obtendo a liberdade para acreditar ou não, fazer ou não fazer, ser o que quiser ser, respeitar o outro e ser respeitado, há membros de instituições importantes que decepcionam. E pressionam para que as coisas voltem a ser como eram ou não mudem nada, em detrimento à dignidade humana.

Liberdade, sim. Desde que nós escolhamos a melhor opção para você.

Uma escola que fale sobre as principais religiões do Brasil e do mundo, bem como sobre a filosofia por trás delas, tem o poder de reduzir o medo dos futuros cidadãos quanto ao desconhecido. E, portanto, aumentar a empatia e diminuir o ódio e a intolerância religiosas. Fieis de religiões de matriz africana têm sofrido cada vez mai violência pelas mãos de quem diz fazer isso em nome do evangelho, mas desconhece a ideia de amor e compreensão que está no centro da religião que afirma professar. Conhecimento capaz de retirar alguém da sombra da ignorância e lhe dar autonomia reduz o controle de líderes sobre uma alma perdida. O que muita gente de Deus tem pavor só de imaginar.

''Ah, mas a maioria do país é católica! É nosso direito!'' Não, não é.

E não sou eu quem afirma isso, mas sim um sábio de barba – neste caso, Jesus Cristo, não Karl Marx. No Evangelho atribuído a Mateus, capítulo 22, versículo 21: ''Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus''.


Temer 2, A Missão: Quanto vai te custar o voto dos deputados para livrá-lo?

Leonardo Sakamoto

Foto: Edilson Dantas/Agencia O Globo

A menos que o roteirista responsável por escrever os capítulos da crise política brasileira esteja usando um alucinógeno mais poderoso do que imaginávamos, a Câmara dos Deputados deve livrar novamente o pescoço de Michel Temer de ser processado pelo Supremo Tribunal Federal.

Os ministros da corte decidiram que a denúncia contra ele por obstrução de Justiça e organização criminosa seja enviada para análise da Câmara dos Deputados – só Gilmar Mendes se colocou contra. A defesa do ocupante do Palácio do Planalto havia pedido para que o processo não fosse encaminhado antes do fim da investigação sobre a lambança no acordo de delação dos controladores da JBS.

O presidente mais impopular da história recente do país, menos querido até que benzetacil nas nádegas (ao menos a injeção dói, mas traz benefícios), deve sobreviver a esta segunda denúncia encaminhada pela Procuradoria Geral da República à custa do nosso dinheiro e de nossa dignidade.

Sim, você pode não se importar com política. Mas será quem pagará para que ele continue lá, produzindo mesóclises, enterrando direitos e mentindo na Assembleia Geral das Nações Unidas.

O Congresso Nacional vive um descolamento total e abissal com relação aos interesses da maioria da sociedade. Boa parte dos que estão ali defendem apenas o seu e o de seus grupos de interesse. Aprovam propostas que seriam facilmente rejeitadas nas urnas e dobram a democracia para garantir sua perpetuação no poder. Vendem seus votos para o Palácio do Planalto com o objetivo de evitar que um presidente denunciado seja processado por cargos, emendas ou em troca de apoio em projetos que rasgam a dignidade de grupos vulneráveis, como as populações indígenas, e o meio ambiente. E legislam em causa própria, chegando ao cúmulo de propor e conseguir perdões de dívidas bilionárias, que estavam em seu nome e no de seus amigos empresários, com o poder público.

A maioria dos ministros do STF está certa ao encaminhar a denúncia para análise da Câmara dos Deputados.

Mas poderiam, ao menos, ajudar a nação determinando que o dinheiro que será usado para comprar os parlamentares não saia de áreas essenciais, como a gasolina dos carros da fiscalização que retira crianças do trabalho infantil ou da bolsa de pesquisadores que produzem nossa ciência. Afinal, essas políticas chegaram a ser afetadas pela ''crise econômica'' enquanto dinheiro para livrar Temer nunca faltou.

Post atualizado às 15h30 após a finalização da votação – foram 10 votos contra o recurso do governo e apenas Gilmar Mendes a favor.

 


Do boicote à irrelevância: A trajetória de Temer na Assembleia Geral da ONU

Leonardo Sakamoto

De Nova York – Quando Temer subiu à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça (19), confesso que torci para que não chamasse a Rússia de União Soviética, o Paraguai de Portugal e a Noruega de Suécia, como já fez anteriormente.

Ou, pelo menos, não inflasse o número de refugiados que o Brasil recebeu – gafe realmente séria que cometeu em um discurso na ONU, no ano passado. Contrariando informação do próprio Ministério das Relações Exteriores, Temer disse que havíamos recebido 95 mil refugiados, quando, na verdade, foram 8,8 mil.

O então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, hoje e pelos próximos 9580 dias, membro do Supremo Tribunal Federal, achou que era uma boa ideia ignorar o conceito internacional do que é um refugiado e acrescentou à conta os vistos humanitários concedidos a haitianos.

Se a população caribenha fosse considerada refugiada no Brasil, haveria um sistema melhor para proteção e acolhimento. Ao contrário, é cada um por si e Deus por todos – literalmente, uma vez que a Missão Paz, tocada pela Igreja Católica, em São Paulo, tem sido mais competente do que o poder público federal em garantir solidariedade.

Além disso, por conta do impeachment, o discurso de Temer na Assembleia Geral foi boicotado, em 2016, por países com identificação com o PT de Dilma Rousseff – Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela. E também pela Costa Rica.

Neste ano, a impressão, confirmada com diplomatas com os quais conversei aqui, é que maior parte dos presentes não prestou muita atenção à participação de Temer. Imagino que um presidente com 5% de aprovação não é exatamente uma referência mundial ou regional em termos econômicos, políticos, sociais, culturais e, principalmente, éticos.

A expectativa era grande para ouvir o primeiro discurso de Donald Trump nas Nações Unidas. O chefe de Estado norte-americano fala em seguida ao brasileiro que, pela tradição, abre a Assembleia Geral. Trump, que é um crítico contumaz da organização, não perdeu a chance para transformar o púlpito em palanque, com suas bravatas, com um discurso tosco, contra a Coreia do Norte e contra o bom senso, gerando reações de outros chefes de Estado.

Mas nós, jornalistas brasileiros que somos obrigados a prestar atenção em Temer por ofício, temos que absorver, com atenção, um discurso morno, cheio de lugares comuns, imprecisões, mentiras e exageros.

Só para citar alguns: Falar em ''compromisso do Brasil com o desenvolvimento sustentável'' com esse modelo de desenvolvimento que atua como um rolo compressor sobre os povos tradicionais, com ocupação desordenada e criminosa do solo e a exploração insustentável da água, é um tipo de piada sem graça.

Aliás, ao dizer houve redução de mais de 20% desmatamento na Amazônia, sendo que esses dados não foram confirmados nem pela fonte do estudo, é só mesmo para tentar retocar a imagem depois de uma série de ações que tiveram repercussão internacional negativa na área ambiental. Pela baixa repercussão nos veículos internacionais dessa fala, não deve ter conseguido seu intento.

Afirmar que ''elegemos a Agenda 2030 [para o Desenvolvimento Sustentável] como eixo de nossas atividades'' é quase uma ofensa. Por exemplo, a meta 8.7 da agenda diz respeito à erradicação do trabalho escravo, do tráfico de seres humanos e do trabalho infantil. Considerando que chegou a faltar dinheiro para a gasolina dos carros da fiscalização do trabalho, imagine como o governo trata o que não é prioridade.

Outra coisa: quando os governantes brasileiros vão parar com esse autoengano de chamar a matriz hidrelétrica de ''energia limpa''? E o impacto ambiental, social e trabalhista das obras de grandes hidrelétricas na Amazônia? E as comunidades indígenas e ribeirinhas que são impactadas ou deslocadas? E o trabalho escravo nos canteiros de obras de hidrelétricas? E o tráfico de pessoas para exploração sexual a fim de servir esses canteiros? E a criação de novos vetores de desmatamento, o que acentua as mudanças climáticas e a ocupação desordenada do solo? E os assassinatos de posseiros e sindicalistas em conflitos rurais gerados por essa ocupação maluca? Tudo isso não entra na conta? Sobre grandes obras recentes de impacto negativo, como Belo Monte, é importante lembrar que Dilma tem mais responsabilidade do que Temer.

''Na América do Sul, já não há mais espaço para alternativas à democracia'', disse ele. Uma crítica à Venezuela. Mas, que se o rei soubesse que está nu, também seria uma autocrítica.

''Com reformas estruturais, estamos superando uma crise econômica sem precedentes.'' Juro que eu ri. Alto. Pois o que eu ouvi foi ''Com o açoite na lomba dos trabalhadores mais pobres e o arrocho na xepa pé-rapada, estamos superando uma crise econômica sem precedentes e protegendo o patrimônio dos abastados.''

Mas não foi um mau discurso. Pelo menos, ele resolveu não improvisar e chamar o português António Guterres, secretário-geral da ONU, de Emmanuel Macron, presidente francês, de Vladimir Putin, presidente russo, ou de Lady Gaga, musa.


Quem defende “intervenção militar” não gosta de aulas de História

Leonardo Sakamoto

Uma coisa é ter opinião. Outra é gente que acha que a Constituição é papel higiênico e as instituições democráticas (que levamos décadas para tentar construir) são um grande vaso sanitário. E defende que seu ponto de vista seja aplicado à força, através do fuzil e do canhão, em prejuízo à liberdade e à dignidade do restante da população.

Muitos colegas fizeram textos claros e contundentes a respeito das declarações do general Antônio Hamilton Martins Mourão, secretário de economia e finanças do Exército, favoráveis a uma ''intervenção militar''. Ele afirmou que, caso a Justiça não consiga tirar da política os envolvidos em ilícitos, os militares terão que impor isso. E que há planejamentos nesse sentido.

Pior do que isso apenas a covardia de um presidente que não se manifestou publicamente contra elas. Mas era de se esperar que uma pessoa que se mantém no poder à base da impunidade não fosse capaz de repreender alguém por atacar a democracia.

As Forças Armadas de hoje não são as mesmas do período da última ditadura, da mesma forma que os contextos nacional e internacional são outros. Seus líderes têm, repetidas vezes, confirmado que o comando é e será civil. E o respeito às liberdades individuais e às instituições continuará, sem intervenções ou golpes.

O problema é que esse tipo de declaração alimenta os malucos de plantão, que podem ser bem agressivos. Um pessoal que acha que a República é a titica do cavalo do bandido e vê comunismo na tigela dos cereais do café da manhã. Seres mágicos que parecem se reproduzir de forma assexuada, por brotamento, aos milhares na internet. Pessoas que defendem uma ''intervenção militar constitucional'' (haha), o bloqueio da conversão do país em uma ''ditadura gayzista'' (kkkkkkk) e uma ação para evitar a iminente ''implantação do comunismo'' (#morri).

Pessoas que dizem que o mal precisa ser extirpado e o bem recolocado no lugar. E quem é o mal? Daí reside o problema. Ouvimos cada vez mais que há pessoas ou grupos que representam o mal, cuja natureza é contra os costumes e as tradições dos ''homens e mulheres de bem'', e precisam ser extirpados.

Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro. Pincelado por horas de aulas de História cabuladas para ir empinar pipa ou fazer footing no shopping.

Já escrevi isso antes, mas achei que era importante trazer a discussão aqui novamente. Lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez. E o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Diante da atual tentativa de excluir o espírito crítico dos bancos escolares, através de ações reacionárias como o ''Escola Sem Partido'', desejo que a história daquele período continue a ser contada nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

Se ficarmos apenas assistindo boquiabertos aos retrocessos sociais, ambientais, econômicos, políticos e civis, o que é um pesadelo do passado voltará a ser nosso cotidiano. Liderado por falsos ''salvadores da pátria'', eleitos no braços de quem está cansado de tudo o que está aí Inclusive da liberdade para procurar soluções de forma coletiva aos problemas da sociedade. Só dessa forma, os poucos milhares que hoje clamam por um golpe militar ou pela volta da ditadura continuarão a ser vistos pelo restante da sociedade como mal informados, ignorantes ou insanos.

E também como já disse aqui, acho importante esse pessoal mostrar sua cara e dizem quem é. Vocês não tinham curiosidade de saber quem eles são? O que comem? Onde vivem? Como se acasalam? Pronto, taí. Temos a responsabilidade de, uma vez identificados, despejarmos todo o carinho e paciência possíveis. Pois, talvez um dia, compreendam o que significa a liberdade que está diante de seus olhos, mas que não conseguem enxergar.


Nos 40 anos de sua invasão, PUC diplomará cinco alunos mortos pela ditadura

Leonardo Sakamoto

Estudantes se concentram em frente à PUC-SP antes da invasão em setembro de 1977. Foto: Iconographia

Por José Arbex Jr.*, especial para o blog

Os estudantes Carlos Eduardo Fleury, Cilon Cunha Brum, José Wilson Lessa Sabbag, Luiz Almeida Araújo e Maria Augusta Thomaz jamais completaram os seus cursos na PUC-SP, onde estudavam, no final dos anos 60. Foram assassinados pela ditadura militar. Os corpos de Luiz Almeida (Lula) e de Cilon Brum ainda não foram encontrados. Nesta segunda (18), eles serão homenageados pela Comissão da Verdade criada pela universidade, que, com a cerimônia, encerrará formalmente seus trabalhos. A PUC lhes concederá um diploma simbólico, como parte de uma semana dedicada a lembrar os 40 anos desde que a universidade foi invadida, com grande selvageria, por tropas da Polícia Militar comandadas pelo coronel Erasmo Dias.

“Para relembrar os 40 anos da invasão, precisávamos de algo que revivesse a memória desses estudantes. Então, pensamos em atribuir um diploma para cada um deles. Não podemos atribuir um diploma no sentido formal, porque nenhum deles pode completar a graduação, mas nós vamos homenagear e reconhecer, postumamente, a presença desses estudantes na universidade. Os diplomas serão encaminhados para as famílias desses estudantes no dia 22. A data faz a ponte entre os movimentos sociais e estudantis durante a ditadura militar e a presença da Universidade na luta pela redemocratização. Esses meninos e meninas são heróis”, afirma a reitora Maria Amalia Andery.

No dia 22 de setembro de 1977, estudantes oriundos de todo o Brasil celebravam a realização do 3º Encontro Nacional dos Estudantes (proibido pela ditadura), em frente ao teatro da PUC, o Tuca, situado na rua Monte Alegre, bairro de Perdizes, quando foram surpreendidos pela polícia. A tropa de choque chegou disparando bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, cercando e empurrando para dentro do campus todos os que ocupavam a rua em frente ao teatro. Os soldados invadiram salas de aula, laboratórios e todas as dependências universitárias.

Erasmo Dias berrava feito um alucinado, multiplicando ameaças e bravatas do tipo: “Todos serão presos e enquadrados na Lei de Segurança Nacional”.

Sempre com brande brutalidade e violência, a polícia levou todos para um estacionamento próximo à PUC e lá mesmo fez uma primeira triagem, baseada em listas fornecidas por serviços de inteligência e pela deduragem de agentes à paisana (“arapongas”). Cerca de 900 estudantes foram detidos e levados ao prédio do Batalhão Tobias de Aguiar. A violência resultou em 25 estudantes feridos, três com graves queimaduras e lesões, além de grandes prejuízos materiais.

Exatos sete anos depois, o Tuca voltou a ser alvo de ataques: tentaram atear fogo ao local. Não se comprovou, à época, a origem criminosa do incêndio, embora a data, 22 de setembro, deixasse pouca margem a dúvidas – definitivamente dissipadas em 13 de dezembro do mesmo ano, quando o teatro foi consumido em chamas. Dessa vez, os investigadores encontraram trapos encharcados com thinner. E a data, não por acaso, comemorava a decretação do AI-5, em 1968. O Tuca, inaugurado 11 de setembro de 1965, com a peça “Morte e Vida Severina”, baseada em texto de João Cabral de Melo Neto e musicada por Chico Buarque de Hollanda, tornou-se um marco cultural e simbólico da resistência à ditadura.

Em 22 de setembro de 1977, quando o coronel Erasmo Dias quis cumprimentar a reitora Nadir Kfouri, dela ouviu uma frase que passaria à história: “Não dou a mão a assassinos”. O então grão-chanceler da universidade, D. Paulo Evaristo Arns, declarou que “na PUC só se entra para ajudar o povo, não para destruir as coisas”.

A homenagem agora prestada aos estudantes assassinados e a dedicação de toda uma semana para lembrar essa história são marcos de uma universidade que reafirma as suas raízes, a sua vocação e o seu destino.

A semana vai ser encerrada na sexta (22), às 14h30, com um ato em frente ao Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, em apoio à absolvição de estudantes indiciados durante manifestação contra o governo Temer em setembro de 2016. Para a noite do dia 22 está programada uma concentração diante do Tuca e uma passeata em volta da PUC, batizada de ''Invasão Cultural''.

(*) José Arbex Jr. é professor de jornalismo da PUC-SP e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo.