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Bolsonaro deixará filho ser "sacrificado" se a polêmica afetar o governo?

Leonardo Sakamoto

20/01/2019 06h05

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará." A passagem bíblica preferida do presidente da República cabe como uma luva em um momento em que tanto seu filho Flávio Bolsonaro quanto Fabrício Queiroz evitam entregar à sociedade "explicações plausíveis" sobre as "movimentações atípicas" detectadas pelo Coaf, que primeiro vieram a público pelas contas do ex-assessor e motorista e, depois, pelas do próprio deputado estadual e senador eleito pelo Rio. E, com isso, vão crescendo as suspeitas de que o parlamentar ficava com parte dos salários de seus assessores, usando Queiroz como laranja.

Nesse ponto, concordo com João, capítulo 8, versículo 32, passagem bíblica exaustivamente usada por Jair em uma campanha eleitoral que se vendeu como antissistêmica, prometendo mudar tudo o que está aí, inclusive o comportamento de representantes políticos e sua falta de transparência com a coisa pública.

Porque não adianta fazer um estardalhaço com dados recauchutados sobre empréstimos do BNDES a grandes empresas (muitos de nós, jornalistas, já havíamos usado aquelas informações em reportagens nos últimos anos pois já eram públicas), batendo no peito que agora tudo vai ser diferente, quando uma pessoa de sua maior confiança e que deve assumir parte de sua articulação no Senado Federal evita uma simples explicação aos eleitorado. Para um governo que acredita no poder transformador da "verdade", é incompreensível que ela seja jogada sistematicamente para baixo do tapete desde o início de dezembro, quando o caso foi divulgado.

Enquanto isso, ficamos presos em um ciclo contínuo, esperando Godot, em uma montagem de baixíssimo orçamento e atores sem carisma da peça de Samuel Beckett.

Qual a origem da movimentação de R$ 1,2 milhão nas contas de Fabrício Queiroz? Foi só "rolo de carro"? Por que funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro depositaram recursos nas contas de Queiroz? Todos os familiares de Queiroz que trabalhavam nos gabinetes de Flávio e de Jair cumpriam suas atribuições diárias? Como foi o empréstimo que Bolsonaro diz ter feito a Queiroz, que justificaria o depósito de R$ 24 mil na conta da hoje primeira-dama e quando foram devolvidos os outros R$ 16 mi do total de R$ 40 mil citados pelo presidente? Qual a origem dos R$ 96 mil, depositados de R$ 2 mil em R$ 2 mil, na conta de Flávio Bolsonaro? Quem era o beneficiário do título de mais de um milhão pago por ele? Há mais "movimentações atípicas" descobertas pelo MP-RJ através da consulta ao Coaf que não foram citadas? Por que a laranja dá tão bem em solo brasileiro?

O caso de Flávio não traria maiores problemas à gestão de seu pai se o próprio não tivesse trazido os filhos para perto do núcleo de sua campanha e, agora, de sua administração, mesmo sem cargos. Mas trouxe e, portanto, é responsável por suas atitudes. Sem contar que o presidente ainda está ligado a toda confusão por conta da história do empréstimo que fez a Queiroz e que também precisa ser melhor explicado.

Se os membros do governo dão-se por satisfeitos com a explicação, uma boa parte da população, não. Por isso, ao invés de passarem pano no caso, todos que fazem parte do governo e de sua base de sustentação deveriam agir para reduzir o impacto na administração, defendendo transparência total. Alguns, como a deputada estadual eleita Janaína Paschoal, já fizeram isso, outros fazem cara de paisagem.

Por exemplo, o ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro conta com larga experiência em investigações, denúncias e julgamentos de "movimentações atípicas". Escreveu livros, deu palestras, formou quadros públicos e ficou conhecido por explicar como certas transações são indícios de corrupção e lavagem. Seria importante que não apenas aconselhasse o presidente da República como também cobrasse publicamente que o caso fosse resolvido rapidamente, com os depoimentos de Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro ao Ministério Público. Neste caso, um mero pedido de desculpas e uma promessa de mudança de vida não deveria convencê-lo, como foi com Onyx Lorenzoni.

O problema é que, se algo for comprovado pelo MP-RJ, fica a dúvida se Bolsonaro será capaz de cortar na própria carne. Daí, vale outra passagem bíblica. Em Gênesis 22:2, Deus mandou o patriarca Abrãao tomar seu único filho até então, Isaque, e passar a faca no mancebo, em sacrifício. Aos 45 do segundo tempo, mandou um anjo dizer que tava tudo beleza, que ele já tinha provado seu valor e mandou um cordeiro para substitui-lo no kebab.

Caso sejam constatadas irregularidades ou, pior, caso o silêncio continue reinando à medida em que evidências se avolumem, não é descartável a possibilidade de Flávio ter que ir para o sacrifício a fim de salvar o juramento de seu pai. Não com Deus, mas com os cidadãos. Daí tudo vai depender da fé de Bolsonaro com a coisa pública.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.