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Bastidor da entrevista: Lula chama prisão de convento e diz que corre 10 km

Leonardo Sakamoto

18/10/2019 10h06

Foto: Ricardo Stuckert/Intituto Lula

Por Flávio Costa e Leonardo Sakamoto

Condenado por Sérgio Moro, então juiz federal e, hoje, ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro envolvendo o apartamento triplex do Guarujá, o ex-presidente Lula nos recebeu para uma entrevista na Polícia Federal, em Curitiba, para o UOL, nesta quarta (16). No dia seguinte, o Supremo Tribunal Federal começou o julgamento da prisão após sentença em segunda instância, o que pode beneficiá-lo.

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Entrevistar Lula é uma corrida de obstáculos. Primeiro, é necessário fazer o pedido à Vara de Execuções Penais – que, desde a decisão do Supremo Tribunal Federal, garantindo seu direito de falar com jornalistas, tem autorizado os pedidos. Depois, é necessário ser aceito pelo próprio Lula, que indefere parte deles. "Eu converso com quem eu quero." E diz que quer dar entrevista para o programa do jornalista Pedro Bial, na TV Globo. Ao vivo, lá de Curitiba. Obstáculo maior, contudo, é organizar uma pauta de perguntas que não repita o que já foi dito por ele a outros colegas.

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O ex-presidente está visivelmente mais magro. Conta que corre dez quilômetros, todas as tardes, na esteira instalada em sua cela na Polícia Federal em Curitiba. Diz que, desde que foi preso, não tomou uma gota de álcool. "Não faz falta", jura. E lembra que não fuma há dez anos. Mas fica irritado com quem chama a prisão de spa. "Vem ficar um pouco no meu lugar então."

Leia as duas partes da entrevista:

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Lembra que completa 74 anos no próximo dia 27 de outubro. "Era raro chegar a 50 anos na época e onde nasci. E aqui estou eu, cheio de energia. Sinto que já nasceu o primeiro homem a chegar a 120 anos e esse cara sou eu."

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Lula mantém uma vontade irrefreável de falar. Ele mesmo reconhece que fala como se estivesse discursando, in loco, para uma multidão. Discreto e educado, o agente federal Chastalo (chamado por algumas pessoas que visitam Lula de "Rodrigo Hilbert") vai se chegando perto dele, aos poucos, à medida em que a entrevista caminha para o encerramento. Avisa com gestos contidos que o fim se aproxima. O ex-presidente não se interrompe. Depois, diz: "ele não vai aumentar minha pena". Ri.

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Aliás, riu alto em apenas um momento da entrevista: quando questionado se aceitaria ser candidato a vice-presidente da República, em 2022, caso esteja apto politicamente. Como estrategicamente fez Christina Kirchner, na Argentina.

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Alterna momentos de bom humor com instantes de irritação na entrevista. "Prometi que eu não ficaria nervoso, mas às vezes eu não consigo". Sobe uma oitava na voz com questões sobre o legado do PT e de seu governo. E praticamente sai do sério ao falar de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e da força-tarefa da operação Lava Jato.

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"Tenho mais tempo de convivência com o jornalismo do que vocês têm de vida. A minha primeira entrevista com uma jornalista foi 1975. A repórter estava iniciando a carreira profissional dela. Depois de duas horas de gravação, percebeu que não tinha ligado o gravador", relembrou. Hora de checar as nossas câmeras.

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Diz que vai voltar para a sua cela, a sala com banheiro em que passa 22 horas do seu dia desde abril do ano passado, com exceção dos momentos de banhos de sol. Explica que, no começo, tinha dificuldade de falar tal palavra – cela. Mas depois aceitou porque ela também se remete à clausura dos conventos. Ele que sempre foi gregário, afirma que esse tempo tem servido para aprender.

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Ao final, confirma que vai casar assim que sair. Aproxima-se dos repórteres e solene diz: "Não há melhor experiência democrática do que essa."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.