Blog do Sakamoto

Covas são deixadas como ameaça a jurados de morte por madeireiros no Pará

Leonardo Sakamoto

Covas cavadas, neste domingo (20), para ameaçar os dois assentados em Trairão, no Pará

Por Daniel Camargos, da Repórter Brasil, especial para o blog

Osvalinda e Daniel Pereira são ameaçados, há mais de seis anos, por madeireiros e latifundiários da região de Trairão, município do Oeste do Pará. Após acordar, neste domingo (20), Osvalinda foi colher maracujá e encontrou, dentro de seu terreno, duas covas, com cruzes cravadas nelas. Uma para ela, outra para seu marido.

Os Pereira são jurados de morte por não colaborarem com a extração ilegal de árvores de alto valor comercial. Madeireiros usam as estradas do assentamento em que vivem como rota de contrabando de unidades de conservação ambiental. Motocicletas com homens armados e encapuzados constantemente rodeiam a casa deles no Projeto de Assentamento Areia, onde plantam frutas.

“Com essa ameaça agora, eu fiquei besta”, afirma Osvalinda, que é presidente da associação de mulheres do Projeto de Assentamento Areia. Ela, que já acostumada às ameaças, não sabe de onde partiu essa. Mas desconfia que tenha saído de onde vieram as outras.

Osvalinda conta que chegou a ser pressionada pelos madeireiros para elaborar um abaixo-assinado entre os moradores a favor da exploração de madeira na região, contudo, negou. ”Ofereceram dinheiro, mas nem eu e nem meu marido aceitamos”, explica.

Outra possibilidade é uma retaliação ao projeto que desenvolve na associação, que busca diversificar as formas de renda das famílias e contraria interesses dos latifundiários da região. Um dia antes do aparecimento das covas, no sábado, ela havia participado de uma reunião da associação.

O projeto de assentamento Areia foi criado em 1998 e lá vivem 300 famílias. Osvalinda acredita que a permanência no local é sua maior garantia de vida.

“Se eles nos matarem aqui dentro todo mundo vai saber quem mandou matar.”

De acordo com o delegado da Polícia Civil de Trairão, Ricardo Vieira de Lima, um inquérito foi aberto no domingo, após denúncia de Osvalinda. Questionado se a polícia já tem suspeitos, afirmou que não poderia falar sobre isso. ''Estamos investigando.”

O prazo para a conclusão do inquérito é de 30 dias, porém, ele informa que os policiais vão se esforçar para encontrarem os autores da ameaça antes do término do prazo. “Essa ameaça com covas e cruzes é atípica. Nossa função é identificar quem fez isso.”


Após breve comoção pelas mortes do fogo, SP ignora os que morrem no frio

Leonardo Sakamoto

Moradores de rua tentam de proteger do frio com papelões e cobertores no Centro de São Paulo. Foto: Martha Alves/Folhapress

A comoção pelo incêndio e desabamento do prédio ocupado por sem-teto no Largo do Paissandu passou. Ao mesmo tempo, o frio deu as caras e, em uma triste ironia, as famílias que acampam ao lado dos escombros que já foram seu lar se viram como podem para se manterem aquecidas.

São Paulo teve a madrugada mais gelada do ano nesta segunda (21), com 8° Celsius de temperatura média. Dois homens em situação de rua foram encontrados mortos – um na Zona Oeste, outro no Centro. A causa do óbito é desconhecida, mas as vítimas estavam sem agasalho ou cobertor e não apresentavam sinais de violência.

As pessoas não morrem de frio na capital paulista, a bem da verdade. Nem por causa do fogo. Morrem de especulação imobiliária e da falta de políticas públicas de moradia e de atendimento assistencial.

Entregar imóveis vazios aos sem-teto pode não resolver por completo o problema de moradia da metrópole. Mas certamente ajudaria a amenizá-lo. O déficit qualitativo e quantitativo de habitação poderia ser drasticamente reduzido se prédios trancados por portas de tijolos e terrenos vazios pudessem ser desapropriados e destinados a quem precisa – gratuitamente ou a juros abaixo do mercado, dependendo do nível de pobreza.

''Tá com dó? Leva para casa!'' Gosto dessa frase, usada de forma abundante na internet quando alguém trata de reforma urbana. Ela ajuda a reconhecer facilmente se o interlocutor conta um déficit patológico de empatia. O que pode ser bastante útil para, uma vez identificado que o ser é um iniciante na arte da vida em coletividade, redobrar o nível de paciência no diálogo com ele.

Não é levar o povo para a casa. Mas fazer com que o poder público – federal, estadual e municipal – cumpra sua função de garantir o mínimo de dignidade a quem não pode pagar por uma, como previsto no artigo sexto da Constituição Federal.

Para muitos, um morto após uma fria madrugada é apenas um estorvo a menos. Uma ajuda à faxina social que já ocorre, a conta-gotas, pelas mãos do Estado ou de agentes privados. Faxina que vem para acalmar ''cidadãos de bem'' que não gostam de pessoas mal-cobertas por mantas velhas ferindo seu senso estético, têm horror a qualquer crítica à intocabilidade da propriedade privada e querem tomar um café quentinho em seu restaurante sem se lembrar que, por nossa inação e nossas opiniões mesquinhas, somos mais responsáveis pelo que acontece do lado de fora do que o clima.

Não bastasse xingar e atacar sem-teto e pessoas em situação de rua, que vira e mexe são vítimas de pauladas, pedradas e fogo enquanto dormem sob o céu da cidade, há uma parte dos paulistanos que sente raiva por quem ajuda tornar a vida dessas pessoas menos dolorida. E deseja que tenham o mesmo fim.

O padre Júlio Lancellotti, vigário episcopal para a população de rua da Arquidiocese de São Paulo, tem sido vítima de ameaças de morte por conta de seu trabalho de mais de três décadas com esse grupo. Isso é um atestado de nossa falência como sociedade.

Quando o frio exterior é muito forte, o hipotálamo no nosso cérebro perde a capacidade de manter nossa temperatura – que, normalmente, permanece na casa dos 37° Celsius. As reações químicas relacionadas à manutenção da vida precisam de calor. Sem ele, músculos vão parando, a respiração e a circulação sanguínea diminuem, a sensibilidade some com o freio do sistema nervoso. A consciência vai se dissolvendo. Tudo até o coração parar de bater.

Mas para muitos paulistanos parece que o coração parou de bater e eles nem se deram conta.

Post atualizado às 17h, do dia 21/05/2018, para inclusão de informação sobre o segundo óbito.


O PSDB não foi o fiel escudeiro de Temer, mas seu contratador e avalista

Leonardo Sakamoto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Por mais que a campanha do ex-governador Geraldo Alckmin queira ficar a uma distância segura da impopularidade radiante do presidente Michel Temer, o passado de seu partido o condena.

Levantamento de Bernardo Caram, da Folha de S.Paulo, publicado nesta segunda (21), confirma o que já foi dito neste blog. Nas votações tidas como prioritárias pelo governo no Congresso Nacional, o PSDB foi – em média – o partido mais fiel a Temer, com 83,5% dos votos favoráveis, seguido pelo DEM, com 80,7%, e pelo próprio MDB do presidente, com 78,9%.

A fidelidade certamente não é por conta do amor aos poemas de ''Anônima Intimidade'', escrito pelo ocupante do Palácio do Planalto, mas por ele ter sido a pessoa certa na hora certa. Mais do que apenas uma birra do candidato derrotado nas eleições de 2014, Aécio Neves, os líderes tucanos queriam aproveitar a janela de oportunidade que se abriria com a retirada forçada de Dilma Rousseff para aprovar reformas liberalizantes – que seriam rechaçadas pela população se apresentadas em um processo eleitoral.

Tanto que o PSDB participou ativamente do seu governo e apenas desembarcou por oportunismo quando o calendário eleitoral se aproximou. E, mesmo fora, continua dentro, prometendo os votos necessários para a pauta do partido.

Reformas que aproveitariam o momento de crise econômica para diminuir o peso do Estado na redução das desigualdades sociais e na erradicação da pobreza, priorizando o desenvolvimento econômico. Entre elas, estão a PEC do Teto dos Gastos (que limitou, por 20 anos, investimentos em áreas como educação e saúde), a Lei da Terceirização Ampla e a Reforma Trabalhista. Essa redução de garantias dos direitos sociais desequilibrou ainda mais a balança entre os objetivos fundamentais da República, presentes no artigo 3o da Constituição Federal.

O problema não é a atualização de regras sobre o contrato de compra e venda da força de trabalho no Brasil, que precisa de simplificação e racionalização ou mesmo adaptação à revolução digital. Muito menos adotar novas regras para o INSS e para a previdência pública de forma a garantir estabilidade futura ao sistema e redução de injustiças.  A tragédia é como isso foi feito, imposto de forma violenta e antidemocrática, sem debates com a população e beneficiando o grande capital em detrimento ao trabalhador e pequeno empregador.

A entrega foi tão absurda que o Senado Federal abriu mão de seu papel de casa revisora e deixou a Reforma Trabalhista vir da Câmara dos Deputados e seguir para a sanção presidencial sem alterações, sob a promessa de que Temer editaria uma Medida Provisória que corrigiria alguns pontos. Seis meses depois, a MP caducou por desinteresse e ficou por isso mesmo.

Com a corda no pescoço da Lava Jato, Michel Temer dependia do apoio do PSDB e do empresariado que o partido representa para chegar e permanecer no poder. E sabia que sua melhor chance era mostrar-se capaz de entregar essas encomendas corporativas, uma vez que não havia consenso quanto a outra pessoa que pudesse o substitui-lo para executar a tarefa no curto prazo.

A manutenção de Michel Temer e de seu grupo político no poder teve um preço alto à nação. Tanto no processo de aprovação das referidas reformas, quando nas votações para salvar o seu pescoço nas duas denúncias criminais encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal para análise dos deputados federais. Um mercado de votos foi estabelecido – e o pagamento feito com recursos públicos na forma de dívidas perdoadas e impostos reduzidos. Dinheiro que deveria ter sido usado para reduzir o impacto da crise na vida dos mais pobres.

E o governo mentiu ao prometer que, em pouco tempo, o impacto das reformas se faria sentir no emprego. A maior prova disso são as cerca de 4,6 milhões de pessoas que desistiram de procurar serviço no primeiro trimestre deste ano por desalento. Esses contingente está fora da força de trabalho por não acreditar que exista oportunidade ou espaço para no mercado, não contar com experiência ou qualificação, ser considerado muito jovem ou muito idoso, não encontrar serviço no local de residência ou não ter conseguido trabalho adequado.

No último trimestre do ano passado, o número era de 4,3 milhões, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua.  A taxa de desemprego no primeiro trimestre de 2017 foi de 13,7% e a do mesmo período deste ano, 13,1%. O governo Michel Temer diz que o desemprego caiu. Mas esses números mostram que isso só aconteceu porque aumentou o número de pessoas que, desanimadas, desistiram de procurar serviço. Elas representam, hoje, 4,1% da força de trabalho.

O PSDB não foi fiel escudeiro de Temer durante esse período. Foi seu contratador e avalista. Portanto, deveria permanecer ao seu lado para defender o ex-sócio durante a campanha eleitoral. Como já disse aqui, o PT pagou um preço caro ao colocar Temer em nossas vidas. O PSDB ainda não.

Geraldo Alckmin quer o tempo de TV e a rede de prefeitos do MDB, mas não a imagem de Temer e amigos. O mesmo não pode ser dito do ex-prefeito de São Paulo João Doria – que tem discursado abertamente em apoio ao governo Temer. Está à espera, aguardando que seu padrinho não decole para se colocar à disposição de uma candidatura presidencial, com o apoio do MDB.

Há um ano, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) foi bem claro: ''Se o PSDB deixar hoje a base vai ficar muito difícil de o PMDB apoiá-los nas eleições de 2018. Política é feita de reciprocidade''.

Político também engole muito sapo. Mas traição é especialmente indigesta.


Desalento diante da falta de emprego ajuda a corroer o apoio à democracia

Leonardo Sakamoto

Cerca de 4,6 milhões de pessoas desistiram de procurar emprego no primeiro trimestre deste ano por desalento. Esses contingente está fora da força de trabalho por não acreditar que exista oportunidade ou espaço para no mercado, não contar com experiência ou qualificação, ser considerado muito jovem ou muito idoso, não encontrar serviço no local de residência ou não ter conseguido trabalho adequado.

No último trimestre do ano passado, o número era de 4,3 milhões, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua.  A taxa de desemprego no primeiro trimestre de 2017 foi de 13,7% e a do mesmo período deste ano, 13,1%. O governo Michel Temer diz que o desemprego caiu – mas só porque aumentou  o número de pessoas que, desanimadas, desistiram de procurar serviço. Elas representam, hoje, 4,1% da força de trabalho.

Na quinta (17), quando o IBGE divulgou os resultados, postei uma análise sobre o número. Mas considerando o tamanho do problema, há muito o que precisa ser dito sobre ele.

Esses 4,6 milhões são o maior contingente da série histórica. A região Nordeste concentrou 60,6% do desalento do país – Alagoas (17%), Maranhão (13,3%), Piauí (11,2%), Paraíba (10,3%) e Rio Grande do Norte (10,1%) estão à frente na questão do desalento. E Paraná (1,5%). Espírito Santo (1,2%), Rio Grande do Sul (1%), Rio de Janeiro (0,8%) e Santa Catarina (0,8%) nas últimas colocações.

E os desempregados, somados às pessoas que gostariam de trabalhar mais e os que desistiram de procurar emprego chegam a 24,7% – o que representa uma força de trabalho de 27,7 milhões.

Quando milhões de trabalhadores deixam de procurar empregos eles, ao mesmo tempo, param de acreditar em seu país e na viabilidade de seu futuro. E isso pode minar a já frágil e desorientada democracia.

Mesmo com indicadores como esses, o governo Michel Temer comemora que as ruas não estejam coalhadas de gente pedindo sua cabeça, tal qual ocorreu com Dilma Rousseff. De forma cínica, seus apoiadores afirmam que isso é uma prova de que a população entende que ele tem agido corretamente para tirar o país da crise e confia em sua honestidade. E que sabe que, no tempo certo, virá a bonança.

Ao mesmo tempo, pesquisas mostraram que ele, ao atingir índices de 3% de aprovação, conseguiu a proeza de estar abaixo dos pisos atingidos por Collor, Dilma e até Sarney. Sua reprovação segue estável – na incrível casa de 70%, segundo a última pesquisa Datafolha de abril.

Como já disse aqui, o silêncio na rua, quebrado aqui e ali por manifestações, não significa que a insatisfação não esteja no ar. Mas que há uma sensação de desalento generalizado. A parte que apoiou a saída de Dilma, seja por conta das denúncias de corrupção em seu governo ou pelo desgosto com a grave situação econômica que ele ajudou a construir, agora sente tristeza ao perceber que saiu da frigideira para cair direto no fogo. Dizem que há felicidade sincera no antipetismo puro, mas não questiono a religião de ninguém.

Quem não apoiou o impeachment, sente impotência diante da profusão de denúncias de corrupção e o desemprego que não caiu mesmo com a agenda de desmonte da proteção social, trabalhista, que não foi chancelada pela população através de eleições.

E quem não foi às ruas nem para apoiar a queda de Dilma, nem para defendê-la, grupo que representa a maioria da população, e assistiu bestializado pela TV ao impeachment, segue onde sempre esteve: sentindo que o país não lhe pertence. Entende que as coisas vão piorando e, quando bandidos não retiram o pouco que ele tem, o Estado faz isso. Seja roubando suas aposentadorias, seja violentando-o nas periferias de todo o país.

O desalento da falta de emprego emprego está relacionado ao desalento da política. A manutenção forçada de um governo cuja legitimidade, honestidade e competência são questionadas seria suficiente para levar o país às ruas. Contudo, a sensação é de que boa parte da população, aturdida com tudo o que foi descrito acima, está deixando de acreditar na coletividade e buscando construir sua vida tirando o Estado da equação. O que deixa o Estado livre para continuar servindo à velha política e a uma parte do poder econômico.

Caídas em descrença, instituições levam décadas para se reerguer – quando conseguem. No meio desse vácuo, vai surgindo a oportunidade para serem sinistros que se consideram acima das leis se apresentarem como a saída para os nossos problemas. Sim, no médio prazo, o desalento pode parir o desespero.


Vendo Harry e Meghan, deu vontade de ter um rei no Brasil. José Mujica?

Leonardo Sakamoto

O ex-presidente uruguaio José Mujica e seu fusca azul. Foto: Natacha Pisarenko/AP

Aproveitando o casamento real britânico, monarquistas defenderam o retorno dessa forma de governo nesta parte dos trópicos. A começar pelos herdeiros de Pedro II, há brasileiros que acreditam que o país seria mais ''estável'' e ''moderado'' se tivesse uma chefia de Estado vitalícia e hereditária.

Eu até toparia. Mas só se for para ter como soberanos pessoas como Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, ou José Mujica (não me importo em ser anexado pelo Uruguai – se passarem a valer algumas das leis de lá). O problema é que ambos, uma vez entronados, adotariam como primeiro ato a Proclamação da República.

Um jornalista, cujo nome à memória me escapa agora, disse que a principal função da maior parte das monarquias europeias, nos dias de hoje, é pão e circo. Ou, mais precisamente no caso inglês, gerar conteúdo para vender tabloides e girar a economia. Porque um casamento pode ser, mais do que um símbolo, um bom negócio.

É claro que há razões para a manutenção de um chefe de Estado vitalício ou mesmo hereditário com mínimos poderes em um governo parlamentarista.

E, de todas as justificativas, o custo de mudança do sistema talvez seja uma das conhecidas. Alterar um ''time que está ganhando'', se há estabilidade no atual modelo, é interessante? Os ganhos políticos e econômicos da mudança do sistema são maiores do que pagar imposto às majestades?

Particularmente, acho qualquer monarquia em um Estado moderno algo que se perdeu no tempo. Como o dente do siso. E não estou falando das absolutistas. Nesses casos, o remédio é uma boa revolução popular – desde que não implantada uma ditadura no lugar, é claro. Coisa que, sabemos bem, é muito fácil acontecer.

Há quem sugira – em nome do luxo e da glória – um novo plebiscito. Naquele ocorrido em 1993, 10,2% votaram pela volta dos monarcas – ou seja, 6.843.196 pessoas. Levou um pescotapa da República (essa maltratada e incompreendida), com 66% – ou 44.266.608 votos. Foram 10,5% de brancos e 13,2% de nulos. E um baixo comparecimento nas urnas – 25,7% de abstenção.

Saber que 10% do país votou a favor de botar uma coroa na cabeça de alguém é assustador.

Mais assustador ainda é imaginar – caso o plebiscito ocorresse hoje e rolasse uma reviravolta – o que aconteceria quando o MDB e o STF tivessem que entregar a Regência.

Se eu fosse Deus (seu eu fosse?) e pudesse indicar monarcas, colocaria os sobreviventes do Monty Phyton para chefiar o Reino Unido. E o pessoal do Porta dos Fundos, do Tá no Ar, do Zorra e do Choque de Cultura para ocupar o Planalto e a chefia do parlamento.

Certamente não iriam para um safari na África para caçar elefantes em Botsuana, como fez o então rei Juan Carlos em plena crise econômica espanhola. Ele, que é considerado como peça importante na transição da ditadura para a democracia em seu país, resolveu despirocar. Abdicou em nome de seu filho. E milhares de espanhóis aproveitam para ocupar as ruas, pedindo a República. Chorei de emoção.

Mais cedo ou mais tarde, tenho fé que a história humana, através da ação consciente, dialogada e pacífica de seus membros, fará com que entendamos que todos deveríamos nascer iguais. E isso tratará de substituir a monarquia pela res publica em todas as partes do planeta.

O que deve acontecer um pouco depois de nos matarmos.


Chefe do combate à escravidão revela falta de recursos e pode ser demitida

Leonardo Sakamoto

A chefe da área responsável pela fiscalização do Ministério do Trabalho, Maria Teresa Jensen, está com o cargo ameaçado após falar à imprensa sobre a falta de recursos para o combate à escravidão contemporânea. É o que denunciou o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho, nesta sexta (18), em nota pública.

Isso ocorre sete meses após a substituição do coordenador da Divisão de Fiscalização para a Erradicação do Trabalho Escravo, André Roston, então subordinado à Maria Teresa. Ao detalhar, em uma audiência no Senado Federal, a falta de recursos para a mesma área, ele também irritou o governo, o que teria ajudado a pavimentar sua saída.

O blog entrou em contato com a assessoria de comunicação do Ministério do Trabalho que afirmou que respeita a manifestação do Sinait, mas que não dará um posicionamento sobre ele.

Em uma reportagem sobre os 130 anos da Lei Áurea, veiculada pelo Jornal Nacional, da TV Globo, no último dia 12, Jensen afirmou que faltam recursos humanos e equipamentos para resgatar pessoas e não há previsão de concurso para a reposição do déficit de 1250 auditores. Situação que dificulta, além do combate o trabalho escravo, o enfrentamento ao trabalho infantil e a outros problemas trabalhistas.

O Sinait afirma que a questão é política. ''A autonomia e a independência demonstradas, além da resistência a ataques legislativos e empresariais, desagradam o governo. Neste cenário, qualquer pretexto serve para ameaçar a permanência da atual equipe'', diz a nota. Fontes confirmaram a este blog que há movimentações no ministério para substitui-la.

Sob Michel Temer, o Ministério do Trabalho está sob comando do PTB, base de apoio do governo. Após o então ministro Ronaldo Nogueira anunciar sua saída, no final do ano, o presidente indicou Cristiane Brasil (PTB-RJ), filha de Roberto Jefferson, para ocupar o cargo. Contudo, condenações que a deputada federal sofreu por ter negado direitos trabalhistas a seus empregados levou à Justiça a decidir favoravelmente por ações que questionaram sua idoneidade para assumir o cargo. Com isso o secretário-executivo do ministério, Helton Yomura, passou de interino a titular.

História que se repete? – Em 10 de outubro do ano passado, Ronaldo Nogueira dispensou o coordenador da divisão de fiscalização para erradicação do trabalho escravo, André Roston, de seu cargo enquanto o Palácio do Planalto atuava para enterrar, na Câmara dos Deputados, a segunda denúncia da Procuradoria Geral da República contra Michel Temer.

Parte da bancada ruralista e membros de setores econômicos com alta incidência de resgates de trabalhadores, como o da construção civil, estavam incomodados com a fiscalização de trabalho escravo. A coluna Painel, da Folha de S.Paulo, chegou a antecipar que o cargo tinha entrado na lista de demandas de parlamentares que negociavam seus votos para barrar a nova denúncia.

Na época, o Sinait soltou uma nota de repúdio pelo desligamento afirmando que ''a medida apenas beneficia maus empresários que não cumprem a legislação''. A justificativa dada pelo Ministério do Trabalho naquele momento foi de que funções de chefia são transitórias, substituições ocorrem para aprimorar o serviço, o combate ao trabalho escravo não depende de apenas uma pessoa e o tema é prioridade.

Desde 1995, quando o governo federal criou os grupos móveis de fiscalização, responsáveis por verificar denúncias e resgatar trabalhadores, mais de 52 mil pessoas foram encontradas em situação análoga à de escravo no Brasil. Mas o momento do combate às formas contemporâneas de escravidão é delicado.

Em 16 de outubro de 2017, o Ministério do Trabalho publicou uma portaria alterando o conceito de trabalho escravo a ser utilizado em fiscalizações, o que dificultaria a libertação de trabalhadores. A medida – que atendia a pedidos de ruralistas e de empresas da construção civil – enfrentou forte oposição da sociedade civil e de setores da política e da economia, além de agências das Nações Unidas. O Supremo Tribunal Federal acabou por bloquear a medida e, no final de dezembro, o governo voltou atrás.

A ''lista suja'' do trabalho escravo, cadastro de empregadores flagrados por esse crime, também foi vítima da mesma portaria. Caso ela prevalecesse, seria tão difícil incluir nomes de empregadores flagrados por esse crime que ela perderia sua utilidade para o gerenciamento de riscos de empresas.

No início de agosto, os recursos financeiros para executar as operações de fiscalização de trabalho escravo acabaram e o fato se tornou público. Com exceção das cidades onde o Ministério do Trabalho contava com escritórios regionais, tornou-se impossível o envio de auditores fiscais para checar ocorrências pela falta de recursos para combustível, hospedagem e alimentação. Por conta da repercussão negativa, o governo fez remanejamentos que possibilitou continuidade, ainda que com limitações.

Por fim, o atual ministro do Trabalho teria demonstrado descontentamento pela publicação de uma nova atualização semestral da ''lista suja'' do trabalho escravo sem sua autorização prévia em abril – o que teria contribuído para aumentar o descontentamento com Maria Teresa.

A necessidade de subordinar a divulgação da lista a uma decisão do ministro estava prevista na portaria de 16 de outubro do ano passado. Esse foi um dos principais pontos de críticas, uma vez que levaria a lista a perder credibilidade pela possibilidade de atender a interesses políticos. A exoneração de André Roston também ocorreu logo após a divisão chefiada por ele finalizar uma atualização da lista – que tem, entre seus críticos mais ferrenhos, a bancada ruralista e parte dos empresários do setor da construção civil e do vestuário.


Brasil não tem pressa para tirar idosos pobres da prisão do analfabetismo

Leonardo Sakamoto

Valterci Santos/ Gazeta do Povo

A quantidade de analfabetos continua caindo no Brasil, mas o ritmo segue mais lento do que o necessário para garantir um mínimo de dignidade a uma parcela significativa do povo – principalmente idosos e negros.

Passamos de uma massa de pessoas iletradas com 15 anos ou mais de 7,2% da população, em 2016, para 7%, em 2017. Os números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgada, nesta sexta (18), pelo IBGE. Isso representa 11,5 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever. Considerando apenas a faixa de 60 anos ou mais de idade, o número é três vezes maior 19,3%.

Entre a população negra, a taxa é de 9,3% – mais que o dobro que a incidência nos brancos (4%). Sobre isso, não há muito o que dizer. É o racismo estrutural brasileiro em números. Um país que aboliu formalmente a escravidão, mas não garantiu dignidade para que a massa de homens e mulheres libertos pudesse começar vida nova, hoje vê os herdeiros dela sofrerem as consequências desse erro histórico. Essa demora em reduzir as diferenças também é fruto de um racismo institucional, no qual o Estado privilegia e protege os brancos em relação ao restante da população.

Os iletrados são os pobres. Mas há mais negros entre os pobres do que sua proporção entre a população total. E isso não é coincidência.

Não é à toa que, no Nordeste, região com baixos índices de desenvolvimento humano, o índice é maior, atingindo 14,5%. No último lugar, as Alagoas, de Fernando Collor e Renan Calheiros, com quase um quinto da sua população (18,2%) sem saber ler ou escrever. Quando considerado apenas as pessoas com 60 anos ou mais na região, a taxa estoura para mais de um terço (38,6%).

Essa quantidade de idosos chama a atenção. Se o país não tomar cuidado, o ritmo de queda do analfabetismo ficará camuflado pela própria renovação geracional: os mais velhos, iletrados, morrendo e dando lugar nas estatísticas aos mais novos, que se beneficiaram da oportunidade que seus pais não tiveram no acesso a programa de transferência de renda ligados à educação básica.

Ou seja, ao invés de aumentar o esforço em programas de alfabetização de jovens e adultos que alcancem essa faixa etária, estaremos solucionando o ''problema'' ao deixá-lo morrer com o tempo, junto à população que sofre com ele.

Enquanto avançamos na inserção digital, com a popularização do acesso à internet através dos smartphones, parte da população não faz ideia de onde fica essa tal de internet ou a que horas ela deve passar no ponto da lotação, pois não é habilitado para ler e escrever. A velocidade de expansão dos que navegam na rede irá colidir, em algum momento, com a necessidade de alfabetizar digitalmente um analfabeto funcional – uma pessoa com 15 anos ou mais, com menos de quatro anos de estudo, com grande dificuldade de se comunicar pela forma escrita.

Considerando que, dentro em pouco, grande parte da vida das pessoas irá passar necessariamente pela rede (e muitas instituições, de bancos a empresas de serviços públicos, a fim de poupar dinheiro, já fazem questão de jogar tudo para a internet, como se todo mundo já estivesse lá) isso significa que o abismo entre incluídos e excluídos será maior do que hoje. Um problema não resolvido encontrará outro problema a resolver.

Estamos em uma sociedade na qual os que viveram mais tempo não são vistos como patrimônio de conhecimento, mas sim como estorvo produtivo, por não poderem fornecer ao capital a mesma energia que garantiam antes, quando eram moços. O interessante é que à medida em que o tempo avança e a pirâmide demográfica brasileira vai mudando, com a redução no número de jovens na base (crianças de até 5 anos – 1991: 11,5%; 2000: 9,8%; 2010: 7,6%)  e o aumento no número de idosos no topo, vamos percebendo a armadilha que estamos construindo para o nosso próprio futuro. E não estou falando da questão previdenciária, mas sim da ausência de políticas públicas que garantam o mínimo de respeito e dignidade aos idosos. Ou seja, a capacidade de se expressar.

E não basta possibilitar o acesso a cursos. Uma camada de idosos pobres deve ser incentivada a participar ativamente das decisões do cotidiano. O país precisa defender que os mais velhos sejam parte ativa da vida em sociedade, reservando a eles papeis importantes. Dessa forma, o esforço para a alfabetização também será valorizado.

A gente até pode conseguir, lá na frente ganhar esse jogo de xadrez que é o letramento de um povo. O problema é a quantidade de peões que perderemos no caminho em decorrência de nossa falta de pressa e indiferença.


Notícia falsa diz que terei o poder de censurar notícia falsa no Facebook

Leonardo Sakamoto

Montagem com três postagens que imputam falsamente meu envolvimento no processo

Está circulando nas redes sociais a informação de que eu darei a última palavra sobre quais conteúdos que podem ou não aparecer nas timelines do Facebook, censurando aquilo com o qual não concordar. Tudo a pedido da maior rede social do mundo.

Sinto desapontar os haters, mas isso é uma notícia falsa sobre uma notícia falsa. Não conseguia mandar nem no meu gato. De qualquer forma, é história que merece ser contada para mostrar como funciona o submundo da construção das ''verdades alternativas'' nas redes sociais. Até porque, por conta dessa farsa, fui atacado – nas redes e na rua.

Primeiro, se esses mesmos grupos que divulgam esse boato não tivessem preguiça ou preconceito de ler, teriam encontrado textos, neste blog, em que exponho algumas premissas sobre o assunto que contrariam o boato, como:

– Defendo fortemente que não é possível, nem desejável, definir por lei o que seja ''verdade'' e o que seja ''mentira'' por lei. Para uma democracia, é preferível um ecossistema político contaminado com a circulação de notícias falsas a um Estado ou grande corporação com o poder de decidir o que deve ter credibilidade e o que não;

– Também defendo que as pessoas tenham acesso a informações checadas com método e qualidade. Quanto mais versões de um mesmo fato, maior a chance de se ter um retrato fiel possível do que chamamos de realidade;

– Liberdade de expressão não admite censura prévia. As pessoas têm liberdade de dizer o que desejam. Mas, ao mesmo tempo, as pessoas são responsáveis legais pelo impacto que a divulgação de suas opiniões causa na vida de outros.  Como não existem direitos absolutos, nem o direito à vida é (caso contrário, haveria punição severa para a legítima defesa), um direito é limitado pelos demais. E é a Justiça quem pune os excessos;

– Na internet, infelizmente ''verdade'' é todo conteúdo no qual acreditamos e ''mentira'' é tudo aquilo do qual discordamos. Para alguns políticos e grupos, essa distorção é usada de forma estratégica para conquistar corações e mentes, travar uma guerra simbólica com a imprensa e a oposição e/ou se manter no poder.

O boato contra mim está sendo bombado por páginas de grupos conservadores e perfis de profissionais liberais, estudantes, trabalhadores da área de tecnologia e professores. Até o procurador de Justiça do Rio de Janeiro Marcelo Rocha Monteiro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro acreditaram na história e compartilharam a informação falsa sem verificar sua veracidade ou procedência.

Tudo começou com o Facebook divulgando sua nova parceria com as agências de checagem de notícias Aos Fatos e Lupa para verificação de conteúdo e difusão da informação checada para a rede social no dia 10 de maio. Imediatamente, grupos conservadores passaram a criticar o anúncio, afirmando que isso levaria à perda de sua liberdade de expressão na rede. Até aí, tudo bem – eles têm todo o direito de expor sua opinião.

O problema é que, na sequência, começaram pesados ataques pessoais aos profissionais que trabalham nessas agências. Esses tiveram fotos próprias, de familiares e de pessoas próximas disseminadas, junto com informações falsas e ofensivas, como registrou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A violência que sofreram deve ser algo de processos judiciais.

Em meio a isso, não apenas fui associado à história, apesar de não participar da parceria para checagem e de não fazer parte de nenhuma agência de checagem de informações, como fui alçado à categoria de um dos líderes do processo. E atacado como tal, em vídeos de grupos radicais, sites e redes sociais.

A razão para tanto, vejam só, é uma outra notícia falsa.

Há alguns anos, sites que veiculam conteúdo fraudulento passaram a divulgar que eu era o proprietário da Agência Pública de jornalismo investigativo, que também conta com um serviço de checagem de informações. Não sou e nunca fui dono ou sócio dessa organização. Permaneci por um tempo como membro de seu conselho consultivo – grupo informal que, uma vez por ano, discute perspectivas, sem remuneração ou cargo, sem poder para nada.

Na época, houve um desmentido da própria Pública, mas como fatos são irrelevantes diante da possibilidade de usar uma mentira em proveito próprio, grupos ultraconservadores que sabem que um naco de seus seguidores não confia em serviços de checagem de notícias e outro naco não vai com a minha cara por conta de meus posicionamentos, passaram a usar essa falsa relação de propriedade para me criticar.

Por ignorância ou má fé, alguém relacionou o serviço de checagem da Agência Pública (sobre o qual eu nunca opinei) a essa parceria com o Facebook, do qual ela também não participa. Isso bastou para um mar de chorume invadir minha timeline e minhas caixas postais, acusando-me de censor, com ataques e ameaças.

O ódio fabricado transbordou e alcançou a rua, onde fui abordado e xingado por conta de uma participação inexistente num processo de checagem de conteúdo.

Falta amor no mundo, mas falta interpretação de texto. Bastariam cinco minutos de leitura para constatar que minha área de atuação sobre a questão da desinformação online é prioritariamente a alfabetização para a mídia – que diz respeito a ensinar técnicas para ajudar as pessoas a consumir e compartilhar informação de forma responsável, garantindo que elas façam as escolhas. Para tanto, um grupo de professores de jornalismo do qual faço parte atua no desenvolvimento de metodologia educacional sobre o tema e conta com apoio de instituições públicas e privadas, entre elas o próprio Facebook.

Considerando o baixo índice de alfabetização midiática, com uma população, em sua maioria, sem ferramentas para discernir o que é um fato real do que é conteúdo fraudento, mas também levando em conta que existem processos de manipulação extremamente desenvolvidos, capazes de enganar até quem desbarata notícias falsas por profissão e com plataformas com transparência limitada, temos um longo caminho para combater a instrumentalização das redes por quem deseja tolher a liberdade.

Não é a primeira vez que sou transformado em alvo ambulante por conta de conteúdo fraudulento. Em 2015, um anúncio pago no Google bombou uma notícia falsa de que eu ganharia milhões para defender políticos. Com a autorização da Justiça, sigilos foram quebrados e os documentos apontaram para a empresa JBS como responsável pela propagação da difamação. Talvez seja pelo fato de que atuo, há quase 20 anos, na denúncia de combate ao trabalho escravo e desmatamento ilegal na cadeia da carne. O que importa é que, no meio disso, fui derrubado na rua, cuspido, perseguido, xingado, acusado injustamente de algo que não cometi. Para ler mais sobre isso, clique aqui.

Ou em 2016, quando um jornal de Minas Gerais publicou em sua capa um manchete em que atribuía a mim uma declaração que nunca dei dizendo que aposentados eram inúteis à sociedade. Ela remetia a uma entrevista inventada de página inteira. Justificaram-se afirmando que foram ''enganados'' por alguém que se passou por mim. Por obrigação legal, tiveram que publicar um direito de resposta na capa e no miolo. Mas o estrago estava feito e, até hoje, redes de ódio utilizam essa informação falsa para atacar.

Para mim, seria muito fácil defender censura prévia aos malucos que despejam ódio e intolerância. Mas prefiro atuar em outras causas, reduzindo a ultrapolarização política, garantindo espaços para o desenvolvimento da empatia, aumentando a pluralidade nas timelines, alfabetizando os mais jovens para a mídia e para o diálogo. Espero que, com essa informação, as informações falsas sejam retiradas do ar.

Isso vale para quem publicou a informação de forma equivocada e desavisada. Se foi de má fé, daí é outra história. A mesma história que está sendo escrita sobre a corrosão da democracia no Brasil.


Quase 28 milhões de brasileiros gritam que o tema da eleição será emprego

Leonardo Sakamoto

Uma ala mostrou o trabalho informal, com integrantes fantasiados de ambulantes, e outra destacou os ''guerreiros da CLT'', com operários segurando uma carteira de trabalho gigante. Foto: Bruna Prado/UOL

O brasileiro médio esta cansado da alta taxa de desemprego e de uma vida de bicos e, ao mesmo tempo, assustado com os mais de 60 mil homicídios anuais. Qualquer candidato cujas propostas consigam cativar o eleitor nas áreas de emprego e segurança pública estará à frente nas pesquisas para a Presidência da República em outubro.

Isso fica mais claro com os números de subutilização da força de trabalho, divulgados pelo IBGE, nesta quinta (17). Os desempregados, pessoas que gostariam de trabalhar mais e os que desistiram de procurar emprego chegam a 24,7% – o que representa uma força de trabalho de 27,7 milhões. Um dado mais dolorido: desses, 13,7 milhões procuraram emprego e não encontraram no primeiro trimestre. Esse resultado é um verdadeiro pedido de socorro.

Caso o governo Michel Temer estivesse surfando em um índice de desemprego de 4%, ele poderia aparecer nadando de sunga nos R$ 51 milhões do apartamento atribuído a seu amigo Geddel Vieira Lima, em Salvador, que a população relevaria, dizendo que ele estava contando doações para o Criança Esperança. Mas não é o caso. E, por conta disso, resplandecem as denúncias de corrupção e da compra de votos feita para engavetá-las. O que faz de Temer uma das únicas unanimidades entre coxinhas, mortadelas e o grosso não-alinhado da população.

Cerca de 4,6 milhões de pessoas (ou 4,1%) desistiram de procurar emprego. A região Nordeste concentrou 60,6% do desalento do país. E 15,9% do desemprego, enquanto o Sul apresenta 8,4%. O Nordeste segue entregando a Lula, mesmo preso em Curitiba, uma grande quantidades de votos devido à lembrança dos anos de bonança de sua gestão. Para o povão, não importa que houve uma confluência de fatores internacionais, como um ciclo positivo de commodities aumentando o caixa. O que importa era o crédito fácil, as faculdades e os programas sociais.

Boa parte dos candidatos à Presidência da República, até agora, têm explicado seus planos de geração de emprego e retomada do crescimento ao mercado, a grandes empresários e a figuras proeminentes da classe média. Contudo, a internet mudou o processo de formação de opinião para uma parcela significativa da sociedade, tornando o canal direto. É bom os candidatos começarem a explicar diretamente para o povo, de forma clara e objetiva, como vão gerar empregos em pouco tempo se quiserem aumentar suas chances.

A pauta da corrupção será importante, mas não decisiva na construção do voto, ainda mais considerando o histórico extremamente pragmático do brasileiro. Foi assim com a reeleição de Lula, em 2006, mesmo com o PT atolado no Mensalão. O que significa que a vida pregressa de partidos contaminados pela corrupção vai pesar menos na organização de coligações do que o tempo de rádio e TV que poderão oferecer para que sejam veiculadas as promessas.

Donald Trump não ganhou as eleições presidenciais nos Estados Unidos por conta de seu discurso de campanha ultraconservador. Isso contribuiu, porém ele não conseguiu o voto de eleitores de Estados que desempataram a corrida eleitoral por conta de discursos machistas, xenófobos e homofóbicos. Mas, sim, ao prometer ao trabalhador médio norte-americano a recuperação de seus empregos, perdidos com a globalização. Discurso que atingiu o lugar certo usando serviços como o da Cambridge Analytica. E contou com uma mão dos russos e dos jovens macedônios para a desconstrução de sua adversária.

Para muitos, o restante do que ele disse foi relevado. Não porque concordassem com os preconceitos de Trump, mas por causa desse cálculo racional.

Até agora, porém, poucos foram os que formularam publicamente algo a respeito dos empregos com um mínimo de solidez, falando diretamente com o público que espera ver e ouvir essa informação em sua rede social por seu smartphone simples com acesso via wi-fi gratuito. Quem se depara com os lugares-comuns proferidos pela maioria dos pré-candidatos a respeito de geração de empregos, sem ações efetivas e concretas de curto prazo, vai dormir mais triste e preocupado.

E olhando para os candidatos de todo o espectro ideológico e para a cobertura da própria imprensa, a população tem a impressão de que o tema central da campanha será o próprio Lula.

Claro que as eleições dependem do que vai acontecer com ele como pré-candidato e se será capaz de transferir votos a outra pessoa. Mas seria bom os pré-candidatos começarem a abrir esse debate com o povão.

Pelo menos, aqueles com capacidade cognitiva para tanto.


A montanha de jovens negros mortos é prova de nosso fracasso como país

Leonardo Sakamoto

Túmulo de Ítalo, 10 anos, no Cemitério São Luiz. Ele havia sido morto a tiros pela polícia, que afirma que ele havia furtado um carro com um colega de 11 anos. Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Há mais jovens negros mortos por policiais do que em homicídios dolosos no Estado de São Paulo. A informação é de estudo da diretora do Fórum Brasileiro de Segurança, Samira Bueno, publicada pela Folha de S.Paulo desta quinta (17).

De 2014 a 2016, 16% dos mortos por policiais tinham menos de 17 anos – o que representa mais que o dobro daqueles que eram vítimas de homicídios em geral (8%). Além disso, 67% das vítimas fatais de ações policiais eram negras contra 46% do total de homicídios. O número de mortos pela polícia paulista, em 2017, foi de 943 pessoas – o maior nos últimos 25 anos.

Nas redes sociais, a filosofia de botequim joga na vala comum todos os morto pela polícia. São tachados de culpados sem terem direito a um julgamento justo, recebendo pena de morte. Pois, ''se levaram bala da polícia é porque estavam em lugar que gente honesta não frequenta''.

Muitos dos autointitulados ''cidadãos de bem'' apoiam ações que caminham no sentido de uma limpeza social rápida e silenciosa – até porque eles têm horror a cenas de violência.

Em julho do ano passado, reportagem do UOL apontou que nove entre cada dez pessoas mortas pela polícia no Estado do Rio de Janeiro eram negras. O dado foi obtido através da Lei de Acesso à Informação. Organizadas com base em boletins de ocorrência da Polícia Civil, as informações mostraram que, ao menos, 1227 pessoas foram mortas pela força policial entre janeiro de 2016 e março de 2017. Metade delas tinham até 29 anos. A maioria na periferia.

Mesmo diante desses números, o que assusta de verdade é que muitos dos homens, brancos e ricos, moradores de regiões nobres, não conseguem entender por que muita gente pobre no país teme a polícia tanto quanto ou mais do que teme os próprios bandidos. Na última pesquisa Datafolha sobre o tema, 49% da população tem medo de sofrer violência por parte da PM – ao passo que o número cresce junto aos grupos mais pobres.

Sem demérito para outras pautas sociais e políticas, essa concentração de mortes seria razão mais do que suficiente para ocuparmos as ruas do país em protesto. Mas morte de jovem negro e pobre não vale o arranhão deixado na caçarola por uma bateção de panelas.

É claro que não há ordens diretas para metralhar todos os jovens negros e pobres da periferia dadas pelo comando do poder público. Mas nem precisaria. As forças de segurança em grandes metrópoles, como o Rio ou São Paulo, são treinadas para garantir a qualidade de vida e o patrimônio de quem vive na parte ''cartão postal'' e, ao mesmo tempo, controlar e reprimir os mais pobres.

As batalhas do tráfico sempre aconteceram longe dos olhos da classe alta, uma vez que a imensa maioria dos corpos contabilizados sempre é de jovens, negros, pobres, que se matam na conquista de territórios para venda de drogas, pelas leis do tráfico e pelas mãos da polícia e das milícias. Os mais ricos sentem a violência, mas o que chega neles não é nem de perto o que os mais pobres são obrigados a viver no dia a dia. Considerando que policiais, comunidade e traficantes são de uma mesma origem social e, não raro, da mesma cor de pele, é uma batalha interna. Mortos pelos quais pouca gente fora das periferias irá prantear.

Policiais envolvidos nessas mortes não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser humano. Não é da natureza da maioria das pessoas que decide vestir farda (por opção ou falta dela) tornar-se violenta. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na superexploração diária que sofrem como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter a ordem (e o status quo) a qualquer preço. Esse problema não se equaciona apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma revisão sobre o papel, a estrutura e os métodos da polícia em nossa sociedade.

E, apesar de haver uma grande maioria honesta de policiais (que também são vítimas de estúpidas mortes, em serviço ou fora dele), há setores das corporações que estão impregnados com a ideia de que nada tem que mudar. Por isso, é preciso avançar no debate sobre qual corporação queremos. Não é possível que a polícia atue como se estivesse em guerra contra seu próprio povo, aquele que ela deveria proteger.

Como já disse aqui, ao se criticar as mortes pelas mãos do Estado, não defendemos ''bandido'', mas sim o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia. Não entregamos para o poder público a autorização do uso da violência para que ele a utilize como ferramenta básica de solução de conflitos, muito menos contribua com uma matança de jovens negros. Se for para isso, não precisamos de um Estado, muito menos de governantes.