Blog do Sakamoto

Em derrota da barbárie, um Maluf idoso e doente ficará preso em casa

Leonardo Sakamoto

O Supremo Tribunal Federal manteve a condenação de Paulo Maluf, nesta quinta (19), mas permitiu que ele continue cumprindo pena em casa devido ao seu estado de saúde debilitado e seus 86 anos.

O ministro Edson Fachin, relator do caso, decidiu pela prisão domiciliar – benefício que o deputado federal já desfrutava desde que José Dias Toffoli lhe concedeu um habeas corpus por razões humanitárias em março. Maluf, condenado a mais de sete anos por lavagem de dinheiro, ficou preso por três meses no presídio da Papuda, em Brasília.

Um relatório do hospital Sírio-Libanês apontou que ele tem câncer de próstata com metástase nos ossos, incontinência urinária, cardiopatia, artéria coronária entupida, anemia, broncopneumonia e hemorragia digestiva alta, entre outros condições clínicas que demandam cuidado.

O STF decidiu pelo caminho do bom senso. Considerando que o país não conta com pena de morte em tempos de paz, apenas em períodos de guerra, manter Maluf na cadeia nessas condições representaria tortura como parte integrante de um ato de vingança – e não manifestação da Justiça.

A Suprema Corte distancia-se, dessa forma, das hordas de bárbaros que demandavam sangue a fim de lavar os incontáveis pecados de um dos políticos mais corruptos e mentirosos da história deste país. Elas querem vê-lo sofrer da mesma forma que ele fez milhões sofrerem com seus desvios de recursos que poderiam ter sido usados para garantir qualidade de vida à população de São Paulo.

Mal percebem que a cada vez que defendem o ''olho por olho, dente por dente'' ou que Maluf  ''morra na cadeia'', caminham para longe de uma sociedade baseada no respeito à dignidade e se aproximam da sociopatia do próprio Maluf.

Considero-o uma das mais nefastas figuras da política, mas seu sofrimento aos 86 anos não servirá de exemplo para dissuadir ninguém. Pelo contrário, só demonstrará que somos incapazes de punir alguém decentemente.

Como já descrevi aqui anteriormente, a situação mostra que falhamos duplamente. Pois a prisão de Maluf, apenas em dezembro do ano passado, é retrato de nossa incompetência em manter um sistema seletivo de Justiça que prefere ricos a pobres e poderosos a fracos. Mas também retrato da incapacidade de entender que uma pessoa nessa idade não deveria ser submetida ao sistema prisional medieval que temos. Seja ela quem for.

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O mais interessante é que as hordas de bárbaros que lançaram chorume nas redes sociais logo após a decisão de Fachin ser comunicada preferem gastar tempo desejando a morte de um idoso do que se organizando para pressionar o Congresso Nacional a adotar leis mais rigorosas para quem desvia recursos públicos. Regras que não apenas peguem de volta os valores desviados, mas também confisquem boa parte do patrimônio de quem roubou patrimônio público.

O que não é fácil, admitido, uma vez que, no Brasil, a propriedade privada é mais importante que a liberdade e a vida.

A irônica prova disso é que algumas das pessoas que pedem Maluf morrendo na cadeia por ter desviado os recursos que seriam usados para sua construção de casas populares são as mesmas que comemoram quando a polícia senta a borracha no lombo de trabalhadores sem-teto que ocupam um terreno por falta de lugar para morar. A equação ''propriedade > dignidade'' não está apenas na cabeça dos mais ricos, mas foi devidamente ensinada à toda população, que se torna cão de guarda do sistema.

A violência física dentro dos presídios não é a principal responsável pelas mortes dos detentos, apesar da sensação que as cenas violentas de rebeliões com peladas que usam cabeças decapitadas possam transmitir. A maior parte, de acordo com o Ministério da Justiça, é provocada por doenças como tuberculose, sífilis, hanseníase, leptospirose, HIV/Aids e infecções de pele, como a sarna. Ou seja, a violência que mata pobre na cadeia é o descaso.

Não há plano de prevenção, medicamentos, o esgoto corre nas celas à céu aberto, ratos roem a carne e urinam e defecam nas pessoas, baratas passeiam por todos os cantos, comida apodrece sendo maternidade de microorganismos. Isso multiplicado pela superlotação. Nada de bom pode brotar disso, o que só fortalece as facções criminosas que protegem os seus dentro das cadeias.

No Rio, 517 presos morreram em decorrência de doenças entre janeiro de 2015 e o início de agosto do ano passado. Enquanto isso, 37 foram assassinados em suas celas. Em São Paulo, foram 443, entre 2015 e 2016. Números trazidos por reportagem de Flávio Costa e Paula Bianchi, do UOL, sobre o tema mostram que a população encarcerada tem 28 vezes mais chance de contrair tuberculose e a taxa de prevalência de HIV/Aids é de 1,3% dos presos – três vezes mais do que no restante da sociedade.

Apesar da decisão do Supremo com relação a Maluf ser de caráter individual, o Conselho Nacional de Justiça deveria demandar levantamentos nacionais que pudessem ajudar os defensores públicos a estender o benefício a outros condenados idosos e/ou gravemente doentes.

E recomendar uma mudança de postura a juízes, desembargadores e ministros. Pois quando os advogados públicos conseguem identificar os casos e levá-los à decisão judicial, não raro os magistrados negam o benefício, condenando essas pessoas à morte.

Não gritamos por décadas que Paulo Maluf não é melhor que ninguém e que deveria ser tratado como todos os outros? Pois bem, todos os outros também deveriam ser tratados como Maluf.


Aécio tornou-se réu, mas Justiça continua seletiva ao combater corrupção

Leonardo Sakamoto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

''Eu espero que Deus ilumine os desembargadores.'' Condenado em segunda instância a quase 21 anos de prisão por peculato e lavagem de dinheiro, em agosto de 2017, o ex-governador Eduardo Azeredo pode ser preso caso sejam negados seus recursos na semana que vem. Ele reclamou ao jornal O Estado de S.Paulo que está sendo entregue como compensação para aplacar a fome por um tucano em meio às prisões de petistas no âmbito da Operação Lava Jato.

Mesmo que ele seja preso, contudo, a Justiça não terá provado que inexiste seletividade no combate à corrupção no Brasil.

E apesar da quantidade de pessoas que saudaram a transformação de Aécio Neves em réu por corrupção passiva e obstrução de justiça pelo Supremo Tribunal Federal como prova de equilíbrio da Justiça, isso não resolve a piada involuntária contida na expressão ''a lei é para todos''. Até porque muitos internautas nem entenderam a piada.

Não estou aqui para minimizar as acusações contra petistas e seus aliados. Todos devem pagar pelos crimes que cometeram caso fique provado seu delito com evidências sólidas e atos de ofício. Mas chega a ser nonsense vender a ideia de que a prisão de Lula tem o mesmo peso que o combo Prisão de Azeredo mais Aécio-réu.

Se neste momento o ex-governador Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB ao Palácio do Planalto, estivesse bem colocado nas pesquisas de intenção de votos e a Justiça o condenasse, de forma célere, em segunda instância em decorrência das delações da Odebrecht, seria um indicativo de que a seletividade é um mito. Mas o Superior Tribunal de Justiça encaminhou o caso para a Justiça Eleitoral ao invés da Justiça Federal. Se por um lado, isso tranquilizou o governador e enervou abutres que seguem de olho na vaga de candidato tucano à Presidência, por outro alimentou a desconfiança de quem acredita que o Judiciário tem suas preferências.

E esse teatro não é feito a portas fechadas, mas a olhos vistos. Em junho do ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral contrariou o relator Herman Benjamin e absolveu a campanha de Dilma Rousseff e Michel Temer de crime eleitoral por 4 votos a 3. Isso garantiu uma sobrevida ao governo de Temer. Para isso, foi ignorada farta quantidade de provas e evidências apresentadas, mostrando que PT e PMDB se beneficiaram de caixa 2 na eleição de 2014.

Naquele julgamento, a vitória só foi possível graças à atuação constrangedora de Gilmar Mendes, amigo pessoal de Temer, que acumulou as funções de presidente da corte e advogado de defesa. Se Dilma Rousseff fosse a presidente, a decisão teria sido outra. Mas como não interessava ao poder econômico (que galopava um pato amarelo em direção a um Brasil de reformas e perdões de dívidas públicas), nem ao poder político (que buscava se salvar da Lava Jato, encher os bolsos e ter apoio ao seu projeto de regresso à Idade Média), muito menos a Dilma, cujo advogada defendia sua inocência, ficou por isso mesmo.

A ''faxina'' promovida pelo combate à corrupção não atingiu todo o espectro partidário envolvido em denúncias. Não adianta dizer que o PT estava no governo federal desde 2003 porque o PSDB estava entre 1995 e 2002 e o PMDB e outras anêmonas ideológicas estavam lá desde sempre. Isso sem contar que o mesmo chorume que corre sob o Palácio do Planalto também flui por governos estaduais, prefeituras, parlamentos. E, não nos esqueçamos, por quartéis, da polícia às Forças Armadas.

A Justiça no Brasil sempre foi seletiva. Sua velocidade depende de quem são os réus, seu pedigree e conta bancária. Pode ser mais rápida ou mais lenta de acordo com a necessidade. E mais ou menos condescendente também. A história da Operação Lava Jato é uma história de vazamentos seletivos, aliás. Informações que, divulgadas pela imprensa aos poucos e com ênfase em determinados personagens, foram construindo uma narrativa que aponta quem são os ''únicos'' responsáveis pela corrupção e como funcionam as relações incestuosas entre parte das elites política e econômica do país.

Por conta da seletividade nos vazamentos e seus desdobramentos, não temos a história inteira e talvez nunca tenhamos. Vazamentos que caibam dentro de uma narrativa não costumam ser punidos ou questionados. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, por exemplo, reclama de parte deles. De outros, não.

O então ministro da Justiça Alexandre de Moraes antecipou uma operação da Polícia Federal no âmbito da Lava Jato em uma palestra para simpatizantes em Ribeirão Preto (SP). Foi criticado na época e deixou de ser ministro da Justiça. Foi promovido, incluindo o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal ao currículo que já incluía o posto de Secretário de Segurança Pública de Geraldo Alckmin.

''Eu espero que Deus ilumine os desembargadores'', diz Eduardo Azeredo.

''Eu espero que Deus ilumine os eleitores'', penso eu.


Temer prometeu estabilidade e cumpriu: sua reprovação segue estável em 70%

Leonardo Sakamoto

Foto: Evaristo Sá/AFP

Temer cumpriu uma de suas promessas e entregou estabilidade ao país. Desde setembro do ano passado, a reprovação ao seu governo mantém-se em surpreendente estabilidade na casa dos 70% com alguma variação para cima – de acordo com pesquisa Datafolha divulgada nesta terça (17).

Quando tudo está indo para o buraco, governantes ao redor do mundo criam guerras para desviar a atenção da imprensa e entreter a população. Mas, aqui, nem a intervenção federal no Rio de Janeiro, que entregou o comando da área de segurança pública às Forças Armadas, foi capaz de melhorar os indicadores de Temer. E provavelmente, se houver algum ganho com todo esse teatro mal planejado e executado às pressas, ele será computado na conta do Exército.

Não há razão contudo, para ele ficar chateado, uma vez que assumiu publicamente, e em mais de uma ocasião, que (supostamente) não se importa em ser querido ou reconhecido:

''Um governo com popularidade extraordinária não poderia tomar medidas impopulares. Estou aproveitando a suposta impopularidade para tomar medidas impopulares'', afirmou em dezembro de 2016.

“Usei a minha impopularidade para fazer as reformas necessárias”, reafirmou, um ano depois, em dezembro do ano passado.

Parte dessa impopularidade se deve à situação da economia brasileira e à taxa de desemprego superior a 12%. Não dá para dizer que ele simplesmente herdou a situação, uma vez que fazia parte do governo petista e das decisões equivocadas tomadas por ele. E o processo de impeachment, que ele ajudou a capitanear, apenas levou mais instabilidade a uma já combalida economia.

Mas Temer enfiou por goela abaixo dos brasileiros a Reforma Trabalhista e a Lei da Terceirização Ampla, sob a promessa de geração rápida de empregos de qualidade. Os seguidos números de desemprego do IBGE comprovam que a promessa patina e postos de trabalho, quando surgem, são informais. Garantiu, dessa forma, popularidade junto ao mercado financeiro e ao empresariado e, com isso, foi se mantendo no poder.

Comprou os votos necessários para se livrar de duas denúncias criminais apresentadas ao Supremo Tribunal Federal pela Procuradoria-Geral da República, oferecendo cargos, emendas, apoio na aprovação de leis, perdões bilionários de dívidas e até tentando rifar o combate ao trabalho escravo, com uma polêmica portaria que enfraquecia o conceito, a pedido de ruralistas e representantes do setor da construção civil.

Agora, incapaz de entregar a Reforma da Previdência e imobilizado pela dificuldade trazida pelo calendário eleitoral perdeu a utilidade ao poder econômico. Vê seu círculo próximo de amigos e colaboradores serem presos ou acusados de crimes. Percebe que – assim que perder o foro privilegiado – pode também ir ao xilindró.

Sua intenção em se candidatar à Presidência da República, mesmo com os míseros 2% de intenção de voto, tem menos a ver com proteger seu ''legado'' e mais com negociar com outro partido alguma garantia de proteção. Isso se o STF não restringir o foro para apenas um punhado de autoridades em maio.

No final das contas, a impopularidade de Temer não é fruto de seu árduo trabalho pelo futuro do país. Mas de sua jornada em busca da própria sobrevivência.

Pena que isso custou a integridade de nossa democracia e de muitas de nossas instituições.


“Fui ingênuo”: Aécio pede R$ 2 mi para JBS e, depois, se finge de mané

Leonardo Sakamoto

Foto Lula Marques

''Fui ingênuo, cometi erros e me penitencio diariamente por eles. Mas não cometi nenhuma ilegalidade.'' Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, nesta segunda (16), o senador Aécio Neves (PSDB-MG) recorreu novamente ao artifício da imaculada inocência para justificar sua relação incestuosa com o dono da JBS.

A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu, nesta terça, receber a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra ele, tornando-o réu por corrupção passiva (uma gravação expôs o senador pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista) e obstrução de Justiça. Votam cinco ministros em cada turma. Foram 5 a 0, para o primeiro crime, e 4 a 1, com relação ao segundo – com Marco Aurélio acatando parcialmente e Alexandre de Moraes rejeitando a acusação.

Não é a primeira vez que Aécio apela ao expediente. Por exemplo, em maio do ano passado, em outro artigo-depoimento na mesma Folha, afirmou a mesma coisa. ''Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa [o dono do JBS] naquele momento.'' Pela insistência, deve estar convencido que a tática do ''vai que cola'', que funcionou longamente para uma parte do tucanato acusado de malfeitos, continuará positiva e operante.

Mas não é o único. ''Lamento sinceramente minha ingenuidade – a que ponto chegamos, ter de lamentar a boa-fé! Não sabia que na minha frente estava um criminoso sem escrúpulos, sem interesse na verdade, querendo apenas forjar citações que o ajudassem nos benefícios de sua delação.'' A frase, que poderia ser de Aécio, foi dita por Michel Temer também em maio.

Só alguém muito desesperado é capaz de declarar-se ''café-com-leite'' como artifício de defesa diante de um escândalo de corrupção. Pois ambos sabem que demandaria uma imensa dose de ignorância da população para acreditar nessa desculpa. Ou uma vontade grande de ser enganada.

Aécio talvez queira surfar nas icônicas palavras de Sérgio Machado, no não menos icônico grampo com Romero Jucá (''o primeiro a ser comido vai ser o Aécio''), para mostrar que se autointitular ingênuo pode dar certo. Afinal, nas palavras de Machado, ''0 Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe?''

Utilizar a ingenuidade é uma espécie de recurso arriscado porque parte do país pode até cair no conto de políticos ''mal informados'', mas a maioria não aceita aqueles que se declaram fracos e passíveis de serem levados por conversas moles durante os exercícios de seus mandatos.

Ou seja, não querem um ''mané'' os representando.

A justificativa pode ter seu valor junto a processos judiciais ou políticos que Temer e Aécio estão sofrendo por conta do que foi revelado. É uma versão piorada do ''eu não sabia'', muito em uso nos governos do PSDB, do PT e do PMDB.

Mas como tem sempre um chinelo velho para um pé cansado, há grandes chances dele se eleger pelo menos deputado federal. Se bem que caso o foro privilegiado seja restrito em análise do STF marcada para maio, o downgrade do Senado para a Câmara terá sido inútil.

O cinismo adotado por Aécio constrange. E pior do que termos que engolir a questão (da falta de) ética, sua representação canastrã da ''ingenuidade'' é algo esteticamente imperdoável.

Post atualizado às 17h29, do dia 17/04/2018, para inclusão da informação sobre o recebimento da denúncia pelo STF.


O agro é pop, mas também mata

Leonardo Sakamoto

Corpos de trabalhadores no Hospital de Redenção, no Pará, após a Chacina de Pau D'Arco. Foto: Repórter Brasil

O ano de 2017 foi o mais violento no campo desde 2003. De acordo com o levantamento anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgado nesta segunda (16), 70 assassinatos em conflitos foram registrados.

Antes que algum semovente grite que isso não é nada comparado à outra tragédia (os 6.731 óbitos de forma violenta no Estado do Rio de Janeiro, em 2017), vale considerar que Altamira (PA), base para a construção da hidrelétrica de Belo Monte e de um sem-número de violações aos direitos de trabalhadores e povos do campo, apresentava 107 mortes para cada 100 mil habitantes segundo o Atlas da Violência 2017,  do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A taxa no Rio, no ano passado, foi de 40 mortos para cada 100 mil habitantes.

Se o Estado do Rio operasse com a mesma taxa de violência, teriam sido mais de 18 mil mortos em 2017. Isso não é uma competição para ver qual desgraça é maior, apenas um lembrete que o campo não deve ser esquecido ao prantearmos os mortos da estupidez de brasileiros e do Estado que os servem.

Porque os assassinatos no campo são resultado de um modelo de desenvolvimento concentrador, excludente, que privilegia o grande produtor e a monocultura, em decorrência ao pequeno e o médio. Que superexplora mão de obra, chegando, no limite, à escravidão contemporânea, a fim de facilitar a concorrência em cadeias produtivas cada vez mais globalizadas. Que fomenta a grilagem de terras e a especulação fundiária, até porque tem muita gente graúda e de sangue azul se beneficia com as terras esquentadas e prontas para o uso. Que muito antes da época dos verde-oliva já considerava a região como um “imenso deserto verde” a ser conquistado – como se o pessoal que lá morasse e de lá dependesse fossem meros fantasmas. Que está pouco se importando com o respeito às leis ambientais, porque o país tem que crescer rápido, passando por cima do que for. Que divide o espólio da corrupção e do desvio de recursos públicos ou royalties milionários pagos a municípios pobres. Tudo com a nossa anuência, uma vez que consumimos os produtos que vêm de lá alegres e felizes sem nos perguntar sobre o que aconteceu em sua longa cadeia produtiva.

De acordo com a CPT, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), os assassinatos de sem-terra, indígenas, quilombolas, posseiros, pescadores, assentados, entre outros, tiveram um crescimento brusco a partir de 2015. No ano passado, o Pará registrou 21 assassinatos – sendo que dez apenas no Massacre de Pau D'Arco. Rondônia, Bahia, Mato Grosso, Maranhão e Amazonas completam a lista dos seis estados mais mortais. Das 70 mortes, pelo menos 28 ocorreram em massacres.

Com louváveis exceções, como a de magistrados com coragem de condenar escravagistas ou de procuradores que não dão trégua a quem mata e desmata, a Justiça tem servido para proteger o direito de alguns mais ricos e de grandes empresas braseiliras e estrangeiras (a Amazônia não foi ''internacionalizada'' por ONGs, mas por multinacionais) em detrimento dos que nada têm na região rural. Mudanças positivas têm acontecido, mas muito pouco diante do notório fracasso até o presente momento.

Os governos Dilma, Lula, Fernando Henrique, Itamar, Collor e Sarney não mexeram no modelo de exploração do campo, sendo corresponsáveis pelas tragédias que ocorreram sob seus mandatos. Já o governo Temer parece querer nos levar de volta à época da ditadura militar, quando a ocupação violenta da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal contava com a anuência do Estado.

Mortes no campo não são de hoje, mas há muitos produtores rurais e extrativistas gananciosos que estão com sangue nos olhos neste momento. Talvez por se sentirem fortalecidos pelas alianças políticas que fizeram, talvez por verem no atual governo federal um aliado para suas demandas. Querem mudar as regras da demarcação de territórios indígenas, suprimir ainda mais a proteção ambiental, ''flexibilizar'' as regras para a implantação de grandes empreendimentos, enfraquecer o conceito de trabalho escravo contemporâneo. E estão ouriçados quanto à possibilidades de vitória de determinados candidatos à Presidência e aos governos estaduais em outubro. Candidatos que prometeram liberar geral.

Preparem-se. A Era dos Massacres no campo está de volta. E, se não fizemos nada, ela veio para ficar.

 


O país elegeria um presidente negro? E político que dá declaração racista?

Leonardo Sakamoto

Foto: Ruy Baron / Agência O Globo

Desconfio que é mais fácil para uma parte do Brasil engolir um candidato que dá repetidas declarações racistas, homofóbicas e machistas do que escolher um negro ou uma negra presidente.

A procuradora-geral da República Raquel Dodge denunciou Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal por declarações discriminatórias e preconceituosas contra quilombolas, entre outros grupos, na última sexta (13).

Os eleitores que já o apoiam deixarão de votar nele por conta disso? Provavelmente, não. Aliás, uma parte da população (pequena, importante frisar) vota nele exatamente por isso. Uma outra releva esse lado ''exagerado'' e ''fanfarrão'' (como a ignomínia é chamada por alguns nas redes sociais) em nome da promessa de ordem e segurança no país dos 60 mil homicídios por ano. Por mais que sua principal proposta nessa área seja armar a população. Ou seja, cada um por si e a Taurus por todos.

Há um núcleo da candidatura de Bolsonaro com mais de 10% que diz seu nome em pesquisas espontâneas e fecha com ele mesmo que quebre o pescoço de um gatinho em praça pública e depois dê uma bicuda no cadáver. Foi assim quando Donald Trump, então candidato à Presidência dos Estados Unidos, foi acusado de violência sexual contra mulheres. Os escândalos que apareceram durante a campanha não foram capazes de retirar votos o suficiente para que perdesse a eleição. Não é culpa apenas de sites russos ou da Cambridge Analytica, ao contrário do que alguns querem fazer crer. Parte considerável dos eleitores acreditou em sua promessa de geração de empregos.

Não são poucos os analistas que afirmam que a intenção de voto de Bolsonaro de 17% no primeiro turno, segundo a pesquisa Datafolha, divulgada neste domingo (15), representa o teto do deputado federal. Desconfio que não seja tão simples, uma vez que nas sondagens de segundo turno, chega a alcançar 39%. Há um naco considerável de eleitores que aceita votar nele para derrotar um candidato do PT que não seja Lula. Digo isso porque o ex-presidente, hoje preso na Polícia Federal em Curitiba, jantaria Bolsonaro por 48 a 31.

A denúncia formalizada contra ele pela procuradora-geral da República Raquel Dodge, a meu ver, não tira votos consolidados, mas talvez contribua com o aumento à rejeição junto aos eleitores indecisos.

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A questão do racismo nas eleições tem um outro lado. O país, que nunca se libertou da Casa Grande, aceitaria um negro como presidente?

Independentemente do que eu ache de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, recém-filiado ao PSB para disputar a Presidência da República, uma parte do Brasil profundo não o tolera pelo simples fato de ser negro. Um outro grupo até tolera, mas não como o principal cargo do país. É uma parte pequena da população, mas um termômetro do que nós temos de pior.

Claro que Barbosa, por conta de sua atuação no julgamento do Mensalão ou mesmo pelo fato de ter ''vencido na vida'' por conta própria, tende a crescer muito mais do que os 10 pontos que alcança, nos melhores cenários, da pesquisa Datafolha de ontem. E ser uma alternativa real ao centro. Mas comentários contra ele, daquele tipo que deveria estar se decompondo no lixo da História, transbordam de grupos neonazistas brasileiros e circulam em redes de extrema direita. Chegam a ser mais virulentos do que aqueles contrários à eleição de candidatos de origem nordestina.

É pouco provável que esse esgoto ganhe a luz do sol entre agosto e outubro porque seria rapidamente esterilizado pelo movimento negro, que tem encabeçado – junto ao movimento feminista – uma paulatina revolução cultural no país.

Mas certas coisas não precisam ganhar o debate público, correndo livremente no WhatsApp, rede social em que o ódio é blindado de interferências externas. Basta que sigam alimentando a existência de preconceitos em nosso dia a dia.

O pedaço de Brasil que aplaude comentários racistas de Jair Bolsonaro é o mesmo que espalha coisas impublicáveis contra a cor de pele de Joaquim Barbosa. Ambos podem ocupar o Palácio do Planalto a partir do ano que vem, sendo responsáveis pela efetivação das políticas de proteção às minorias em direitos.

Nos Estados Unidos, um país tão racista quando o nosso, os eventos em Charlottesville, no ano passado, com homens brancos carregando tochas e entoando palavras de ordem contra negros, migrantes, população LGBT e judeus, que culminaram na morte por atropelamento de uma manifestante antifacismo, causaram uma reação popular. Ela contou com a ajuda de Donald Trump que, através de catastróficas intervenções, tentou equiparar manifestantes racistas com aqueles que eram contra o discurso de ódio.

Executivos de grandes empresas que participavam de conselhos de Estado deixaram seus postos em protestos às declarações de Trump, que foi obrigado a dissolver essas instâncias sob o risco da humilhação de uma debandada geral. A população passou a questionar marcas das empresas com relação estreita com o governo norte-americano por conta do ocorrido. Ameaçavam com um dos mais fortes instrumentos da democracia liberal: o boicote. Capas de veículos de comunicação como a New Yorker, a Time e a Economist, esta última inglesa, mas com grande circulação nos EUA, afirmaram claramente que o país, sob Trump, estava ventilando grupos racistas e neonazistas. A maré negativa na mídia foi tão pesada que o presidente foi criticado até pela aliada e conservadora rede de televisão Fox News.

Se isso demonstra que a paciência da elite liberal norte-americana com Trump tem limite, isso está longe de significar uma mudança estrutural na forma como o Estado norte-americano trata suas minorias em direitos. Vidas negras continuarão não importando e sendo alvo preferencial da violência policial, da mesma forma que trabalhadores migrantes ainda serão tratados como carne de segunda, com ou sem a ampliação do muro com o México.

Nossa sociedade é mais violenta que a norte-americana sob qualquer ponto de vista e, aqui, vidas negras importam menos do que lá – dos quase 60 mil homicídios já citados, em 2015, as vítimas preferencias foram jovens negros e pobres. Mas os discursos que defendem racismo, machismo e homofobia e autorizam a violência contra grupos mais vulneráveis seguem ganhando forma na rede e nas ruas no Brasil. Enquanto não tivermos mobilizações fortes e contundentes contra isso, do Estado, do setor privado e da sociedade em geral, esse tumor tende a crescer.

O problema é que uma parte de nossa elite também é menos cosmopolita, menos preparada e mais tosca que a norte-americana. Lá existe uma direita liberal consistente e democrática, coisa que faz falta no debate público daqui. E considerando que há grandes empresários que não têm vergonha alguma em dizer que, por exemplo, trabalho escravo não existe (apesar de pertencerem ao agronegócio e ao setor de vestuário, com grande ocorrência de libertações de pessoas) e que defendem valores que fazem corar o Tea Party, movimento ultraconservador ligado ao partido republicano, talvez a eleição de uma figura apolítica seja tudo o que o Brasil precisa para se tornar uma grande Bangladesh ou Somália da desregulamentação do mercado de trabalho e do fim do ''peso'' dos programas sociais.

Ao mesmo tempo, uma parte progressista homem e branca da sociedade permanece reclamando porque grupos historicamente vilipendiados resolveram deixar claro que estão assumindo um novo patamar na luta contra o racismo, o machismo, a homofobia, a humilhação. Essa ala progressista fica de mimimi ao invés de aceitar a autocrítica (que incomoda, eu sei, por isso é necessária), ouvir outros grupos sobre as formas de apoiá-los e ir às ruas ao seu lado, ao invés de subordiná-los à estrutura partidária, sindical ou de movimentos tradicionais ou à sua própria narrativa.

Talvez estejamos apenas esperando um país de terra arrasada para que os poucos que sobrarem superem as diferenças e marchem juntos sobre seus escombros contra o racismo, o machismo, a homofobia, a desigualdade social.

Afinal de contas, por aqui, é mais fácil destruir do que erguer algo juntos.


Mesmo preso, Lula continua o “grande eleitor” de 2018, aponta Datafolha

Leonardo Sakamoto

Foto: Nelson Almeira/AFP

Se a eleição presidencial fosse hoje, Lula – que cumpre pena na sede da Polícia Federal, em Curitiba – seria o fiel da balança, empurrando um dos candidatos para o segundo turno se não puder concorrer. É o que apontam os números da pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (15).

Dois terços dos seus eleitores afirmam que votariam em alguém que ele indicasse, uma vez confirmado que sua foto não aparecerá na urna eletrônica. Um número que não deve ser descartado, considerando que suas intenções de voto giram em torno dos 30% e que nenhum outro candidato atinge, sem ele, mais que 17%.

Análise de Mauro Paulino e Alessandro Janoni, do Instituto Datafolha, aponta que o patamar mais baixo de intenção de voto de Lula em comparação à pesquisa anterior sugere que o eleitorado pode estar percebendo que ele deve estar inelegível – não é possível cravar isso uma vez que não há uma série histórica porque novos nomes foram inseridos entre os candidatos.

Contudo, depois de preso, os números apontam que o potencial de Lula como cabo eleitoral cresceu, a rejeição à sua candidatura caiu e sua intenção para o segundo turno se manteve. E os entrevistados seguem divididos ao meio a respeito dele poder participar ou não do pleito.

Como o PT o mantém, por enquanto, como candidato à Presidência da República, Lula não indicou nenhum ''herdeiro'' de seus votos. Por ora, não é possível analisar de fato se esse potencial de transferência se concretiza em algum nome.

Ao mesmo tempo, é cada vez mais duvidosa a possibilidade de Lula conseguir um habeas corpus e recorrer em liberdade. Ele pode inscrever sua candidatura, mesmo preso, até 15 de agosto, e ter uma campanha eleitoral. Mas é improvável que o Tribunal Superior Eleitoral não julgue sua candidatura e o declare inelegível em setembro.

A estratégia do PT é seguir com o ex-presidente à frente da candidatura presidencial para que ajude também a puxar votos a governos e, principalmente, ao Congresso Nacional (o partido terá uma enorme batalha pela frente para não reduzir sua influência no parlamento). Trabalha com a data-limite de 17 de setembro – prazo máximo para inserção dos nomes nas urnas pelo TSE.

A influência eleitoral de Lula pode continuar crescendo, seja pelo fortalecimento de sua narrativa de ''preso político'', seja pela (grande) possibilidade de nenhum outro candidato empolgar a massa de eleitores mais pobre que é fiel ao petista a ponto de convencê-la. Mas, principalmente, porque apesar da economia dar sinais de melhora, o emprego segue patinando – fazendo com que os mais pobres se lembrem da época de Lula como presidente.

Ou pode cair à medida em que passarem os meses e um grande naco de seus eleitores, não o vendo mais no dia a dia para discutir as pautas nacionais, procure outros candidatos.

Daí, o dilema do partido: vale a pena escolher outro candidato, como Fernando Haddad e Jaques Wagner, ou apoiar um candidato de outro partido desde já, aproveitando a popularidade atual de Lula, ou esperar para fazer isso na última hora, contando que ela não vai cair até lá? Vai ser uma decisão dura.

Por enquanto, o que é possível afirmar, apesar das previsões e os desejos de todos os lados, é que não é possível afirmar nada. Além do fato que Lula segue sendo, como ele mesmo informou em seu derradeiro discurso, uma resiliente ideia.


PGR para Bolsonaro: Você é livre para falar, mas responsável pelo que diz

Leonardo Sakamoto

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil

Jair Bolsonaro (PSL-RJ) foi denunciado ao Supremo Tribunal Federal pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, nesta sexta (13). Ela pede a condenação de deputado federal e pré-candidato à Presidência da República nos termos da lei 7.716/1989 (''Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional''), contra quilombolas e refugiados estrangeiros. Também citou preconceito e ódio contra indígenas, mulheres e população LGBTT.

A pena prevista é de um a três anos de cadeia. Dodge solicitou que ele fosse denunciado duas vezes pelo mesmo crime, devido a repetidas manifestações.

Em abril do ano passado, durante um discurso no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, Bolsonaro usou expressões discriminatórias, incitando preconceito contra esses grupos historicamente oprimidos. A denúncia também inclui outros discursos do deputado que atentaram contra a dignidade dos LGBTT.

Dodge ressalta que Bolsonaro se dirigiu aos quilombolas como se fossem animais: ''Eu fui em um quilombo em El Dourado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador eles servem mais. Mais de um bilhão de reais por ano gastado com eles.'' Para ela, o deputado federal  “era capaz à época dos fatos'' e ''tinha consciência da ilicitude e dele se exigia conduta diversa, sobretudo por se tratar de um parlamentar”.

''Nesse contexto, a conduta do denunciado atingiu bem jurídico constitucionalmente protegido e que transcende a violação dos direitos constitucionais específicos dos grupos diretamente atingidos com a suas manifestações de incitação ao ódio e à discriminação para revelar violação a interesse difuso de toda sociedade, constitucionalmente protegido'', diz Raquel Dodge na denúncia. Por isso, a PGR ainda pede uma indenização de, no mínimo, R$ 400 mil.

A PGR também denunciou seu filho Eduardo Bolsonaro por enviar ameaças a uma jornalista. Jair Bolsonaro já é réu no STF em duas ações penais por dizer que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) ''não merecia'' ser estuprada.

Logo após a imprensa trazer a denúncia a público, seguidores e fãs do deputado afirmaram nas redes sociais que isso era uma ataque à liberdade de expressão.

Contudo, é exatamente o contrário. Bolsonaro teve o direito de dizer o que queria sem ser censurado previamente. Agora, os grupos socialmente vulneráveis que foram ameaçados pela fala do deputado tiveram sua dignidade defendida pela procuradora-geral da República.

O direito ao livre exercício de pensamento e o direito à liberdade de expressão são garantidos pela Constituição Federal e pelos tratados internacionais que o país assinou. É uma das bases de nossa democracia.

Da mesma forma, as pessoas também têm o direito a não serem violentadas física e psicologicamente por sua cor, etnia, gênero, origem, classe social e orientação sexual. O direito à liberdade de expressão não é mais ou menos importante que o direito à própria segurança ou à vida.

A liberdade de expressão não é um direito fundamental absoluto ao contrário do que muitos dizem. Porque não há direitos fundamentais absolutos. Nem o direito à vida é. Prova disso é o direito à legítima defesa.

Todo direito humano, como a liberdade de expressão, é limitado pelos outros direitos humanos. Um não pode se sobrepor a ele.Esses limites não são necessariamente pré-estabelecidos, mas definidos de acordo com a interação cotidiana entre eles. Dizemos que os direitos humanos são interdependentes e interrelacionados. Não podemos usar a sua liberdade de expressão para promover o fim da liberdade de expressão de outro grupo.

A partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, indo além de expor a sua opinião, espalhando o ódio e incitando à violência, como fez Bolsonaro, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas.

Mas, aí, temos uma informação importante: a liberdade de expressão não admite censura prévia. Ou seja, apesar de alguns juízes não entenderem isso e darem sentenças aqui e ali para calar de antemão biografias, reportagens, propagandas, movimentos sociais, a lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizerem o que pensam. E foi o que aconteceu, Bolsonaro quis falar, Bolsonaro falou.

Contudo, há o outro lado da moeda: as pessoas são responsáveis pelo impacto que a divulgação de suas opiniões causam. Como é o caso de propor a restrição de direitos e até a extirpação social de um grupo específico, como homossexuais, transexuais, quilombolas, mulheres, estrangeiros, LGBTT. Toda pessoa que conclamar violência a outra, principalmente contra uma minoria em direitos, está sujeita a sofrer as consequências: pagar uma indenização, ir para a cadeia, perder o emprego, ter sua candidatura cassada.

A responsabilidade por uma declaração é diretamente proporcional ao poder de difusão dessa mensagem. Quanto mais pública a figura, mais responsável ela deve ser. Quanto maior o megafone, mais responsável ela deve ser. Quanto mais seguidores uma página ou conta em rede social tiver, mais responsável a pessoa ou o grupo devem ser a respeito da divulgação de suas posições.

O problema não é ter opinião ou declará-la. E sim como você faz isso. De forma respeitosa ou agressiva? Privilegiando o diálogo de diferentes e buscando uma convivência pacífica, ou conclamando as pessoas para desrespeitar ainda mais aqueles vistos como diferentes por medo ou desconhecimento?

O ideal seria ir além da mera tolerância, com as pessoas enxergando essas diferenças como uma coisa boa para termos uma sociedade mais plural e interessante. Porém, na atual impossibilidade disso, a tolerância já está de bom tamanho.

Por fim, muitas pessoas que são formadoras de opinião ou influenciadoras digitais dizem que não incitam a violência. Não é a mão delas que segura a faca ou o revólver, mas é a sobreposicão de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna o ato de esfaquear, atirar e atacar banais. Ou, melhor dizendo, “necessários'', quase um pedido do céu.

São pessoas como essas que alimentam lentamente a intolerância, que depois será consumida por quem faz o serviço sujo. E há muita gente disposta a isso.

Agora, é esperar para ver como o Supremo Tribunal Federal vai se manifestar. Se você reclama de excesso contra o deputado, está equivocado. Pelo menos, neste caso, as instituições estão funcionando normalmente.


Primeiro, a gente tira a Dilma e o PT. Depois… relaxa que o país é nosso

Leonardo Sakamoto

Foto: Marcos Corrêa/PR

A Justiça no Brasil sempre foi seletiva. Sua velocidade, por exemplo, depende de quem são os réus, seu pedigree e conta bancária. Pode ser mais rápida ou mais lenta de acordo com a necessidade. E mais ou menos condescendente também.

Se for pobre e negro, está lascado. Por outro lado, ricos e brancos têm mais chances de ter uma interpretação da lei que os favoreçam. Seja porque têm mais recursos para gastar em sua defesa, seja porque sua rede de proteção é maior e alcança as pessoas certas. Isso sem contar as preferências político-ideológicas em comum – afinal de contas, o Poder Judiciário não está desconectado do tecido social para ser imune a ele.

Muito pelo contrário. Se há magistrados comprometidos com os direitos fundamentais, há outros comprometidos com sua própria classe.

O Superior Tribunal de Justiça salvou o pescoço de Geraldo Alckmin das mãos da Operação Lava Jato, enviando seu processo para a Justiça Eleitoral após ele ter perdido o foro privilegiado com sua renúncia ao governo paulista para disputar a Presidência da República. Questionado, o vice-procurador-geral da República, Luciano Mariz Maia, afirmou que a delação da Odebrecht só tinha elementos para questionar Alckmin por crime eleitoral (Caixa 2) e não corrupção passiva.

Pode ser. Mas por muito menos que isso, cardeais petistas tornam-se réus. Além disso, o histórico das investigações recentes no país mostra que há um tratamento diferenciado para cardeais tucanos em detrimento a membros de outros partidos. Natural, portanto, a estranheza sobre o encaminhamento do caso para a primeira instância eleitoral, ainda mais um processo sob o manto do sigilo.

Apesar de corrupção não ser monopólio de determinada agremiação ou governo e ser um problema estrutural, a Justiça parece estar se esforçado em nos convencer do contrário. E pelo comportamento virulento de certos internautas, que acham que o país se tornou a Terra Prometida após a prisão de Lula, com leite e mel correndo pelo meio-fio de grandes avenidas, creio que é essa imagem que está colando para uma parte da população. Daqui a pouco, todos se darão por satisfeitos e os trabalhos da Lava Jato serão encerrados.

Mas a Justiça também pode ser seletiva com ela mesmo. Como é o caso de casais de juízes que acumulam auxílio-moradia, como o juiz Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio e sua companheira. Vale ressaltar que ele não recebeu isso automaticamente. Teve que correr atrás e lutar pelo que afirma ser um direito seu.

Falando em previsão de direitos, o artigo 7º, inciso IV, da Constituição Federal prevê que o salário mínimo pago a um trabalhador seja ''capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social''. E seja ''reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo, vedada sua vinculação para qualquer fim''. Porém, se um morador de São José da Tapera, nos sertão de Alagoas, pedir à Justiça que o seu salário-mínimo atenda tudo isso aí será encaminhado para tratamento de demência.

O curioso é que, enquanto a maior parte das postagens nas redes sociais mostrava indignação pelo privilégio dobrado do magistrado, muitos defendiam a graça alcançada afirmando que os juízes da Lava Jato podem ter o que quiserem por ''trazerem moralidade ao país''.

Cidadãos que afirmam lutar contra a corrupção deveriam ser os primeiros a ir contra privilégios pagos com recursos públicos. Mas parte da sociedade não se importa e defende que deva existir uma casta diferenciada formada por pessoas que conquistaram o direito de terem privilégios perante a lei.

Isso, quando toca o chão da vida cotidiana, reforça aberrações.

Qualquer resquício de pudor vindo de pessoas que já se sentiam superiores às demais, por sua classe social, cor de pele, etnia desaparece.

O trânsito, espaço de contato de diferentes grupos que, caso contrário, nunca trombariam, confirma essa hipótese.

Um carro que deve custar o mesmo que o apartamento em que moro parou em frente à garagem do prédio para sua dona fazer compras na loja à frente. Diante da reclamação, ficou irritada. Afinal, por que não podíamos esperá-la só por uns minutos? Li quatro histórias semelhantes a essa na última semana. Sempre com alguém que, em sua cabeça, acreditava que o país existe para servi-lo. E, nos relatos, os que não conseguiam entender isso e questionavam ou eram tratados como burros ou como subversivos que precisam serem colocados em seus devidos lugares.

Se até a Justiça considera que existem algumas pessoas que estão acima do restante de nós, por que quem tem um pouco a mais na conta bancária deve manter as aparências? Mandando às favas os escrúpulos, o sujeito que se sente diferenciado, diante de uma réplica, estufa o peito e, sem medo do ridículo, solta um ''você sabe com quem está falando?''. Frase que é uma herança de um Brasil dividido entre aqueles feitos para servir e os que nascem para serem servidos.

A ''faxina'' promovida pelo combate à corrupção não atingiu todo o espectro partidário envolvido em denúncias. Diante do fato de que até uma morsa com problemas de visão devido à falta de vitaminas consegue perceber isso, quem diz que ''a lei é para todos'' ou é mal informado ou age de má fé.

Sabe aquela história de ''primeiro, a gente tira a Dilma, depois tira o resto?'' Mentira. E muitos caíram nela. Feito patinhos que seguiam um patão amarelo.

Instituições foram esgarçadas para que o impeachment coubesse nas necessidades do poder econômico e da velha política. E seguem sendo esgarçadas quando a dureza da lei é aplicada apenas a um lado da história, enquanto o outro continua fazendo o que quer. Mas agora com a sensação de liberdade plena lambendo suas faces.

Com o aprofundamento do esgarçamento, pagamos todos o preço do clima de desrespeito a leis e regras com o consequente ''foda-se'' a tudo aquilo que nos une como um país.

E como o naco brasileiro que não nasceu em berço de ouro responde a isso? Há aqueles cujo desejo é ser igual aos líderes políticos, judiciais e econômicos que idolatram. Esses seguem guerreiros de uma realidade que não é sua, torcendo para um dia ''chegarem lá''. E, enquanto isso, mostram todos os dentes a quem questiona seus mestres.

O restante cultiva desalento, impotência, desgosto e cinismo. Isso não estoura em manifestações com milhões nas ruas, mas gera uma bomba-relógio que vai explodir invariavelmente em algum momento, ferindo de morte a democracia. Pois caídas em descrença, instituições levam décadas para se reerguer – quando conseguem. No meio desse vácuo, surge a oportunidade que, dentre os semoventes que se consideram acima das leis, alguns se apresentem como a saída para os nossos problemas. Como salvadores da pátria.

A triste constatação, ao fim de tudo isso, é que a pátria precisa ser salva dos salvadores da pátria.


Passou da hora de Palocci delatar bancos e grandes empresas

Leonardo Sakamoto

Antonio Palocci escoltado pela PF após ser preso em 2016. Foto: Rodolfo Buhrer / Reuters

Antônio Palocci, há muito tempo, teve o seu histórico político convertido em capivara criminal. E o principal responsável por isso foi ele mesmo.

Condenado a mais de 12 anos de prisão pelo juiz federal Sérgio Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, teve seu habeas corpus negado, nesta quinta (12), pelo Supremo Tribunal Federal. Ninguém de fato acredita que seria um problema permitir que ele recorresse em liberdade – afinal é apenas uma sombra do que já foi. Parece que a maioria do STF não quer é ter que comunicar a soltura do Palocci à sociedade, pois pensa que isso significaria colocar em descrédito a lei. E, além disso, qual seria o interesse da Lava Jato em soltá-lo? Nenhum.

(Erro dele, aliás, ter pedido a desfiliação do PT, em setembro do ano passado, e não buscado a do PSDB logo em seguida. Poderia estar solto agora, curtindo um chope no Pinguim em Ribeirão Preto…)

A manutenção de sua prisão não tem o objetivo de ''amacia-lo'' em nome de um delação para atingir Lula (ato que, aliás, é uma das mais deploráveis práticas da Lava Jato). Porque as declarações dadas pelo ex-ministro em seus depoimentos a Moro já foram fartamente usados contra o ex-presidente. Além disso, Lula já está preso e há munição de sobra contra ele na forma de outros processos que ainda serão julgados.

Mas se o que Palocci tem para contar não interessa ao Ministério Público Federal, o mesmo não se pode dizer da Polícia Federal, que adoraria fechar uma colaboração premiada com ele. Caso abra o bico para reduzir sua pena, bancos e grandes empresas vão passar anos dando explicações à sociedade.

A cadeia não é a primeira queda de Palocci, mas tem tudo para ser a última. Em março de 2006, renunciou ao cargo de ministro da Fazenda após o escândalo da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa, testemunha de acusação contra ele no caso da CPI dos Bingos. Depois, pediu demissão do cargo de ministro-chefe da Casa Civil, em junho de 2011, depois de denúncias de enriquecimento ilícito virem à tona. Foi preso em setembro de 2016.

Enquanto era ministro da Fazenda e seguia a cartilha do mercado, foi chamado de bastião da sensatez, defensor da moeda, guardião da estabilidade, entre outras groselhas proferidas pelos rentistas que encheram os buchos de grana durante o governo Lula. Para quem não se lembra, o capital – com ele tinha um relacionamento bom até demais – aumentou seu rendimento bem mais do que o trabalho naqueles anos.

Já naquela época, contudo, a parte da esquerda que não concordava com o modelo do qual Palocci era fiador, tecia longas críticas a ele e ao governo federal.

O ministro da Fazenda teve anos para buscar, por exemplo, o retorno da taxação de 15% sobre os dividendos recebidos de empresas por grandes acionistas – cobrança que havia sido derrubada pelo governo Fernando Henrique. Ou de implementar um Imposto de Renda realmente progressivo, com alíquotas de até 40% para quem ganha muito e isentar a maior parte da classe média. Ou uma forte redução de taxas do consumo, aumentando tributos sobre a riqueza e a transferência por herança. Ou seja, reduzir a desigualdade. Não fez nada disso.

Alertávamos sobre isso naquela época. Mas muitos dos mesmos analistas, políticos e empresários que, hoje, jogam pedra no ex-ministro-presidiário eram os mesmos que saíam em sua defesa, fazendo juras de amor eterno.

Palocci deve ser um dos maiores arquivos vivos das negociatas nacionais.

Os defensores da colaboração premiada apontam políticos como únicos chefes de quadrilha, o que está longe de ser verdade. Empresários moldaram o Estado de acordo com suas necessidades, comprando e vendendo quem fosse preciso, sangrando os cofres públicos, escrevendo e aprovando leis que os beneficiavam.

Por isso, Palocci deveria delatar os grandes empresários e os representantes do mercado, do agronegócio ao sistema financeiro, das indústrias ao comércio. Seria o empurrão que falta para duas importantes reformas: a Política (uma de fato, não o arremedo feito no ano passado) e a Tributária. Para chacoalhar de vez o país e dar o reset que a gente precisa.

Gostaria de falar agora com Palocci: Meu caro, você está preso. Está tendo que trocar o uísque por Maria-Louca. E não vai rolar mais delivery de pizza gourmet, apenas jumbo. Enquanto teus parceiros de negócios no setor privado aproveitarão praia, você ficará curtindo um banho de sol – e apenas por algumas horas por dia. Pense bem, eles valem a pena? Você aposta que vai ter tranquilidade financeira garantida por eles quando sair?

Mesmo que isso não deduza nada de sua pena, delatar trará o prazer de ser o responsável pelo maior rebosteio que esse país já viu.

Entrega tudo, Palocci.