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A bizarra defesa dos arrozeiros na Raposa Serra do Sol

Leonardo Sakamoto

06/05/2008 17h51

A desocupação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, instaurou um debate acalorado na sociedade. De um lado, os arrozeiros que invadiram a área indígena, anos atrás, quando já sabiam que aquela terra pertencia a terceiros. Do outro lado, povos indígenas que não querem nada além de seus direitos. Apoiando o primeiro grupo, temos políticos ligados ao agronegócio – que vêm nas reservas indígenas um entrave ao progresso [do lucro de proprietários rurais], alguns ministros de tribunais superiores (me pergunto quantas chances Marco Aurélio Mello perdeu de ficar quieto e não falar besteira), empresários gananciosos e jornalistas reacionários.

O debate está assumindo níveis de ignorância explícita. Já ouvi jornalistas afirmarem que se trata de uma "interdição" de uma área do tamanho de Sergipe para uma populaçao indígena de alguns milhares, comparando a situação com a de trabalhadores rurais sem-terra que esperam a reforma agrária. Primeiro, é um grande erro comparar culturas tão diferentes e tão díspares. Índios caçam e para isso precisam de uma grande área, enquanto nós podemos escolher nossos produtos industrializados e com conservantes nas prateleiras de qualquer supermercado. Isso sem falar das mudanças de roçado e nas suas áreas místicas. E não são as reservas indígenas o entrave da reforma agrária no Brasil. Sabemos que o problema está mais para a política do que a para a antropologia.

Não vemos a mesma indignação de jornalistas, juízes e políticos contra agricultores que possuem centenas de milhares de hectares de terra sob o nome de suas famílias. Há latifúndios do tamanho de países, com uma taxa ridicularmente baixa de produtividade e não cumprindo sua função social – prevista na Constituição.

Vale lembrar que os indígenas ajudaram o Brasil a ser o soberano daquelas terras, quando no início do século passado eles se disseram brasileiros durante a disputa com a Inglaterra/Guiana. Se reserva em área de fronteira fosse um risco para o país, o território Ianomami, de área bem maior, criado há tempos, já teria virado um país.

Ainda há os que acreditam que é necessário levar o índio brasileiro da idade das trevas da perdição para a luz de nossa sabedoria ocidental, chegando a ponto de sugerir a eles o "american way of life" como linha de comportamento. É uma questão de tempo até os valores ocidentais chegarem aos índios isolados – sim, eles ainda existem.

Podemos ficar sentados e esperar acontecer o que houve em outros lugares do Brasil, onde índios pedem esmolas na porta de bancos, em Rio Branco, ou se vestem especialmente para dançar para crianças da classe média alta de São Paulo. Ou podemos procurar soluções para que essa convivência seja a menos traumática possível, a fim de que sejam preservados sua cultura e, principalmente, sua dignidade.

Para isso é necessário que lhes seja garantido não só o direito de usar a sua própria terra, mas também apoio para encarar esse mundo novo que avança assustadoramente na velocidade de uma onça.
Na Região Norte, os imbecis cunharam a idéia de que índio é sinônimo de atraso no desenvolvimento. Há os que possuem o discurso ensaiado, como as empresas de extração mineral da Amazônia – que babam em cima de reservas indígenas ricas em ouro, diamantes e até urânio.

O conceito de desenvolvimento sustentável ainda é incipiente, para não falar quase inexistente em várias partes do Brasil. E é mais fácil ignorar o que se aprendeu com os erros do passado do que pegar um atalho para obter dinheiro fácil. Não é destruindo o ecossistema que o desemprego será solucionado. E depois, quando a madeira acabar também nas reservas, o que irá se fazer? Atravessar a fronteira e atacar a Bolívia? Bem, não se está muito longe disso, uma vez que guardas florestais do Parque Noel Kempf Mercado, uma reserva boliviana bem cuidada e estruturada, acusam brasileiros de roubar madeira.

O futuro do desenvolvimento sustentável passa por uma reformulação nos projetos para a região. Talvez seja a hora de repensar a pecuária e a monocultura.

Por conseguinte, disso depende o futuro de todos grupos indígenas não só de Roraima, mas de todo o país. Abandonados, desprezados, encurralados na terra que um dia já foi sua, como mostra matéria sobre o tema publicada recentemente na Repórter Brasil. Trocados por boi com o apoio e a conivência da sociedade civil. Ou servindo de atração circense nas grandes capitais.

Índios vem sendo mortos freqüentemente. Assim como árvores são transformadas em tábuas. E nunca ninguém precisará saber ao certo quem faz isso porque, na verdade, não estamos mesmo interessados. Que a vida siga como ela sempre foi: nós com nossas reservas intocadas sem gente, os estrangeiros com suas mesas de madeira maciça, carne em abundância e soja barata, os latifundiários com grandes pastos, políticos com férias em Angra e os trabalhadores com seus empregos efêmeros. Do que nos interessa a vida de um grupo de índios, empurrado de um lado para outro, cumprindo pena por ter subvertido a ordem nacional?

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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