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A "Ditabranda" Militar (1964-1985)

Leonardo Sakamoto

22/02/2009 23h18

No editorial de 17 de fevereiro, o jornal Folha de S. Paulo deu uma mancada sem tamanho ao chamar a última ditadura brasileira (1964-1985) de "ditabranda". O objetivo era criticar o presidente Hugo Chávez e sua recente vitória política obtida através de plebiscito que lhe deu a possibilidade de disputar mais um mandato em 2012. A idéia era fazer um contraponto com os regimes da década de 70 e 80 na América Latina para afirmar que a situação na Venezuela de hoje é muito pior. Segue o trecho em questão:

Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral. Mas, se as chamadas "ditabrandas" -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.

Para ler a íntegra do editorial (para assinantes) clique aqui.

É claro que muitos leitores criticaram o termo usado, uma afronta à história e à memória das centenas que foram mortos e acabaram desaparecidos pelas mãos da Gloriosa. Entre os que se indignaram com a "ditabranda", algumas personalidades, como os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, cuja carta publicada pelo jornal eu posto abaixo:

Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda"? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!

No dia 20 de fevereiro, ao comentar as cartas, o jornal trouxe esta pérola:

Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.

Isso me lembra aquele velho ditado o futebol: a melhor defesa é o ataque… Hoje, o ombudsman criticou a resposta do jornal, ainda que de forma tímida:

Já me referi aqui ao escopo do trabalho do ombudsman, que não abarca as opiniões publicadas pelo jornal, em editoriais, colunas ou artigos. (…) Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no "Painel do Leitor". Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores. 

Isso tudo originou um abaixo-assinado de repúdio ao editorial da Folha e de solidariedade a Comparato e Benevides, cuja adesão pode ser feita por este link. Entre os que assinam estão Antonio Candido, Goffredo da Silva Telles Júnior e Margarida Genevois. Segue o texto:

Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio a arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S.Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do pais. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história polí­tica brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pos-1964.

Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redação, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victória de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S.Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis a atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal. Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.

É interessante como o maior jornal do país, com uma besteira dessas, acaba menosprezando a própria campanha pelas eleições diretas e contra a ditadura que ele abraçou e lhe trouxe prestígio em meados dos anos 80. A Folha pode ter opinião e deve deixá-la claro para os seus leitores. Mas, por favor, sem atentar contra nossa inteligência e mantendo um mínimo de educação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.