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São Paulo, 456: uma longa história de exclusão

Leonardo Sakamoto

24/01/2010 20h02

Logo após a fundação da vila de São Paulo de Piratininga, José de Anchieta, com a ajuda de índios catequizados, ergueu um muro de taipa e estacas para ajudar a mantê-la "segura de todo o embate", como descreveu o próprio jesuíta. Os indesejados eram índios carijós e tupis, entre outros, que não haviam se convertido à fé cristã e, por diversas vezes, tentaram tomar o arraial, como na fracassada invasão de 10 de julho de 1562.

Ao longo dos anos, a vila se expandiu para além da cerca de barro, que caiu de velha. Vieram os bandeirantes (cada povo tem os heróis que merece…) que caçaram, mataram e escravizaram milhares de índios sertão adentro.

Da África foram trazidos negros, que tiveram de suportar árduos trabalhos nas fazendas do interior ou o açoite de comerciantes e artesãos na capital. No início do século 19, a cidade tornou-se reduto de estudantes de direito, que fizeram poemas sobre a morte e discursos pela liberdade. Depois cheirou a café torrado e a fumaça de chaminé, odores misturados ao suor de imigrantes, camponeses e operários.

Mas, apesar da frenética transformação do pequeno burgo quinhentista em uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, centro financeiro e comercial da América do Sul, o muro ainda existe, agora invisível. Só quem não quer enxergar vê na capital paulista uma terra em que todos têm direitos e oportunidades.

Anos atrás, durante a produção de uma reportagem sobre participação popular na cidade, pedi para jovens escreverem cartas sobre São Paulo. Em comum, o fato de serem de serem pobres e terem que suar muito, mas muito mais que um jovem de classe média para conquistarem um lugar ao sol. No aniversário da minha cidade, trago trechos dessas cartas com uma leitura de esperança. Pois, cabe a esses jovens tomar em suas mãos o poder e derrubar o muro quinhentista.

Se houve melhora na maneira como a administração municipal trata os mais humildes em São Paulo, isso se deve à sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas. Até porque nossos "grandes líderes" naufragam em tempos de chuva.

Quero apostar que se a política higienista do município que arrota grandeza não acabar com eles antes, a esperança vence.

Paraisópolis
Paraisópolis é uma favela gigantesca em meio aos belíssimos prédios do bairro do Morumbi. Sua população é composta em maioria por imigrantes nordestinos, que vieram pra São Paulo em busca de seus sonhos e, hoje compõe uma massa de suores, cheiros, cores e histórias tão distintas, que fazem dessa favela um lugar inigualável para se morar. No entanto, nos últimos anos, houve (e ainda há) um crescimento descontrolado da favela, decorrente de outra migração: a de pessoas de outros bairros de São Paulo. Problemas que já eram preocupantes, se agravaram. Um deles, que talvez seja até a causa de outros, é a falta de lazer. É inacreditável, mas grande parte das pessoas que vivem em Paraisópolis jamais foi ao cinema ou teatro, raramente passeou em um shopping center, não reconhece o prazer de se ler um livro e muito menos já entrou em um museu. É uma realidade dura, pois o significado de cidadania, cultura, diversão e liberdade se perdem em meio às rotinas de trabalho, problemas e dificuldades que todos enfrentam. Paraisópolis não é apenas mais uma favela que agride o belo rosto da capital, mas sim é a cara do Brasil miscigenado e do povo sofrido, que cansa de esperar para ser apresentado à cartilha dos Diretos Humanos, que diz que todos têm o direito de desfrutar da arte e da cultura, além do direito ao descanso e ao lazer.

Simone Oliveira de Santos, então com 18 anos

Centro
Moro há dez meses em um prédio ocupado pelo Movimento Sem-Teto do Centro [MSTC], na avenida Prestes Maia, 911. Graças à luta por moradia é que não moro debaixo da ponte ou na rua. Pois há mais ou menos um ano minha mãe não consegue emprego e não temos dinheiro para pagar um aluguel. O movimento por moradia vem revitalizando de verdade o Centro de São Paulo. Pois do que adianta falar de revitalização se a população está toda nas periferias, enquanto a região central está lotada de edifícios enormes, devendo altos valores de IPTU e vazios. Revitalizar o centro não é só pensar em museus e essas coisas enquanto o povo fica na rua. Porque quem paga aluguel não come e quem come não paga aluguel! No início, eu não tinha muita fé. Nunca tinha participado de uma ocupação e não acreditava que ocupando prédios abandonados teria algo no futuro. Com o passar do tempo, vi que as coisas foram mudando e comecei a enxergar o movimento com outros olhos, de seriedade e confiança. Fui me interessando nas atividades que tínhamos pela frente, para a melhoria do prédio que havíamos ocupado. Com muita luta e esforço limpamos tudo e organizamos as coisas da melhor maneira possível.

Tânia Carolina de Moura, Fernanda Abreu e Luciana Vítor, moradoras de um prédio ocupado pelo MSTC, então com 19, 20 e 17 anos respectivamente. O local acabou sendo desocupado pela prefeitura de São Paulo, que encaminhou todos para a rua.

Jardim Ângela
Eu morava no Parque Fernanda, uma região onde não havia muitas opções de futuro. Ou eu entrava nas rodinhas de "amigos" – e lá, há muitas – ou vinha morar com a minha avó aqui no Jardim Ângela. E assim entrei no grupo de jovens da Igreja. Com eles, comecei a ajudar em uma casa chamada "Arca", que cuida de crianças deficientes da região. No começo, foi chocante e complicado ao mesmo tempo, pois não sabia direito como cuidar daquelas crianças com tantas dificuldades. Mas com algumas instruções, logo peguei o jeito. Foi muito gratificante e aprendi a dar mais valor à minha própria saúde e vida todos os dias. Além do mais, elas me passaram um carinho e um amor tão grandes… Isso faz seis meses e só não estou mais lá por falta de tempo. Com quase dois anos participando de projetos sociais, aprendi a ser mais humano, a tentar solucionar os problemas das pessoas ao meu redor e comecei a entender os porquês de tanta judiação que assola a população do Jardim Ângela. Hoje, tenho vários trabalhos na comunidade. Também sou educador de alfabetização de jovens e adultos, monitor na igreja, mediador de leitura na Biblioteca, enfim participo ao máximo de tudo, promovendo o ser humano, com a educação, a cultura e o diálogo.

Rodrigo Tadeu Mendonça, então com 19 anos.

Cidade Tiradentes
A escola deveria existir de uma maneira com que os alunos sentissem vontade de estar ali. Não são apenas paredes que fazem uma escola: para uma educação responsável são necessárias diversas mudanças, desde a relação escola-comunidade até a postura do professor com a escola. Ou a escola e a forma de ensinar mudam de cara ou continuaremos ouvindo coisas como: "Aumenta o número de jovens assassinados", "Aumenta o número de jovens com Aids", usando drogas, brigando por nada. Para que haja mudanças, é importante também resgatar alguns valores: respeito, persistência, amor próprio, auto-estima, e, principalmente, responsabilidade. A escola precisa encarar o desafio de que formar alunos de qualidade não se resume a abastecê-los de conteúdo. É, também, não ignorar a realidade que os cerca. A população deveria freqüentar as escolas, participando de atividades, como esporte, música, artesanato, junto com os alunos. Principalmente nos finais de semana, quando os pais têm mais tempo livre. Pois assim ficariam por dentro dos problemas que as escolas enfrentam e poderiam se mobilizar para tentar resolver.

Maurantonia da Silva, então com 20

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.