Blog do Sakamoto

Ministro da agricultura quer ser Rei do Brasil

Leonardo Sakamoto

Porto Alegre – Há tempos, este blog criou o Troféu Frango para premiar declarações e situações estranhas, daquelas que assustam o imaginário popular. Hoje, o agraciado é o ministro da Agricultura e Pecuária Reinhold Stephanes.

Vamos aos fatos: O ministro, discursando a produtores rurais no Paraná nesta terça (27), reclamou que o setor agropecuário não conta com a devida atenção que merece e não usufrui do poder a que teria direito:

“Falta ao setor mais visibilidade, participação, capacidade de mobilização e de reivindicação. No sentido que, efetivamente, pela importância daquilo que ele produz, daquilo que ele representa na sociedade, ele também represente em termos de poder de decisão.”

Ouvi duas vezes a entrevista que ele concedeu e demorei a crer que o ministro se referia ao agronegócio brasileiro. Pois a fala seria bem mais apropriada para descrever o universo dos trabalhadores rurais, que se esfolam para gerar a riqueza no campo ficando apenas com um pequeno quinhão do que é produzido. O setor agropecuário conta com uma elite política e econômica extremamente influente que, grosso modo, está no centro das decisões desde as capitanias hereditárias. O tripé latifúndio, monocultura e escravismo ajudou a forjar o que somos nós e nossa identidade, atravessando colônia, império, república, chegando a ter voz e assento em todos os governos pós-redemocratização.

Em seu discurso, o ministro cobrou mudanças nas propostas do 3o Programa Nacional dos Direitos Humanos que tratam da reintegração de posse de terras ocupadas. Disse que o ministro Nelson Jobim (Defesa) conseguiu o que queria porque tinha o Exército ao seu lado. Sob aplausos, afirmou que há milhares de agricultores, um exército deles, dispostos a protestar em Brasília.

Esqueceu-se de dizer que vários agricultores já possuem um exército, ou melhor, milícias com organização, treinamento e poder de fogo bem maior que os tradicionais jagunços. Essas milícias particulares, formadas por empresas de segurança ou arregimentadas por conta própria, tocam o terror no campo para garantir a manutenção do status quo.

Enquanto isso, exibições públicas de força, como o cavalo de pau de tratores no gramado do Congresso Nacional ou o bloqueio de rodovias por agricultores insatisfeitos não são raras, mas existem em menor número se comparadas com as pressões que ocorrem em corredores palacianos ou nos parlamentos. Bilhões de reais em dívidas são perdoados pelo Estado (ou seja, você, eu, nós pagando pela incompetência administrativa alheia), outros bilhões colocados em linhas de financiamento que depois não serão honradas. O de sempre: lucros são privados, prejuízos são públicos.

Rasga-se as leis ambientais, fundiárias e sociais para garantir o que o ministro chama de “sentimento de segurança”, ou seja, a confortável sensação de impunidade para quem desmata, rouba terra pública, descumpre a função social da propriedade ou expulsa indígenas de suas terras. Há anos o projeto de emenda constitucional que prevê o confisco de terras flagradas com trabalho escravo está parada no Congresso por pressão da bancada ruralista, grupo de parlamentares que representam essa elite e seus objetivos.

Esse grupo é sim chamado ao debate, mas muitas vezes se furta a ele. Por exemplo, a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) foi eleita uma das três instituições delegadas da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo na conferência que finalizou o PNDH3 em 2008. Não apareceu para os debates. Depois, a direção da entidade diz que o programa foi feito sem a participação deles. Muito cômodo, é claro.

Tudo isso me leva a crer, caro ministro, que para atender o seu pleito, ou seja, dar mais poder ao agronegócio brasileiro, teremos que mudar a forma de governo. Abaixo a República e que tragam de volta a monarquia. Nesse caso, o senhor pode acabar sendo alçado à condição de rei. Ou a senadora presidente da CNA, à de rainha.

  1. Zé Brasil

    27/03/2010 15:39:03

    Troféu Joaquim Silvério dos Reis para Sakamoto, acompanhado do troféu CALABAR.

  2. Ciro Lauschner

    29/01/2010 06:40:42

    Parece assunto de assembléia da Une, quando ela ainda tinha algumainfluência antes de ser cooptada pelo governo.Quase não dá para acreditar que uma pessoa esclarecida libere suas neurosessem quaisquer análises mais profundas.Tá maus.

  3. Luiza

    28/01/2010 09:44:40

    acreditam, eu quis dizer...

  4. Luiza

    28/01/2010 09:27:42

    Oi Saka,seus posts, como sempre, muito esclarecedores...Não sei o que é pior, acreditar que esse tipo de cometário vem de pessoas mal intencionadas ou se eles vem de pessoas que realmente acretidam nessa besteira. Os dois casos são muito graves. =(Abraço!

  5. Maria Herminia Tavares

    28/01/2010 09:24:42

    Não concordo com tudo o que o blogueiro escreve, meu caro Aliberto. Mas ele deve ser lido porque é um dos únicos que não escrevem sem embasamento prático e teórico, o que na internet é um milagre. Aqui, com meus alunos, o debate é cada vez mais raso. Se eles pudesse entrar em contato com a esquerda que dialoga, mesmo com ironia, como este blog, seria mais interessante.

  6. Blog do Sakamoto » Blog Archive » Ministro da agricultura quer ser … – agricultura

    28/01/2010 00:25:34

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  7. Ismar Curi

    27/01/2010 23:00:07

    Tem mais, tem a BAND. A emissora virou o canal de expressão desse descontentamento dos proprietários do agro-negócio, e das mudanças que eles pretendem para o Código Florestal Brasileiro. A despeito da tragédia sempre recair sobre os mais frágeis, as recentes inundações demonstram claramente que nada é excessivo no Código Florestal, aliás parece que na verdade essa nova situação ambiental trás números estatíscos que deverão ser considerados pela engenharia ambiental, seja nos termos dos índices pluviométricos e suas consequênias sazonais. Dessa forma repito, a despeito das perdas de recursos e vidas, humanas, muito diferente do fênomeno que se abateu sobre o Haiti, um terremoto; as cheias dos corpos hídricos devem funcionar como um corretivo para os corações e mentes que vão decidir os destinos de nossa terra

  8. aliberto amaral

    27/01/2010 21:53:21

    Sakamoto,Quanta bobagem.No tempo da monarquia nem agricultura tinha.Francamente. Depois que o portal IG te detonou, tenho notado que os comentários sobre os seus "artigos", caíram bastante. Também é sempre o mesmo "deja vú", panfletário, coisa de estudante de centro acadêmico dos anos 70,quando existia a Rua Maria Antonia. ( Livro do Zuenir Ventura).Fala sério. Desse jeito fica díficil o outro lado contribuir para a sua subsistência e da sua ONG também. Mudando o governo então para o Ciro Gomes, acabou-se o que era doce. .

  9. gaucho com xexeó

    27/01/2010 18:33:42

    Quanta asneira!

  10. Flávia

    27/01/2010 13:38:52

    Perfeito! Como sempre.gde abraço

  11. Wellington

    27/01/2010 12:23:30

    Pô, caro colega, mandou bem.

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