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Tem gente em festa com a morte de Saramago

Leonardo Sakamoto

2020-06-20T10:10:05

20/06/2010 10h05

Os comentários que saíram no jornal oficial do Vaticano "L'Osservatore Romano" sobre Saramago mostram que a igreja católica realmente não mudou muito nos últimos séculos. A diferença foi o verniz de modernidade para se adaptar aos novos termpos: os ritos de inqusição não são mais em latim e, agora, são divulgados por meios de comunicação para todo o planeta, instantaneamente.

Imaginei mesmo que algum cardeal ou bispo iria aproveitar o passamento do escritor para dizer que ele, um comunista comedor de criancinhas, levava a cabo uma cruzada contra o cristandade. Creio que o próprio, se pudesse ver tudo isso, iria pedir que mais bravatas fossem ditas e se divertir muito – da mesma forma que nos fez rir – dos dogmas e de seus defensores.

Em uma das tiras do personagem "Deus", do cartunista Laerte, um desregrado e ateu chega ao céu e é bem recebido pelo todo-poderoso. Uma outra, que seguiu todos os mandamentos, vê a cena e reclama que teve uma vida de abnegação enquanto o novato viveu na esbórnia mundana e acha injusto que ambos dividam o mesmo céu. No que Deus retrucou algo do tipo: "o mesmo não, eu criei um céu para pessoas legais como ele que está logo ali ó".

Se existisse algo sobrenatural como o céu, Saramago iria para o cantinho do pessoal legal enquanto parte considerável da estrutura da igreja ficaria na sala de espera (me vem à mente a imagem criada por Ariano Suassuna no Auto da Compadecida para ser bem exato).

Será que o "L'Osservatore Romano" quando define Saramago como um intelectual aprisionado em sua confiança profunda no materialismo histórico, não percebe que não está criticando, mas fazendo o maior elogio possível ao homem? Se mais pessoas fossem assim, o mundo seria um lugar melhor para se viver.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi um dos melhores livros que já li do autor, pela provocação. Por isso, seria difícil imaginar que a igreja não iria sapatear sobre as cinzas do homem que transformou em literatura de qualidade o fato de Jesus ser humano (e ter feito amor com Maria Madalena) e deixado a entender que o problema não era o diabo mas alguém mais acima?

Bem, não quero usar este espaço para gritar com aqueles que não escutam. E a humanidade merece seus dias de luto por ter perdido Saramago – mesmo que alguns não percebam isso.

Mas se a igreja usasse a mesma virulência instantânea com a qual atacou o escritor para criticar os padres comedores de criancinha, o papa Ratzinger não teria que, agora, pedir tantas desculpas ao mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.