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Leonardo Sakamoto

Vôos cancelados: o trabalhador leva a culpa

Leonardo Sakamoto

03/08/2010 09h24

Aeroportos se transformaram em acampamentos por conta dos atrasos e cancelamentos de vôos da Gol nos últimos dias. Pela forma como a justificativa da empresa foi dada ao público, ficou parecendo que a responsabilidade pelo ocorrrido é dos trabalhadores e seus direitos trabalhistas.

Dizia o comunicado no site da companhia aérea: "(…) algumas tripulações atingiram o limite de horas de jornada de trabalho previsto na regulamentação da profissão e foram impossibilitados de seguir viagem, gerando um efeito cascata. A situação, desenvolvida num fim de semana de pico de movimento, com retorno de férias escolares, ocorreu num momento em que a empresa finalizava a implementação de um novo sistema de processamento das escalas dos pilotos e comissários."

Há um inversão no parágrafo com a consequência se tornando causa. Vôos atrasaram porque faltou tripulação ou porque não houve competência gerencial para prever impactos causados pela mudança de um software? A culpa é da regulamentação da profissão dos aeroviários, que impõe um limite de jornada de horas de trabalho (lembrando que da sanidade física e mental deles depende a nossa), ou da empresa? Operação-padrão com indicativo de greve é causa ou consequência dos atrasos?

Vamos reescrever o parágrafo do comunicado, fazendo uma leve inversão: "A empresa escolheu um período de pico, o fim das férias escolares, para finalizar a implementação de um novo sistema de processamento das escalas dos pilotos e comissários. Infelizmente, não haviam sido avaliados os impactos dessa mudança na escala de trabalho e algumas tripulações atingiram o limite de horas de jornada de trabalho previsto na regulamentação da profissão, sendo impossibilitados de seguir viagem, o que gerou um efeito cascata."

Sutil, né? Mas faz toda a diferença.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.