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A Vila Cruzeiro é do Estado. Mas o Estado a quer?

Leonardo Sakamoto

25/11/2010 19h02

"Posso dizer, com 100% de certeza, que a Vila Cruzeiro é do Estado." A frase é do subchefe operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, e foi dita nesta quinta após operação de combate a traficantes que envolveu 250 policiais na zona norte do Rio de Janeiro.

Desde que começou a atual onda de violência na capital fluminense, tem sido frequente o uso de expressões como o "Estado não entra lá" e coisa do gênero. Bem, considerando o calor do momento e as circunstâncias, releva-se uma certa "licença poética operacional", por assim dizer. Mas vale uma observação. Facções como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e o Amigos dos Amigos são grupos criminosos e não têm objetivos políticos de tomar o governo, muito menos criar um "Estado paralelo". Pelo contrário, eles se valem da falta de uma presença do Estado (com serviços públicos precários, acesso à Justiça risível e forças de segurança que agem, muitas vezes, como aqueles a quem deveriam combater) para criar um "poder paralelo" em um determinado território a fim de proteger o seu negócio.

Por que proteger? No capitalismo, toda a expansão de mercado é conflituosa (vai, podem me chamar de comunista-comedor-de-criancinha-maluco que, mesmo assim, vou ter que continuar publicando as palavras certas, sorry…). Quando se abre uma loja em um bairro, os que lá já estavam estabelecidos podem se sentir prejudicados. Ainda mais quando os forasteiros trazem produtos melhores e a preços mais baixos. Se a concorrência é agressiva e chega a tal ponto que a convivência pacífica torna-se insustentável, pode-se apelar à Justiça, que decidirá quem tem razão na disputa. Mas o que fazer quando se vive em um sistema ilegal, condenado pela própria Justiça? A solução é ter o maior poder bélico possível para fazer valer o seu ponto de vista sobre o demais, sobre a polícia, sobre os moradores de determinada comunidade. É e necessário controlar-se – por bem ou por mal – um território. Quanto mais território, mais pontos de venda de drogas, mais locais para estocá-las, mais freguesia e poder.

Atacar a estrutura do tráfico e sua sustentação econômica, o que inclui também seus pontos de venda, o comércio ilegal de armas e negócios paralelos, é uma saída. Porém, será inócua se o Estado não se fizer presente (não apenas pela força bruta) e se não houver mudanças estruturais que garantam dignidade para os moradores e outras opções de vida para os jovens que saem em um busca de um lugar no mundo todos os anos. Mais do que uma escolha pelo crime, muitas vezes a opção pelo tráfico é uma escolha por uma forma de emprego e pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal, bisonho e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Dessa forma, o jovem pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo. Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia.

Que a Vila Cruzeiro é do Estado, isso já era fato. A pergunta é se o Estado quer, de fato, a Vila Cruzeiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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