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Chove acima da média. Mas que média é essa?

Leonardo Sakamoto

18/01/2011 11h48

Prestem atenção nessas duas frases que aparecem com frequência na mídia:

– Especialistas afirmam que, nas duas primeiras semanas de janeiro, já choveu mais do que a média do mês nos últimos anos.

– Aqui, no Carnaval de Olinda, a festa não tem hora para acabar.

O que há de comum entre elas? Bem, não muito além do fato de que são figurinhas que se repetem com impressionante regularidade. Para o repórter que transmite a folia pernambucana, a frase, quase um mantra da alegria, é indolor. Já a outra carrega, em seu bojo, duas tristezas: a consequência do aguaceiro em si e a responsabilização da natureza por algo que a ação humana poderia certamente minimizar. Se choveu mais do que deveria, fica a impressão de que não daria para fazer nada, não é? Bem, isso se, há muitos anos, já não fosse típico a realidade de chuvas atípicas em certas regiões do país.

Uma ironia que circula em redações nesses dias aquáticos é que, se todo o ano chove mais do que a média, alguém esqueceu de corrigir a média.

Sei que os cálculos não são tão simples e levam em conta séries históricas mais longas do que o nosso humor cínico de jornalista pode compreender. Além disso, são muitos os agentes públicos e da própria imprensa que reproduzem o discurso de sempre e esquecem de questionar a estrutura da informação (graças a São José, pipocam matérias aqui e ali jogando um balde água fria nessa pasmaceira e mostrando que chove mais do que a média já faz algum tempo). De qualquer forma, isso tem o mérito de gerar alguns debates, por exemplo sobre como a avaliação da realidade e a construção de saídas para resolver o problema vêm sendo tomadas. E, repito o que já falei antes, não estou falando de sistemas de alertas (até porque o governo federal já avisou que vai levar anos para fazer algo que já deveria ter feito há outros anos) e sim de políticas de habitação decente, saneamento, dragagem de rios, limpeza de vias, campanhas de conscientização quanto ao lixo…

Pois da mesma forma que, religiosamente, o bloco do Bacalhau do Batata vai percorrer Olinda na Quarta-Feira de Cinzas tocando frevo, janeiro será um mês de atenção e preocupação. Entre um governante otimista e um pessimista, fico com um realista – que tem o perfil mais próximo daquele que espera sempre o pior.

Falhas neste caso custam vidas e um "foi mal, aí, não tinha como antecipar" não resolve.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.