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A credibilidade do Brasil está em risco

Leonardo Sakamoto

30/04/2011 10h57

Em se tratando da polêmica causada pela construção da hidrelétrica de Belo Monte, o Brasil está agindo como a criança mimada que levou um drible de um amiguinho durante a pelada na rua e, amuada, resolveu pegar a bola e ir embora para casa.

Depois de ser cobrado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ligada à Organização dos Estados Americanos (OEA), para que respondesse às acusações de que estaria ignorando as populações indígenas que serão afetadas pela obra no processo de consultas públicas, o país reagiu de forma diferente do que costuma fazer. 

Normalmente, o governo brasileiro opta pela sobriedade. Desta vez, descambou para críticas severas com relação à autoridade da OEA para esse tipo de questionamento, cancelou a indicação de Paulo Vannuchi, ex-ministro da área de Direitos Humanos para uma cadeira na Comissão, deve suspender pagamentos à instituição (mantida pelos Estados membros), chamou de volta seu embaixador na OEA. Isso sem contar que, em Brasília, não se descarta que novas missões da Comissão ao país para tratar de outros assuntos sejam canceladas. 

Politicamente, a resposta do governo foi mirim. Mesmo que ele não quisesse mudar uma pedrinha no planejamento da hidrelétrica, poderia ter respondido de forma amena, enrolando a história, passando a imagem de democrata preocupado com as minorias e de respeitoso às demandas de organismos internacionais, enquanto faria o seu trabalho de rolo-compressor nos bastidores. Desde que passamos a perna em vários de nossos vizinhos sul-americanos em questões territoriais há mais de século temos know-how para tanto. Mas preferiu botar o porrete na mesa, com um comportamento mais para o "Você sabe com quem está falando?", típico dos Estados Unidos.

Na verdade, o país demonstra dessa forma usar uma política self-service. O que é bom do jogo internacional, coloca-se no prato, o que não é, deixa-se de lado. Problemas com os subsídios ao algodão e ao açúcar dados pelas nações ricas do Norte e que causam danos aos nossos produtores rurais? Vamos aos organismos internacionais para acabar com essa pouca vergonha! Agora, quando somos nós os acusados, gritamos contra a arbitrariedade desses mesmos organismos? Tenha a santa paciência…

Neste momento, um leitor estufa o peito e grita diante da tela do computador: "É a economia, estúpido!" Sei disso. E sei que tudo é um jogo de demonstração de força e poder. E o Brasil descobriu que tem mais cacife do que imaginava para apostar. 

O que ocorre, contudo, é que o mundo mudou. Os países não podem mais se esconder atrás do discurso de respeito à soberania como se ele fosse verdade absoluta – até porque verdades absolutas estão caindo em desuso. Não porque eles tenham perdido a soberania, de maneira alguma. Mas como sustentar práticas anacrônicas diante de compromissos firmados internacionalmente quando estes são colocados à prova por informação que flui em segundos? E, espalhada diante de todos os outros Estados, mostra que determinado país mente. 

Quando um Estado reconhece a legitimidade de organismos internacionais para arbitrar conflitos, ele passa a ser potencialmente reclamante e reclamado. E tem que aceitar isso e jogar o jogo, sob o risco de perder a credibilidade.

Credibilidade que é importante para quem quer ser levado a sério no mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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