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Leonardo Sakamoto

Marcha da Maconha: A gastrite dos intolerantes de plantão

Leonardo Sakamoto

15/06/2011 21h05

Por oito votos a favor e nenhum contrário, o Supremo Tribunal Federal liberou, nesta quarta (15), a realização de Marchas da Maconha, seguindo a posição do relator Celso de Mello e a defesa enérgica de Débora Duprat, vice-procuradora geral da República. Segundo Mello, a marcha é a "expressão concreta do exercício legítimo da liberdade de reunião".

Para quem não se lembra, a proibição da Marcha pela Justiça, a pedido do Ministério Público de São Paulo, levou a cenas de selvageria por parte da Polícia Militar, que usou bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e balas de borracha contra manifestantes e jornalistas na capital paulista no dia 21 de maio.

Devagar (quase parando), vamos conquistando a efetivação de direitos que estão previstos em lei.

Outros casos que valem a pena ser lembrados: no último dia 05 de maio, o Supremo reconheceu a união estável de casais do mesmo sexo – indo contra o poderoso lobby daqueles que se dizem representantes de Deus na Terra (mas não mostraram nenhuma procuração assinada…) Em maio de 2008, aprovou a legalidade da pesquisas com células-tronco embrionárias, rejeitando uma ação direta de inconstitucionalidade que tentava barrá-las, e dando uma esperança de cura para quem perdeu a mobilidade ou tem uma doença degenerativa, por exemplo. Tudo bem que, no meio do caminho, manteve a validade da Lei da Anistia, protegendo os carniceiros da ditadura. Mas ninguém é perfeito, né?

Aliás, não duvido que a solução para a descriminalização do aborto e da eutanásia venha através de uma decisão do Supremo. Se isso depender do Congresso Nacional, esquece. Se, por lá, o direito de insultar homossexuais é usado como moeda de troca em negociações políticas… Ah, mas isso seria legislar. Ué, quando alguém se furta ao seu papel institucional, o que há se fazer?

O fato é que temos por aqui um capitalismo de brincadeirinha, sem a parte boa das liberdades individuais. É dever possibilitar mercados livres, mas a pessoa não conta com o mesmo benefício. O Estado é xingado se meter o bedelho nos negócios de particulares, mas elogiado quando diz com quem me deito, o que consumo e o fim que dou ao meu corpo.

Dia 2 de julho, na capital paulista, haverá nova caminhada, agora sob o nome Marcha da Maconha.

Aos intolerantes, que gozaram loucamente com o som das bombas de gás lacrimogênio estouradas em quem queria apenas defender sua causa, gostaria de dizer uma coisinha: perderam mais essa.

E é bom se prepararem com um bom anti-ácido, pois os ventos de mudança não vão parar por aqui.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.