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Mais de 6 mil/dia morrem por culpa do trabalho

Leonardo Sakamoto

14/09/2011 15h31

As mortes por doenças e por acidentes relacionados ao trabalho cresceram no mundo de 2,31 milhões (2003) para 2,34 milhões (2008). Em média, 6,3 mil pessoas morreram diariamente por conta de seu trabalho nesse período. Os dados fazem parte do relatório "Tendências Mundiais e Desafios da Saúde e Segurança Ocupacionais", documento que será usado no 19o Congresso Mundial sobre Segurança e Saúde no Trabalho, evento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que termina nesta quinra (15), em Istambul, Turquia.


O número de acidentes fatais caiu (de 358 mil para 321 mil), mas o número de mortes por doenças vinculadas ao exercício de atividade econômica saltou de 1,95 milhão, em 2003, para 2,02 milhões, em 2008. Considerando os tipos de enfermidades, temos em primeiro lugar o câncer (29%), seguido por doenças infecciosas (25%) e doenças circulatórias (21%). Além disso, mais de 900 mil pessoas perderam suas vidas por conta da exposição a substâncias perigosas no trabalho em 2008, frente aos 651 mil mortos pelo mesmo motivo, em 2003.

O número de acidentes não-fatais que causaram afastamento de quatro ou mais dias atingiu 317 milhões em 2008, o que representa uma média de cerca de 850 mil lesões diárias que exigem esse tipo de afastamento.

"Na maioria dos países, vastos números de acidentes, fatalidades e doenças relacionadas ao local de trabalho não são reportados e nem registrados. Existem provisões em nível internacional e em âmbito nacional para registrar e notificar acidentes e doenças: contudo, a subnotificação persiste como prática frequente em muitos países do mundo", destaca o documento.

O relatório cita um levantamento feito nos Estados Unidos mostrando que os trabalhadores de origem hispânica constituíam 15% da mão-de-obra da construção civil no ano de 2000. Mas eram vítimas de 23,5% dos acidentes fatais. Segundo o documento, grupos vulneráveis, como migrantes e empregados do setor informal, devem continuar sendo considerados prioritários no que diz respeito a políticas públicas governamentais de conscientização e garantia de diretos. Grandes empresas, segundo o estudo, devem contribuir com ações em suas respectivas cadeias produtivas.

O Congresso Mundial sobre Segurança e Saúde no Trabalho reúne cerca de 3 mil autoridades executivas, especialistas, dirigentes de indústrias e sindicalistas provenientes de mais de 100 países.

Em agosto, a questão do descaso com a segurança no trabalho ganhou repercussão nacional quando nove operários morreram em um canteiro de obras em Salvador. Eles estavam em um elevador que despencou de uma altura de 65 metros (ironicamente, o nome da construtora responsável era "Segura"). Trabalho escravo tem sido encontrado em canteiros de obras de hidrelétricas. Ao mesmo tempo, jovens têm dado o sangue em canteiros, como o de 16 anos que morreu soterrado em abril em uma obra no Cambuci, Centro de São Paulo.

Os empresários da construção civil estão com sorrisos de orelha a orelha. Programa de Aceleração do Crescimento, "Minha Casa, Minha Vida", Copa do Mundo, Olimpíadas. Governo injetando bilhões para financiamento. É claro que tudo isso significa mais geração de empregos em um setor que já contrata milhões. Mas produzir em quantidade e rapidamente tem, por vezes, significado passar por cima da integridade do trabalhador. O ritmo de crescimento não deveria ultrapassar a capacidade do país de garantir segurança para quem faz o bolo crescer. Ou ir além da capacidade física e psicológica desse pessoal.

Der quem é a culpa? Aí a história complica. Pois o problema em milhares de obras espalhadas pelo Brasil tem a mesma origem: a terceirização ilegal que torna a dignidade responsabilidade de ninguém.

Já passou da hora dos governos comprarem brigas com áreas como o setor elétrico, o agronegócio e a construção civil, que demonstram preocupantes ocorrências que afetam a saúde do trabalhador mas que, ao mesmo tempo, são importantes doadoras de campanha. Afinal de contas, o crescimento tem que estar sujeito ao respeito dos direitos fundamentais e não flutuar sobre eles.

(Com informações da Repórter Brasil)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.