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Reitoria promove a militarização para não discutir a USP, dizem manifestantes

Leonardo Sakamoto

28/10/2011 15h48

Após violento confronto com a Polícia Militar, que estava detendo três jovens que teriam consumido maconha no campus do Butantã da Universidade de São Paulo, na noite deste quinta, cerca de 400 estudantes ocuparam o prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Os policias revidaram os protestos com balas de borracha e estudantes ficaram feridos. Os rumos da ocupação devem ser discutidos na noite desta sexta.

Este blog conversou com Felipe Camargo, Paula Kaufmann e Thiago Aguiar, diretores do Diretório Central dos Estudantes da USP, que estão na ocupação, para entender suas reividicações:

Por que o DCE-Livre da USP é contrário à presença da Polícia Militar no campus?
Historicamente, o movimento social organizado na USP obteve a conquista da autonomia universitária. Isto significa afirmar uma concepção de universidade como espaço de livre pensamento, organização e manifestação. A autonomia também se refere à segurança. Por isso, temos na USP a Guarda Universitária. A presença de forças militares no campus não apenas em história longínqua, como também em anos recentes, não esteve relacionada à garantia de segurança e ao combate ao crime, mas sim à repressão política ao movimento social da Universidade. Em 2009, por exemplo, a Polícia Militar transformou o campus do Butantã numa praça de batalha ao reprimir um movimento grevista.

A presença da PM não evitaria casos como o assassinato de um estudante da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis), durante um assalto, em maio deste ano?
O assassinato do estudante da FEA comoveu a todos nós. No dia do seu assassinato, uma ronda da PM percorria o campus da USP e não pode evitar o crime. Aliás, seus assassinos seguem impunes. O problema da segurança no campus é mais complexo do que simplesmente a entrada da polícia. Refere-se a uma concepção de espaço público e à abertura do campus à comunidade externa para que deixe de ser uma bolha vulnerável. Por isso, o movimento estudantil reivindica há bastante tempo que a reitoria assuma a sua responsabilidade e faça as intervenções necessárias para garantir a segurança de trabalhadores, estudantes e funcionários. Infelizmente, melhorias na iluminação, o fim da terceirização da segurança, o aumento do efetivo da Guarda Universitária e seu treinamento em direitos humanos, entre outras medidas, não foram tomadas. A reitoria preferiu uma saída rápida, fácil e midiática.

Com a detenção dos três jovens que supostamente estariam fumando maconha, houve protestos dos estudantes, seguidos de forte repressão policial com gás lacrimogênio e spray de pimenta. A segurança pública tem sido usada como justificativa para a reitoria reprimir manifestações?
Sim. Como dissemos anteriormente, a presença da PM no campus historicamente e em anos recentes esteve relacionada somente à repressão ao movimento social organizado na USP. No entanto, a reitoria utiliza o sentimento de insegurança da população para dar legitimidade a suas ações e esvaziar de sentido as críticas da comunidade universitária. Ao mesmo tempo, argumenta estar "sempre aberta ao diálogo" quando, na verdade, promove a militarização do campus para evitar que qualquer projeto alternativo de universidade seja defendido. Não se pode reduzir a questão da segurança à presença de policiais militares. Os índices de criminalidade no conjunto da cidade, onde a PM está presente ostensivamente, são a comprovação disso.

O movimento estudantil, que hoje ocupa a administração da FFLCH, tem feito duras críticas ao reitor João Grandino Rodas. Por que? E quais as principais demandas de vocês?
João Grandino Rodas, em sua trajetória na USP, notabilizou-se por não ter sido eleito reitor pela comunidade universitária – mas sim indicado pelo governador Serra – e pela truculência com que trata seus críticos e quaisquer reivindicações que lhe sejam apresentadas. Não à toa, em sua unidade de origem, a Faculdade de Direto, foi recentemente declarado persona non grata. Em 2007, quando diretor, Rodas chamou a Tropa de Choque para expulsar militantes do MST e do movimento estudantil que faziam um ato pela democratização do ensino público. Em sua gestão como reitor, além da questão da presença da PM no campus, temos questionado Rodas por conta de suas diretrizes mercadológicas para a graduação, que quase ocasionaram o fechamento de mais de 300 vagas e dois cursos na EACH [campus da USP na Zona Leste]. Rodas está sendo investigado por indicações sem concurso para cargos de confiança. Além disso, ele propôs um conjunto de obras questionáveis, como a construção de um Centro de Convenções e de um Centro Internacional, que estão consumindo 240 milhões de reais do dinheiro público. Consideramos que tal monta de recursos poderia ser aplicada de maneira muito mais satisfatória na expansão das atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.