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Entidade denuncia morte de índios por pistoleiros no MS

Leonardo Sakamoto

18/11/2011 12h13

Campo Grande – O cacique kaiowá Nísio Gomes teria sido executado, nesta manhã de sexta, com tiros de grosso calibre, no lugar conhecido pelos indígenas como Ochokue/Guaiviry, nas proximidades da vila de Tagi, à beira da MS-386, entre Ponta Porã e Amambai. As informações, preliminares, são da coordenação do movimento político guarani-kaiowá, Aty Guasu.

Segundo as informações, o corpo do cacique foi carregado do acampamento numa caminhonete. Teme-se que seja levado ao Paraguai. A fronteira está a meia hora do local. Além do cacique, há informações de que também teriam sido mortos uma mulher e uma criança de cinco anos.

O Ministério Público Federal em Ponta Porã, em nota, afirmou que está investigando o ataque e que não pode dar mais informações devido ao risco de comprometer o caso. Uma equipe da Polícia Federal, acompanhada de representante do MPF e da Fundação Nacional do Índio (Funai), confirmou o desaparecimento do cacique. Dos cerca de 60 integrantes da comunidade, somente dez foram contatados pelos investigadores.

De acordo com o MPF, a perícia policial confirmou presença de sangue humano no local onde o cacique teria sifo alvejado. Também comprovou-se que o corpo foi arrastado. Um dos filhos de Nísio está no Instituto Médico Legal de Ponta Porã, realizando exames de corpo de delito. Ele teria levado tiros de balas de borracha, do mesmo tipo encontrado em ataque recente ocorrido contra um acampamento indígena em Iguatemi em agosto.

O movimento Aty Guasu tinha realizado na quarta-feira um ato de solidariedade ao grupo de Guaiviry. Depois da visita ao local, o ônibus dos indígenas foi retido por fazendeiros armados, sendo liberado após horas de negociação.

A área de Guaiviry é uma das que foram incluídas nos processos de identificação de terras indígenas iniciados no Mato Grosso do Sul pela Funai em 2008 – o relatório está em fase de conclusão. Os indígenas ocuparam a área onde aconteceu o conflito há cerca de 15 dias e vinham recebendo visitas da Funai e da Polícia Federal. Ainda assim, como vem acontecendo em outras áreas em conflito, isso não foi suficiente para coibir as agressões realizadas por homens armados a serviço dos fazendeiros da região, como demonstram outros casos registrados de violência.

Os guarani kaiowá do Mato Grosso do Sul enfrentam a pior situação entre os povos indígenas do Brasil, apresentando altos índices de suicídio e desnutrição infantil. O confinamento em pequenas parcelas de terra é uma das razões principais para a precária situação do povo. Sem alternativas, tornam-se alvos fáceis para os aliciadores de mão-de-obra e muitos acabaram como escravos em usinas de açúcar e álcool no Estado nos últimos anos.

Enquanto os índios se amontoam em reservas minúsculas, fazendeiros, muitos dos quais ocupantes irregulares de terras indígenas, esparramam-se confortavelmente por centenas de milhares de hectares. O governo não tem sido competente para agilizar a demarcação de terras e vem sofrendo pressões da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). Mesmo em áreas já homologadas, fazendeiros-invasores se negam a sair.

Em outros lugares, isso seria chamado genocídio. Aqui é progresso.

Atualizado às 19h. Com informações do movimento Aty Guasu, do Ministério Público Federal e do jornalista e antropólopo Spensy Pimentel.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto