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Morre ex-dona da Daslu, que tornou hype sonegar

Leonardo Sakamoto

26/02/2012 09h03

Guardei uma distância de alguns dias para escrever isto para não ser acusado de insensibilidade. Afinal de contas, há um processo de beatificação instantânea de quem morre, e não apenas no Brasil, como se biografias devessem ser compostas apenas dos atos bons, simplificando essa teia complexa e doida que é a vida.

O problema é que, com isso, todas as reflexões que poderiam ser levantadas a partir de comportamentos discutíveis daquele ou daquela que passou são deixadas de lado. Há até uma onda de revisionismo por parte de personalidades e veículos de comunicação, absolvendo os pecados e reinterpretando a história a partir dessa beatificação.

Eliane Tranchesi, ex-proprietária da Daslu, megaloja de produtos de luxo em São Paulo, faleceu esta semana vítima de câncer e foi sepultada na sexta (24).

Alvo de uma ação da Polícia Federal, ela chegou a ser presa em 2009 e, pouco depois, liberada. Foi condenada a 94 anos de cadeia por conta de sonegação e outros crimes financeiros, mas devido ao seu estado de saúde, não cumpriu a pena.

Concordo que, por motivos humanitários, pessoas com doenças crônicas possam ser tratadas fora da cadeia, monitoradas pela Justiça. Nem sempre o Estado tem condições de garantir o serviço de saúde necessário em uma instalação prisional. O problema é que essa escolha depende do crime que você cometeu e quem é o seu advogado. Crimes de colarinho branco são vistos como de baixa periculosidade, mesmo que sonegação seja responsável por negar o financiamento de saúde e educação a milhões de pessoas. Além disso, essa é uma opção que depende da renda. Pergunte ao doutor Dráuzio Varella quantos pacientes com Aids em estágio avançado ele tinha no Carandiru. Não quero parecer insensível, entendo as circunstâncias, mas esse "dois pesos, duas medidas" acaba com meu sono.

Mas vamos ao ponto principal do post, para o qual retomo informações que já havia publicado aqui sobre o caso. Servidores públicos, cumprindo as suas obrigações previstas em lei, fazem uma diligência surpresa e constatam que as denúncias que haviam recebido sobre as irregularidades eram procedentes. Outros condenam os acusados. Estes, proprietários – ricos e respeitados, bem relacionados nas cúpulas do poder – reclamam do tratamento "violento" que teriam recebido da Polícia Federal ou da Justiça.

Logo em seguida, surgem reclamações de políticos, pessoas influentes, juristas, corneteiros de luxo em geral: "Os investimentos estrangeiros vão secar com esse tipo de fiscalização/condenação", dizem uns. "É um ultraje contra o setor que gera empregos", bradam outros. Surge pressão para que o governo federal afrouxe as decisões (afinal de contas, é impossível ser um fiel cumpridor das leis fiscais nesse país, não é mesmo?).

Federações patronais reclamam no Congresso contra os desmandos do poder público, manifestam apoio aos proprietários da empresa e tentam até realizar uma passeata em prol da "legalidade". Alguns jornalistas e veículos de comunicação defendem que a violência perpetrada tem cunho político para desviar o foco de crises políticas.

Lembro que o finado senador Antônio Carlos Magalhães e o então prefeito José Serra, entre outros, saíram em defesa de Eliane Tranchesi durante a Operação Narciso. Pressionaram o governo federal, reclamando de que a ação viria de uma tentativa de nuvem de fumaça do governo Lula para esconder maracutaias. Pode até ser – eu não acredito em ninguém então não duvido de nada também, mas isso não redime a sonegação. Políticos encheram o ouvido do então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos (que, ironicamente, tornou-se advogado de defesa de uma empreiteira contra ações da própria Polícia Federal após deixar o cargo).

Em São Paulo, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) saiu em defesa da Daslu através do seu dirigente Paulo Skaf e ensaiou uma manifestação de protesto. Ressaltou-se que a empresa gera empregos e contribui para o desenvolvimento da região. Empresários lembraram que fiscalizações como essa afugentariam possíveis investidores. Os defensores da Daslu disseram que é impossível pagar todos os impostos.

Teve até e-mail circulando entre a alta roda paulistana: "Queridos amigos, gostaria de convidá-los a se juntarem à corrente FREE ELIANA, um movimento que criei a favor da libertação e contra a condenação da nossa amiga Eliana Tranchesi. Podemos contribuir com força e energia positiva . Usem FREE ELIANA no status de vocês em redes sociais e coloquem o laço da esperança em seus blogs, perfis pessoais do MSN, Twitter, Facebook, Orkut, Hi5,  e outras redes sociais em que estiverem presentes.
Passem essa corrente para os amigos de vocês também".

Aqueles dias me deram uma paúra muito grande. Parte da elite (digo "parte" porque empresários com os quais conversei na época estavam revoltados, pois recolhiam seus impostos em dia e achavam um absurdo aquela reação de seus pares em defesa do indefensável) assume um papel ridículo quando se sente acuada. Como já disse aqui anteriormente, é o instinto de autopreservação, desenvolvido ao longo de séculos de Casa-grande e surge de forma semelhante em ambientes que parecem tão diferentes como os cabides da Vila Olímpia, usinas de cana no Pará, indústrias de São Paulo ou fazendas de gado no Mato Grosso do Sul.

Exposta a uma situação que considera de risco à sua posição confortável na sociedade, parte dessa elite esquece que tanto a utilização de mão-de-obra escrava quanto a sonegação de impostos representa concorrência desleal. Acha normal que a dona de uma loja passe a perna no empresário ao lado e lucre cometendo um crime. Afinal, a loja é hype. E ela é uma das nossas.

Ao cobrar que a lei fosse aplicada, os empresários que ouvi tomavam conta de seus investimentos. Quem não faz isso e atua em um corporativismo bobo achando que sua "classe social" está sendo ameaçada, pode perder dinheiro (O interessante é que muitos que saíram em defesa dela nem eram membros da elite econômica – mas aí já é outra discussão. Há muito jornalista que não é patrão, mas por conviver nos mesmos ambientes sociais e culturais, passa a acreditar que é).

Ou faz isso como medida preventiva. Até para evitar devassas na contabilidade ou a verificação da condição social de seus empregados no futuro. Pois, vale lembrar, nosso capitalismo é do tipo selvagem, desrespeita mais as regras do jogo.

Toda a morte deve ser lamentada e chorada por amigos e familiares. Quando um ser humano deixa de existir, a humanidade fica mais pobre, não importa quem seja. Mas isso não apaga o aprendizado que tivemos com este caso. Pois se a dignidade do indivíduo deve ser respeitada, a qualidade de vida da coletividade também. Coisa que quem sonega milhões está pouco se lixando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.