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Leonardo Sakamoto

Sustentabilidade chique. Afinal, o papel aceita qualquer coisa

Leonardo Sakamoto

28/06/2012 13h01

Sabe o que dá uma paúra do capeta? Receber relatórios de sustentabilidade mais chiques que convite de casamento de socialite enviados por empresas privadas e órgãos governamentais que querem melhorar a sua imagem institucional.

Não importa que eles foram produzidos com papel feito a partir de garrafas pet recolhidas por monges tibetanos exilados e manufaturados por anjos barrocos usando ferramentas de papel maché criadas a partir de hinários de Páscoa reutilizados. E que a tinta da impressão venha da coleta do primeiro orvalho do solstício de inverno por jovens druidas, misturada com ervas de comunidades indígenas do Alto Tietê respeitando o seu conhecimento tradicional. Não há nada mais brega que um relatório de sustentabilidade que tenha custado o olho da cara. Estou, neste momento, com dois em mãos que – certamente – estão avaliados em cinco ou mais morsas de pelúcia.

Há colegas jornalistas que não se importam com essa ode à contradição e, emocionados com as fotos da meia dúzia de botos-com-moicano-amarelo salvos com o tratamento de 0,000001% de efluentes da empresa (nem me perguntem o que acontece com o restante), derramam lágrimas sobre a impressão caríssima – que não borra jamais! Com todo o respeito aos profissionais que se dedicaram a isso, a outra parte dos jornalistas que recebe esses compêndios (na qual tento me incluir) não se sensibiliza nem um pouquinho e acha um disparate.

Inclusive porque, ao folhear esses elefantes brancos, percebe-se que o papel e a impressão são realmente o que eles têm de melhor para mostrar.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.