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O protesto do Rodoanel e o sentido do interesse público

Leonardo Sakamoto

14/09/2012 08h34

Um protesto por moradia fechou, por cerca de meia hora, a pista do Rodoanel, sentido Anhanguera-Bandeirantes, na manhã desta sexta (14), em Osasco, Grande São Paulo. Vi a notícia na TV pelo telejornal da manhã e fiquei surpreso. Não pela cobertura do congestionamento, que foi longa e bem feita: as barricadas de pneus, madeira e fogo que fecharam a pista, os reflexos a quem chegava ou saía de São Paulo por diversas rodovias interligadas ao Rodoanel, os quase dez quilômetros de filas. Mas não havia na reportagem uma explicação decente de quem eram aquelas pessoas ou o que reivindicavam de verdade. Tive que correr para a internet para tentar entender um pouco mais.

O que não é novidade. Na lista de prioridades das coberturas de TV, congestionamentos ficam em primeiro plano. Colocam depoimentos de motoristas reclamando que perderam a hora para alguma coisa, xingando os "baderneiros", mas não se escuta devidamente os manifestantes. Eles aparecem na tela para mostrar a causa do "drama" e desaparecem quando já serviram ao seu propósito.

Isso poderia servir de link para, ao longo do dia, em outros telejornais, serem convidados especialistas para discutirem a questão da moradia na cidade – que possui milhares de imóveis vazios, inclusive do poder público, enquanto um exército submora. Mas isso não vai ocorrer. Talvez um coronel da PM será chamado para contar como a corporação pretende evitar novos atos como esse criando um sistema como o do filme Minority Report… Ouvi um oficial da polícia dizendo, dia desses, que era necessário usar da força para coibir essas manifestações que travam o trânsito. Mal sabe ele que, ao fazer isso, só aumenta a revolta e, portanto, o número de protestos que criarão outros transtornos ao restante da cidade.

Não estou defendendo que interditar vias públicas de grande circulação é a forma correta de protestar até porque "forma correta de protestar" é por si só uma contradição. Para algumas pessoas é a saída encontrada para sair da invisibilidade. Ao contrário do que muitos pensam, ninguém faz greve porque quer ver multidões plantadas no aeroporto, chegando atrasadas no emprego ou perdendo o ano letivo, da mesma forma que ninguém protesta pelo prazer de ver outros se descabelarem no carro.

"Ah, mas o congestionamento afetou a vida de mais gente, por isso é a notícia mais importante." Concordo que, no caso do Rodoanel, devido ao impacto do efeito dominó causado, podia até ser a informação de maior interesse público naquele momento. Mas o conceito de relevância jornalística se perde em justificativas como essa, desumanizando a situação, quando o motivo do protesto nem é devidamente citado.

Os dois fatos são notícia. Pois, afinal de contas, a questão da moradia na maior aglomeração urbana do país não é um caso isolado de meia dúzia de favelados ou sem-tetos e sim um exemplo da forma como os governos municipais, estadual e federal vêm tratando de forma capenga a questão. As demandas das pessoas em Osasco se reproduzem com uma triste frequência pela periferia de São Paulo e outros municípios da região metropolitana. Milhões de pessoas conseguiriam se reconhecer nessas histórias se elas fossem retratadas corretamente pela TV. E reconhecendo-se, encontrariam no outro, distante, um companheiro para mobilização. Caso tivéssemos essa necessária sensação de coletividade e pertencimento, participaríamos realmente da vida da metrópole e das decisões dos seus rumos. Talvez iríamos todos para a rua.

Isso é de interesse público. Mas interessa de verdade?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.