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Leonardo Sakamoto

Dono de zoológico, que cuidava dos animais e escravizava trabalhadores, tem bens bloqueados

Leonardo Sakamoto

06/12/2012 09h43

Parece comédia. Mas é tragédia.

Francisco Gil Alencar, fazendeiro e dono de um pequeno zoológico em Santa Inês (MA), teve 14 bens bloqueados pelo Tribunal Regional Trabalho da 16ª região na última terça (4). Em março deste ano, uma equipe de fiscalização do governo federal resgatou 12 trabalhadores em condições análogas às de escravo de uma de suas fazenda de gado, próxima ao zoológico, chamado de "Gilrassik Park".

O bloqueio responde a uma ação civil pública da procuradora do trabalho Christiane Nogueira, que participou da inspeção, e pede R$3 milhões em indenizações por danos morais coletivos. O juiz Carlos Eduardo dos Santos decidiu pela concessão de liminar e determinou o cumprimento de 27 medidas em defesa dos trabalhadores, bloqueando 14 bens do réu, entre prédios, fazendas, casas, lotes e um sítio – localizados nas cidades de São Luís, Santa Inês, Zé Doca, Paço do Lumiar e Juazeiro do Norte (CE).

"Implantar no inconsciente de um trabalhador que sua alimentação é menos importante que a de animais criados em cativeiro, e arriscar a saúde dessas pessoas pelo não fornecimento de condições mínimas de higiene me parece aviltar o imponderável", afirmou o juiz de acordo com nota divulgada pelo MPT.

Alojamento dos trabalhadores resgatados da fazenda (Foto: Ministério do Trabalho e Emprego)

Reproduzo, abaixo, trechos das matérias de Guilherme Zocchio, da Repórter Brasil, sobre o assunto.

Enquanto os animais do zoo recebiam ração balanceada e supervisão nutricional, os empregados sequer tinham proteína de carne em sua dieta. "Eles estavam cozinhando de forma precária e irregular. A alimentação era baseada no carboidrato, só de arroz e feijão", disse a auditora fiscal do trabalho que coordenou a ação, Márcia Albernaz Miranda.

O alojamento dos trabalhadores, que cuidavam do pasto, ficava no meio do mato, em espaço geograficamente isolado e sem meio de transporte disponível. Para chegar ao grupo de 12 escravos, a equipe percorreu uma longa trilha a pé a partir do quilômetro 30 da rodovia BR-222, através de um matagal e de uma estrada alagada. Eles vasculharam um extenso terreno de pastagem por cerca de duas horas até encontrar o barraco onde estavam os empregados, nas margens de um igarapé.

Os trabalhadores dormiam no mesmo terreno da pastagem dos bois. O alojamento tinha somente a cobertura de uma lona preta e alguns maços de palha, sem paredes laterais ou qualquer tipo de proteção contra animais peçonhentos, chuva e outras intempéries. Ainda não havia nas redondezas lugar adequado para as necessidades fisiológicas de um ser humano.

Todo dia pela manhã, por volta das 6h, o grupo de trabalhadores recebia café e uma massa de farinha de milho cozida pelo "gato", contratador de mão de obra a serviço do fazendeiro. Alguns deles comentaram com os auditores que preferiam tomar só o café e trabalhar com fome até o almoço, tão ruim era a mistura. Por volta das 11h, eles faziam uma pausa no serviço para comer arroz e feijão – às vezes, só um ou outro. No final da tarde, depois de um dia de trabalho sob o sol maranhense, recebiam mais uma porção da mesma comida.

Na sede da propriedade, a ração dos animais do Gilrassic Park é armazenada em depósitos com regulação térmica e, depois de receber um complemento de frutas e verduras frescas, servida em comedouros higienizados. Todos os animais estão devidamente registrados no Ibama.

A única fonte de água a que o grupo tinha acesso era proveniente do pequeno igarapé em torno do alojamento, onde também bebia, defecava e urinava o gado bovino. O líquido, de coloração amarela e impróprio para o consumo, era usado pelos trabalhadores para beber, cozinhar e para higiene pessoal.

Na sede da propriedade, a ração dos animais do Gilrassic Park é armazenada em depósitos com regulação térmica e, depois de receber um complemento de frutas e verduras frescas, servida em comedouros higienizados.

"Os animais viviam melhor que os empregados da fazenda de gado", avalia a coordenadora da inspeção.

Com a fiscalização, os trabalhadores receberam os direitos trabalhistas devidos, que totalizaram R$ 39 mil. A Repórter Brasil procurou o fazendeiro Francisco Gil para comentar o caso. Uma funcionária do zoológico disse que passaria o recado a ele, mas não houve contato. Este blog também tentou contato com o proprietário na noite deste quarta (6), mas também sem sucesso até a publicação deste post.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.