PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

O humor deve ter limites ou vale tudo em nome da liberdade de expressão?

Leonardo Sakamoto

17/12/2012 18h27

Quem conta "piadas" que ultrapassam o limite do bom gosto, não raro, diz ser adepto do politicamente incorreto. Como se isso fosse hype ou cool e, portanto, justificasse tudo. Censura é uma coisa abominável. Mas não pode ser confundida com a proibição de usar meios de massa que possuem concessão pública para a apologia à discriminação étnica, à homofobia, à xenofobia e a preconceitos e intolerâncias – que é o que certas piadas fazem. Particularmente, considero deplorável quando humoristas fazem comentários ofensivos ou preconceituosos em veículos de comunicação de massa sob a justificativa de liberdade de expressão. Deplorável pelo conteúdo e por perceber que eles foram preguiçosos e não se dedicaram com inteligência à nobre tarefa de fazer rir

Há limites para o humor? O documentário "O Riso dos Outros", produzido para a TV Câmara, discute a partir de entrevistas com humoristas como Danilo Gentili e Rafinha Bastos, o cartunista Laerte, o escritor Antonio Prata e o deputado federal Jean Wyllys, o limite entre a comédia e a ofensa, a liberdade de expressão e o respeito à dignidade alheia. O filme foi dirigido e roteirizado por Pedro Arantes, de séries de humor como "As Olívias", do canal Multishow, e "Vida de Estagiário", da TV Brasil, e está fazendo sucesso pela rede. Ele pode ser visto, em HD, no link ao final deste post. São pouco mais de 50 minutos que valem muito a pena.

Este blog fez duas perguntas a Pedro Arantes. Seguem as respostas:

Por que esse humor autoproclamado "politicamente incorreto" insiste em satirizar pobres, pessoas com deficiência, homossexuais, negros, mulheres e, apenas raramente, se aventura a criticar ricos e poderosos?
Acho que o humor "politicamente incorreto", com raras exceções, nada mais é que o velho humor que sempre ridicularizou esses grupos que você aponta. Acontece que, com a organização desses grupos e a conquista gradual de direitos, é cada vez menos aceitável que se faça piadas desse tipo, ridicularizando um negro por ser negro, uma mulher por ser mulher, um homossexual por ser homossexual. É menos aceitável não porque o mundo está mais chato ou careta, mas porque esses grupos historicamente ridicularizados, ao se organizarem, conquistaram direitos e voz para reagir.

A partir do momento que esse humor passa a ser menos aceitável, existe uma reação daqueles que querem continuar fazendo essas velhas piadas. Essa reação, que se diz libertária na medida em que combate a "ditadura do politicamente correto", de fato está reagindo contra a perda de uma liberdade: a liberdade de um grupo historicamente dominante de oprimir, pela via do humor, os outros grupos sociais. A liberdade de alguns em limitar a liberdade e o direito dos outros. Uma liberdade que, no fim das contas, não passa de privilégio.

Assim, ao invés de dizer que o humor politicamente incorreto insiste em satirizar esses grupos que você aponta, o melhor seria dizer que o velho humor que insiste nessa sátira revestiu-se de uma nova roupagem e se autoproclamou, como reação, politicamente incorreto.

Esse humor pode até criticar ricos e poderosos, mas raramente o objeto da crítica será o fato de serem ricos e poderosos. Eles serão ridicularizados por serem mulher-gay-gorda-velho etc. Criticar os ricos e poderosos por serem ricos e poderosos não faz parte da pauta dos "politicamente incorretos" porque no fim das contas, eles dividem os mesmos privilégios.

Este blog, quando trata de temas relaciona comportamentos arraigados na sociedade e o desrespeito aos direitos humanos, é alvo de uma turba de leitores que querem me queimar na cruz. Como foi a recepção ao seu vídeo? Há muita gente brava com você?
Tem. Mas também tem muita gente que curtiu o filme. Muita gente que não concorda com várias posições que o filme toma, mas que reconhece a importância da discussão e enxerga que o filme levanta muitos argumentos pertinentes para o debate. Isso tem me deixado contente, essa multiplicidade de opiniões acerca da mesma obra.

Isso não quer dizer que o filme seja imparcial. O cerne é justamente demonstrar que a imparcialidade não existe, que todo discurso, por mais leviano que seja, traduz os valores e a visão de mundo daquele que o profere. Assim sendo, como eu poderia pretender fazer um filme imparcial?

No entanto, tomei o cuidado de expor no filme todos os argumentos dos dois lados da discussão. Toda a argumentação está lá, na sua integridade. Por isso tantas pessoas conseguem assistir e ter opiniões diferentes sobre o filme.

O filme não pretende ser uma cartilha do que pode e o que não pode, o que está correto e o que não está. O filme apenas diz que por trás de um discurso de neutralidade existe um posicionamento. Que essa idéia de que você, por ser humorista, não tem responsabilidade com o que diz, é uma idéia ingênua que está a serviço de um determinado tipo de humor. E se você quer continuar fazendo esse tipo de humor, é bom que saiba de que lado está dessa discussão.

Agora, por mais que muita gente tenha ficado brava comigo, não acho que seja o caso de personalizar a discussão. Nem eu sou um cineasta demoníaco, nem os humoristas são vilões. Acho que o maior valor do ser humano reside na sua capacidade de debater e, a partir da discussão, se reinventar. O fato do filme estar contribuindo para esse debate, seja com reações favoráveis ou contrárias, pra mim tem sido uma grande alegria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto