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Crime no ABC: nesses momentos, decidimos que tipo de sociedade somos

Leonardo Sakamoto

28/04/2013 09h28

Alguns leitores têm me cobrado uma posição a respeito do ocorrido em São Bernardo do Campo (SP), na última quinta (25), quando uma dentista foi queimada viva em seu consultório após assaltantes roubarem seus cartões bancários, tentarem um saque e se vingarem ao perceberem que ela tinha apenas R$ 30,00. O responsável por atear fogo, segundo a polícia, teria 17 anos.

Na minha opinião, foi uma tragédia, um crime bárbaro. E os envolvidos devem ser responsabilizados pelo que prevê a lei, seja com internação para quem possuir menos de 18 anos ou com prisão para quem tiver  essa idade ou mais. Se constatado que a pessoa é incapaz e um risco para a sociedade e para si mesma, que seja encaminhada a uma instituição especializada.

Calculei que já escrevi uns dez posts contra a redução da maioridade penal nestes sete anos de blog, então não vou entrar na mesma discussão de novo. Ó, se tiverem curiosidade, a busca tá aí do lado para ser usada. Nas últimas semanas, foram vários.

Reafirmo, contudo, que, sim, 93% dos paulistanos (que são favoráveis à redução, pela pesquisa Datafolha) estão errados e, considerando que a lei dificilmente mudará, o melhor seria que todos contribuíssem para buscar soluções que atuem nas causas do problema. Ou alguém acha que uma pessoa capaz de entender o valor da vida ou que teve sua vida respeitada pela sociedade botaria fogo em alguém?

Há casos patológicos e aqueles que a patologia fomos nós, como coletividade, através de nossa inação e ausência. Sobre os casos patológicos, vale uma consideração. Atos de insanidade são atos de insanidade. A nossa sociedade, concordemos ou não, vai continuar produzindo situações que não fazem sentido. Há aqueles que não têm nada a perder porque nada tiveram. E os que podem perder muito mas, sinceramente, não se importam.

Temos dificuldade de concordar com esse fato porque acreditamos que, criando regras e impondo normas, somos capazes de zerar o risco. Podemos diminuí-lo, nunca controlá-lo. Jogamos, então, o imponderável para baixo do tapete porque, se pensarmos nele, nem levantamos da cama de manhã para ir trabalhar ou estudar com receio de morrer.

Sim, nossa sociedade gera aberrações por vários motivos e por nenhum. Sim, existe a possibilidade – maior do que ganhar na MegaSena – de você cair nas mãos de um maníaco na rua. Como o ultradireitista Anders Behring Breivik que, em julho de 2011, matou 77 pessoas na Noruega – entre elas 69 que estavam em um acampamento para jovens. Ou Wellington Menezes de Oliveira que assassinou 12 jovens, que tinham entre 12 e 14 anos, no que ficou conhecido como o Massacre do Realengo, no Rio de Janeiro, em abril do mesmo ano. Ao final, suicidou-se. Ou , ainda, como – respeitadas as devidas proporções – tantas pessoas que dirigem totalmente embriagadas e não se importam com o restante de sua comunidade.

Para muita gente, explicar que elas serão presas simplesmente não faz diferença. Não só Anders e Wellington, mas tantos outros não se importam com a vida alheia ou com a própria vida. Assustador, não?

Então, tire-os de circulação preventivamente com base em análises psicológicas, como querem alguns especialistas, no melhor estilo Minority Report? Se assim for, além de cometermos injustiças, podemos chegar a um ponto em que vai ter mais gente do lado de dentro do que do lado de fora.

Isto não é uma defesa do cretino que fez o ato bárbaro no ABC Paulista. Mas de nossa sociedade, de você e de mim, e de tudo o que nos faz humanos. Tenho medo de indivíduos maníacos por sangue, mas tenho mais medo ainda de uma sociedade maníaca por sangue que não fala, apenas rosna. Pois essa sociedade é burra.

Em momentos de emoção extrema, buscamos soluções para diminuir a perplexidade. Procuramos saídas para preencher a falta de sentido e tapar o buraco deixado pela perda. O problema é que elas não são úteis para resolver nada, nem mesmo para contribuir com os processos simbólicos de luto e cura. Mas são nos momentos de emoção extrema que nossa racionalidade é colocada à prova. Ou seja, que somos chamados a provar que deixamos de ser uma horda tresloucada que segue um único instinto, o medo.

A dor pode levar à raiva, à vingança e à mais violência. Ou a uma reflexão que gere mudanças estruturais onde for possível e a própria aceitação de nossa imperfeição como seres humanos e como sociedade. O que escolhemos?

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto