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Leonardo Sakamoto

Foi agredida em uma balada? Não fique em silêncio

Leonardo Sakamoto

02/05/2013 18h22

Já tinha a certeza de que a vida está difícil para as mulheres em festas, baladas e eventos afins.

Não que isso não acontecesse antes, não há provas de que éramos menos machistas e violentos. Pelo contrário, o homem foi historicamente criado para ser um idiota.

Mas a percepção do crescimento da violência contra a mulher se deve também ao aumento no acesso à informação. Plataformas digitais possibilitam que essas histórias circulem livremente, encorajando outras mulheres (que antes calavam-se diante do ocorrido por sempre ouvirem que aquilo era normal) a botarem a boca no trombone.

Tenho recebido cada vez mais histórias de alunas sobre comportamentos masculinos bizarros em festas de faculdades e similares.

Um rapaz deu uma rasteira na moça por ter levado um fora.

Outro aplicou um mata-leão pelo mesmo motivo.

Tem um que beliscou a bunda de uma que estava passando. Esta foi tirar satisfação, ouviu desaforo. Deu um tapa e recebeu, de volta, um soco no rosto. Aliás,  socos no rosto têm sido constantes. Eu ouvi sobre três deles, sempre com alguém que tomou um fora.

Há ainda aquele que segurou forte pelo braço, a ponto de deixar suas marcas, e disse que só largava se ganhasse um beijo.

E o que encoxou na balada, no meio da pista. Quando a moça percebeu que a sua calça estava suja, saiu chorando para casa.

Arrancar prazer de alguém que não quer dar ou nem sabe o que está acontecendo. Isso é ensaio para estupro. Ou para necrofilia.

Sei que é chato e cansativo. Sei que temos a impressão de que denunciar não resolve. E muitas vezes não mesmo, porque há preconceito inclusive entre seguranças de balada e policiais que vêem isso como brincadeira adolescente. Sei também que muitos dos que praticam essas aberrações são amigos, conhecidos e colegas das vítimas. E ninguém quer ficar mal com eles. Ninguém quer ficar mal com o grupo.

Mas, acima de tudo, cometeram atos de violência. E merecem ser repreendidos por isso, de acordo com o que prevê a lei. Dessa forma, perceberão  que as mulheres não estão no mundo para servi-los.

Conversei com o pessoal do Instituto Patrícia Galvão, que atua em defesa dos direitos da mulher. Segundo eles, o ideal é procurar mesmo uma Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher, que funciona 24 horas por dia (trago uma lista delas, do município de São Paulo abaixo). Se conseguir levar três testemunhas, melhor. Caso contrário, quantas puder. Pergunte às pessoas em volta se alguém gravou um vídeo do ocorrido – baladas estão coalhadas de paparazzi amadores com seus celulares onipresentes atrás de "escândalos" e há muitos desses vídeos circulando na rede. Infelizmente, você precisa levar o nome da pessoa que agiu com violência. Uma foto também ajuda.

Na delegacia, fará o registro da ocorrência. Se quiser, pode pedir uma representação para gerar um processo. O Ministério Público toca a partir disso se o caso se enquadrar como ameaça ou lesão. Você pode também abrir uma ação civil, para pedir uma indenização por danos morais e, para isso, precisará depois de um advogado ou um defensor público (que não cobrará nada de você por isso). Em alguns casos,  será encaminhada para o Instituto Médico Legal para fazer um exame, provando a violência. É possível também solicitar  cautelares de proteção se quiser, por exemplo, de afastamento. Vai que o sujeito convive na mesma escola ou local de trabalho e pode repetir a dose?

E não se engane. Não são só os "outros" que fazem isso, os "nossos" também fazem. "Ah, mas o cara é amigo, apenas se excedeu." Não caia nessa. Por você e pelas outras mulheres.

Ataques como esse traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em uma festa está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem "seus homens", andando na noite de São Paulo, está à disposição.

Uma pessoa suada, dançando animadamente na balada,  resolve se refrescar do calor e tirar a camisa mostrando o peito nu. Se for homem magro, é um extravagante, um exagerado. Se for mulher, é uma imoralidade. Depois perguntam o porquê de Marchas das Vadias acontecerem ao redor do mundo para protestar pelo direito de viver da forma que melhor convier.

1ª Delegacia de Defesa da Mulher – CENTRO
Rua Dr. Bittencourt Rodriguez, 200 – CEP 01017-010 – São Paulo
Telefone: (11) 3241-3328

2ª Delegacia de Defesa da Mulher – SUL
Avenida Onze de Junho, 89 – 2º andar – CEP 04041-050 – São Paulo
Telefone: (11) 5084-2579

3ª Delegacia de Defesa da Mulher – OESTE
Avenida Corifeu de Azevedo Marques, 4300 – 2º andar – CEP 05340-020 – São Paulo
Telefone: (11) 3768-4664

4ª Delegacia de Defesa da Mulher – NORTE
Avenida Itaberaba, 731 – 1º andar – CEP 03069-070 – São Paulo
Telefone: (11) 3976-2908

5ª Delegacia de Defesa da Mulher – LESTE
Rua Dr. Corintho Baldoíno Costa, 400 – CEP 03069-070 – São Paulo
Telefone: (11) 2293 3816

6ª Delegacia de Defesa da Mulher – SANTO AMARO
Rua Sargento Manoel Barbosa da Silva, nº 115 – CEP 04675-050 – São Paulo
Telefone: (11) 5521-6068 e 5686-8567

7ª Delegacia de Defesa da Mulher – São Miguel Paulista
Rua Sabbado D'Angelo, 46 – Itaquera – CEP 08210-790 – São Paulo
Telefone: (11) 2071-4707 e 2071-3588

8ª Delegacia de Defesa da Mulher – SÃO MATEUS
Avenida Osvaldo do Valle Cordeiro, 190 – CEP 03584-000 – São Paulo
Telefone: (11) 2742-1701

9ª Delegacia de Defesa da Mulher – PIRITUBA
Avenida Menotti Laudisio, 286 – CEP 02945-000 – São Paulo
Telefone: (11) 3974.8890

Atualização: a simples crítica a esse comportamento bizarro já cria uma comoção entre muitos rapazes. Não aceitam qualquer possibilidade de ver tolhida a sua "liberdade" de fazer o que bem entendem.

Quer um exemplo? Que tal este comentarista que tentou ironizar, mas não conseguiu:

É, Sakamoto, mas você se esqueceu da principal orientação: determinar que os caras partam para a balada munidos de certificados de autorização em 3 vias. Ao se aproximar de uma garota, SE ELA LHE PERMITIR QUE SE APROXIME, CLARO, ele deve implorar para que ela lhe dê alguma atenção, quiçá um beijo. SE ELA CONSENTIR, então ele deve sacar o já referido formulário, exigir que ela o assine, encontrar um cartório aberto para reconhecer a firma dela, registrar o documento em outro cartório (o de registro de títulos e documentos), tudo isso acompanhado de cópia do documento oficial dela e então, DEVIDAMENTE AUTORIZADO PELA MULHER, que em tudo manda e que tudo deve decidir, voltar para, enfim, receber o seu PRÊMIO, esse favor enorme que as mulheres fazem aos homens… VOCÊ É DEMAIS. VOCÊ É MEU ÍDOLO.

Ou este, do estilo "longe de mim":

Só mais uma coisa: longe de mim querer justificar qualquer tipo de violência, mas quando se diz que um rapaz levou um "fora" de uma moça, precisamos verificar que tipo de fora foi esse. Tem muita menina bestinha por aí,que adora assistir aqueles besteiróis americanos, nos quais uma cena clássica é a garota reagir a uma aproximação de um homem com atitudes como jogar o que tem no copo na cara dele, ou chamar o cara de babaca, ou virar o prato de petiscos na cabeça do sujeito. Nesses casos, não dá prá condenar o cara que tem uma reação mais violenta.

Seriam divertidos, se não fossem trágicos.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.