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Leonardo Sakamoto

Parece má fé. Mas é só falha na interpretação de texto

Leonardo Sakamoto

22/08/2013 18h16

Tenho constatado que a interpretação de texto não é o forte de muitos comentaristas de textos na internet. Você se esforça para dizer que o "céu é azul" e o nobre leitor entende que a "morsa está gripada". Explica que "a água é poluída" e ele reclama que você esta defendendo "um abraço em um zumbi fedorento".

Pensando na qualidade da educação deste Brasil, o blog lança, veja só, o concurso de redação "Escreve, que eu te leio", que irá premiar o melhor comentário inserido neste post.

A regra é simples: o comentário deve conter, pelo menos, seis das dez palavras e expressões abaixo. Elas foram sugeridas sem nenhuma segunda intenção aparente por alguns amigos jornalistas de redações em São Paulo, que aproveitam para dedicar sua participação nesta importante iniciativa educacional às professoras que lhes mostraram que aprender a ler é ir muito além da vovó que viu uma uva.

Este mesmo grupelho anônimo vai indicar o melhor comentário, baseado na criatividade, estrutura e argumentação, que ganhará o livro "Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil", da Boitempo Editorial, que conta com um texto deste que vos importuna.

O concurso "Escreve, que eu te leio" se encerra na próxima quinta (29). Seguem as palavras e expressões:

Médicos cubanos

Cotas

Homem de bem

Mulher honesta

Futebol é coisa de macho

Aborto é pecado

Maioridade penal

Comunismo

Vadia

Pena de morte

Um breve comentário: não acho que a interpretação de texto morreu com a internet. Também não sei se é possível cravar que estamos mais desatentos, superficiais ou incapazes de nos focar. Talvez nunca se entendeu muita coisa mesmo. Mas os textos não tinham área de comentários. E como apenas meia dúzia de pessoas tinha tempo para mandar carta, os jornalistas pensavam que estava tudo OK. É claro que, com a internet, as pessoas estão escrevendo para seus próprios grupos, dentro de seus próprios campos simbólicos. Se conseguirmos atuar na filtragem e tradução de determinadas informações hipercodificadas de e para esses grupos, teremos a beleza de conseguir democratizar mais conhecimento. Diariamente ajudamos a forjar símbolos coletivos que valem para uma grande gama de pessoas de Norte a Sul do país. A tristeza é que, se você quiser falar de "tchu" e de "tchá" diante de uma ameaça de um "ai, se eu te pego" será bem mais fácil do que discutir consumismo e discriminação de gênero.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.