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Fomos doutrinados para sermos cães de guarda da injustiça social

Leonardo Sakamoto

10/09/2013 13h43

Convivo diariamente com comentários preconceituosos, bizarros, acéfalos, medíocres, medonhos, machistas, xenófobos, racistas, inacreditavelmente postados para todo mundo ver. Não tenho coragem de fazer cocô de porta aberta, mas parece que muita gente tem. E depois compartilha a foto. E se dá "like".

"Ah, mas e a liberdade de expressão?". Ah, vai passear! A orientação para bloqueio de comentários neste blog é defenestrar apenas os que forem ofensivos a alguém e incidirem em algum crime de ódio. Fora isso, o blog é bastante tolerante. Isso não significa, porém, que faça cara de paisagem diante de besteiras.

De todas as idiotices, uma das que me deixam possesso é o pensamento raso do "se me estrepei a vida inteira, todo mundo tem que se estrepar também". Ele representa o melhor da filosofia "Para o Buraco, Eu Não Vou Sozinho", muito conhecida desde que o primeiro hominídeo andou de pé, mas que vem se aprofundando em sociedade individualistas.

E, é claro, temos variações:

"Se tive que trabalhar desde cedo e, hoje, sou uma pessoa com bom caráter, também acho que criança deveria trabalhar para não cair na vagabundagem."

"Trabalhei a vida inteira e nunca tive uma casa própria. Agora, vem um bando de desocupado e invade um terreno para chamar de seu? A polícia tem que descer o cacete nesse povo para aprender que patrimônio só surge do suor e do trabalho."

Fantástico! Nem as pessoas que usam crianças ou os donos de terrenos improdutivos seriam tão virulentos assim. Nada como uma sociedade doutrinada para servir de cão de guarda, não?

Já eu prefiro este formato: "Se eu sou um covarde e não tenho coragem de lutar pelo que acredito ser uma vida digna, permanecendo na ignorância (que é um lugar quentinho) e preferindo ruminar silenciosamente entre os dentes a minha infelicidade, quero que o mundo faça o mesmo".

Sofrer não é o único caminho para a salvação e até me mostrarem que há algo depois que o coração para de bater, não estamos penando neste mundo para acumular bônus a fim gastá-los no Hopi Hari do Paraíso. Quem pensa assim, não entende, nem desenhando, que moradia, alimentação, educação, saúde são direitos fundamentais. E, nessa hora, brada: "e esses vagabundos pagam os impostos para poder ter direitos fundamentais?"

Esses mesmos repetem bobagens como "a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou". Pois acham que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço. E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta. Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação. Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica.

Quando vejo milhares de pessoas ocuparem um terreno ocioso, não consigo deixar de ficar feliz porque aquela terra, finalmente, poderá ter uma função social. Com exceção do dono do terreno, de outros donos de terrenos ociosos e de seus representantes políticos, legais e econômicos, ou das pessoas que pertençam às mesmas classes sociais desse pessoal já citado ou é por eles pagos para defender seus interesses, é difícil entender a razão de ter gente que sai atacando uma ocupação de sem-teto como essa, fazendo o papel de soldadinho não-remunerado.

"Por que se acham melhores do que eu?", tive que ouvir de uma mulher dia desses contrária a uma ocupação. Não é uma questão de melhor ou pior. E sim de aceitar bovinamente um destino horrível em uma sociedade que, apenas teoricamente, não é de castas. Ou lutar para sair dessa condição.

Valores passados cuidadosamente e ao longo do tempo vão colando em nossos ossos e nos transformando em guerreiros da causa alheia. Não ganhamos nada com isso, pelo contrário, perdemos. Como cidadãos, como seres humanos. Mas preferimos defender o não uso bizarro de uma propriedade privada do que a dignidade do ser humano. Tudo em nome de uma concepção equivocada de Justiça.

A polícia não é a única responsável por manter a ordem do povo. O povo, devidamente treinado por instituições como escolas, igrejas, trabalho e a própria mídia, garante o seu próprio controle e o monitoramento no dia a dia. Quem sai da linha do que é visto como o padrão e o normal, leva na cabeça. Quem resolve se insurgir contra injustiças e foge do comportamento aceitável vira um pária. Sem essa vigilância invisível feita pelos próprios controlados, é impossível um grupo se manter no poder por tanto tempo e de forma aparentemente pacífica como ocorre por aqui.

Adoraria discordar de Oscar Wilde, como podem imaginar. Mas, nesse caso, ele cai como uma luva: "Há três tipos de déspotas. Aquele que tiraniza o corpo, aquele que tiraniza a alma e o que tiraniza, ao mesmo tempo, o corpo e a alma. O primeiro é chamado de príncipe, o segundo de papa e o terceiro de povo".

Não sou um homem de fé. Mas sei que boa parte desses que escrevem abobrinhas se dizem ser. Contudo, o personagem histórico Jesus seria hoje sem-teto, sem-terra, negro, mulher. Seria gay. Não viveria nas igrejas dos Jardins, muito menos como um yuppie consumista ou um vilamadalenizado. Aliás, chutaria as igrejas de hoje como o homem de barba (Jesus, não Marx) chutou as barracas do templo. E seria humilhado, xingado, surrado, queimado, alfinetado, desterrado e explodido por pessoas que hoje falam essas frases acima e se dizem "homens e mulheres de bem". Que não conseguem entender o que é solidariedade. Muito menos dignidade, porque isso nunca lhes faltou.

De verdade, não sei de quem tenho mais medo. Da polícia ou desse povo. Porque sabemos o que a polícia faz. Mas não imaginamos até onde esse povo pode ir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.