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Enem, fotos e redes sociais: a solidão offline é algo que apavora

Leonardo Sakamoto

26/10/2013 18h45

Sem entrar na discussão se a desclassificação no Enem de candidatos que postarem fotos da prova ou do gabarito em redes sociais é medida exagerada ou não, juro que gostaria de entender melhor o que passa pela cabeça de alguém que corre esse risco.

Se o ato fosse alguma forma de protesto contra a natureza do exame, a falta de vagas de qualidade em universidade públicas, o alto preço das canetas esferográficas pretas de tubo transparente ou das bebidas isotônicas e das barras de cereais, vá lá, haveria um bem maior pelo qual valeria a pena morrer. Nesse casos, cairia-se de pé, estufando o peito com um"Fiz mesmo e aguento as consequências!"

Mas, não, o que se ouviu em casos de flagrante foi mais para o "Buááá, isso é tão injusto! Eu quero a minha mãe!"

Não creio que é falta de ler o edital ou de não ter visto nenhum pobre repórter plantonista repetir ad nauseam o recado. E, é claro, contribui, uma sensação de impunidade – por mais que punições já tenham sido aplicadas na edição anterior do exame, segundo o Ministério da Educação.

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Ao meu ver, isso faz parte de um comportamento cotidiano, que não é abandonado nem na hora da prova: a vida, para fazer sentido, deve ser validada por uma rede de amigos, conhecidos e desconhecidos via redes sociais. A realização pessoal e a satisfação estão diretamente relacionadas à quantidade de "likes", retuítes e compartilhamentos que se obtém.

Reservadas as devidas proporções, faz parte do mesmo comportamento postar fotos de tudo o que se come, de tudo o que se faz, de todos que encontramos. De mostrar, nas redes sociais, que a vida é interessante, fascinante, alegre, criativa, desafiadora, sensacional, supimpa, tchap-tchura, sempre em movimento, sempre para melhor. E, quando aparecem momentos desafiadores, postamos para ter apoio coletivo na rede social.

Talvez em breve, e com a ajuda da tecnologia, torturantes exames que tentam medir em dois dias se uma pessoa está preparada ou não para entrar no ensino superior sejam substituídos por outros processos.

As redes sociais não são ferramentas de descrição da realidade, mas sim de construção e reconstrução desta. Quando a pessoa está atuando através de uma dessas redes, não reporta simplesmente. Inventa, articula, muda. Vive.

Para uma grande maioria de jovens, a frase "sai já dessa internet e vem jantar!" não faz mais sentido. Pois ele vive suas relações sociais de forma tão intensa e real em plataformas digitais quanto nas tradicionais. Não existe lá e aqui, pois lá e aqui são a mesma coisa. Nesse sentido, perde-se a percepção de que é necessário desligar uma das camadas de sua realidade. O silêncio em algumas mesas de bar rodeadas por smartphones que o diga.

Não quero ser bedel de ninguém. Estamos reconstruindo a noção de individualidade após a revolução digital e é muito cedo para entender o que vai emergir daí. Mas, vale lembrar, que o silêncio e a reflexão individual são partes importantes de nossa existência.

E, mesmo com toda a tecnologia e apesar de um milhão de amigos em sua rede pessoal, em certas horas, você estará sozinho ou sozinha. E terá que sentir-se completo, contando consigo mesmo para o que for preciso.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto