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Quantas pessoas já morreram no volante querendo ser Paul Walker?

Leonardo Sakamoto

02/12/2013 15h29

Parte da repercussão causada pela morte do ator Paul Walker, em um acidente de carro, neste sábado (30), deve-se à coincidência com o papel que desempenhava na franquia "Velozes e Furiosos". O Porsche em que estava com um amigo bateu em uma árvore e em um poste, pegando fogo.

É claro que devemos lamentar a morte de qualquer ser humano em uma situação trágica como essa e esperar que a família, amigos e fãs encontrem consolo de alguma forma.

Mas fico imaginando quantos já se envolveram em acidentes, inspirados em corridas de rua como as exibidas pela série, nos Estados Unidos, em São Paulo, onde quer que seja. Quantos morreram querendo ser Paul Walker ou Vin Diesel? Ou quantos que simplesmente caminhavam no local errado e na hora errada perderam a vida por consequência de rachas inspirados nos valores passados por filmes de corridas de rua?

"Ah, japonês, então você quer dizer que não podemos passar Romeu e Julieta na TV sob o risco de casais apaixonados se matarem? Ou mostrar O Resgate do Soldado Ryan sob o risco de começar uma guerra?"

Não. No caso de Velozes e Furiosos, os automóveis são também protagonistas, elevados a um status de divindidade, embutidos de características como potência, sensualidade, velocidade, força, beleza. Características que você "adquire" automaticamente ao comprar um desses bólidos, não sendo necessário desenvolvê-las ao longo de uma vida. Ninguém quer ser zumbi. E a maioria de nós não deseja ser um hobbit. E, mesmo se quisesse, isso seria impossível. Porém, o processo de afirmar que a posse de um carro traz qualidades ao seu condutor é a base da publicidade. Afinal de contas, somos o que temos, não? E você quer ser uma Maserati, um Fiat 147 ou andar a pé? Quer ser rápido e conhecido ou lento e anônimo?

Mas, ao contrário da TV e do vídeo-game, as coisas não funcionam de forma mágica.

Enfim, espero que as imagens de como ficou o carro após o acidente circulem o máximo possível na rede, independentemente das suas causas. E que cada jovem que assistiu a qualquer um dos seis filmes também possa ser lembrado que, na vida real, as pessoas matam e morrem. De verdade. E sem dublê.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.