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E aí? Teremos grandes protestos de rua em 2014?

Leonardo Sakamoto

27/12/2013 10h28

Quem vai ganhar a final no Maracanã em julho de 2014? Dilma se reelegerá ou outro postulante ficará com a faixa presidencial? Não, a pergunta que mais ouvi em conversas com colegas jornalistas de redações de São Paulo, Rio e Brasília nos últimos meses não foram essas, mas sim qual será o tamanho e o impacto das manifestações que devem acontecer aproveitando a Copa do Mundo e as eleições gerais?

O tamanho de alguns dos grandes protestos de junho, como o que juntou mais de 250 mil pessoas na segunda (17), em São Paulo, é resultado de uma catarse, fomentada por uma série de fatores – das demandas por mobilidade urbana, passando pela insatisfação com a violência policial, a exigência de liberdade de expressão em espaços públicos, o desejo de participação política dos mais jovens e a crítica às autoridades políticas, econômicas e midiáticas, sejam eles quem forem, como já discutimos à exaustão neste espaço.

Mas como um mesmo rio não passa duas vezes pelo mesmo lugar, é difícil reproduzir os mesmos elementos que trouxeram uma enxurrada de gente para as ruas de cidades em todo o país. E, mesmo reproduzidos, imaginar que eles irão influenciar da mesma forma um tecido social que não tem as mesmas características exatamente porque já passou por junho e todo o seu rescaldo também é complicado.

Manifestações ocorrerão certamente – basta analisar os debates que estão ocorrendo nas redes, em organizações e movimentos sociais, partidos políticos, redações, enfim, com finalidades sociais ou eleitorais. O tamanho delas é que é a grande incógnita.

Se eu tivesse que apostar, diria que uma grande massa com mais de 50 mil almas em um só lugar, como aquela do 17 de junho não se repetirá no ano que vem – o que não significa que os protestos não poderão ser fortes, vigorosos e contundentes. Mas a menos que algum novo elemento se apresente, seu tamanho e frequência, fruto da explosão catártica dita acima, será menor. Uma faísca, com o mesmo impacto das cacetadas da PM transmitidas pela internet e televisão.

Como a morte de um grupo de manifestantes (batendo na madeira três vezes e torcendo para que isso não aconteça, é claro) pelas mãos de agentes do Estado – o que, considerando a truculência de determinados setores de nossa força policial e da sua forma, muitas vezes, criminosa de atuar nesses momentos, não é de se descartar. Isso sem contar que políciais estaduais, Força Nacional e, muito provavelmente, o Exército irão ter presença ostensiva para garantir que tudo fique na mais completa ordem. O que pode frear ou incendiar manifestantes.

Ou talvez a completa incapacidade de análise de conjuntura e de gestão de crises por parte de governos municipais, estaduais e federal. Afinal de contas, erra quem acha que o processo iniciado em junho acabou. Pelo contrário, ele foi responsável por elevar no imaginário popular o status da rua como local de protestos e cobranças públicas. Novos manifestantes fizeram sua incursão e gostaram. E os antigos, que sempre estiveram lá, ganharam com a diminuição (ainda que pequena) do preconceito contra eles.

Dependendo da incompetência, ignorância, má fé ou prepotência de gestores que acreditam piamente ter controlado a situação ou que a população esqueceu das pautas reivindicadas, as condições para uma nova catarse que junte mais de 50 mil, por mais difícil que isso seja, podem voltar. Às vezes, a faísca reside, na teimosia de gestores em querer aumentar novamente o preço da tarifa de ônibus e metrô, por exemplo.

Vale ressaltar, porém, que alguns milhões foram às ruas em todo o país, mas eles representam menos de 5% da população nacional. Isso não tira um centímetro da legitimidade do que aconteceu, até porque muita gente que não foi às ruas apoiou os atos. Mas isso põe em dúvida como isso será recebido.

Pois é claro que milhares de pessoas podem parar uma cidade em dias de jogos, mas a pergunta é como o restante dos 95% irão reagir se o Brasil estiver em uma final no Coliseu, quer dizer, no Maracanã. Nem todo mundo está conectado e é informado pela rede ou possui fontes alternativas de informação. E cada um reage à propaganda de forma diferente, às vezes de forma crítica, mas na maior parte do tempo passivamente.

Nesse ponto de vista, para entender o que vai acontecer, adoraria receber um DVD com os comerciais que serão veiculados pelas marcas patrocinadoras durante a Copa do Mundo e os vídeos patrióticos produzidos pela Globo, rede que detém os direitos de transmissão.

Creio que essas peças terão maior influência sobre a formação do espírito da massa no ano que vem do que a maior parte das matérias produzidas por alguns jornalistas tentando induzir ou murchar essas manifestações.

Bem, tudo isso é especulação. Certo mesmo é que Fuleco é um péssimo nome para mascote.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.