PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Em dias estupidamente quentes, deveria ser decretado feriado em São Paulo

Leonardo Sakamoto

31/01/2014 10h27

Janeiro já é um dos meses mais quentes da história de São Paulo.

Mas acho que você, cara paulistana, caro paulistano, já percebeu isso. Na dúvida cruel se é melhor ir até a esquina comprar pão e voltar pingando de suor ou passar fome. Nas camisas que ganharam golas encardidas com camadas de melaço de suor depositadas ao longo de um único dia. Com a disputa acirrada no escritório pela hegemonia do ventilador. Nas mensagens de campanhas, circulando na sua timeline, para adotar a bermuda e a camiseta como indumentária de trabalho.

Sugiro, portanto, trocar um dos vários feriados religiosos deste país laico pela possibilidade do poder público decretar uma parada obrigatória em dias irritantemente quentes.

Um feriado religioso faz bem à alma de milhares de fieis dedicados aqui. A ideia que apresento faria um bem enorme ao corpo a todos os mais de 12 milhões de moradores do município de São Paulo, os que acreditam, os que acreditam só um pouquinho, os que acreditam em tudo ao mesmo tempo, os que não acreditam mas não negam e os que não.

Em cidades de inverno rigoroso, quando neva muito, há governos que decretam feriado. Em lugares escaldantes, ondas de calor muito intensas liberam os trabalhadores de seus afazeres. Com isso, resguardam a saúde física e mental de seus moradores.

Sugiro que o mesmo seja implantado por aqui, pois esse calor está tirando o paulistano do sério. Dia desses, passei de terno em frente a uma fonte e me imaginei lá dentro, com água caindo na cara, uma cerveja na mão, flutuando com um daqueles espaguetes coloridos de piscina… O calor delira a gente.

Se não for possível trocar um feriado religioso por um laico, então podemos escolher uma divindade envolvida com fogo, sol, calor, enfim, e dedicar um dia a ele ou ela. Agni, Angra, Bastet, Belenus, Brighid, Camaxtli, Creidhne, Goibniu, Grannus, Hefesto/Vulcano, Huracán, Loki, Luchtaine, Ometecuhtli, Ogum, Ptah, Ra, Varuna, Xiuhtecuhtli, Xocotl… Tem um monte, é só escolher.

Não fizemos isso com o Natal, afinal de contas? A data não era destinada originalmente à celebração do sol e foi usada pela igreja para ajudar na conversão dos cidadãos do império romano? Então! Fazemos justiça e entregamos outra data a ele.

A verdade talvez seja essa. Vendo como impermeabilizamos, concretamos e arrancamos fora o verde de São Paulo, como poluímos e escondemos nossos rios por baixo da terra, como jogamos milhões de toneladas de gases e partículas de motores no ar, ajustando – por fim – o termostato da cidade para "cozinhar os idiotas lentamente", o deus sol demanda um sacrifício. Como imolar jovens em pedras sagradas caiu em desuso, um dia em sua homenagem seria de bom tamanho.

Quem sabe a redução nos lucros, impostos e salários provocada por feriados climáticos façam com que o setor empresarial, governo e sociedade encarem o fato de que morar em São Paulo está se tornando – literalmente – um inferno. E levem a todos a fazer concessões diante da inviabilidade da vida na cidade.

Aliás, o diabo tem um feriado?

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.