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Leonardo Sakamoto

Dez passos para combater o nosso machismo ridículo

Leonardo Sakamoto

15/02/2014 09h23

Passei tanto tempo tentando explicar a um grupo de pessoas, nesta sexta, a razão de não ser legal chamar Dilma Rousseff de "vaca" que até perdi o prumo. Não é a primeira vez que tento convencer alguém de que esse tipo de ofensa, longe de ser uma análise da honestidade, competência e dedicação da pessoa, é uma forma machista de depreciar uma mulher simplesmente por ser mulher. Eles não queriam chamá-la de corrupta, incompetente e desleixada. Disseram que "vaca" resumia tudo.

Sim, é fato. Resume tudo sobre eles.

E não pensem que isso é monopólio de pessoas de determinada preferência política, não. Acontece em todos os lugares e classes sociais. Ou vocês acham que já não reclamei o mesmo quando o grupo era diferente e o alvo a senadora Kátia Abreu?

Por isso, resolvi atualizar e retomar uma série de medidas que já havia publicado neste espaço que gostaria de ver transformadas em lei. Ou, melhor, cumpridas mesmo que não endossadas por parlamentos por conta da simples percepção de que mulheres deveriam ter os mesmos direitos que os homens. Vamos lá:

1) O currículo escolar será aprimorado para que, nas aulas de língua portuguesa, os meninos e rapazes possam compreender o real, objetivo, profundo e simples significado da palavra "não".

2) As frases "Onde você acha que vai vestida assim?", "A culpa não é minha, olha como você tá vestida!", "Se saiu de casa assim, é porque está pedindo" a partir de agora serão banidas da boca de maridos, pais, irmãos, filhos, netos, namorados, amigos e outros barbados.

3) Está terminantemente proibido empregar apenas atrizes em comerciais de detergentes, desinfetantes, saches de privada, sabão em pó, rodos, vassouras, esponjas de aço, palhas de aço, aspiradores de pó, cera para chão e afins. A associação direta de mulheres e produtos de limpeza em comerciais de TV está extinta para sempre.

4) A partir de agora, empresas implantarão políticas para impedir que elas ganhem menos pela mesma função, não sejam preteridas em promoções para cargos de chefia pelo fato de serem mulheres, não precisem temer que a maternidade roube seu direito a ter uma carreira profissional e seja punido com demissão o assédio de gênero como crime à dignidade de suas funcionárias.

5) Cuidar da casa e criar os filhos passa a ser visto também como coisa de homem. Prazer e orgasmo também como coisa de mulher. E nenhuma mulher será humilhada no momento do parto, porque todos saberão que é ela a protagonista, não o médico.

6) Os editoriais dos veículos de comunicação não serão escritos por equipes eminentemente masculinas. Da mesma forma, as agências de publicidade se comprometem a derrubar a hegemonia XY em suas equipes de criação, contribuindo para diminuir o machismo nos comerciais de rádio TV e anúncios em jornais, revistas e na internet.

7) O direito da mulher a ter autonomia sobre o próprio corpo e o direito de interromper uma gravidez indesejada não precisarão ser questionados. Nem devem requerer explicação. Também não interessará a ninguém com quem uma mulher se deita. E se ela nasceu com pênis ou vagina.

8) Os partidos políticos investirão pesado em candidaturas de mulheres a fim de contribuir para que os parlamentos representem, realmente, a sociedade brasileira. Da mesma forma, nomeá-las como secretárias de governo, ministras, cargos de confiança e altos postos do Judiciário e do Ministério Público, na mesma proporção que homens, será ato corriqueiro.

9) Mulheres, em nenhuma hipótese, serão confundidas com ruminantes. Ou chamadas de "prostitutas" como xingamento genérico para qualquer comportamento em desacordo com o que se "espera" de uma "mulher de bem". E as prostitutas serão tratadas com o mesmo respeito despendido a qualquer outra trabalhadora.

10) Por fim, feminismo será considerado sim assunto de homem. E meninos e rapazes, mas também meninas e moças, deverão ser devidamente educados desde cedo para que não sejam os monstrinhos hoje formados em ambientes que fomentam o machismo, como família, igrejas e escolas.

Em tempo: aproveito para agradecer novamente às mulheres que passaram pela minha vida e foram fundamentais para que eu não seja tão idiota quanto poderia ser.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.