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Hoje é daqueles dias em que sinto uma vergonha enorme por ser homem

Leonardo Sakamoto

27/03/2014 18h11

Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que 26% da população concorda total e parcialmente que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". E 58,5% concorda total e parcialmente que "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros".

Quem se assustou com isso não conhece o país em que vive.

Vou reproduzir um comentário que já havia feito aqui:

Para uma parcela considerável da sociedade, não se enquadram na categoria de "vagabundas" apenas mães e avós, que dormem o sono das santas católicas, enquanto quem é "da vida" povoa as ruas e a madrugada.

Porque "mulher de bem" cuida da família, não sai sozinha ou à noite, não aceitaria nunca colocar um vestido acima do joelho e deixar as costas de fora, não bebe, fuma ou tem vícios detestáveis, não ama apenas por uma noite e não ri em público, escancarando os dentes a quem quer que seja.

"Mulher de bem" permanece em casa para servir o "homem de bem" e estar à sua disposição como empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira ou objeto sexual, a qualquer hora do dia e da noite. Por que? Porque, na cabeça dessa parcela considerável da sociedade, elas pertencem a eles. Porque assim sempre foi, é assim que se ensinou e foi aprendido. É a tradição, oras!

E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado.

Nesse sentido, quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns "corretivos sociais". Reclamamos de estúpidos muçulmanos que, do alto de uma interpretação bisonha do Corão, atacam mulheres que resolveram ser independentes, mas acabamos por fazer o mesmo aqui. Não é a contundência de um vidro de ácido lançado no rosto de quem deixou a burca ou o shador em casa. Mas pode corroer tão fundo quanto e deixar marcas que podemos não perceber.

Corretivos sociais que aparecem na forma de "inocentes" brincadeiras, de comentários maldosos, de críticas abertas, de encoxadas humilhantes, de assédio psicológico ou físico, de tentativas e de estupros consumados.

As formas de violência que não envolvem agressão física são também perversas porque, como tal, não são encaradas. "Não foi nada demais, apenas uma brincadeira" ou "Esqueça! Ele é jovem! Só está fazendo molecagem."

Uma mulher que conversa de forma simpática em uma festa está à disposição.

Uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição.

Um grupo de mulheres sem "seus homens", andando na noite, está à disposição.

Depois perguntam o porquê de Marchas das Vadias acontecerem ao redor do mundo para protestar pelo direito de viver da forma que melhor convier.

Torço para que a quantidade bizarra de histórias sobre rapazes que crêem que moças são objetos à sua disposição seja consequência do aumento de informação circulando por conta do crescimento das ferramentas de redes sociais e não por causa de uma mudança no seu comportamento. Ou seja, fatos que já aconteciam antes e que, agora, deixaram a penumbra e ganharam visibilidade. Caso contrário, vou entrar em depressão profunda.

– Você não tem namorado. Se tivesse, ele não te deixava sair sozinha.
– Mulher minha só vai para festa comigo do lado.
– Não importa que você não queira, se não me der um beijo, eu não deixo você ir.
– A culpa não é minha, olha como você tá vestida!
– Se saiu de casa usando só isso de roupa, é porque estava pedindo.
– Ei, mina, se liga! Se não queria ficar comigo, porque topou trocar ideia?

Como já trouxe aqui, o homem precisa começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho. Começar a mexer na sua programação que, desde pequeno, o ensina a ser agressivo e a tratar mulheres como coisas. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto em público. Legal é xingar, machucar, deixar claro quem manda e quem obedece. O contrário é coisa de mina. Ou, pior, de bicha.

E vale ressaltar: homens e mulheres responderam essas aberrações no estudo, sendo as mulheres, aliás, a maior parte. Porque esse sistema de homens conta com soldados de ambos os lados. Não importa de onde vem o preconceito, a matriz continua machista. Meninos e rapazes, mas também meninas e moças, deveriam ser devidamente educados, desde cedo, para que não se tornassem os monstrinhos hoje formados em ambientes que fomentam o machismo, como família, igrejas e escolas.

Enquanto o processo de conscientização caminha, o Estado deve deixar claro que violência contra mulheres, seja ela física ou verbal, não pode ficar sem punição. Pois enquanto uma mulher não tiver a garantia de que não será importunada, ofendida ou violentada, com ações ou palavras, toda a sociedade vai ter uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer. Ou seja, não fiquem tranquilos se estiverem na porcentagem que respondeu outra coisa.

Enfim, a pesquisa apenas confirma o que já sabemos. Mesmo assim, ver os números, escancarados, gera uma sensação ruim.

Sim, hoje é um daqueles dias em que sinto uma enorme vergonha de ser homem.

*Atualizado às 16h30, do dia 04/04/2014, para a correção da porcentagem dos entrevistados que concorda total ou parcialmente que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas". O Ipea errou e informou que seria de 65,1% ao invés de 26%. Apesar de menor, o número ainda é alto para a questão. O número foi invertido com outra pergunta: 65,1% dos consultados concordam total ou parcialmente com a afirmação "Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar". O que também é muito triste.

Contudo, as conclusões gerais da pesquisa apontam para a mesma direção. E 58,5% de entrevistados continua acreditando "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros". Por esses números, continuo com vergonha de ser homem. Mas também com vergonha do Ipea, um instituto extremamente relevante para o país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.