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Culpa pela falta de água e energia será do PSDB e PT e não do clima

Leonardo Sakamoto

14/05/2014 11h30

Um relatório produzido pelo governo paulista apontou que uma estiagem tão forte quanto aquela que secou o Sistema Cantareira, que abastece parte da região metropolitana de São Paulo, só ocorre a cada 3.378 anos. E que a probabilidade do cenário atual se repetir é de 0,033%.

Essa conta, contudo, faria sentido se a série fosse estacionária, sem levar em conta um fator importante: a mudança do clima. O regime hídrico atual não é mais o mesmo daquele que vivenciamos no século 20.

É o que me explicaram dois especialistas, um ligado ao governo de São Paulo e outro ligado ao governo federal, que atuam nessa área. Por razões óbvias, pediram para não serem identificados.

Quando o governo estadual usa o argumento de que estamos em um momento atípico para justificar o iminente cataclisma de fornecimento de água à capital, apenas evidencia que não levou em conta que o clima está mudando em seu planejamento. Pois, se tivesse, a própria justificativa não faria sentido.

O mesmo vale para o governo federal, que já culpou São Pedro ou "duras regras ambientais" pelo risco de racionamento de energia elétrica.

Ou seja, racionamentos de água ou de energia elétrica têm sim que entrar na conta de quem está no poder. Seja do PSDB, que governa o Estado de São Paulo há praticamente 20 anos, seja do PT que governa o país há quase 12. Deveriam ter levado isso em consideração e se precavido. Como não quiseram ouvir, não acreditaram ou se importaram pouco, agora os prejudicados somos todos.

Mas tem gente que acha que o mundo é o mesmo do século 20. Em todos os sentidos…

O IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, já afirmou que os governos não estão preparados para o que está acontecendo. Nós somos a prova viva (e seca) disso.

Enfim, na opinião de ambos os especialistas, os governos comeram mosca. E, preparem-se: a despeito de crises de seca ou de enchentes, a vida será mais difícil daqui em diante.

Bem-vindos, políticos. Este é o maravilhoso clima novo que todos ajudamos a criar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.