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Leonardo Sakamoto

São Paulo: sem água, sem ar, sem terra. E com fogo

Leonardo Sakamoto

11/11/2014 11h56

A água dos reservatórios está acabando.

(Mas continuamos creditando o problema e a solução a alguma divindade antropomórfica vingativa e torcendo o nariz para necessárias mudanças no comportamento diante da falácia do recurso "renovável", negando-nos a combater o desperdício e a pagar mais pelo seu uso.)

O ar é o mais poluído dos últimos sete anos.

(E seguimos tendo orgasmos múltiplos diante de anúncios de automóveis e motocicletas e babando em frente a vitrines de concessionárias enquanto mentimos em pesquisas de opinião, dizendo que amamos ônibus e bicicletas para ficar bem na fita.)

A terra e seu alto valor tornaram a cidade proibitiva.

(Contudo, na hora de apoiar medidas para cumprir a Constituição e impedir que a especulação imobiliária seja mais importante que a dignidade, quem tem pouco adota, por vezes, um discurso violento, que seria esperado dos grandes proprietários. Estufam o peito e gritam: A cidade é para quem pode pagar por ela! E, percebendo que eles próprios não podem, com o rabo entre as pernas, mudam-se para longe.)

O fogo é uma exitosa política de desenvolvimento urbano.

(Enquanto sentem pena de famílias que perderam tudo, abrem imperceptíveis sorrisos de olho no erguimento de bancos, salas de concertos e de exposições, teatros, sedes de multinacionais, escritórios da administração pública, restaurantes, equipamentos públicos. E apartamentos, para quem pode pagar, é claro.)

Se você era jovem na década de 90, pertinentemente chegaria à conclusão de que resta apenas clamar pelo Capitão Planeta. O problema é que, em São Paulo, há uma chance dele estar ocupado garantindo que a periferia fique na periferia ou controlando "pacificamente" manifestações. E, é claro, respondendo a demandas de doadores de campanha de seus chefes.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.