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Leonardo Sakamoto

Damos sangue para o povo, pois o povo quer sangue?

Leonardo Sakamoto

13/07/2015 17h17

"Se morreram, é porque são bandidos."

"Todos são suspeitos até que se prove o contrário."

"Foi igual a dar tiro em pato no parque de diversões."

"Quem não reagiu está vivo."

As frases, colhidas da boca de autoridades e policiais após ações violentas, são indícios de que o Estado vai se tornando aquilo que deveria combater. E não foram rebatidas imediatamente como se deveria.

Na invasão norte-americana do Iraque, popularizou-se a figura do jornalista "embutido", que segue as forças armadas, veste o mesmo uniforme e vê registra apenas o que o Tio Sam quer que seja visto e registrado. Caso contrário, não pode contar com o apoio de seu país na cobertura.

Com adaptações, parece que o "jornalismo-salame" se repete por aqui em parte das coberturas de ações policiais, que mais parecem relações públicas do que jornalismo. Ou, melhor dizendo: soam mais como entretenimento do que como jornalismo.

O jornalismo-salame faz silêncio ou justifica o injustificável. Não quer se indispor com a corporação, pois depende dela para a audiência do dia seguinte. Acompanha o rádio da polícia e, ao sinal de algo que possa gerar boas imagens, manda uma equipe. Que faz uma narrativa acrítica do que é transmitido, ou seja: coloca uma perseguição no ar, seguida de declaração de policiais. Nenhuma análise sobre o ocorrido, sobre causas ou consequências daquela situação, sobre contexto, sobre responsabilidades.

Pois as razões já foram definidas junto ao apresentador no estúdio antes da equipe deixar a garagem da emissora. É emoção em forma de imagens para ilustrar um discurso.

Faz-se necessária uma cobertura mais crítica e contundente do poder público em suas ações de combate à criminalidade. O pessoal do site Ponte.org, por exemplo, realiza um trabalho fundamental nesse sentido. Pena que são minoria. E que sangue espirrando na tela gere mais interesse de quem pauta o jornalismo do que discussões profundas e eficazes sobre segurança pública.

"Ah, mas é o povo que quer isso. Quem somos nós para negar?" Por favor, né? A desculpa da oferta de pão e circo junto com escravos aos leões esfarrapou-se com a queda de Roma.

Se acreditarmos que as coisas vão bem simplesmente porque tem mais "bandido" morrendo ou crianças indo para a cadeia, sem discussões estruturais, quando percebermos que estávamos enterrando a própria sociedade já será tarde demais.

E parte da culpa será da imprensa.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.