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Como o Estado laico já era, decidi: vou abrir uma igreja

Leonardo Sakamoto

16/07/2015 09h49

Decidi. Vou abrir uma igreja.

Considerando que o país caminha a passos largos para garantir que organizações religiosas tenham mais direitos que o restante da sociedade (Estado laico? Rá!), creio que é a saída mais lógica. Como diria o velho e bom Torquemada: é se converter para não perecer.

A gente transforma o Havana Connection em programa religioso e consagra como bispos o Guilherme Boulos, o Jean Wyllys e a Laura Capriglione. O Boulos pedindo para os fiéis levarem um copo de rum para perto da tela a fim dele ser benzido em nome de Che seria icônico.

Daí convidamos Antonio Prata, Eliane Brum, Emicida, Ferréz, Gregório Duvivier, Xico Sá, o papa Francisco, entre outros, para serem ministros da congregação – cada blog ou conta em rede social, um ministério diferente.

Nossa religião seria baseada em mídia, claro – e qual não é hoje em dia? E tá cheio de espaço irregularmente posto à venda nas concessões públicas de TV. É só juntar dízimo e comprar algumas horas de programação. Estrearíamos um "Fala que eu te escuto" com a Laerte atendendo ligações dos telespectadores na madrugada e dando conselhos sobre coisas da vida e amor.

Daria para substituir a "Terça-feira da Cura" pela "Terça da Cachaça seguida de Ressaca", a "Quarta-feira da Família Tradicional" pela "Quarta-feira Colorida do Amor Livre", as escolas sabatinas da bíblia pela leitura das charges do Angeli e o "Bispo Macedo Responde" por, claro, "Jean Conta Tudo".

Racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos, xenófobos e preconceituosos sociais de todas as formas seriam levados por suas famílias e amigos ao nosso Templo Maior para serem exorcizados.

– Qual o seu nome, meu filho?
– Marco Antônio Almeida Prado Marcondes Teixeira de Bragança Neto
– E o que você tem a dizer?
– Que cotas são racismo às avessas, que homens e mulheres não devem ter direitos iguais, que gays não podem constituir família e que pobre só é pobre porque foi preguiçoso.
– ELE ESTÁ POSSUÍDO, MINHA GENTE! Em nome de Michel Foucault, Ignorância demoníaca saia do corpo deste rapaz!

Uma igreja não montou uma "pseudomilícia" para Deus, os "Gladiadores do Altar"? Então, se a gente, no âmbito da nova religião, estruturar uma guerrilha de orientação maoísta no Araguaia (a segunda vez é a que vale), as forças armadas não poderão criar problemas, correto? Ou as forças armadas são contra a liberdade religiosa? Outra opção é fomentar o "Batalhão Duas Rodas", uma milícia furtiva de jovens ciclistas noturnos nas grandes cidades para levar graça a quem parar em cima da faixa de pedestres ou estacionar em vaga de pessoas com deficiência.

A Proposta de Emenda Constitucional 99/2011, que garante que associações religiosas possam entrar com ações de constitucionalidade e inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal – e que está caminhando no Congresso Nacional – ajudará, se aprovada, a setores fundamentalistas religiosos a questionar direitos de minorias. O que é bizarro.

Mas, veja por outro lado, nossa igreja também terá voz no Supremo como parte interessada. Assim, poderemos ingressar com uma exigência: a de que o símbolo da nossa religião, um Jesus crucificado em uma foice e um martelo (já pedimos a Evo que consiga os direitos autorais da peça que ele deu a Francisco), seja colocado ao lado de cada crucifixo cristão que ornamenta uma parede de prédio público no Brasil – o plenário do STF, a Câmara dos Deputados e repartições públicas mil. Por que só os cristãos podem?

Além disso, vai ficar mais fácil ir para a América Latina, ampliar a igreja e, na volta, comprar uísque no frichópe. Afinal, Valdomiro Santiago de Oliveira, liderança da Igreja Mundial do Poder de Deus, Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, e R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus já foram agraciados com passaportes diplomáticos pelo poder público por desempenharem "função do interesse do país". Também teremos passaportes diplomáticos para ir a Havana e voltar.

E já que a Igreja Católica está pressionando o município de São Paulo para criar normas específicas para "locais de culto", garantindo um público maior do que o zoneamento permite, iremos aproveitar a brecha para a implantação do nosso Templo Maior onde hoje é o Clube Paulistano, que congrega a nossa elite local.

Para isso, decidimos aperfeiçoar o dízimo por cartão de crédito, desenvolvido por algumas igrejas, para o dízimo com consignado – que debita já da folha de pagamento.

E se tudo o que disse não for suficiente para te convencer da utilidade de fundar uma igreja neste momento, lembre-se que o presidente da Câmara dos Deputados é Eduardo Cunha, um homem profundamente religioso, que vai transformar o país à sua imagem e semelhança.

Se não pode vencê-los, junte-se a eles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.