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Leonardo Sakamoto

Quando montanhas de livros forem queimadas nas ruas, você sentirá remorso?

Leonardo Sakamoto

27/07/2015 15h12

Antes, se alguém me mostrasse uma imagem de pessoas enlouquecidas em torno de montanhas de livros em chamas, eu me lembraria de "Fahrenheit 451", de François Truffaut (1966), baseado na obra de Ray Bradbury.

No filme, livros são proibidos, sob o argumento de que tornam as pessoas infelizes e improdutivas. Quem lê é preso e "reeducado". Se uma casa tinha livros, "bombeiros" eram chamados para queimar tudo.

Hoje, se me mostrassem uma imagem assim, logo me perguntaria: onde desta vez? Algum grupo fundamentalista islâmico, cristão ou judeu? Interior dos Estados Unidos? Neonazistas europeus? África? Coreia do Norte? China? São Paulo, Rio ou uma grande cidade brasileira?

Um casal de amigos conta que circulou na lista de WhatsApp de seus filhos mensagens sugerindo que jogassem fora os livros "comunistas" de seus pais. Relatos de pessoas que foram assediadas por carregarem livros de Marx e, principalmente, Gramsci não são raros na rede.

No dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas.

Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por ousarem pensar diferente da maioria. A Alemanha "purificou pelo fogo" as ideias imundas deles, da mesma forma que, durante a Contra-Reforma, a Santa Inquisição purificou com fogo a carne, o sangue e os ossos daqueles que ousaram discordar.

A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista, levado a cabo por estudantes que apoiavam o regime. Hannah Arendt explica. Deu no que deu. E hoje vemos muitos se acovardarem diante de ondas intolerantes frente à difusão do conhecimento humano.

Colegas da imprensa me contaram histórias de membros de igrejas e templos do interior que pediram a seus fieis – após a polêmica envolvendo a divulgação do 3o Programa Nacional de Direitos Humanos – que destruíssem publicações que tratassem do tema.

Passamos tanto tempo nos preocupando em garantir que os mais jovens decorassem datas de "descobrimentos" e locais de batalhas que não fomentamos o pensamento crítico. Muito menos mostrar a eles por que é tão fundamental aprender História.

E que História não se absorve através de apenas uma única fonte de informação, mas de várias, e que ela mesma vai mudando à medida em que temos mais elementos para reafirmar ou contrapor as antigas certezas. E de preferência, fontes que tenham passado pelo crivo de discussões acadêmicas e sociais.

Um amigo te disse que o Hocausto judeu na Segunda Grande Guerra nunca existiu? Na minha opinião, isso é um um erro grave, porque há milhões de corpos para mostrar o contrario. Mas se informe por outras fontes antes de tirar uma conclusão – livros, documentários, reportagens.

Pois verá que nem tudo é uma questão de opinião.

De acordo com o sociólogo Bernard Charlot, um saber só tem valor e sentido por conta da relação que ele produz com o mundo. Não é o livro que tem valor em si, mas o que a pessoa fará dele. Ou seja, muitos leem mal e porcamente um livro de História porque acham que não precisam dele para poder seguir sua vida. Se o debate público for mais qualificado, a pessoa se sentirá mais motivada.

Um jovem leitor (ou um perfil fake com foto de jovem leitor) postou "livros mentem, informe-se em sites". Como se a credibilidade de um conteúdo se desse pelo veículo que o transporta e não pelas evidências que ele apresenta.

Outro escreveu "não confio na história pois a história é contada de forma parcial pelos esquerdistas (…) Lembro que a história de que comunista come criancinha é porque Lenin tomou as colheitas dos camponeses e eles passavam tanta fome que comiam suas crianças. É isso que você quer para o Brasil?‬‬‬"

Não, meu amigo. Primeiro, que apesar de algumas publicações bizarras circulando na rede com erros infantis, a história é, na maioria das vezes contada pelo vencedor. Particularmente quero que o Brasil estude História e leia, leia muito. Leia o que concorda e com o que não concorda também, mas leia fontes de informação que não sejam anônimas e que baseiem seus relatos em provas e não em suposições ou teorias da conspiração. Que são gostosas, mas burras.

Caso contrário os ETs de Roswell e de Varginha vão vir puxar seu pé à noite.

Por fim, há versões digitais das pilhas de fogo de Fahrenheit 451 e daquele maio de 1933 que têm sido verificadas por mim e por alguns colegas jornalistas dos mais diferentes matizes ideológicos. Um exemplo: "você não perde por esperar, você não vai ter mais lugar para escrever, vamos apagar tudo o que você já escreveu, não vai poder mais fazer a cabeça de ninguém".

"Vamos apagar o que já escreveu."

Então, tá. Enquanto isso, só nos restam duas coisas: Lutar contra a ignorância. E fazer um bom backup.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.