PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Caso Volkswagen: A fraude não prejudica todo mundo. Apenas quem respira

Leonardo Sakamoto

23/09/2015 11h23

A Volkswagen instalou um mecanismo para fraudar testes de emissões de poluentes, fazendo com que 11 milhões de seus carros aparentassem ser menos tóxicos do que normalmente eram. Com isso, além de enganar o consumidor, prometendo algo que não entregava, a empresa apertou a tecla "dane-se" para a qualidade de vida no planeta, considerando que automóveis são uma das principais fontes de problemas. Ou seja, não apenas o comprador foi prejudicado, mas todo mundo que respira. Que, creio, não são poucos.

Isso me lembrou algumas dicas rápidas para produzir uma propaganda de sucesso. Porque "verdade" é tudo aquilo que conseguem nos convencer de acreditarmos.

Seja carismático. Utilize crianças simpáticas e animais silvestres saltitantes ao fazer um vídeo institucional para uma empresa de agrotóxico. Crianças e animais fofos são como coringas. Nunca falham. Vide o Globo Repórter: na dúvida, botam sempre um especial sobre os filhotes de girafa da África ou os gorilas anões do Congo.

Venda valores. Se for de uma indústria de cigarro, defenda a liberdade com responsabilidade usando um locutor de voz séria, mas aveludada, no rádio.

Cative seu consumidor. Mostre que aquele SUV não polui tanto porque já vem de fábrica com adesivo "Save the Planet". Ou é de uma marca alemã com décadas de credibilidade. Lembre-se que a credibilidade, bem como a fé religiosa, também pode vir de um discurso que, proferido à exaustão e sobreposto a si mesmo ao longo do tempo, legitima a si próprio.

Ignore a realidade. Comercial de biscoito recheado deve mostrar só crianças magrinhas. Já sanduba mega-ultra-hiper-infartoso pede uma modelo com um biotipo que você nunca – atenção para o nunca – vai conseguir ter em condições normais de pressão e temperatura.

As leis são suas amigas. Anunciar que um automóvel chega a 300km/h com um limite de velocidade de 120 km/h no país não é crime. Chegar a 300 km/h é que é.

Seja sincero. Coloque um grande desmentido com letrinhas bizarramente miúdas no final do comercial de TV para explicar que se quiser comprar um carro naquelas condições anunciadas só sendo trigêmeo (acompanhado dos irmãos), ter mais de 90 anos e vir à loja em dia bissexto do ano do Rato no horóscopo chinês.

Dê vida ao seu anúncio. Propaganda de carne pode sim usar vaquinhas e franguinhos felizes anunciando o produto. Mesmo que o produto seja de vaquinhas e franguinhos mortos e moídos – normalmente com o sofrimento de animais e de trabalhadores durante o seu processamento.

A insatisfação é motor da mudança. Ter o amor pela esposa posto a prova porque a geladeira não é assim uma Brastemp, funciona.

Mostre respeito. Se for um banco, faça um comercial para fazer crer que, para você, as pessoas são mais importantes que o dinheiro delas (desculpe, pausa para rir).

Seja campeão de sustentabilidade. Por um lado, é um termo ainda em disputa. Por outro, pouca gente entende o que estea em disputa. Mas é grande, verde e bonita, então use sem dó.

Por fim, mostre que ter aquele produto é a garantia de fazer parte de um seleto grupo de privilegiados. E que sua posse é não apenas a porta de entrada para a cidadania, como também a saída de emergência da indigência do transporte coletivo. Não importa se o carro continua poluindo, mas sim que, coletivamente, todos acreditem que não.

Vocês nunca imaginaram a razão pela qual um carro que custa centenas de milhares de reais tem um anúncio na TV aberta, quando faria mais sentido uma publicidade personalizada e individual? Sim, a propaganda serve para, através da criação do desejo coletivo por um produto, agregar valor relativo à vida de quem o possui. Ou seja, todos precisam entender que quem possui aquele produto é um sujeito foda. Por que? Porque possui aquele produto.

Que, além de tudo, preserva o meio ambiente. Sim, está na propaganda. Então é verdade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto