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Leonardo Sakamoto

O Rio teria a coragem de eleger prefeito alguém que bateu na mulher?

Leonardo Sakamoto

15/11/2015 13h31

Apenas um povo que se orgulha em ter a porrada como um de seus principais patrimônios imateriais, argamassa que dá liga à vida, alfa e ômega de suas relações sociais pode tolerar que alguém que tenha espancado a companheira sonhe em ser candidato a algum cargo público.

Se o secretário executivo de Coordenação de Governo do Rio, Pedro Paulo Carvalho, realmente sair para disputar a prefeitura da capital carioca, em 2016, mesmo com o escândalo envolvendo atos de violência doméstica contra sua ex-mulher, podemos mandar reinicializar o município, pois deu pau, tilt, travou tudo. Afinal, premiar esse tipo de coisa mostra que algo deu muito, muito errado.

Nosso sistema legal não prevê a punição eterna por qualquer crime, por mais violento que seja. E tem suas razões para isso, porque acreditamos – ou deveríamos acreditar – na capacidade de alguém de dar um novo rumo à sua vida e mudar. Mas, pelamordedeus, isso é um cargo público! Um dos mais importantes do país! O padrinho político de Pedro Paulo, o prefeito Eduardo Paes, só pode estar de brincadeira ao dizer que, apesar dos pesares, a candidatura está mantida.

Não seria a primeira vez que a população premia alguém envolvido nessa forma de violência, claro. Vale lembrar, por exemplo, que o ator Dado Dolabella venceu o programa "A Fazenda" depois de agredir sua ex-namorada Luana Piovani. Mesmo sabendo do caso, o telespectador brasileiro resolveu agraciá-lo com R$ 1 milhão.

Pedro Paulo em coletiva à imprensa na qual falou sobre os casos de violência doméstica ao lado da ex-mulher (Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Pedro Paulo em coletiva à imprensa na qual falou sobre os casos de violência doméstica ao lado da ex-mulher, vítima das agressões (Alexandre Cassiano/Agência O Globo)

Mulheres são vítimas de violência doméstica e no trabalho, enfrentam jornadas duplas (trabalhadora e dona de casa), não têm direito à autonomia do seu corpo nem de sua vida e, a depender de Eduardo Cunhas e amigos, nem poderão mais fazer aborto em caso de estupro sem serem constrangidas. Tudo pressionadas não só por pais e companheiros ignorantes mas também por uma sociedade que vive com um pé no futuro e o corpo no passado. A qual todos nós pertencemos e, portanto, somos atores da perpetuação de suas bizarrices.

Pessoas envolvidas em casos assim devem colocar em prática o que ouviram a vida inteira: quem não se enquadra em um padrão moral que obedece à hegemonia masculina, heterossexual e cristã é a corja da sociedade e age para corromper o nosso modo de vida e tornar a existência dos "cidadãos de bem" um inferno.

Dentro desse cenário bisonho, o que é mais importantes? Ser um "homem de bem", mesmo que "escorregando" de vez em quando, socando a esposa, assediando a enteada, ou ser um subversivo que respeita as leis deste mundo. Sejamos sinceros, Dado Dolabella e Pedro Paulo são os genros que muita mãe e pai pediram a Deus.

Fico me perguntando que tipo de povo premia um agressor de mulheres com um cargo público. Será que esse povo tem moral para reclamar de corrupção na política ou de qualquer outra coisa?

De certa forma, tem o lado bom de tudo isso. Se Pedro Paulo sair candidato e vencer, compreenderemos quais são os valores que guiam a maioria da sociedade carioca.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.