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Para comemorar a chegada de 2016, mais uma chacina em São Paulo

Leonardo Sakamoto

02/01/2016 13h10

Quatro jovens morreram e um ficou ferido na primeira chacina do ano em São Paulo, no município de Guarulhos. Adriano Silva Araújo (28), Francisco Pereira Caetano (23), Hermes Inácio Moreira (19) e Leonardo José de Souza (23) foram executados em um bar na Vila Galvão.

De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, quando a perícia técnica chegou ao local, não havia nenhuma cápsula ou projétil em frente ao bar. A Polícia Civil investiga se os assassinatos seriam uma forma de vingança pela morte de um policial militar ocorrido na semana passada.

Vale ressaltar que todas as mortes, dos jovens e do policial, são inconcebíveis e merecem repúdio. Mas também vale ressaltar que o número de casos de chacinas envolvendo policiais, ou seja, agentes públicos treinados e mantidos para defender a lei e não ignorá-la, foi assustadoramente alto em 2015. Mogi das Cruzes, Vila Jacuí, Jaçanã, Quadra da Pavilhão Nove, Jardim São Luiz… Barueri e Osasco.

No ano passado, a execução de 19 pessoas nesses dois municípios da Grande São Paulo levou a uma investigação que prendeu seis policiais militares e um guarda-civil pela participação no crime por vingança. O caso ganhou repercussão, forçando o poder público da dar satisfações – repercussão bem menor, é claro, daquela se as mortes tivessem ocorrido em um bairro rico, pois carne pobre e negra não vale nada por aqui.

Como já disse aqui, independentemente de quem é a culpa direta em cada um desses casos, muitos carrascos poderiam dizer que estavam "cumprindo ordens", como os nazistas em Nuremberg. Pois, o que ocorre em parte dessas chacinas foi um servicinho sujo que vários cidadãos pacatos desejam em seus sonhos mais íntimos. Uma "limpeza social" de "classes perigosas" ou de "entraves ao progresso".

Não é que a nossa sociedade não consegue apontar e condenar culpados por todas elas como deveria. Parece que ela simplesmente não faz questão.

Jogamos na vala comum "culpados" – que não tiveram direito a um julgamento justo e receberam pena de morte – e "inocentes" – que mereceram, porque "se levaram bala, boa coisa não tinham feito". Seja pelas mãos do Estado ou de criminosos.

O desejo mais sincero é que essa faxina social seja rápida, para garantir tranquilidade, e não faça muito barulho. Para não melindrar o "cidadão de bem", que têm horror a cenas de violência.

Bar em que quatro jovens foram executados em Guarulhos. Foto: Edison Temoteo/Futurapress/Folhapress

Bar em que quatro jovens foram executados em Guarulhos. Foto: Edison Temoteo/Futurapress/Folhapress

Compreenderia sem dificuldade alguma caso os moradores dessas comunidades resolvessem se revoltar contra o poder público e acampar no meio da rodovia Fernão Dias, que passa pela Vila Galvão, decidindo sair de lá apenas quando fossem apresentadas medidas para que isso jamais voltasse a acontecer.

Parte dos que reclamam da legalidade de ocupações de vias públicas em protestos (e querem transformar isso em ato terrorista através de lei) se esquecem do desespero que leva muita gente a cometer tal ato. Reclamam do "estupro à legalidade" e se esquecem da causa do protesto. Por que esses farrapos humanos, negros, pardos e pobres simplesmente não morrem em silêncio?

Reitero uma sugestão: independentemente de PMs serem apontados como os culpados ao final da investigação, o governo poderia garantir desde já mudanças na estrutura da força pública, incluindo:

– Um processo de desmilitarização da força policial;
– Mudanças na formação policial;
– Melhoria de salários e condições de trabalho;
– Garantia de punição rápida caso seja constatado o envolvimento de policiais envolvidos em delitos.

E, de forma racional, pedindo ações estruturais que melhorem a qualidade de vida, garantam justiça social, entre outras medidas preventivas, que podem garantir um contexto mais seguro. E não adotando saídas fáceis e bizarras, como colocar crianças nas cadeias. E entregar cadeias à iniciativa privada.

Pois isso diminuiria, e muito, a violência com a qual muitos moradores são tratados no dia a dia e aumentaria a percepção de que há uma separação clara entre "bandidos" e "mocinhos".

Devemos lembrar que ser pacifista não significa morrer em silêncio, em paz, de fome ou baioneta. Adotamos pouco a desobediência civil como forma de reivindicar nossos direitos. Mais do que isso, nossa existência.

Indo nessa toada de direitos para uns, deveres para outros, não estranhem se chegar o dia em que as "hordas" (como ouvi serem chamados os excluídos em uma rodinha de conversa) se rebelem. Não ficaria apenas em alguns ônibus queimados e barricadas de pneus, não. E, se isso acontecer, elas terão toda a razão.

 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto