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Cinco passos para criar um meme e difundir uma mentira pela rede

Leonardo Sakamoto

13/02/2016 16h38

Conteúdo anônimo, sem assinatura, segue ganhando força na rede. Não raro, escondem-se sob a justificativa de que estão fugindo de possíveis represálias porque representam grupos perseguidos. Mas uma grande parte permanece nas sombras a fim de produzir munição para uma guerra virtual por corações e mentes que você pode não ver, mas está aí.

A maioria das pessoas nunca checou a informação que consome. Mas, antes, a procedência era de veículos, grandes ou pequenos, tradicionais ou alternativos, que davam a cara para bater, garantindo transparência ao informar quem fazia parte de suas equipes e sua visão de mundo. Esses veículos são bons, honestos e ilibados? Não necessariamente. Mas, ao menos, podem ser questionados judicialmente em caso de propagação de mentiras.

Para muitos leitores de contas em redes sociais e sites anônimos, não faz diferença se uma informação é verdadeira ou falsa, não faz diferença um esforço hercúleo de reportagem para descobrir se um fato procede ou não. Quando o conteúdo vai ao encontro do que essa pessoa acredita, ela não se importa se é mentira ou não e vai abraçar o argumento e difundi-lo.

Creio que muitos viram o caso do jornal mineiro que deu uma manchete mentirosa dizendo que chamei aposentados de "inúteis", baseado em uma entrevista falsa publicada na mesma edição. Entrevista que eles mesmos reconheceram ser falsa.

Vejam mais em:
Dez impactos imediatos causados por uma mentira difundida pela rede

Meus advogados estão cuidando do caso, o que inclui o jornal e as páginas da rede, e estou em contato com o Ministério Público Federal, pois, como previ no post, ameaças de agressão e morte têm circulado na rede. E memes mentirosos baseados na entrevista falsa passaram a, além de me criticar por algo que eu não disse, a fazer ameaças (exemplo abaixo). Páginas de ódio têm compartilhado a informação e fomentado vingança contra esse jornalista que quer "reciclar idosos". Dezenas de milhares de vezes. Algumas foram suspensas pelo Facebook por conta disso, outras seguem por aí.

Vi muita gente que concorda ou não comigo saindo em minha defesa, o que agradeço. Sei que a defesa não é necessariamente da minha pessoa, mas por um debate mais racional e menos violento.

Muitos que são duros críticos ao que escrevo aqui diariamente alertaram aos seus leitores e ouvintes que era falsa a entrevista publicada. Alertaram para o perigo de fazer a disputa de ideias utilizando informação falsa. Mostraram dessa forma que não importa a nossa matriz de interpretação do mundo, precisamos agir respeitando limites éticos sob o risco de perdermos todos como sociedade.

Contudo, muitos dos leitores e ouvintes desses articulistas responderam que isso pouco importava. Argumentavam que isso era o que eu queria que eles acreditassem: que a entrevista era falsa, invertendo de forma kafkiana todo a história. Ou seja, meu desmentido que era a grande mentira. Ou diziam que isso é um artifício comumente usado pela esquerda, então mesmo que eu nunca houvesse feito isso, estaria provando do meu próprio veneno. Ou ainda, mais abertamente, afirmavam que não importava que era mentira. O que importava é que isso me atingia e que eu merecia por pensar e defender visões diferentes deles.

Pois o importante não é construir significados e alternativas para disputar democraticamente, mas vencer e destruir o adversário tornado, a partir de agora, inimigo.

Mas uma coisa é estar exposto ao justo escrutínio de ideias e ser criticado por elas – o que faz parte do jogo. Outra coisa é a difamação. Por exemplo, textos e memes que atribuem frases que nunca foram ditas para tentar minar a credibilidade fluem loucamente pela rede. São de consumo fácil.

Já vi muita coisa atribuída a Eduardo Cunha, por exemplo, que não era verdade. Ou a Aécio Neves. Ou a Lula. Ou a Fernando Henrique. Ou a Marina Silva. Ou a Jean Wyllys. Ou a Geraldo Alckmin…

Conversei com uma pessoa que trabalhava em campanhas digitais e era responsável por formar opinião em redes sociais. Ela me explicou que o objetivo de pôr um meme falso para circular não é tanto mudar a ideia de quem concorda com a pessoa que é alvo da campanha de difamação, mas municiar de argumentos e fortalecer a identidade de quem não concorda. E, ao mesmo tempo, tentar criar uma dúvida razoável em quem fica na zona cinzenta.  Para isso, adotava uma fórmula mais ou menos assim:

1) Escolha uma foto da pessoa a ser difamada;

2) Coloque como título um questionamento à credibilidade/honestidade/competência da pessoa. Prefira programas de edição de imagens porque o resultado é melhor mas, se não for possível, use um gerador de memes mesmo;

3) Na base da imagem, invente uma declaração que a pessoa nunca disse e que mostre sua incoerência ou atribua algo a ela. Utilize algo que o cidadão comum, pouco informado, consideraria verossímil;

4) Publique o meme nas redes sociais, precedido de um comentário desabonador sobre a pessoa ou exija, de forma indignada, uma resposta dela sobre a mentira com cara de verdade que você acaba de criar. Ridicularize;

5) Certifique-se que o meme será compartilhado. Se você controlar várias contas anônimas em redes sociais, compartilhe em todas elas. Marque outros sites que fazem serviço semelhante ao seu para que possam difundir também, dando credibilidade à ação. Para isso, é sempre bom ter uma rede de contatos ativa. Hoje ele te ajuda, amanhã você o ajuda.

A partir dai, é uma disputa desigual. Um conjunto de reportagens, mesmo de várias fontes diferentes e confiáveis, restabelecendo os fatos não consegue anular o efeito negativo. Primeiro, porque uma parte das pessoas prefere ver figuras do que ler e se informam por memes. É triste, mas é a verdade.

Mas não apenas. "Não adianta vocês tentarem combater um meme ou uma notícia falsos com informação correta porque muitas pessoas não estão nem aí. Elas querem algo para apoiar sua visão de mundo e não se importam muito se é verdade ou mentira", afirmou minha fonte que, por razões óbvias, terá a identidade preservada.

Em outras palavras, estamos perdendo a guerra para as fofocas. As páginas que esclarecem boatos têm desempenhado um importante papel no sentido de trazer os fatos por trás das difamações e há boas delas no Brasil. Mas também têm ação limitada. Nos Estados Unidos, uma importante página que fazia esse papel acabou entregando os pontos, dizendo que a quantidade de boatos crescia a uma velocidade que eles não conseguiam acompanhar e num alcance que eles não conseguiam chegar.

Tenho uma coleção de memes produzidos para me atacar e todos seguem mais ou menos o mesmo modus operandi. Alguns são engraçados, outros violentos, mas todos têm a mesma cara-de-pau de inventarem algo. Alguns não valem o processo judicial, mas outros sim. Não pela censura, sou contra isso. Mas pela possibilidade de descobrir quem controla os sites que se vangloriam por serem anônimos e seus interesses, mas ameaça a integridade física das pessoas nas redes sociais.

Este, por exemplo, surgiu desta última campanha de difamação baseada na entrevista falsa, com frases que eu nunca disse, publicadas pelo jornal mineiro. Vi sendo compartilhado junto com ameaças contra mim:

inutil

Como saber se uma informação está incorreta? Bem, às vezes você não tem como saber de antemão, por isso é importante checar sempre, independente da fonte. Ou, pelo menos, procurar a sua origem – onde foi dito isso, quando e em que circunstância – de forma a não propagar boato. A fonte tem credibilidade? Separar joio do trigo demanda gente bem informada e, mais do que isso, bem formada. Que consiga olhar para algo e nele cravar um ponto de interrogação ao invés de exclamação.

Isso talvez seja um dos maiores desafios que teremos nos próximos anos. O futuro de um mundo em que todos possuem ferramentas de comunicação em massa ao seu alcance, mas não se importam necessariamente se o que passam adiante foi coletado e produzido com um mínimo de cuidado ou não, passa por uma educação para a mídia, como sempre martelo por aqui. Por ensinar crianças e jovens a saberem ter responsabilidade sobre o conteúdo que repassam.

Grandes poderes trazem grandes responsabilidades, já diria o Tio Ben.

Se você é daqueles que não leem coisa alguma e dizem que não tem tempo, nem paciência para isso, e, além do mais, acham que senso crítico é uma besteira, mas adoram curtir, compartilhar e retuitar tudo o que passa pela frente, feito um chimpanzé com cãimbra, por favor, dedique-se apenas à divulgação de tumblr de gatinhos que se assustam com mordidas de tartarugas, fotos de pugs em fantasias vexatórias para a alegria de seus donos e memes com lições de vida de alguém que passou por uma grande provação e tem o objetivo de levar às lágrimas.

Mas abstenha-se de transmitir informação. Você é café com leite, não está preparado para este maravilhoso mundo novo.

(Texto atualizado e adaptado de outra versão publicada no ano passado. Achei que valeria a pena, diante da atual circunstância.) 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto