PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Umberto Eco: A morte e a "legião de imbecis" nas redes sociais

Leonardo Sakamoto

20/02/2016 12h18

Não, você não é obrigado a conhecer Umberto Eco.

Talvez o único contato direto que tenha tido com uma obra do recém falecido escritor italiano seja aquele filme estranho, baseado em um livro de sua autoria… como é mesmo o nome?… tinha flor no título, não?… passou um tempo atrás no Corujão… com o cara que fazia o 007… sim! o Sean Connery… e tinha um monte de monge… enfim. Digo contato direto porque sua produção influenciou o pensamento no século 20 e, portanto, a minha e a sua vida indiretamente.

Mas não sendo obrigado a conhecer Umberto Eco, saiba que você também não é obrigado a postar besteiras nas redes sociais sobre alguém que não conhece só para ser o diferentão no momento em que muita gente comenta o seu falecimento, ocorrido nesta sexta (19).

Não sei nem porque estou me lamuriando. Eu tinha certeza que quando desse meu mergulho matinal nas redes sociais, teria vontade de arrancar meus olhos após ver certas coisas. Para entenderem o que quero dizer, chegou ao ponto de chamarem o homem de "petralha".

E por quê? Porque uma pessoa com pensamento de esquerda elogiou o escritor. E para muitos que não têm conteúdo e não almejam tê-lo, basta saber que se seu "inimigo" (que mundo é este em que o diferente é inimigo!) admira alguém, esse alguém é um bosta. E, imediatamente, atribuir a ele uma série de opiniões que pertencem ao seu "inimigo" e não ao escritor por ele admirado. As pessoas deixam de ser o que elas são e passam a ser "o que eu acho que elas devam ser" baseado em uma imagem incompleta e parcial que tenho de quem os admira.

Se a qualidade de alguém fosse guiada pela análise de seus seguidores, poderíamos dizer que Abraão, Jesus e Maomé não são grandes coisas, tendo em vista o perfil tosco, fundamentalista e violento de parte das pessoas que se dizem suas seguidoras.

Quando Umberto Eco disse que as redes sociais davam acesso à palavra a uma "legião de imbecis", cujas conversas – antes restritas à mesa de bar – foram transportadas ao mundo, elevando o vazio à categoria de ganhador de Prêmio Nobel, nunca teria imaginado que alguns desses imbecis postariam bizarrices sobre sua própria morte sem ter ideia de quem era ele. Pois o problema não é a crítica (coisa que ele respeitava), mas a inexistência da possibilidade de diálogo quando se é guiado apenas pelo ódio.

Ou teria imaginado, rido disso, imaginado o quanto o debate público está pobre e depois refletido que nós realmente caminhamos em direção à nossa autodestruição. Vem, meteoro, vem.

Creio que Umberto Eco não morreu. Ele simplesmente se cansou e se foi. Este mundo de possibilidades infinitas que vão se desdobrando à nossa frente também guarda uma série de desgostos para alguém que confiava no papel central do conhecimento, e não da opinião sem fundamento, no desenvolvimento da humanidade.

Conhecimento que nunca foi tão importante e, ao mesmo tempo, tão desprezado.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto