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Aposentadoria aos 65 anos. Afinal, muito trabalhador terá morrido antes

Leonardo Sakamoto

31/05/2016 10h16

Quem defende a imposição de uma idade mínima para a aposentadoria não costuma carregar sacos de cimento nas costas durante toda uma jornada de trabalho, cortar mais de 12 toneladas de cana de açúcar diariamente e limpar pastos ou colher frutas sob um sol escaldante.

Normalmente quem defende somos nós, jornalistas, cientistas sociais, economistas, administradores públicos e privados, advogados, políticos. Pessoas que, pelo contrário, acham um absurdo a lei impor um teto para aposentadoria compulsória no momento em que o conhecimento e a experiência reunidos pelo profissional poderia ser útil para toda a sociedade.

Afinal de contas, o que são 65 anos para nós, que trabalhamos em atividades que nos exigem muito mais intelectualmente?

Diante da incapacidade de se colocar no lugar do outro, do trabalhador que depende de sua força física para ganhar o pão, no campo e na cidade, esquecemos que seus corpos se degradam a uma velocidade muito maior que a dos nossos. Ou seja, sua expectativa de vida é menor que a nossa.

Se estamos falando de trabalhadores com baixa qualificação, provavelmente também estamos tratando das mesmas pessoas que não puderam completar os estudos e começaram a trabalhar desde muito cedo para ajudar no sustento de suas casas. Com 14 anos, já estavam na luta e nem sempre apenas como aprendizes, como manda a lei.

Às vezes, começaram no batente até antes, aos 12, dez ou menos. Afinal de contas vivemos em um país em que acredita-se que o "trabalho molda o caráter de crianças" e no qual "o trabalho liberta".

Como a ciência não inventou peças de reposição para todos os órgão que sejam da mesma qualidade que as originais de fábrica para a máquina humana, os corpos desses trabalhadores já estão no limite após 50, 60 anos garantindo lucro para outras pessoas.

Os sábios que estão discutindo no Ministério da Fazenda a questão da imposição da idade mínima como requisito, além, é claro, do tempo de contribuição e/ou de serviço, deveriam ter que explicar a proposta, cara a cara, para um grupo de cortadores de cana ou de pedreiros. Sem meias palavras, sem enganações. O pessoal que desconfia que essa história de aumento da expectativa de vida não vale para eles (até porque, devido a fila do SUS, uma consulta demora quatro meses para ser marcada) não vai concordar muito com isso – para ser leve com as palavras.

O ideal seria garantirmos a qualidade do trabalho no Brasil, melhorando o salário e a formação do trabalhador que vende sua força física, proporcionando a eles e elas qualidade de vida – seja através do desenvolvimento da tecnologia, seja através da adoção de limites mais rigorosos para a exploração do trabalho. O que tende a aumentar, é claro, a produtividade. Mas como isso está longe de acontecer (basta ver a "vida" dos empregados de frigoríficos em todo o país, que são aposentados por invalidez aos 30 e poucos anos por sequelas deixadas pelo serviço), a discussão talvez passe por um regime diferenciado para determinadas categorias. E, mesmo assim, a discussão não é simples, pois em algumas delas os profissionais são levados aos limites e aposentados por danos psicológicos – ou chegam aos 60 sem condições de desfrutar o merecido descanso.

Por isso, a reforma da Previdência Social não pode achar que o Brasil é um grande escritório com ar condicionado. Há milhões de pessoas, fundamentais para o crescimento do país, que se esfolam a vida inteira e não devem ser deixadas na beira da estrada quando deixarem a população economicamente ativa.

Caso contrário, para que temos um Estado e um país?

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Leonardo Sakamoto