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Sem-teto pressionam e governo Temer recua do recuo

Leonardo Sakamoto

02/06/2016 18h06

Após militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ocuparem o saguão do prédio do escritório da Presidência da República, nesta quarta (1), na avenida Paulista, em São Paulo, o Ministério das Cidades anunciou que voltará a contratar unidades habitacionais pelo Programa Minha Casa, Minha Vida Entidades.

O governo do presidente interino revoga dessa forma, a decisão que ele próprio havia revogado anteriormente ao desautorizar a contratação de 11.250 residências.

Claro que a administração Michel Temer disse que a mudança já estava decidida antes, independentemente da manifestação. O que foi confirmado prontamente pelo Coelho da Páscoa, por Papai Noel e, é claro, por Tyrion Lannister.

No Minha Casa, Minha Vida Entidades, os movimentos sociais ligados à habitação recebem os recursos e cuidam da construção dos imóveis. Defendem quem conseguem produzir mais e melhor unidades em comparação com as empreiteiras.

A Polícia Militar soltou bombas de som e de estilhaços ("efeito moral" sangra…) e gás de pimenta e distribuiu borrachada. Uma resposta equilibrada e condizente, que se espera de uma corporação treinada para lidar com manifestações, a um rojão que foi disparado para o alto por uma pessoa no protesto. Manifestantes, que saíram machucados, fizeram exame de corpo de delito, segundo o movimento.

"Quando o povo se organiza e vai à luta, os governos são obrigados a recuar no ataque aos direitos sociais. Principalmente um governo sem legitimidade política como esse." De acordo com Guilherme Boulos, coordenador do MTST, o que ocorreu nessa mobilização é uma amostra do poder que tem a organização e a luta popular. "Tratar demanda social com cassetete e com bomba só joga lenha na fogueira."

Resistência significa utilizar os meios possíveis e ao alcance de cada um para demonstrar sua insatisfação e defender os seus direitos. Empresários resistem gastando dinheiro em suas causas, travando rodovias com tratores e caminhões e inflando patos. Governo e oposição, usando a máquina pública e a paralisação do país em proveito próprio. Tudo isso é visto como sinais de uma república saudável.

Mas quando mulheres, estudantes, trabalhadores, movimentos sociais, populações tradicionais, intelectuais e artistas prometem resistência, cruzando os braços em greves e ocupando ruas, avenidas e outros espaços, demandando direitos ou defendendo a democracia, a ação vira caso de polícia.

Se houve melhora na maneira como esse país trata os mais humildes, isso se deve à sua resistência, ou seja, sua mobilização, pressão e luta e não a bondades de supostos iluminados ou da esmola das classes mais abastadas.

Como já disse aqui antes, São Paulo não são apenas os edifícios frios da avenida Paulista.

São Paulo também é um rapaz que nasce, negro e pobre, no extremo da periferia e, apesar de todas as probabilidades contrárias, chega à fase adulta. É a vendedora ambulante que sai de casa às 4h30 todos os dias e só volta tarde da noite, mas ainda arranja tempo para ser pai e mãe. Todos eles sem ter um teto decente onde morar.

Quando essa periferia ocupa essa avenida Paulista, aí sim, temos uma São Paulo completa – com suas tripas expostas, suas contradições escancaradas e suas demandas postas à mesa após desidratada toda a paciência.

Talvez seja essa razão de tanto medo de quem mora do lado de dentro do castelo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.