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Dobradinha Temer-Empresários: O fim da Lava Jato e do seu emprego

Leonardo Sakamoto

26/06/2016 10h35

Que o governo interino de Michel Temer defenda publicamente que a Lava Jato precisa ter um ponto final, isso é compreensível. Afinal de contas, se a operação continuar, o fisiológico PMDB faz pufff! e desintegra no ar. Em outras palavras, é questão de sobrevivência.

O mais divertido tem sido observar que setores do empresariado nacional trocaram o usual filtro solar fator 60 (para peles brancas e sensíveis, claro) por óleo de peroba a fim de bater bumbo junto com o governo interino. Dizem que se faz necessário informar qual a data limite da operação para que a economia volte a crescer.

O que acontece com uma infecção em que o tratamento com antibióticos é suspenso antes da hora? A parte mais forte e resistente da bodega permanece e infesta tudo de novo. Mas a questão para o empresariado-peroba não é a depuração do sistema político e econômico – caso contrário defenderiam que PT, PMDB, PSDB, DEM e boa parte dos partidos fosse escrutinado de cima a baixo e os comprovadamente culpados por desvios públicos – que aumentam o custo Brasil – pagassem por isso.

Não, o empresariado-peroba ajudou a colocar Michel lá e quer que Michel fique porque Michel prometeu que fará o "jogo sujo".

O que inclui aprovar as leis que ampliam a possibilidade de terceirização da força de trabalho e que garantem que a negociação entre empresa e trabalhadores passe por cima da CLT. Mas também a imposição de tetos para investimentos em educação e saúde pública, a redução do combate ao trabalho escravo e infantil, a revisão das leis de licenciamento ambiental e, como esquecer, uma reforma previdenciária que mexerá com direitos adquiridos dos mais pobres para preservar o bolso dos mais ricos. Isso sem contar a demanda por deixar as grandes empresas sonegadoras em paz.

Ou seja, tudo o que é visto do lado de cima como entrave ao desenvolvimento e, do lado de baixo, como mínimo alívio para uma vida de merda.

Afinal de contas, por mais que os governos eleitos do PSDB e do PT tenham distribuído bananas aos seus eleitores e adotado medidas que eles não haviam informado em suas campanhas eleitorais, não teriam coragem de impor a tungada nos direitos dos trabalhadores que espreguiça no horizonte. Apenas um governo que não foi eleito e que não poderá ser reeleito – e, portanto, não possui compromissos com nada além de si mesmo e patos amarelos – teria essa possibilidade.

O que isso significa? Que parte do empresariado-peroba não estava nem aí para o combate à corrupção e queria mesmo alguém para fazer o que ninguém faria.

Em outra circunstância, uma greve geral começaria a ser desenhada para evitar esses retrocessos. Mas o rolo compressor está sendo ligado no Congresso Nacional e o que se ouve é que não há força de mobilização para tanto. Bem, garanto que a situação no final da ditadura era bem pior e aconteceu o que aconteceu.

"Nenhum direito a menos" é um belo bordão para fazer parte de inflamados discursos da esquerda acadêmica, para enfeitar cartolinas em esparsas manifestações de rua ou produzir memes que viralizam triunfantes nas redes sociais. A gente, da classe média intelectualizada, pira nessas coisas.

Enquanto isso, a classe trabalhadora segue assistindo a tudo bestializada sem saber ao certo o que está acontecendo porque suas fontes principais de informação não deixam isso claro ou não pintam o quadro completo e poucos são os movimentos sociais que têm feito um trabalho de base para reconstrução. Porque isso significaria reconhecer os profundos erros dos grupos que se autointitularam de esquerda para, a partir daí, avançar. Dessa forma, o povão só se dará conta que foi atingido por uma bala quando já estiver sangrando no chão.

Como já acontece, mas não de forma metafórica, com os jovens negros pobres da periferia sem que percamos um segundo de sono por isso.

E ainda vai ter Olimpíada.

Vai, Brasil!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.