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Trump: O Brasil tem a chance de aprender com essa tragédia nos EUA

Leonardo Sakamoto

29/07/2016 09h26

Donald Trump, agora candidato repulicano à Presidência dos Estados Unidos (Gisuis…), fala as aberrações que fala porque sabe que muita gente irá aplaudi-lo por isso. Em verdade, ocupou o papel de porta-voz de um grupo grande de pessoas, dando espaço a setores insatisfeitos que se sentem excluídos e estão fora do radar captado pela mídia.

Sabe conversar com um público que, de repente, se viu acuado diante do discurso de que muito do que lhes foi ensinado no que diz respeito aos seus direitos, deveres e limites estava errado. Acreditam que o mundo passou por uma revisão recentemente e, agora, ações comuns do seu cotidiano são consideradas preconceito e deveriam ser motivo de vergonha. Ou seja, a visão de mundo sobre a qual fundamentaram sua vida agora, sob um novo paradigma, precisa ser revista para acomodar outros atores antes excluídos. Mas nem todos aceitam ou conseguem isso facilmente.

O problema é que a sociedade civil e a mídia não foram competentes de trazer esse público para a arena de discussão e construir com eles o conhecimento de que a inclusão social e o respeito à diferença não são coisas que tolhem a liberdade mas, pelo contrário, reafirmam-na.

Ao mesmo tempo, Trumps da vida contam com recursos para se fazerem conhecidos e ventilarem suas ideias. Possuem o aparente frescor da novidade em suas figuras, outsiders do jogo político partidário tradicional, apesar do discurso que empunham defender a permanência do mundo de sempre. Não precisam ganhar nada, a bem da verdade. São azarões e, portanto, franco-atiradores para fazerem o que for preciso para ganhar.

Já havia trazido essa reflexão num post aqui antes, mas resolvi retoma-la, com Trump oficializado como candidato e enfrentando a democrata Hillary Clinton e não Bernie Sanders – que, na minha opinião, teria sido o melhor nome para derrotá-lo. Em parte pelas posições políticas e o significado de sua candidatura, mas também por Bernie ser fruto da mesma matriz que gerou Trump, podendo se apropriar da mesma narrativa de renovação frente ao sistema político.

Parte da elite intelectual seja de esquerda, de centro e de direita, é vítima da arrogância de sua análise de conjuntura enviesada. Em quantas conversas nós, jornalistas, não rimos de Trump, acreditando que a sua campanha seria fogo de palha? Não raro, tratamos como piada ou folclore figuras que sabem muito bem o que fazer e que entendem como parcelas do eleitorado estão divididas, utilizando essa percepção a seu favor.

Por conta da extrema polarização, algumas figuras tornam-se importantes para um grupo significativo que os vê como "aliado" diante de um "inimigo" comum. Uma simplificação perigosa que tende a cobrar seu preço no futuro, quando constata-se – tarde demais – que a serpente que brotou do ovo morde a mão daquele que o chocou com carinho.

Isso vale para o Brasil, claro. Mas vai demorar para o pessoal por aqui perceber como alimentou corvos que comerão seus olhos.

A democracia representativa é cheia de defeitos mas, com seus freios e contrapesos, ainda é melhor do que a tirania que pode ser imposta por pessoas que cheguem ao poder desprezando os direitos fundamentais. Porque a garantia do pacote mínimo de dignidade a minorias de direitos não deve ser feita com base em consultas de marqueteiros junto à opinião pública. Pois a massa, como disse Oscar Wilde, pode ser tão violenta quanto os piores ditadores e fundamentalistas religiosos.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a polarização política burra e a violência contra as minorias segue bem, obrigado. Em ambos os países, a polícia mata mais negros do que brancos, as bolhas sociais físicas e digitais se multiplicam, garantindo que você não conviva com o terrível contraditório, a questão ambiental é preocupação da boca para fora dos governantes.

Enquanto isso, o conhecimento superficial, suficiente para uma conversa de bar, segue sendo o mais difundido. Se o debate público fosse mais qualificado, a pessoa se sentiria motivada a ler determinados textos até para não ser humilhada coletivamente no Facebook ou no Twitter ao expor argumentos ruins, preconceituosos e superficiais.

O que temos, contudo, é que o discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido. Em um debate qualificado quem usa esses argumentos toscos nem seria ouvido. Contudo, fazem sucesso na rede. Dão respostas fáceis e rápidas. Ajudam a escolher presidentes.

Cabe à mídia e a pessoas que fazem parte do debate público a ajudar a qualificar o debate o melhor possível e não esperar para a iminência de uma catástrofe para fazer isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.