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Temer deveria explicar aos trabalhadores braçais que eles vão dançar

Leonardo Sakamoto

24/09/2016 12h51

Cortador de cana
Servente de pedreiro
Carvoeiro
Roçador de juquira
Operário de frigorífico
Colhedor de fumo
Mineiros
Segurança particular
Gari
Profissional do sexo
Motoboy
Pescador comercial
Trabalhadora empregada doméstica
Caminhoneiro
Costureira
E, sem se esquecer, professor.

Michel Temer quer convocar movimentos que ajudaram no processo de impeachment para a tornar as reformas trabalhista e previdenciária mais palatáveis para a população. Em outras palavras, dourar a pílula da imposição dos 65 anos como idade mínima para aposentadoria e enfiá-la goela abaixo da xepa sem discussão.

Seria mais honesto e corajoso se Michel falasse diretamente, olho no olho, dos trabalhadores braçais que serão os mais afetados pela mudança e explicar que terão que suar mais a camisa em nome da economia e da manutenção da taxa de lucro alheia.

Só não sei qual seria a reação das pessoas que começaram a trabalhar mais cedo que a média da população, muitas vezes como crianças, ao perceberem que terão que ceder ainda mais sua dignidade em nome de um país que está – a bem da verdade – cagando e andando para eles.

Que só lembra de sua existência quando, no limite, entram em greve, por exemplo, colocando em risco o fornecimento de produtos ou de serviços essenciais. E, nesse momento, parte desse país os chama de vagabundos e imprestáveis, como se os empregos mal-remunerados e sem direitos que eles têm fossem um favor da sociedade e não uma mais forma dela explorá-los.

O governo federal está tão afoito para alterar as regras da Previdência que está ignorando o elemento mais importante em todo esse processo: um diálogo que reúne todos os interessados – e não apenas meia dúzia de instituições que dizem falar pelos trabalhadores do país – para encontrar saídas. O país envelheceu, é necessário rediscutir a Previdência. Mas não dessa forma autoritária e atabalhoada.

Por exemplo, é justo que a regra dos 65 anos seja aplicada para as categorias acima citadas, incluindo trabalhadores que entregam o limite de sua força física e desgastam seus corpos, reduzindo seu tempo de vida mais do que outras categorias? Os cortadores de cana, por exemplo, chegam a ter uma vida útil menor do que parte dos escravos no período final da escravidão oficial do século 19 devido ao massacre a que são impostos seus corpos, com mais de 12 toneladas cortadas diariamente.

Por que não propomos a manutenção da aposentadoria atual para essas categorias e subimos para 75 anos a idade mínima para parte dos economistas, advogados e, principalmente políticos? Afinal de contas, o que são 65 anos para nós, que trabalhamos em atividades que nos exigem muito mais intelectualmente?

Topo também para jornalistas, pois, a despeito do fato de que nossa profissão é uma das mais massacrantes, é também uma das quais em que mais encontramos pessoas defendendo de forma acrítica o sistema ao mesmo tempo que são sugadas por ele.

A verdade é que muitos de nós jornalistas, ao tratarmos da Previdência, defendendo a aposentadoria aos 65 para todos e todas sem enxergar que a vida real é feita de nuances e de pessoas, ao invés de estatísticas secas e planilhas, nos despismos da empatia para com o semelhante e nos tornamos escritores de uma ficção científica que não saberemos o final.

Até porque, considerando o estresse que nos mata antes da hora em nossa profissão, muitos de nós nem chegaremos a essa idade para usufruir do INSS.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.