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Vencedor do Jabuti fala sobre a resistência à onda conservadora no país

Leonardo Sakamoto

2022-11-20T16:19:10

22/11/2016 19h10

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Aos 35 anos, Julián Fuks é um dos principais escritores brasileiros, sendo publicado dentro e fora do país. Seu último livro – A Resistência – acaba de ganhar o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, na categoria Romance. No livro, conta a história da busca pelo passado de um irmão adotado e, nesse processo, reencontra a história da própria família – que teve que fugir da ditadura militar na Argentina, exilando-se no Brasil – e de nosso tempo.

Autor de outros livros como Histórias de Literatura e Cegueira e Procura do Romance, Julián bateu um papo com este blog sobre o novo livro, mas também sobre a conjuntura política do país. E, é claro, sobre resistência. Assista à entrevista no vídeo e veja alguns dos assuntos abordados, abaixo.

Resistência, insubordinação e democracia
O livro não é uma visita ao passado para remoer o que ele foi e buscar factualmente o que aconteceu, pelo contrário. Conta a história do meu irmão, adotado em 1976 na Argentina, conta a história dos meus pais, que eram militantes contra a ditadura militar, mas todas essas histórias surgem como discursos sobre o passado, não como algo que se pode de fato acessar. Essas coisas existem como pensamentos e reflexões sobre aquilo que foi o passado, que na prática são revisitados em função da situação presente.

Uma das coisas que está sempre em questão para o narrador do livro assemelhado a mim é a possibilidade de uma militância semelhante àquela que os pais tiveram no contexto da ditadura militar, da pertinência ainda desse tipo de luta, de resistência – palavra levada ao título e que é chave. Acho que, mesmo depois de eu ter publicado, o livro ganhou muita atualidade porque a gente sofreu um golpe no Brasil – eu chamo assim e tanta gente chama assim. No mínimo foi uma ruptura terminante em uma institucionalidade democrática.

E vem à tona a questão: o que é possível fazer diante desse cenário? Como ainda resistir? Que tipo de insubordinação a um governo que se considera ilegítimo é possível? Que tipo de atitude é possível em um contexto como esse?

É claro que sou totalmente contrário a uma disposição belicista, a uma luta violenta. Violência para mim nunca se mostrou resposta para nada.

Mas que tipo de tentativa de resistência àquilo que vem e nos atropela como uma onda retrógrada e conservadora?

Os inimigos do passado não são heróis
Acreditamos que havia sido superado esse ímpeto autoritário de uma grande parte da população, essa indiferença às medidas democráticas. Mas, na verdade, isso estava recalcado, abafado, por outro momento político.

O movimento radical que invade o Congresso e quer algo diferente pede a volta dos militares. Vivemos um momento quase surreal. O mais retrógrado que já vi não é retrógrado o bastante para uma quantidade grande de pessoas. É muito assustador e ressalta a necessidade de resistência. É preciso resistir a isso e a esse conflito de discursos. É necessário desconstruir essa narrativa que transforma os inimigos do passado em heróis.

Ensaios conservadores editados como objetos pop
É evidente que a guinada conservadora se dá em múltiplas instâncias. Não apenas na dimensão Congresso ou na dimensão das manifestações de rua, mas é algo que se gesta de diversas outras maneiras, entre elas a do mercado editorial, no campo da literatura, no campo do ensaio.

Ensaios conservadores, defendendo uma política reacionária, passaram a ser editados como objetos pop, como objetos que tinham a pretensão de se tornarem best sellers e se tornaram. E isso mudou um pouco o registro e a recepção dessas linguagens. Os discursos conservadores ganharam muito mais eficácia e eficiência para transmitir a uma quantidade maior de pessoas aquelas ideias. E não dá para saber o que é causa e consequência. Em que medida, esses best sellers conservadores são consequência do momento politico em que vivemos e em que medida eles provocam este momento. E certamente eles são as duas coisas ao mesmo tempo.

De que lado está o escritor
Não defendo um tipo de literatura que se faça politicamente panfletária ou dogmática. Meu interesse é muito mais uma compreensão sensível de como a política incide no cotidiano das pessoas comuns. Como ela atravessa a vida cotidiana de todo mundo. A partir do feminismo é que surge essa noção, em que o pessoal se faz politico, uma história individual é necessariamente politica. E no contexto brasileiro, hoje, dá para inverter isso e dizer que o político é pessoal, o que está acontecendo na dimensão política fere muito diretamente, abala os ânimos.

Acho importante que o escritor não seja indiferente ao mundo em que ele vive, que não se mantenha fechado em um mundo particular à parte, alheio ao que acontece ao redor. Em um contexto de acirramento politico e de retrocesso social brutal, com o campo da cultura sendo afetado diretamente, é inevitável que o escritor se deixe mover também por essas ocorrências. A literatura, em um contexto como esse, se faz mais urgente na tentativa de responder a essa efervescência toda.

Claro que a literatura não pode se assemelhar plenamente ao jornalismo. Ela tem que ter um tipo de depuração diferente, de tempo diferente, de reflexão, de delicadeza diferente. Mas é inevitável que ela se faça mais um discurso do que está acontecendo. Não acho necessário que todo escritor escreva sobre isso, mas acho perfeitamente natural escritores que tentam apreender na sua própria literatura algo desse momento que temos vivido. Quero me inserir nesse grupo.

As ocupações de estudantes como esperança
Politicamente poderíamos observar o cenário brasileiro de forma muito pessimista, diante do Congresso e das últimas eleições. Mas, ao mesmo tempo, vemos uma série de movimentos acontecendo pelo Brasil, das ocupações nos colégios e universidades. Tenho trabalhado para o meu próximo livro em um movimento de ocupação por moradia e você vê certa efervescência. Mostra que algo de novo e de combativo esteja surgindo e já não fica à sombra dos partidos tradicionais, mas torna-se um ator politico de intervenção muito mais direta.

O tipo de mobilização que se vê nas escolas é de um vigor, de uma força e de uma potência que nunca vi na minha vida.

Ao mesmo tempo é preciso tomar cuidado porque são mentes em formação e a gente sabe que a configuração midiática no Brasil pode acabar levando a uma visão empobrecida do que é a esquerda, uma visão que condena o socialismo de partida, sem refletir seus erros e acertos históricos ou seus princípios interessantes.

É preciso que esses jovens saibam enxergar a complexidade que os processos políticos acabam tendo e se posicionem com muita independência. Que consigam observar e aprender a partir do que está acontecendo e que tenham uma posição autentica, pessoal e sincera e não se rendendo a manipulações alheias e também não exercendo essas manipulações.

Menina encara policial no Chile em protesto no dia 11 de setembro, aniversário do golpe militar. Foto: Carlos Vera/Reuters

Menina encara policial no Chile em protesto no dia 11 de setembro, aniversário do golpe militar. Foto: Carlos Vera/Reuters

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.